Heterodoxias: Byung-Chul Han

byungByung-Chul Han é um filósofo sul-coreano que se tem dedicado a analisar criticamente o mundo neoliberal, hiperconsumista e alienante que se desenvolveu nas últimas décadas. Esteve há cerca de meio ano em Barcelona, o que foi pretexto para alguma imprensa espanhola divulgar o pensamento do filósofo nascido em 1959 na Coreia do Sul e actualmente professor na Universidade de Berlim. A partir da edição brasileira do El País, aqui deixo algumas das suas ideias e reflexões.

No 1984 orwelliano a sociedade era consciente de que estava sendo dominada; hoje não temos nem essa consciência de dominação.

Vive-se com a angústia de não estar fazendo tudo o que poderia ser feito. […] Hoje a pessoa explora-se a si mesma achando que está se realizando; é a lógica traiçoeira do neoliberalismo que culmina na síndrome de burnout. […] Não há mais contra quem direccionar a revolução, a repressão não vem mais dos outros.

Os macrodados tornam supérfluo o pensamento porque se tudo é quantificável, tudo é igual… Estamos em pleno dataísmo: o homem não é mais soberano de si mesmo, mas resultado de uma operação algorítmica que o domina sem que ele perceba; vemos isso na China com a concessão de vistos segundo os dados geridos pelo Estado ou na técnica do reconhecimento facial”.

Sem a presença do outro, a comunicação degenera em um intercâmbio de informação: as relações são substituídas pelas conexões, e assim só se conecta com o igual; a comunicação digital é somente visual, perdemos todos os sentidos; vivemos uma fase em que a comunicação está debilitada como nunca: a comunicação global e dos likes só tolera os mais iguais; o igual não dói!

Quanto mais iguais são as pessoas, mais aumenta a produção; essa é a lógica actual; o capital precisa que todos sejamos iguais, até mesmo os turistas; o neoliberalismo não funcionaria se as pessoas fossem diferentes.

A aceleração actual diminui a capacidade de permanecer: precisamos de um tempo próprio que o sistema produtivo não nos deixa ter; necessitamos de um tempo livre, que significa ficar parado, sem nada produtivo a fazer, mas que não deve ser confundido com um tempo de recuperação para continuar trabalhando; o tempo trabalhado é tempo perdido, não é um tempo para nós.

Aprender a aprender ou aprender coisa nenhuma?

nunocrato[1]Embora não concorde com tudo o que diz e discorde de quase tudo o que fez enquanto ministro da Educação, respeito em Nuno Crato o intelectual com um pensamento próprio, estruturado e nalguns pontos polémico sobre Educação. Já escrevia e debatia sobre temas educativos muito antes de ser ministro, e deixando de o ser, continua a fazê-lo. O que é de registar e saudar.

E – um ponto a seu favor – não tem medo da polémica nem dos consensos politicamente correctos. António Guterres, na cerimónia recente de atribuição do doutoramento honoris causa pela Universidade de Lisboa, enfatizou a importância de um ensino menos formal e da aprendizagem ao longo da vida, valorizando o “aprender a aprender” em detrimento dos conhecimentos que se aprendem nas escolas e nas universidades e que rapidamente se mostram inúteis e ultrapassados. Crato, obviamente, discorda. E pergunta:

Gostaria algum de nós de ser tratado por um médico que, na universidade, tivesse aprendido Literatura Germânica, não tivesse prestado grande atenção à Anatomia nem à Histologia, mas que tivesse sido fantástico a “aprender a aprender”? Gostaria algum de nós de andar num avião mantido por uma equipa de mecânicos que, na sua escola de formação técnica, tivessem estudado Anatomia Patológica, nada sobre motores nem sobre aeronáutica, mas que fossem extraordinários a “aprender a aprender”?

Em boa verdade, o conhecimento conta. E dou razão a Nuno Crato: embora o discurso de Guterres tenha sido de circunstância, redondo e generalista, como aliás é seu timbre, não me parece que tenha sido feliz na formulação que encontrou. Antes de “aprender a aprender” é preciso primeiro aprender alguma coisa que sirva de base a essa “permanente procura do conhecimento” em tempos invocada por outro ilustre autodidacta, Miguel Relvas de seu nome. O raciocínio lógico e abstracto, o pensamento crítico e criativo e outras “capacidades” e “competências” hoje em dia muito gabadas não se desenvolvem a partir do nada: são precisos conhecimentos de base, vocabulário e outras ferramentas cognitivas para as conseguir utilizar e desenvolver.

