Jorge Sampaio (1939-2021)

Jorge Sampaio, por Paula Rego

Ficará provavelmente na História como o mais consensual de todos os presidentes da República que tivemos.

O que não impede que fosse um homem de ideais e convicções, que o levaram a envolver-se politicamente, desde muito jovem, na luta contra o Estado Novo.

Dirigente estudantil antes de 25 de Abril, advogado de defesa de presos políticos, fundador e militante de movimentos de esquerda antes de finalmente aderir ao PS, líder partidário, presidente da Câmara Municipal de Lisboa, onde foi o percursor da solução política que hoje designamos por geringonça, Presidente da República.

Um dos principais obreiros da independência de Timor-Leste, mandatário da ONU em diversas missões internacionais.

Um homem culto, generoso, solidário.

Um socialista como já não se fazem.

Otelo Saraiva de Carvalho (1936-2021)

Figura polémica mas incontornável da história política do século XX português, Otelo Saraiva de Carvalho foi o principal estratega da Revolução dos Cravos. Planeou integralmente e coordenou, a partir do Posto de Comando instalado pelos militares revoltosos no Quartel da Pontinha, todas as operações militares que, na madrugada de 25 de Abril de 1974, convergiram na conquista dos principais centros de poder e no derrube da ditadura.

Militar com experiência de guerra em Angola e na Guiné, Otelo era, como a generalidade dos Capitães de Abril, um homem pouco politizado. A ele e aos outros, unia-os a rejeição da guerra colonial, a vontade de devolver ao povo a liberdade e a democracia e de, num novo contexto político, negociar a independência das colónias. Tudo o resto, como então se dizia, estava em aberto.

Ao contrário dos seus camaradas da Coordenadora do MFA, que escolheram a via da moderação, Otelo radicalizou-se à esquerda, tornando-se, ao comando do contestado COPCON, uma das figuras de proa do chamado PREC – Processo Revolucionário Em Curso – no Verão Quente de 1975. Mas os tempos revolucionários estavam a chegar ao fim: a legitimidade democrática, obtida nas eleições, sobrepunha-se à legitimidade revolucionária. E Otelo foi arrastado pela derrota dos sectores radicais das Forças Armadas no golpe de 25 de Novembro, preso e afastado de todos os cargos políticos e militares. Mais tarde, o envolvimento com as FP-25, uma anacrónica organização terrorista de extrema-esquerda, haveria de o conduzir novamente à prisão, tendo sido condenado e, posteriormente, amnistiado.

Para a História de Portugal e a Memória dos portugueses, Otelo fica acima de tudo como o revolucionário generoso, o estratega brilhante de um golpe militar sem derramamento de sangue – um feito inédito na conturbada história política contemporânea da Península Ibérica e da América Latina. Um homem afável, um espírito inquieto e cheio de contradições, uma alma de artista que, noutras circunstâncias da vida, poderia ter sido, quem sabe, um actor de teatro ou um realizador de cinema.

E escritor, também. O seu livro Alvorada em Abril continua a ser a melhor narrativa da Revolução de Abril, contada na primeira pessoa pelo seu principal mentor.

Carlos do Carmo (1939-2021)

Impossível resumir numa única canção o imenso talento e extraordinário ecletismo de Carlos do Carmo, um fadista que cedo suplantou as fronteiras do tradicional fado lisboeta, explorando o vasto mundo da canção ligeira e da música popular portuguesa e internacional. Sem nunca se isolar no estatuto de vedeta, mas sempre curioso e disponível para trabalhar e aprender com artistas de outras formações e gerações.

Fica um dos clássicos de Carlos do Carmo, figura maior do fado e da canção portuguesa do século XX, e o convite para partir à (re)descoberta da sua vasta discografia.

