O estado da Educação

Com as férias à porta, e seguindo o exemplo do Parlamento, que encerrou a temporada de sessões plenárias com o habitual debate do estado da Nação, a Fenprof chamou ontem os jornalistas para, em nome dos professores, analisar o estado da Educação. Que não é famoso, como todos sabemos.

Aos velhos problemas da carreira, concursos, avaliação, condições de trabalho e aposentação juntam-se novas dificuldades e desafios impostos não só pela pandemia, mas também pelas ruinosas iniciativas governamentais que comprometem o trabalho das escolas e dos professores e a qualidade da escola pública.

A federação sindical promete mobilizar os professores e retomar a luta colectiva logo no início do próximo ano lectivo se o Governo continuar a ignorar os problemas e reivindicações da classe docente, bloqueando todas as tentativas de diálogo e de busca de soluções negociadas para a sua resolução.

…a FENPROF reforçou a sua opinião de que a pandemia tenha trazido novos problemas, mas, principalmente, tenha provocado o agravamento de problemas que já existiam, tornando-os ainda mais visíveis e deixando a nu duas graves insuficiências: a crónica falta de investimento na Educação e o bloqueio, imposto pelo governo, à resolução dos problemas.

O Secretário-geral da Federação deixou, por isso, claro que o arrastamento dos problemas, que resulta desta atitude antidemocrática de bloqueio da negociação, está a contribuir para a perigosíssima perda de atratividade da profissão docente e a levar ao afastamento de milhares de jovens dos cursos de formação inicial de docentes. 

No final de um ano letivo e a pensar já no arranque do próximo, a FENPROF deixou algumas preocupações centrais:

– um plano de recuperação de aprendizagens que é meramente conjuntural, quando deveria prever medidas de fundo que atacassem problemas estruturais.

a transferência, de forma crescente, de importantes parcelas do financiamento da Educação para fundos europeus, tornando o país, também nesta área, cada vez menos soberano e sujeitando

– a generalização do processo de transferência, quase total, da Educação para os municípios, que está prevista para 2022

Mas a FENPROF não alivia a pressão em relação aos aspetos de ordem profissional que o governo tem ignorado e que são a causa do mal-estar docente hoje existente e da contestação de docentes ao governo. Considera, por isso, que o período de discussão e propostas do OE para 2022 deve, nos termos do que a lei estabelece, integrar a resolução dos problemas relacionados com a recomposição da carreira, o rejuvenescimento da profissão, a precariedade profissional e as ilegalidades e os abusos que atingem os horários de trabalho. 

A feira dos problemas e dos bloqueios

Perante o muro de silêncio e intransigência erguido pelo Ministério da Educação sempre que estão em causa os direitos, os problemas e as reivindicações dos professores, a Fenprof tenta romper o bloqueio insistindo na denúncia pública de uma situação que se arrasta há demasiado tempo sem soluções à vista.

Os professores estão saturados de um ministério que não pára de lhes atirar para cima mais e mais trabalho, ampliando os seus deveres e responsabilidades, ao mesmo tempo que desrespeita os seus direitos, a começar pelo direito à negociação. Hoje à tarde, no Rossio, fá-lo-ão saber.

…apesar do zeloso cumprimento dos seus deveres, os docentes continuam sem ver respeitados direitos mais elementares, como o direito a uma carreira valorizada e nos termos legalmente estabelecidos, a estabilidade, a uma aposentação digna e num tempo que tenha em consideração o desgaste físico e psicológico a que estão sujeitos, respeitando, ainda, a necessidade de rejuvenescimento do corpo docente das escolas.

Em relação às condições de trabalho, designadamente horários ou número de alunos por turma, os responsáveis do Ministério da Educação recusam qualquer tipo de diálogo ou negociação que visem, num caso, eliminar os abusos e ilegalidades que são cometidos e, no outro, encontrar uma solução que permita as escolas, no âmbito da sua autonomia, definirem a dimensão das turmas, de acordo com as suas caraterísticas e necessidade de respostas. Isso mesmo é confirmado, por exemplo, pelo designado plano de recuperação aprovado pelo governo no passado dia 17.