Quanto à obsolescência do conhecimento escolar: ela ocorre mais facilmente com as aprendizagens “flexíveis” que agora se pretende estimular do que com o conhecimento disciplinar sólido e estruturado do ensino tradicional. Nuno Crato dá o exemplo feliz das coisas que se aprendiam quando se começou a dizer, dos computadores, que seriam o futuro: quem conhece hoje os comandos do MS-DOS, as teclas de atalho do WordPerfect ou a programação BASIC, tudo coisas que faziam furor no final dos anos 80?…

Em contrapartida, dominar uma língua estrangeira ou ter boas bases de Matemática, conhecer e compreender o essencial da História e da Geografia de Portugal, entender no fundamental a teoria da evolução de Darwin ou a relatividade de Einstein, não são conhecimentos inúteis nem ficarão certamente ultrapassados nas próximas décadas. São conteúdos sólidos e concretos que não só enriquecem os jovens que os têm como lhes permitem, esses sim, partir para novas aprendizagens.

Google investe em Portugal

E é caso para perguntar: como se atrevem a instalar-se num país “dominado pela extrema-esquerda”?…

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Jornalistas e professores: em luta, ou a mesma luta?

jornalismo.jpgNão há nenhuma classe profissional tão hostilizada nos jornais como os professores. De um modo geral, todas as reivindicações dos professores são consideradas ilegítimas e a classe profissional é vista como detentora de uma força sindical da qual faz um uso abusivo. Diga-se, em boa verdade, que antes de enfrentar a hostilidade do jornalismo, os professores tiveram de enfrentar as hostilidades do modelo de gestão da escola e do ensino, numa guerra da qual saíram vencidos. Foi-se reduzindo progressivamente o tempo de trabalho autónomo, que era uma parte importante do tempo de trabalho de um professor (porque se entendia que o saber – manual ou intelectual, técnico ou teórico, académico ou não — é um direito à autonomia) e aumentando o tempo de trabalho controlado, que é hoje a quase totalidade do trabalho docente. O professor ficou assim submetido ao trabalho das classes proletárias, mas continua a recair sobre ele a imagem de que é um animal de luxo.

António Guerreiro iniciou assim uma reflexão, nas colunas do Público, sobre a difícil relação entre jornalistas e professores.

O cronista nota que tanto a escola moderna como o jornalismo actual nascem com o Iluminismo, essa revolução cultural dos finais do século XVIII que não só trouxe novas ideias e mentalidades mas também o conceito fundamental de universalização e democratização da cultura e do conhecimento.

A sociedade de homens livres, “tendo como único senhor a razão” carecia, por um lado, de escolas públicas onde todos pudessem aprender a ler e a escrever, e por outro, de uma imprensa capaz de manter informada uma opinião pública cada vez mais atenta, exigente e influente.

Contudo, entre os professores que, alicerçados num conhecimento cientificamente estruturado, preparam as novas gerações e os jornalistas que, trabalhando geralmente a partir da opinião e do efémero, formam a opinião pública, tende a surgir uma rivalidade sem sentido. Pois apesar dos pontos de vista, dos públicos e das formas de actuação diferentes, professores e jornalistas realizam um trabalho que se complementa mutuamente.

Mas a realidade é que, nos dias de hoje, tanto a profissão docente como o jornalismo se encontram em crise, perante uma sociedade que criou formas alternativas de acesso à informação e ao conhecimento e que julga poder dispensar, sem verdadeiramente os substituir, estes profissionais.

Reencontrar o seu lugar de intermediadores e divulgadores do conhecimento, que nunca será a mesma coisa que a difusão sem critério de doses maciças de informação indiferenciada e de verdades alternativas, é um desafio comum de jornalistas e professores no século XXI.

A última loucura das bibliotecas escolares

navegar-net.gifO livro tradicional tem sofrido a concorrência avassaladora dos omnipresentes tablets, telemóveis e redes sem fios. Não consigo saber, com rigor, se hoje se lê mais ou menos do que antes do advento da era digital. Mas não é difícil antever que, quando algumas crianças começam, ainda bebés, a ser viciadas no uso e abuso de todo o tipo de ecrãs, a disponibilidade e o interesse que possam vir a ter pelo papel impresso serão reduzidos.

Ora se não podes vencê-los junta-te a eles, é o que parecem pensar os responsáveis da Rede de Bibliotecas Escolares, que há anos vêm direccionando parte das suas iniciativas para as chamadas literacias digitais. Esta semana, foi anunciado um novo e ambicioso projecto.

