Médico agredido no centro de saúde

csaude-chamusca.JPGUm médico de família do centro de saúde da Chamusca foi agredido por recusar passar uma baixa a uma utente, situação que está a indignar a Ordem dos Médicos, que vai avançar para tribunal.

O médico, recém-especialista, contou à agência Lusa que foi agredido fisicamente pelo companheiro de uma utente que lhe tinha solicitado uma renovação de baixa médica, após ter recusado passá-la.

Afinal, dir-se-á, não são apenas os professores que ocasionalmente são vítimas de agressões no seu local de trabalho. Os centros de saúde e os hospitais têm sido identificados como locais de crescente conflitualidade, com os profissionais de saúde a serem sujeitos a uma pressão excessiva da parte dos utentes e das condições de funcionamento do próprio sistema.

Há, contudo, uma diferença importante. Além de ter recebido o apoio da Ordem dos Médicos e do sindicato, também o responsável político pela Saúde percebeu que lhe competia dirigir um gesto de preocupação e solidariedade para com o médico agredido:

Segundo o profissional, o ministro da Saúde soube da situação e já lhe telefonou.

Na Educação, quando teremos um ministro capaz de condenar publicamente os actos de violência contra os professores? Ou, simplesmente, de se interessar por estas situações, de sentir a necessidade de se mostrar atento e solidário, de perceber que os problemas que enfrentam os seus profissionais, no exercício de funções, são também problemas da Educação?

Alguém imagina um certo Tiago a telefonar pessoalmente, por sua iniciativa, a um docente vítima de agressão?…

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Uma mulher morreu a caminho do trabalho

perseguicao-policial.jpgMuito já se escreveu e disse sobre a mulher brasileira baleada pela polícia na madrugada de 15 de Novembro, na Segunda Circular, quando o condutor do automóvel em que seguia, suspeito de ter participado num crime, desobedeceu à ordem de parar.

Mas talvez ninguém o tenha feito tão bem como Pedro Goulão, em inspirada sequência de desasseis tweets que aqui se reproduz. Na linguagem seca, concisa mas incisiva que o Twitter impõe, dá-nos, vista de diferentes ângulos, toda a dimensão de uma morte trágica que uma conjugação de circunstâncias, imprevidências e azares acabou, estupidamente, por originar.

Uma mulher morreu porque ia entrar num turno de limpeza às 4 da manhã. O companheiro, brasileiro, sem carta, levou-a porque a essa hora não há propriamente muitos transportes públicos e uma empregada de limpeza de um centro comercial não se pode dar a dois luxos: atrasar-se e andar de táxi.

Ao ver uma barreira policial ele toma a pior decisão da vida dele. Toma-a porque é pobre, estrangeiro, tem medo de ser deportado. E uma vez tomada a decisão estúpida 40 balas são disparadas na direcção dele pela polícia. Ele continuou a fuga. Quem pararia? Pessoas com mais autodomínio que ele ou eu? Pessoas que no meio da fuzilaria pensavam, se eu parar eles param logo logo? E olhando para a mulher, a morrer ao vosso lado, paravam? Não tinham medo de serem executados? Sois muito melhores pessoas que eu.

Do outro lado também estão pessoas. Estão com medo, também, à espera de enfrentar pessoas perigosas, que já escaparam a colegas. A adrenalina está no máximo e o discernimento, como provam os estudos, no mínimo, demasiado focados para perceberem que não é o mesmo carro, sequer o mesmo modelo. E que não vai um bando no carro. E tomam a pior decisão da vida deles e descarregam as glocks. Como nos filmes. O mau treino, o mau equipamento, a má coordenação e comando e sim, o azar, fazem o resto.

Isto tudo, dificilmente me aconteceria. Sou português, branco, de classe média, tenho estudos. Conheço pessoas. Eu pararia o carro, sem temer ser detido, entregue ao SEF, chegar atrasado ao trabalho. E agora pasmem: talvez tivesse disparado também. Entre o medo, a confusão, adrenalina, quem sabe? Por isso não sirvo para polícia.

Por isso, como disse ontem, tenho duas exigências como cidadão, paralelas mas complementares: melhores condições para a polícia e ao mesmo tempo o fim da permissividade, corporativismo, Code Blue à americana, de agentes, hierarquia e tutela.

Uma mulher morreu a caminho do trabalho. Nunca mais. Para nosso bem e da polícia de que tanto necessitamos.

