Os professores e a “sondagem” do Expresso

expresso-sondagemO Expresso tenta, através das suas sondagens, tomar o pulso ao estado da geringonça e à evolução da conjuntura política até às próximas legislativas. Embora não costume perder tempo com as análises de um semanário que, se ainda consegue ter alguma influência, há muito deixou de ser de referência, houve algo em que não pude deixar de reparar: segundo a edição de ontem do jornal, só 16,9% dos portugueses concordam com a pretensão dos professores de recuperar integralmente o tempo de serviço que lhes foi retirado. Os restantes inquiridos com opinião formada apoiam a devolução parcial proposta pelo Governo ou acham até que não devia ser recuperado tempo algum.

Claro que estas “sondagens”, feitas com base em entrevistas telefónicas a detentores de telefone fixo, há muito deixaram de assentar numa amostra representativa da população portuguesa. Como se costuma dizer, valem o que valem, e neste caso valem muito pouco. Estou convicto, aliás, que servem mais o intuito de influenciar a opinião pública, uma missão de que o Expresso continua a sentir-se investido, do que o de reflectir o que os cidadãos realmente pensam e sentem.

Mas há algo que os jornalistas/opinadores/comentadores do Expresso parecem esquecer enquanto se congratulam com o apoio popular esmagador à política do Governo contra as reivindicações “corporativas” dos professores: 16,9% dos habituais votantes nas eleições representam perto de um milhão de votos. São, em termos práticos, um factor limitador do crescimento eleitoral do PS até ao limiar da maioria absoluta.

Parece persistir, no PS profundo, a convicção de que o enfrentamento dos professores rende dividendos políticos. E nem a perda da maioria absoluta em 2009, resultado dessa e doutras obstinações do socratismo, levou os dirigentes socialistas a rever ideias e posições. Para os professores, a reiterada desconfiança do PS em relação aos profissionais da Educação e a forma acintosa como faz questão de os tratar, apenas podem ter um resultado: no que deles depender, jamais o PS voltará a ter uma maioria absoluta…

Portugueses confiam nas escolas públicas

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De acordo com o estudo de opinião realizado pela Aximage para o Negócios e o Correio da Manhã, as forças policiais são a instituição na qual os portugueses mais confiam: numa escala de zero a 20, o índice de confiança na capacidade que estes profissionais têm de combater o crime reúne uma pontuação de 14. De seguida na tabela, com uma pontuação de 13, constam as escolas e a sua capacidade de ensinarem coisas novas aos alunos. 

Consensual entre os eleitores das diversas forças partidárias é a ideia de que as escolas desempenham melhor o seu papel (ensinar coisas úteis aos alunos) do que as famílias (educar as crianças para o futuro de amanhã) […].

Não é, felizmente, novidade: a confiança dos portugueses nas escolas e no trabalho dos professores costuma salientar-se neste tipo de estudos. Ainda na semana passada, uma investigação da Universidade Católica colocava igualmente as escolas públicas em segundo lugar entre as instituições relevantes da sociedade portuguesa, atribuindo o topo das apreciações positivas à Presidência da República.

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Já os bancos, os tribunais (que não aplicam a lei com celeridade e justiça), os sindicatos (que não defendem eficazmente os trabalhadores) e as igrejas (que parecem ter dificuldade em conduzir os fiéis pelo caminho do Bem) mereceram apreciação negativa em ambos os estudos.

Curiosamente, os bombeiros, uma classe profissional que costuma estar também no topo da confiança dos portugueses, não aparecem em nenhuma destas sondagens. E é pena, pois seria interessante saber até que ponto a tragédia dos fogos do Verão passado terá tido reflexos na imagem pública destes profissionais.

Uma geringonça alemã?

O anúncio de Martin Schulz como candidato a chefe do governo alemão continua a dinamizar o SPD nas sondagens. O partido social democrata reúne agora 28% das intenções de voto, mais 8 pontos que na sondagem anterior e a apenas 6 pontos da CDU/CSU de Angela Merkel.

Angela Merkel será certamente uma adversária difícil de bater, mesmo pelo prestigiado Martin Schulz, ex-presidente do Parlamento Europeu, o “alemão bom” que lidera agora o partido social-democrata alemão.

Mas o facto de o SPD estar a subir nas sondagens, retirando intenções de voto tanto à CDU de Merkel como ao partido neo-nazi AfD, alimenta as esperanças de que possa, em conjunto com outros partidos de esquerda – o Linke e os Verdes -, alcançar a maioria absoluta no parlamento federal, o Bundestag.

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Irá o mais rico e populoso país da União Europeia construir também a sua geringonça?

PSD afunda-se nas sondagens

Claro que as sondagens, como costumam dizer os políticos quando os resultados lhes são desfavoráveis, “valem o que valem”. Sobretudo quando não há eleições no horizonte próximo.

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Mas é difícil ignorar a última sondagem publicada, o barómetro de Julho da Aximage, no que significa de derrota em toda a linha para a estratégia política do PSD de Passos Coelho:

  • PS 8,5 pontos percentuais à frente do PSD, consolidando a posição de primeiro partido;
  • Os partidos da Geringonça têm uma maioria de cerca de 55% de apoiantes contra os 35% do PSD/CDS;
  • O CDS é relegado à condição de quinto partido;
  • António Costa, seguido por Catarina Martins, são os líderes partidários mais populares, enquanto Passos Coelho surge como o mais impopular;
  • O campeão da popularidade é Marcelo Rebelo de Sousa, com 91% dos inquiridos a considerar bom o desempenho do Presidente.

