Tens 9 anos. Já namoras?

E já agora: gostas de rapazes ou de raparigas? Ou de ambos?…

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O inquérito que estará a ser feito a alunos da Escola Básica Francisco Torrinha, no Porto, não parece ser do agrado de alguns pais, que denunciaram a situação nas redes sociais. A mim, numa primeira leitura, e antes de ouvir explicações de quem de direito, parece-me um bocado disparatado, para não dizer completamente despropositado.

Qual o interesse de recolher, ainda que – vamos admitir – sob anonimato, este tipo de dados, sobretudo em idades tão precoces? E que uso se pretende fazer deles? Será uma prática restrita a esta escola ou a “política de recolha de dados” estende-se a todo o agrupamento a que pertence?

Às perguntas, para já sem resposta, aguardam-se os esclarecimentos dos responsáveis da escola e do agrupamento a que pertence.

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As pessoas são livres de deixar o Facebook

facebookdislike.jpgOs utilizadores do Facebook podem escolher sair a qualquer altura. A ideia foi frisada pelo próprio Mark Zuckerberg, durante uma longa audição no Congresso norte-americano. “A decisão é deles”, disse Zuckerberg, que não parecia convencido com a ideia avançada pelos congressistas de uma rede social em que tudo é privado à partida.

Estou longe de ser um fã do Facebook. Reconheço nesta rede social um enorme potencial para promover a comunicação entre as pessoas mas desagrada-me o domínio avassalador que adquiriu nos últimos anos. Detesto especialmente a facilidade com que se propagam mentiras, calúnias, preconceitos e “fake news”. Aborrece-me a futilidade, a superficialidade, o preconceito, o “achismo” irreflectido e a ignorância convencida de muitos que por lá andam. Desgosta-me o moralismo dos censores facebookianos, sejam humanos ou virtuais e, acima de tudo, o sistema quase pidesco das “denúncias” que coloca os utilizadores a vigiarem-se mutuamente.

Dito isto, acho que o criador do Facebook tem razão nalgumas coisas que afirmou perante o Congresso dos EUA: as pessoas são tão livres de entrar como de, a todo o momento, sair do Facebook. São elas que devem decidir o que querem partilhar e com quem. Podem regular o nível de exposição com o qual se sentem confortáveis. E, acima de tudo, têm de ter consciência de que não há almoços grátis: o uso de uma plataforma com as potencialidades de que o Facebook dispõe nunca é verdadeiramente gratuito – se não é pago de uma forma, paga-se de outra. A questão é, como será sempre, saber se as pessoas pretendem colocar o Facebook ao serviço dos seus próprios objectivos – sejam eles contactar com os amigos, promover um negócio, divulgar as suas opiniões ou exibir a sua vida social – ou deixar que o Facebook ou os outros utilizadores façam o uso que entenderem da informação pessoal que despreocupadamente vamos publicando.

O lado sombrio da gamificação do ensino

big-brother.JPGA gamificação, ou seja, a aprendizagem através de jogos educativos mais ou menos sofisticados, tirando partido do enorme e recente desenvolvimento das TIC, tem sido apontada por alguns como uma das grandes tendências da Educação no século XXI. E já mereceu por aqui as honras de um post.

Sabemos que os desafios lançados através de jogos que atribuem uma recompensa imediata a quem cumpre os objectivos propostos podem ser extremamente motivadores. E como a motivação dos alunos é frequentemente um calcanhar de Aquiles no ensino massificado dos nossos dias, compreende-se a atracção dos pedagogos mais inquietos e inovadores pela integração do potencial dos jogos educativos na sala de aula.

Contudo, converter a aprendizagem num jogo, no qual se ganha pontos à medida que se cumpre o que vai sendo pedido, envolve também riscos, sendo um deles bem conhecido: habituar o aluno a agir apenas em função da recompensa e do cumprimento de um conjunto de tarefas pré-definidas e padronizadas não contribui muito para o desenvolvimento nem do espírito de iniciativa nem da autonomia. E torna mais complicado assumir tarefas e compromissos que, podendo ser altamente compensadores a longo prazo, estão longe de proporcionar uma recompensa ou satisfação imediatas.

Recentemente, Laura R. Pinkerton, da Universidade de Oxford, investigou outro lado sombrio da gamificação: não serão que os jogos electrónicos uma forma de preparar os nossos alunos para a vida num estado policial?

O aumento da vigilância massiva está também a acontecer na sala de aula – através do uso de jogos online que guardam os resultados e informam o professor em tempo real acerca do comportamento e capacidades dos alunos.

A gamificação nas escolas ensina às crianças que devem esperar que cada movimento seu seja vigiado, avaliado e eventualmente partilhado publicamente. Faz a perda de privacidade parecer normal e prepara a juventude para aceitar a vigilância massiva na sua vida adulta.

