STOP contra o assédio moral de professores

stop-assedio.jpgProfessores acusam a direção da Escola Secundária Alves Martins, em Viseu, de assédio moral. O diretor contrapõe e fala em terrorismo profissional. Esta tarde, três professores e um sindicalista empunharam uma faixa frente ao estabelecimento de ensino onde se lia “fim ao assédio. Um por todos e todos por um”. Pedro Cardoso, professor há 33 anos, é um dos professores que se queixa de discriminação e diz que tal acontece desde que há seis anos apresentou uma lista ao Conselho Geral.

“Desde que formalizamos essas listas que nos sentimos perseguidos pelo facto de termos horários diferentes dos outros colegas, turmas mais difíceis e problemáticas, também o espaço das aulas são diferentes porque há professores que têm tardes livres para corrigir testes e nós não”, exemplifica o professor de português, um dos seis que apresentou uma queixa por assédio moral à Inspeção-Geral de Educação. […]

O diretor da Escola, Adelino Azevedo Pinto, rejeita as críticas e anunciou que a queixa foi arquivada, contrapondo com outras que alunos e encarregados de educação têm contra os professores em questão. […]

“Os pais queixam-se destes professores que não dão a matéria, que têm atitudes menos corretas dentro das salas de aulas. Tive, inclusivemente, uma aluna que mudou de escola. Temos episódios caricatos, onde próprio presidente da Associação de Pais ofereceu um espelho ao um dos professores para ele ver a figura que e estava a fazer. Um deles, o caso até chegou ao ministro da Educação, atraveu-se num ano a marcar 110 faltas disciplinar”, contou.

Por muito que o director afirme o contrário e tente assumir ele próprio o papel de vítima de “terrorismo”, a verdade é que as queixas de assédio moral parecem fazer sentido. Mesmo sem conhecer todos os pormenores, qualquer professor experiente reconhece no caso relatado características típicas de bullying: os alvos são uma pequena minoria, que é castigada ou ofendida por alguém que abusa da sua posição de força, perante a cumplicidade, o medo ou a indiferença dos restantes. A forma como expõe publicamente os professores, tentando desmoralizar e humilhar os visados, é também típica de um bully em acção. O esboço de defesa deste director, que rapidamente passa a contra-ataque com golpes baixos, é a melhor evidência de que a acusação é pertinente.

Pela prática de muitas escolas, sabemos que atribuir deliberadamente um mau horário aos professores “desalinhados” continua a ser, infelizmente, uma tentação a que alguns directores, mais habituados a dominar pelo servilismo e pelo medo do que a exercer, pela motivação e o exemplo, uma verdadeira liderança, não conseguem resistir. Mesmo sabendo que dessa forma estão a prejudica, não apenas os docentes em causa, mas também a comprometer a qualidade do seu trabalho e, dessa forma, a prejudicar os próprios alunos destes professores.

Numa atitude lamentável, o director procura desacreditar publicamente professores da sua escola, pondo em causa a sua competência e profissionalismo e trazendo para a discussão pública matérias que deveria resolver internamente e sobre as quais teria de guardar sigilo profissional. Claro que o faz, deve dizer-se, porque sabe que nestas situações a regra é o ME encorajar a prepotência das “lideranças fortes” em vez de defender os direitos dos professores. Que para todos os efeitos continuam a ser funcionários do ME e não servos do senhor director.

 

STOP: a greve continua

stopÉ uma greve atípica, que vem ensaiando com relativo sucesso um modelo de luta diferente do habitual. Em vez da tradicional greve de um dia, a nível nacional ou regional, optou-se por estender os pré-avisos por um período alargado de tempo. E não se restringe aos professores: os trabalhadores não docentes também estão abrangidos. Na concretização, a dinâmica desenvolve-se localmente, com os professores e funcionários a escolherem o dia mais conveniente para paralisar, de forma a garantir uma adesão expressiva, que impeça o funcionamento normal das actividades lectivas.

Quanto a motivações para fazer greve, elas não faltam, seguramente. Desde o roubo de tempo de serviço à violência escolar, do amianto que persiste em muitas escolas à ameaça da municipalização, do modelo de gestão autocrático à flexibilidade inclusiva que atormenta os professores sem que traga ganhos visíveis para os alunos. Diria que apenas o cansaço e o desânimo dos professores e a descrença na eficácia destas lutas estarão a impedir, julgo, uma adesão mais expressiva à luta que o STOP quer prolongar até ao final do mês.

