Quando o vírus nasce, é para todos

Até mesmo para os suecos, que andam desde o princípio da pandemia a perseguir uma mirífica imunidade de grupo impossível de alcançar. A ideia era proteger os cidadãos mais vulneráveis – não propriamente bem sucedida, pois acabaram por ter mais mortos do que os países vizinhos – e expor o resto da população ao bicharoco, achando que assim se construiriam as defesas que impediriam a propagação da doença.

Um desafio eticamente discutível, mas tão imprudente quanto tentador: não confinamos, não usamos máscara, fazemos a vida normal. Mantemos a economia, as escolas, a vida social a funcionar e no fim acabamos a ter menos casos, menos internamentos e menos mortes do que todos os outros.

Uma estratégia destinada a correr mal, e não é preciso ser epidemiologista para perceber porquê: as mutações do vírus e o enfraquecimento gradual das defesas imunitárias fazem com que a imunidade conferida pela doença seja temporária. Ou seja, quem já teve a doença não está livre de a voltar a ter. Claro que ao princípio não se sabia ainda bem como iria funcionar o novo vírus, mas essa era apenas mais uma razão para ser prudente, em vez de optar por arriscados aventureirismos.

Ainda assim, mais vale tarde do que nunca: parece que o epidemiologista-chefe lá do sítio percebeu finalmente o beco sem saída para onde tem conduzido a obediente e confiante população sueca…

A Suécia registou 4.658 novos casos de coronavírus na quinta-feira, de acordo com dados oficiais relatados pela Reuters, com os novos casos diários a aumentarem nas últimas semanas. Os internamentos também subiram dramaticamente, com mais de 1000 pacientes com covid-19 a serem tratados em hospitais, um aumento de 60% em relação à semana anterior. Os números foram divulgados pela emissora estatal SVT e citados pelo Guardian. A taxa de mortalidade por coronavírus na Suécia é agora uma das mais altas do mundo.

Andrers Tegnell, que se tornou conhecido por desenvolver a política anti-bloqueio da Suécia, admitiu esta semana que a Suécia está a viver uma disseminação significativa do vírus em todo o país. A agência de saúde pública da Suécia também reconheceu que o alto número de casos no país na primeira vaga não o protegeu na segunda.

128 docentes mobilizados para a luta anti-covid

Funcionários públicos em isolamento profilático ou sem atividade por serem de grupos de risco e professores sem componente letiva vão ser mobilizados para o acompanhamento e vigilância relativamente à covid-19, visando atenuar a pressão nos sistemas de saúde.

Esta é uma das medidas do estado de emergência que vai vigorar entre segunda-feira e 23 de novembro e que foi aprovada no Conselho de Ministros extraordinário de sábado à noite.

“Outra medida que está prevista no estado de emergência é a possibilidade da mobilização de recursos humanos para apoiar todos os profissionais de saúde, em particular profissionais de saúde pública e profissionais de saúde dos cuidados de saúde primários, nas ações de rastreio e também nas ações de acompanhamento e vigilância de pessoas em confinamento obrigatório”, divulgou o primeiro-ministro, António Costa, em conferência de imprensa, em Lisboa.

Entre os cerca de mil profissionais já identificados para assegurar este apoio estarão, segundo o Governo, 128 professores sem componente lectiva atribuída – provavelmente docentes dos chamados horários-zero ou destacados ao abrigo da mobilidade por doença a quem não foram atribuídas turmas.

Uma medida adequada, que só peca por tardia: tudo isto deveria ter sido planeado antes do desconfinamento, da chegada do tempo frio e da reabertura das aulas, com o inevitável aumento da pressão sobre serviços de saúde há muito a funcionar no limite das suas capacidades.

No caso dos professores, impõe-se uma ressalva: a medida não deve ser aplicada cegamente. Há que ter em conta que, mesmo sem turmas atribuídas, há docentes que estarão a ser úteis e imprescindíveis às respectivas escolas, no apoio a alunos ou no desenvolvimento de projectos e outras tarefas relevantes para a comunidade educativa.

