Dia Mundial do Professor

Um dia de celebração, mas também de reivindicação e de protesto.

Porque os direitos e a dignidade profissional dos professores continuam a ser ignorados e desrespeitados por quem os devia respeitar e valorizar.

Todos os dias.

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O 11 de Setembro chileno: fascismo e neoliberalismo

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É habitual recordar, nesta data, os atentados terroristas de 11 de Setembro de 2001, talvez o acontecimento que melhor simboliza a entrada no mundo globalizado e multipolar do século XXI. Pela minha parte, atribuo hoje maior actualidade o que se passou num outro 11/09, o de 1973: o golpe de Estado dos militares chilenos, apoiados pela CIA, contra o governo democraticamente eleito de Salvador Allende. 

É importante recordar, não apenas o martírio do presidente e de milhares dos seus apoiantes, que acabaram por morrer na sequência do golpe ou nas prisões políticas da ditadura de Pinochet, mas também o carácter precursor do regime então instituído no Chile: um casamento quase perfeito entre fascismo e neoliberalismo. Sem liberdades políticas, o Chile foi o primeiro país a experimentar as amplas liberdades económicas preconizadas pela Escola de Chicago.

Uma receita que, apesar dos modestos resultados económicos e dos enormes custos sociais e políticos, teve e tem seguidores. No Brasil de Bolsonaro, por exemplo, olhares atentos detectam sinais evidentes de uma pinochetização do regime…

Com Pinochet no poder, o ideário neoliberal dos Chicago Boys não foi apenas defendido, mas rigorosamente implementado. As medidas reverteram uma série de iniciativas sociais colocadas em prática pelos governos de Eduardo Frei Montalva (1964-1970) e Allende (1970-1973), e suas consequências são sentidas ainda hoje.

“Esse projeto neoliberal radical precisa da violência para ser implementado. O exemplo chileno é o mais emblemático”, afirma Joana Salém, doutoranda em história econômica pela Universidade de São Paulo (USP).

Em entrevista ao Brasil de Fato, a pesquisadora disse que o Brasil, sob a tutela de Guedes, já passa por um processo de “choque neoliberal”  fortemente inspirado no modelo implementado no Chile durante a ditadura Pinochet. “É muito importante entender que o projeto do atual ministro da Economia [do Brasil], que colocou muitos de seus asseclas na estrutura do Estado para desconstruir a nossa Constituição, [tem como] modelo o Chile”.

Por cá, o proto-fascismo do partido de André Ventura e os lobos neoliberais com pele de cordeiro tentam, por vias distintas, mas tendencialmente convergentes, refundar a direita portuguesa. O discurso securitário de uns liga bem com a desregulação da economia e o desmantelamento do Estado social que os outros querem promover. Por muito que nos queiram convencer do contrário, a verdade é que nenhum fascista chegou ao poder sem ter, na hora H, algum apoio decisivo vindo das hostes liberais.

Afinal de contas, para um genuíno liberal, a sua liberdade individual vale mais do que a democracia, expressão da liberdade de todos. Se tiver de sacrificar a democracia, em benefício do pacote integral de liberdades que reserva para si próprio – incluindo a liberdade de explorar e oprimir o próximo – o bom do liberal não pensa duas vezes.

Quarenta e sete anos depois do golpe fascista de Pinochet, vale a pena pensar nisto.

A morte de Salazar

António de Oliveira Salazar faleceu a 27 de Julho de 1970, ao fim de uma longa agonia de quase dois anos que obrigou o presidente da altura, Américo Tomás, a demiti-lo do cargo de Presidente do Conselho em que parecia ter-se eternizado.

Cinquenta anos depois, é interessante observar como os jornais da época reagiram a um evento que há muito era aguardado. O falecimento foi chorado por alguns, festejado por outros;  a maioria do país político terá sentido, na altura, um certo alívio perante o desenlace esperado e inevitável. À mistura com alguma inquietação sobre o futuro.

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Na verdade, nos seus últimos tempos, a vida de Salazar era meramente vegetativa, entre a residência oficial que continuava a usar, numa grotesca encenação de um poder que já não possuía, e o hospital onde foi internado quando o estado de saúde se agravou irreversivelmente. No lugar de Presidente do Conselho, Marcelo Caetano sentia sobre si a sombra do velho ditador, uma ameaça permanente à afirmação do seu poder e dos seus planos de “evolução na continuidade”.

Após o funeral, desaparecida de vez a figura tutelar do Estado Novo, teve Marcelo o inteiro protagonismo político e a sua oportunidade de fazer a diferença e provocar a mudança. De abrir e arejar o regime, dar força e influência a uma nova geração de juristas, economistas e tecnocratas que ansiava por reformas económicas, sociais e políticas e que foi um dos esteios do marcelismo.

Em vez disso, sabemos o que sucedeu. Manietado pelas forças ultra-conservadoras que cerravam fileiras em torno de Américo Tomás, condicionado por um sentimento de lealdade para com o presidente que o nomeou, Marcelo mostrou-se um homem temeroso e indeciso, incapaz de levar em frente as mudanças que o país reclamava. Mesmo aquelas que o próprio Marcelo percebia serem necessárias.

