Pai, estou farto da flexibilidade!…

rapaz-zangado.png“Até que enfim estou livre daquelas ‘oficinas’ em que levámos o ano inteiro a fazer projectos e nunca saímos do mesmo sítio… Uns trabalhavam e outros ficavam a ver. O costume… Nas apresentações ninguém se preocupava se estava bem feito ou não, se tinha sido copiado da Internet ou escrito por nós… Além disso, eu pensava que os projectos eram para fazermos coisas úteis, giras… O nome engana… ‘oficinas’… São uma seca e das grandes!”

Resolvi dar-lhe alguma atenção, mas silenciosa. Sem que eu lhe perguntasse coisa alguma, do alto dos seus onze anos, [o meu filho] não teve papas na língua: “Os professores andam aborrecidos. Toda a gente vê. Não os deixam dar as aulas como querem e não têm tempo para dar a matéria toda. Fica sempre a meio, agora com a mania das disciplinas semestrais… Eles tentam disfarçar, mas nós bem vemos o que está a acontecer. Dizem que para o ano que vem as aulas vão ser todas assim. Só projectos e trabalhos de grupo. Que raiva! Estou mesmo a ver no que vai dar… Mas nem quero pensar muito nisso. Já estou de férias. Quem me dera que as aulas normais voltassem e acabasse esta porcaria que inventaram para aí.”

Porque será que, ao contrário da retórica balofa e da argumentação capciosa dos defensores da flexibilidade curricular, o discurso deste jovem e do seu pai, que é também professor, ressoam autenticidade? Em vez da irresponsabilidade dos governantes, que mandam as escolas mudar por mudar, sem terem sequer uma ideia objectiva acerca do que se pretende e sabendo que não serão afectados pelas mudanças, os alunos empenhados e responsáveis, bem como as suas famílias, sentem a insegurança e a falta de rumo inerentes a reformas educativas feitas em cima do joelho.

Ao contrário dos políticos de turno no Ministério da Educação, que querem ganhar votos para o seu partido, poupar dinheiro às finanças públicas e impor, servindo interesses inconfessados, a agenda educativa da OCDE, os pais e os professores só devem ter uma preocupação: a qualidade das aprendizagens das crianças e jovens que têm à sua responsabilidade. E têm razão para se preocupar: os ecos que vamos tendo do que se passa nalgumas escolas que mergulharam de cabeça no experimentalismo da flexibilidade curricular não auguram, efectivamente, nada de bom.

Claro que nada disto significa a defesa de uma escola parada no tempo e avessa a toda e qualquer evolução. Não o defendo, e julgo que ninguém – professores, alunos, pais – o deseja. Mas o que se nota é que se perdeu a noção do que são as mudanças realmente necessárias: as que partem da auscultação dos reais problemas e necessidades das comunidades educativas. A escola dita do século XXI deve ser capaz de se adaptar aos desafios do mundo em que vivemos, mas sem descartar tudo que de bom existe na organização escolar, e que nos trouxe até onde nos encontramos.  O pensamento crítico de que tanto se fala não significa ir atrás de cantos de sereia, promovendo a reprodução acrítica, através da escola, de modas e modelos que lhe são impostos exteriormente. Passa, isso sim, por fornecer as bases do conhecimento sólido e estruturado que permitam aos seus alunos compreender, reflectir e, a seu tempo, transformar o mundo em que vivemos.

Não é nada fácil a missão das escolas e dos professores nos tempos que correm – e termos governantes que persistem em criar novos problemas em vez de se empenharem na busca de soluções não está a ajudar nada. Não é garantido que a escola pública ganhe esta batalha, na qual está em jogo o direito a uma educação de qualidade para todos os alunos, e não apenas para os que podem pagar as propinas de uma escola privada. Mas, se com a derrota perderemos todos, os mais desfavorecidos serão sempre os mais prejudicados. Como, no final do seu artigo de opinião, Ruy Ventura nota certeiramente…

Vítimas de teorias e práticas pedagógicas que já eram velhas há quarenta anos, porque lhes dão jeito para camuflar o insucesso que realmente existe e continuará a existir por este caminho, há escolas (e cada vez são mais) que vivem um autêntico PREC educativo, com traços de maldade e insanidade, cujas consequências plenas são ainda difíceis de alcançar. Uma delas é todavia evidente. Os alunos com bom respaldo familiar conseguirão sobreviver a tudo isto, com grande dispêndio de tempo e de dinheiro, que não há outro modo de compensar o que lhes é tirado nessas escolas públicas. Alguns, filhos de agregados mais abonados, partirão para bons colégios privados – onde a conversa é outra… Aqueles a quem falta o dinheiro ou a família ou tudo isto junto serão vítimas a médio prazo de uma escola que, assim, se demite de lutar contra as desigualdades, em benefício de uma “inclusão” que é, na realidade, exclusão social ao longo da vida.

