Sucesso educativo para totós

panadero

O nosso colega espanhol Javier Panadero resume, de forma lapidar, aquilo que os professores que sabem do seu ofício – os verdadeiros e insubstituíveis especialistas em Educação – têm a dizer aos supostos peritos em inovação educativa.

Mesmo em tempo de férias, a mensagem é oportuna e não deve deixar de ser relembrada.

Com turmas pequenas quase tudo funciona. Com turmas grandes, quase nada. Fácil assim.

Se não querem gastar dinheiro em Educação, ao menos deixem os professores em paz.

Matemática: 24 medidas para melhorar aprendizagens

gtmO Grupo de Trabalho de Matemática produziu um extenso relatório intitulado Recomendações para a melhoria das aprendizagens dos alunos em Matemática onde se analisa exaustivamente, em quase 300 páginas, a evolução recente e o actual ponto da situação relativamente à disciplina de Matemática.

Colocado em consulta pública por 90 dias – pareceres podem ser enviados para o e-mail dsdc@dge.mec.pt  – a eventual aplicação das sugestões da equipa de trabalho caberá já ao próximo ME.

Embora muito do que ali se escreva não seja novo ou original – andamos há demasiado tempo a repetir os mesmos erros e a adiar o que todos sabem que precisa de ser feito – o documento apresenta dados, ideias e reflexões interessantes, que se destacam mesmo numa leitura em diagonal. Por agora destaco apenas, entre as 24 medidas apresentadas, algumas propostas que me parecem especialmente pertinentes e importantes.

A elaboração urgente de um currículo de Matemática para todos os ciclos de escolaridade (do 1.º Ciclo do Ensino Básico até ao final do Ensino Secundário). Este currículo deverá substituir todos os Programas de Matemática, em particular o Programa e as Metas Curriculares em vigor, bem como as Orientações de Gestão Curricular e as Aprendizagens Essenciais que deles decorreram, eliminando a profusão de documentos curriculares nacionais díspares, que atualmente coexistem dirigidos ao ensino da Matemática.

A diferenciação pedagógica no ensino da Matemática deverá não só dirigir-se a alunos com dificuldades, como àqueles que estão em condições de aprofundarem as suas aprendizagens.

O currículo de Matemática para o Ensino Básico deve ser coerente, garantindo a articulação vertical ao longo dos três ciclos, em todos os domínios de conteúdo a ser considerados.

O currículo de Matemática do Ensino Secundário deve ser composto por um núcleo comum que defina o que é essencial na formação matemática à saída do ensino obrigatório, a ser frequentado por todos os alunos. Deve também prever núcleos complementares, que respondam às diferentes necessidades de formação matemática específica relativa a percursos diferenciados no prosseguimento de estudos.

O desenvolvimento curricular nas escolas deve ser apoiado por condições diversas indispensáveis quando se pretende a implementação de um novo currículo. Estas condições devem garantir:

  • A possibilidade efetiva de realização de trabalho colaborativo entre professores (tempo e horários) dirigido à elaboração dos documentos curriculares locais de Matemática, à preparação de aulas, à partilha e reflexão sobre experiências de ensino e práticas de avaliação;
  • Existência de um trabalho de coadjuvação em algumas aulas de Matemática, favorecendo a realização de práticas de ensino compatíveis com a aprendizagem matemática pretendida, a articulação vertical entre professores de diferentes ciclos e a partilha entre professores com formações distintas; […]

Deve ser reforçado o investimento na formação inicial de professores que ensinam Matemática antes que as carências que se preveem criem uma situação de perturbação das escolas e sistema educativo. Este investimento deve considerar medidas que sensibilizem a sociedade para a atratividade da profissão, não só com a possibilidade de empregabilidade mas, sobretudo, com a valorização social da profissão.

Alunos não querem aulas de tutoria – e fazem bem!

tutoria.jpgO programa de tutorias para alunos que tenham dois ou mais “chumbos”, que foi criado pelo Governo há dois anos, continua a não ser capaz de integrar uma parte do público ao qual se destina. De acordo com uma análise da Inspecção-Geral da Educação e Ciência (IGEC), feita no ano lectivo 2017/18 e que é agora publicada, não foram abrangidos 26,1% dos estudantes que estavam em condições de ter este apoio. Em muitos casos, são as próprias famílias que não autorizam a participação dos seus educandos, mas há também escolas que preferem encaminhar os jovens para outro tipo de respostas.

A notícia completa é só para assinantes, mas só o parágrafo introdutório já tem muito que se lhe diga.

Assinale-se, antes de mais, a incongruência entre o discurso da autonomia, que remete para as escolas a responsabilidade de decidirem a melhor forma de resolver os problemas e a insistência em respostas uniformes e formatadas, como se fossem respostas universais ao insucesso escolar. A verdade é que não são.

Depois, a falta de flexibilidade deste modelo de tutorias grupais: são necessários dez alunos com duas ou mais retenções que queiram aderir ao programa. Em muitas escolas não se conseguem formar grupos de tutoria apenas porque não há alunos em número suficiente – o que não deixa de ser um bom sinal. Significa que o sucesso está a ser promovido por outras vias, menos penosas e mais eficazes para os alunos.

