Desvalorização contínua

devaluacion-continua_andreu-navarra_201906061159.jpgAndreu Navarra é um professor catalão que, como é comum entre os profissionais que trabalham com alunos reais em vez de se limitarem a teorizar, tem um olhar bastante crítico sobre os rumos actuais da Educação, em Espanha e no mundo. Uma reflexão importante, em tempos de plena ofensiva neo-eduquesa e quando se percebe, no horizonte, uma nova ordem educativa mundial em preparação. Que pouco ou nada nos trará de bom.

Mais preocupado com as consequências da forma como estamos sendo coagidos a ensinar e aprender do que com os temas da agenda educativa impostos pelos governos e as organizações internacionais com interesse na Educação, o nosso colega publicou em livro – Devaluación Continua, Tusquets, Barcelona, 2019 – os seus receios, alertas e inquietações. Uma visão pessimista, dirão alguns. Pela minha parte, e do que li, parece-me uma análise pertinente e fortemente escorada na realidade. Uma visão realista, acrescento, à qual tento juntar uma nota de optimismo: compreender a realidade é o primeiro passo para arrepiar caminho. Enquanto é tempo…

A partir da entrevista ao autor publicada na edição brasileira do El País, ficam, expressas na primeira pessoa, algumas das ideias polémicas, mas certamente incisivas e desassombradas, de Andreu Navarra. E com as quais a maioria dos professores “no terreno” se identificam, estou certo, sem dificuldade.

Nós, professores, queremos criar cidadãos autónomos e críticos, mas, em vez disso, estamos criando o ciberproletariado, uma geração sem dados, sem conhecimento, sem léxico. Estamos vendo o triunfo de uma religião tecnocrática que evolui para menos conteúdo e alunos mais idiotas. Estamos servindo a tecnologia e não a tecnologia a nós. O professor está exausto, devorado por uma burocracia para gerar estatísticas que lhe tiram a energia mental para dar aulas.”

O audiovisual está criando uma nova Idade Média de pessoas dependentes de satisfazer o prazer aqui e agora, quando a vida é muito diferente. Na vida você precisa saber ler contratos, alugar apartamentos, cuidar dos idosos, criar filhos. Mas o ciberproletariado desmorona por qualquer problema. São pessoas que não serão capazes de trabalhar porque têm a concentração sequestrada pelas redes.

Conhecemos vários capitalismos e agora estamos no capitalismo da atenção, em uma economia de plataformas que mercantilizam a atenção. Se você estiver vendo algumas mensagens, alguém ganha dinheiro e, se vê outras, outro alguém ganha. Não podemos repensar a educação se não pensarmos em como devolver a atenção às salas de aula, o regresso do mundo virtual. 

Não usem a Wikipedia!

wikipedia.gifNa opinião de um dos fundadores, e conforme noticia o jornal El País, a Wikipédia teve desde sempre um problema que era o de lutar contra aquelas que pessoas que poderiam ser prejudiciais à veracidade e ao rigor das informações que ali eram colocadas.

Larry Sanger diz mesmo que um dos desafios até agora foi a luta contra as pessoas que tentaram sempre manipular a informação constante nesta plataforma. “Tem sido uma luta contra as pessoas que procuram prejudicar e manipular a informação, dando-lhe um cunho ideológico”, referiu.

O filósofo confessou na Áustria que este “foi sempre um dos obstáculos que encontrámos desde o início. Tentámos sempre que os maus atores não arruinassem o projeto que se dedicava ao público em geral”, mas “infelizmente não fomos capazes de controlar nem de arranjar uma solução para o problema.” Portanto, e como resultado, Larry Sanger lamenta: “O sistema da Wikipédia não funciona.”

A Wikipédia foi criada para funcionar como uma enciclopédia que dependeria do conhecimento e da inteligência das massas. Mas o que se tem vindo a revelar desde o início são situações de grande polémica, sobretudo no que diz respeito a temas relacionados com a política. “Este problema deve ser resolvido pela política de neutralidade da Wikipédia, mas a Wikipédia decidiu aceitar editores que escrevem artigos apenas com um ponte de vista, que descartam visões impopulares e que não fazem justiça à verdade.”

Cansado da manipulação e de informações erradas na Wikipédia, Larry Sanger aconselha a que não a usem.

Deixem-me ser um bocadinho menos radical do que Sanger e propor: usem a Wikipedia, sim, mas façam-no com conta, peso e medida.

