Quando o vírus nasce, é para todos

Até mesmo para os suecos, que andam desde o princípio da pandemia a perseguir uma mirífica imunidade de grupo impossível de alcançar. A ideia era proteger os cidadãos mais vulneráveis – não propriamente bem sucedida, pois acabaram por ter mais mortos do que os países vizinhos – e expor o resto da população ao bicharoco, achando que assim se construiriam as defesas que impediriam a propagação da doença.

Um desafio eticamente discutível, mas tão imprudente quanto tentador: não confinamos, não usamos máscara, fazemos a vida normal. Mantemos a economia, as escolas, a vida social a funcionar e no fim acabamos a ter menos casos, menos internamentos e menos mortes do que todos os outros.

Uma estratégia destinada a correr mal, e não é preciso ser epidemiologista para perceber porquê: as mutações do vírus e o enfraquecimento gradual das defesas imunitárias fazem com que a imunidade conferida pela doença seja temporária. Ou seja, quem já teve a doença não está livre de a voltar a ter. Claro que ao princípio não se sabia ainda bem como iria funcionar o novo vírus, mas essa era apenas mais uma razão para ser prudente, em vez de optar por arriscados aventureirismos.

Ainda assim, mais vale tarde do que nunca: parece que o epidemiologista-chefe lá do sítio percebeu finalmente o beco sem saída para onde tem conduzido a obediente e confiante população sueca…

A Suécia registou 4.658 novos casos de coronavírus na quinta-feira, de acordo com dados oficiais relatados pela Reuters, com os novos casos diários a aumentarem nas últimas semanas. Os internamentos também subiram dramaticamente, com mais de 1000 pacientes com covid-19 a serem tratados em hospitais, um aumento de 60% em relação à semana anterior. Os números foram divulgados pela emissora estatal SVT e citados pelo Guardian. A taxa de mortalidade por coronavírus na Suécia é agora uma das mais altas do mundo.

Andrers Tegnell, que se tornou conhecido por desenvolver a política anti-bloqueio da Suécia, admitiu esta semana que a Suécia está a viver uma disseminação significativa do vírus em todo o país. A agência de saúde pública da Suécia também reconheceu que o alto número de casos no país na primeira vaga não o protegeu na segunda.

Músicas do Mundo: Dutch International Military Tattoo 2009 – Arrival

Bons professores, bons programas, disciplina

inger.JPGA Suécia tem sido associada a uma certa vanguarda educativa que por cá, com flexibilidades, transversalidades e autonomias, se pretende obrigar escolas, professores e alunos, a acompanhar.

Mas não é nada disto que defende a professora Inger Enkvist, adepta de valores e práticas pedagógicas que o ensino centrado no aluno e o “aprender a aprender” colocaram fora de moda.

Uma política educativa de direita, portanto? Lendo a entrevista ao Público, parece-me que as ideias da professora sueca pendem mais para esse lado do espectro político. Embora registe, e até certo ponto subscreva, a preocupação em superar o confronto esquerda/direita no debate sobre Educação.

Há duas ideologias por detrás da ideia de que todos devem ter uma atenção pessoal, uma de direita e outra de esquerda. A de esquerda diz que todos somos iguais e quem não é precisa de ajuda para se tornar igual. A de direita diz que todos têm direito a atenção, direito à escolha, a ser um agente livre para fazer o que quer.

Ambas estão erradas! Não funcionam e não são do interesse do estudante, do país ou da aprendizagem. Mas são muito comuns e apresentadas como algo moderno. A coisa correcta é ter bons professores, que ensinem bons programas e dar-lhes autoridade.

Há uma ideia importante que apoio inteiramente e que nunca é de mais sublinhar nestes tempos que que se mitifica o ensino à medida de cada aluno, a aprendizagem instantânea no google ou no youtube e o ensino doméstico: a escola é uma das grandes invenções da humanidade, pois permite ensinar eficazmente muitos estudantes ao mesmo tempo, juntando grupos de alunos com capacidades e interesses semelhantes com professores que possuem os conhecimentos e as competências necessários para os fazer aprender.

Claro que a educação é para os estudantes, mas nada nos diz que é melhor ter um plano personalizado para cada um. Pelo contrário, o ensino funciona nos países onde os professores trabalham com grupos com as mesmas necessidades. É mais fácil que estes aprendam ao mesmo tempo. Essa ideia do aluno no centro leva a que seja precisa muita ajuda na escola e os recursos são mal usados. Se pensarmos em dinheiro, é mais económico aprender num grupo semelhante.

Ao longo da História, as alternativas à escola foram apenas três: o analfabetismo quase generalizado, o sistema corporativo dos mestres e aprendizes que qualificava os artesãos dos principais ofícios e o ensino doméstico, com preceptores ou professores particulares, acessível apenas aos filhos dos fidalgos e da alta burguesia. A escola como hoje a temos, universal, gratuita e obrigatória, é uma conquista civilizacional demasiado importante para a deixarmos destruir em nome de modas irracionais ou, pior do que isso, da agenda oculta das organizações internacionais e das fundações empresariais que promovem a “inovação educacional”.

