Mais mulheres nas ciências e tecnologias

Diversos media assinalaram uma evidência registada num recente relatório da OCDE: entre todos os países analisados, Portugal é aquele onde existem mais mulheres a formar-se em cursos superiores de engenharia, ciências, tecnologias e informática. São já mais de metade do total, em áreas tradicionalmente dominadas pelos homens.

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Claro que a tendência não é nova, e nota-se na generalidade dos países desde que as raparigas passaram a ter as oportunidades de estudar que antes eram dadas apenas aos rapazes: desejosas de melhorar a sua formação e de ter acesso a profissões e carreiras que até aí lhes estavam vedadas, muitas jovens vieram a revelar-se alunas mais atentas, persistentes e aplicadas do que a maior parte dos rapazes.

Em Portugal, nas últimas décadas, a escassa empregabilidade da maioria dos cursos superiores nas áreas tradicionalmente preferidas pelas estudantes – letras, educação, enfermagem – acabou por despertar o interesse pelos cursos que parecem abrir portas para carreiras profissionais mais bem pagas e aliciantes: as engenharias, a informática, a medicina, a investigação científica.

A tudo isto junta-se um factor muitas vezes subestimado, que é a elevada percentagem de mulheres trabalhadoras em Portugal. Ao contrário de outros países europeus, onde ainda é relativamente comum algumas mulheres deixarem de trabalhar, ou passarem a fazê-lo a tempo parcial, quando se tornam mães, entre nós os baixos salários praticados impedem quase sempre esse tipo de opções. Há assim um forte investimento das jovens na sua carreira profissional. E seja qual for o seu projecto de vida, raramente equacionam a hipótese de ficarem economicamente dependentes do seu parceiro…

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Mediocridade académica

Agora que o Feliciano já se demitiu, haverá oportunidade de ir ao que interessa, e iniciar uma discussão séria sobre as práticas avaliativas e as carreiras académicas no ensino superior?

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Algo vai muito mal quando um júri universitário aceita, como conclusão de uma tese de mestrado, uma prosa deste calibre. Embora por lá apreciem pouco a auto-crítica e prefiram julgar e criticar os outros, nomeadamente os colegas do “ensino inferior”, é inteiramente legítimo questionar sobre a qualidade e a seriedade de algumas práticas da academia. E, sobretudo, sobre certas universidades privadas onde políticos em trânsito vão compondo, mal e porcamente, os seus currículos académicos.

Haverá espaço e oportunidade para encetar esta discussão, cujo pontapé de saída já foi dado, oportunamente, por João Miguel Tavares, ou todo este barulho serviu apenas para remeter o medícre Feliciano ao limbo da mediocridade de onde nunca deveria ter saído?…

Colaborações: ComRegras

No Topo: Professor, não é qualquer um

Será legítimo, ao primeiro-ministro de um governo que acabou com o programa “Novas Oportunidades” e as suas “histórias de vida” em nome da exigência e do rigor na formação de adultos, entrar na docência universitária pelo topo da carreira, sem as habilitações ou o currículo académico relevante que a lei exige?…

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No Fundo: A escola “racista”

O discurso é insidioso e recorrente: crianças e jovens pertencentes a determinadas minorias étnicas, sobretudo ciganos e afrodescendentes, apresentam maiores taxas de insucesso e abandono escolar. Como aparentemente a escola não consegue proporcionar a estes alunos o mesmo sucesso que têm os outros, conclui-se, de forma apressada e irresponsável: a escola é racista. Ou, naquele sociologês pedante com que se pretende disfarçar o preconceito e a falta de rigor: há “racismo institucional” na escola portuguesa.

E onde é que está o problema, mesmo?

pross-estudosDos 23 625 alunos que concluíram os estudos secundários no ensino profissional no ano letivo 2015/2016, 84% não ingressaram no ensino superior. São quase 20 mil alunos que deixaram de continuar a estudar.

Já entre os alunos que terminaram o ensino secundário científico-humanístico a taxa de ingresso mantém-se estável, ao longo dos últimos anos, a rondar os 80%.

Serei só eu a notar a profunda incoerência que existe em pretender ter 50% dos alunos do secundário a frequentar cursos profissionais, onde supostamente aprendem uma profissão, e querer, depois, que esses jovens prossigam estudos no ensino superior?

O que seria de espantar era termos a maioria dos alunos dos cursos científico-humanísticos, orientados para o prosseguimento de estudos, a procurar emprego após a conclusão do secundário. Já o ensino profissional existe justamente para preparar jovens, pouco motivados para a vida académica, para o exercício qualificado de uma profissão.

