Pela Universidade: os professores que não gostam de ensinar

Gabriel-Leite-Mota_web.pngVão distantes os meus tempos de estudante universitário, mas recordo que, já nesses anos 80 do século passado, se notava a tendência que a actual mania das avaliações e dos rankings acentuou: os professores universitários eram valorizados pela investigação que faziam e pelos artigos que publicavam e não pela qualidade do seu trabalho pedagógico. E isto levava a maioria a desinvestir na preparação de boas aulas e de materiais pedagógicos, especialmente quando se encarregavam de leccionar cadeiras que não estavam directamente relacionadas com a sua área de especialização.

Num artigo de opinião que se saúda, desde logo pela raridade que é vermos académicos a discutir publicamente a carreira universitária – normalmente preferem opinar sobre os problemas dos professores “inferiores” – Gabriel Leite Mota expõe clara e frontalmente um problema que vem de longe:

Quando se abrem concursos (de professor auxiliar a catedrático) em que a componente científica tem ponderações de 60%, 70% ou até 80%, e os critérios de exclusão por falta de mérito absoluto são o número de publicações e nunca as capacidades docentes, está a dar-se um sinal claro: as instituições querem investigadores, não docentes.

Acontece que as instituições de ensino superior precisam, em primeiro lugar, de docentes: a sua principal função é formar alunos. Não esquecer que os docentes do ensino superior em Portugal não necessitam de qualquer formação pedagógica para ensinar (nem têm qualquer programa tutorial ou estágio). O pressuposto por detrás dessa não exigência é obtuso: os alunos do superior não precisam de pedagogia porque já são suficientemente maduros para aprenderem por si.

Quem já tiver tido experiência no ensino superior sabe bem que essa tal maturidade não é verdadeira. Para além disso, quem tiver sido aluno numa instituição de ensino superior em Portugal sabe outra coisa: abundam os maus professores. Não será porque não se teve em conta as suas competências pedagógicas aquando da contratação, nem se forneceram as formações adequadas ao desenvolvimento das mesmas?

Como é evidente, se as universidades precisam de recrutar os melhores investigadores, não é possível garantir que estes reúnem as melhores qualidades para serem professores. Já os bons professores, mesmo que sejam igualmente bons na investigação, são em geral menos produtivos, pois acabam por despender mais tempo com as actividades lectivas. Para este imbróglio difícil de resolver, o autor encontra no entanto uma solução a contento:

Defendo, por tudo isto, que sejam criadas carreiras claramente diferenciadas: investigadores, que se ocupariam da produção científica, integrados nos centros de investigação e a quem competiria dar apenas poucas aulas, em formações avançadas (principalmente de terceiro ciclo) e fazer orientações de mestrados e doutoramentos; os docentes dariam mais aulas (principalmente primeiro e segundo ciclos), fariam acompanhamentos tutoriais aos alunos, receberiam formação contínua ao nível da pedagogia e teriam que inovar nos métodos de ensino e nos programa leccionados. Ambas as carreiras teriam a mesma dignidade, o mesmo vencimento, a mesma rapidez de progressão e o mesmo poder institucional.

Esta especialização laboral – todo o economista e gestor sabem isto – levaria a ganhos de produtividade que se consubstanciariam em ganhos de performance para as instituições de ensino superior: mais investigação de qualidade, mais alunos bem-ensinados e satisfeitos, o que se materializaria em mais receita (mais alunos inscritos, mais financiamento para a investigação). O que agora se faz, contratar professores para serem investigadores forçados a dar aulas, é uma perversidade idiota.

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O maior insulto aos professores

passos-coelho.jpgO maior insulto aos professores que ouvi nos últimos tempos foi a explicação de Pedro Passos Coelho, um recém-desempregado da política, acerca do que irá fazer nos próximos tempos.

No domingo, Pedro Passos Coelho deixa de ser líder do PSD. A pasta será entregue a Rui Rio, após quase oito anos a comandar o partido, dos quais quatro a governar o País. Para já, o líder cessante social-democrata irá dedicar-se à vida académica. O líder cessante tenciona dar aulas em várias universidades, apurou o DN.

Já nem vou focar-me no fiasco do homem enquanto governante, nas sucessivas inconstitucionalidades dos orçamentos de Estado do seu governo, nas previsões falhadas ou nas aldrabices tecnofórmicas. Basta-me olhar para a mediocridade do seu percurso académico e questionar como é que um país que se dá ao luxo de exportar doutorados ou de os manter no desemprego tem universidades com lugares à disposição de alguém tão desqualificado como Passos Coelho.

