Novamente os incêndios

 

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Quando os responsáveis se preparavam para encerrar a época oficial dos fogos, eis que a conjugação da habitual mão criminosa ou negligente com os factores de risco máximo de incêndio – mais de 30º de temperatura, menos de 30% de humidade relativa, ventos a mais de 30km/h – varreu novamente o país de labaredas.

A crescente gravidade destes fenómenos, que não encontra paralelo em qualquer outro país europeu, deveria levar a repensar seriamente as estruturas e o modelo que ao longo destes anos foi criado para a prevenção e combate aos incêndios e a protecção das populações vítimas dos fogos.

Além dos terrenos florestais e agrícolas, das casas e dos automóveis ardidos, o último balanço, quando escrevo estas linhas, ia já em 27 mortos e cerca de 50 feridos. Isto é intolerável. Até quando terá de continuar a morrer gente, para que se perceba que não podemos deixar que estas tragédias, como parecia sugerir ontem o primeiro-ministro, passem a fazer parte do novo normal?

De facto, a protecção civil cresceu em cargos, responsabilidades e dinheiro para gastar. Houve jobs for the boys e também para gente experiente e competente. As câmaras viram as suas competências acrescidas a este nível, profissionalizaram-se bombeiros, investiu-se na formação, fizeram-se contratos milionários em torno de meios aéreos e outros equipamentos dispendiosos de combate ao fogo e num caprichoso sistema de comunicação de emergência que nas horas críticas deixa de funcionar. Mas o que se constata é que tudo isto falha clamorosamente de cada vez que temos um verão mais seco e prolongado.

Não se pede a quem coordena todas estas coisas que faça milagres, e sabemos que algumas situações extremas serão, pela sua natureza, incontroláveis. Contudo, o que se passou ontem nalgumas estradas portuguesas, por exemplo, parece demonstrar que se aprendeu muito pouco com o incêndio de Pedrógão. danca-da-chuva.jpgSó por sorte não houve ontem à noite, no IP3, uma catástrofe ainda pior do que a de há quatro meses, quando vários automóveis e autocarros cheios de passageiros ficaram cercados pelas chamas.

Impotentes perante o fogo, acabamos todos a pedir que chova.

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O incêndio de Pedrógão e a pergunta que se impõe

incendio.JPGO Público faz a sua habitual mega-reportagem em torno dos exames nacionais, que desta vez inclui, além dos habituais conselhos e textos de auto-ajuda, uma entrevista ao próprio ministro sobre tão momentoso assunto da actualidade educativa. E Tiago Brandão Rodrigues não se faz rogado:

Tenho apenas uma palavra a dizer aos alunos que terão exames: tranquilidade. A tranquilidade de saber que o seu trabalho empenhado ao longo do ano tem agora mais um momento em que emerge. A tranquilidade de saber que os exames versam sobre o que já aprenderam e não sobre o que está por ensinar, pelo que a grande preparação é resultado do trabalho feito ao longo do ano.

Palavras sensatas: os exames são apenas mais um instrumento de avaliação, com virtualidades mas também com limitações. E tão errado é desprezá-los ou diabolizá-los como fazer deles o corolário ou o supra-sumo do processo de ensino-aprendizagem.

Mas a questão que gostaria de ver hoje colocada aos responsáveis do ministério, depois de ter tomado conhecimento de toda a dimensão da tragédia provocada pelo incêndio de Pedrógão Grande – os 58 mortos confirmados, mais de 50 feridos, famílias destroçadas, haveres destruídos, populações extenuadas – é esta:

O que está previsto em relação aos estudantes daquela zona que amanhã terão de fazer provas de exame?

Já alguém tratou de averiguar se estes alunos, mesmo os que escaparam fisicamente ilesos às chamas, terão as condições anímicas necessárias para o que lhes irá ser exigido?

Ou segue-se a lógica fria da lei, invocando as “necessidades sociais impreteríveis” das provas que “têm de se realizar na mesma data em todo o território nacional”?…

Adenda: foi confirmado pelo próprio primeiro-ministro que amanhã não haverá exames em Pedrógão Grande, sendo adiados para data mais oportuna. Concordo com a decisão tomada, mas lamento que só perante tragédias desta dimensão se perceba o que são de facto necessidades sociais impreteríveis. E que um exame pode e deve ser adiado sempre que valores mais altos se levantam.

Fundos europeus e financiamento da educação

joao-miguel-tavares.jpgJoão Miguel Tavares, um jornalista-humorista que “tem dias”, escreveu hoje no Público sobre uma tema incómodo, mas pertinente: à medida que se intensifica nova vaga de fundos europeus, supostamente destinados ao desenvolvimento da nossa economia, tornando-a mais moderna e competitiva, vemos que o dinheiro está a servir, acima de tudo, para desorçamentar despesa em vez de promover o investimento.

