Um caso positivo entre docentes e não-docentes de Vila Real

covid-testeEntre a comunidade escolar, tal como no conjunto da sociedade, há uma realidade evidente que muitos fazem por ignorar: quantos mais testes ao covid-19 se fizerem, mais casos se poderão encontrar. Em sentido inverso, se não testarmos até poderemos alimentar a ilusão de que a pandemia está, quase miraculosamente, a desaparecer.

Em Vila Real não foram  em conversas e testaram todo o pessoal docente e não docente que estará envolvido na reabertura das aulas no secundário a partir de amanhã. E logo detectaram um caso positivo…

Tendo em conta que a região transmontana é das que têm menos casos registados no país (este é o 151.º, surgido ao fim de dez dias seguidos sem aparecimento de novos casos), como será nas zonas do país onde houve maior disseminação da doença e onde não se considerou necessária a realização de testes?…

O rastreio efetuado pela Câmara de Vila Real a 163 professores e funcionários das escolas públicas do concelho detetou um caso positivo antes do regresso às aulas presenciais na segunda-feira, disse hoje o município.

A autarquia transmontana decidiu testar todo o pessoal docente e não docente antes de serem retomadas as aulas presenciais para os alunos do 11.º e 12.º anos, das escolas secundárias Camilo Castelo Branco e São Pedro e no Agrupamento de Escolas Morgado Mateus.

O rastreio abrangeu 163 professores e funcionários e, segundo o município, “um deles teve resultado positivo”.

“A pessoa em questão já está informada deste resultado. Revela-se assim acertada a iniciativa de testar o pessoal docente e não docente, antes do reinício das aulas presenciais, pois evitou-se um eventual foco de propagação da doença”, afirmou a autarquia.

Apesar de “não ter sido considerada prioritária” a testagem destes profissionais ao nível nacional, o município de Vila Real decidiu avançar nas escolas do concelho, tendo sido “uma das poucas autarquias do país em que isso aconteceu”.

Leituras: Parábola dos Sete Vimes

sete-irmaos.jpgEra uma vez um pai que tinha sete filhos. Quando estava para morrer, chamou-os todos sete e disse-lhes assim:

— Filhos, já sei que não posso durar muito; mas antes de morrer, quero que cada um de vós me vá buscar um vime seco, e mo traga aqui.

— Eu também? — perguntou o mais pequeno, que só tinha 4 anos. O mais velho tinha 25, e era um rapaz muito reforçado e o mais valente da freguesia.

— Tu também — respondeu o pai ao mais pequeno.

Saíram os sete filhos; e daí a pouco tornaram a voltar, trazendo cada um seu vime seco.

O pai pegou no vime que trouxe o filho mais velho, e entregou-o ao mais novinho, dizendo-lhe:

— Parte esse vime.

O pequeno partiu o vime, e não lhe custou nada a partir.

Depois o pai entregou outro ao mesmo filho mais novo, e disse-lhe:

— Agora parte também esse.

O pequeno partiu-o; e partiu, um a um, todos os outros, que o pai lhe foi entre­gando, e não lhe custou nada parti-los todos. Partido o último, o pai disse outra vez aos filhos:

— Agora ide por outro vime e trazei-mo.

Os filhos tornaram a sair, e daí a pouco estavam outra vez ao pé do pai, cada um com seu vime.

— Agora dai-mos cá — disse o pai.

E dos vimes todos fez um feixe, atando-os com um vincelho.

E voltando-se para o filho mais velho, disse-lhe assim:

— Toma este feixe! Parte-o!

O filho empregou quanta força tinha, mas não foi capaz de partir o feixe.

— Não podes ? — perguntou ele ao filho.

— Não, meu pai, não posso.

— E algum de vós é capaz de o partir? Experimentai.

Não foi nenhum capaz de o partir, nem dois juntos, nem três, nem todos juntos.

O pai disse-lhes então:

— Meus filhos, o mais pequenino de vós partiu sem lhe custar nada todos os vi­mes, enquanto os partiu um por um; e o mais velho de vós não pôde parti-los todos juntos; nem vós, todos juntos, fostes capazes de partir o feixe. Pois bem, lembrai-vos disto e do que vos vou dizer: enquanto vós todos estiverdes unidos, como irmãos que sois, ninguém zombará de vós, nem vos fará mal, ou vencerá. Mas logo que vos sepa­reis, ou reine entre vós a desunião, facilmente sereis vencidos.

Acabou de dizer isto e morreu — e os filhos foram muito felizes, porque viveram sempre em boa irmandade, ajudando-se sempre uns aos outros; e como não houve forças que os desunissem, também nunca houve forças que os vencessem.

Trindade Coelho, Os Meus Amores (1891).

