Professores ficam para o fim?

Na maioria dos planos nacionais de vacinação contra a covid-19, educadores e professores dos vários níveis de ensino têm estado a ser considerados entre os grupos prioritários para vacinação. Em regra, logo a seguir aos idosos e aos profissionais de saúde.

A ideia é acertada e faz todo o sentido a partir do momento em que se definiu, claramente, que todo o ensino deveria ser presencial. No seu quotidiano, os professores têm contacto próximo com dezenas, por vezes centenas de alunos, pertencentes a diferentes turmas. Serão dos profissionais mais expostos, não só ao risco do contágio, mas também à possibilidade de eles próprios se tornarem agentes transmissores da doença.

No entanto, se isto é entendido em quase todos os lados, por cá os professores continuam, aparentemente, a ser olhados com um misto de invisibilidade e de desprezo. Será que a classe docente é auto-imune e ninguém nos avisou? A verdade é que o Governo definiu, até agora, cinco prioridades, divididas em duas fases, para efeitos de vacinação. E os professores não constam de nenhuma

Os grupos prioritários da primeira fase serão:

1. Profissionais de saúde e residentes em lares e em instituições similares e profissionais e internados em unidades de cuidados intensivos (250 mil pessoas).

2. Pessoas com 50 ou mais anos, com pelo menos uma das seguintes patologias: insuficiência cardíaca, doença coronária, insuficiência renal, doença pulmonar obstrutiva crónica sob suporte ventilatório e/ou oxigenoterapia de longa duração (400 mil pessoas).

3. Profissionais de saúde diretamente envolvidos na prestação de cuidados de doentes e profissionais de forças de segurança e serviços críticos (300 mil pessoas).

Segunda fase:

1. Com 65 ou mais anos, com patologias ou não (1,8 milhões de pessoas).

2. Pessoas com mais de 50 anos, com diabetes, neoplasia maligna ativa, insuficiência hepática, insuficiência renal, obesidade, hipertensão arterial e, eventualmente, outras patologias (900 mil pessoas).

As escolas são seguras?

Infelizmente, segundo a evidência científica mais recente, parece que não. A reabertura das aulas será um dos factores relevantes na origem da segunda vaga pandémica que assola a Europa e a América do Norte.

As escolas são, como quaisquer outros locais de concentração de pessoas em espaços fechados, locais de risco. E esses riscos aumentam se não houver distanciamento, não se usarem máscaras, não se ventilarem e higienizarem os espaços e os equipamentos. Em contrapartida, turmas mais pequenas e ensino semi-presencial são medidas eficazes para tornar a frequência das escolas mais segura.

Ao contrário do que tem sido dito e repetido, as crianças não são menos susceptíveis aos contágios nem têm, quando infectadas, menor capacidade de transmissão do que os adultos. O que investigações recentes concluíram é que há menos casos reportados entre os mais jovens simplesmente porque a infecção é mais difícil de detectar: quer porque muitos crianças permanecem assintomáticas, quer porque, intencionalmente ou não, se fazem menos testes às faixas etárias mais jovens. Estudos mais aprofundados feitos noutros países demonstraram também que, devido à forma como a doença evolui nos organismos dos mais novos, é mais frequente a ocorrência, entre estes, de falsos negativos: crianças que transportam o vírus e o transmitem, sem que este seja detectado pelos testes de antigénio que se fazem habitualmente.

Mais: quando existe transmissão comunitária do vírus e se fazem rastreios sistemáticos nas escolas, algo que entre nós também não é habitual, desvenda-se a existência de surtos activos nas escolas, com a propagação do vírus entre elementos da comunidade escolar. E também já se sabe que quando o número de casos atinge, na comunidade, valores alarmantes, o confinamento da população escolar é uma das medidas mais eficazes para, a curto prazo, reduzir a propagação do vírus.

Encontrei tudo isto muito bem explicado e documentado, num inglês acessível, aqui.

Mais de mil escolas com casos de covid-19

A recolha de dados que a Fenprof vem realizando já ultrapassa as mil escolas com casos positivos. Mas oficialmente continuam a ser apresentados números irrealistas do impacto da pandemia nas escolas.