Assumindo a mesma precaução básica que devemos ter em relação a tudo o que encontramos na internet: está lá porque alguém, com determinada intenção, aí o colocou.

Distinguindo entre o que é informação factual rigorosa – basicamente o que procuramos numa enciclopédia e que mesmo assim só é segura se puder ser confirmada por outras fontes – do que não passa de opinião, preconceito ou propaganda.

Acima de tudo, nunca fazendo da Wikipedia, ou de qualquer outro site, a única fonte de informação.

Capitalismo bom, a utopia do século XXI

andrew-keen.JPGNum mundo intoxicado em propaganda que constantemente nos incentiva a olhar a realidade a partir de chavões como “nativos digitais”, “empreendedorismo”, “economia de partilha” ou “sociedade do conhecimento”, é útil prestar atenção a pensadores lúcidos que nos ajudam a desconstruir alguns dos mitos e ideias feitas com que nos querem formatar para o admirável mundo do século XXI.

É o caso de Andrew Keen. Tanto a condição de imigrante em Silicon Valley como a formação clássica em História e Ciências Políticas fazem dele um observador atento e um crítico – moderado e talvez demasiado optimista – das mudanças profundas que estamos a viver.

Alguns excertos de uma entrevista recente ao DN. Selecção, destaques e títulos da minha responsabilidade.

A revolução digital não trará, só por si, um mundo melhor.
A evolução do mundo digital está a criar diversas situações que é necessário prevenir. Um futuro que poderá ter de enfrentar uma grave crise de desemprego, em que a desigualdade será cada vez maior, em que se assistirá a uma crescente corrosão cultural devida às redes sociais e que assentará no capitalismo vigilante, que é o modelo de negócio dominante em Silicon Valley. […] O objetivo das empresas é ter lucro, não é fazer do mundo um lugar melhor. A única surpresa é que tanta gente não partilhe da minha opinião e tenha demorado tanto tempo até perceber o que estava e está a acontecer.

A educação deve focar-se em ensinar o que as máquinas não conseguem fazer.
Devemos procurar novos modelos de educação, focados em estimular a criatividade e a empatia, competências que são a mais-valia do ser humano relativamente às máquinas e à inteligência artificial. […] O algoritmo pode aprender leis, pode aprender medicina, pode conduzir carros, pode fazer contas, mas não pode sentir empatia nem ser criativo.

A adaptação ao mundo digital não é um problema geracional.
…penso que entendemos mal a geração a que chamamos de nativos digitais. Eles são os que percebem melhor do que ninguém o mundo digital e são os que estão a sair das redes sociais e são os que abraçaram a música analógica, com o vinil, e são os que redescobriram a escrita à mão e são os que pagam pela música que ouvem no Spotify. Por isso, tenho muita confiança nesta geração. Penso que a minha geração apaixonou-se pela tecnologia e somos nós os responsáveis pelo estado a que isto chegou, mas não veria as coisas de um ponto de vista geracional. Acho que não faz sentido.

Há muitos problemas por resolver, mas tudo o que há a fazer, pode ser feito.
Que os empreendedores criem novos produtos e companhias e soluções e modelos de negócio e resolvam a primeira vaga de problemas. Que os consumidores exijam melhores produtos e estejam disponíveis para pagar por estes e pelas suas buscas nas redes sociais e não serem vigiados o tempo todo. Que os cidadãos, desde investidores a advogados ou a músicos, etc., todos lutem por um mundo melhor […] É preciso muito trabalho de diversos quadrantes, ativistas dos direitos dos consumidores, como Nader, advogados que defendem os direitos laborais dos condutores de Uber, capitalistas responsáveis que investem em companhias e modelos de negócio mais sustentáveis, políticos como a comissária europeia Margrethe Vestager, que forçam mudanças. Não há uma solução simples e única, não há uma app para corrigir o futuro.

Na era da internet, continuamos a precisar de bom jornalismo.
Matou algumas formas de jornalismo, matou o jornalismo e os jornais locais, mas os grandes jornais estão a reinventar-se e a criar novos modelos de negócio, pagos. O grande desafio é beneficiar do debate em torno da democracia contemporânea, dar às pessoas mais informação e lutar contra as fake news. Penso que o modelo antigo, baseado na publicidade e nas vendas, não vingará, mas o modelo digital resulta em determinadas circunstâncias e há outros modelos a serem desenvolvidos. Precisamos do jornalismo a informar as pessoas acerca do mundo, de outra forma estaremos muito mais vulneráveis às fake news.

