Uma geração de niilistas?

cao-danado.jpgSentir que de nada serve tentar porque aparentemente alguns alunos não parecem munidos de valores mínimos suficiente para simplesmente saber onde começa a falta de respeito e de educação.

Observar esses mesmos alunos durante o intervalo, a serem agressivos uns com os outros (okay, energia a ser dissipada e tal), mas observar também os mesmos a insultarem-se gratuitamente uns com outros e em casos mais graves insultarem elementos de pessoal não docente sempre que podem.

Em cada oportunidade, observar os mesmos a deitarem lixo para o chão, apesar das inúmeras conversas sobre reciclagem e sobre plásticos nos oceanos. Riscarem as cadeiras e as mesas e em último caso destruir equipamento da escola de forma quase gratuita por mero capricho.

Quando apanhados com “a boca na botija” na sala por algum comportamento desviante, usam a “carta” de vitimização. “Não foi eu, exclamam” e por vezes em tom jocoso ou agressivo gritam na aula desafiando o professor.

A sensação é que estamos por um fio e que já não existem sequer parcos valores onde nos segurar e que muitos alunos não sabem lidar com a frustação independentemente de estarem na escola ou em casa. Sabem os pais que estão a criar uma geração de niilistas?

Não conheço o autor anónimo das Crónicas do Cão, mas quem descreve tão bem o (mau) ambiente de algumas salas de aula do século XXI só pode ser, naturalmente, professor.

É mesmo assim, dirão todos os professores que não têm a sorte de estar numa das poucas e afortunadas escolas onde se trabalha para tentar chegar ao topo dos rankings. Ou onde, mesmo sem essas ambições, ainda se conseguem encontrar os alunos atentos, motivados, empenhados e participativos que estimulam qualquer bom professor.

E não adianta dizer que é porque não sei quê, a tecnologia e o conhecimento na palma da mão, os nativos digitais, as mudanças de mentalidade. Na grande maioria dos casos é mesmo o não saber estar, a falta de objectivos e de valores. O niilismo, um sentimento próprio de idosos que já nada esperam da vida, parece ir-se apoderando das novas gerações…

Dizem-nos que a escola tem de mudar e isso, até certo ponto, é verdade. Mas desenganem-se os que pensam que é voltando às mesas em U ou à multiplicação trabalhos de projecto, colocando cadeiras com rodinhas, distribuindo “tabletes” ou sessões de mindfulness a toda a gente que se irão resolver os problemas de fundo de um sistema educativo em profunda crise.

É mais é bolos…

pastelaria.jpgNos bares escolares persiste o mesmo problema com que também nos deparamos nas salas de aula: deve dar-se às crianças e jovens o que eles preferem, ou o que comprovadamente sabemos ser o melhor para eles?

Curiosamente, o pensamento politicamente correcto dominante não põe em causa os ensinamentos dos médicos, nutricionistas e especialistas em saúde pública: as escolas devem fornecer alimentos saudáveis aos seus alunos e ponto final. Ainda que a maioria dos miúdos não gostem da dieta proposta ou a achem sensaborona.

Já em relação ao que se passa nas salas de aula, a opinião dos especialistas em pedagogia, que são indubitavelmente os professores, é coisa que não interessa nada. O ministro da Educação reuniu há tempos com alunos de todo o país para ouvir as suas opiniões sobre o que e como queriam aprender. Alguém imagina uma reunião semelhante para discutir a ementa dos bares escolares?…

“Dado que o bufete escolar constitui um serviço complementar ao refeitório, de fornecimento de refeições intercalares aos alunos (…), deve observar os princípios de uma alimentação equilibrada e promotora de saúde. Solicitamos às direções das escolas (…) que façam cumprir estas orientações.” Já passaram seis anos desde que a Direção-Geral da Educação, em colaboração com a Direção-Geral da Saúde, publicou as orientações para uma alimentação saudável nos bares das escolas, com uma lista de produtos a não disponibilizar aos alunos e que impunha às direções, “tanto quanto possível”, que fosse cumprida. Mas há largas dezenas de escolas públicas que continuam a ignorar as regras publicadas em 2012 e ainda gastam milhares de euros em produtos como chocolates, refrigerantes, bolos, bolachas e até pastilhas e rebuçados.

