Greve pelo direito à saúde

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Os professores do ensino superior vão estar em greve a partir do dia 12 de Outubro. Mas esta não será uma greve tradicional. O objectivo do pré-aviso entregue esta quinta-feira pelo Sindicato Nacional do Ensino Superior (Snesup) é proteger os docentes que queiram recusar-se a dar aulas caso considerem que não estão reunidas as condições de segurança nas suas salas. É um protesto pelo “direito à saúde”, explica o presidente daquela estrutura sindical.

Nos tempos atípicos que vamos vivendo, deixaram de fazer sentido as grandes manifestações de protesto e as greves prolongadas. Não porque as razões para protestar ou reivindicar tenham desaparecido, mas porque unir esforços para resistir à pandemia se tornou o combate prioritário.

Isto não significa, no entanto, que possamos estar desatentos e sem reacção a tudo o que, a coberto das contingências da pandemia, se tenta impor, sem legitimidade nem escrutínio democrático, como parte de um novo normal. É o que já está a suceder, em larga medida, na Educação, onde se regressou ao trabalho presencial dispensando as regras de segurança sanitária obrigatórias na generalidade dos outros sectores.

Assim, se a greve convocada pelo STOP para o reinício das aulas foi vista como extemporânea, aquela que é agora convocada para o ensino superior parece pertinente: não pretende paralisar as universidades e politécnicos, o que seria na presente conjuntura um objectivo demasiado ambicioso e talvez inútil; mas permite que qualquer professor se recuse a leccionar sempre que entender que não estão garantidas as condições de segurança necessárias.

Sendo eventualmente de ponderar um pré-aviso, em moldes semelhantes, para a educação e ensino não superiores, há algo que, em meu entender, os sindicatos do sector já deveriam ter feito: convocar, a exemplo de anos anteriores, greve ao sobretrabalho por tempo indeterminado.

Já era difícil de aceitar, em anos normais, que a maioria das escolas marcassem reuniões em horários pós-laborais sem a devida compensação aos docentes envolvidos. Menos se justifica, no actual contexto de pandemia, que se insista em convocar reuniões presenciais obrigatórias em horas não marcadas nos horários docentes.

Impor aos professores trabalho extraordinário não remunerado – é disso que se trata cada vez que se convoca uma reunião extra-horário – é, além de grosseira ilegalidade, a demonstração de um profundo desrespeito pelos professores, que não pode ser tolerado. Nem os sindicatos devem admitir pausas numa luta que, iniciada há dois anos, só faz sentido se for levada até ao fim.

O reino da estupidez

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A praxe em Coimbra não vai ser suspensa devido à pandemia de covid-19, mas terá novas regras, como o uso de máscara, distanciamento e proibição de grupos com mais de dez alunos, afirma o Conselho de Veteranos.

Depois de já todas as principais cidades universitárias – Lisboa, Porto, Braga, Aveiro – terem cancelado as actividades praxísticas, o “Conselho de Veteranos”, essa anacrónica instituição que preside à praxe coimbrã, determinou a sua realização.

Uma decisão irresponsável que, em plena pandemia, em nada dignifica a Universidade de Coimbra. Uma instituição secular que, nos dias de hoje, deveria ser capaz de se afirmar de outras formas, que não o triste espectáculo dos caloiros e dos “doutores” a fazer macacadas pelas ruas e praças da cidade.

Em vez de almejar a liderança na inovação científica ou na qualidade pedagógica, a UC prefere remeter-se ao estatuto de universidade regional e disputar, com as universidades privadas e os politécnicos do interior, o campeonato das praxes mais estúpidas, insistentes e degradantes. Uma universidade que parece ter desistido de cativar os melhores alunos, contentando-se em acolher os cábulas e os folgazões.

O reino da estupidez: o epíteto foi posto há mais de duzentos anos a uma academia retrógrada e conservadora, cultivando a mediocridade e avessa a reformas e a mudanças. Assombrosamente, continua actual.