A partir do próximo ano vai estar disponível nas escolas um novo portal para dotar os jovens de maior compreensão da Internet, para que a usem de forma mais esclarecida e crítica, foi hoje anunciado.

Esta nova plataforma digital, intitulada “Manual de Instruções para a Literacia Digital” (MILD), dirigida aos jovens entre os 15 e os 18 anos, com o objetivo principal de desenvolver as suas competências nos domínios da leitura, dos media e da cidadania digitais, foi hoje apresentada na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.

“A ideia nasceu para se fazer como produto, como plataforma, um conjunto de ferramentas que possa contribuir para dar poder aos jovens, para que utilizem a informação de um modo que é conhecimento”, disse a coordenadora do projeto MILD, Teresa Calçada.

Sempre me suscitou moderada irritação este tom, entre o presunçoso e o condescendente, das comissárias dos livros, das leituras, das bibliotecas e das múltiplas literacias. A forma definitiva como decretam a incompetência digital dos professores nas escolas, que carecem de ser instruídos pelas sapiências da RBE. E mesmo os jovens “nativos digitais”, que noutros contextos nos garantem virem já preparados de fábrica para o uso natural e intuitivo das novas tecnologias, parece que também não pescam muito do assunto. Pois precisam, afinal, de um “manual de instruções” para se orientarem nos meandros da internet sem serem “esmagados por tecnologias poderosas”.

A notícia do DN sobre a conferência de apresentação do novo projecto reproduz bem o tipo de discurso, de uma banalidade grandiloquente, dos neófitos que descobriram o caminho da salvação através do novo mundo digital. Perdidos entre a internet, definida como “argamassa onde as relações se alteram e intensificam”, e as escolas, que “hoje ainda não se adaptaram” às novas tecnologias, os jovens carecem da nova “ferramenta” como de pão para a boca. Este “grande chapéu para a era das tecnologias novas” é que os vai “orientar para a crítica”, pois só um “ensino letrado nos permite entrar na sociedade de consumo de massas e mostrar que se pode acrescentar mais-valia sem ser esmagado”. Enfim, e especialmente para quem estava com saudades, bem-vindos ao Eduquês 2.0, versão digital…

Fico a aguardar a disponibilização da nova ferramenta para confirmar as suas potencialidades, esperando que não se venha a juntar aos muitos portais, páginas e plataformas de iniciativa pública que foram sendo criadas nas duas últimas décadas e que foram sucumbindo pela sua irrelevância e falta de público. E remato com o discurso redondo de Guilherme Oliveira Martins, presente no evento não na qualidade de perfilador-mor do aluno do século XXI, a que nos habituou nos últimos tempos, mas nas funções, bem mais prosaicas e compensadoras, de administrador da Gulbenkian…

Guilherme d’Oliveira Martins, administrador da FCG, defendeu que as telecomunicações são um dos “paradigmas que se inserem nas grandes revoluções humanas, e suscitam ao mundo da educação desafios muito exigentes”, um dos quais é o combate à “dependência anómala”, porque a tecnologia tem que ser um meio e não um fim”.

Em busca do algoritmo mestre

pedro-dominguesO Público fez uma entrevista interessantíssima a Pedro Domingues, um dos maiores especialistas mundiais em inteligência artificial, que deveria motivar leitura e reflexão obrigatórias a todos os que andam por aí a vender o novo paradigma da “educação do século XXI”, presumindo que o conhecimento está todo “na palma da mão” e que basta pesquisar no google para encontrarmos tudo o que queremos e precisamos de saber.

Na verdade, o acesso à informação nos motores de busca e nas redes sociais é, cada vez mais, intermediado por algoritmos que, a partir da informação pessoal que incessantemente recolhem a nosso respeito, decidem o que nos interessa e o que queremos ver. Apercebemo-nos disto sobretudo quando o algoritmo falha, e começamos a deparar-nos demasiadas vezes com o mesmo anúncio irritante, ou com aquele perfil chato que parece perseguir-nos nalguma rede social. É mais difícil darmo-nos conta nas situações mais comuns, quando os algoritmos nos mantêm a navegar na nossa zona de conforto, mostrando-nos os nossos amigos, os sítios que já conhecemos e as pessoas que pensam como nós.