Uma realidade inegável, que quem trabalha na Educação pode diariamente constatar: muita da despesa corrente das escolas portuguesas, incluindo salários de professores, é parcialmente paga com verbas europeias. Claro que podemos sempre dizer que o mais importante é haver dinheiro para manter escolas e cursos em funcionamento e pagar aos professores e funcionários. Mas percebe-se que a educação, apesar de vital para o desenvolvimento de um país, não é entre nós uma prioridade: só se fazem as coisas se, e quando, vier dinheiro de lá de fora. Porque o de cá é sempre mais bem empregue a amparar na queda um banqueiro do regime ou a proteger os negócios ruinosos de um qualquer comendador do regime.

A estratégia é magnífica: o Estado pergunta ao Estado se pode concorrer a apoios estatais, e o Estado permite ao Estado engordar um pouco mais. É uma chico-espertice que dura há décadas, e que subverte totalmente o espírito dos fundos comunitários. Enquanto Pedro Marques e António Costa anunciam debaixo dos holofotes que desta vez é que os fundos vão ser espectacularmente aplicados no desenvolvimento do país, no escurinho dos corredores lá está outra vez o Ministério da Educação a bater à porta do Ministério do Planeamento a pedir umas centenas de milhões para bolsas, que não precisam sequer de constar do seu orçamento. […] A DGES recebe 77 milhões de euros para estudantes do ensino superior, mais 90 milhões para alunos carenciados. O IEFP recebe quase 100 milhões para estágios “Emprego Jovem”, quase 90 milhões para estágios para jovens (que não “Emprego Jovem”), mais 37 milhões para a contratação de adultos. E por aí fora. Antigamente, os agricultores estouravam os fundos da Europa a comprar jipes. Actualmente, o Estado estoura os fundos da Europa a pagar a sua própria despesa.

O entusiasmo dos últimos anos com a municipalização da educação é um reflexo de tudo isto, e pouco tem a ver com impulsos descentralizadores do nosso Estado centralista, ou com algum súbito enlevo dos nossos autarcas pelos problemas da Educação. Trata-se apenas da forma mais expedita de conseguir mais dinheiro europeu para financiar despesas e investimentos nas escolas portuguesas.

A escola no cinema: A Onda

A Onda

Título original: Die Welle, 107m, Alemanha, 2008.

die-welle.pngQuando entre nós se discutem as virtualidades do trabalho de projecto e da aprendizagem colaborativa, talvez venha a propósito ver – ou rever, no caso de quem já conhece – uma história que tem como pano de fundo a semana de projecto, comum nos liceus alemães. Partindo de um tema-problema concreto – perceber se o nazismo teria condições para renascer na Alemanha do século XXI – um professor pouco convencional desenvolve com a sua turma uma experiência social que entusiasmou a maioria dos jovens, recriando a dinâmica social e a mentalidade colectiva que estiveram na origem dos fascismos europeus. Mas, aos poucos, as coisas vão ficando fora de controle…

Fica o trailer do filme e, embora não a recomende, pois não sou adepto de dobragens, uma versão integral dobrada em português do Brasil.

A escola no cinema: A Língua das Borboletas

A Língua das Borboletas

Título original: La Lengua de las Mariposas, 96m, Espanha, 1999.

lengua-mariposas.jpgNo dia em que se comemoram 86 anos da fundação da malograda II República espanhola, evoco um sensível e comovente filme que reflecte, no ambiente rural da Galiza, as profundas clivagens sociais e políticas dos anos 30 que haveriam de levar a uma sangrenta e prolongada guerra civil.

A Língua das Borboletas aborda a relação entre Moncho, um menino galego que, com sete anos, entra para a escola primária, e o seu idoso professor, Don Gregorio, um homem culto e progressista com quem aprende muitas coisas sobre a literatura, a vida e a natureza. Até mesmo sobre a língua das borboletas…

Mas a revolta nacionalista, no Verão de 1936, vai mudar por completo o mundo de Moncho…

Trailer do filme (em espanhol):

Filme completo (versão original, legendada em português):

A escola no cinema: O Dia da Saia

A escola no cinema é a designação de uma nova série de posts dedicada aos filmes que retratam a escola e o quotidiano de professores e alunos em diversas épocas, países e culturas. Tal como tenho feito com outros temas culturais, procurarei divulgar primordialmente cinematografias e filmes menos conhecidos, fugindo tanto quanto possível à hegemonia anglo-americana na indústria do audiovisual.