Face ao arrastamento desta situação de bloqueio imposto pelo Governo e protagonizado por Tiago Brandão Rodrigues, cuja inércia leva a que se agravem os problemas, a FENPROF vai promover esta “Feira dos problemas com soluções bloqueadas”, que consistirá na exposição, na Praça do Rossio, em Lisboa, em diversos espaços, de elementos físicos que retratam os problemas cujas soluções estão bloqueadas pela atitude antidemocrática do Ministério da Educação.

A FENPROF convidou os grupos parlamentares para estarem presentes nesta iniciativa em que os problemas serão proclamados e cantados em quadras populares e na qual será aprovada, no final, uma Moção a enviar aos decisores políticos nacionais que, por falta de soluções adequadas que tornem atrativa a profissão docente, estão, irresponsavelmente, a afastar jovens (professores já formados ou candidatos à formação inicial) e a abrir portas à sua desprofissionalização, num quadro de desqualificação destes profissionais.

Um Apagão Pela Educação

A iniciativa, nascida nas redes sociais, pretende dar visibilidade e força a um protesto que até aqui tem vivido sobretudo de posições individuais: o ensino à distância decretado pelo Governo está a fazer-se por conta dos equipamentos dos profissionais da Educação. O ME não só não forneceu quaisquer recursos para o teletrabalho como nem sequer houve a dignidade, da parte dos seus responsáveis, de perguntar aos professores se não se importariam de assegurar o serviço educativo, a partir de casa, com os seus próprios meios. Algo que, como deveria ser óbvio, não têm obrigação de fazer. Também não está prevista qualquer compensação, ainda que simbólica, por esta requisição não assumida de bens privados para a prestação de um serviço público em estado de emergência. E aos professores que declararam não poder ou não querer emprestar o seu material, a resposta foi lacónica: venham então teletrabalhar para a vossa escola!

É neste contexto que surge a iniciativa de estimáveis colegas que, através de paralisações simbólicas, mas coordenadas, do E@D feito a partir de casa, pretendem evidenciar os frágeis alicerces em que assenta este ensino remoto onde a boa vontade e abnegação de quem ensina contrasta com a incompetência e a displicência de quem nada preparou para a eventualidade, mais do que previsível, de um segundo confinamento. Na base, um princípio inatacável: se são nossos os computadores e as ligações à internet, então eles só funcionarão se e quando nós quisermos…

Pessoalmente, não tenho dúvidas acerca da justeza dos princípios invocados. Mas já não estarei tão seguro da oportunidade e da eficácia de uma luta que arrisca dividir os docentes – algo que tem sido visível nas discussões nos grupos de professores – e não ser bem compreendida pela opinião pública. No entanto, divulgo com todo o gosto a iniciativa dos colegas e estarei atento às futuras concretizações, reacções e novos desenvolvimentos.

Um grupo de cidadãos, que exerce a profissão docente, apela aos restantes profissionais de educação, que estão em sua casa a usar, sem compensação, o seu próprio equipamento e condições técnicas para realizar ensino à distância, que adiram ao seguinte protesto, por agora, ainda só simbólico:

  • nos dias 18 e 19 de Fevereiro, quinta e sexta feira, desligar, pelas 9.15h, durante um período de 15 minutos, o equipamento de que são donos e suspender, nesse período, a colaboração com o disfarce de falta de preparação, que tem impedido a opinião pública de perceber que o ministro Brandão mente ao dizer que tudo corre bem e tudo estava preparado.
  • Na semana seguinte apelamos a passar a 2 períodos diários de desligamento de 15 minutos, em horas diferentes, ponderando, na semana a seguir, passar a 3 períodos e, assim sucessivamente.

Apelamos a que o protesto se mantenha até o governo perceber que tem de respeitar e agradecer aos professores a sua boa vontade e colaboração, que tem ajudado a que não se perceba, em nome dos alunos, o desgoverno na educação.

Este protesto, que é simbólico, e visa evitar o custo para os alunos do desligar total, que é legal e legítimo, pelos seus donos da infraestrutura digital do ensino à distância, também serve para que a comunicação social fale de todos os problemas da Educação, de alunos e de professores, num ângulo mais realista e menos desfocado pela propaganda frenética do ministro.

O protesto deve manter-se até o governo negociar com todas as organizações sindicais, em conjunto, os problemas que preocupam os professores e que se agravam de há 15 anos para cá: questões de salário e de respeito pela carreira, condições de trabalho, horários, aposentação, concursos, tratamento dos contratados, avaliação, falta de recursos para os alunos e más condições de trabalho para os assistentes operacionais, imagem pública da classe e sua degradação pelas mentiras junto da opinião pública.