Os colegas dos meus filhos que não fazem testes de avaliação, que se alegram por passar de ano sem trabalhar e sem melhorar o seu comportamento, que deixam de ter aulas baseadas no conhecimento sólido dos seus professores, que não são treinados para o esforço que o estudo implica e implicará sempre, que são vítimas da “flexibilidade” e da “inclusão”, poderão agora exultar com as suas famílias, alheados do que se passa, do que motiva esta “nova pedagogia” e dos seus resultados futuros. Estou certo disso, porque os vejo, os ouço e converso com alguns dos seus pais. Os efeitos futuros não serão, todavia, algo que seja bom de ver. Sem se terem habituado à exigência, ao trabalho, à atenção, à concentração e ao estudo – enganados por sereias maviosas e sorridentes que, desse modo, dizem “levar habilmente a escola rumo ao sucesso” – ver-se-ão a braços com uma violenta e frustrante desigualdade de oportunidades. E tal não é digno de um país que afirma defender a dignidade de todos os seres humanos.

Porque há professores a abandonar a profissão?

Há cada vez mais professores experientes e qualificados, que entraram para a profissão por gosto e vocação, mas acabam por desistir precocemente do ensino, desencantados com o quotidiano das escolas e as condições em que exercem a profissão.

Entre nós, este fenómeno não alcança o peso que tem noutros países: a realidade da profissão docente está muito polarizada entre, por um lado, jovens professores que não conseguem aceder à profissão ou que leccionam de forma ocasional e precária; por outro lado, docentes mais velhos que continuam a dar aulas porque o mercado laboral não lhes apresenta outras alternativas. Mas é apenas uma questão de tempo até que se manifeste, também por cá, uma tendência que parece universalizar-se.

Numa época em que a docência se tornou uma profissão pouco atractiva, em que o chamado “mal-estar docente” alastra como doença contagiosa nos mais diversos sistemas educativos, é importante tentar perceber o que se passa. Conhecer as razões que levam tantos professores, por esse mundo fora, a desistir da profissão que escolheram é um passo indispensável para entender quais são as verdadeiras reformas de que carecemos para podermos ter melhores escolas e melhor educação.

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Leia-se então o testemunho de Jessica Gentry, uma professora dos EUA que, ao fim de 12 anos dedicados ao ensino, decidiu abandonar a escola. E sublinhe-se a ideia que me parece fundamental: não foram as crianças que mudaram com o advento do mundo digital. O que mudou foi a sociedade e a relação parental. Não estamos a proteger eficazmente as crianças do impacto dessas mudanças. Em vez disso, preferimos colocar na escola e nos professores a pressão e a culpa por tudo o que não está a correr bem.

“Deixem-me que vos diga porque é que aqueles que adoram ensinar estão a abandonar a profissão como se tivessem  o cabelo a arder”, começa por dizer, enumerando depois as cinco principais razões que a incentivaram: crianças que se portam mal por falta de envolvimento parental;  o investimento das escolas em novas tecnologias em detrimento de uma aposta nas relações pessoais; a exigência de mais formação para professores; pais que agem contra os professores ao invés de apoiá-los; e a sua saúde mental e física.

A docente confessa que não foi uma decisão fácil e que teve de ir aos Recursos Humanos duas vezes até finalmente conseguir ‘virar costas’ a uma forma de ensino que não se coaduna com a sua forma de pensar.

“A velha desculpa de que as crianças mudaram. Não, não. As crianças são crianças. Os PAIS mudaram. A SOCIEDADE mudou. Estas crianças são apenas vítimas disso”, afirma.

A decadência do ensino da História

manuel-baioa.jpgA História está longe de ser uma área do conhecimento em decadência. Pelo contrário, alicerçado nas suas metodologias e finalidades próprias e mantendo um diálogo fecundo com outras ciências, nunca o saber histórico foi tão abrangente no conhecimento e na compreensão das sociedades humanas e da sua evolução ao longo dos tempos. A História continua a ser, mais do que nunca, fundamental para compreender o mundo em que vivemos e, nesse sentido, deveria ter um lugar inquestionável nos currículos escolares.