Longe da solução ideal que passa pela capacidade de planear e gerir adequadamente os recursos humanos de que o SNS necessita, a solução de recurso agora encontrada poderá melhorar a capacidade de resposta nos rastreios e vigilâncias da covid-19, uma área crucial no controle da pandemia e onde se registam actualmente demasiadas falhas. A verdade é que médicos e enfermeiros não se inventam de um dia para o outro, pelo que, na sua falta, resta agora recorrer a profissionais de outras áreas para todo o apoio que possam prestar. Ou, como diz a sabedoria popular, quem não tem cão caça com gato…

Irresponsabilidades

Evolução de novos casos de covid-19, 30Set-5Nov. Fonte: site da DGS

Como explicar o recrudescer da pandemia em Portugal no último mês? É certo que a tendência de aumento do número de casos positivos se vinha a manifestar desde o Verão. No entanto, o crescimento era moderado, e o facto de os contágios se fazerem sobretudo entre camadas mais jovens da população, quase todos casos assintomáticos ou com sintomas ligeiros, permitiu que não se sentisse grande pressão nos serviços de saúde.

Em Outubro, a realidade mudou. De um número de novos casos diários inferior a 1000, passou-se, um mês depois, para uma média diária que já deverá andar acima dos 4000 – e ainda deverá continuar a aumentar nas próximas semanas. A transmissão comunitária está fora de controlo, como se constata ao ver a facilidade com que o vírus se voltou a propagar pelos lares da terceira idade.

As responsabilidades maiores, escrevi-o muitas vezes, pertencem aos responsáveis políticos, que demasiadas vezes cederam à tentação de combater o vírus a poder de retórica e demagogia, em vez de reforçar os recursos humanos e os meios de prevenção e intervenção necessários à contenção da pandemia.

Mas também há muitos cidadãos que não fizeram e continuam a não fazer a sua parte, cumprindo e fazendo cumprir as regras de segurança sanitária que impedem ou minimizam os riscos de contágio. Quando esses cidadãos têm responsabilidades públicas – autarcas e outras figuras influentes a nível local – ainda pior: além dos riscos que correm e fazem os outros correr, há um péssimo exemplo que passam para a comunidade. Com resultados que podem ser desastrosos, como se vê por este caso que surgiu na imprensa local…

Há vários casos positivos de Covid-19 resultantes de um casamento que decorreu no dia 24 de outubro, com cerimónia religiosa em Sepins, Cantanhede, e a boda em Quintãs, Aveiro.

Segundo a Administração Regional de Saúde do Centro, o referido surto teve origem num casamento com mais de 200 pessoas. Até ao momento estão confirmados seis casos positivos de Covid-19, aguardando-se os resultados de cerca de 30 testes realizados. “Os contactos dos casos positivos mantêm-se em isolamento profilático”, adiantou ainda a ARS.

De acordo com o Diário de Coimbra, na referida festa de casamento estiveram pessoas oriundas de vários pontos do país e funcionários de uma IPSS do concelho de Cantanhede.

Quem esteve no evento foi o presidente da União das Freguesias de Sepins e Bolho, Luís Arromba, que testou positivo à Covid-19

Teens lideram o aumento das infecções

Olhando para a realidade de outros países, há uma evidência que salta à vista: a reabertura das escolas potenciou a disseminação do coronavírus entre as camadas mais jovens da população. Veja-se o caso espanhol: ao fim de um mês e meio de aulas, tinham já mais novos casos de crianças contaminadas do que durante os seis meses anteriores:

Por cá, continua a insistir-se na ideia de que as escolas são espaços seguros e que o cumprimento rigoroso dos planos de contingência é condição suficiente para evitar as contaminações. E, claro, como as autoridades de saúde têm sido parcimoniosas na realização de testes, raramente se comprova a ocorrência de transmissões em meio escolar. Foi em casa, dizem-nos, que apanharam o “bicho”…

Mas há realidades indesmentíveis. Consultei o site oficial da DGS dedicado à covid-19 para comparar o número de casos identificados em Portugal a 15 de Setembro – antes do início do ano lectivo, portanto – distribuídos pelas diferentes faixas etárias, e os mesmos valores obtidos no final da semana passada, a 29 de Outubro. Constatei, sem grande surpresa, que o grupo que lidera, destacado, o aumento percentual do número de casos positivos, é o dos 10 aos 19 anos. Seguindo-se o das crianças até aos 9 anos.