O fim das praxes

praxeA Associação Académica de Lisboa é mais perentória na discussão: “não vai ser possível” reativar as atividades praxísticas no arranque do próximo ano letivo. Já os representantes de Porto e Coimbra dizem que, sem condições de segurança asseguradas, não devem ocorrer.

Ainda não é oficialmente assumido, mas parece estar a preparar-se uma pequena revolução na reabertura das universidades.

O que décadas de persuasão e de protesto dos grupos anti-praxe, das autoridades académicas (embora off the record o discurso possa ser diferente) e até de algumas associações de estudantes não conseguiu – acabar com os rituais humilhantes e estupidificantes da praxe – parece prestes a ser alcançado pelo novo coronavírus.

De facto, mesmo as mentes mais obtusas, que acham que a “integração” se faz através das palhaçadas praxísticas e da transmissão dos valores anacrónicos e reaccionários que lhes estão subjacentes, perceberão que não há condições, em tempo de pandemia, para os contactos de proximidade entre caloiros e “doutores” que caracterizam a praxe.

Uma oportunidade para os doutores da faculdade assumirem as suas responsabilidades e os valores do que devem ser instituições em harmonia com os valores do século XXI. Está mais do que na altura de as universidades e associações de estudantes organizarem programas de verdadeira integração dos novos estudantes na transição para uma nova etapa das suas vidas. Para todos, e não apenas para os que aceitarem os rituais da submissão e da humilhação. 

 Ou o discurso da “inclusão” é só para os professores básicos e secundários?…

A velha escola de negócios

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“O cargo de diretor é exercido em regime de dedicação exclusiva, sem prejuízo dos cargos que exerça por inerência.” A norma consta do artigo 43º do Estatuto da Universidade Nova de Lisboa, mas o diretor da respetiva faculdade de Economia, denominada Nova SBE (School of Business and Economics), o economista Daniel Traça, é desde dezembro de 2018 administrador não executivo do banco Santander, um dos patrocinadores, ou “stakeholders” da escola. Aufere nessa qualidade um salário anual de 143 mil euros.

Isso mesmo está patente no relatório de contas de 2019 deste banco, na página 107, assim como o montante do crédito à habitação que tem contratado com a instituição, de 250 mil euros. Já na página 64 é possível consultar os cargos que detém nesta instituição bancária: aí o nome Daniel Abel Monteiro Palhares Traça consta, com a qualificação de “independente”, como vogal não só do referido conselho de administração como da Comissão de Auditoria e do Comité de Riscos e do Comité de Remunerações, sendo ainda presidente do Comité de Nomeações. Mais difícil de encontrar é a remuneração que o mesmo economista aufere como diretor desta faculdade pública. O DN solicitou a Daniel Traça essa informação, mas até à publicação deste texto este não a forneceu. Um professor catedrático – que Traça é – em exclusividade ganha no máximo 5417,74 euros/mês, ou seja 75 848,36 euros anuais. Se o valor do seu salário como diretor da Nova SBE for dessa ordem de grandeza, corresponde a pouco mais de metade do que recebe no banco.

Agora inventem, para justificar o injustificável, os conselhos de ética, os pareceres vinculativos ou não, as comissões remuneratórias, os regimes de excepção que entenderem.

Não sei se o doutor Traça vale, enquanto administrador “não executivo”, os cerca de 10 mil euros mensais que o banco lhe paga. Mas não é difícil perceber que o seu valor no mercado remuneratório lhe advém, não das qualidades enquanto administrador ou gestor, mas do cargo dirigente que ocupa numa instituição que, por muitas siglas em estrangeiro que invente para si própria, continua a ser um estabelecimento de ensino público. Ilegitimamente colocado ao serviço de patrocinadores privados e dos que aceitam servir-lhes de lacaios.