Eduardo Lourenço (1923-2020)

Há algumas semanas, um engenheiro, responsável e responsabilizado na liquidação frutuosa dos erros dos outros, resumiu numa síntese insuperável a essência da realidade portuguesa: somos um povo de pobres com mentalidade de ricos. Se tivesse acrescentado qualquer coisa como «ricos pobres», ou ricos imaginários, teria resumido oitocentos anos de história pátria e dado uma última demão no diagnóstico célebre da nossa «intrínseca loucura» lavrado por Oliveira Martins. O comportamento descrito pelo lúcido engenheiro é tão orgânico que se tornou invisível, como tudo quanto é normal. Apontá-lo é um insulto à nossa celebrada maneira de estar no mundo, que é, naturalmente, a melhor do mundo, por ser nossa e por não podermos conceber outra.

Empiricamente, o povo português é um povo trabalhador e foi durante séculos um povo literalmente morto de trabalho. Mas a classe historicamente privilegiada é herdeira de uma tradição guerreira de não-trabalho e parasitária dessa atroz e maciça «morte de trabalho» dos outros. Não trabalhar foi sempre, em Portugal, sinal de nobreza e quando, como na Europa futuramente protestante, o trabalho se converte por sua vez em sinal de eleição, nós descobrimos colectivamente a maneira de refinar uma herança ancestral transferindo para o preto essa penosa obrigação. É mesmo essa a autêntica essência dos Descobrimentos, o resto, embora imenso, são adjacências. Hoje, com o suspeito «illitchismo» a servir de farol progressista, esta colectiva fuga ao trabalho tem ares de profecia à rebours, serve de conforto aos herdeiros da fabulosa exploração do suor do próximo que tão lírica e contemplativa disposição lusa supunha e supôs, e sob outras formas, continua a supor. Na realidade, constituiu e constitui a trama da colectiva existência picara que por necessidade inventámos tornando-nos esses pobres com mentalidade de ricos a que o nosso engenheiro se refere.

Seria de uma provocação sem alcance exaltar o trabalho em si ou a ética do trabalho (dos outros), independentemente do contexto social onde se insere, tal como a ideologia puritana do liberalismo a cultivou. Mas mais grave ainda é esquecer o que há de positivo nessa apologia que na origem traz o selo de uma democraticidade realista oposta ao divino privilégio de não fazer nada e de se glorificar com isso. O tardio rebate do marquês de Pombal, que observara nações com classes dirigentes inseridas no processo de criação de riqueza, o fortalecimento, por exemplo inglês interposto, do sentimento de honorabilidade de que o Porto liberal será entre nós o símbolo, não puderam alterar substancialmente a tradição parasitária e picara de uma nação sem ricos que justificassem (no contexto da época) sê-lo, e que só podiam dar, ao resto do povo, o exemplo, ao mesmo tempo fascinante e insultuoso, de um escândalo com foros de milagre a copiar e imitar como se podia. Dos caldos de portaria ao burocratismo apopléctico do século XX corre um fio que, por escondido, não é menos grosso e grávido de consequências.

Colectiva e individualmente, os Portugueses habituaram-se a um estatuto de privilégio sem relação alguma com a capacidade de trabalho e inovação que o possa justificar, não porque não disponham de qualidades de inteligência ou habilidade técnica análoga à de outra gente por esse mundo, mas porque durante séculos estiveram inseridos numa estrutura em que não só o privilégio não tinha relação alguma com o mundo do trabalho mas era a consagração do afastamento dele.

Eduardo Lourenço, in O Labirinto da Saudade (1978)

A História importa!

Como professor que quotidianamente estuda e ensina História, junto-me à Anabela Magalhães, ao Paulo Guinote e a todos os colegas desta e de outras disciplinas para assinalar, uma semana depois do bárbaro assassinato do professor francês Samuel Paty, a importância de conhecer, compreender e valorizar a História.

Em Portugal, julgo que nem eu nem qualquer dos meus colegas sentirá a vida em risco por abordar temas polémicos da História contemporânea ou no âmbito da agora muito falada Cidadania.

Por cá, a ameaça à disciplina e ao papel único e insubstituível que desempenha na formação de crianças e jovens vem sobretudo da irrelevância curricular a que vem sendo condenada, perdendo, em sucessivas reformas, revisões e autonomias curriculares, tempo para a sua leccionação.