 

Violência privada

urban.jpgSuscitam mais dúvidas e perplexidades do que certezas e convicções os recentes casos de extrema violência cometida na via pública. Tanto em Lisboa como em Coimbra, a sensação que fica é que as autoridades se mexeram porque houve gravações a circular na internet e na comunicação social, sendo impossível ignorar ou desvalorizar o sucedido.

Antigamente dizia-se que uma imagem vale mais do que mil palavras. No mundo mediatizado em que vivemos, parece valer mais um vídeo desfocado e filmado na vertical do que dezenas de queixas, testemunhos, pedidos de ajuda ou assistências hospitalares na sequência das agressões.

Em Lisboa, percebe-se que uma pouco urbana discoteca, que certamente não será caso único, contrata seguranças violentos, que tratam mal os clientes, barram a entrada a “pretos”, franqueiam livre acesso a menores com dinheiro para gastar e resolvem os problemas, reais ou artificialmente criados, ao murro e à cabeçada. Sabe-se que tanto as empresas de diversão nocturna como as de segurança privada têm regras a cumprir e dependem de licenças que lhes podem ser retiradas. Mas prefere-se deixar andar em roda livre os empresários e os negócios da noite e, quando algo corre mal, autarquias, polícias, ministérios e entidades fiscalizadoras jogam entre si o habitual jogo do empurra, fugindo todos às suas responsabilidades. Desta vez, vá lá: o alarme social e a necessidade do governo de mostrar serviço em matéria de segurança já fizeram com que fosse decretado o encerramento do espaço. Veremos por quanto tempo.

No caso de Coimbra, os contornos são ainda mais graves, pois não se tratou de nenhum negócio da noite mal resolvido: eram oito da manhã, num bairro residencial calmo em dia feriado. Uma das vítimas fazia o seu trabalho no restaurante de comida rápida e o jovem casal que por ali estava apenas tentou dissuadir os agressores. Sabe-se que o comando da polícia fica ali a dois ou três quarteirões e que os dois homens já estiveram envolvidos em situações semelhantes. Mas tiveram tempo de ir embora calmamente, pelo seu pé, sem que as autoridades aparecessem a tempo de pôr fim às agressões ou de seguir no seu encalço. E fica sem se saber se é medo, ou preconceito politicamente correcto, o que leva a comunicação social a omitir a etnia dos agressores.

O que ambos os casos demonstram é que há uma demissão do Estado em impor a legalidade e em garantir os direitos dos cidadãos no espaço público. Alicerçados na elevada rentabilidade dos negócios da noite, na criminalidade ou na impunidade conseguida através da pertença a grupos que assumem comportamentos de matilha e se tentam impor pela lei do silêncio e do medo, há quem se julgue no direito de ditar as regras em espaço público que considera seu, ou de maltratar qualquer pessoa que, como eles gostam de dizer, “se atravesse à sua frente”. Falta a intervenção pronta das autoridades policiais e criminais e tribunais para punir adequadamente e em tempo útil estas pessoas, não pelo que são, mas pelos crimes que comprovadamente praticaram. Fica o sentimento de insegurança das vítimas e de impunidade dos agressores.

Homenagem à Catalunha

O que se está a passar hoje na Catalunha era até certo ponto previsível, mas nunca pensei que as forças policiais enviadas de Madrid chegassem aos excessos de violência e desordem que estamos a testemunhar.

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Respeito e valorizo os sentimentos identitários e autonomistas da Catalunha e até os anseios independentistas de uma parte significativa da sua população. Mas não me parece nem que a independência da região seja uma boa ideia nem que, após amplo debate democrático, e havendo a alternativa de um aprofundamento da autonomia, a maioria dos Catalães se deixasse seduzir pela separação completa de Espanha e a criação de um novo Estado independente, com tudo o que isso implicaria.

Espanta-me por isso a inépcia e a estupidez do poder político instalado em Madrid, que está a fazer hoje, pela causa independentista, mais do que terão feito, até hoje, todas as forças políticas que a têm defendido.

Mostrando uma brutalidade inédita para a maioria dos Espanhóis, e que para os mais velhos poderá ter paralelo com a repressão nos tempos do Franquismo, a reacção desproporcionada e descontrolada do governo de Rajoy só pode atiçar os ânimos contra o centralismo e a prepotência de Madrid. E estão a provocar revolta generalizada na Catalunha, onde muitos dos mais moderados, que nem tencionariam envolver-se em confusões, fazem agora questão de, enfrentando a Policia Nacional e a Guardia Civil, ir votar no referendo proibido.