Leituras: Uma aldeia transmontana

tras-os-montes.jpgPouco diferente da época remota em que a tinham funda­do como povoado, a aldeia era ainda uma rua de casas de pedra solta, cortada por meia dúzia de becos ladeados de pa­lheiros, estábulos, pocilgas, aqui e além um curral, um pal­mo de horta.

Ao cimo, junto da igreja e a única com reboco e cal, fica­va a casa dos Pimentéis, gente da pequena aristocracia da província, latifundiários, donos da «Casa Grande» de Caste­lo Branco e, desde gerações, também mais ou menos «do­nos» da Câmara e da influência política no concelho de Mogadouro.

Ao fundo ficava a capela. A rua, longa, quase a direito e nalguns pontos larga de dez metros, era de piso desigual, porque afloravam nela rochedos que nada conseguia desgas­tar. No começo do Inverno, seguindo a largura das casas até ao meio da calçada, cada um deitava montes de palha corta­da que depois, trilhada pela passagem da gente e das bestas, ensopada pela chuva, as penicadas e o lixo das casas, não tardava a fermentar. Nuvens de moscas e mosquitos cobriam tudo, mordiam com uma ferocidade de praga bíblica, mas o hábito da sujidade era consagrado pelo tempo, e o adubo indispensável para uma terra que a natureza fizera pobre. Ninguém se lembraria então de associar a estrumeira da rua e a das casas — onde os animais tinham estábulo no rés-do-chão — com as terríveis doenças que os afligiam.

Poucos eram também os que escapavam às «febres», a malária que os punha escaveirados, magros como espetos, e os atormentava no pino da canícula com calafrios que ne­nhum lume aquecia, seguidos de ardores que pareciam os das chamas do inferno.

Morriam da malária e da cólera, do tifo, da tuberculose, do antraz, do vómito-negro, mas também do desleixo e do isolamento. Levavam-se os doentes a cavalo ou de liteira pa­ra Moncorvo, viagem dum dia inteiro por maus caminhos e, chegados lá, o único médico ou não estava ou dizia-lhes que esperassem; se não queriam ou não podiam fossem à Pes­queira, dois dias mais longe. Por isso se curvavam ao que lhes parecia a vontade do Senhor e este, misericordioso, às vezes aceitava-lhes as orações, obrava curas milagrosas. De milagres eram também capazes os ciganos, que sabiam dis­tinguir os carbúnculos e outras feridas ruins, e as faziam de­saparecer queimando fundo a carne com um ferro em brasa.

No Verão, porque a pouca água se tornava salobra, ha­via mais doenças e sobretudo os pequenitos morriam como passarinhos: levava-os o sarampo, as «bexigas», a soltura; acontecia fenecerem dum momento para o outro e dizia-se então que era um bem, uma caridade de Deus que os chama­ra a si para lhes poupar o sofrimento de viver.

J. Rentes de Carvalho, Ernestina (2009).

Design português

Se lhe dissessem que é uma peça de design exclusiva, com assinatura e preço a condizer, quanto estaria disposto a dar por ela?

banco.jpg

Pois a verdade é que não está à venda. Faz parte das colecções do Museu de Etnologia e foi feita por um artesão transmontano anónimo, aproveitando elementos do rodado de um carro de bois. E foi uma das muitas peças que fascinou o designer inglês Jasper Morrison, que viu nestes pequenos tesouros do artesanato popular a origem do design moderno:

“Já visitei muitos museus de Etnologia ou de Arte Popular mas nunca tinha visto uma colecção com esta dimensão e qualidade. Encantou-me. Até me esqueci de perguntar se podia fotografar”, conta ao PÚBLICO numa conversa por e-mail, entre o Japão e Londres, enquanto recorda o início de The Hard Life […].

The Hard Life é apresentado com interrogações como estas: Como é que peças com uma beleza e ingenuidade tais eram produzidas na dureza do quotidiano rural de Portugal? Como é que a aparência destes objectos encontra o equilíbrio perfeito entre a necessidade e a perfeição da forma?

thehardlife.jpgVale a pena ler a peça do Público, onde se explica como este projecto foi tomando forma, passando-se também em revista um pouco da história de um dos museus mais importantes, mas menos conhecidos, da capital. E se evoca o trabalho intenso da equipa de fundadores, que percorreu o país em busca dos testemunhos materiais de um Portugal tradicional já então a caminho da extinção.

A epidemia transmontana

tras-os-montes.jpgO distrito de Bragança concentra este ano mais de 10% de todos os professores destacados por doença do país. Dos 4160 pedidos deferidos pelo Ministério da Educação, 438 são para os 14 agrupamentos do Nordeste Transmontano. Uma situação que já criou polémica no ano passado. Ainda assim, este ano lectivo, o número de professores destacados nessas condições cresceu 20% face a 2015/16. São 76 os novos casos deferidos.