Apesar da intenção várias vezes anunciada, ainda não se fazem rastreios em massa nas escolas onde existem surtos comprovados de covid-19. Falta coordenação, o que é evidente na disparidade de critérios com que se determinam testes e isolamentos profilácticos, não só de concelho para concelho ou de escola para escola, mas também perante casos semelhantes ocorridos no mesmo estabelecimento de ensino. Quanto à classe docente, provavelmente já somos, e não sabíamos, um grupo auto-imune à covid-19, pois raramente ou nunca se testam os professores que estiveram com alunos ou colegas que contraíram a doença…

Sem respostas esclarecedoras dos responsáveis, a Fenprof tenta envolver outras entidades num assunto que precisa urgentemente de ser levado a sério: a saúde e a segurança no trabalho dos professores que diariamente mantém as aulas a funcionar.

A lista de escolas em que a FENPROF já confirmou terem existido e, principalmente, estarem ativos casos de Covid-19 atingiu o milhar (1011 escolas/agrupamentos de escolas). Apesar disso, o governo continua a desvalorizar o problema e, em relação a surtos, a divulgar números cuja credibilidade é, no mínimo, muito duvidosa. 

Face a esta situação, a FENPROF decide: 

– Dirigir-se aos epidemiologistas, designadamente aos que participam nas reuniões do Infarmed, e ao Presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública, Dr. Ricardo Mexia, solicitando que se pronunciem em relação aos rastreios que, nas escolas, não são realizados, mesmo quando existem casos confirmados de Covid-19. Todas as recomendações nacionais e internacionais vão no sentido da realização do maior número possível de rastreios e ainda ontem se soube que, na sequência da infeção contraída pela Diretora-Geral da Saúde, foram testados todos os seus contactos próximos; nas escolas, por norma, quando surgem casos de infeção, aos contactos próximos, sejam alunos, professores ou trabalhadores não docentes, os testes são recusados, mesmo quando solicitados; 

– Insistir na necessidade de o Ministério da Educação divulgar a lista de escolas em que existem casos de Covid-19, o seu número, por universo, e os procedimentos adotados;

– Exigir que se cumpra a Lei n.º 35/2014, designadamente o disposto no artigo 350.º, sendo aberto um processo negocial destinado a estabelecer as condições de Segurança e Saúde nas escolas, a partir do início do segundo período letivo; 

– Requerer à  Provedoria de Justiça e à Assembleia da República que suscitem a fiscalização da constitucionalidade da norma que prevê o corte de salário a quem, por pertencer a grupo de risco, se mantenha para além de trinta dias ao abrigo do regime de proteção instituído pelo artigo 25.º-A do Decreto-Lei n.º 10-A/2020, de 13 de março, uma vez que esta situação parece violar o disposto no artigo 64.º da Constituição da República, cujo número 1 consagra que todos têm direito à proteção da saúde. Ora, não existe verdadeira proteção se, por razões de natureza económica, quem integra grupo de risco deixa de beneficiar dessa proteção ou, para a manter, fica impedido de receber qualquer remuneração, uma vez que, por norma, continua a ser negada a possibilidade de exercer atividade em teletrabalho, como acontece com a generalidade dos docentes.

À espera da vacina

Vai-se tornando mais nítido o contraste entre a actuação pronta e decidida do Governo na primeira fase da pandemia, que com medidas duras mas eficazes conseguiu conter o avanço das infecções dentro de números controláveis, e a actuação errática e hesitante que está a ter agora.

O relativo sucesso do primeiro confinamento conduziu a um excesso de confiança que andamos, agora, a pagar caro. A prioridade à recuperação da economia é compreensível num país dependente e sobre-endividado, com pouca folga financeira para políticas orçamentais anti-cíclicas. Mas também é preciso perceber que é impossível a retoma económica enquanto não se reverter a situação calamitosa em que estamos a viver.

A trégua dos meses de Verão não foi aproveitada para prevenir a segunda vaga de contágios que, com a retoma das aulas e das actividades económicas no Outono, se tornaria inevitável. Quando se haveria de ter sido formiga, optou-se pela vida fácil da cigarra, e obviamente não estou a falar dos profissionais de saúde, que continuaram a dar o melhor de si mesmos, mas de quem deveria planear e antecipar o que aí vinha, reforçando em meios materiais e humanos as estruturas essenciais ao combate à covid-19 e preferiu quase nada fazer, confiando na sorte e no improviso.