Quando um medíocre deste calibre anuncia desta forma o recurso à docência, e logo em “várias universidades”, isto só pode ser visto como uma demonstração de desprezo pela profissão de professor, tida como uma espécie de biscate que qualquer um pode exercer enquanto espera por “desafios” mais aliciantes. O homem que em tempos mandou os professores desempregados emigrar não desdenha agora, afinal, um lugarzito no ensino. Desde que seja coisa pouco cansativa, presume-se, e numa universidade…

E se isto deslustra todos os professores, ainda mais ofensivo será para quem faz um trabalho sério e exigente na docência universitária. Que não poderá deixar de questionar: então deixam entrar toda a gente?…

Um relatório encomendado

a-schleicher.JPGQue dizer de um relatório da OCDE que tira conclusões e faz propostas que, além de implicarem decisões políticas, e não técnicas, não têm sustentação na realidade? O SNESUP, perante a recomendação do alargamento do regime fundacional – a transformação das universidades públicas em fundações –  feita pela OCDE, não hesita em denunciar:

“Uma encomenda política.” É assim que o presidente do Sindicato Nacional do Ensino Superior (Snesup), Gonçalo Velho, classifica a avaliação do sistema de ensino superior e ciência feito pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), que foi esta sexta-feira apresentado.

Em causa está o facto de a versão apresentada do relatório da OCDE propor um alargamento do regime fundacional, que permite às universidades e institutos politécnicos tornarem-se fundações públicas de direito privado. A solução estava fora das versões prévias do documento que eram do conhecimento do Snesup. “Só a intervenção do Governo pode explicar esta mudança”, acusa o presidente daquele sindicato.

Na versão que foi apresentada esta sexta-feira, a OCDE defende a “implementação completa” do estatuto fundacional como forma de desenvolver a autonomia das instituições do ensino superior e aproximar as instituições das empresas e da comunidade.

A passagem de universidades e outras escolas superiores ao regime fundacional tem sido apresentada como vantajosa para estas instituições, dotando-as de maior flexibilidade de gestão e maior facilidade na obtenção de financiamentos privados. Só que isto, na prática, não se verifica. De pouco serve evocar velhos mitos liberais quando a realidade se encarrega, sistematicamente, de os contrariar. E a verdade é que a tradição do liberalismo à portuguesa é a do Estado dar dinheiro a ganhar aos privados que se encostam a ele, não é a de os privados assumirem compromissos e responsabilidades perante a sociedade.

“A OCDE repete um mantra”, acusa Gonçalo Velho, para quem os últimos dez anos mostram que o financiamento privado não chega ao ensino superior, ao contrário do que previa o regime fundacional. “Não é a crise a explicá-lo, ao contrário do que é dito no relatório”, defende.

A última aventura de Lurdes Rodrigues

mlr.JPGA antiga Ministra da Educação Maria de Lurdes Rodrigues é candidata a Reitora do ISCTE— Instituto Universitário de Lisboa. A professora universitária quer ser a primeira mulher a dirigir aquela instituição de ensino superior, concorrendo a um mandato de cinco anos. Não está, no entanto, sozinha na corrida, em que também entraram Nuno Guimarães, Gustavo Cardoso e um professor estrangeiro.

A candidatura de Maria de Lurdes Rodrigues foi tornada pública pela própria numa publicação na sua página da rede social Facebook, onde sublinha que “nunca o ISCTE-IUL foi presidido por mulheres”, além de, nos últimos 12 anos, não ter tido “nenhuma mulher” como vice-reitora ou Presidente do Conselho Científico, do Conselho de Curadores ou do Conselho Geral. “Procuro pois, também, com esta candidatura, dar uma oportunidade à promoção da igualdade de género”, sublinha.

Maria de Lurdes Rodrigues foi a sinistra “ministra da avaliação” do primeiro governo de Sócrates, a socióloga das profissões que quis mudar de alto a baixo a profissão docente, num exercício de engenharia social que haveria de deixar marcas profundas, ainda hoje visíveis, entre os professores. Os quatro anos em que permaneceu à frente do Ministério da Educação acentuaram o chamado mal-estar docente e levaram a revolta dos professores e educadores a um estado nunca visto, que haveria de culminar, em 2008, nas maiores manifestações de sempre promovidas por uma única classe profissional.

Apesar da hostilidade em relação aos professores, MLR executou um programa político em grande medida consensual aos três partidos do arco governativo: tratava-se acima de tudo de embaratecer e domesticar uma classe que tinha tido até então apreciáveis níveis de autonomia profissional, que gozava de relativa consideração e prestígio social e que possuía um estatuto remuneratório que, não sendo propriamente generoso, pesava significativamente na massa salarial da função pública.