Grupos etários15/Set29/OutAumento percentual
0-925455338210%
10-1933548960267%
20-291041221724209%
30-391065620741195%
40-491059821203200%
50-59954818576195%
60-69649312396191%
70-7943788164186%
+80691111102161%

Claro que, em valores absolutos, as faixas etárias correspondentes aos adultos jovens e menos jovens continuam a registar o maior número de casos positivos. Mas há que ter em conta que, quando mais baixas as idades, maior poderá ser a percentagem de assintomáticos que não chegam sequer a ser testados, ou só o são depois de contagiarem muitos à sua volta. E um aumento tão forte e tão rápido dificilmente se explica, exclusivamente, por contágios familiares.

Nas escolas e no ambiente que as rodeia, quando já se percebeu que se pretende manter o ensino presencial a todo o custo, deveriam estar definidas, desde o início, duas prioridades essenciais. Uma, testar mais e com maior rapidez perante casos suspeitos. Outra, identificar, nos procedimentos que vão sendo seguidos, aqueles que mais potenciam o risco de contágios, ajustando-os de forma a reforçar a segurança sanitária nas salas de aula e nos recreios, nos bares e cantinas, nos circuitos internos e nos acessos a partir do exterior. Sem esquecer a questão sempre delicada dos transportes escolares.

No entanto, até agora, pouco ou nada tem sido feito. Máscaras obrigatórias, distanciamentos “se possível”, desinfecção das mãos e setinhas pintadas pelo chão: é com estas armas, apenas, que se espera vencer a pandemia nas escolas?…

Divulgação: Calam-se as palmas

O testemunho que publico, da autoria de uma enfermeira portuguesa, vem na linha de muitos que tenho lido ultimamente e que dão conta do crescente mal estar, do desânimo e da exaustão que tem marcado o quotidiano de dezenas de milhares de profissionais de saúde desde o início da pandemia.

Sem que haja um fim à vista para as condições difíceis e precárias em que hoje se trabalha nos hospitais e centros de saúde, vai-se tornando evidente que quem decide e planeia não está à altura da gravidade dos problemas e das necessidades sentidas no terreno. E que não se pode pedir cada vez mais aos mesmos de sempre, fazendo orelhas moucas aos pedidos de ajuda, às críticas e aos gritos de alerta que, insistentemente, nos vão chegando.

Não basta bater palmas à janela ou entoar públicos louvores aos médicos e enfermeiros que têm estado na linha da frente. São precisos mais meios, melhor organização e, acima de tudo, investir nos profissionais, valorizando devidamente o mais valioso recurso das instituições que se dedicam a preservar a saúde e a vida dos portugueses.