Agora se o objectivo inconfessado é que quase todos os jovens prossigam estudos no ensino superior, então que exista a coragem de reconhecer que o ensino profissional, com o seu carácter eminentemente prático,  não confere a melhor preparação para quem irá continuar a estudar. E que se deveria apostar numa formação teórica mais sólida destes alunos, encaminhando-os para a tradicional via de ensino ou recuperando, eventualmente, os antigos cursos tecnológicos.

Por outro lado, nos países onde o ensino profissional é levado a sério existe um forte envolvimento das empresas, que a ele recorrem para recrutar e formar os trabalhadores de que necessitam para determinados postos de trabalho. Ora se só com esta articulação com o mercado de trabalho é que os cursos profissionais têm razão de ser, também é certo que, da parte das empresas, o investimento deixa de fazer sentido se não puderem recrutar, em seguida, os profissionais que ajudaram a formar.

De resto, a tradicional falta de qualificações académicas dos portugueses já não é, para as novas gerações, uma realidade: as nossas taxas de ingresso e frequência do ensino superior estão alinhadas pelas médias europeias, sendo mesmo superiores às de alguns países desenvolvidos. Somos dos poucos países do mundo a ter 12 anos de escolaridade obrigatória. A grande maioria dos jovens que actualmente concluem o secundário seguem para a universidade ou para as escolas politécnicas. Continuamos a ter dezenas de milhares de licenciados, mestres e doutores a ter de emigrar para poderem trabalhar nas áreas em que se formaram. Então porque é que persistimos em inventar e empolar problemas, em vez de actuar na resolução dos realmente existentes?

Claro que a questão de fundo não está nas necessidades dos jovens, nem sequer da nossa economia ou do tecido produtivo. Reside, no essencial, em duas coisas apenas. O ME quer continuar a garantir financiamentos comunitários para o sistema educativo, pelo que aposta na expansão do ensino profissional, maioritariamente pago com dinheiro europeu. E o ensino superior politécnico, sobredimensionado em relação às necessidades do mercado de trabalho e à estrutura demográfica do país, debate-se com a falta de alunos e inventa a necessidade de novos cursos e formações. Como se todas as profissões existentes, ou mesmo a maioria delas, requeressem um diploma de estudos superiores.

Temos portanto um governo que aposta no subfinanciamento da Educação e um poderoso lobby ligado ao ensino superior determinado a arranjar novos alunos que na verdade não existem. Pelo meio, os fundos europeus surgem como a panaceia para aliviar os males de uns e de outros. E com base nisso se constrói uma narrativa, feita de enganos e contradições, destinada a justificar as políticas que melhor satisfazem os interesses prioritários em jogo. Que estão longe de ser, sublinhe-se, os dos jovens ou os da Educação.

Passos «Catedrático» Coelho

O licenciado Passos Coelho a dar aulas, como catedrático convidado, a mestrandos e doutorandos do ISCSP: uma voltinha pelo Twitter ajuda-me a contar como tudo se passou.

1. O anúncio, aos colegas deputados, de que iria mudar de vida. E a necessidade de mitigar a incontida tristeza dos companheiros.

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2. A incredulidade dos que melhor o conhecem…

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3. O plano curricular que o mais novo catedrático da nossa Academia irá leccionar.

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4. E finalmente, a cargo do Jovem Conservador de Direita, a explicação mais irónica e profunda do real significado desta contratação…

Professor Passos Coelho

passos[1]Pedro Passos Coelho vai dar aulas na área da Administração Pública no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) da Universidade de Lisboa (UL). Segundo apurou a VISÃO junto de fontes do instituto, o convite foi formulado pela direção da faculdade liderada pelo ex-deputado do PSD Manuel Meirinho e já terá sido aceite pelo ex-primeiro-ministro, que renunciou no final de fevereiro ao seu mandato de deputado.

Para além da sigla quase impronunciável, o ISCSP distingue-se também por ser, provavelmente, a escola superior pública com maior número de professores não habilitados. Ou seja, sem doutoramento – alguns nem mestrado têm – nem investigação científica relevante.

De facto, o instituto salazarista da “política ultramarina”, convertido após o 25 de Abril em escola de “ciências políticas”, é hoje um poiso seguro para políticos emprateleirados: Passos Coelho irá ser colega, entre outros, de António José Seguro, Guilherme d’Oliveira Martins, Luís Amado ou Rui Pereira.

