O Magalhães andaluz

DlmupVAX0AA9RRSAinda não estarão esquecidos os tempos do “choque tecnológico” que supostamente iria revolucionar a educação portuguesa. Embora, neste âmbito, outras medidas tivessem maior alcance e melhores resultados, foi a distribuição massiva dos minicomputadores Magalhães a alunos do 1.º ciclo que ficou como símbolo da modernidade tecnológica que o socratismo pretendia propagandear.

O que nem sempre percebemos é que estas iniciativas, tantas vezes apresentadas como fruto da genialidade de uns quantos políticos visionários e iluminados, seguem na verdade uma agenda política que facilmente atravessa fronteiras. Numa conjuntura propícia – evolução tecnológica, algum dinheiro público para gastar, promiscuidade de interesses entre produtores e vendedores de hardware e políticos demagogos e corruptos – distribuir computadores baratos pelos alunos e as suas famílias foi uma forma fácil de uns comprarem votos e outros ganharem dinheiro.

A receita do computador barato de difusão universal foi seguida em vários continentes, países e regiões. Por exemplo, na Andaluzia, era verde o sucedâneo local do Magalhães português, produzido em azul-bebé. Em quase tudo o  resto, as semelhanças são imensas entre a história do minicomputador português e a do seu irmão andaluz, aqui contada por um nosso colega espanhol. Texto recolhido, traduzido e adaptado a partir daqui.

Houve uma época na Andaluzia em que davam computadores às crianças. (Aos professores não, não fossem usá-los para criar actividades.) Aparentemente, achavam boa ideia gastar um dinheirão em algo que ninguém usava, em vez de investir em mais professores e menos alunos por turma, por exemplo.

Durante esse período, recebemos uma circular da Junta pedindo-nos/exigindo-nos/suplicando-nos/encorajando-nos a fazer actividades de TIC. Foi a época em se tornou moda o Hot Potatoes  e fazer blogues na sala de aula (blogues que, claro, ninguém lia).

E assim nos pusemos a preparar actividades que não eram mais do que transposições digitais do que sempre se tinha feito no caderno (escrever e fazer exercícios), mas ei!, muito melhor, porque fazem-no com o computador – até onde conseguirão chegar?…

Sucede que a grande maioria dos alunos nem se dava ao trabalho de levar de casa o computador da Junta. Um miúdo contou-me que a mãe o usava para ver o Facebook e não lho ia tirar. Corriam também histórias sobre computadores verdes à venda em vários mercados locais…

Se alguém trazia o computador… acontece que não havia wi-fi – oh! que surpresa. Porque sucede que a Junta achou muito melhor investir em computadores para todo o mundo em vez de investir em redes nas escolas. Quem poderia ter imaginado, certo?

E espera, que se tivessem trazido o computador terias de estar ali com 30 crianças controlando que não se metessem na página dos minijogos em vez da Wikipedia. Isto se tivesse havido wi-fi, que já sabemos que não.

Resultado: no ano seguinte já ninguém se lembrava dos computadores. Continuava a haver, isso sim, escolas com deficiências estruturais, turmas superlotadas, redes inoperacionais, material informático desactualizado, barracões em vez de salas de aula, frio no Inverno e calor no Verão…

Cada vez menos computadores nas escolas

computer[1]Uma das principais mudanças nas práticas de aprendizagem em Portugal, nos últimos anos, foi feita pela negativa: a percentagem de alunos com acesso a computadores ou portáteis nas salas de aula sofreu um forte trambolhão, tendo caído entre 12 a 33 pontos percentuais. Este é um dos resultados apontados no estudo Measuring Innovation in Education, divulgado nesta semana pela Organização para a Cooperação de Desenvolvimento Económico (OCDE).

Com base sobretudo nas respostas de professores e de directores de escolas, o novo estudo da OCDE dá conta de que no conjunto dos países da organização a percentagem de alunos com 15 anos de idade que têm acesso na escola a computadores de secretária desceu em média de 92% para 80%, mas que em contrapartida o uso de portáteis disparou. Entre 2009 e 2015 a proporção de alunos com acesso a portáteis nos países da OCDE subiu de 33% para 50%. Só se registaram duas excepções: o Japão, com uma queda de cinco pontos percentuais, e Portugal, onde a percentagem de alunos com acesso a portáteis na escola caiu de 55% para 43%.