Após a passagem pelo governo, bem sucedida do ponto de vista do centrão governativo, a ex-ministra foi recompensada com a presidência da FLAD. Mas a benesse não durou para sempre, e MLR, cumprida a habitual travessia do deserto imposta a políticos desgastados e regressada à carreira universitária, volta a sentir-se talhada para altos voos. Embora a avaliação do seu desempenho profissional recente na instituição esteja longe de satisfatória, isso não parece ser impedimento para a candidatura ao mais alto cargo do ISCTE.

A escolha do novo reitor ocorrerá no dia 9 de Fevereiro, precedida de audição dos vários candidatos, e será feita pelos representantes dos professores, alunos e funcionários da instituição e da sociedade civil. Entre Lurdes Rodrigues e os outros três candidatos, venha o Conselho Geral do ISCTE e escolha.

 

Lurdes Rodrigues chumba na avaliação

milu-iscte.jpgA avaliação de Maria de Lurdes Rodrigues, enquanto docente do ISCTE, no período referente a 2014/16, foi insatisfatória. A classificação de Inadequado resultou de a ex-ministra não ter submetido atempadamente, na plataforma informática, os dados relevantes sobre o seu trabalho científico e pedagógico, de forma a poder ser avaliada.

Quando recordamos a guerra que Lurdes Rodrigues moveu aos professores do ensino não superior, tentando impor-lhes um modelo de avaliação injusto e burocrático, não podemos deixar de sorrir agora, perante as alegações e desculpas que apresenta quando o que está em causa já não é a avaliação dos outros, mas a dela própria:

“Não preenchi a plataforma por problemas de saúde incapacitantes de que os responsáveis pela instituição não quiseram tomar conhecimento”, esclarece. “Estou convencida de que quem desenhou aquelas plataformas, colocando nos docentes o ónus do seu preenchimento, não pensou no tempo de trabalho despendido, nas dificuldades que o preenchimento suscita, nem nas dificuldades decorrentes de incapacidade física de que alguns docentes possam, eventualmente, sofrer”, critica na exposição que enviou ao CCADD e ao conselho científico.

Quem se recorda das fichas, dos registos, das evidências, dos descritores, das quotas e de toda a restante burocracia kafkiana que enquanto ministra mandou que fosse produzida? Pois agora os tempos e as circunstâncias são outros, e…

Maria de Lurdes Rodrigues defende que a avaliação não pode transformar-se num processo burocrático e administrativo e que o papel do conselho científico não deveria resumir-se “apenas à validação de resultados”.

Aparentemente conformada com a má avaliação, que já se encontra validada, a professora de Sociologia diz que irá agora pugnar por avaliações mais justas no futuro. Ou, nas suas palavras, para que o “modelo de avaliação continue a ser melhorado”.

A notícia pormenorizada é exclusiva do Expresso e não se encontra, no momento em que escrevo estas linhas, disponível online, mas pode ser consultada aqui. Quanto ao boneco que ilustra o post, tem a inspiração e o traço inconfundíveis do Antero Valério.

Pensar fora da caixa – II

bebe-doutorContinuemos a falar claro, a propósito do acesso ao ensino superior, sobre mais duas ou três coisas de que habitualmente não se fala muito e que muitos fazem por desentender.

Com uma natalidade que em Portugal ronda actualmente os 90 mil bebés por ano e a entrada prevista, só este ano, de 73 mil caloiros nas universidades e politécnicos – número oficial, que os reitores consideram ainda insuficiente, e querem aumentar – a falta de vagas será, cada vez mais, uma falsa questão.

Complicado será, com o quadro recessivo da natalidade, arranjarem os alunos pretendidos, sendo óbvio que não se poderão fazer esquisitos com o pedigree, em matéria de exames e de conhecimentos gerais, dos futuros estudantes.

De facto, o que complica a distribuição dos alunos pelas vagas existentes é outra coisa. Depois de décadas de louvável investimento público em universidades e politécnicos espalhados pelo país, tem-se andado, a coberto da moda importada dos rankings, a criar nos estudantes a ideia de que o seu curso só terá valor se for feito na universidade xpto. Isto faz com que certos cursos e instituições tenham uma procura que supera largamente a capacidade de oferta, enquanto cursos idênticos, de qualidade idêntica ou até, porventura, superior em alguns aspectos, deixam vagas por preencher.

Ora esta ideia retrógrada, de que as pessoas valem, não pelo que são e pelo que fazem, mas pelo nome da instituição que lhes passou o diploma, está a fazer de novo o seu caminho entre nós, após a grande vaga democratizadora do acesso à Educação dos anos pós-25 de Abril, e num mercado de trabalho que se quereria mais arejado em tempos de globalização. Há um insuportável cheiro a bafio num certo elitismo à portuguesa que se tenta reconstruir com engenheiros que só podem ser do Técnico, arquitectos que para serem bons têm de vir da escola do Porto ou gestores devidamente formados na sculafebizniss da Nova.