Calaram-se as palmas e fecharam-se as janelas.
Calaram-se as palmas e a Alice morreu.
Despiu a bata no final do turno, saiu do Hospital, conduziu até casa, mas antes, antes de chegar à meta, interrompeu a viagem.
Suicidou-se.
Eu não sei as razões para a Alice desistir de tudo isto.
Sei que se fartou de um país que a mandou emigrar e a cujo apelo resistiu.
Sei que se cansou excessivamente de palmas sem eco.
Sei que, pelo caminho perdeu a identidade, oculta num escafandro pesado de suor e da dor dos outros.
Sei que existem incontáveis Alices na minha profissão. Que chegam a casa destruídas por um dia de trabalho sem fim, por uma batalha invisível de quem salva vidas (e não apenas as do Covid) ou de quem mediu vezes demais a frequência cardíaca daqueles que não chegaram a ter segunda oportunidade.
Estou certa, porém, por ser esse o nosso superior desígnio, que a Alice se revestiu, como todos os enfermeiros, de infindável compaixão para aguentar ter dois braços apenas. Num cenário de incompreensível amadorismo político, a saúde ficou para trás. A saúde de quem a perde, a saúde de quem a deve salvar.
Provavelmente, todas as famílias portuguesas têm no seu seio, ou conhecem, um enfermeiro. Provavelmente, todas as famílias portuguesas bateram palmas à janela aos profissionais de saúde quando tudo isto começou.
Nós estávamos “na linha da frente”, grandes heróis, estes que se confrontam com o destino determinados a cuspir-lhe na face e prosseguir.
Mas prosseguir a que custo? Quando é que um penso rápido substitui um profissional qualificado, preparado, confiante? Quando é que medidas avulsas com uma estratégia utópica e fictícia na sua ação dão lugar à primazia da saúde num verdadeiro cenário de guerra?
Quando é que as palmas superam a inação política?
Regresso todos os dias a casa com a exaustão no corpo e o medo no peito. Beijo os meus filhos ao de leve porque nem sei bem se vim sozinha para casa. E tenho tanto, tanto receio do que trago no corpo e na mente.
Confesso, há imagens que não me abandonam. O desespero dos outros, de não salvar os outros, que foi o que nos fez abraçar a profissão, o desespero de não saber com o que conto no dia seguinte.
Podemos continuar a fingir que não se passa nada neste país e que os nossos enfermeiros e restantes profissionais de saúde apenas tratam das arrastadeiras. Mas há um peso que todos vamos pagar, mais depressa do que se imagina. Cada vez mais Alices estão entre nós. Exaustas, exauridas, cansadas de prosseguir na estrada. Bizarramente sozinhas no meio de um incompreensível caos.
Esgotámos um tempo precioso e já não podemos fingir que está tudo controlado.

Silêncio, por favor. Baixe-se o pano.
Chega de palmas.
Morreu um enfermeiro, morreu um de nós.
Talvez algum político, daqueles que assinam decretos que fazem lei de verdade, se lembre de nós e nos dê a dignidade de sermos uma profissão de risco, honrando a nossa carreira e o nosso estatuto.
Talvez nesse dia perceba que não é com palmas e fintas infantis que se combatem guerras.
Talvez tudo o que baste seja apoiar verdadeiramente pessoas. Conceder-lhes o valor que têm e não fazer disso uma oportunidade para poupar mais trocos.
Talvez nesse dia perceba que a farda de anjos que caminham e sobrevivem nos escombros de si próprios não tem verdadeiramente preço, mas tem um custo.

E esse custo chama-se, simplesmente, Vida.

Natércia Lima (Enfermeira, mãe, filha)

Covid na escola: modo de agir

A DGS estabeleceu um plano de contingência em março, mas houve uma “diminuição de exigências”, diz o presidente da Associação de Diretores.

O artigo da revista Sábado traduz, em linguagem corrente, o jargão técnico das normas e referenciais da DGS relativamente aos procedimentos a seguir nas escolas perante os casos, suspeitos ou confirmados, de infecção por covid-19.

Comparando com regras definidas em Março, no início da pandemia, há um notório aligeirar dos procedimentos. Ficará isto a dever-se, como alega a DGS, a um melhor conhecimento do vírus, da doença e da forma como se propaga, ou é apenas uma tentativa de poupar recursos de um sistema de saúde sobrecarregado, com cada vez mais profissionais doentes ou exaustos e, em muitas zonas do país, prestes a colapsar? Responda quem souber.

Nas escolas, quando aparecem positivos confirmados, o que se tem notado é que tanto se decide o confinamento total de umas turmas, como se determina que outras continuem com aulas presenciais como se nada fosse. Nem sempre as decisões das autoridades de saúde aparentam ser claras, lógicas e compreensíveis. E se os critérios mudam à medida que o conhecimento epidemiológico evolui, então já estou como Filinto Lima: quando houver mudanças, informem e esclareçam as escolas.