A transformação das faculdades públicas de Economia em medíocres “escolas de negócios” ao serviço do empresariado do regime e das multinacionais da finança integra-se perfeitamente na estratégia de promoção do capitalismo rentista e parasitário que tem empobrecido a economia nacional, afundada no endividamento, na fuga de capitais e numa sórdida teia de corrupção e tráfico de influências com evidentes cumplicidades nas cúpulas do PS e do PSD. Afinal de contas, uma velha escola de negócios, que atravessou o Estado Novo e se recompôs, com a restauração dos antigos grupos económicos e das velhas manhas empresariais, no actual regime.

O que ganha o país com tanta schoolofbusiness é que é um mistério difícil de entender…

Exame online feito pelo explicador

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A partir de maio, na mesma altura em que as instituições começaram a regressar lentamente ao ritmo do ensino presencial, com aval para reabrir portas às aulas práticas, “não sendo todos os dias, praticamente todos os dias me contactaram para isto”. Sempre por telemóvel, através de uma chamada ou de uma mensagem, inicialmente apenas para estudar o terreno. “Perguntavam se dava explicações, mas quando começava a explicar melhor em que consistia, eles caíam em si e diziam mesmo: ‘Não era bem explicações que queria, mas ter um professor a ajudar-me a resolver o teste na hora’.” Quem o conta é Maxime Ventura, 34 anos, dono de um centro de explicações no centro da cidade do Porto.

[…] “Muitas faculdades estão a fazer os exames online e não custa nada ter alguém ao lado que diga para fazer de uma determinada maneira. Temos um professor que tem recebido uma quantidade de propostas inacreditável”, conta. Trata-se de Hélder Souza, professor universitário, que não tem dúvidas de que o fenómeno esteja a alastrar: “Se aquilo de que tenho conhecimento for uma amostra estatística representativa, então estamos perante um fenómeno de grande escala.”

Como responsável pelo centro, foram já várias as histórias que Leonor teve a oportunidade de ouvir. Uma mãe “muito aflita, porque o filho tinha reprovado, foi muito honesto e fez o que sabia, mas os colegas que tiveram ajuda de explicadores conseguiram passar”. Outra, uma aluna de Direito, que “disse pagar o que fosse preciso” para que fizessem o exame por si.

Há um moderado cepticismo que não consigo evitar quando ouço colegas a afirmar, convencidos, que conseguem avaliar os conhecimentos dos alunos, em regime não presencial, com o mesmo rigor e isenção com que o fariam na sala de aula.

A verdade é que, mesmo no básico e no secundário, abundam os trabalhos copiados ou feitos por terceiros. Na faculdade, onde as exigências são maiores, fazer batota no teste online parece ter-se tornado, para alguns alunos, uma tentação irresistível. Como a notícia do DN irrefutavelmente documenta.

Contudo, embora a dimensão e a gravidade da fraude sejam maiores no caso do ensino universitário, não haverá nenhum nível de ensino que esteja imune ao fenómeno. Haverá algum professor que tenha trabalhado remotamente durante o confinamento e não se tenha surpreendido, uma e outra vez, com as competências e o nível de conhecimentos subitamente revelados por um ou outro aluno?…

Esta fome de boas notas, por parte de alunos que, em circunstâncias normais, não passariam da mediania, e que com o confinamento terão sentido ainda mais dificuldades em estudar e acompanhar as matérias, junta-se à vontade de comer de explicadores que,  em consequência do encerramento dos centros de estudos, perderam a sua principal, e nalguns casos exclusiva, fonte de rendimentos.

Como pano de fundo deste fenómeno, temos a realidade de uma geração inteira de profissionais da Educação que poderiam estar a leccionar nas escolas do país, mas a quem essa oportunidade, para a qual se prepararam, nunca lhes foi proporcionada. Os cortes orçamentais e o desinvestimento no sector, obra de sucessivos governos, tiveram o efeito prático de lhes fechar o acesso à profissão. E se muitos jovens profissionalizados para a docência acabaram por enveredar por outras profissões, houve sempre aqueles que não desistiram de manter a ligação ao ensino, optando pelo trabalho, quase sempre precário e mal pago, das explicações.