Ao contrário do que certas leituras revisionistas da História tentam fazer crer, Marcelo Caetano nunca foi um democrata, e esse traço da sua personalidade é importante para compreender que, na hora de optar entre a continuidade da ditadura ou a evolução para a democracia, Marcelo tenha escolhido contemporizar com a repressão e a censura, a polícia e as prisões políticas. Mantendo intocados os pilares do regime e, em África, uma guerra colonial em três frentes que, tanto política como militarmente, se tornava insustentável.

A morte de Salazar não significou o fim do Estado Novo, mas o regime não sobreviveu nem quatro anos ao desaparecimento do seu fundador.

Amália Rodrigues (1920-1999)

No Centenário do seu nascimento, a Escola Portuguesa homenageia a maior fadista portuguesa recordando um dos fados mais marcantes da fase final da sua carreira.

Uma das raras ocasiões em que a fadista se assumiu também como poetisa, pois é dela a letra que Carlos Gonçalves musicou…

Cinco anos de Escola Portuguesa

A Escola Portuguesa faz hoje cinco anos. Uma idade razoável, no mundo blogosférico, onde uma elevada percentagem dos blogues acaba por ter existência efémera. Pela minha parte, quando por aqui escrevi os primeiros posts, a 19 de Maio de 2015, não saberia dizer se esta experiência duraria um mês, um ano, ou se prolongaria mais além.

Sem ser isto uma celebração, ocorreu-me revisitar o primeiro post, movido pela curiosidade de recordar o que dominava, há cinco anos atrás, a actualidade educativa. Estávamos assim…

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Era a recta final do mandato de Nuno Crato à frente do ME e a política de responder com exames e mais exames a todo e qualquer problema educativo persistia. Há cinco anos atrás, eram as provas finais do primeiro e segundo ciclo do ensino básico, realizadas ainda antes de terminarem as aulas, que marcavam o calendário escolar nesta altura do ano. E havia alunos em casa, não por causa de qualquer pandemia, mas porque as salas onde costumavam ter aulas ou os professores que os ensinavam estavam ocupados com outros meninos que iam ser avaliados.

Os tempos mudaram, mas entre um passado ainda não tão distante e este presente pandémico, a realidade não é assim tão distinta. Na verdade, há cinco anos punham-se as escolas a trabalhar a meio gás para haver condições para a realização de exames. Hoje, retomam-se parcialmente aulas presenciais, alegadamente para preparar os alunos… para os exames que aí vêm.

Exames, o alfa e o ómega da política educativa. Bem vistas as coisas, parece que não mudámos assim tanto…

Música para o 1.º de Maio: Três Cantos – Que Força É Essa

Camelo Lourenço

Ou da importância de, mesmo em tempo de pandemia, comemorar oficialmente o 25 de Abril.

Explicado de forma a que o entenda uma criança ou, muito mais difícil, um direitola tão ignorante quanto arrogante…

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Rafael Sanzio (1483-1520) – Escola de Atenas

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No dia em que se assinalam 500 anos da morte de Rafael Sanzio, não poderia deixar de fazer aqui uma modesta homenagem ao genial pintor renascentista, cuja Escola de Atenas ilustra, desde o início, o topo das páginas deste blogue.

Este inspirado fresco, que decora a parede de uma das salas do Vaticano, é ele próprio uma homenagem à antiga cultura grega. No seu delicioso anacronismo, faz conviver diversos filósofos, artistas, escritores e cientistas do antigo mundo grego, num amplo espaço coberto por abóbadas de berço, cúpulas e arcadas – tudo elementos arquitectónicos que só com os romanos se vieram a integrar na arquitectura clássica.

No centro da pintura, sobressaem as duas figuras tutelares da filosofia antiga, Platão e Aristóteles. O primeiro, apontando para o céu, certamente evocando o mundo das Ideias. Já o seu discípulo Aristóteles, que aponta para o chão, manteve-se sempre mais atento do que o seu mestre às realidades terrenas – a Física antes da Metafísica…

Música para o Dia da Mulher: Chico Buarque – Mulheres de Atenas

Um clássico de Chico Buarque que sabe sempre bem revisitar.

Mesmo nestes estranhos tempos em que nem o seu autor se livra de acusações de machismo, por supostamente fazer a apologia da submissão da mulher.

E ironia, será que sabem o que é?…

Auschwitz, 1945-2020: a importância de não esquecer

Pois os neonazismos e outros fascismos rondam de novo por aí…

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O Exército Vermelho da antiga União Soviética libertou os poucos sobreviventes do campo de concentração de Auschwitz no dia 27 de janeiro de 1945. Mais de um milhão de pessoas foram assassinadas no local – principalmente judeus estavam entre as vítimas.

Por iniciativa do Presidente da Alemanha, Roman Herzon, desde 1996 o dia 27 de janeiro tornou-se na Alemanha uma data para lembrar e homenagear as vítimas do nazismo. Em 2005, as Nações Unidas seguiram o exemplo e declararam o dia 27 de janeiro como o Dia Internacional da Memória das Vítimas do Holocausto.

Nos últimos anos, o antissemitismo ressurgiu na Alemanha. A violência antissemita está a aumentar e, cada vez mais, judeus que vivem na Alemanha são vítimas de algum tipo de agressão nas ruas. O último episódio que intensificou o alerta das autoridades foi o ataque em Halle – cidade  localizada no Estado da Saxônia-Anhalt, no leste da Alemanha – em 9 de outubro de 2019.