O texto completo pode ler-se no post original. Para os interessados nos aspectos legais e formais deste protesto e esclarecimento de dúvidas, os organizadores prepararam um conjunto de FAQs de leitura fácil e esclarecedora, que pode ser descarregado daqui.

Abaixo-assinado: Pelo fim das vagas para progressão aos 5.º e 7.º escalões!

Uma exigência da mais elementar justiça, tendo em conta que o actual modelo de quotas criou um duplo entrave à progressão na carreira que nalguns casos é ainda mais gravoso do que o antigo bloqueio dos professores titulares. Quando é evidente que ficar retido pelas quotas não reflecte necessariamente um desempenho profissional menos bom, mas sim as arbitrariedades de um modelo de avaliação do desempenho que está longe de promover o mérito e no qual a generalidade dos professores não se revê. E quando se sabe, também que, nas regiões autónomas, estas restrições à progressão já desapareceram.

Postal electrónico

De acordo com o Código de Trabalho, compete às entidades empregadoras públicas e privadas garantir aos trabalhadores em teletrabalho os equipamentos, incluindo a instalação e manutenção, bem como o pagamento de despesas realizadas com esta modalidade de trabalho. Acontece, no entanto, que o Governo, na qualidade de representante da entidade empregadora Estado, não respeita esta obrigação legal. Acresce que as condições para que o ensino a distância decorra com alguma normalidade, não provocando problemas ainda maiores do que aqueles que já lhe estão inerentes, não se esgotam nos recursos materiais. Por exemplo, seria necessário assegurar apoio aos docentes com filhos menores de 12 anos, o que também não acontece.

Recorda-se que, há quase um ano, o Primeiro-Ministro prometia que, no ano letivo seguinte (o que decorre),  não se repetiriam os problemas assinalados em março de 2020 com o recurso ao ensino a distância porque, em setembro, todas as escolas teriam computadores e Internet móvel de banda larga disponíveis para todos os alunos e professores. Provavelmente, aquela promessa do Governo destinava-se a sair da situação difícil em que tinha evidentes responsabilidades, mas, tendo sido feito tão pouco no sentido de honrar o compromisso, somos levados a concluir que os governantes decidiram acreditar na sorte em vez de investir no futuro.

A reivindicação é inteiramente justa e tem todo o meu apoio. Depois de vários posts onde se denunciou a falta de apoio aos professores em confinamento e a desresponsabilização do ME em garantir meios e condições adequados para trabalhar em casa, resta-me divulgar a iniciativa da Fenprof e o seu convite aos professores e educadores para que subscrevam o postal electrónico que será remetido ao Primeiro-Ministro e ao Ministro da Educação.

Não há condições, diz a Fenprof…

Da mesma forma que ontem me associei a outros professores e bloggers na exigência de condições dignas para o teletrabalho que o Governo decidiu impor aos professores portugueses, divulgo hoje posição idêntica assumida pela Fenprof.

A decisão de fechar as escolas e adoptar o ensino à distância era incontornável, e aqui a grande falha do Governo foi ter tomado a decisão tardiamente. Neste contexto difícil, os professores estarão disponíveis, tal como já anteriormente demonstraram, para dar o seu melhor, inclusivamente para fazer sacrifícios, em prol dos seus alunos e do sucesso possível das aprendizagens. Tudo faremos para que este não seja, como vaticinavam os arautos do presencialismo a todo o custo e a qualquer preço, um ano lectivo perdido. Mas esta reiterada boa vontade não é extensiva a um ME que quotidianamente desrespeita os professores, os seus direitos e a sua dignidade profissional. A um governo que se aproveita da boa fé e do profissionalismo da classe docente para se eximir às suas responsabilidades e ao cumprimento das suas obrigações.