A ideia de um capitalismo bom, capaz de se auto-regular, continua a ser uma utopia.
Uma das ilusões de Silicon Valley é que se pode ser rico e bom ao mesmo tempo. Foi esse o erro: o miúdo que é multimilionário e também está a salvar o mundo – o modelo Mark Zuckerberg – é a verdadeira utopia. Nem é utopia, é só infantil. E é aqui que entra a regulação. O que eu defendo é que a regulação pode forçar os líderes empresariais a adotarem modelos de negócio assentes numa maior responsabilidade social. O ideário de Silicon Valley é o de que estas companhias podem, em conjunto, autorregular-se, nomeadamente no que diz respeito à inteligência artificial (IA), e que podemos confiar nelas para garantir que a IA não destrói empregos ou não constrói máquinas que subjuguem os humanos. Eu não acredito nisso. Mas também não sou um marxista que acha que as grandes empresas são más por definição. Penso que algumas companhias fazem o bem, dependendo da liderança e da indústria em causa e há oportunidades para isso. […] O socialismo falhou em todo o mundo. O que temos de manter é um equilíbrio entre capitalismo e democracia. Essa deve ser a preocupação. Podemos controlá-lo, regulá-lo, mas não vejo alternativa a este sistema.

Uma geração de niilistas?

cao-danado.jpgSentir que de nada serve tentar porque aparentemente alguns alunos não parecem munidos de valores mínimos suficiente para simplesmente saber onde começa a falta de respeito e de educação.

Observar esses mesmos alunos durante o intervalo, a serem agressivos uns com os outros (okay, energia a ser dissipada e tal), mas observar também os mesmos a insultarem-se gratuitamente uns com outros e em casos mais graves insultarem elementos de pessoal não docente sempre que podem.

Em cada oportunidade, observar os mesmos a deitarem lixo para o chão, apesar das inúmeras conversas sobre reciclagem e sobre plásticos nos oceanos. Riscarem as cadeiras e as mesas e em último caso destruir equipamento da escola de forma quase gratuita por mero capricho.

Quando apanhados com “a boca na botija” na sala por algum comportamento desviante, usam a “carta” de vitimização. “Não foi eu, exclamam” e por vezes em tom jocoso ou agressivo gritam na aula desafiando o professor.

A sensação é que estamos por um fio e que já não existem sequer parcos valores onde nos segurar e que muitos alunos não sabem lidar com a frustação independentemente de estarem na escola ou em casa. Sabem os pais que estão a criar uma geração de niilistas?

Não conheço o autor anónimo das Crónicas do Cão, mas quem descreve tão bem o (mau) ambiente de algumas salas de aula do século XXI só pode ser, naturalmente, professor.

É mesmo assim, dirão todos os professores que não têm a sorte de estar numa das poucas e afortunadas escolas onde se trabalha para tentar chegar ao topo dos rankings. Ou onde, mesmo sem essas ambições, ainda se conseguem encontrar os alunos atentos, motivados, empenhados e participativos que estimulam qualquer bom professor.

E não adianta dizer que é porque não sei quê, a tecnologia e o conhecimento na palma da mão, os nativos digitais, as mudanças de mentalidade. Na grande maioria dos casos é mesmo o não saber estar, a falta de objectivos e de valores. O niilismo, um sentimento próprio de idosos que já nada esperam da vida, parece ir-se apoderando das novas gerações…

Dizem-nos que a escola tem de mudar e isso, até certo ponto, é verdade. Mas desenganem-se os que pensam que é voltando às mesas em U ou à multiplicação trabalhos de projecto, colocando cadeiras com rodinhas, distribuindo “tabletes” ou sessões de mindfulness a toda a gente que se irão resolver os problemas de fundo de um sistema educativo em profunda crise.

O conhecimento na palma da mão

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Cada vez mais pessoas acreditam que a Terra é plana. A culpa é de um vídeo no YouTube

Nunca como no século XXI o conhecimento científico se tornou tão acessível, com a quantidade de vídeos, mapas e literatura disponíveis online. Também nunca fizemos o nosso quotidiano depender tanto da tecnologia como sucede nos dias de hoje. Ninguém duvida dos prodígios da ciência e da engenharia quando se trata de viajar de automóvel ou de avião, de usar computador ou telemóvel, de recorrer a tecnologias como as redes sem fios ou o GPS. O que leva então um número crescente de pessoas a acreditar que as vacinas provocam autismo, que os americanos nunca foram à Lua ou que a Terra é, afinal, um disco achatado?