Do texto que venho comentando, perpassa a ideia de que só excepcionalmente será mandada para casa toda a turma quando aparece um aluno infectado. Tudo está dependente da avaliação feita pela delegação de saúde local, que poderá confinar apenas os contactos que considerar de maior risco. E aqui estará talvez o ponto fraco da nova estratégia: será que os médicos que farão a análise dos riscos estarão conscientes da variedade de interacções sociais e contactos de proximidade que ocorrem entre os alunos, sobretudo nos espaços de recreio e convívio?

Outra ideia algo temerária parece-me ser a decisão de dar alta, ao fim de dez dias e sem a confirmação por um teste negativo, a alunos assintomáticos ou com sintomas ligeiros da doença.

Em todo o lado onde o fenómeno tem sido estudado, constata-se um forte crescimento das infecções entre as crianças e, sobretudo, adolescentes, ao longo do último mês e meio – ou seja, desde que recomeçaram as aulas. Por cá, prefere-se não aprofundar muito a questão, minimizando o problema, restringindo o número de testes, ou não testando sequer, e limitando a pesquisa de possíveis cadeias de contágio relacionadas com o contexto escolar.

Uma jogada de alto risco, que tem tudo para correr mal…

Vêm aí os testes rápidos à covid-19

A norma estabelece que pessoas sem sintomas que tiveram contactos definidos como de alto risco com alguém infetado pelas autoridades de saúde ou médicos devem fazer o teste molecular. Se não for possível o resultado em 24 horas devem fazer o teste rápido.

Os testes rápidos passam também a ser usados em situações de surto, seja em escolas, lares e instituições semelhantes e fechadas. Devem ser usados pelas Equipas de Saúde Pública indicadas para a intervenção rápida “em articulação intersectorial com os parceiros municipais, ou outras, de forma a implementar rapidamente as medidas adequadas de saúde pública”.

Assumidamente crítico da estratégia, a meu ver desastrosa, que tem vindo a presidir ao desconfinamento, assinalo com satisfação a aparente mudança de estratégia do Governo e DGS. Munida da nova “bazuca” que são os testes rápidos de antigénio – agora mais seguros e com maior rapidez na obtenção de resultados – a autoridade de saúde recomenda a sua aplicação perante a ocorrência de possíveis surtos, em lares mas também em estabelecimentos de ensino.

Embora os testes moleculares continuem a ser mais fiáveis – e continuarão a ser usados quando necessário – os novos testes rápidos poderão vir contrariar uma perigosa tendência que, perante o recrudescer do número de casos e a incapacidade de resposta de alguns serviços de saúde, se tinha vindo a notar: nalguns concelhos já se evita testar os suspeitos assintomáticos, que são mandados para casa cumprir o período de isolamento, regressando à vida activa sem chegarem a ser testados.

Espera-se que a nova estratégia permita concretizar uma política de testagem em massa e com rapidez, única forma de detectar e isolar os casos positivos, quebrando eficazmente as cadeias de transmissão do coronavírus. E domar assim uma pandemia que, nas últimas semanas, parece estar a ter uma progressão imparável.

Reabertura das aulas tem impacto na pandemia

A reabertura de escolas tem influência na taxa de transmissão, o chamado Rt, da Covid-19, contribuindo para que o seu valor aumente, de acordo com um novo estudo, o primeiro a analisar o impacto do levantamento das restrições, avança o ‘The Independent’.

O regresso dos alunos às salas de aula foi seguido por um aumento médio de 24% na taxa de transmissão Rt, segundo descobertas de um equipa de investigadores da Universidade de Edimburgo após a análise de dados de 131 países.