O Sindicato de Todos os Professores (STOP) alargou o pré-aviso de greve nas escolas até ao final da próxima semana, estando já agendado um protesto em Amarante na segunda-feira, revelou o coordenador da estrutura sindical.

Os protestos iniciados pelo STOP no início de Outubro vão continuar até, pelo menos, ao dia 29 de Novembro, disse à Lusa o coordenador do STOP, André Pestana.

Nas primeiras seis semanas de greve fecharam seis escolas, mas nas duas últimas semanas encerraram 20, segundo contas do STOP que, perante a adesão de cada vez mais estabelecimentos de ensino, decidiram prolongar os protestos.

Na próxima segunda, professores, funcionários, pais e alunos vão realizar um cordão humano em torno da Secundária de Amarante com cartazes alertando para os problemas da escola pública, explicou.

Os motivos das greves têm vindo a aumentar: o que começou como um protesto contra a presença de amianto nas escolas passou a incluir também a violência nas escolas, a falta de funcionários e professores, os baixos salários e a precariedade.

50 alunos para um funcionário

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A Escola Básica 2,3 José Saraiva, em Leiria, está encerrada, esta segunda-feira, disse à agência Lusa o coordenador do S.TO.P – Sindicato de Todos os Professores, que reclama mais funcionários e um subsídio de deslocação para docentes.

“Segundo os profissionais desta escola, há pelo menos 20 anos que a escola não fechava devido a uma greve. A adesão foi brutal”, adiantou o coordenador do S.TO.P, André Pestana.

O dirigente explicou que a adesão à greve se deve à falta de funcionários nesta escola, o que “põe em causa a segurança dos alunos”.

“Nesta escola são 19 funcionários para 923 alunos. O rácio é de 48,5 assistentes operacionais, muito mais do dobro daquilo que o ministro da Educação anda a dizer. Convidamo-lo a vir ao país real e ver o que se passa”, desafiou André Pestana.

A adesão às greves locais que o STOP tem andado a promover demonstram o descontentamento e o mal-estar gerado pela falta de pessoal não docente, as más condições de trabalho, a degradação das instalações, o desgaste físico e psicológico e o ambiente de violência latente em escolas de todo o país.

Como é possível manter em funcionamento, apenas com 19 assistentes operacionais, uma escola que precisaria de perto de meia centena para assegurar a vigilância, a limpeza, o acompanhamento dos alunos com necessidades especiais e o funcionamento dos serviços? Quantos mais anos tencionam os responsáveis insistir na conversa de que tudo vai bem com a colocação de funcionários e professores, e que a meia dúzia de problemas “residuais” que subsistem estão em vias de rápida resolução?

Recorde-se que, apesar de pouco mediatizada, a segunda fase da greve decretada pelo STOP está a mobilizar professores e funcionários, a levar ao encerramento de escolas e a dar visibilidade pública a problemas que o governo teima em ignorar. Uma iniciativa relevante em defesa de todos os que estudam e trabalham nas escolas e que, sem sectarismos, cumpre assinalar.

Acabar de vez com o amianto nas escolas

amianto.JPGA associação ambientalista Zero, o Movimento Escolas Sem Amianto (MESA) e a Federação Nacional dos Professores (Fenprof) lançaram esta quinta-feira uma petição nacional para a remoção total do amianto das escolas do país. As organizações esperam recolher mais de 4 mil assinaturas para levar a petição a debate em plenário da Assembleia da República.

André Julião, coordenador do MESA, explica à TSF que depois de “várias tentativas” junto do Ministério da Educação para conseguir uma lista atualizada das escolas que ainda contêm amianto, e depois de vários pedidos de reunião sem resposta, decidiram avançar para uma petição de forma a que “sejam tomadas as necessárias medidas destinadas a impor ao governo, no respeito pela lei, a divulgação da lista”.

“O governo tem dado pouca atenção a este problema. Tem até agido com alguma leviandade dada a seriedade do problema”, afirma André Julião, explicando que se trata de problema de saúde pública de toda a comunidade educativa.

A presença de estruturas contendo amianto em muitas escolas portuguesas é um problema antigo, que ganhou merecido destaque nos últimos tempos.

