A escola que ouve vozes… dos alunos

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e o ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, visitaram, hoje, a Escola Básica e Secundária de Campo, em Valongo.

A meta foi reconhecer o trabalho do Agrupamento de Escolas de Campo, frequentado por cerca de 1400 crianças e jovens, do Pré-escolar ao Ensino Secundário. “Para dar resposta aos alunos mais vulneráveis, este Agrupamento desenvolve um conjunto de medidas diferenciadoras de promoção do sucesso escolar. São disso exemplo as assembleias de alunos (que decorrem regularmente), os projectos que visam um maior dinamismo na vida escolar e uma maior participação na própria comunidade, a aposta em actividades artísticas, o trabalho no âmbito do bem-estar social e pedagógico, entre outras”, diz o Governo.

“É tudo importante para fazer um país mais e melhor, mas o mais importante é a Educação”

Marcelo Rebelo de Sousa foi recebido com uma dança dos alunos, ao som de “Jerusalema”, assistiu a uma música interpretada por jovens da escola, a uma aula de robótica e aprendeu mais sobre a tradição do pão, regueifa e biscoito no concelho.

Numa assembleia de alunos simulada, mais tarde, com todas as escolas do agrupamento a assistir online, pediu aos jovens palavras que definissem a escola. Ouviu “divertimento”, “carinho”, “integração”, “criatividade”, “união”, “aconchegante”, “esforço”, “gratidão”, “inclusiva” e “família”, entre outras.

Tristes e deprimentes tempos em que vivemos, em que qualquer escola que queira passar por inovadora está condenada, se quiser ter tempo de antena e visita de notáveis, a repetir até à náusea os estribilhos e lugares comuns do situacionismo educativo.

Agora já não são o PASEO, a flexibilidade ou a autonomia que ressoam nos discursos de circunstância e nas notas de imprensa. A escola verdadeiramente inovadora, do século XXI e mais além, é a que ouve a voz os alunos. O que quer que isso seja. Como se fossem novidade as assembleias de turma ou de delegados de turma, as caixas de sugestões, as actividades performativas em grupo ou os clubes e projectos dinamizados em função de escolhas e interesses dos alunos. Como se nas aulas não estivéssemos permanentemente a ouvir os alunos, não só as “vozes” mas também as hesitações e os silêncios, que muitas vezes até são mais reveladores do que a vozearia, que tanto parece interessar ao secretário Costa e ao ministro Brandão.

Foi este último que esteve ontem de serviço na escola de Valongo, colocando as deixas no tempo certo e mostrando trazer a lição bem estudada. Ao fim de seis anos, parece que finalmente o secretário de Estado conseguiu ensinar-lhe alguma coisa…

“O que está a acontecer aqui é o mais importante: a voz dos alunos. O mais importante é a vossa voz, o vosso contributo”, reiterou na assembleia de jovens (simulada). “Trabalhamos todos os dias para vocês serem felizes, aprenderem aqui na escola, e terem sempre voz, aqui e no resto das vossas vidas”, afiançou ainda, reconhecendo o exemplo deste agrupamento de escolas.

Pessoalmente, achei especialmente interessante e reveladora esta parte que nos fala da “assembleia de jovens (simulada)”. Ou não fosse esta comédia de enganos que tem sido a política educativa recente, toda ela, uma enorme simulação.

Contas trocadas

Daqui.

6200 euros por aluno?

O ministro da Educação que nos saiu na rifa continua a demonstrar, apesar de ir já no segundo mandato, que tem tanto jeito para o debate político como um elefante para circular numa loja de porcelanas.

Há dias, quis evidenciar o crescimento da despesa pública com a Educação ao longo da governação socialista. Mas fê-lo de forma tão desastrada que acabou a municiar os defensores dos contratos de associação, trazendo à ribalta uma disputa que parecia morta e enterrada. É que ensino de qualidade por menos de 6200 euros anuais, há muitos e bons colégios a oferecê-lo…

Para chegar aos 6200 euros médios por aluno, o gabinete de Tiago Brandão Rodrigues dividiu o orçamento do Estado destinado ao ministério da Educação pelo número total de alunos do ensino público, em cada um dos anos de estudo.

Esta pode ser classificada como uma conta em bruto, que contém todos os gastos associados à educação, de que são exemplo as iniciativas e programas destinadas aos alunos desse tipo de ensino. Além disso, há ainda uma percentagem significativa de alunos que beneficiam da chamada Ação Social Escolar (ASE), que comparticipa as despesas escolares de alunos carenciados, assegurando, por exemplo, refeições gratuitas.