Só no último mês, foram publicados mais de 30 contratos no Portal Base – o portal da contratação pública – para aquisição destes produtos para agrupamentos de escolas. E as descrições deixam poucas margens para dúvidas, com os chocolates, os biscoitos, as bolachas, os sumos ou o leite achocolatado a dominarem. No total, só num mês, os gastos com produtos a evitar superaram os 300 mil euros.

E verdade que existem orientações rigorosas, desde 2012, acerca dos alimentos pouco saudáveis que não devem ser oferecidos aos alunos. Mas aqui, uma vez mais, cai-se no erro de pensar que a escola consegue fazer, sozinha, aquilo que deveria ser o trabalho das famílias e da sociedade em geral.

Se as crianças não são habituadas em casa, desde pequeninas, a comer sopa, salada ou legumes, é de estranhar que, na escola recusem esses alimentos? Se comem habitualmente fritos e bolos, cheios de açúcar e de sal, em vez de grelhados ou pão, espera-se que apreciem, na escola, os alimentos naturais?

As orientações oficiais são claras, e mandam disponibilizar sandes em vez de bolos, leite, iogurtes e sumos naturais em vez de refrigerantes. Mas esquecem um ponto fundamental: preparar sandes ou sumos feitos no momento requer a intervenção de funcionários que escasseiam em muitas escolas. Pelo que, quando há falta de pessoal, a solução é recorrer à venda de alimentos processados e prontos a consumir. Ou, melhor ainda, instalar aquelas máquinas de venda automática que vemos hoje em quase todas as escolas.

Há ainda um outro aspecto que tende a passar ao lado de quem analisa o problema num qualquer gabinete ministerial, mas é muito sentido localmente. Se a escola não vende aos alunos a comida de que eles gostam, é muito simples, sobretudo no caso dos mais velhos: vão comprá-la ao exterior da escola, onde proliferam os cafés, os bares, os supermercados, as lojas de fast-food e de guloseimas.

Diz a ancestral sabedoria africana que é preciso uma aldeia para educar uma criança. Por cá, insiste-se na crença, tão absurda quanto conveniente, de que que a escola, sozinha, consegue fazer milagres. E, se não os faz, é claro que a culpa só pode ser dos professores…

Alunos…

Depois da inspirada colecção de professores, faltava a dos diferentes tipos de alunos, representados através de cenas e personagens de filmes de animação.

Publicação original na conta Twitter Dilo en voz alta, onde podem ser vistos mais alguns bonecos.

 

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A alunos e professores, a Escola Portuguesa deseja um bom regresso às aulas.

Como fingir-se doente e não ir à escola?

doente.jpgMilhares de páginas na internet ensinam truques às crianças para enganar os pais e faltar às aulas: fingir dores de barriga, inventar problemas de pele ou fazer vomitado falso são algumas das dicas.

Há sintomas de doenças que são fáceis de fingir, mas, na internet, também se encontram manhas muito mais elaboradas: Numa pesquisa pela frase “truques para faltar às aulas” surgem mais de 5,8 milhões de resultados.

Existem sites com longos textos e explicações detalhadas, há páginas com curtos esclarecimentos, mas também relatos em tom irónico.

No Youtube, multiplicam-se os vídeos assistidos por milhões de pessoas: “5 desculpas para faltar a aula” tem mais de oito milhões de visualizações e “10 Desculpas para não ir à Escola” foi visto mais de cinco milhões de vezes.

Na página “Como fingir estar doente para não ir à escola” aprende-se a simular febre, enxaquecas, dores de estômago, náuseas e cólicas, mas também diarreia, vómitos ou uma erupção cutânea.