A única outra medida ligada a um maior aumento no Rt é o levantamento da proibição de reuniões de grupos, que causou uma subida média de 25%. Para criar os seus modelos, os autores vincularam dados sobre estimativas da taxa de transmissão feitas pela ‘London School of Hygiene & Tropical Medicine’ com outras informações do rastreador de resposta do governo britânico, ‘Covid-19 Oxford’.

Recorrendo a dados de 131 países e a sofisticados modelos matemáticos e estatísticos, o estudo agora publicado lança alguma luz sobre o impacto real que as medidas de confinamento e desconfinamento têm sobre a transmissibilidade da covid-19.

Trata-se de uma questão bastante complexa, desde logo porque não é fácil isolar os efeitos de cada uma das decisões que vão sendo tomadas pelos governos, neste difícil exercício de compatibilizar o controle da pandemia com a vida económica e social. Por exemplo, quando se decide um conjunto de medidas, como permitir maiores ajuntamentos, retomar determinadas actividades económicas ou reabrir as escolas, e em seguida se nota um aumento de casos positivos, como saber qual o contributo de cada uma para o agravamento da pandemia?

No caso das escolas portuguesas, o facto de raramente se tentar identificar cadeias de transmissão em meio escolar – perante um caso positivo, quase sempre um aluno infectado em ambiente familiar, os colegas são geralmente mandados cumprir quarentena, sendo apenas testados quando apresentam sintomas – também contribui para que se continue a afirmar, sem lugar a contraditório, que as escolas são lugares de baixo risco de propagação da doença.

Ficamos agora a saber que não será bem assim. O aumento de 24% na taxa de transmissão que, baseados em sofisticados modelos de análise quantitativa, os autores deste estudo atribuem ao desconfinamento escolar é um valor significativo, que deve suscitar reflexão. Os contágios em meio escolar, ou que a ele podem ser associados, existem, e se as cadeias de contágio raramente são identificadas é porque, em boa verdade, pouco se faz para as detectar.

Explorando o artigo da Lancet, encontram-se outras conclusões interessantes. Por exemplo, que há um desfasamento temporal de cerca de 28 dias entre o aumento máximo da taxa de transmissão, o chamado valor de R, e o aparecimento da causa que o provocou. E bate certo. No caso português, a subida galopante no número de novos casos positivos dá-se precisamente quatro semanas depois do início das aulas…

Os investigadores, embora tenham analisado dados de muitos países, não deixam de admitir que as realidades nacionais são diferentes, o que pode levar a que medidas semelhantes possam ter um impacto diferenciado, consoante a forma como são aplicadas. No caso da Educação, turmas mais pequenas, distanciamento físico nas salas de aula, recreios, refeitórios e transportes, uso de máscara, desinfecção das mãos, medição de temperatura à entrada são factores que reduzem efectivamente os contágios, embora o seu impacto real não tenha sido, neste estudo, considerado. Por cá, sabemos bem que, tirando as máscaras obrigatórias a partir do 5.º ano e o álcool-gel à discrição, pouco mais se fez na preparação segura do novo ano escolar.

O problema era a Festa do Avante…

Percebe-se agora porque é que uma evento político-cultural como a Festa do Avante ou uma celebração religiosa como o 13 de Outubro em Fátima puderam, com as devidas restrições, realizar-se, mas os eventos desportivos continuam a ser altamente desaconselhados?

– Camaradas, mantenham o afastamento – e os camaradas cumprem.

– Irmãos, distanciai-vos uns dos outros – e os irmãos acatam.

Noutros lados, tanto os organizadores como o público demonstram que, juntos, são uma desgraça. Fazem o que querem, da forma como se sentem bem e que se lixe o covid.

Lixamo-nos mas é todos…

Covid-19: a política do encobrimento e da mentira

Não sou epidemiologista nem especialista em saúde pública e este é, seguramente, um daqueles posts que preferiria não ter de escrever. Mas é mais do que evidente que o Governo está a acumular erros grosseiros na gestão da actual crise pandémica, com consequências directas na saúde e na vida de muitos cidadãos. Não podemos, como muitos gostariam, “ficar caladinhos”, para não causar “alarmismo” e deixar as autoridades (ir)responsáveis continuar a fazer o seu (mau) trabalho.