A continuarem assim, não tardará que comecem as movimentações para a substituição do líder, no interior do PSD. Que é como quem diz, estará na altura de escolherem outros rostos e de inventar mentiras novas.

Dia de eleições em Espanha

As sondagens voltam a dar maioria ao Partido Popular (PP), liderado por Mariano Rajoy, mas longe dos 176 deputados necessários para a maioria absoluta. A grande novidade pode estar na segunda força política mais votada. Em dezembro foi o PSOE que ficou em segundo lugar, mas agora pode ser ultrapassado pela candidatura conjunta Unidos Podemos. Em quarto lugar voltaria a estar o Ciudadanos.

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Aparentemente, os seis meses de interregno desde as últimas eleições espanholas, não tendo sido suficientes para que surgisse uma solução governativa, também não irão gerar agora grandes mudanças. Uma maioria de direita será quase impossível de obter por um PP desgastado e um Ciudadanos incapaz de descolar da quarta posição, enquanto à esquerda os desentendimentos, nomeadamente na questão do referendo da Catalunha, continuarão a ser impeditivos de uma solução à portuguesa.

Contudo, a indecisão, a descrença e a desconfiança em relação aos políticos e aos partidos pode originar, além de um previsível aumento da abstenção, também oscilações de última hora nas intenções de voto que possam traduzir resultados algo diferentes daquilo que as sondagens têm projectado.

A ver vamos, mais logo.

Brexit

EURef17Junsmall.jpgNo Reino Unido, permanece a incógnita sobre o desfecho do referendo à permanência na União Europeia. Há meses em situação de empate técnico, nos últimos dias o Brexit desceu ligeiramente nas sondagens, reflexo dos receios de muitos britânicos em tomar agora uma decisão irreversível que pode trazer grandes prejuízos no futuro.

Mas a verdade é que o panorama da União e das instituições europeias também não é de molde a entusiasmar ninguém.

Uma recessão económica prolongada e sem fim à vista, enquanto se insiste nas receitas austeritárias e monetaristas que apenas agravam os desequilíbrios existentes na zona Euro.

A crise dos refugiados resolvida da forma mais vergonhosa e egoísta que é possível, deixando-os à mercê dos naufrágios e dos traficantes de seres humanos e condenando-os à deportação para a Turquia, enquanto continua a evocação hipócrita da matriz humanista e solidária do projecto europeu.

As ameaças ridículas dos procedimentos por défice excessivo aos países periféricos, que afundam as suas economias por se verem obrigados a seguir as políticas falhadas ditadas pela ortodoxia neoliberal em Bruxelas, Frankfurt e Berlim.

As negociações secretas do acordo comercial com os EUA que irá deixar, se for bem sucedido, os estados e os cidadãos submetidos ao poder e aos interesses das multinacionais e a consequente regressão nos direitos económicos, laborais e ambientais que fizeram da Europa uma referência para o resto do mundo.

Embora prefira que permaneçam, não conseguirei culpar os Britânicos se decidirem sair desta União Europeia burocratizada e antidemocrática em que cada vez menos cidadãos europeus se revêem.

Mas também sei que, se todos os descontentes forem saindo, serão cada vez mais difíceis as mudanças necessárias.

Portugueses apoiam a escola pública

Quase 80% dos portugueses mostra-se favorável à atuação do governo na questão dos contratos de associação. Apesar da mediatização dos protestos dos colégios, 78,7% dos inquiridos pela Aximage para o Correio da Manhã acha que o governo tem razão na opção de deixar de financiar novas turmas em colégios privados em áreas geográficas cobertas por escolas públicas.

O recuo de PSD e CDS na exposição da sua posição quanto aos contratos de associação talvez encontre explicação no facto de apenas 13,9% dos inquiridos mostrarem compreensão pela posição dos colégios. 7,4% afirmou não ter opinião.

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Interessante a descolagem gradual dos partidos de direita em relação ao movimento dos colégios, conforme foram percebendo que o tema não concitava apoios na opinião pública, apesar de toda a ajuda mediática de que o amarelismo beneficiou.

Claro que isto não significa que tenham deixado de defender a escola privada paga com o dinheiro dos contribuintes. Revela apenas que, perante a determinação do governo e da maioria que o apoia, a solidez jurídica dos argumentos do ME, o apoio da opinião pública e até os tiros nos pés dos próprios amarelos, manipulando crianças, insultando governantes e tentando até instrumentalizar o próprio Presidente, o PSD e o CDS preferem neste momento distanciar-se de más companhias.

Nas fileiras do PSD há mesmo quem arrisque manifestar o seu apoio à política de defesa da escola pública do governo PS, demarcando-se assim da promoção descarada do ensino privado feita pelo anterior governo de direita, enquanto cortava turmas e dispensava professores nas escolas públicas:

Aliás, este sábado o Expresso noticiava que alguns notáveis do PSD se colocavam ao lado do governo na questão. Segundo o semanário, Rui Rio, José Eduardo Martins e Guilherme Silva assumem que concordam com o governo na primazia dada pelo governo ao investimento na escola pública em detrimento do financiamento dos colégios. Rui Rio estará hoje no Clube dos Pensadores em Gaia.