Inger Enkvist defende o reforço da autoridade dos professores – as crianças, e a própria escola, precisam de regras para poderem funcionar e para que efectivamente se ensine e aprenda. É certo que a educação de base deve ser dada em casa, pelos pais. Mas quando estes não desempenharam bem o seu papel, é a escola que deve reforçar, logo nos primeiros anos de escolaridade, o seu papel educativo.

Alguns não têm ajuda em casa? São esses que precisam mais do que os outros de aprender correctamente a comportarem-se. No 1.º ano, a professora é quem abre o mundo do conhecimento às crianças, ao mesmo tempo que mostra como funciona a escola. Precisa de dizer-lhes: “É assim que se aprende e aprender é entusiasmante e transformador, vai mudar-te, vai tornar-te um adulto, mas há regras às quais tens de obedecer.”

Um ensino laxista, a falta de regras, o desrespeito pela autoridade e pela figura do professor, trazem outro problema: quando assim é, ninguém quer ser professor, tornando-se difícil atrair bons profissionais para a profissão docente…

Isso é importante porque os bons alunos querem ser professores – também é verdade para os educadores de infância e para os professores de 1.º ciclo. Se as crianças aos 4, 5, 6 anos tiverem bons educadores, inteligentes e preparados, arrancam bem, conseguem aprender bem a língua e ganham bons hábitos sobre como comportar-se na sala de aula. É mais divertido para um aluno estar com um professor inteligente que torna a aprendizagem divertida – este é um dos segredos do sucesso da Finlândia.

É um problema também noutros países que, em comum, têm o facto de terem introduzido a “nova pedagogia” que diz que o estudante tem direitos e não é obrigado a obedecer ao professor. Quando o aluno pode entrar ou sair da sala de aula, pode chegar e não trazer os trabalhos feitos, pode dirigir-se ao professor de forma desrespeitosa, então, ninguém quererá ser professor.

Os pontos mais polémicos deste programa educativo: a aceitação de que se aprende melhor em grupos homogéneos e a defesa, consequentemente, da formação de grupos de nível e, paralelamente, a introdução de vias alternativas de ensino a partir dos doze anos.

Fala-se muito de discriminação, mas se você tivesse sido professora veria nos olhos dos alunos a ansiedade ou o aborrecimento porque não conseguem gerir o conhecimento que o professor está a transmitir. O que acontece a esses alunos é que se limitam a sobreviver na escola, na esperança de que um dia aquilo termine e sejam livres. Outros ficam tão aborrecidos que começam a fazer disparates porque não acham que o conhecimento seja importante. Na adolescência, diria que submeter os alunos a isso é um mau trato psicológico.

…aos 12 anos é preciso dar escolha aos alunos porque é impossível estarem todos interessados nas mesmas coisas e, ao desinteressarem-se, tornam o trabalho dos professores impossível.

Quanto ao problema da precocidade das escolhas, Inger tem uma posição clara: não podem ser os pais, muitas vezes com percepções irrealistas acerca do desempenho escolar dos filhos, nem os próprios alunos, a tomar este tipo de decisões: deve confiar-se nos professores que os acompanham e percebem melhor do que ninguém o que poderá ser mais adequado.

Finalmente, os telemóveis. O que pensa a professora sueca sobre a omnipresença destes aparelhos e a ideia de que podem substituir, não só o ensino dos professores, como a própria actividade intelectual dos alunos?

Isso é errado, errado, errado. Porque a nossa biologia não mudou e aprender é sobre mudar o nosso cérebro e se não o fizermos, então não aprendemos. A tecnologia é limitada, eles podem dizer muita coisa com o smartphone na mão, mas se lho tirarmos não sabem nada. É como se fosse uma prótese.

Quanto aos pais que não resistem a manter os filhos equipados com o gadget da última moda…

…os pais dão tudo e não têm a coragem de dizer “não”. Muitos não estão preparados e não compreendem como é importante dizer “não” a alguém de quem gostam.

Porque queremos ser amados pelos nossos filhos e também porque, no caso dos ecrãs, pensamos que não é muito tempo e, por isso, não faz mal. Mas isso é errado porque através dos ecrãs as crianças não recebem todos os estímulos necessários para aprender e com o nosso dinheiro estamos a empobrecê-los.

Ter filhos na Suécia

familia.JPGPortugal é hoje dos países do mundo onde nascem menos bebés, uma tendência que, a par com o acentuado envelhecimento da população, compromete seriamente o nosso futuro colectivo. O tema, preocupante, vem de tempos a tempos à ribalta da discussão política, mas rapidamente cai no esquecimento: as medidas que haveria a tomar são dispendiosas, não rendem votos no imediato e só a longo prazo se obteriam alguns resultados. E assim se vão propondo e anunciando, de tempos a tempos, medidas avulsas e inconsequentes para remediar o problema. Ou, em alternativa, nomeando sucessivas comissões para estudar o assunto e encontrar soluções que incentivem os Portugueses a ter mais filhos.