Será que um irresponsável optimismo levou os responsáveis a convencer-se de que poderiam resolver o assunto com a chegada das vacinas anti-covid antes do Inverno e da segunda vaga da pandemia? Se assim foi, creio que o boneco do Henricartoon exprime, melhor do que quaisquer palavras, a situação em que hoje, com a situação epidemiológica completamente descontrolada – 80% dos contágios têm origem desconhecida – nos encontramos…

Quando o vírus nasce, é para todos

Até mesmo para os suecos, que andam desde o princípio da pandemia a perseguir uma mirífica imunidade de grupo impossível de alcançar. A ideia era proteger os cidadãos mais vulneráveis – não propriamente bem sucedida, pois acabaram por ter mais mortos do que os países vizinhos – e expor o resto da população ao bicharoco, achando que assim se construiriam as defesas que impediriam a propagação da doença.

Um desafio eticamente discutível, mas tão imprudente quanto tentador: não confinamos, não usamos máscara, fazemos a vida normal. Mantemos a economia, as escolas, a vida social a funcionar e no fim acabamos a ter menos casos, menos internamentos e menos mortes do que todos os outros.

Uma estratégia destinada a correr mal, e não é preciso ser epidemiologista para perceber porquê: as mutações do vírus e o enfraquecimento gradual das defesas imunitárias fazem com que a imunidade conferida pela doença seja temporária. Ou seja, quem já teve a doença não está livre de a voltar a ter. Claro que ao princípio não se sabia ainda bem como iria funcionar o novo vírus, mas essa era apenas mais uma razão para ser prudente, em vez de optar por arriscados aventureirismos.

Ainda assim, mais vale tarde do que nunca: parece que o epidemiologista-chefe lá do sítio percebeu finalmente o beco sem saída para onde tem conduzido a obediente e confiante população sueca…

A Suécia registou 4.658 novos casos de coronavírus na quinta-feira, de acordo com dados oficiais relatados pela Reuters, com os novos casos diários a aumentarem nas últimas semanas. Os internamentos também subiram dramaticamente, com mais de 1000 pacientes com covid-19 a serem tratados em hospitais, um aumento de 60% em relação à semana anterior. Os números foram divulgados pela emissora estatal SVT e citados pelo Guardian. A taxa de mortalidade por coronavírus na Suécia é agora uma das mais altas do mundo.

Andrers Tegnell, que se tornou conhecido por desenvolver a política anti-bloqueio da Suécia, admitiu esta semana que a Suécia está a viver uma disseminação significativa do vírus em todo o país. A agência de saúde pública da Suécia também reconheceu que o alto número de casos no país na primeira vaga não o protegeu na segunda.

128 docentes mobilizados para a luta anti-covid

Funcionários públicos em isolamento profilático ou sem atividade por serem de grupos de risco e professores sem componente letiva vão ser mobilizados para o acompanhamento e vigilância relativamente à covid-19, visando atenuar a pressão nos sistemas de saúde.

Esta é uma das medidas do estado de emergência que vai vigorar entre segunda-feira e 23 de novembro e que foi aprovada no Conselho de Ministros extraordinário de sábado à noite.

“Outra medida que está prevista no estado de emergência é a possibilidade da mobilização de recursos humanos para apoiar todos os profissionais de saúde, em particular profissionais de saúde pública e profissionais de saúde dos cuidados de saúde primários, nas ações de rastreio e também nas ações de acompanhamento e vigilância de pessoas em confinamento obrigatório”, divulgou o primeiro-ministro, António Costa, em conferência de imprensa, em Lisboa.

Entre os cerca de mil profissionais já identificados para assegurar este apoio estarão, segundo o Governo, 128 professores sem componente lectiva atribuída – provavelmente docentes dos chamados horários-zero ou destacados ao abrigo da mobilidade por doença a quem não foram atribuídas turmas.

Uma medida adequada, que só peca por tardia: tudo isto deveria ter sido planeado antes do desconfinamento, da chegada do tempo frio e da reabertura das aulas, com o inevitável aumento da pressão sobre serviços de saúde há muito a funcionar no limite das suas capacidades.

No caso dos professores, impõe-se uma ressalva: a medida não deve ser aplicada cegamente. Há que ter em conta que, mesmo sem turmas atribuídas, há docentes que estarão a ser úteis e imprescindíveis às respectivas escolas, no apoio a alunos ou no desenvolvimento de projectos e outras tarefas relevantes para a comunidade educativa.