Não é essa, no entanto, a visão dos nossos iluminados reformadores curriculares, que alimentam um preconceito contra uma disciplina que desejam converter numa caricatura de si mesma, retirando-lhe tempos lectivos e aligeirando os programas. De forma a que não sobre tempo para muito mais do que a sucessão de “nomes e datas”, o conhecimento “enciclopédico” que os seus detractores dizem não ter lugar na Educação “do século XXI”. A decadência da História não é portanto um mal inerente à disciplina, que está bem e se recomenda, mas sim o resultado da desvalorização curricular que aquela tem vindo a sofrer, pelo menos, nos últimos quinze anos.

Não posso por isso deixar de divulgar e subscrever inteiramente as palavras do colega Manuel Baiôa em defesa do ensino da História. E contra o verdadeiro atentado que está a ser cometido contra a disciplina e todos aqueles que a estudam e ensinam. Que é também, em última análise, um ataque à Educação portuguesa.

Nas últimas décadas a disciplina de História tem perdido importância na correlação de forças entre as diferentes disciplinas que compõem o currículo do 3.º ciclo do ensino básico (7.º, 8.º e 9.º ano de escolaridade) e do ensino secundário (10.º, 11.º e 12.º ano de escolaridade) e tornou-se a disciplina com piores resultados nos exames nacionais do ensino secundário, tendo tido uma média de 9,42 valores em 2018.

A situação que se vive hoje é o resultado de décadas de desinvestimento no ensino da História. Em 1991, quando o atual programa de História do 3.º ciclo do ensino básico foi homologado, o currículo previa uma carga horária de três aulas semanais de 50 minutos no 7.º, 8.º e 9.º ano de escolaridade. As reformas curriculares ocorridas em 2001 e 2012 levaram a uma perda de relevância da disciplina de História, uma vez que o quadro normativo e a pouca autonomia das escolas, obrigou a reduzir a carga letiva da disciplina para sete ou oito aulas semanais no somatório dos três anos do 3.º ciclo do ensino básico. No presente ano letivo voltamos a ter uma nova reforma curricular com a introdução da disciplina de Cidadania e Desenvolvimento, entre outras mudanças. A disciplina de História voltou a perder importância, prevendo-se que, quando a reforma estiver concluída dentro de dois anos, passe a dispor de apenas seis aulas no somatório dos três anos do 3.º ciclo do ensino básico. Portanto, os alunos terão apenas duas aulas semanais de História no 7.º, 8.º e 9.º ano de escolaridade, quando no passado tinham três aulas. Para cada ano letivo há uma perda de cerca de 33 aulas, pelo que no conjunto do 3.º ciclo os alunos terão aproximadamente menos 100 aulas de História. A subalternização da História levou a que algumas escolas tivessem avançando com o experimentalismo de a transformar em disciplina semestral. Neste quadro, os professores de História poderão vir a ter 11 turmas para completar o seu horário de trabalho, tendo neste caso cerca de 300 alunos.

A desvalorização da História teve efeitos trágicos nas aprendizagens dos alunos. Com apenas duas aulas semanais não se consegue ter uma relação pedagógica profícua e dificulta o trabalho continuado para o desenvolvimento de capacidades e conhecimentos nos discentes. Passou a haver pouco tempo para a análise de fontes, textos, gráficos e mapas, para a elaboração de sínteses e para a promoção do pensamento crítico, entre outras capacidades que a História desenvolve nos alunos. A opinião pública desconhece esta situação, pois no 3.º ciclo do ensino básico não há exame de História, pelo que esta triste realidade fica confinada às paredes da escola.

O desinvestimento nesta área do saber tem o seu corolário no ensino secundário, onde nos últimos anos a disciplina de História A tem obtido alguns dos piores resultados nos exames nacionais, superando outras disciplinas tidas como grandes “papões”, como a Matemática ou a Física. Uma grande parte dos alunos que chega ao 10.º ano traz uma preparação muito deficiente ao nível da História e muitos deles ingressam no curso de Humanidades não por vocação, mas apenas como fuga à Matemática, à Física e à Química. O programa de História A do ensino secundário é exigente e inicia-se com o estudo da Grécia Antiga e termina no século XXI. Pressupõe que os alunos dominem a língua portuguesa e um conjunto de conhecimentos e capacidades de História que a maioria não possui. Por isso, muitos alunos do 10.º ano desistem, pois não conseguem acompanhar a exigência que lhes é pedida. Os restantes alunos que se mantêm na disciplina de História A até ao 12.º ano têm de realizar um intenso trabalho para recuperar os conhecimentos e capacidades que não puderam desenvolver nos anos anteriores. Para agravar este quadro negro, a reforma curricular do ensino secundário iniciada neste ano letivo retirou uma hora semanal à disciplina de História A, pelo que passou a haver menos tempo para trabalhar com os alunos.