No comunicado de ontem, a Fenprof relembra as promessas não cumpridas de equipar as escolas e de distribuir aos alunos, em especial aos mais carenciados, o equipamento informático necessário para a tão alardeada escola digital. E denuncia o falhanço, também, em garantir aos professores em teletrabalho as condições necessárias ao exercício da profissão a partir de casa. E não se trata de nada de extraordinário: apenas de reconhecer que o material de trabalho indispensável ao exercício da profissão deve ser fornecido pela entidade patronal. Exactamente o mesmo, afinal de contas, que o Governo impõe a qualquer outro empregador…

Relativamente aos docentes, o governo continua a ignorar o que a lei estabelece em relação ao teletrabalho, designadamente no que respeita às condições que terão de ser garantidas aos trabalhadores que exerçam atividade neste tipo de regime. E não pode o governo alegar desconhecimento da lei ou imprevisibilidade da situação.

A propósito, a FENPROF lembra que o Código de Trabalho (que, nesta matéria, se aplica aos docentes de escolas públicas, particulares e cooperativas), no seu artigo 166.º, n.º 1, estabelece que: “Pode exercer a atividade em regime de teletrabalho um trabalhador da empresa ou outro admitido para o efeito, mediante a celebração de contrato para prestação subordinada de teletrabalho”. O n.º 5 deste mesmo artigo refere que o contrato a celebrar deverá conter, de forma explícita, a “Propriedade dos instrumentos de trabalho bem como o responsável pela respetiva instalação e manutenção e pelo pagamento das inerentes despesas de consumo e de utilização”. Mais adiante, o n.º 1 do artigo 168.º desta lei com valor reforçado clarifica que: “Na falta de estipulação no contrato, presume-se que os instrumentos de trabalho respeitantes a tecnologias de informação e de comunicação utilizados pelo trabalhador pertencem ao empregador, que deve assegurar as respetivas instalação e manutenção e o pagamento das inerentes despesas”.

É oportuno lembrar que, ainda no ano letivo anterior, a FENPROF propôs a adoção de medidas que permitissem a compensação, nomeadamente através de tratamento fiscal, por despesas que os professores se viram obrigados a realizar para assegurarem o ensino a distância. Cabe ainda lembrar que o governo não se dispôs a dialogar sobre o assunto, tendo, por sua opção, a matéria ficado ausente do Orçamento do Estado para 2021, ainda que com o cenário previsível de novas suspensões da atividade presencial nas escolas.

Uma greve a destempo

Escolas a funcionar a “meio gás” e algumas sem aulas são consequências no Alentejo da greve de docentes que hoje decorre no país, revelou o presidente do Sindicato dos Professores da Zona Sul (SPZS)

Ainda sem dados para um balanço definitivo, percebe-se no entanto que foram fracos os números da adesão à greve nacional convocada, para o dia de hoje, pela Fenprof. Significativamente, os sindicatos não adiantam percentagens e preferem referir casos isolados de escolas fechadas, quase sempre do primeiro ciclo ou jardins de infância. A verdade é que, por muito que se diga que os professores queriam esta greve e que isso ficou expresso na consulta feita online há umas semanas atrás, essa vontade colectiva não é nada óbvia para quem frequenta a sala de professores ou os grupos de docentes nas redes sociais. E uma coisa é dizer, em jeito de desabafo, que os sindicatos deveriam convocar uma greve. Outra, bem diferente, é dispormo-nos a fazê-la.

Torna-se evidente que houve, da parte da Fenprof, pelo menos dois erros estratégicos na marcação desta greve. Um deles foi o péssimo timing escolhido: a uma semana do final do período, depois de duas semanas em que as escolas andaram, com feriados e tolerâncias de ponto, a trabalhar a meio-gás. Muitos professores sentem-se pressionados pelo tempo para concluírem matérias, actividades e avaliações e a última coisa que desejam, nesta altura, são mais paragens no trabalho escolar.

Outro erro, a meu ver mais grave, foi a marcação de uma greve sem um objectivo claro e mobilizador. Entre as motivações desta greve, o habitual caderno reivindicativo – carreira, tempo de serviço, quotas na avaliação do desempenho, regime especial de aposentação – passou para segundo plano. A reivindicação principal é a exigência básica de que o ME aceite reunir, como é próprio das regras democráticas, com os representantes sindicais. Não digo que não seja uma reivindicação justa e necessária. Pelo contrário, a existência de contactos regulares e de reuniões negociais é uma condição essencial para que os problemas da classe comecem a encontrar solução. O que me parece é que esse é um objectivo que, dizendo muito aos dirigentes que se sentam à mesa das negociações, significa muito pouco para a generalidade dos professores.