Como é óbvio, o ME não gasta todo o seu orçamento na prestação do serviço educativo. Uma parte substancial corresponde às despesas de funcionamento do ministério que tutela a Educação, tanto pública como privada. E que continuaria a existir mesmo que todas as escolas públicas deixassem de pertencer ao Estado. A acção inspectiva ou a elaboração de provas de avaliação externa são exemplos, entre muitos outros, de despesas assumidas pelo Estado, mas de que tanto as escolas e os alunos do público e do privado beneficiam. Por outro lado, mesmo não havendo aumento significativo do investimento público no sector – e quem trabalha nas escolas sabe que efectivamente não houve, pelo menos a chegar directamente às escolas e aos alunos – basta a redução natural do número de alunos, reflexo da diminuição da natalidade, para que a despesa total, dividida pelo número de alunos, aumente automaticamente.

Ainda assim, sobra uma questão incómoda: as contas de merceeiro do ministro demonstram, apesar de tudo, que se está a gastar mais dinheiro em Educação, tendo em conta o número de alunos. No entanto, não temos assistido a melhorias significativas nem na diminuição do tamanho das turmas, nem na redução dos enormes défices de pessoal de apoio e de técnicos especializados – terapeutas, psicólogos, mediadores – de que carecem a maioria das nossas escolas. Estão por demonstrar as vantagens da flexibilidade curricular, da inclusão faz-de-conta, do controlo burocrático do trabalho docente, do facilitismo avaliativo ou do seguidismo acrítico de modas educativas e de directivas da OCDE que este ministério tem promovido com desfaçatez.

Gasta-se mais dinheiro, palavras do ministro, mas faltam evidências de que esteja a ser bem gasto.

Música para o regresso às aulas

I will survive! – garante Tiago Brandão Rodrigues. Já para quem dá o corpo ao manifesto, as coisas não são tão fáceis.

Uma performance tão hilariante quanto improvável do nosso primeiro, numa área em que as potencialidades das novas tecnologias parecem não ter limites…

Clicar na imagem para ver e ouvir, pois o WordPress anda cada vez mais esquisito em matéria de partilha de conteúdos.

Mário Rodrigues – CARTA ABERTA AO MINISTRO DA EDUCAÇÃO

Exmo. Senhor
Ministro da Educação
Tiago Brandão Rodrigues

Sugiro a V.ª Ex.ª que, nas vésperas de se iniciar mais um ano lectivo, informe os pais e os encarregados de educação dos alunos portugueses, em comunicação presencial ao País ou em conferência de imprensa, que o ministério a que V.ª Ex.ª preside, através do Despacho n.º 6605-A/2021, de 6 de julho de 2021, revogou todos os programas e metas curriculares vigentes, e instituiu um ensino, para todos os alunos do sector público, reduzido a objectivos e a conteúdos mínimos, metaforicamente designados como “aprendizagens essenciais”.

Para que os pais e os encarregados de educação dos alunos portugueses entendam, diga-lhes, de forma simples, que a partir de agora aos seus educandos será ensinado apenas 20 ou 30% do que lhes era ensinado nos anos anteriores.

E para que entendam melhor as consequências futuras, a nível pessoal e profissional, diga-lhes que a partir de agora aos seus educandos será ensinado apenas 20 ou 30% do que é ensinado a um aluno espanhol, francês ou alemão.

E se puder, explique-lhes:

a) Qual o objectivo real do Ministério da Educação ao aprovar e pôr em vigor esta medida; e

b) Que benefícios decorrem para Portugal, e para os Portugueses, da universalização de um ensino público desprovido de rigor e de exigência, limitado, para todos os seus alunos, a objectivos e a conteúdos mínimos.

Se me é permitido, sendo aquele Despacho obra de todo o Governo, sugiro que nessa comunicação presencial ao País, ou nessa conferência de imprensa, estejam presentes o primeiro-ministro, António Costa, e o secretário de estado, João Costa.

Os pais e os encarregados de educação dos alunos portugueses ficarão esclarecidos!

Com os mais respeitosos cumprimentos.

Mário Rui Simões Rodrigues

Marcha Popular para o Brandão escutar

No dia em que o ME, obrigado pelo Parlamento a negociar a revisão da legislação dos concursos, inicia contactos exploratórios com os sindicatos de professores, será oportuno recordar que a recusa de reuniões com os representantes da classe tem sido uma imagem de marca do actual ME.

Denunciar publicamente este persistente bloqueio negocial foi o principal objectivo da recente “Feira dos problemas com soluções bloqueadas” promovida pela Fenprof. Em tom ligeiro e bem disposto, mas sem fugir à denúncia concreta dos problemas e injustiças que continuam a afectar os professores, fica a marcha popular que serve de banda sonora à concentração de professores em Lisboa, no passado dia 25 de Junho.

E, já agora, a letra das marchinhas

O homem não se manca?