A investigadora cita ferramentas digitais altamente sofisticadas que permitem captar e registar detalhadamente uma gama cada vez maior de comportamentos infantis, incluindo a forma como as crianças pensam e sentem. Sistemas aparentemente inofensivos como o ClassDojo guardam informação sobre os alunos na nuvem digital, que depois pode ser partilhada com a turma ou com os pais. Este big brother digital imposto na vida das crianças sob a forma de um “olho que tudo vê” pode ser por muitos considerado uma forma branda de controle. Mas, se enveredarmos por este caminho, duvido que estejamos a prestar um bom serviço aos nossos alunos e aos nossos filhos…

A popularidade da gamificação é compreensível. Aprender deveria ser divertido pelo menos durante parte do tempo e os professores precisam de saber o que os estudantes estão a fazer na sala de aula. Mas com o aumento crescente dos meios de vigilância massiva no mundo dos adultos, deveríamos estar a ensinar as crianças a pensar criticamente sobre privacidade e medo – em vez de as treinarmos para renunciarem à primeira e viverem subjugadas pelo segundo.

 

O moralista e a facada no matrimónio

horta-osorio.JPGO CEO do Lloyds Bank, o português António Horta Osório, terá tido um romance com uma antiga conselheira do Tony Blair, escreve o jornal britânico The Sun.

Um dos mais bem pagos banqueiros do mundo terá passado uma temporada em Singapura com Wendy Piatt num hotel de cinco estrelas. A mulher, garante o periódico, foi vista a entrar e a sair várias vezes do quarto do homem, de 52 anos, e até teria uma chave do quarto do executivo.

Casado e pai de três filhos, Horta Osório estava em Singapura para participar numa conferência internacional, em junho passado. Piatt estava na mesma cidade para “fortalecer laços com universidades estrangeiras”, acrescentou o jornal.

Menos atento, em tempo de férias, ao que vai saindo nos jornais, passou-me despercebida esta breve notícia que a imprensa sensacionalista veiculou, há cerca de duas semanas, sobre o banqueiro português que dirige o Lloyds e a escapadela romântica com a amante num hotel de Singapura.

A hipótese de as férias de luxo terem sido pagas pelo próprio banco foi entretanto descartada, pelo que sobra a questão moral, a relação extra-conjugal de um homem de meia-idade, casado há 25 anos. Ora bem, casos destes são relativamente vulgares, pertencem à esfera da vida privada dos envolvidos e não deveriam ser trazidos à praça pública, dir-me-ão. Ainda para mais quando a legítima parece não se importar com o assunto.

Mas a verdade é que há aqui um interesse público em debater a notícia, que deriva do facto de Horta Osório se ter armado em moralista há uns tempos atrás e, na qualidade de banqueiro, ter publicado um código de conduta para os seus empregados no banco. O homem que agora foi apanhado a encontrar-se com a amante em quartos de hotel é o mesmo que aconselha os subordinados a moderar o seu comportamento, tendo em conta a forma como este é visto pela família e amigos.

Andaríamos bem melhor se cada um usasse os seus princípios morais para nortear a sua própria vida, em vez de querer impor aos outros padrões de exigência que não sabe ou não quer aplicar a si mesmo: eis o que se conclui da pouco edificante história do moralista Osório, por enquanto ainda banqueiro português em terras de Sua Majestade.

Quando o caçador é apanhado

350x700px-LL-8a2ec9b8_media[1]A actriz francesa Sophie Marceau cansou-se de ser constantemente seguida e fotografada pelos paparazzi, repórteres de imagem especializados em obter fotografias e vídeos de da vida privada de pessoas famosas precisamente naquelas situações em que elas não desejam ser filmadas ou fotografadas.

Em vez de se exasperar, Sophie decidiu há dias reagir de uma forma original e, ao que parece, eficaz: de câmara em punho, dirigiu-se ela própria aos paparazzi que lhe vigiavam a casa, interpelou-os e filmou-os.

O resultado é o que se esperaria: estas pessoas que ganham a vida a espiar a vida dos outros ficam de repente constrangidas e incomodadas por estarem a ser filmadas. Escondem a cara debaixo de carapuço, como crianças apanhadas a fazer uma asneira. Envergonham-se do que fazem, mas não deixam de o fazer. E mostram como é difícil aceitar que nos façam a nós o mal que fazemos aos outros.

Mostrar a família, para quê?

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À mulher do primeiro-ministro, Laura Ferreira, foi diagnosticada há uns tempos atrás uma doença grave. Na altura o facto foi divulgado publicamente, bem como a necessidade de a senhora se submeter aos tratamentos médicos agressivos habituais nestas situações para tentar debelar a doença.

Passos Coelho referiu-se ao assunto pedindo à comunicação social que respeitasse a privacidade da sua família e do momento difícil que estavam a viver, abstendo-se de publicar notícias ou imagens sobre o assunto. Julgo que isto foi, de um modo geral, respeitado.

No entanto, mais recentemente, mesmo as pessoas que, como é o meu caso, não costumam ler as revistas dedicadas à vida social, não podem deixar de reparar nas fotos que vão enchendo as capas de todas essas revistas e onde Passos aparece acompanhado da mulher, ainda não recuperada dos tratamentos.

Porque na política pouca coisa sucede por acaso, em que ficamos, então: reserva da vida privada do primeiro-ministro, ou aproveitamento de uma circunstância que, contribuindo para humanizar a figura do primeiro responsável pelo governo mais austeritário da nossa democracia, é susceptível de gerar uma onda de empatia e solidariedade que pode trazer benefícios em termos de popularidade e, obviamente, ganhos eleitorais?…