Além do sentimento generalizado de desânimo e descrença, quem tem acompanhado o desenrolar dos processos negociais dos últimos anos sabe que eles se têm assemelhado mais a um diálogo de surdos, com o ME a impor a sua vontade em tudo aquilo que considera importante e a ignorar ou adiar os inúmeros problemas, dificuldades e constrangimentos sentidos pelos professores. Neste contexto, receber os sindicatos apenas para cumprir uma mera formalidade, sem o mínimo de vontade ou boa fé negocial, seria o mesmo que chover no molhado. E, claro, não parece razão suficiente que justifique uma greve.

Perante uma greve frouxa e inconsequente, os inimigos da Fenprof – e há-os até entre os próprios professores, como se sabe – irão rejubilar. Só que este desaire, fruto da precipitação – os dirigentes sentiam necessidade de fazer alguma coisa, mas não deram com a coisa certa que haveria a fazer – acaba por ser prejudicial para os professores. A classe dá ao país uma ideia de resignação, aceitando passivamente as imposições do Governo – as que vinham de trás e as novas que, a pretexto da pandemia, recaíram sobre as escolas e os professores. Parece consensualizar-se a noção de que em tempo de guerra ao vírus não se fazem reivindicações laborais. E se devem aceitar todos os sacrifícios, mesmo aqueles que claramente não se justificam. Ora este é claramente, para os professores, um jogo perigoso, que pode contribuir para uma deterioração ainda maior das suas condições de trabalho. E pôr em causa tudo o que conseguiram, ao longo de décadas, em termos de carreira e estatuto profissional.

Mais de mil escolas com casos de covid-19

A recolha de dados que a Fenprof vem realizando já ultrapassa as mil escolas com casos positivos. Mas oficialmente continuam a ser apresentados números irrealistas do impacto da pandemia nas escolas.

Apesar da intenção várias vezes anunciada, ainda não se fazem rastreios em massa nas escolas onde existem surtos comprovados de covid-19. Falta coordenação, o que é evidente na disparidade de critérios com que se determinam testes e isolamentos profilácticos, não só de concelho para concelho ou de escola para escola, mas também perante casos semelhantes ocorridos no mesmo estabelecimento de ensino. Quanto à classe docente, provavelmente já somos, e não sabíamos, um grupo auto-imune à covid-19, pois raramente ou nunca se testam os professores que estiveram com alunos ou colegas que contraíram a doença…

Sem respostas esclarecedoras dos responsáveis, a Fenprof tenta envolver outras entidades num assunto que precisa urgentemente de ser levado a sério: a saúde e a segurança no trabalho dos professores que diariamente mantém as aulas a funcionar.

A lista de escolas em que a FENPROF já confirmou terem existido e, principalmente, estarem ativos casos de Covid-19 atingiu o milhar (1011 escolas/agrupamentos de escolas). Apesar disso, o governo continua a desvalorizar o problema e, em relação a surtos, a divulgar números cuja credibilidade é, no mínimo, muito duvidosa. 

Face a esta situação, a FENPROF decide: 

– Dirigir-se aos epidemiologistas, designadamente aos que participam nas reuniões do Infarmed, e ao Presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública, Dr. Ricardo Mexia, solicitando que se pronunciem em relação aos rastreios que, nas escolas, não são realizados, mesmo quando existem casos confirmados de Covid-19. Todas as recomendações nacionais e internacionais vão no sentido da realização do maior número possível de rastreios e ainda ontem se soube que, na sequência da infeção contraída pela Diretora-Geral da Saúde, foram testados todos os seus contactos próximos; nas escolas, por norma, quando surgem casos de infeção, aos contactos próximos, sejam alunos, professores ou trabalhadores não docentes, os testes são recusados, mesmo quando solicitados; 

– Insistir na necessidade de o Ministério da Educação divulgar a lista de escolas em que existem casos de Covid-19, o seu número, por universo, e os procedimentos adotados;

– Exigir que se cumpra a Lei n.º 35/2014, designadamente o disposto no artigo 350.º, sendo aberto um processo negocial destinado a estabelecer as condições de Segurança e Saúde nas escolas, a partir do início do segundo período letivo; 