Longe da solução ideal que passa pela capacidade de planear e gerir adequadamente os recursos humanos de que o SNS necessita, a solução de recurso agora encontrada poderá melhorar a capacidade de resposta nos rastreios e vigilâncias da covid-19, uma área crucial no controle da pandemia e onde se registam actualmente demasiadas falhas. A verdade é que médicos e enfermeiros não se inventam de um dia para o outro, pelo que, na sua falta, resta agora recorrer a profissionais de outras áreas para todo o apoio que possam prestar. Ou, como diz a sabedoria popular, quem não tem cão caça com gato…

Irresponsabilidades

Evolução de novos casos de covid-19, 30Set-5Nov. Fonte: site da DGS

Como explicar o recrudescer da pandemia em Portugal no último mês? É certo que a tendência de aumento do número de casos positivos se vinha a manifestar desde o Verão. No entanto, o crescimento era moderado, e o facto de os contágios se fazerem sobretudo entre camadas mais jovens da população, quase todos casos assintomáticos ou com sintomas ligeiros, permitiu que não se sentisse grande pressão nos serviços de saúde.

Em Outubro, a realidade mudou. De um número de novos casos diários inferior a 1000, passou-se, um mês depois, para uma média diária que já deverá andar acima dos 4000 – e ainda deverá continuar a aumentar nas próximas semanas. A transmissão comunitária está fora de controlo, como se constata ao ver a facilidade com que o vírus se voltou a propagar pelos lares da terceira idade.

As responsabilidades maiores, escrevi-o muitas vezes, pertencem aos responsáveis políticos, que demasiadas vezes cederam à tentação de combater o vírus a poder de retórica e demagogia, em vez de reforçar os recursos humanos e os meios de prevenção e intervenção necessários à contenção da pandemia.

Mas também há muitos cidadãos que não fizeram e continuam a não fazer a sua parte, cumprindo e fazendo cumprir as regras de segurança sanitária que impedem ou minimizam os riscos de contágio. Quando esses cidadãos têm responsabilidades públicas – autarcas e outras figuras influentes a nível local – ainda pior: além dos riscos que correm e fazem os outros correr, há um péssimo exemplo que passam para a comunidade. Com resultados que podem ser desastrosos, como se vê por este caso que surgiu na imprensa local…

Há vários casos positivos de Covid-19 resultantes de um casamento que decorreu no dia 24 de outubro, com cerimónia religiosa em Sepins, Cantanhede, e a boda em Quintãs, Aveiro.

Segundo a Administração Regional de Saúde do Centro, o referido surto teve origem num casamento com mais de 200 pessoas. Até ao momento estão confirmados seis casos positivos de Covid-19, aguardando-se os resultados de cerca de 30 testes realizados. “Os contactos dos casos positivos mantêm-se em isolamento profilático”, adiantou ainda a ARS.

De acordo com o Diário de Coimbra, na referida festa de casamento estiveram pessoas oriundas de vários pontos do país e funcionários de uma IPSS do concelho de Cantanhede.

Quem esteve no evento foi o presidente da União das Freguesias de Sepins e Bolho, Luís Arromba, que testou positivo à Covid-19

Teens lideram o aumento das infecções

Olhando para a realidade de outros países, há uma evidência que salta à vista: a reabertura das escolas potenciou a disseminação do coronavírus entre as camadas mais jovens da população. Veja-se o caso espanhol: ao fim de um mês e meio de aulas, tinham já mais novos casos de crianças contaminadas do que durante os seis meses anteriores:

Por cá, continua a insistir-se na ideia de que as escolas são espaços seguros e que o cumprimento rigoroso dos planos de contingência é condição suficiente para evitar as contaminações. E, claro, como as autoridades de saúde têm sido parcimoniosas na realização de testes, raramente se comprova a ocorrência de transmissões em meio escolar. Foi em casa, dizem-nos, que apanharam o “bicho”…

Mas há realidades indesmentíveis. Consultei o site oficial da DGS dedicado à covid-19 para comparar o número de casos identificados em Portugal a 15 de Setembro – antes do início do ano lectivo, portanto – distribuídos pelas diferentes faixas etárias, e os mesmos valores obtidos no final da semana passada, a 29 de Outubro. Constatei, sem grande surpresa, que o grupo que lidera, destacado, o aumento percentual do número de casos positivos, é o dos 10 aos 19 anos. Seguindo-se o das crianças até aos 9 anos.