Nem todos os filmes estarão disponíveis nos circuitos comerciais, mas muitos deles encontram-se com relativa facilidade através da internet, por vezes mesmo em plataformas legais como o Youtube. Quanto a meios de legalidade duvidosa para “sacar” os que não se conseguem obter de outra forma, eles continuam a existir, mas não quero que algum zeloso polícia da internet me feche o blogue por os divulgar.

O Dia da Saia

Título original: Journée de la Jupe, 87m, França, 2008.

dia-da-saia.jpgO Dia da Saia é um filme francês pouco conhecido em Portugal, cujo argumento parte do dia-a-dia de uma turma problemática numa escola secundária dos arredores de Paris, que retrata de forma hiper-realista. No início atribulado de mais uma aula de Francês, a relação tensa entre a professora e os alunos indisciplinados e provocadores desencadeará, a partir de um incidente fortuito, um conjunto de acontecimentos inesperados e dramáticos: pretexto para a reflexão sobre os limites do multiculturalismo e a integração das minorias étnicas e religiosas na sociedade francesa.

Suicídio no banco, ou a história contada pela metade

bpi.JPGConsta que a maioria dos suicídios não são noticiados pela comunicação social. A não ser que as circunstâncias em que ocorrem ou a notoriedade das vítimas imponha a divulgação, os media costumam ter, nos restantes casos, o decoro de evitar expor dramas pessoais que, ao serem do conhecimento público, podem incentivar outras pessoas igualmente perturbadas a suicidarem-se também.

Um funcionário do BPI suicidou-se esta sexta-feira nas instalações do banco na rua Braamcamp, em Lisboa, avança o Observador. Porta-voz da instituição bancária garante ao site que não existia nenhum diferendo com o trabalhador.

O incidente deu-se na sexta-feira à hora do almoço. O funcionário suicidou-se com um tiro de caçadeira, a qual foi apreendida pela PSP.

O BPI avança ao Observador que o funcionário tinha 51 anos e tinha feito um pedido de transferência daquelas instalações de serviços centrais, na rua Braamcamp, para um balcão comercial, o qual fora aceite.

No caso deste empregado bancário que escolheu o gabinete do seu chefe para pôr termo à vida, o Observador, e na sua sequência diversos outros jornais que optaram por dar a notícia, estiveram mal. Não pela opção inteiramente legítima de noticiar o que acharam ser de interesse público, mas por contarem da história apenas o que convém à salvaguarda da boa imagem do banco onde o suicida trabalhava.

Se queriam falar do suicídio, deveriam ter investigado também as suas circunstâncias: como Os Truques demonstram, provavelmente iriam encontrar a história, descrita por um colega de trabalho, de um trabalhador moralmente assediado, desconsiderado, humilhado de forma reiterada pelas suas chefias directas e pela própria instituição, que só no suicídio encontrou saída para o seu desespero:

Hoje um amigo com quem trabalhei cometeu o derradeiro acto. Não sei com que dor, com que drama, com que desespero, com que impossibilidade. Soube apenas que deixou a sua vida.
E que soube e fui sabendo mais? Que preparou o momento. Tratou de alguns assuntos de ordem jurídica e levou uma arma de fogo para o local onde a utilizou. Ninguém faz isto sem previamente ter pensado e maturado no assunto. Não é um acto impulsivo. É um acto determinado.
[…]
Nos últimos tempos, no seu local de trabalho, a miséria humana que nos tem habituado sobrepõe-se à moral e oferece desconsiderações sucessivas ao limite de o deixar sem funções durante um mês. Depois disto oferece como recompensa de 25 anos de trabalho soluções que não se enquadram no seu perfil. Pouco importa a história concreta, porque o desfecho deste relato anulam por si qualquer outra dedução.
A uma hora que foi a hora dele, entra no gabinete da sua hierarquia e sabendo da sua ausência, marca a vermelho a alcatifa definitivamente.
Quem pode ser chefe e desconsiderar um ser humano a ponto de receber esta “nota de despedida”?
Quantos chefes há assim? Iludidos, cheios de soberba, convencidos de tudo, capazes de todas a insensatez que o seu orgulho lhes pede, donos de “lições exemplares”…
Cada vez mais vejo fugir a dimensão moral aos homens.

Todos perdemos. Ele a vida, a mãe um filho, o irmão um irmão, a filha o pai, a namorada o seu amor, os amigos um amigo, o seu chefe a sua paz interior. Ninguém, estou certo, ganhará alguma lição.

Descansa com a paz com que te conheci e que era marca da tua vida.

O mundo está carregado de filhos da puta que não merecem que ninguém morra assim por eles.