– Requerer à  Provedoria de Justiça e à Assembleia da República que suscitem a fiscalização da constitucionalidade da norma que prevê o corte de salário a quem, por pertencer a grupo de risco, se mantenha para além de trinta dias ao abrigo do regime de proteção instituído pelo artigo 25.º-A do Decreto-Lei n.º 10-A/2020, de 13 de março, uma vez que esta situação parece violar o disposto no artigo 64.º da Constituição da República, cujo número 1 consagra que todos têm direito à proteção da saúde. Ora, não existe verdadeira proteção se, por razões de natureza económica, quem integra grupo de risco deixa de beneficiar dessa proteção ou, para a manter, fica impedido de receber qualquer remuneração, uma vez que, por norma, continua a ser negada a possibilidade de exercer atividade em teletrabalho, como acontece com a generalidade dos docentes.

Greve fechou escola em Coimbra

Com a união de esforços entre professores e funcionários, pelo menos uma escola foi ontem encerrada em consequência da greve decretada pelo STOP. Em nome do sindicato, André Pestana aproveitou a presença da comunicação social para destacar a disparidade de critérios e procedimentos com que, em diferentes escolas, se enfrenta a pandemia: algumas têm controlo de temperatura à entrada, separadores de acrílico nas salas e regras mais eficazes de distanciamento, que noutras não são aplicadas. E mesmo nas medidas de confinamento aplicadas parece não haver critérios uniformes entre as diferentes autoridades de saúde. Estando em causa a saúde pública e a segurança sanitária das comunidades escolares, é caso para exigir dos responsáveis que se organizem…

O Sindicato de Todos os Professores (STOP) defendeu esta quarta-feira que o Ministério da Educação deveria uniformizar os procedimentos a cumprir nas escolas em relação à pandemia, considerando que parece haver escolas de primeira e outras de segunda.

“Tem que haver uma uniformização dos procedimentos relativamente à pandemia, igual ou semelhante em todo o país”, afirmou o coordenador nacional do STOP, André Pestana, que falava à agência Lusa à margem de uma concentração junto à Escola Básica 2.º e 3.º ciclos Inês de Castro, em Coimbra.

O STOP convocou uma greve de docentes e não docentes para esta semana, que termina na sexta-feira, sendo que a Escola Inês de Castro fechou esta quarta-feira devido à greve.

As razões da greve prendem-se com as condições de trabalho e com a forma como está a ser tratada a pandemia nos estabelecimentos de ensino.

O direito à escola presencial

A primeira foi Anita, de 12 anos, mas por estes dias são pelo menos algumas centenas, por toda Itália. Com os seus computadores portáteis, tablets ou telefones, canetas e cadernos, a maioria senta-se no chão o mais perto possível da sua escola e ali fica, a seguir as aulas online. Na segunda-feira, milhares de estudantes e pais uniram-se ao seu protesto e organizaram manifestações em várias cidades italianas para exigir a reabertura das escolas e o regresso das aulas presenciais, ao mesmo tempo que o movimento chegava às universidades.

Eis uma realidade que seria impensável vermos há um ano atrás: alunos a exigir, em protesto silencioso mas eloquente, a reabertura das escolas encerradas, reivindicando o direito a aulas presenciais.

Apesar dos elogios que se teceram, no início do confinamento, ao ensino à distância apoiado nas novas tecnologias – houve quem falasse de uma revolução educativa imposta pelas contingências da pandemia – a verdade é que as aulas virtuais depressa mostraram as suas limitações. Que se tornam mais evidentes no caso dos alunos mais novos, dos que têm menor autonomia e dos que carecem de apoios educativos individualizados.

Entre nós, o confinamento escolar foi hipótese liminarmente descartada no arranque do novo ano lectivo. A consciência da fragilidade da solução encontrada para “salvar” o ano de 2019/2020, a incapacidade de equipar todos os alunos e professores com os dispositivos necessários ao ensino online e sobretudo a impossibilidade de manter os pais novamente em casa a tomar conta dos filhos, tudo isto ditou a opção clara pela reabertura plena das escolas – embora com os inevitáveis confinamentos parciais impostos pelo alastrar da pandemia.

No entanto, corresponder à exigência da Anita e de todos os meninos e meninas que querem e precisam da escola implica mais do que boa vontade: passa também por fazer das escolas espaços seguros para todos, para que não se transformem em novos focos de propagação da pandemia. E aqui, há que reconhecer, ficámos aquém do que se deveria ter feito…