Como se fosse possível resolver um problema político, que é o que está em causa no desafio referendário, com o uso gratuito da força policial, tentando calar e desmobilizar as pessoas pela violência e pelo medo. Claro que só vão aumentar o número de resistentes e descontentes, numa espiral que não sabemos onde parará. Mas que, em todo o caso, aprofunda o conflito, dificulta o diálogo e torna mais difíceis e distantes as soluções que ainda se possam vir a desenhar.

Independentemente de tudo o que se possa dizer sobre constituições e referendos em Espanha, parece-me evidente que a Catalunha conquistou, hoje, o seu direito à autodeterminação. E que Rajoy é, a partir de agora, um primeiro-ministro desacreditado e a prazo.

isaltino.JPGEmbora hoje também tivesse havido eleições por cá, elas passam para um plano secundário perante a enormidade do que está a suceder na Catalunha. Como se comentava há pouco no Twitter, por lá batem nas pessoas e prendem-nas por irem votar. Por cá, prefere votar-se em pessoas que já estiveram presas. Desculpem, mas não tem comparação.

Aviação, overbooking e jornalismo de sarjeta

O caso do cidadão norte-americano que foi brutalmente agredido e retirado à força do interior do avião porque a empresa de aviação decidiu que necessitava do seu lugar mereceu condenação generalizada, e é lamentável, primeiro, que as punições para estas políticas de empresa atinjam apenas os que as praticam mas raramente cheguem aos responsáveis que as aprovam e incentivam e, em segundo lugar, que o boicote dos consumidores às empresas united pela pouca estima que mostram pelos seus clientes seja geralmente sol de pouca dura.

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Este caso levantou também um velho problema da aviação comercial, o overbooking, a prática generalizada que permite às companhias venderem mais bilhetes do que o número de lugares existentes no avião. Este procedimento, se fazia algum sentido no tempo do booking, ou seja, quando os clientes reservavam o seu lugar mas  podiam à última hora decidir não comparecer ao voo, é hoje uma prática comercial verdadeiramente fraudulenta, uma vez que a generalidade dos passageiros compra a sua passagem antecipadamente e não é reembolsado se desistir da viagem. A sua persistência é por isso uma demonstração clara de como a legislação comercial continua a fazer prevalecer os lucros das grandes companhias sobre os direitos dos consumidores. Na Europa o overbooking é um pouco mais restringido do que nos EUA, onde o poder das big corporations dita a sua lei, e não deixa de ser curioso ter sido banido pelo menos por uma companhia aérea low cost, enquanto as suas congéneres de bandeira, incluindo a TAP, continuam a ser alvo de queixas dos consumidores nesta matéria.

Finalmente, uma nota para o pasquim online que se tem erigido como o novo farol ideológico da direita portuguesa e que hoje decidiu seguir a imprensa tablóide dos States no vasculhar da vida privada e dos “antecedentes” do médico de ascendência vietnamita barbaramente agredido. Um triste exemplo do jornalismo de encomenda ao serviço de grandes interesses, que procura, perante a verdade incómoda, os factos alternativos que possam envergonhar a vítima. Que vai fazendo escola lá por fora e que uma direita moderna e convencida de que tudo lhe fica bem vai tratando de importar, disputando taco a taco, com o Correio da Manhã, o troféu do jornalismo de sarjeta. O Observador anda a ver mal as coisas, e obviamente notícias destas não merecem link.

Como nasce a violência juvenil

Delinquencia+juvenil.jpgA aldeia inteira que é precisa para educar uma criança não existe. Não está lá. Não estão os pais, não está a escola, não está a comunidade, não está ninguém. E eles estão sozinhos. São vítimas? São. São vítimas do que não viveram, da ausência dos pais, da falta de amor ou de tempo dos pais, da falta dos ‘nãos’ quando se portam mal, da falta dos castigos, da falta de valores – não falo sequer da Igreja porque essa já deixou de existir para muitas famílias pela falta de exemplo que dá –, da falta de perspectivas de vida.

Bárbara Wong reflecte sobre os casos de violência juvenil que tiveram ampla mediatização, com natural ênfase no mais recente, o do bando de jovens que agrediu selvaticamente um outro rapaz em Novembro passado em Almada. E aponta uma extensa lista de responsáveis. Os pais, que não educam nem acompanham os filhos. O Estado, na falta de apoios às famílias e às instituições sociais, recreativas e culturais que poderiam ajudar a enquadrar estes jovens que vão descambando para a marginalidade. A internet e os videojogos, e até mesmo os media tradicionais, que vão banalizando a violência gratuita, ao ponto de esta chegar a ser considerada normal. E, claro, a escola não poderia faltar a esta lista, pois segundo BW ensina mas não educa os alunos e, numa formulação infeliz mas habitual no estilo da jornalista, “desiste” deles, mandando-os para os cursos profissionais.