Desde logo, honra lhe seja feita, pela iniciativa do STOP, que não só não deixou morrer o assunto como o incluiu entre as motivações das greves que têm sido realizadas nas últimas semanas.

Agora a Fenprof, em associação com organizações ambientais, vem dar o seu contributo a uma luta que, da sua parte, já é antiga. Claro que os mais atentos notarão aqui alguma rivalidade entre o velho e o novo sindicalismo na disputa pela titularidade de “donos da luta”. Pessoalmente, não me incomoda a chegada da “concorrência” e a competitividade que ela introduz no sindicalismo docente: a remoção do amianto é uma necessidade urgente e todas as iniciativas convergentes no sentido de forçar o governo a assumir as suas responsabilidades são válidas e merecem ser apoiadas.

Mas extraordinário nisto tudo, e verdadeiramente lamentável, é que o ME não seja sequer capaz de fornecer, como é sua obrigação, a lista das escolas onde ainda existe amianto. Muito menos assumir compromissos em relação às intervenções ainda por realizar. Ou àquelas que pretenderá, a pretexto da chamada descentralização, empurrar para os municípios. Igual a si próprio, o ministro explorou a sua faceta de cara de pau e, em entrevista à Lusa, desvalorizou o problema: se ainda há amianto nalgumas escolas, é porque a remoção não foi considerada prioritária; se as placas estão em boas condições o melhor é não lhes mexer e deixar o problema para quem vier a seguir. Ah, e não falem mais do assunto porque isso só vai criar “alarme social”…

Greve contra a violência escolar

STOP-violenciaescolar.pngO Sindicato de Todos os Professores (Stop) espera que este mês se “faça história” com a greve contra a violência e a impunidade nas escolas, que decorrerá entre 11 e 22 de Novembro. Para André Pestana, dirigente do Stop, foi já o que aconteceu com a greve contra o amianto nas escolas, também convocada por este sindicato e que se prolongou entre 7 e 31 de Outubro.

Segundo o balanço do Stop, no mês passado fecharam nove ou dez escolas devido à greve contra o amianto. E houve mesmo uma escola de Sintra, a EB23 Ruy Belo, que fechou 10 dias devido a esta greve, destaca André Pestana.

Todos os pré-avisos para a greve deste mês já estão entregues. “Cumprimos religiosamente o tempo legal para o fazer”, garante André Pestana, recordando que estes abrangem também o pessoal não docente, que o Stop passou também a representar.

“Não é com greves rituais de um só dia, e muitas vezes coincidindo com uma sexta-feira que se vai conseguir derrotar os ataques brutais contra a escola pública”, proclama este sindicalista que reivindica para o Stop, criado há pouco mais de um ano, a iniciativa de levar por diante paralisações que “de facto incomodam”.

O enfoque central desta nova paralisação será a violência nas escolas e o clima de “impunidade” que se institui face a este fenómeno, que nestes primeiros meses do presente ano lectivo passou já por agressões a 16 professores e funcionários.

Julgo que não é objectivo do STOP que as escolas paralisem durante duas semanas. Tal como sucedeu com a greve pela retirada do amianto, a ideia será contribuir para a mobilização das comunidades escolares onde o problema da violência é sentido de forma mais premente, permitindo que se organizem, a coberto do pré-aviso de greve, paralisações, manifestações ou outras acções de denúncia e de protesto.

Percebendo que os tempos actuais não estão de feição para grandes lutas nacionais, mas não querendo ceder à inacção, o STOP aposta em acções locais e na capacidade de organização autónoma dos professores nas respectivas escolas. Uma estratégia a meu ver inteligente, da parte de um sindicato ainda com poucos recursos mas que quer inovar e fazer a diferença na luta pelos direitos dos professores.

Greve contra o amianto encerra escola em Mira-Sintra

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Em resultado da greve convocada pelo STOP contra a não retirada do amianto das escolas, a Escola Básica Dom Domingos Jardo, em Mira Sintra, esteve hoje de manhã encerrada.

E é quando os responsáveis se vêem obrigados a assumir compromissos, concretizando finalmente o que há muito prometeram, que se percebe que estas lutas podem mesmo valer a pena…

A Câmara de Sintra considera a paralisação irresponsável, porque o material começará a ser removido nas próximas semanas.