O que nos leva ao mais importante: em vez de avaliar apenas o sucesso maior ou menor da aplicação de políticas centralmente decididas, avaliem-se a qualidade e a pertinência dessas mesmas políticas. Porque há realidades que se percebem bem no quotidiano escolar mas escapam facilmente a quem, do alto da sua sabedoria e dos seus gabinetes com ar condicionado, julga ter encontrado as soluções geniais que os professores no terreno não são capazes de descortinar.

Ora a verdade é que a eficácia das tutorias depende muito da relação que se estabelece entre o professor tutor e o tutorando. A qual implica um trabalho individualizado ou, quando muito, em pequeno grupo, reunindo alunos que tenham um mínimo de afinidades pessoais e/ou um percurso escolar comum. Percebe-se a ânsia de produzir sucesso sem gastar dinheiro, mas a realidade é que a dinâmica de uma tutoria com dez alunos em simultâneo estará mais próxima da de uma aula tradicional do que do acompanhamento de proximidade que teoricamente se pretende.

Por último, acrescente-se que também os alunos e as famílias rejeitam, muitas vezes, a tutoria que lhes é proposta. Além do sentimento de inutilidade, há outro factor que pesa: o acrescento de quatro tempos semanais ao horário lectivo – na prática, uma tarde suplementar “de castigo” na escola. Para miúdos que tendem a gostar pouco de estar fechados numa sala de aula, esta abordagem acaba por ser, muitas vezes, contraproducente.

E alguns, mostrando ter mais juízo do que os pedagogos encartados do ME, conseguem eventualmente perceber que, em alternativa às dúbias tutorias, o empenhamento nas aulas pode por ser o caminho mais directo para o sucesso…

Média de 40%? Está aprovado!

smiling-boys-carry-girl-glasses-260nw-1161752017O rumor é preocupante, mas sabendo-se o que se sabe sobre as práticas pró-sucesso de alguns agrupamentos e da pressão ministerial para que “ninguém fique para trás”, não custa muito acreditar que isto esteja mesmo a acontecer:

…chegou-me a informação de que alguns agrupamentos, alegadamente através dos seus conselhos pedagógicos, têm autonomia para, no decorrer do ano lectivo (e alguns até mesmo uma semana antes da realização das reuniões de avaliação de final de ano lectivo), alterarem por completo os critérios de avaliação definidos desde o início do ano e “deliberarem” que, para os alunos obterem aprovação em cada disciplina, deverão os desempenhos mínimos de avaliação fixar-se entre os 40% e os 45%.

Aparentemente, muitos agrupamentos sondam os seus professores (por departamentos) antes da deliberação em pedagógico sobre a fixação destas percentagens de desempenho…

Quando as normas do “54” e do “55” irromperam pela organização escolar, logo me pareceu que aquele ritual anual de elaboração ou revisão dos critérios de avaliação iria rapidamente perder significado. Pois de que interessam critérios iguais para todos, se agora a avaliação é suposto fazer-se à medida das necessidades – ou da preguiça – de cada um?

Importante seria não nos ficarmos apenas pelos rumores e começar a ser dada alguma visibilidade pública aos registos escritos que documentam este facilitismo avaliativo. E  que assinalam a chegada em força da flexibilidade curricular às pautas do 3.º período.

A burrice é uma ciência?

smart_donkey[1]Santana Castilho evoca a sabedoria popular de António Aleixo para descrever um país em que a burrice ministerial manda nos homens e mulheres de inteligência que todos os dias, nas escolas, dão o seu melhor ensinando as novas gerações.

O cronista do Público desmascara o discurso maniqueísta do SE João Costa e dos seus sequazes: quem não é por nós, que somos bons e defendemos o sucesso, é mau e só quer reprovar alunos. Denuncia a cobardia política de um governo que, tendo ameaçado demitir-se por causa do possível impacto orçamental de uma lei do Parlamento, aceita agora que uma “nota informativa” de uma direcção-geral venha estabelecer, à margem da lei, normas com incidência orçamental. E expõe a falta de equidade e sentido de justiça patente na actuação de um governo que enfrenta os professores enquanto dobra a espinha perante os interesses dos juízes dos tribunais superiores.

…João Costa veio, em artigo de 30 de Maio passado (Observador), defender-se das críticas às suas teorias sobre flexibilidade e inclusão. Abalroada pela demagogia que a domina, a prosa do secretário de Estado assentou num maniqueísmo primário e populista. Segundo ele, uns querem sucesso e inclusão para todos (ele e prosélitos), outros (os que lhe criticam os métodos) preferem reprovar os alunos. Escapou-lhe considerar que o que separa a turma dele (perita em baixar a fasquia dos pobres em vez de lhes conferir os meios para chegarem onde os ricos chegam) da turma dos outros é a recusa, por parte dos segundos, a certificar a ignorância. E que o grande combate a favor da inclusão começa fora da Escola, sob responsabilidade alheia aos professores, colada, outrossim, à pele dos políticos promotores da mediocridade. E continuará na Escola, quando substituirmos proclamações palavrosas, papéis e burocracia por meios, recursos e dignidade para quem ensina.