E nada tenho contra estas prestigiadas escolas, onde, num caso ou noutro, até estudaram familiares próximos. Mas tenho tudo contra a ideia de que só nestes sítios é que se aprende, ou que qualquer jovem que tenha a desdita de estudar noutra instituição esteja destinado ao fracasso profissional. Como se o nosso futuro não fosse feito por cada um de nós, ou a qualidade das universidades e politécnicos não fosse acima de tudo construída por quem ali estuda e trabalha todos os dias.

 

A Universidade e os seus problemas

torre-uc.jpgO arranque do ano lectivo no ensino superior tem sido pretexto para que se tenha escrito e falado mais, por estes dias, sobre os problemas existentes num subsector da Educação que prefere tratar dos seus assuntos portas adentro, em vez de os discutir, como é habitual quando se fala do básico ou do secundário, na praça pública.

Ou não continuasse a ser a endogamia um dos traços marcantes do corpo docente das universidades, que continuam a recrutar os seus professores de carreira quase exclusivamente entre os que trabalham e fizeram o seu percurso formativo na instituição. Apesar de aos mais jovens se recomendar a mobilidade e as experiências internacionais, na hora de contratar, e mesmo quando se abrem concursos internacionais, a preferência vai quase sempre para “os da casa”.

Embora o ministro da tutela queira resolver a situação, não por via legislativa, mas fomentando o que chama “autonomia responsável”, percebe-se onde está o verdadeiro problema: a maioria das universidades e escolas superiores debate-se com falta de recursos, resultado de um subfinanciamento crónico, e embora entendam a necessidade de diversificar o recrutamento, não querem mandar embora docentes e investigadores que há muitos anos trabalham nessas instituições. É esta a principal razão do favorecimento destes últimos nos concursos, com critérios por vezes feitos à medida dos candidatos.

É também o subfinanciamento que estará na origem da recente polémica que opõe o reitor da Universidade de Lisboa ao Sindicato Nacional do Ensino Superior, a propósito do uso que aquele quer fazer, de verbas destinadas à investigação científica, para a abertura de concursos e o pagamento de salários a docentes universitários. Com um argumento de peso:

Acho que temos um problema com a carreira de investigação nas universidades portuguesas. Eu recomendaria ao Governo que permitisse aos dirigentes universitários decidir se as pessoas que vão ser contratadas entram na carreira docente ou na carreira de investigação. As universidades precisam é de gente na carreira docente, porque perdemos imensos professores. Os investigadores não são obrigados a dar aulas e no máximo podem dar quatro horas de aulas por semana e a universidade não é sustentável nessa situação.

Ou seja, há linhas de financiamento para a investigação científica que permitem a contratação de investigadores que até aqui eram bolseiros. Mas as universidades precisam de alunos, e estes de professores, que as universidades não conseguem contratar em número suficiente: uma vez mais, o problema da falta de financiamento adequado às necessidades e a tentativa de obter, por portas travessas, o dinheiro que escasseia.

Finalmente, a subida em flecha, nos últimos anos, dos preços dos alojamentos para estudantes, sentida em quase todas as cidades universitárias portuguesas, parece estar subitamente a preocupar os responsáveis, mostrando que, em assuntos que não interferem directamente com as suas carreiras e os seus interesses, a navegação à vista continua a imperar entre os nossos mais ilustres académicos. De facto, ainda há uns meses o reitor da Universidade Nova afirmava, displicente, que a construção de residências universitárias não estava entre as suas prioridades. Pois agora é o seu colega da Universidade de Lisboa que diz:

Temos uma prioridade absoluta que é a construção de novas residências de estudantes. Essa questão já era premente antes do ‘boom’ do imobiliário. Nas antigas universidades que deram origem a esta, não foi construída nenhuma residência universitária desde o 25 de Abril. Houve duas residências construídas no Instituto Superior Técnico, mas com dinheiro de receitas próprias. O número de camas [1400 para quase 50 mil estudantes] não é o adequado.

O que mudou entretanto: o boom turístico na capital e a retoma do sector imobiliário está a fazer disparar os preços dos quartos para estudantes em Lisboa. Um quarto de qualidade média, razoavelmente localizado, dificilmente se encontrará hoje a menos de 300 euros mensais, o que é um valor incomportável para a grande maioria das famílias. E a tendência é para que os preços continuem a subir.

Os reitores compreenderam finalmente que a sua pretensão de colocar todos, ou quase todos os alunos que terminam o secundário, a estudar no ensino superior, implica uma intervenção de fundo na área social, de forma a que o factor económico deixe de ser, como é hoje, a principal causa de exclusão e de desigualdade de oportunidades.

Levou tempo, mas parece que finalmente chegaram lá…