Greve contra o amianto nas escolas

amianto.JPGO STOP tem sido incansável na denúncia de um problema grave que persiste em muitas escolas portuguesas: a existência de telhados e outras coberturas que contêm amianto, um material cujos efeitos cancerígenos são bem conhecidos.

Nunca será demais sublinhar que a retirada do amianto é uma das promessas não cumpridas deste governo, que sempre deu prioridade ao eduquês pedante e palavroso em torno da falsa autonomia e da falaciosa flexibilidade curricular, em vez de melhorar as condições de trabalho nas escolas e zelar pela saúde e a segurança das comunidades escolares.

Apenas o timing e a forma de luta escolhidos me suscitam dúvidas quanto à eficácia do protesto.

O Sindicato de Todos os Professores (Stop) entregou um pré-aviso de greve a exigir a retirada de amianto das escolas, num protesto que durará 15 dias e abrange todas as escolas do país.

“A greve começa amanhã [quinta-feira], apenas na Escola Básica de D. Domingos Jardo [em Mira-Sintra], mas depois é alargada a todo o país”, explicou à Lusa André Pestana, dirigente do mais jovem sindicato de professores, explicado que os pré-avisos de greve entregues ao Ministério da Educação terminam a 18 de Outubro.

O motivo da greve prende-se com o facto de ainda existirem escolas com amianto: “Em Setembro de 2016 o primeiro-ministro anunciou que esse problema seria erradicado até 2018 mas estamos em 2019 e continua a existir”, lamentou André Pestana.

De acordo com o Stop, há cerca de 100 escolas onde o amianto continua a ser um problema para alunos, professores, funcionários e até pessoas que vivem nas proximidades. Muitos desses estabelecimentos foram alvo de intervenções para a retirada dessa substância, considerada cancerígena, mas o trabalho de remoção foi mal feito, segundo o porta-voz do sindicato.

Greve climática também abrange professores

greve-clima.jpgNão sendo uma luta específica dos professores, os pré-avisos apresentados pelos sindicatos da Fenprof e pelo STOP cobrem as ausências ao serviço de professores e educadores que queiram participar nas manifestações em defesa do futuro do planeta que se irão realizar na próxima sexta-feira em diversas cidades portuguesas.

A Federação nacional dos Professores (Fenprof) entregou um pré-aviso de greve para sexta-feira, dia da paralisação global pelo clima, informou a estrutura sindical nesta terça-feira.

Depois de ter sido contactada por vários docentes que queriam aderir ao protesto mundial em defesa do planeta, a Fenprof decidiu entregar um pré-aviso “para que todas as pessoas que o desejam possam participar na manifestação” que se realiza esta sexta-feira em mais de vinte localidades portuguesas, disse à Lusa o secretário-geral da Fenprof, Mário Nogueira.

“As questões do clima são problemas que têm vindo a preocupar os professores e que os devem preocupar porque estão na formação dos jovens e, sobre essas matérias, têm tido sempre um papel activo”, salientou Mário Nogueira, que se referiu também às “posições esclarecidas e combativas dos jovens”.

Reconhecendo que este é um pré-aviso de greve sui generis uma vez que os trabalhadores não estão a reivindicar questões laborais nem a contestar qualquer posição da entidade patronal, Mário Nogueira entende que é importante dar liberdade aos professores para poderem participar nestas iniciativas.

O pré-aviso de greve apresentado pela Fenprof abrange todos os educadores de infância e professores desde o ensino básico ao superior de todos os estabelecimentos de ensino portugueses, tanto públicos como privados.

Além da Fenprof, também o STOP – Sindicato de Todos os Professores e o Sindicato dos Trabalhadores da Saúde, Solidariedade e Segurança Social (STSSSS) entregaram pré-avisos de greve para dia 27, permitindo aos trabalhadores de todos estes sectores aderirem à greve.

A luta continua… nos tribunais?

juizUm grupo de professores, apoiados pelo sindicato Stop, abriu no final da semana passada uma conta bancária para recolher contributos financeiros com o objectivo de processar o Estado devido à não- contabilização de mais de seis anos de tempo de serviço das respectivas carreiras. A intenção é angariar cerca de 8 mil euros, verba tida como necessária para que o assunto chegue aos tribunais europeus.