Insiste em fazer o número, que já não é inédito, mas continua a ser desleal e deselegante, do ministro bom. Aquele que tenta a todo o custo manter as crianças na escola, a usufruir dos incomensuráveis benefícios de mais uma semana e meia de aulas presenciais em tempo de pandemia, contra as orientações insensíveis e malévolas da DGS.

Contudo, se a lealdade institucional não é o seu forte, o instinto de sobrevivência política mostra-se apurado. Tiago Brandão Rodrigues dá a entender a discordância, insinua a crítica, mas fica-se pelas meias palavras, evitando comprometer o seu futuro no governo e na política.

A seguir, tenta tirar capitalizar com a situação: perante o problema imprevisto, foi o ME que agiu prontamente no sentido de colocar em funcionamento o ensino online! Como se as escolas, no final de um ano lectivo repleto de confinamentos e desconfinamentos, ainda estivessem à espera de instruções do ministério para operacionalizar as aulas à distância…

Vai faltando a paciência para os dislates de um ministro cada vez mais irritante na sua incompetência e no seu oportunismo. Nem tanto pela ostentação destas “qualidades”, mas sobretudo por se perceber que é por ser como é que conseguiu o feito, inédito na história da nossa democracia, de ser chamado a cumprir um segundo mandato à frente do ministério da Educação.

O ministro da Educação disse esta terça-feira partilhar a frustração das famílias e comunidades escolares pelo encerramento de escolas em cinco concelhos do Algarve, devido à covid-19, mas remeteu a responsabilidade da decisão para as autoridades de saúde regionais.

“Partilho a frustração das comunidades escolares, das famílias”, afirmou Tiago Brandão Rodrigues, admitindo “algum desalento” por se fecharem escolas numa altura em que “uma parte significativa do resto da atividade económica [está] em funcionamento também na região do Algarve”.

Questionado pelos jornalistas sobre a decisão anunciada no domingo, de encerrar, até ao final do ano letivo, estabelecimentos de ensino em Faro, Loulé, Albufeira, Olhão e São Brás de Alportel, o ministro afirmou tratar-se de uma “responsabilidade das autoridades de saúde que assim o entenderam”, secundada pela Direção-Geral da Saúde, e que o Ministério da Educação “tem de cumprir”.

Marcelo e Ferro de castigo, Tiago a titular…

Política, pandemia e pontapé na bola: três fenómenos que, à mistura, podem levar mesmo os políticos mais tarimbados a dar autênticos tiros nos pés, sucumbindo à demagogia e à irresponsabilidade. Como sucedeu desta vez com os presidentes da República e do Parlamento. Perante a necessidade de salvar da crítica pública as duas primeiras figuras do Estado, ambas comprometidas por declarações precipitadas e insensatas que poderiam bem ter evitado, decidiu-se ao mais alto nível a retirada estratégica: nenhum dos meninos linguarudos e fanfarrões irá ver a bola. Ao encontro da selecção e da equipa adversária, marcha Tiago Brandão Rodrigues.

Não foi mal pensado. Assistir, da tribuna de honra, aos grandes jogos da selecção nacional é de entre as múltiplas obrigações de um ministro da Educação, das poucas que Tiago cumpre com gosto. Lá estará daqui a pouco, sem que se interponham as indisponibilidades, as indisposições ou as partes gagas habituais sempre que o ministro dito da Educação é chamado a tratar de assuntos… educativos!

O ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, assegurará no domingo, em nome do Governo, a representação portuguesa no jogo do europeu de futebol Portugal-Bélgica, em Sevilha, cidade espanhola com elevado risco de covid-19. Marcelo Rebelo de Sousa e Ferro Rodrigues iam marcar presença, mas acabaram por desmarcar.

A decisão foi tomada este sábado na sequência de uma conversa entre as três mais altas figuras do Estado, Presidente da República, presidente da Assembleia da República e primeiro-ministro, a fim de definirem as regras da representação portuguesa nos jogos do europeu de futebol, disse à Lusa fonte governamental.

De acordo com o esquema definido, e se Portugal se qualificar até à fim da prova, nos quartos-de-final estará presente Ferro Rodrigues, nas meias-finais será a vez de Marcelo Rebelo de Sousa e, na final, prevista para Londres, estarão os três: Ferro, Marcelo e António Costa. A decisão foi tomada a fim de garantir a representação de Portugal em qualquer caso, independentemente das condições da pandemia.

A última moda é a “educação climática”

O ministro da Educação defendeu esta terça-feira a importância da educação climática nas escolas, sublinhando que os alunos são capazes de estimular as famílias e comunidades a aderir ao movimento de uma vida mais sustentável.