Os números da OCDE só surpreenderão quem não conheça por dentro as escolas portuguesas ou, conhecendo-as, ande muito distraído com o que se passa à sua volta. De facto, o único grande investimento tecnológico no sector aconteceu em 2008, com o Plano Tecnológico dos tempos de José Sócrates e Maria de Lurdes Rodrigues. São dessa altura quase todos os computadores que temos disponíveis nas escolas. Só que a idade não perdoa e, no que se refere às novas tecnologias, dez anos podem ser uma eternidade.

As redes informáticas não foram dimensionadas para a utilização intensiva e exigente que hoje se faz da internet. Os computadores avariam, e para serem mantidos em funcionamento vão necessitando de uma manutenção cada vez mais dispendiosa. A simples substituição das lâmpadas dos projectores é uma operação que pode arruinar o orçamento de algumas escolas. Sobretudo, não se encarou o investimento nas TIC como uma necessidade permanente de um sistema educativo que se pretende orientado para o futuro, as novas literacias, o mundo digital. Gastou-se dinheiro uma vez, e assumiu-se que os computadores e o restante material adquirido durariam para sempre.

A cada vez menor disponibilidade de computadores acessíveis aos alunos é um problema grave, e não é só por aquilo que a escola não lhes dá. É que os programas para aquisição de computadores pessoais a baixo custo pelos alunos também há muito que desapareceram. Entretanto, massificou-se o uso dos smartphones e, em muitas famílias de baixos rendimentos, há uma opção que vem sendo assumida há algum tempo: prescinde-se do computador para se investir na compra de um telemóvel melhor. O resultado é que muitos jovens fazem hoje uma utilização mais pobre das TIC do que se fazia há alguns anos atrás: vai-se com facilidade aos chats e às redes sociais, partilham-se links, fotos e likes, formam-se multidões de seguidores atrás dos influencers, youtubers e instagramers da moda. Mas, para o resto, o telemóvel não dá muito jeito… Assim, quando se pede um trabalho de pesquisa que vá além de umas colagens da wikipedia, se exige o uso eficiente de um processador de texto ou se pretenda do aluno algo de original, crítico ou criativo, aí notamos rapidamente as enormes limitações de muitos dos agora chamados nativos digitais…

Professores de Informática escrevem ao Ministro da Educação

logoAnpr.pngA Associação Nacional de Professores de Informática – ANPRI – escreveu uma carta aberta ao Ministro da Educação. E de uma forma clara, aberta e assertiva, colocou questões que preocupam os professores em geral e os de informática em especial.

Ao contrário de outras associações de professores – incluindo a APH, que supostamente me representa – que preferem andar com paninhos quentes em torno da equipa ministerial, a ANPRI fala directamente dos problemas que a falta de meios e a obsolescência dos equipamentos coloca a profissionais a quem se exige que desenvolvam nos alunos competências avançadas no domínio das novas tecnologias.

De facto, a “escola-alfaiate” de que em tempos falava o ministro, a tal que deveria ser capaz de desenvolver para cada aluno uma educação à sua medida, não consegue, com a penúria de meios actual, costurar o fato novo que se deseja: limita-se a ir colocando remendos num fato velho, que já não serve nem a alunos nem professores.

Com computadores velhos, redes e ligações de capacidades muito limitadas, apenas uma ou duas salas de informática na maioria das escolas, destinadas a servir dezenas de turmas, alunos a partilhar os computadores, porque não há para todos, que sentido faz propor a introdução do ensino da programação, da robótica e de outros “artefactos tangíveis”?

Ao contrário de outros, que se deixam enrolar no discurso hipócrita e demagógico em que a equipa ministerial se vem especializando, os representantes dos professores de Informática não têm papas na língua. Ficam alguns excertos significativos de uma carta aberta que merece ser lida na íntegra.

A Internet nas escolas está a funcionar a dois tempos “lenta” ou “parada”, precisam-se soluções. Pretendemos saber se neste “pacote” de 23 milhões está incluída a renovação das estruturas das redes e internet nas escolas.