Ter uma aula de que não se gosta, um trabalho para apresentar ou um teste para o qual não se está bem preparado: tudo isto foram, desde sempre, situações que levaram alunos a tentar encontrar uma boa desculpa para não ir à escola. Estar doente é, geralmente, a mais conveniente e aceitável. A internet e o seu “conhecimento instantâneo” apenas vieram ajudar a encontrar formas eficazes de tentar ludibriar os pais ou os professores.

Claro que a aversão à escola, sobretudo quando ocorre de uma forma mais sistemática, pode ser um sintoma de algo mais grave: por exemplo, um aluno com necessidades especiais ainda não diagnosticadas, dificuldades de integração na rotina escolar ou problemas de relacionamento com os colegas, até mesmo vítima de uma situação de bullying.

Contudo, pais atentos e responsáveis deverão conhecer os seus filhos como ninguém e ser capazes de detectar, tanto as doenças simuladas como a possível existência de outros problemas que, em conjunto com a escola, terão de ser resolvidos. Pais que o sejam por inteiro, e que nunca abdiquem de o ser e de se assumir como tal: eis algo que nem todos os miúdos, infelizmente, conseguem ter…

O que querem os alunos da escola?

ferias.jpgOs jovens consideram que é essencial para as suas aprendizagens “sentirem-se acolhidos na escola”. Dizem que os intervalos deveriam ser maiores e as aulas mais curtas.

O Ministério da Educação continua com o jogo, perigoso e demagógico, de perguntar aos alunos quais as mudanças que querem na escola para que esta fique do seu agrado. E não resiste à tentação de transformar numa espécie de programa educativo para o século XXI as respostas avulsas que vai obtendo dos alunos questionados.

Sem surpresa, estes respondem: aulas mais curtas e intervalos maiores, professores que tratem de igual para igual os alunos e proporcionem aulas divertidas e relaxadas. O “tá-se bem” deveria traduzir-se igualmente em menos peso dos testes na avaliação e mais valorização do trabalho nas aulas na nota final, na selecção das matérias a leccionar tendo em conta as preferências dos alunos e em mais actividades fora da sala de aula.

Para quem é professor nada disto é novo, e até se poderia louvar o interesse do ME em ouvir os alunos, se fosse para criarem, de seguida, respostas a algumas destas ideias. Mas o que vemos não é um ministério interessado em mudar as suas práticas burocráticas e economicistas, simplificar currículos, reduzir o número de alunos por turma, reabilitar escolas degradadas, investir em tecnologia educativa ou contratar mais professores. Em vez disso, a opinião dos alunos serve para pressionar os professores, tentando torná-los mais submissos às determinações ministeriais, e para fazer crer, aos alunos e à sociedade, que se a escola não muda isso se deve ao conservadorismo dos docentes.

Na verdade, o mais grave aqui nem é o discurso insidioso contra os professores da parte de quem os deveria ouvir, valorizar e apoiar na melhoria do trabalho pedagógico. O discurso do secretário de Estado João Costa e dos seus comissários políticos já está tão batido que todos os professores sensatos lhe saberão dar o devido desconto. Sobre estas ideias da escola divertida, onde se faz o que se quer, se presta atenção às aulas apenas se o professor for fixe, se aprende sem esforço e se rejeita o que dá trabalho, o mais preocupante é que elas prejudicam acima de tudo os estudantes com menos motivação, maiores dificuldades e menor apoio familiar.

Na realidade, há uma contradição insanável entre a sociedade elitista, perfeccionista e competitiva que andamos a construir, por um lado, e este facilitismo irresponsável com que alguns tentam seduzir os nossos alunos. Como se todas as coisas boas da vida se conseguissem sem mérito nem esforço. Como se a persistência ou a resiliência não devessem ser desenvolvidas. Como se fosse credível este modelo de educação e de vida que cada vez mais se quer transmitir aos príncipes e princesas deste país: que persigam os seus sonhos, pois podem ser o que quiserem, mas de preferência sem estudo, trabalho, talento ou ambição. Embalar os jovens com bonitas palavras, dizendo-lhes o que gostariam de ouvir, não é honesto nem decente: não passa de um lamentável exercício de demagogia.