O que move as pessoas a contestar a ideia da esfericidade da Terra, que surgiu há mais de dois mil anos na Grécia Antiga e se tornou consensualmente aceite desde o Renascimento, com as viagens marítimas à descoberta do mundo feitas nesse tempo por navegadores portugueses e espanhóis a demonstrarem, categoricamente, a esfericidade da Terra?

Parece evidente a fragilidade do conhecimento científico e do pensamento crítico que hoje tanto se valoriza: afinal, basta afirmar convictamente umas aldrabices, gravar com elas um vídeo de produção cuidada e divulgá-lo através do Youtube: rapidamente se arranjam “seguidores” para a ideia mais espatafúrdia que se consiga inventar.

Quanto à universidade norte-americana que constatou a popularidade da crença na Terra plana parece ela própria prisioneira da lógica que denunciou. Segundo os investigadores, o remédio para os vídeos anti-científicos está em fazer novos vídeos, desta feita com os cientistas a divulgar o verdadeiro conhecimento científico acerca desta matéria. Uma ideia que o Youtube certamente agradece…

Pela minha parte, em vez da competição pelos cliques e likes que é sugerida, julgo que seria mais importante capacitar as pessoas a fazerem um uso mais crítico e selectivo do imenso manancial da informação que têm ao seu dispor. Em vez do relativismo com que se pretende equiparar todos os saberes, é importante reafirmar as diferenças entre factos e opiniões e entre o conhecimento cientificamente estruturado e as balelas que se pretendem fazer passar por ciência. Entre sites de referência que divulgam informação credível e rigorosa e plataformas onde qualquer um pode publicar o que entender.

Uma geração superficial?

estudo-e-telemovelBom dia ou boa noite, professora. Nas próximas duzentas a trezentas palavras lerá aquela que foi provavelmente a composição que mais me custou escrever. Por isso mesmo, sente-se, coma qualquer coisa e tenha misericórdia de mim.

A professora Carmo Machado usa esta advertência do seu aluno como ponto de partida para uma interessante reflexão sobre os efeitos que a falta de hábitos de leitura e a omnipresença dos jovens na internet e nas redes sociais está a ter na capacidade de concentração, na compreensão do pouco que lêem e, também, nas competências de escrita dos actuais estudantes. Estaremos, com a ajuda do dr. Google, do Youtube e das redes sociais, a formar uma geração superficial?

Sim, a maior parte dos alunos tem aversão à escrita porque não lê, sentindo uma enorme dificuldade em escrever, problema que aumenta de ano para ano. Ler estimula o raciocínio, desenvolve o vocabulário, aumenta a capacidade de interpretação, diminui os erros ortográficos, ajuda a produzir textos coesos, desenvolve a capacidade argumentativa, só para referir algumas vantagens. De facto, se vocês não lerem, como irão conseguir escrever? A esta pergunta, alguns alunos respondem-me de imediato: Ó stora, mas a gente lê. Todos os dias lemos imensas coisas na Internet… Bingo!

[…] A geração com que trabalho é uma geração alienada e cada vez mais superficial. A internet, sabemo-lo, veio mudar o mundo. Está a mudar as nossas vidas e começou já a transformar os nossos cérebros.

A dependência do computador e da ligação à rede começa a interferir na forma como percecionamos o mundo, provocando danos irreparáveis na maneira como utilizamos a linguagem. Penso que reside aqui, neste uso e abuso que fazemos das tecnologias, uma das principais causas das dificuldades crescentes dos alunos no uso da escrita. O que pode então a Ciência dizer-nos sobre as consequências do uso da internet nos nossos cérebros e nos cérebros dos nossos alunos? Muito mesmo. Vários estudos realizados por educadores, investigadores de diferentes áreas como psicólogos e neurobiólogos mostram que quando os alunos estão em rede (o que acontece a maior parte do tempos nos dias que correm), o ambiente em que se encontram promove uma leitura negligente e rápida. Ora, neste contexto, o pensamento torna-se também ele apressado sendo a aprendizagem que fazemos das coisas cada vez mais superficial.