…pretendemos saber se vai ser disponibilizado algum equipamento às escolas para que sejam criadas condições para que as Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC), quer enquanto disciplina, quer como meio para a integração transversal nas várias áreas do saber possam ser usadas condignamente, por alunos e professores.

…segundo o artigo do jornal Expresso vão ser disponibilizados seis milhões de euros para o programa “Computação na Escola” para o 1º ciclo. Muito bem, mas, então o 2º ciclo, o 3º ciclo e ensino secundário? Porque não têm, estes alunos, o mesmo direito?

Pretendemos ouvir, também, se a disciplina de TIC vai ter o tempo adequado para que os alunos, futuros profissionais, desenvolvam as competências digitais, no tempo certo, de modo que não seja necessário gastar quatro milhões de euros em programas de requalificação, consecutivamente. Isto, porque já não é o primeiro e dificilmente será o último.

Tendo em conta, que na disciplina de TIC, no 6º ano consta a AE “Utilizar ambientes de programação para interagir com robots e outros artefactos tangíveis”. Vai haver financiamento para adquirir os artefactos tangíveis necessários para a lecionar?

Será desta que vai ser criada uma disciplina de tecnologias, para todos os alunos, no ensino secundário? Esta, sim permitia aos alunos aprofundar as competências digitais, mas, também, sensibilizar e preparar melhor os alunos que seguem percursos escolares nas áreas das engenharias.

Verificamos, ainda, que o painel que V.ª Ex.ª vai moderar é composto por alunos provenientes de projeto de sucesso. […] Mas o grande desafio que lhe colocamos é que organize um painel com os alunos com um percurso de participações disciplinares e casos em risco de abandono escolar. Ajude-nos a resolver estes problemas.

Por fim, indo agora para as metodologias ativas, fala-se, agora, de BYOD (Bring your own device). Não é que os professores portugueses são, mesmo, muito avançados. Repare-se que há anos, que usam os seus próprios devices, na escola.

Uma aventura… no computador

bartoon.JPG

© Bartoon

Uma geração superficial?

estudo-e-telemovelBom dia ou boa noite, professora. Nas próximas duzentas a trezentas palavras lerá aquela que foi provavelmente a composição que mais me custou escrever. Por isso mesmo, sente-se, coma qualquer coisa e tenha misericórdia de mim.

A professora Carmo Machado usa esta advertência do seu aluno como ponto de partida para uma interessante reflexão sobre os efeitos que a falta de hábitos de leitura e a omnipresença dos jovens na internet e nas redes sociais está a ter na capacidade de concentração, na compreensão do pouco que lêem e, também, nas competências de escrita dos actuais estudantes. Estaremos, com a ajuda do dr. Google, do Youtube e das redes sociais, a formar uma geração superficial?

Sim, a maior parte dos alunos tem aversão à escrita porque não lê, sentindo uma enorme dificuldade em escrever, problema que aumenta de ano para ano. Ler estimula o raciocínio, desenvolve o vocabulário, aumenta a capacidade de interpretação, diminui os erros ortográficos, ajuda a produzir textos coesos, desenvolve a capacidade argumentativa, só para referir algumas vantagens. De facto, se vocês não lerem, como irão conseguir escrever? A esta pergunta, alguns alunos respondem-me de imediato: Ó stora, mas a gente lê. Todos os dias lemos imensas coisas na Internet… Bingo!

[…] A geração com que trabalho é uma geração alienada e cada vez mais superficial. A internet, sabemo-lo, veio mudar o mundo. Está a mudar as nossas vidas e começou já a transformar os nossos cérebros.

A dependência do computador e da ligação à rede começa a interferir na forma como percecionamos o mundo, provocando danos irreparáveis na maneira como utilizamos a linguagem. Penso que reside aqui, neste uso e abuso que fazemos das tecnologias, uma das principais causas das dificuldades crescentes dos alunos no uso da escrita. O que pode então a Ciência dizer-nos sobre as consequências do uso da internet nos nossos cérebros e nos cérebros dos nossos alunos? Muito mesmo. Vários estudos realizados por educadores, investigadores de diferentes áreas como psicólogos e neurobiólogos mostram que quando os alunos estão em rede (o que acontece a maior parte do tempos nos dias que correm), o ambiente em que se encontram promove uma leitura negligente e rápida. Ora, neste contexto, o pensamento torna-se também ele apressado sendo a aprendizagem que fazemos das coisas cada vez mais superficial.