Essa é a quantia tida como necessária para contratar um “dos mais conceituados escritórios de advogados do país na área laboral”, lê-se no apelo que foi lançado aos docentes em várias plataformas digitais durante o fim-de-semana prolongado. Os promotores da iniciativa identificam o escritório de António Garcia Pereira como aquele que deverá ser escolhido para liderar o processo. Este especialista em Direito Laboral já assessorou o Stop no ano passado, a propósito do mesmo tema.

Nenhum dos professores que lançaram a iniciativa é filiado no Stop – um sindicato nascido há um ano –, mas aquela estrutura aceitou “juntar forças e servir como megafone da ideia, para fazer chegar a informação aos professores”, explica o dirigente sindical André Pestana.

Apercebi-me das movimentações nas redes sociais em torno deste projecto. Mas a forma algo nebulosa como tem estado a ser apresentado inibiu-me de fazer o que costumo sempre que vejo professores a lutar em defesa dos seus direitos e da sua dignidade profissional – divulgar as iniciativas e expressar, sem reservas, o meu apoio.

O que desde logo me suscita dúvidas é decidir-se avançar para uma recolha de fundos sem que haja uma definição clara dos objectivos concretos que se pretendem alcançar. “Ir para os tribunais” é um repto que tem sido lançado por muitos professores inconformados nas redes sociais. Mas, objectivamente, significa o quê? Os tribunais aplicam as leis existentes. E se a lei que temos, e que não conseguimos que fosse alterada, prevê a recuperação de apenas 2 anos, 9 meses e 18 dias, alguém espera que algum tribunal venha decretar a contagem integral do tempo de serviço?

Claro que há matérias, relacionadas com reposicionamentos, faseamentos ou ultrapassagens que poderão alcançar provimento por via judicial. Essas, tanto quanto sei, estão a ser trabalhadas pelos serviços jurídicos de vários sindicatos, havendo já diversas acções interpostas nos tribunais. A razão que venha a ser dada aos professores, nestes casos, permitirá corrigir injustiças que penalizam alguns colegas. Mas não há razões para presumir que daqui sairão ganhos directos para toda a classe docente.

Outra questão é a dos “tribunais europeus” que, como se sabe, são tribunais de recurso. O que significa que só depois de esgotados todos os recursos nos tribunais nacionais é que um processo dos professores contra o Estado português – ou seja, daqui por uns anos – aí poderia ser admitido. Ora isto deve ser dito com clareza. Claro que as causas dos professores, sendo justas, devem ser levadas até ao fim, na justiça portuguesa e europeia. Mas que ninguém esteja à espera de vitórias ao virar da esquina. Nem a arregimentar apoios semeando ilusões…

Há outras dúvidas que se levantam.  Por exemplo: pretende ou não o STOP constituir o seu próprio departamento jurídico, para intervir judicialmente sempre que estejam em causa os interesses dos seus associados e/ou da classe docente que representa? Ou irá contratar um escritório de advocacia cada vez que quiser patrocinar uma acção judicial?

A “engenharia financeira” que está a ser montada também não é muito clara: o sindicato assume esta causa, mas quem recolhe e gere o dinheiro é “um grupo de professores” que, segundo a notícia do Público, nem sequer é sindicalizado. Mas é o STOP que dá a cara e desde já se responsabiliza pelas “boas contas”, garantindo que, caso a iniciativa não avance, tudo será devolvido a quem contribuiu.  Ora há aqui qualquer coisa que não joga muito bem. Será que um sindicato não é competente para gerir um fundo destinado a uma actividade de âmbito sindical? E fará sentido o grupo de professores que recolhe o dinheiro confiar no STOP para organizar a luta jurídica, mas não o suficiente para se sindicalizarem ou lhe confiarem a gestão financeira da iniciativa?

Enfim, parece-me que qualquer sindicato, enquanto organização de trabalhadores que nele confiam e que representa, deve ter uma estratégia de acção clara e bem delineada, que não pode ser apenas a de se colar a iniciativas de terceiros. Da mesma forma que critico atitudes sectárias de outros sindicatos, quando assumem a posição de “donos da luta”, também não me parece que o “ir a todas” a “ver no que é que dá” seja a estratégia mais adequada a um sindicalismo responsável e consequente.