O que fazemos quando estamos em rede acarreta consequências neurológicas impercetíveis no imediato mas cujo efeito é preocupante. Não é preciso ser-se professor para se constatar que a capacidade de concentração dos jovens e adolescentes é cada vez menor. Na verdade, tal como o tempo gasto a explorar páginas web (na maior parte das vezes sem qualquer conteúdo de interesse) suplanta o tempo que passamos a ler noutros registos e formatos (já nem me atrevo a referir-me aos livros), também o tempo que se consome a redigir mensagens curtas de texto (vulgo sms) suplanta o tempo que se utiliza a escrever um parágrafo, vários parágrafos, um texto… Deste modo, enquanto saltitamos entre hiperligações que nos levam a nenhures perdemos a oportunidade de refletir silenciosamente. Eis o ponto seguinte desta rede de vazios. O silêncio é praticamente inexistente na vida dos nossos alunos. Dentro ou fora da aula, os alunos não o conhecem. Logo, os antigos processos e funções intelectuais que permitiam o raciocínio aprofundado e a reflexão começaram a destruir-se e a desaparecer. O cérebro recicla os neurónios e as sinapses não utilizadas, dando-lhe outras tarefas mais urgentes. É certo que os alunos possuem e/ou ganharam outras competências que nós não possuímos mas perderam capacidade de foco e de concentração. Segundo Nicholas Carr, o nosso cérebro está a regredir ao cérebro primitivo ou reptiliano, em alerta e distração permanente.

Há muito que se notava que as novas tecnologias de informação estão a mudar o modo como aprendemos e como nos relacionamos com as outras pessoas – sobretudo os mais novos, cujas mentes são mais influenciáveis e moldáveis. Mas hoje, os professores e os pais mais atentos vão-se apercebendo de que, apesar de podermos ter “o conhecimento na palma da mão”, nem todas as mudanças não positivas.

As evidências que se vão somando parecem demonstrar que a exigência de uma escola livre de telemóveis, por exemplo, não é apenas um capricho de professores que querem dar as suas aulas sem distracções. Ela pode vir a ser condição essencial para satisfazer a necessidade de criar, na vida das nossas crianças e adolescentes, espaços e tempos em que permanecem desligados da rede. Para que os jovens cérebros possam processar o excesso de informação que vão recebendo e dar uso às funções que vão atrofiando. Ganhando tempo para falarem e se ouvirem uns aos outros e aos seus professores, e a oportunidade de fazerem coisas como ler um livro ou, simplesmente, ouvir o som do silêncio…

A complexidade do problema e dos efeitos a longo prazo que a alienação digital poderá ter nas gerações ditas do milénio recomenda ainda duas precauções básicas. A primeira, que se continue a investigar e a discutir o tema, pois não se pode agir acertadamente sem conhecimento suficiente. A outra é afastar o mais possível, dos processos de decisão, a influência dos maus conselheiros:  os vendedores de tecnologia, os demagogos da sociedade de informação e todos os influenciadores e empreendedores em busca de dinheiro fácil ou fama imediata.

A ilusão do voluntariado

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Foram os primeiros a aterrar em Lisboa. Para muitos, o trabalho começou antes de a arena abrir as portas. Vestem o já habitual azul-turquesa, para se destacarem na multidão. Falam todas as línguas do mundo. Da Polónia ao Panamá, não há nação que escape ao batalhão de voluntários recrutados para a Web Summit. Para não faltarem ao chamamento, tiram a semana de férias no trabalho ou fazem gazeta às aulas. Pagam para trabalhar mas não se importam. “O que conta é a experiência”, podia ser o mantra dos dois mil voluntários que ajudam a pôr de pé a maior cimeira de tecnologia do mundo.

Voluntários que aceitam trabalhar de graça, iludidos com a “experiência”, seduzidos pelo glamour do evento ou apenas com a possibilidade de entrar sem pagar bilhete.

Discursos “inspiradores” que nos ajudam a naturalizar a desigualdade, a especulação, o oportunismo, promovendo-os à categoria de novos valores universais.

Empreendedores que acreditam na multiplicação perpétua dos unicórnios e que a bolha das novas tecnologias continuará a inchar infinitamente.

Iniciativas e lucros privados altamente financiados com dinheiro público – 11 milhões de euros anuais que saem dos cofres públicos para pagar a festa.

Bem-vindos à nova economia do século XXI – e desculpem o indisfarçável cheiro a bafio…