Direitos Humanos? Na escola, pois então!

direitos-humanos.jpgClaro que é na escola que os Direitos Humanos se podem e devem, em primeira instância, conhecer, compreender e aplicar. Um desígnio que se cumpriria ainda melhor se as humanidades não andassem a ser sistematicamente menorizadas em cada mexida curricular.

Mas é uma ilusão perigosa pensar que defender e respeitar os Direitos Humanos é uma missão exclusiva da escola. Que fazemos umas actividades comemorativas, umas exposições e umas palestras para crianças e jovens enquanto o mundo dos adultos continua a desrespeitar, quotidiana e impunemente, os direitos fundamentais.

“O lugar dos direitos humanos começa por ser a escola. Nascemos com eles, mas não nascemos ensinados neles”, afirmou hoje Vital Moreira, defendendo o “papel incontornável da escola” no ensino dos direitos humanos e da educação para a cidadania, não apenas da perspetiva da aprendizagem, mas da prática.

Vital Moreira, comissário das comemorações dos 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos e dos 40 anos da adesão de Portugal à Convenção dos Direitos Humanos, falava no encerramento da iniciativa ‘A Voz dos Alunos’ dedicada ao tema dos direitos humanos, para uma plateia de alunos, professores, mas também governantes, que esta tarde marcaram presença na escola secundária José Gomes Ferreira, em Benfica, Lisboa.

Recordando o amigo e escritor que dá nome à escola, José Gomes Ferreira, e o seu poema ‘Acordai’, “um hino da resistência” na ditadura, Vital Moreira disse que era impossível entrar na escola e não recordar esses tempos “em que não havia liberdade, em que não havia política, nem educação, nem Serviço Nacional de Saúde” e em que o Estado era “um Estado de não direitos humanos”.

“Para quem teve a experiência desses tempos é bom ver o quanto Portugal evoluiu”, disse.

Durante a tarde várias escolas e agrupamentos de todo o país participaram na iniciativa ‘A Voz dos Alunos’, apresentando, com a mediação do ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, as conclusões dos grupos de discussão criados nas escolas para debater os direitos humanos.

Os alunos partiram da sua realidade e vivência escolar para propor melhorias aos seus direitos, focando-se em temas tão concretos como o acesso à alimentação de qualidade ou tão abstratos como a felicidade dos jovens.

Anúncios

Americanices

halloween.gifFoi por influência da criança lá de casa que, para a família de Paula Gerardo, o 31 de Outubro deixou de ser uma véspera de feriado como as outras. De há quatro anos para cá é “um delírio”. Caixões que são bolos de chocolate, pizzas-fantasma, salsichas em forma de dedo, hambúrgueres nos quais são espetadas seringas. As teias, os morcegos e as vassouras saem das paredes; este ano até há uma máquina de fumo. E a imaginação não tem rédeas. Nem no jantar, nem na decoração da sala, tampouco na hora de sair à rua na noite de Halloween, pelo Parque das Nações, em Lisboa, para interrogar os vizinhos: doce ou travessura?

[…] A influência está lá há algum tempo e ganhou força nos últimos anos, à boleia do acesso quase transversal a filmes, séries, jogos e música feitos do outro lado do Atlântico ou inspirados na mesma estética. “Os miúdos já não estão a importar nada de lado nenhum. Estas influências estão em todo o lado, numa conjugação de fontes”, diz Paula Gerardo.

“Muitos miúdos nem têm consciência da origem. É uma influência instalada”, diz também a professora Maria José Belinha. De tal forma que, em meia dúzia de anos, “a festinha confinada a bolinhos e abóboras” que se fazia na Escola Básica e Secundária Coelho e Castro, em Fiães – a 11 quilómetros de Santa Maria da Feira –, “americanizou-se ainda mais”. Os alunos desta professora de animação sociocultural foram espicaçados a fazer algo maior, a encenar “lugares assombrados”. Primeiro, a câmara disponibilizou-lhes um edifício abandonado no centro da cidade; no ano seguinte ocuparam a antiga escola de hotelaria. E há três anos deram o salto para o castelo.

Nas noites de sábado e quarta-feira estão lá recriados um hospital e um cemitério assombrados, um covil de feiticeiros, um circo e um freak-show. Exploraram-se contos e lendas anglo-saxónicas. Há bruxas, feiticeiras e fantasmas no paço, aves e repteis na masmorra. “É um espectáculo arrojado”, diz a professora, o que faz com que a festa de Halloween pensada para as escolas receba “milhares de visitantes”. Este é, aliás, o evento organizado pelos 60 alunos do curso de animação sociocultural “mais relevante do ano”, feito em parceria com o Projecto Alquimia, uma espécie de incubadora de projectos artísticos também nascida na escola de Fiães.

A notícia do Público analisa o impacto da cultura popular norte-americana nos interesses, gostos e hábitos das nossas crianças e adolescentes. O pretexto, claro, é a proximidade do Halloween, que começou por ser uma efeméride confinada às aulas de Inglês. Depois, pouco a pouco, as bruxas e as abóboras, os morcegos e as vassouras, os fantasmas e os esqueletos, foram ganhando visibilidade, nas escolas e fora delas, por esta altura do ano.

Contudo, os festejos do dia do bruxedo, bem como outros hábitos culturais de raiz anglo-americana, não se impõem apenas pela pressão dos media e do domínio avassalador da indústria cultural made in USA. Eles surgem como uma versão cada vez mais mercantilizada de celebrações de origem popular, que hoje dão muito dinheiro a ganhar aos organizadores de eventos alusivos à efeméride e aos fabricantes e vendedores dos disfarces, adereços e quinquilharia diversa usados nos festejos.