Um mundo que é fruto também das insuficiências da escola pública – que rejeita os jovens professores, ao mesmo tempo que alimenta o mercado das explicações de que muitos sobrevivem. Sem com isto querer desculpar as infracções éticas e legais de quem prevarica, noto que estão criadas as condições para que o cliente, que paga, mande muito mais do que deveria…

No ensino superior, ordem para desconfinar

manuel_heitor_small[1]O ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior considerou esta segunda-feira que o ensino “vive da interação entre as pessoas”, afastando a possibilidade de o trabalho à distância substituir o modelo presencial no período pós-Covid-19. […]

Manuel Heitor referiu que algumas instituições de Ensino Superior no Reino Unido e nos Estados Unidos já anunciaram que o modelo de ensino remoto se vai manter no próximo ano letivo, mas ressalvou que estas universidades se posicionam “num mundo próprio” e, por isso, seria ilusório acreditar que o mesmo se poderia aplicar no contexto português.

“Temos é que perceber como é que nos podemos diferenciar no contexto europeu e perceber como é que o Ensino Superior em Portugal pode apresentar também uma estratégia própria, valorizando a presença”, considerou o ministro.

Mantendo o olhar no futuro, Manuel Heitor admitiu ainda que uma das principais lições a retirar da pandemia da Covid-19 é a de que as sociedades têm de “aprender com risco e aprender a conviver com o risco”.

A posição de Manuel Heitor faz sentido. Não há uma tradição de ensino a distância na universidade portuguesa, nem as metodologias da aprendizagem remota se adequam à generalidade dos cursos superiores mais frequentados entre nós. Além de que aprender é um acto social que implica proximidade física e uma interacção entre os envolvidos que nunca se consegue replicar integralmente num contexto de E@D.

Mais do que prolongar indefinidamente um regime de isolamento rigoroso e cada vez menos praticável, importa assumirmos, colectivamente, comportamentos responsáveis e adequados às circunstâncias. Diria até que, por este ponto de vista, é uma excelente oportunidade para promover o civismo e a maturidade entre os jovens universitários, combatendo a onda de infantilidade e irresponsabilidade que, de ano para ano, tem grassado pelas academias.

E@D, oportunidade ou oportunismo?

carlos-reis…o EaD constitui hoje uma metodologia de ensino complexa, sofisticada do ponto de vista técnico e direcionada para públicos com feição própria. Aquela sofisticação acentuou-se desde que o digital entrou na cena do EaD, aprofundando o seu potencial, mas também (convém ter isto presente) exigindo atitudes cognitivas e colaborativas bem diferentes daquelas que predominam no ensino presencial. 

O EaD, em suma, não é para todos. Não o é porque requer instituições legitimadas para facultarem ofertas pedagógicas coerentes e socialmente pertinentes, interpretadas por professores e por tutores que hão de ter vocação e formação adequadas (ou seja, não basta saber Física, Matemática, Direito Civil ou Linguística para ensinar em EaD). Ao mesmo tempo, o EaD não se ajusta a quaisquer matérias ou públicos, indiferenciadamente. Sendo muitas vezes um ensino de segunda oportunidade (nada há de reprovável nisso, bem pelo contrário), o EaD destina-se sobretudo a populações adultas, eventualmente inseridas na vida profissional, com motivação e com disciplina para trabalharem com alguma autonomia. A isto acrescento que um dos campos de ação do EaD, como mostram as melhores práticas internacionais, é a aprendizagem ao longo da vida, com ou sem acreditação académica, coisa que em Portugal nunca foi devidamente acolhida, tanto por parte de entidades empregadoras, como por parte do Estado e da academia.