Mudanças curriculares: as propostas dos alunos

tiagobrandaorodrigues-leiria.JPGO ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, revelou esta sexta-feira que leva 32 páginas de sugestões deixadas pelos estudantes, durante a conferência “A voz dos alunos”, e que terá em conta algumas, quando mudar os currículos.

“Levamos daqui 32 páginas de notas e muito boas ideias”, revelou o ministro, depois de ter conversado com vários estudantes do 1.º, 2.º e 3.º ciclos, ensino secundário e superior, e ouvido as suas críticas e sugestões quanto ao modelo de ensino aplicado em Portugal.

A notícia do DN não se alonga em detalhes sobre as muitas ideias que os estudantes de todo o país e dos vários níveis de ensino, ontem reunidos numa escola secundária de Leiria, terão dado à equipa ministerial que os quis ouvir antes de decidir sobre as mudanças curriculares que se vão anunciando.

Naquilo que os alunos terão proposto, quase só encontro boas ideias:

  • Reforço da experimentação e da observação, especialmente no ensino das ciências naturais;
  • Maior ênfase à oralidade no estudo das línguas, que nas condições actuais dificilmente é desenvolvida e valorizada;
  • Reforço curricular da educação artística;
  • Valorização do ensino profissional, na dupla vertente de preparação para o trabalho e o prosseguimento de estudos na área de formação;
  • Currículos mais pequenos e turmas reduzidas;
  • Possibilidade de cada aluno escolher as disciplinas do seu interesse, no ensino secundário, em vez dos planos de estudos formatados e estanques que fazem cada vez menos sentido;
  • Aulas menos expositivas e mais participativas;
  • Avaliação não apenas quantitativa, baseada em notas de testes e exames, mas com uma componente qualitativa que valorize os valores da cidadania que devem estar presentes, de forma transversal, em todo o currículo.

Diria que trabalhou bem, a rapaziada. Faltará saber se a forma como tudo isto vier a ser posto em prática não desmerecerá as expectativas dos estudantes.

 

Mudanças curriculares: dar voz aos alunos

tbrodrigues-e-aluno.jpegO Ministério da Educação promove, no dia 4 de novembro, uma conferência inovadora intitulada «A voz dos alunos», com o objetivo de ouvir os estudantes do ensino básico e secundário sobre a composição do seu currículo e aproveitamento das aprendizagens.

Para o evento de dia 4 de novembro foram convidados alunos de várias escolas, divididos em cinco grupos: 1.º ciclo, 2.º ciclo, 3.º ciclo, secundário (científico-humanístico e profissional) e pós-secundário (alunos que estão a frequentar o ensino superior).

Estes alunos participarão, durante a manhã, em workshops de discussão, nos quais serão convidados a refletir sobre a sua experiência escolar e a responder a perguntas como:

Durante a tarde, as conclusões dos grupos serão apresentadas e comentadas pelos moderadores das mesas da Conferência de abril protagonizada pelas associações de professores.

No final da conferência, o Ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, será o moderador de um painel cujos protagonistas serão, de novo, os estudantes.

Nestas audições alargadas que o ME anda a promover, antes de tomar decisões em matéria de reorganização curricular, uma área tão sensível quanto estruturante do sistema educativo, calhou agora a vez dos representantes dos alunos. Uma iniciativa que decorre hoje em Leiria e que o próprio ministério considera inovadora pois nunca se terá feito, nestes moldes, algo de semelhante.

Não sei se deva partilhar do cepticismo, talvez excessivo, do Paulo Guinote, que no início da semana achava já que as mudanças curriculares estão mais do que decididas, e que isto é apenas a encenação de alguma abertura às bases. Ainda assim, tenho alguma curiosidade em saber o que dirão as crianças e jovens hoje chamados ao debate e que conclusões se tirarão da iniciativa.