Percebo que universidades ou fundações privadas contratem quem querem e gastem o seu dinheiro como entenderem. Mas no caso de uma instituição que é paga com o dinheiro do contribuinte, questiono a legitimidade de contratar um licenciado para reger disciplinas “leccionadas em mestrados e doutoramentos”, quando há tantos mestres e doutores não encontram trabalho compatível com a sua formação.

E não nos venham com a conversa da “experiência” adquirida nas funções governativas. Por essa lógica, as escolas de engenharia contratariam mestres de obras, que conhecem como ninguém os bastidores dos estaleiros e da execução dos projectos. E as ESEs não precisariam de “cientistas da educação”, pois qualquer professor do ensino básico poderia lá ir dar umas aulas baseando-se na sua experiência profissional. Se Passos Coelho vai para a universidade contar a sua “história de vida”, então o seu trabalho estará ao nível daqueles que eram feitos pelos formandos do extinto programa das Novas Oportunidades, que tão criticado foi pelo governo a que presidiu.

Menos vagas nas universidades de Lisboa e Porto?

As universidades e politécnicos de Lisboa e do Porto terão que abdicar de 5% das vagas no próximo concurso nacional de acesso ao ensino superior. Objectivo: levar mais estudantes a candidatarem-se a instituições fora das grandes cidades do país. É esta a proposta do Governo no projecto do despacho que fixa o numerus clausus para o próximo ano e que foi enviado esta quinta-feira aos responsáveis do sector.

Várias universidades já se manifestaram contra. Dizem que serão as famílias que vão acabar por ter de gastar mais dinheiro com os estudos dos filhos e que a medida vai criar instabilidade e problemas nas instituições que vão sofrer a redução de estudantes. “Não me parece que seja assim que se resolvem os problemas do interior do país”, acrescenta o reitor da Universidade do Porto, Sebastião Feyo de Azevedo.

“Parece-nos um mau princípio de base”, disse também João Rodrigues, da Federação Académica de Lisboa, referindo que a proposta vai contra ao anunciado pelo Governo, que afirmou que “pretendia alargar a base social do ensino superior e pretendia mais jovens” nas universidades.

A redução de vagas nas instituições do ensino superior de Lisboa e Porto pretendida pelo governo tem tudo para ser uma medida polémica. Mas, como é habitual entre nós, corre-se o risco de apenas vermos cada um a puxar a brasa à sua sardinha, não se chegando a discutir as questões de fundo que aqui estão subjacentes.

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É verdade que as universidades e escolas superiores criadas fora dos grandes centros têm dificuldades em captar novos alunos, principalmente em determinados cursos com menor procura.

Também é certo que não é por fecharem vagas em Lisboa e Porto que os estudantes que vivem na área de influência das duas maiores cidades optam pelas universidades ou politécnicos do interior: deitando contas à vida, logo descobrem que, em muitos casos, lhes compensará mais optar pelo ensino privado do que pagar todas as despesas inerentes à opção de ir estudar longe de casa.

E depois, as políticas, tão populistas quanto insensatas, de promoção de rankings, criando na opinião pública a ideia de que só um punhado de instituições têm um ensino de qualidade superior, dão este resultado: os estudantes querem ir todos para os mesmos sítios. E sem procura por parte dos alunos, nenhuma escola consegue melhorar os seus resultados – só os consegue piorar. Se o efeito era contribuir para o fecho de cursos e o definhar do ensino superior fora dos grandes centros urbanos, então parabéns, pois estão a conseguir o que pretendiam.

Finalmente, tudo isto tem subjacente uma questão de fundo que os professores do básico e secundário conhecem bem, mas que os seus colegas do ensino superior só agora começam a interiorizar: há cada vez menos alunos, fruto de um decréscimo continuado da natalidade. As universidades sempre julgaram, erradamente, estar a salvo de constrangimentos, pois bastar-lhes-ia apelar ao alargamento da frequência do ensino superior. Só que, mesmo aqui, já não há muito por onde esticar. Quando temos uma média de cerca de 70 mil alunos a concluir o 12º ano – número com tendência a diminuir, ano após ano – e já se abrem anualmente mais de 50 mil vagas no ensino superior, é evidente que já só conseguirão mais alunos só se alargarem a escolaridade obrigatória à universidade…

Não havendo, portanto, alunos que cheguem para todos, trata-se apenas de decidir uma coisa muito simples: deve o governo condicionar centralmente as opções dos alunos, reduzindo vagas em Lisboa e Porto para obrigar alguns estudantes a ir estudar para outros lados? Ou devem, pelo contrário, ser abertas vagas de acordo com a capacidade das escolas, permitindo aos alunos que façam, o mais livremente possível, as suas escolhas?