E no entanto, durante a primeira vaga da pandemia, governantes e a dirigentes estiveram quase sempre bem. Com o desconfinamento, não sei se por excesso de confiança, o Governo falhou estrondosamente na preparação da segunda vaga que, sabia-se bem, viria aí. Se não se queria equacionar a hipótese de um segundo confinamento, mau em todos os aspectos, então haveria que acautelar os meios para fazer a gestão da crise de uma forma proactiva, reforçando a capacidade de testagem, mantendo o foco na identificação das cadeias de contágio e no isolamento dos os possíveis infectados. Haveria que reforçar os recursos humanos no sector da saúde, em vez de esperar que profissionais exaustos e cada vez mais desmotivados continuem a trabalhar cada vez mais.

Com o trabalho de casa por fazer e correndo cada vez mais atrás do prejuízo, em vez de tomar a iniciativa para reverter uma situação que se encaminha a largos passos para a tragédia, o Governo parece estar agora a ceder a uma tentação que noutros países deu mau resultado: restringir os testes, de forma a que os assintomáticos desapareçam das estatísticas dos casos positivos, e assim “aplanar” artificialmente uma curva de crescimento que se vinha a tornar assustadoramente exponencial.

O truque é bem visível até nas estatísticas do site oficial. Veja-se a evolução do número de novos casos e de amostras testadas desde o início de Setembro até agora. Enquanto a evolução dos casos vai de uma média de 500 diários para cerca de 2000 ao longo da última semana – uma subida de 400% – a capacidade de testagem terá aumentado menos de 50% – de valores em torno dos 20 mil para um valor médio inferior a 30 mil.

Esta mudança de orientação é bem visível nas escolas. Agora, os casos suspeitos já raramente são testados. Perante um positivo numa turma, os colegas – por vezes apenas os que se sentam mais próximo dele na sala de aula – são mandados para casa cumprir isolamento. Mas só farão teste se apresentarem sintomas. Ao fim de dez dias, presume-se que, mesmo que tenham ficado infectados, estarão curados e podem regressar à escola – sem necessidade de qualquer teste. Quanto aos professores, continua a prevalecer a curiosa ideia de que, por qualquer razão misteriosa, são imunes ao contágio dos alunos.

Claro que, ao não testar possíveis contágios entre alunos, prolonga-se o mito de que não há contágios nas escolas. Tal como não há nos transportes públicos, pois também não se fazem testes aos desconhecidos que terão viajado, em autocarros ou comboios superlotados, ao lado de passageiros infectados. Ao testar apenas os colegas de turma que se sentam junto do colega infectado, comprova-se que, estando de máscara, a protecção é eficaz. Mas não se testa o companheiro do refeitório, da brincadeira no recreio ou do transporte escolar – situações onde as probabilidades de contágio são muito maiores.

Esta enorme mentira que se está a construir, em nome de um bem maior que será o de manter as escolas abertas e a economia a funcionar, tem um custo que já está a ser dramático: o novo recrudescer de surtos nos lares e outras estruturas de apoio a idosos. Apesar dos cuidados redobrados que estas instituições continuarão a ter, a verdade é que, ao não testar e isolar como deveríamos, estamos a permitir que o vírus se propague livremente na comunidade. A partir daqui, é apenas uma questão de tempo, e um jogo de sorte e azar, até que instale entre os grupos mais vulneráveis.

Mas a covid-19 também fará as suas vítimas – já as está a fazer, entre as camadas etárias mais jovens, os supostamente invulneráveis. Não são os idosos que estão a levar ao esgotamento da capacidade dos hospitais, obrigando a reduzir a resposta a outras doenças para poderem atender os doentes covid. Em Espanha, já há hospitais a interromper tratamentos a cancros da mama para libertarem camas para doentes covid. Por cá, será também esse o caminho que queremos seguir?…