Claro que o cerne da questão nem está na escola, um espaço apesar de tudo vigiado e organizado, onde se tenta dar sentido às horas que os alunos ali permanecem e construir para cada aluno um percurso escolar de sucesso. Os problemas surgem quando, após as aulas ou por vezes em sua substituição, os jovens partem, desacompanhados, numa descoberta precoce e transgressora do mundo:

E como é que eles se orientam? Em bando, uns atrás dos outros, de preferência atrás do maior, do mais estúpido, do mais violento, daquele que parece não ter medo. Porque eles estão todos cheios de medo, é natural, estão a crescer e isso é assustador.

Esta juventude desorientada e violenta, com falta de referências, objectivos e valores morais, é um problema de toda a sociedade. Antigamente dizia-se, parafraseando um velho provérbio africano, que era preciso uma aldeia para educar uma criança. Mas hoje, à volta das grandes cidades, já não há aldeias. O que temos são subúrbios degradados e inóspitos e bairros-dormitório onde uma população deprimida tenta apenas sobreviver.

Violência juvenil dentro e fora da escola

violencia-escolar.JPGO caso do rapaz de 15 anos violentamente agredido em Almada por um grupo de jovens e que ontem foi notícia, embora não tenha ocorrido numa escola, nem os agressores fossem colegas da vítima, trouxe de novo à actualidade o tema da violência em meio escolar. O que é acima de tudo, o reflexo de uma realidade preocupante: quando desistimos de intervir, nas famílias e na sociedade, para prevenir e combater os comportamentos violentos, olhamos sempre para a escola à espera que ela faça algum milagre.

Olhando então para a violência nas escolas, a tendência que percebemos é que ela está a aumentar, sobretudo nas escolas que servem as zonas degradadas em redor das grandes cidades. Esta é uma percepção dos profissionais que aqui trabalham, confirmada pelos relatórios policiais: o número de ocorrências tende a aumentar.

Agora o que é lamentável, mas só surpreende quem se deixou enganar pela demagogia de Nuno Crato, é que a obsessão do seu ministério à volta de estatísticas se tivesse cingido à avaliação do aproveitamento dos alunos e à construção de rankings de escolas, tendo descontinuado, a partir de 2013, o tratamento dos dados sobre violência escolar:

[…] a nível nacional os dados deixaram de ser tratados e analisados pelo Ministério da Educação há três anos. O mais recente relatório sobre violência em ambiente escolar da responsabilidade do ministério foi publicado em 2014, e é relativo ao ano lectivo de 2012/2013. O Ministério da Educação não explica se não o foi por falta de informação ou de técnicos para analisarem os dados. O relatório era até então (desde 2008) elaborado por três direcções-gerais – Educação, Estabelecimentos Escolares e Estatísticas da Educação e Ciência.

Passando pelos problemas sociais com a sensibilidade de um elefante na loja de porcelanas, Crato acabou também com a Formação Cívica – uma disciplina onde os temas da indisciplina, da violência e da cidadania eram trabalhados. Ainda assim, e com as óbvias limitações de estarem muitas vezes a fazer sozinhas um trabalho que deveria envolver também as famílias, as organizações da sociedade civil, as autarquias e as instituições tutelares de menores, as escolas têm conseguido alguns progressos, como é reconhecido pela PSP, um dos poucos aliados com que têm podido contar nesta matéria:

A maior parte das queixas vem de dentro das escolas, e são feitas por funcionários a quem os alunos contam o que se passou. Há mais consciência e solidariedade entre colegas para denunciar situações violentas, diz o subintendente Hugo Guinote. As acções de sensibilização das próprias polícias encorajam a queixa e, “localmente, a PSP continua a articular muito bem com as escolas”.

Os especialistas acreditam que a violência juvenil poderia ser substancialmente reduzida, dentro e fora das escolas. Mas para isso é necessário que todos assumam as suas responsabilidades e que se trabalhe em conjunto para combater a cultura de violência e de impunidade que vai grassando e que acaba por transformar agredidos em agressores, naturalizando e perpetuando a violência.