Grupos etários15/Set29/OutAumento percentual
0-925455338210%
10-1933548960267%
20-291041221724209%
30-391065620741195%
40-491059821203200%
50-59954818576195%
60-69649312396191%
70-7943788164186%
+80691111102161%

Claro que, em valores absolutos, as faixas etárias correspondentes aos adultos jovens e menos jovens continuam a registar o maior número de casos positivos. Mas há que ter em conta que, quando mais baixas as idades, maior poderá ser a percentagem de assintomáticos que não chegam sequer a ser testados, ou só o são depois de contagiarem muitos à sua volta. E um aumento tão forte e tão rápido dificilmente se explica, exclusivamente, por contágios familiares.

Nas escolas e no ambiente que as rodeia, quando já se percebeu que se pretende manter o ensino presencial a todo o custo, deveriam estar definidas, desde o início, duas prioridades essenciais. Uma, testar mais e com maior rapidez perante casos suspeitos. Outra, identificar, nos procedimentos que vão sendo seguidos, aqueles que mais potenciam o risco de contágios, ajustando-os de forma a reforçar a segurança sanitária nas salas de aula e nos recreios, nos bares e cantinas, nos circuitos internos e nos acessos a partir do exterior. Sem esquecer a questão sempre delicada dos transportes escolares.

No entanto, até agora, pouco ou nada tem sido feito. Máscaras obrigatórias, distanciamentos “se possível”, desinfecção das mãos e setinhas pintadas pelo chão: é com estas armas, apenas, que se espera vencer a pandemia nas escolas?…

Divulgação: Calam-se as palmas

O testemunho que publico, da autoria de uma enfermeira portuguesa, vem na linha de muitos que tenho lido ultimamente e que dão conta do crescente mal estar, do desânimo e da exaustão que tem marcado o quotidiano de dezenas de milhares de profissionais de saúde desde o início da pandemia.

Sem que haja um fim à vista para as condições difíceis e precárias em que hoje se trabalha nos hospitais e centros de saúde, vai-se tornando evidente que quem decide e planeia não está à altura da gravidade dos problemas e das necessidades sentidas no terreno. E que não se pode pedir cada vez mais aos mesmos de sempre, fazendo orelhas moucas aos pedidos de ajuda, às críticas e aos gritos de alerta que, insistentemente, nos vão chegando.

Não basta bater palmas à janela ou entoar públicos louvores aos médicos e enfermeiros que têm estado na linha da frente. São precisos mais meios, melhor organização e, acima de tudo, investir nos profissionais, valorizando devidamente o mais valioso recurso das instituições que se dedicam a preservar a saúde e a vida dos portugueses.

Calaram-se as palmas e fecharam-se as janelas.
Calaram-se as palmas e a Alice morreu.
Despiu a bata no final do turno, saiu do Hospital, conduziu até casa, mas antes, antes de chegar à meta, interrompeu a viagem.
Suicidou-se.
Eu não sei as razões para a Alice desistir de tudo isto.
Sei que se fartou de um país que a mandou emigrar e a cujo apelo resistiu.
Sei que se cansou excessivamente de palmas sem eco.
Sei que, pelo caminho perdeu a identidade, oculta num escafandro pesado de suor e da dor dos outros.
Sei que existem incontáveis Alices na minha profissão. Que chegam a casa destruídas por um dia de trabalho sem fim, por uma batalha invisível de quem salva vidas (e não apenas as do Covid) ou de quem mediu vezes demais a frequência cardíaca daqueles que não chegaram a ter segunda oportunidade.
Estou certa, porém, por ser esse o nosso superior desígnio, que a Alice se revestiu, como todos os enfermeiros, de infindável compaixão para aguentar ter dois braços apenas. Num cenário de incompreensível amadorismo político, a saúde ficou para trás. A saúde de quem a perde, a saúde de quem a deve salvar.
Provavelmente, todas as famílias portuguesas têm no seu seio, ou conhecem, um enfermeiro. Provavelmente, todas as famílias portuguesas bateram palmas à janela aos profissionais de saúde quando tudo isto começou.
Nós estávamos “na linha da frente”, grandes heróis, estes que se confrontam com o destino determinados a cuspir-lhe na face e prosseguir.
Mas prosseguir a que custo? Quando é que um penso rápido substitui um profissional qualificado, preparado, confiante? Quando é que medidas avulsas com uma estratégia utópica e fictícia na sua ação dão lugar à primazia da saúde num verdadeiro cenário de guerra?
Quando é que as palmas superam a inação política?
Regresso todos os dias a casa com a exaustão no corpo e o medo no peito. Beijo os meus filhos ao de leve porque nem sei bem se vim sozinha para casa. E tenho tanto, tanto receio do que trago no corpo e na mente.
Confesso, há imagens que não me abandonam. O desespero dos outros, de não salvar os outros, que foi o que nos fez abraçar a profissão, o desespero de não saber com o que conto no dia seguinte.
Podemos continuar a fingir que não se passa nada neste país e que os nossos enfermeiros e restantes profissionais de saúde apenas tratam das arrastadeiras. Mas há um peso que todos vamos pagar, mais depressa do que se imagina. Cada vez mais Alices estão entre nós. Exaustas, exauridas, cansadas de prosseguir na estrada. Bizarramente sozinhas no meio de um incompreensível caos.
Esgotámos um tempo precioso e já não podemos fingir que está tudo controlado.