O que fica dito tem em vista não tanto o que, sob a pressão da emergência, está a acontecer entre nós (e não só entre nós). Repito: compreende-se e aceita-se que, conjunturalmente, se recorra a alguma coisa das lógicas que regem o EaD, no sentido de resolver, em parte, dificuldades que são conhecidas. O problema surge quando começam a aflorar (refiro-me de novo ao ensino universitário) tentações para se naturalizar o que é ocasional. Como quem diz: se o EaD parece ser (sublinho: parece ser) ágil, acessível, barato e razoavelmente aceite, então adotemo-lo, mesmo quando ele não está de acordo com a matriz educativa de universidades que acabam de descobrir o seu esplendor. 

A prosa de Carlos Reis, professor da Faculdade de Letras de Coimbra e antigo docente e reitor da Universidade Aberta – uma instituição pioneira no E@D – tem em mente a situação actual do ensino superior. Mas estas reflexões aplicam-se também, em larga medida, à realidade de outros níveis de ensino.

Recorrer às metodologias do E@D para dar resposta a uma situação de emergência educativa não é a mesma coisa que implementar um programa estruturado e coerente de aprendizagem online. Passar a dar pela internet as mesmas aulas que se davam presencialmente ou tentar reproduzir, ensinando remotamente, os métodos de trabalho e de avaliação usados no ensino presencial, não é verdadeiro E@D.

Mas a limitação maior nem está, a meu ver, na impossibilidade de aplicar os mesmos testes, fazer os mesmos exercícios, ou passar o mesmo powerpoint. Reside sobretudo no facto de o E@D não ter o carácter universal do ensino presencial. Por outras palavras, não serve a todas as idades, a todas as disciplinas, a todos os públicos escolares. Requer, além dos recursos tecnológicos de que nem todos dispõem, ou a que só têm acesso de forma limitada, um razoável grau de motivação, auto-disciplina e autonomia por parte dos envolvidos. Atributos de que carecem, todos os professores o sabem, uma elevada percentagem dos alunos sujeitos ao dever da escolaridade obrigatória.

Mais: as aulas em casa, com os alunos entregues a si mesmos ou com o apoio que a família lhes consiga dar, são a negação da escola inclusiva em que tanto se quis investir nos últimos anos.

Na verdade, nem custa a admitir que a escola à distância esteja a ser benéfica para alguns alunos: aqueles que têm facilidade em aprender, os que gostam de partir à descoberta, que não se acanham em questionar os professores ou pedir instruções para ir mais além. Aqueles que frequentemente se exasperam, nas aulas tradicionais, com o ritmo lento da aprendizagem, necessário para não deixar ninguém para trás, ou com a imaturidade, a indisciplina, o ruído ou as brincadeiras infantis de alguns colegas.

O problema são todos os outros. Como será que se ensinam competências básicas, como  ler e escrever, pela internet? Não faço ideia, mas não tenho dúvidas de que o apoio presencial do professor é aqui fundamental. Que apoio efectivo estarão a ter os milhares de alunos com necessidades especiais, cuja inclusão dependia, até aqui, de apoios individualizados? E aquelas crianças e jovens de quem só a muito custo, e com grande esforço e insistência, conseguíamos obter, nas aulas presenciais, alguns minutos de atenção?

Quando se vão ouvindo crescentes elogios ao E@D enquanto oportunidade de renovar as metodologias educativas, Carlos Reis mostra-se apreensivo em relação ao que vem aí. Se o E@D foi sempre um parente pobre e enjeitado do nosso sistema educativo, como explicar esta súbita descoberta de inesperadas e revolucionárias virtudes? O ex-reitor da UA teme que, mais do que aproveitamento da oportunidade, estejamos perante claro oportunismo: se esta solução de recurso se implementou, quase da noite para o dia, num clima de aparente e generalizada aceitação, porque não continuar a apostar, passada a pandemia, num modelo de ensino que, embora desadequado aos fins em vista, aparenta ser sedutor, fácil e, acima de tudo, mais barato?…