E, no entanto, políticas natalistas eficazes não são um mistério nem um segredo bem guardado: vários países europeus, embora não tenham ainda conseguido inverter o lento declínio demográfico sem a ajuda da imigração, conseguiram suster a queda da natalidade, retirando-a dos níveis que em Portugal ainda enfrentamos. Um desses países é a França, sobre a qual já por aqui se escreveu. Outro bom exemplo é a Suécia.

Quase a fazer 30 anos, Mafalda Samuelsson-Gamboa tem duas filhas, uma de três anos e outra de dois meses. Vive na Suécia há cinco anos e acredita que, se tivesse ficado em Portugal, não seria ainda mãe. Por várias razões: “Acho que em Portugal não teria condições, muito provavelmente os rendimentos não chegariam. Parece-me quase surreal os valores dos ordenados mas sobretudo a postura em relação à gravidez. Para mim seria impensável ter o bebé e ir logo trabalhar”, explica a partir de Gotemburgo.

Entenda-se o que Mafalda quer dizer por “ir logo trabalhar”: da primeira filha esteve um ano e meio em casa de licença e da segunda bebé ficará oito meses. Daí para a frente é o pai que toma conta das crianças. E na Suécia não há sequer hipótese de ter menos de um ano de licença parental: em nenhuma creche se aceitam crianças abaixo dos doze meses de idade, sendo que em alguns casos além da idade as crianças têm de já conseguir andar.

Licenças parentais longas, abonos de família universais, uma boa rede de creches e infantários, partilha igualitária de responsabilidades e tarefas entre o pai e a mãe: tudo isto convida os casais a ter filhos. Mas não é tudo: há um comprometimento da sociedade no seu todo para com os direitos e as responsabilidades inerentes a ser pai. A começar pelos próprios patrões…

[…] a grande diferença é que as entidades patronais não podem recusar a parentalidade. Se avisarmos com dois meses antes eles têm de aceitar. Seria um escândalo se algum patrão pusesse entraves ao gozo dos dias de parentalidade. Depois, toda a gente sai muito cedo do trabalho”, explica Mafalda. Um exemplo concreto: “Se eu fosse buscar a filha às 5 da tarde ela era a última na creche. E é esta cultura que faz com que se tenha mais crianças.”

Premonitório?

dia-do-soldadoA Suécia vai restabelecer o serviço militar obrigatório a partir de 2018. Um relatório revela que a abolição em 2010 complicou o recrutamento para as forças de defesa do país.

Segundo as conclusões de um relatório elaborado para o Ministério da Defesa, o serviço militar será obrigatório para todos os suecos nascidos depois de 1999.

A decisão tem de ser aprovada pelo parlamento e cerca de quatro mil jovens devem ser chamados anualmente.

Com o fim da guerra fria e a desagregação do antigo bloco de Leste, para fazer face  à necessidade de reduzir custos e efectivos e, simultaneamente, enfrentar os novos desafios que se passaram a colocar às forças armadas, quase todos os países da Europa Ocidental acabaram com o serviço militar obrigatório, substituindo-o pelo voluntariado.

Mas o “fim da História” anunciado ali pela viragem do milénio afinal não se concretizou. A globalização neoliberal, longe de promover a paz, a concórdia e a prosperidade, acentuou as desigualdades e as rivalidades. Nacionalidade, etnia, religião, género, opções de vida, tornaram-se pretextos para a discórdia e o conflito, e o mundo parece aproximar-se perigosamente, não direi de uma guerra global que seria a destruição da humanidade como a conhecemos, mas de uma nova escalada de desconfianças e conflitos que não sabemos bem até onde poderá chegar.

Na Suécia, parece ser a crescente presença militar russa no Mar Báltico o principal motivo de apreensão, o qual, aliado ao facto de o voluntariado não estar a permitir suprir todas as necessidades de recrutamento para as forças armadas do país, justificará a reintrodução da tropa obrigatória. A medida irá abranger jovens dos dois sexos e é aparentemente apoiada por todos os principais partidos, pelo que deverá ter assegurada a aprovação parlamentar.

Restará saber se a iniciativa sueca será um acto isolado e sem repercussões internacionais, ou se, pelo contrário, não será o sinal de um novo paradigma de defesa que acabará por ser adoptado pelos restantes países europeus.

Não sei se voltaremos, em Portugal, ao tempo dos magalas, mas desconfio que já estivemos mais longe…

O regresso dos Vikings

Vikings-out+cartoon[1]Espada viking com 1200 anos encontrada por acaso num passeio

A julgar pelo comprimento da espada, esta será do século VIII. Era comum, mas também era uma arma cara.

Professor e aluno mortos em ataque numa escola na Suécia

Homem com espada entrou numa escola de Trollhättan.