Mas a entrevista vai muito para além disto, explorando o facto de o entrevistado ser um cientista da computação especialmente interessado na demanda do chamado “algoritmo mestre”. Os algoritmos tradicionais, feitos por programadores, eram concebidos para realizar tarefas específicas: jogar xadrez, controlar uma máquina ou até mesmo fazer um diagnóstico médico. Podiam tomar decisões complexas, mas com base apenas em informação fornecida por que os programou. A nova geração de algoritmos é diferente, porque é concebida com a capacidade de aprender por si própria, até mesmo observando como as pessoas decidem e agem em diferentes situações. Ora é aprofundando este caminho que poderemos um dia chegar ao algoritmo mestre…

 

…um sistema de aprendizagem universal capaz de deduzir todo o conhecimento, desde que para isso seja “alimentado” com a informação necessária. Um algoritmo-mestre seria capaz tanto de manter o nosso email livre de spam como de descobrir curas (personalizadas) para cancros.

A partir daqui, há sobretudo duas ideias a destacar, embora haja muitas outras reflexões, ao longo da entrevista, que mereceriam comentário. A primeira é que, perante uma quantidade de informação virtualmente infinita disponível na internet, precisamos mesmo de ferramentas que seleccionem o que nos interessa. Mas também necessitamos de controle sobre o poder imenso que se traduz no conhecimento que as grandes multinacionais da internet acumulam sobre cada um de nós.

Precisamos de ter modelos nossos que sejam o mais inteligentes e o mais completos possível. O ideal é ter um modelo meu que me conhece tão bem como o meu melhor amigo. Este modelo faz o meu papel no ciberespaço: lê esses dez milhões de livros para escolher os dez de que eu vou gostar. Quero que esse modelo exista, mas não quero que esteja sob o controlo do Google ou do Facebook. Uma das opções que ponho é o banco de dados: algo que é para os nossos dados o que o banco é para o dinheiro. O banco não foge com o nosso dinheiro. Outra alternativa é algo como um sindicato de dados. Os sindicatos surgiram para equilibrar a balança de poder entre os patrões e os empregados. Hoje há outra grande balança de poder que está muito desequilibrada: é o poder do conhecimento. O Google e o Facebook cada vez sabem mais e nós continuamos a não saber muito sobre eles.

Pedro Domingues desmistifica também o velho receio de que as máquinas inteligentes venham um dia a virar-se contra os humanos. Esse é um risco imaginário, mas que pode esconder outros bem mais reais:

Há riscos verdadeiros e riscos imaginários. O circo maior é em torno dos riscos imaginários e distrai as pessoas dos verdadeiros. Um dos imaginários é esta ideia de que as máquinas se revoltam e tentam controlar o mundo. Outro risco muito maior é o risco das máquinas incompetentes: máquinas que tomam decisões erradas por não perceberem melhor. Ironicamente, o grande risco da inteligência artificial não são máquinas demasiado inteligentes, são máquinas demasiado estúpidas. As máquinas já tomam uma série de decisões muito importantes: que candidatos a empregos são entrevistados por empresas, quem são os potenciais criminosos ou terroristas, quem se recomenda a outra pessoa para que saiam juntos.

Finalmente, a pergunta do milhão de dólares: com máquinas cada vez mais capazes, não só de fazer as coisas por nós, mas também de pensar e decidir em vez dos humanos, quando é que poderemos ir todos de férias? Uma resposta inesperada sublinha o valor fundamental da democracia na chamada sociedade do conhecimento.

A muito longo prazo – décadas ou talvez centenas de anos – é possível que a inteligência artificial e os robôs sejam capazes de fazer tudo melhor do que os seres humanos. Aí, os seres humanos vão usufruir do mundo tecnológico da mesma forma que usufruíam dos frutos das árvores. Mas como é que esses frutos são divididos? São divididos por quem controla as empresas ou distribuídos por todos nós? Enquanto a maioria das pessoas quiser que os frutos sejam distribuídos, eles serão distribuídos. É por isso que, a longo prazo, o nosso voto é mais importante do que o nosso emprego.

O mundo em que vivemos

Marco Melgrati é um ilustrador italiano a residir na Lituânia com um especial talento para retratar, nos seus desenhos, os paradoxos e as perplexidades do mundo de hoje. Captando, de uma forma criativa e original, a forma como as velhas injustiças, fraquezas e vícios da humanidade se recriam no tempo novo do digital e dos media sociais.

Fica uma selecção de imagens e a sugestão de espreitar as restantes na página do autor no Instagram.

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