O que fazemos quando estamos em rede acarreta consequências neurológicas impercetíveis no imediato mas cujo efeito é preocupante. Não é preciso ser-se professor para se constatar que a capacidade de concentração dos jovens e adolescentes é cada vez menor. Na verdade, tal como o tempo gasto a explorar páginas web (na maior parte das vezes sem qualquer conteúdo de interesse) suplanta o tempo que passamos a ler noutros registos e formatos (já nem me atrevo a referir-me aos livros), também o tempo que se consome a redigir mensagens curtas de texto (vulgo sms) suplanta o tempo que se utiliza a escrever um parágrafo, vários parágrafos, um texto… Deste modo, enquanto saltitamos entre hiperligações que nos levam a nenhures perdemos a oportunidade de refletir silenciosamente. Eis o ponto seguinte desta rede de vazios. O silêncio é praticamente inexistente na vida dos nossos alunos. Dentro ou fora da aula, os alunos não o conhecem. Logo, os antigos processos e funções intelectuais que permitiam o raciocínio aprofundado e a reflexão começaram a destruir-se e a desaparecer. O cérebro recicla os neurónios e as sinapses não utilizadas, dando-lhe outras tarefas mais urgentes. É certo que os alunos possuem e/ou ganharam outras competências que nós não possuímos mas perderam capacidade de foco e de concentração. Segundo Nicholas Carr, o nosso cérebro está a regredir ao cérebro primitivo ou reptiliano, em alerta e distração permanente.

Há muito que se notava que as novas tecnologias de informação estão a mudar o modo como aprendemos e como nos relacionamos com as outras pessoas – sobretudo os mais novos, cujas mentes são mais influenciáveis e moldáveis. Mas hoje, os professores e os pais mais atentos vão-se apercebendo de que, apesar de podermos ter “o conhecimento na palma da mão”, nem todas as mudanças não positivas.

As evidências que se vão somando parecem demonstrar que a exigência de uma escola livre de telemóveis, por exemplo, não é apenas um capricho de professores que querem dar as suas aulas sem distracções. Ela pode vir a ser condição essencial para satisfazer a necessidade de criar, na vida das nossas crianças e adolescentes, espaços e tempos em que permanecem desligados da rede. Para que os jovens cérebros possam processar o excesso de informação que vão recebendo e dar uso às funções que vão atrofiando. Ganhando tempo para falarem e se ouvirem uns aos outros e aos seus professores, e a oportunidade de fazerem coisas como ler um livro ou, simplesmente, ouvir o som do silêncio…

A complexidade do problema e dos efeitos a longo prazo que a alienação digital poderá ter nas gerações ditas do milénio recomenda ainda duas precauções básicas. A primeira, que se continue a investigar e a discutir o tema, pois não se pode agir acertadamente sem conhecimento suficiente. A outra é afastar o mais possível, dos processos de decisão, a influência dos maus conselheiros:  os vendedores de tecnologia, os demagogos da sociedade de informação e todos os influenciadores e empreendedores em busca de dinheiro fácil ou fama imediata.

O choque tecnológico, dez anos depois

pte.jpgO PTE – Plano Tecnológico da Educação – foi lançado há dez anos. O ambicioso programa permitiu equipar todas as escolas públicas portuguesas com os equipamentos necessários à introdução das tecnologias da informação nas salas de aula.

Globalmente, pode dizer-se que o PTE foi um sucesso, embora não a todos os níveis: os minicomputadores Magalhães rapidamente desapareceram de circulação; os dispendiosos e pouco usados quadros interactivos raramente justificaram o vultuoso investimento na sua aquisição. A internet de suposta banda larga teve um arranque auspicioso, mas a vulgarização dos acessos via wifi sobrecarregou os sistemas e reduziu a velocidade, na maior parte do tempo, ao passo de caracol. Já os desktops e os videoprojectores, esses tornaram-se parceiros incontornáveis no trabalho quotidiano de alunos e professores.