O maior aumento regista-se em Mirandela (28 casos) enquanto que o agrupamento Emídio Garcia, em Bragança, continua a ser o recordista, voltando a superar os cem professores ali colocados ao abrigo deste expediente. O pedido de destacamento é feito com base em relatórios médicos que atestam a doença e a necessidade de deslocação e/ou em documento da junta de freguesia que atesta a dependência exclusiva do ascendente, entre outros.

De acordo com informação prestada pelos próprios agrupamentos, há cinco em que o número de professores ali colocados em mobilidade por doença ultrapassa os 50 (Abade de Baçal, em Bragança, com 55, Miguel Torga, também em Bragança, com 57, Macedo de Cavaleiros, com 59 e Mirandela, com 63 e o recordista Emídio Garcia, em Bragança, com 104).

Ao contrário do que sucedia no tempo de Nuno Crato, um conhecido amante de estatísticas que nunca quis divulgar os números relativos à mobilidade por doença, vamos tendo agora alguma informação sobre a quantidade de professores colocados, a distribuição geográfica das colocações e o impacto que isto estará a ter nas escolas e agrupamentos de destino destes docentes.

Ora estes números, agora divulgados pelo Público, permitem, sobretudo no caso da região transmontana, fazer uma análise que vá um pouco para além das suspeições de fraude – uma discussão relativamente estéril, que esbarra sempre na correcção formal dos procedimentos e no veredicto inatacável do médico que atesta a doença.

Assim, pode começar por dizer-se, contrariando o título do post, que não há qualquer epidemia a atacar especialmente os professores e educadores transmontanos. O que há, isso sim, é uma zona pedagógica de dimensões monstruosas: distritos de Vila Real, Bragança e parte dos da Guarda e Viseu. Combinando isto com a dispersão e desertificação do interior, as fracas acessibilidades, o encerramento de escolas do 1º ciclo, a redução de vagas nas restantes e um corpo docente envelhecido, facilmente teremos professores do quadro com muitos anos de serviço a serem colocados a mais de cem quilómetros de casa.

A realidade é que, com uma política de quadros e concursos que promovesse a estabilidade e fosse proporcionando, como sucedeu durante décadas, a gradual aproximação dos professores às suas áreas de residência, criando ao mesmo tempo incentivos à fixação nos concelhos do interior, a colocação de docentes poderia há muito ter deixado de ser o problema nacional que todos os anos ressurge nesta altura do ano.

Concursos sem vagas ou pejados de vagas negativas, um crescimento desmesurado dos quadros de zona pedagógica enquanto se fechavam os lugares nas escolas e se aumentava insensatamente o âmbito geográfico daquelas, desequilíbrios da rede escolar provocados pela criação de mega-agrupamentos e pela expansão dos contratos de associação em determinadas zonas do país: tudo isto funcionou como bloqueio da mobilidade dos professores e da constituição de corpos docentes estáveis que muitas escolas ainda estão longe de conseguir ter.

Assim, para muitos docentes que sofrem de doenças incapacitantes ou se tornaram suporte imprescindível de familiares doentes, é o recurso à mobilidade por doença como única forma de conseguir uma colocação que não implique passar o ano de atestado médico. Que atrás destes venham outros, aproveitando de forma oportunista uma legislação nalguns aspectos demasiado permissiva, é uma daquelas inevitabilidades aliadas a um sentimento geral de impunidade entre nós, infelizmente, demasiado habituais.

Tombe la neige…

Neve na Serra d'Aires
© NUNO ANDRÉ FERREIRA/LUSA

 

Leituras: O cavaquinho

torga_290[1]O Ronda era o homem mais pobre de Vilela. Mas teve uma tal alegria quando o filho, o Júlio, fez o primeiro exame com óptimo, que prometeu pela sua salvação que lhe havia de dar uma prenda no Natal. O rapaz ouviu-lhe a jura desconfiado. Apesar dos dez anos, já conhecia a vida. Uma prenda, se nem dinheiro havia para a broa! Em todo o caso, pelo sim, pelo não, foi pondo de vez em quando uma acha na lembrança do pai, e em Dezembro, na véspera da feira dos 23, avivou a chama:
– Então sempre vai à Vila?
– Pois vou.
– E traz-me a prenda?
– Trago.
Fez-se silêncio. A ceia tinha sido caldo de couves e castanhas cozidas. Mais nada. A noite estava de invernia. Sobre o telhado caíam bátegas rijas de chuva. E como a casa era de pedra solta e telha vã, cheia de frestas, o vento, que parecia o diabo, de vez em quando entrava por um buraco a assobiar, passava cheio de humidade pela chama da candeia, que se torcia toda, e sumia-se por debaixo da porta como um fantasma. Mas a murra de castanheiro a arder e aquela firmeza com que o Ronda garantiu a promessa, doiravam tudo de fartura e aconchego.
– E o que é que me vai dar?
– Isso agora…
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