Suspensas aulas presenciais na UC até final de 2019/20

univ-coimbraA Universidade de Coimbra (UC) vem anunciar que foi decidida a suspensão de toda a atividade letiva presencial na UC – com a sua substituição por métodos digitais para a promoção de um ensino a distância –, até ao final do ano letivo 2019/2020, devido à situação de emergência no contexto da pandemia de Covid-19

Foram igualmente determinadas, por despacho reitoral, a transição de todos os regimes de avaliação para meios digitais e a manutenção do calendário escolar para o ano letivo em curso (com exceção do período de pausa letiva da Queima das Fitas – de 11 a 15 de maio –, que passará a integrar o período letivo).

Esta decisão é tomada em face das orientações que têm sido emanadas pela Direção Geral da Saúde para prevenção e contenção da propagação da doença causada pelo novo coronavírus. Tendo sido prorrogado o estado de emergência, não é previsível que venham a estar reunidas, até ao final do ano letivo em curso, as condições que permitam retomar as atividades letivas em regime presencial.  Acresce ainda o facto de, decorrente da incerteza instalada, a estabilidade emocional de toda a comunidade académica dever ser considerada um valor maior – a que se junta a necessidade de todos os estudantes (nacionais e internacionais) serem tratados de igual forma, razão pela qual se torna necessário planificar atempadamente o que resta do atual ano letivo.

Recorde-se que, com o envolvimento de toda a comunidade académica, a Universidade de Coimbra envidou todos os esforços no sentido de criar condições para se adaptar a esta nova realidade e assegurar que o ensino possa ser ministrado à distância a todos os estudantes.

O comunicado, hoje publicado no site oficial da Universidade de Coimbra, pode ser lido como uma antevisão do que muito provavelmente sucederá noutras universidades e noutros níveis de ensino.

Recorde-se que a decisão de antecipar o fim das aulas no 2.º período também só foi tomada pelo ME depois de praticamente todas as escolas superiores terem fechado portas aos seus alunos. Na política, como em tudo o resto, há sempre aqueles que lideram e tomam as decisões difíceis e os que preferem ir a reboque dos acontecimentos e submissos ao que lhes mandam fazer. No caso do ME, sempre soubemos que lhe estavam destinados políticos desta segunda categoria.

Perante isto, faz ainda menos sentido a absurda teoria, que tem sido posta a circular nos últimos dias e que o Rui Cardoso defende, hoje, no Público, de abrir as escolas secundárias, no mês de Maio, apenas para os alunos do 12.º ano. Como se as conveniências do calendário de exames estivessem acima da saúde pública; como se uns alunos fossem mais iguais, ou mais imunes, do que outros; como se a avaliação externa fosse um fim em si mesma.

Nunca encontrei sentido nesta visão redutora do ensino secundário como antecâmara do superior. E agora ainda menos. Quando os professores superiores mantêm as suas salas de aula fechadas devido aos riscos de contágio, é absurdo, para não dizer pior, ver professores inferiores dispostos a colocar em risco a saúde de alunos e professores para tentar cumprir, dê por onde der, as imposições de um calendário escolar de aulas e exames irremediavelmente comprometido.

Topo da carreira

lurditas-de-ouro[1]É sempre mais fácil impor barreiras à progressão noutras carreiras profissionais quando temos por certo que, de uma forma ou de outra, os nossos chegarão garantidamente ao topo.

Maria de Lurdes Rodrigues já tinha surpreendido alguns incautos quando recusou ser avaliada como os restantes professores da sua universidade, contestando uma “avaliação burocrática” que, nesse aspecto concreto, não diferia substancialmente do modelo avaliativo que impôs, enquanto ministra, aos docentes do básico e secundário.