No balanço que, passados dez anos, é possível fazer, o peso da idade é uma realidade incontornável: na falta de novos investimentos e até de um plano de manutenção do parque informático instalado, nota-se já a degradação do material. No uso das novas tecnologias nas aulas, muitas escolas estão hoje pior do que em 2009, quando a maioria dos actuais equipamentos foram instalados.

A Associação de Professores de Informática tem denunciado a situação, salientando a importância de uma resposta nacional a um problema comum a todas as escolas. E alerta para o risco de, perante a falta de investimento estatal, as escolas serem deixadas à sua sorte: as desigualdades já existentes no acesso a programas e financiamentos acentuarão a coexistência de escolas a diferentes velocidades…

A falta de investimento a nível central é um problema que Fernanda Ledesma, presidente da direção da Associação Nacional de Professores de Informática, tem vindo a apontar no início de cada ano letivo.

“Desde 2010 que os computadores e as infraestruturas das escolas continuam as mesmas, às quais acresce o desgaste do uso continuado e a velocidade da Internet é uma desgraça. Passaram oito anos desde o PTE e nunca mais houve um investimento sistemático ou estruturado nem gradual, o que ao nível das tecnologias é uma imensidão de tempo”, acusa a responsável.

Para tentar minimizar esta situação, algumas escolas, “no âmbito da sua autonomia e da sua ação e por iniciativa das direções ou de um grupo de professores menos acomodados”, vão-se candidatando a projetos dinamizados por entidades diversas e através dos quais vão conseguindo alguns equipamentos.

“A autonomia tem as suas vantagens e desvantagens. Não havendo projetos de investimento centralizados, ficamos no campo da sensibilidade dos órgãos de gestão, por isso, em breve teremos as escolas a várias velocidades”, alerta a responsável em declarações ao SAPO TEK.

Ensino das TIC na Idade da Pedra

ensinar-word.jpg

A foto publicada no Facebook correu mundo, e mostra um professor do Gana a ensinar os alunos a usar um processador de texto numa escola onde não existem computadores.

As reacções são as mais variadas e desencontradas: desde aqueles que julgam ter encontrado no professor Owura Kwadwo um digno candidato ao Global Teacher Prize aos que criticam, não o esforço do professor, mas a glorificação desta espécie de “empreendedorismo docente” que logo começou a ser feita.

Para começar, uma palavra de apreço, não só pelo professor mas também pelos alunos que trabalham nestas condições. Quem aprende desta forma tem certamente mérito e revela um interesse e uma força de vontade ausentes em muitos alunos dos países desenvolvidos que exigem aulas “divertidas” e acham obsoletos computadores com meia dúzia de anos.

Para os que não se cansam de repetir o estribilho da “escola do século XIX”, acrescento: têm nesta imagem a metáfora perfeita – os alunos do século XXI, o professor do século XX e os recursos educativos do século XIX. E já agora, reconheçam: as escolas portuguesas estão, felizmente, muito longe desta realidade.

Entenda-se também que esta é uma imagem da pobreza e da falta de recursos que tornam o ensino ineficiente. As escolas não precisam de heróis, necessitam, isso sim, de condições e de recursos adequados ao desenvolvimento das aprendizagens. Esta mitologia que se tenta criar em torno dos pobres que lutam contra a sua condição e “querem mudar o mundo” é apenas uma outra forma de insinuar o mantra de todas as direitas: os que não reagem, tentando superar as adversidades, são responsáveis por permanecerem na pobreza.

Para concluir, registe-se o final feliz: a divulgação “viral” desta história parece ter sensibilizado um número significativo de beneméritos, que de imediato se mostraram interessados em oferecer computadores e outro material informático às escolas do Gana. O que se por um lado se saúda e enaltece, por outro não deve dispensar-nos de questionar: deve a concretização plena do direito à educação, no século XXI, continuar a depender de caridades e de boas vontades individuais? Ou seria mais do que tempo de se assegurar ao sector os recursos públicos necessários para garantir, a todos, uma educação de qualidade?