Pelo que, perante fenómenos complexos de aculturação, que não se restringem hoje ao Halloween, mas envolvem igualmente outras importações – a peça cita as festas de finalistas, a mediatização das campanhas eleitorais para as associações de estudantes – e os interesses económicos que lhes estão associados, qual deve ser o papel da escola? O de promotor e facilitador de todo o tipo de eventos? Ou, pelo contrário, deve tentar avaliar o seu real interesse cultural e educativo? Abrir-se acriticamente a todas as iniciativas do meio envolvente, ou promover o espírito crítico de crianças e jovens, estimulando uma verdadeira criatividade – que não se deve reduzir ao consumismo ditado pelas modas nem confundir com a mera reprodução de valores e normas culturais alheios?

É que reproduzir padrões culturais dominantes facilmente se pode traduzir em naturalizar a desigualdade social, domesticar a contestação social e política, reforçar estereótipos de género, socializar o consumismo e o conformismo. Uma perspectiva da realidade que felizmente não passa ao lado da peça jornalística que venho a citar…

Sofia Marques da Silva, investigadora da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto, estuda as culturas juvenis há mais de uma década e vê o mercado como “o grande promotor desta apropriação muito rápida” – uma lógica com origem nos anos 60, sempre associada às culturas juvenis mainstream, e agora potenciada por novos e velhos media.

Mas a investigadora tem dúvidas sobre quem está, afinal, a decidir o que é moda e o que não é. “Acho que os jovens, principalmente as crianças, têm pouco controlo sobre aquilo que determina algumas das suas opções e algumas das suas acções. Quem está a dominar este processo é muito mais o mundo adulto, que é quem tem o poder de dizer o que está na moda e o que não está”, considera.

Sem pôr em causa a boa intenção, vê que muitas “escolas, muito provavelmente de forma inconsciente, acabam por alimentar estas lógicas de mercado”. “Estão a socializar pequenos consumidores. Para além do stress que imputam às famílias – às mães, principalmente”, considera. Isto deve exigir dos professores cuidado nos eventos que organizam e na forma como os promovem: “O baile de finalistas, por exemplo, pode ser um desfile de desigualdades.”

Música para Nelson Mandela (1918-2013): Wouter Kellerman & Soweto Gospel Choir – Mandela Medley

Música para o Dia da Mãe: Bruce Springsteen – Save The Last Dance For Me

Karl Marx (1818-1883)

0euro-trier.jpgKarl Marx nasceu, faz hoje 200 anos, na cidade alemã de Tréveris, que comemora a data com a emissão simbólica da nota de zero euros que ao lado se reproduz.

Um autor fora de moda, num mundo onde aparentemente triunfou o capitalismo sem pátria cuja derrota, às mãos do proletariado, Marx tantas vezes anteviu.

Contudo, se os projectos políticos directamente derivados do marxismo acabaram irremediavelmente por soçobrar ao embate da idílica utopia com a dura realidade, o pensamento político, económico e filosófico de Marx nem por isso se tornou definitivamente desactualizado e amarrado ao passado.

Leituras não dogmáticas das ideias de Marx – que ao que consta não gostava, ele próprio, de ser considerado marxista – continuam a ser úteis à compreensão do mundo em que vivemos. E da forma como chegámos até aqui.

A história de toda a sociedade até agora existente é a história de lutas de classes.

O homem livre e o escravo, o patrício e o plebeu, o barão feudal e o servo, o mestre de uma corporação e o oficial, em suma, opressores e oprimidos, estiveram em constante antagonismo entre si, travaram uma luta inin­terrupta, umas vezes oculta, aberta outras, que acabou sempre com uma transformação revolucionária de toda a sociedade ou com o declínio comum das classes em conflito.

 

[…] Continuar a ler

Primeiro de Maio

A assinalar o Dia do Trabalhador, algumas imagens do Primeiro de Maio de 1974 em Lisboa, quando, pela primeira vez após a longa ditadura, foi comemorado em liberdade.

Foi a maior manifestação de sempre em Portugal, num dia em que se calcula que terão saído à rua, em diversas cidades do país, mais de um milhão de portugueses, para festejar a liberdade e a democracia recém-conquistadas.

Este slideshow necessita de JavaScript.

© Gérald Bloncourt

25 de Abril à moda da Beira

cravo25a.JPGA manhã surgiu húmida e cinzenta naquele colégio religioso da Beira Alta. Corria, adiantado, o mês de Abril, nesse ano já distante de 1974.

A rapaziada jogava à bola, ou deambulava pelo recreio, aguardando o início das aulas matinais. A destoar do ambiente habitual, uma movimentação que apenas alguns miúdos mais atentos notaram: em vez de entrarem imediatamente no colégio, alguns professores tinham-se juntado na rua, em volta do carro de um deles, a ouvir atentamente a emissão que o auto-rádio transmitia.

Quando, daí a pouco, se iniciaram as aulas matinais, o reitor levou para a sua sala de aula algo volumoso, que não costumava fazer parte do material escolar. E a forma grave e severa como se dirigiu aos alunos, antes de iniciar a lição, também os surpreendeu:

– Os meninos têm falta de alguma coisa?… Alguém aqui é maltratado?… Há algum menino que passe fome?… – perguntou o padre à turma.

– Não senhor, não senhor… – responderam os alunos, atónitos e temerosos.

Encorajado com a resposta, o reitor prosseguiu:

– Pois parece que em Lisboa os comunistas querem tomar o poder. Mas aqui, no colégio, eles que venham, que eu cá os espero.

E mostrou à turma a caçadeira que, por via das dúvidas, tinha trazido de casa, precavido para o que desse e viesse…