Afinal, a recusa não prejudicou a sua carreira nem a impediu de alcançar, pouco tempo depois, o cargo de reitora do ISCTE. Uma escola superior que há muito mantém relações de proximidade com o poder, sobretudo com o poder socialista, e que daí trata de extrair, naturalmente, as devidas compensações.

Dois meses depois da assinatura do “contrato de legislatura” com o Governo, o ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa tem garantido o cumprimento de três das metas com que se tinha comprometido para os próximos quatro anos. A instituição lançou os concursos que garantem que metade dos seus docentes chega às duas categorias de topo da carreira neste ano. O número de inscritos em pós-graduações e aposta na Ciência de Dados também cumprem as exigências.

Mais licenciados, para quê?

mocho_graduadoA meta europeia estabelecida para a educação era que os países tivessem um mínimo de 40% da população com diploma do ensino superior, mas Portugal não conseguiu atingir esta meta em 2018, destaca o jornal ‘Público’ esta terça-feira, 26 de novembro.

A conclusão surge no estudo Estado da Educação, que vai ser divulgado esta terça-feira, e que indica que a população diplomada portuguesa, entre os 30 e 34 anos, ainda está a 6,5 pontos percentuais de alcançar o objetivo, com apenas 33,5%.

Desde 2009 que se tem assistido a uma evolução positiva neste setor, com um aumento de diplomas entre esta faixa etária, mas entre 2016 e 2018 assistiu-se a um abrandamento, chegando mesmo a existir um retrocesso de 0,9 pontos percentuais. No entanto, este retrocesso é desvalorizado pelos especialistas consultados pela publicação, que indicam que esta diminuição acompanhou a alteração do padrão demográfico.

Julgo que nunca foi rigorosamente apurado o número de jovens licenciados e mestres que, concluídos os estudos superiores, tiveram de optar por uma carreira internacional para verem reconhecidas as suas qualificações e poderem trabalhar e fazer carreira na área em que se formaram. A alternativa, para os que ficaram, tem sido muitas vezes aceitar empregos para os quais têm excesso de habilitações.

Como de costume, é sempre mais fácil questionar os “fracassos” do sistema educativo do que o clamoroso falhanço do nosso “modelo de desenvolvimento” e a incapacidade das empresas em aproveitar o imenso potencial humano que universidades e politécnicos têm formado ao longo das últimas décadas. E não nos venham com a conversa da treta acerca do ensino superior desligado da realidade empresarial ou dos currículos desajustados ao mundo do trabalho: os portugueses a trabalhar por essa Europa fora ou radicados em paragens ainda mais distantes são em regra reconhecidos como bons profissionais, mais rapidamente do que sucede no seu próprio país.

Não faz assim muito sentido apontar “metas europeias” uniformes para todos os países de UE, esquecendo que as realidades económicas e demográficas são muito diversas. E que o neoliberalismo dominante nas políticas europeias tem acentuado essas diferenças nas últimas décadas, abandonando de vez o grande projecto europeu de promover a convergência económica e social entre os estados membros.

Neste contexto, é um erro insistir em aumentar ainda mais a formação superior dos jovens portugueses, como se a overdose de qualificações fosse operar, só por si, o milagre do desenvolvimento da economia portuguesa. Pelo contrário, sem resolver os problemas estruturais que entravam a inovação, o investimento e o crescimento sustentado do tecido empresarial, a única coisa que se conseguirá é generalizar a precariedade e os baixos salários nas profissões que requerem qualificações mais elevadas e onde por enquanto ainda se vai pagando mais do que o salário mínimo.

A verdade é que já há em muitas áreas jovens licenciados a ganhar, a coberto de programas de “estágios” e “voluntariados”, ainda menos do que isso. Em vez de valorizarmos estes profissionais, impulsionando os sectores da economia que poderiam gradualmente absorver os trabalhadores altamente qualificados que vamos formando, continuamos a esbanjar talentos e competências e a apostar na competitividade através dos baixos salários.