A Ilustre Casa de Ramires está à venda

torre-da-lagaricaA Casa da Torre da Lagariça é uma construção cuja origem remonta à primeira metade do século XII, quando foi construído o torreão militar em plena época da reconquista cristã. Já no século XVII, os proprietários da torre decidiram construir à volta um solar em forma de L, não tendo alterado a torre.

O escritor Eça de Queirós visitou o local situado na freguesia de São Cipriano, em Resende, e inspirou-se para escrever A Ilustre Casa de Ramires, publicado em 1900. “E como o visconde [de Rio-Manso] aludia ao desejo, já nele antigo, de admirar de perto a famosa torre, mais velha que Portugal – ambos desceram ao pomar. O visconde, com o guarda-sol ao ombro, pasmou em silêncio para a torre”, lê-se, por exemplo, no capítulo VIII.

A torre é mais antiga que Portugal e o solar, erguido à sua volta, um exemplar típico das tradicionais residências da pequena nobreza rural. Em redor, uma pequena quinta com horta, pomar, jardins e uma mata.

990 mil euros é quanto custa, no site da Remax, a propriedade, naturalmente a precisar de obras e a merecer reabilitação, eventualmente no âmbito de um projecto de hotelaria. Haverá interessados, ou irá a velha casa juntar-se, a breve prazo, ao triste espólio do Portugal arruinado?…

Pressão turística

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O outro lado do Pinhal Interior

Florestas e casas ardidas, estradas e automóveis calcinados, dezenas de mortos e feridos, famílias destroçadas e desalojadas: foi a imagem que nos ficou da zona do Pinhal Interior, onde ocorreu o incêndio florestal de mais graves consequências de que há memória em Portugal.

Mas esta zona esquecida de Portugal também tem os seus encantos: vilas e aldeias, rios e praias fluviais, património natural e cultural que vale a pena conhecer e apreciar.

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Defender o património no século XXI

Muito se fala, nos tempos que correm, da necessidade urgente de construir uma escola para o século XXI.

Pois a mim preocupa-me muito mais que outras coisas, como a defesa do património natural, histórico e cultural, permaneçam, nalgumas partes país, ao nível de um século XIX ainda nos seus primórdios.

É que nas escolas em qualquer altura podemos trocar a disposição da mobília, colocar rodinhas nas cadeiras ou tirar as rodinhas, substituir os computadores por tablets ou projectores por ecrãs de LCD, desmembrar as turmas, refazê-las, baralhar e dar de novo e no fim, se nos apetecer, fazer voltar tudo ao princípio.

Agora quando enfiamos um bulldozer por uma jazida arqueológica e arrasamos tudo o que lá está, os danos são irremediáveis. E se eu julgava que isso, no Portugal do século XXI, já não sucedia, fiquei a saber que, nalgumas zonas do Algarve, a ganância de promotores e empreiteiros, aliada à negligência dos (ir)responsáveis, continua com a rédea solta e a cometer, na maior da impunidades, os mais bárbaros atentados ao património.

Vem isto a propósito de uma das mais importantes cidades romanas no território hoje português. Onde hoje se situam Tavira e alguns empreendimentos turísticos junto à ria Formosa, existiu a cidade de Balsa, que no século II tinha o dobro do tamanho de Lisboa e cujos vestígios arqueológicos estão documentados, desde o século XIX, numa vasta área.

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Concessionar o Forte de Peniche?

parlatorio.jpg[…] o PCP afirmou esta semana que a inclusão do Forte de Peniche numa lista de 30 monumentos que serão alvo de concessão a privados é “uma manifestação de desprezo para com a luta antifascista em Portugal” e “um dos mais significativos ataques à memória coletiva dos portugueses”.

“Pelo simbolismo que encerra, não podemos deixar de criticar de forma veemente o facto de o governo ter colocado nesta lista a Fortaleza de Peniche, ignorando a importância histórica e cultural de um espaço onde não é possível conciliar a actividade hoteleira e turística com a necessidade de preservar integralmente as suas características prisionais históricas”, reforçou o gabinete de comunicação dos comunistas.

Nada mais errado, responde o autarca independente eleito pelo PCP. “Estamos a preservar a memória do Forte de Peniche”, assegura António José Correia, acrescentando que “nada disto põe em causa os espaços históricos”. O autarca admite que “há legitimidade na posição do PCP, na apreensão genérica relativamente ao programa” anunciado pelo Ministério da Economia, mas assegura que as críticas em relação a Peniche não fazem sentido.

Conheço bem o Forte de Peniche, local onde já diversas vezes levei alunos meus em visitas de estudo, pois é talvez o melhor sítio do país para se perceber, ao vivo, o que foi a repressão política no tempo do Estado Novo e a resistência antifascista contra o regime de Salazar. Embora a história da fortaleza de Peniche, baluarte de defesa da costa e da localidade vizinha, não se cinja ao papel de prisão que teve nos tempos da ditadura.

O espaço museológico que hoje se encontra na antiga prisão política representa um notório esforço, sobretudo da câmara local e de antigos presos políticos, para manter viva a memória da vida quotidiana na cadeia e de alguns momentos marcantes da história da ditadura, nomeadamente as raras fugas bem sucedidas que os prisioneiros conseguiram empreender. Mas parece-me que, tendo em conta a abundância do espólio material e dos testemunhos de um passado ainda recente e o razoável estado de conservação do património edificado, seria possível valorizar ainda mais o museu existente, atraindo mais público e tornando a visita mais enriquecedora.

Dito isto, acho a posição do PCP, curiosamente contrária à dos seus autarcas em Peniche, mas entretanto secundada por militantes do PS como Manuel Alegre ou Francisco Assis, demasiado fundamentalista e notoriamente exagerada. A proposta de concessão da fortaleza a privados para fins turísticos não afecta, segundo os proponentes e defensores da ideia, o espaço do actual museu. Acontece que a prisão de Peniche, a maior do Estado Novo exclusivamente para presos políticos, tem uma dimensão apreciável, e apenas uma pequena parte se encontra recuperada e visitável. A maior parte do edifício principal está devoluta, e não me repugna que possa ser convertida em algo que, mantendo a memória da ditadura e da resistência, possa servir adequadamente a outros fins, nomeadamente de alojamento turístico.

Posso ter dúvidas de que haja privados interessados em recuperar um património daquele tipo ou de que estudos de mercado consigam mostrar a rentabilidade de um projecto, eventualmente dispendioso, de recuperação do espaço para fins turísticos. Mas se um empreendimento se mostrar viável, aproveitando instalações desaproveitadas desde o fim da ditadura, e isso potenciar a valorização do museu e da actividade turística actualmente existente, então não vejo porque não apostar.