Silêncio, por favor. Baixe-se o pano.
Chega de palmas.
Morreu um enfermeiro, morreu um de nós.
Talvez algum político, daqueles que assinam decretos que fazem lei de verdade, se lembre de nós e nos dê a dignidade de sermos uma profissão de risco, honrando a nossa carreira e o nosso estatuto.
Talvez nesse dia perceba que não é com palmas e fintas infantis que se combatem guerras.
Talvez tudo o que baste seja apoiar verdadeiramente pessoas. Conceder-lhes o valor que têm e não fazer disso uma oportunidade para poupar mais trocos.
Talvez nesse dia perceba que a farda de anjos que caminham e sobrevivem nos escombros de si próprios não tem verdadeiramente preço, mas tem um custo.

E esse custo chama-se, simplesmente, Vida.

Natércia Lima (Enfermeira, mãe, filha)

Covid na escola: modo de agir

A DGS estabeleceu um plano de contingência em março, mas houve uma “diminuição de exigências”, diz o presidente da Associação de Diretores.

O artigo da revista Sábado traduz, em linguagem corrente, o jargão técnico das normas e referenciais da DGS relativamente aos procedimentos a seguir nas escolas perante os casos, suspeitos ou confirmados, de infecção por covid-19.

Comparando com regras definidas em Março, no início da pandemia, há um notório aligeirar dos procedimentos. Ficará isto a dever-se, como alega a DGS, a um melhor conhecimento do vírus, da doença e da forma como se propaga, ou é apenas uma tentativa de poupar recursos de um sistema de saúde sobrecarregado, com cada vez mais profissionais doentes ou exaustos e, em muitas zonas do país, prestes a colapsar? Responda quem souber.

Nas escolas, quando aparecem positivos confirmados, o que se tem notado é que tanto se decide o confinamento total de umas turmas, como se determina que outras continuem com aulas presenciais como se nada fosse. Nem sempre as decisões das autoridades de saúde aparentam ser claras, lógicas e compreensíveis. E se os critérios mudam à medida que o conhecimento epidemiológico evolui, então já estou como Filinto Lima: quando houver mudanças, informem e esclareçam as escolas.

Do texto que venho comentando, perpassa a ideia de que só excepcionalmente será mandada para casa toda a turma quando aparece um aluno infectado. Tudo está dependente da avaliação feita pela delegação de saúde local, que poderá confinar apenas os contactos que considerar de maior risco. E aqui estará talvez o ponto fraco da nova estratégia: será que os médicos que farão a análise dos riscos estarão conscientes da variedade de interacções sociais e contactos de proximidade que ocorrem entre os alunos, sobretudo nos espaços de recreio e convívio?

Outra ideia algo temerária parece-me ser a decisão de dar alta, ao fim de dez dias e sem a confirmação por um teste negativo, a alunos assintomáticos ou com sintomas ligeiros da doença.

Em todo o lado onde o fenómeno tem sido estudado, constata-se um forte crescimento das infecções entre as crianças e, sobretudo, adolescentes, ao longo do último mês e meio – ou seja, desde que recomeçaram as aulas. Por cá, prefere-se não aprofundar muito a questão, minimizando o problema, restringindo o número de testes, ou não testando sequer, e limitando a pesquisa de possíveis cadeias de contágio relacionadas com o contexto escolar.

Uma jogada de alto risco, que tem tudo para correr mal…