Não sendo o meu sindicato, saudei o aparecimento do STOP como uma lufada de ar fresco no panorama do sindicalismo docente. Acredito que o novo sindicato pode aglutinar um conjunto significativo de professores que não se revêem nas organizações existentes. E funcionar, para estas, como um estímulo à sua renovação. Contudo, há posturas que, se são compreensíveis num sindicato em formação, que não dispõe das estruturas, do reconhecimento e do know-how dos mais antigos, não se devem perpetuar como modo de estar e agir de uma organização sindical credível e representativa. À medida que ganha a confiança de um número crescente de professores, o STOP terá de abandonar a postura de pequeno e inconsequente grupo de protesto e encontrar um espaço próprio no sindicalismo docente.

Fundo de greve para professores

stopAinda não têm nenhuma nova greve em vista, mas na próxima que vier já poderão ajudar os seus associados a mitigar os efeitos da paralisação no rendimento disponível de quem a faz. A garantia vem do Sindicato de Todos os Professores (Stop), constituído no ano passado, e que nesta terça-feira decidiu marcar o início do 3.º período de aulas com o anúncio da constituição de “um fundo de apoio a situações de greve”. 

Para o Stop, esta decisão é a prova da existência de “um novo sindicalismo em Portugal” já que eles são o primeiro sindicato de professores a ter um fundo de greve. […]

Para constituir o seu fundo de greve, o Stop utilizará 25% das suas receitas, que no grosso são provenientes das quotas mensais dos seus associados (0,7% do valor do salário bruto). Por agora, adianta André Pereira, o Stop ainda não chegou aos 500 sócios.

Tenho todo o respeito pela nova geração de sindicalistas do STOP e pela sua vontade de renovar o sindicalismo docente, apostando em novas estratégias e formas de organização e de luta. Mas o fundo de greve que propõem não me parece uma boa ideia. Tentarei explicar porquê.

Os fundos de greve estão geralmente associados a sindicatos fortes e independentes e a profissões com bom poder reivindicativo. Os maquinistas dos caminhos-de-ferro são o exemplo mais conhecido. Contudo, não há milagres: constituir um fundo de greve eficaz exige o pagamento de quotas mais avultadas ou, em alternativa, andar muitos anos a amealhar até que se consiga acumular um valor significativo.

Para quem tem dúvidas, não há como fazer algumas contas. Tomando os valores propostos pelo STOP – com 25% da quota sindical, que neste caso corresponde a 0,7% do ordenado bruto, teremos um fundo de greve alimentado por menos de 0,2% do ordenado de cada professor. Tendo em conta que um dia de greve corresponde a uma perda de 1/30 do vencimento, ou seja, cerca de 3,3% do salário mensal, verifica-se que seria necessário andar cerca de um ano e meio a descontar para o fundo até haver dinheiro suficiente para compensar um só dia de greve.

Agora pense-se um pouco: alguém tenciona constituir fundos de greve para financiar greves de um dia? Claro que não; eles fazem sentido para greves prolongadas, mas aí os descontos terão de ser maiores e acumulados durante vários anos antes de serem usados. Em todo o caso, não alimentemos ilusões: é impossível, com um desconto de 3 a 5 euros mensais – que é o que o STOP está a propor aos seus sócios – financiar greves prolongadas, que possam acarretar descontos salariais de largas dezenas ou mesmo centenas de euros.

Ainda assim, os professores têm experiências recentes e bem sucedidas de fundos constituídos para as greves às avaliações. Mas aqui o sucesso prende-se, como se sabe, com a natureza desta forma de luta: são muitos a descontar para comparticipar as perdas de um número reduzido de grevistas. Isto é intransponível para a situação, mais provável no futuro, de terem de ser todos a lutar pelo interesse de todos.

Finalmente, sendo geralmente constituídos pelos sindicatos – recorde-se a celeuma que provocou o crowdfunding que financiou a greve dos enfermeiros – os fundos de greve colocam outro problema: abrangem apenas os trabalhadores sindicalizados. No caso dos professores, onde as taxas de sindicalização atingem hoje valores modestos comparativamente com um passado recente, correríamos o risco de alienar os docentes não sindicalizados da participação em eventuais greves. Pois aos pretextos e razões já hoje apontados para não aderir a esta forma de luta – uma decisão individual perfeitamente legítima, note-se – acrescentar-se-ia mais um: o de não ser pago para a fazer…