De uma forma ou de outra, parece que a História incomoda: tanto aos que a querem reduzir a uma fastidiosa sucessão de factos, datas e personagens, como aos que nela vêem uma ameaça à afirmação dos seus dogmas. A verdade é que, entre o pensamento único da cartilha neoliberal – que chegou a ter a ousadia de, pela voz de Fukuyama, proclamar o fim da História – e a afirmação de novos e velhos fundamentalismos, a importância da História para nos ajudar a compreender o mundo em que vivemos é maior do que nunca.

Sim, a História importa!

Waldemar Bastos (1954-2020)

Luís Sepúlveda (1949-2020)

ALGUÉM LÁ EM CIMA ESTÁ À ESPERA DE GARDÉNIAS

luis-Sepúlveda

Estou diante da tua porta, impecavelmente vestido e com um ramo de gardénias na mão.

Tenho a intenção de tocar, esperar uns segundos e ver aparecer a tua cabeça na moldura da entrada com uma ex¬pressão de cínica surpresa, pois ambos sabemos que estás à minha espera. Tenho a intenção de entrar, boa tarde, como estás, dar o primeiro passo, a alcatifa branca, o cadeirão, um café, cigarros turcos em cima da mesa, louvores pelo bom gosto na escolha dos cinzeiros, e as abomináveis reproduções de Picasso.

Há como que uma atitude marcial no acto de procurar com o dedo indicador o botão negro da campainha, entrar em contacto com a baquelite, carregar com uma certa sensualidade e verificar que não se ouve qualquer som.

Um pouco mais veloz, o dedo repete a operação, carrega desta vez com mais força na campainha, permanece uns segundos a carregar, mas não se ouve nada. Dedução imediata: paranóia dos fios.

Então retrocedo vinte centímetros, componho o nó da gravata, verifico a simetria do ramo de gardénias que já começam a dar sinais de instabilidade no seu invólucro e dobro os dedos da mão direita num movimento que começa nas primeiras falanges, até que a mão adopta a atitude de um caracol voluntarioso.

Tomo balanço, isto é, a mão retrocede até ficar paralisada como que por uma parede de ar que impede uma maior deslocação e se prepara para cair contra a superfície branca da porta.

Quando a mão está a escassos milímetros, detém-se, e penso então em todas as possibilidades.

Poderia dar-se o caso de o ruído imprevisto, toc toc, te provocar um repentino pavor. A terrível sensação de pensares num hóspede inesperado, o pressentires a chegada de uma recordação enterrada há muito e a possibilidade de largares a jarra de cristal que por certo tens nas mãos à espera da chega¬da das gardénias prometidas.

Poderia também acontecer que a minha mão adquirisse uma força infinita e ao segundo toc perfurasse a porta com o consequente ruído de lascas de madeira a caírem no linóleo, ou simplesmente que, devido a imperfeições da empresa construtora, a porta se desmoronasse no meio das recriminações dos teus vizinhos, que sairiam para o passeio com os seus pulcros pijamas, e entre maldições me recordariam que esta é uma hora de decente descanso.

No meio destas reflexões a mão começa a tremer-me, entra em convulsões de incerteza, parece-me pressentir no pulso algo como um esgar de terror, que no fundo é medo e pena de mim mesmo, porque isto acontece-me de cada vez que tento bater à tua porta.

Assim, as gardénias envelhecem em poucos segundos no seu invólucro transparente e, quando parto atravessando os umbrais do edifício, aquela boca que me cospe para a solidão húmida da rua, e inicio a minha caminhada com a cabeça metida entre os ombros sentindo uma vez mais a vergonha da derrota, acontece-me escutar nitidamente, lá em cima, o teu pranto de gardénias ausentes.

Luís Sepúlveda, Encontro de Amor num País em Guerra (1998).

Kenny Rogers (1938-2020)

Pedro Barroso (1950-2020)