[…]

Leu-se profusamente na imprensa que o Governo criou um regime especial de avaliação para que professores possam progredir na carreira. Ora o Governo não criou coisa nenhuma. Foi a DGAE que “criou”, com uma simples “nota informativa”, uma brincadeira para remediar a trapalhada que o Governo pariu. Ou seja, o homem demitia-se se a AR fizesse cócegas ao OE, para fazer justiça mínima aos professores. Mas não tugiu nem mugiu quando uma directora-geral resolveu (com impacto orçamental) ao contrário do que continua escrito na lei.

[…]

O Parlamento decidiu aumentar o salário dos juízes dos tribunais superiores, os quais, a partir de agora, poderão ganhar mais do que o primeiro-ministro. Ao fazê-lo, retirou legitimidade moral e ética à retórica da contenção salarial. Com efeito, é inaceitável, no domínio dos princípios constitucionais, que as carreiras das classes profissionais sejam tratadas em função da expressão numérica que as caracteriza, falemos de professores, militares ou outros portugueses…

Fuga para a frente…

ciclista.gif…Em vez de parar um pouco para estudar, avaliar e corrigir as asneiras que, no âmbito da flexibilidade curricular, se andam a fazer.

Lembraram-se agora de ressuscitar os caducos contratos de autonomia, essa ficção jurídica criada em 2007, nos tempos sombrios do socratismo e do lurdes-rodriguismo. Feitos a partir de um simulacro de negociação entre a tutela ministerial e os seus subordinados nas direcções das escolas, destinavam-se a contratualizar sucesso escolar a baixo custo e com efeitos imediatos.

Perdida há muito a autonomia na contratação, a que a maioria das escolas deu mau uso, prestes a perderem também, graças à municipalização da educação, a autonomia financeira, restará às escolas a gratificante autonomia de retalhar a gosto o currículo local. Sempre sob supervisão ministerial e com a condição de elevarem, a níveis estratosféricos, o sucesso escolar.

Os contratos de autonomia que abrangem actualmente cerca de 200 escolas ou agrupamentos vão ser revistos para se enquadrarem numa “nova geração” que terá na base o programa da flexibilidade curricular, anunciou o Ministério da Educação (ME) nesta terça-feira.

A revisão destes contratos já tinha sido recomendada em Março pelo Tribunal de Contas (TdC) depois de ter concluído, numa auditoria que envolveu 30 escolas, que 60% dos objectivos assumidos pelos estabelecimentos nesta situação não foram cumpridos, nomeadamente no que respeita ao sucesso escolar. Numa nota divulgada nesta terça-feira, o ME não faz referência a esta auditoria do TdC, frisando apenas que é necessário adequar os contratos de autonomia ao programa da flexibilidade curricular, que este ano lectivo foi alargado a todas as escolas.

Receito-lhe… a passagem de ano!

aluno-preg.pngO “direito ao sucesso” inspira algumas estórias engraçadas, mas como esta nunca tinha ouvido. Uma encarregada de educação visita o director de turma no final do ano para lhe entregar um relatório psiquiátrico referente ao seu educando. E, de imediato, vai informando: diz aí que é para o meu filho passar de ano…

O aluno tem alguns problemas de aprendizagem, mas é acima de tudo pouco esforçado e trabalhador. Apesar das várias medidas de apoio implementadas, não supera as suas dificuldades, essencialmente por falta de trabalho, concentração e estudo.

O relatório médico dirigido aos professores lembra que, ao abrigo do novo regime de inclusão, é suposto terem sido tomadas todas as medidas necessárias para que o aluno melhorasse os seus resultados. Não ganha nada em ficar retido. Prescreve, por isso, a passagem de ano.  Nas entrelinhas, entende-se a mensagem: o rapaz tem direito ao sucesso, arranjem lá maneira de o passar.

O novo paradigma inclusivo veio para ficar e estes casos irão, certamente, multiplicar-se. O direito à inclusão envolve acompanhar a turma que transita de ano, sem que nenhum aluno fique para trás. E o princípio da universalidade das medidas implica que qualquer aluno possa e deva ter a vida facilitada. Ou porque não é capaz de fazer como os outros – o que é aceitável – ou porque simplesmente não quer – e nesse caso devem os professores fazer por ele, aplanando-lhe o caminho e removendo os obstáculos que o poderiam cansar e desmotivar.

Ainda assim, e apesar das intromissões, avaliar continua a ser prerrogativa dos professores. E, ao que parece, ainda vai havendo alguns que se mantêm renitentes à ideia de que a falta de exigência seja um bom serviço educativo que prestam aos seus alunos.

As notas ainda não saíram, mas palpita-me que, neste caso de que ouvi falar, a tentativa de garantir sucesso escolar por prescrição médica não tenha sido bem sucedida.