Durante um encontro promovido pela Comissão Europeia que reuniu alunos, professores e decisores políticos, o ministro português Tiago Brandão Rodrigues foi questionado sobre a “sua educação de sonho para iniciativas climáticas no futuro“.

“Uma educação de sonho para o clima é aquela que coloca os alunos no centro da mudança nas nossas sociedades”, disse, durante o encontro online “Educação pelo clima”.

Para Tiago Brandão Rodrigues a aposta deve passar por uma educação climática que forme os jovens “a serem os catalisadores dessa mudança, estimulando as suas famílias, as redes fechadas e as comunidades a aderirem ao movimento de uma vida mais sustentável”.

Como deveria ser mais do que evidente para um doutorado em Bioquímica, não é a “educação climática” nas escolas, o que quer que isso seja, que vai solucionar o complexo problema das alterações climáticas decorrentes da actividade humana, cada vez mais evidentes, severas e irreversíveis. Este ME evoca o pensamento crítico, mas os seus responsáveis rejeitam-no todos os dias, na forma acrítica e reverente como papagueiam a agenda educativa dos poderes globalizados.

A emergência climática dos nossos dias não se reverte com gestos simbólicos, mas irrelevantes face à dimensão dos problemas e do impacto ambiental da actividade humana. Não pode sequer ser compreendida fora do contexto económico, social e político das revoluções industriais, da explosão demográfica, do capitalismo globalizado e neoliberal que continua a subjugar a economia mundial em pleno século XXI.

Mudar para um ambiente e uma vida mais sustentáveis para o futuro do planeta implica transformar profundamente a forma como produzimos, consumimos e distribuímos a riqueza criada. E isso, é certo e sabido, não muda por haver mais ou menos consciência climática e ambiental. O único catalisador de mudanças nesta área, manifestamente insuficiente, tem sido a capacidade de transpor para o contexto da economia verde os clássicos modelos de produção baseados na acumulação de capital e na exploração do trabalho. Mas como não se quer enfrentar os poderosos interesses económicos e políticos que impedem as mudanças realmente necessárias, alimenta-se a ilusão de que serão as escolas a mudar a economia, a sociedade, a própria forma como vivemos – algo que nunca aconteceu na longa História da humanidade.

Na verdade, não é a insistir nesta pulverização do currículo em torno de temas da moda, tratados superficialmente, que se consciencializa as novas gerações para as mudanças necessárias. Para compreenderem o mundo em que vivem, como aqui se chegou e o que precisamos de mudar, é essencial o conhecimento científico estruturado que disciplinas como a História, a Geografia, a Economia ou a Biologia podem transmitir. Que integram aliás, nos seus programas, os principais problemas decorrentes do desenvolvimento económico e da actividade humana em geral, nomeadamente os climáticos e ambientais. Achar que o conhecimento disciplinar, maçudo e “enciclopédico”, se substitui com vantagem por umas pesquisas na internet, uns “intercâmbios” com outras escolas, uns trabalhos de grupo e uns recados para as famílias reflecte bem o paradigma educativo deste governo que o ministro, com a sua língua de trapos, se vai esforçando por proclamar.

Diz que não são generalidades

Não são generalidades, mas objectivos concretos, o que se pode ler no plano de recuperação de aprendizagens que já por aí anda a circular. Isto mesmo ripostou o ministro da Educação aos deputados que criticaram o tom vago e generalista do documento. Mas se dúvidas houvesse, os esclarecimentos subsequentes de Tiago Brandão Rodrigues encarregaram-se de as desfazer…

Confiamos nas escolas e por nelas confiarmos fizemos as escolhas que fizemos.

Escolhemos a autonomia educativa, o cuidar da transição entre ciclos e o equilíbrio das diferentes componentes do bem-estar dos nossos alunos.

Ouvir, pensar, decidir, implementar e avaliar. Estas são as fases da decisão política, todos concordaremos. O que decide, porém, a sua qualidade é o seu grau de participação, de envolvimento, de auscultação e de acompanhamento.

Criamos, com este plano participado, e criaremos com a sua implementação colaborativa, um espaço e tempo ampliados e fortalecidos para apoiar, com base na maior flexibilidade e intensidade, os anos de escolaridade mais afetados pela pandemia.

Na linguagem patusca de quem não tem queda para as letras mas gosta de dar um ar de letrado, o ministro tentou demonstrar apreço pelo trabalho dos professores. Disse que somos “artífices primeiros e fundamentais da resposta presente que a Educação deu e ainda dá”. A finalizar, acrescentou mais uma pérola do seu lirismo, destacando “a forma ativa e empenhada como, connosco, estão a construir um próximo ano letivo que será, ainda que não exatamente o que todos desejamos que seja, um ano matricial na recuperação das aprendizagens e na resiliência do ensino”. Comovente…