A sociedade portuguesa tem de refletir e decidir se quer continuar a desinvestir na disciplina de História, pois a continuar por este trilho estaremos a formar certamente cidadãos acríticos e pouco informados sobre a História nacional e internacional.

A cassete da flexibilidade

  1. cassete.gifOs alunos aprendem de forma diferente a um ritmo próprio;
  2. A diferenciação pedagógica contribui para gerir a diversidade e para uma Escola onde todos aprendam;
  3. A motivação, a proximidade, os afetos são preditores de aprendizagens de qualidade;
  4. Saber escutar a “voz dos alunos, dos docentes e dos não docentes” é essencial;
  5. Promover o exercício efetivo de uma cidadania ativa e inserir a mesma no ensino disciplinar;
  6. A transversalidade e de integração de saberes e de valores, não se compadece com currículos rígidos.

Chega!… Fica apenas a introdução da prosa. Mas acrescento que é difícil encontrar, num único texto, tão grande chorrilho de banalidades e lugares-comuns erguido em torno da louvor da política educativa do actual governo.

A prosa eduquesa do director do agrupamento de Colmeias chega a ser indecorosa e a despertar vergonha alheia na forma despudorada como desbobina a propaganda governamental. Sem qualquer rigor de argumentação ou análise, sem revelar um mínimo daquele espírito crítico que agora se tornou de bom tom exigir aos alunos, a defesa da flexibilidade curricular faz-se repetindo estribilhos, indo atrás das modas e dos mitos educativos do momento. Como se fossem novas as metodologias activas e outras ideias e práticas pedagógicas com mais de cem anos e que nunca estiveram ausentes das escolas portuguesas. Como se não se tivesse já tentado anteriormente, com modestos resultados, flexibilizar o currículo.

Dir-se-ia que devem estar tocados pela graça ou pela omnisciência divinas, os mentores de uma reforma educativa na qual o director Elias não encontra um erro, uma falha, um problema, uma dificuldade. Doura a pílula de uma pseudo-reforma feita em cima do joelho, sem motivação e envolvimento dos seus agentes, sem meios e condições para uma efectiva e duradoura mudança, sem uma avaliação ou um acompanhamento sérios e independentes, que não os de quem tem algo a ganhar com o êxito da experiência – os que irão enriquecer o currículo profissional ou a carreira política com o sucesso, real ou inventado, conseguido à custa do trabalho de professores e alunos.

Por Espanha… a reforma educativa é contra os TPC

escola-finlandia– Queremos uma educação ao nível da Finlândia!
– Reduzir o número de alunos por turma?
– Não.
– Triplicar o orçamento?
– Não.
– Mais professores de apoio?
– Não.
– Eliminar os contratos de associação?
– Não.
– Potenciar a escola pública?
– Não.
– Eliminar a segregação escolar?
– Não.
– Reduzir a carga lectiva dos docentes?
– Não.
– Então?
– Menos trabalhos de casa!

Daqui.

Petição em defesa do ensino da História

A reorganização dos currículos em curso tem sido, no caso da disciplina de História, um verdadeiro emagrecimento curricular: com a aplicação, mais ou menos flexível, das novas matrizes, a disciplina tende invariavelmente a perder tempos lectivos em vários anos de escolaridade. Uma realidade que o ME não assume, mas acaba por admitir quando sugere a leccionação da disciplina em blocos semestrais.

Não me parece que esta desvalorização curricular do conhecimento histórico seja acidental. Há uma intencionalidade óbvia, um propósito claro e, obviamente, pessoas responsáveis. Desde logo, o secretário de Estado da Educação que tem dirigido a pseudo-reforma educativa em curso e o ministro que, embora pareça andar a leste de tudo o que se faz e decide no ME, continua a ser o último responsável pelo ministério que dirige. E cúmplices evidentes, onde terei de incluir, lamentavelmente, a associação que supostamente representa os professores de História.

Há uns meses, critiquei o colaboracionismo da APH numa política que desde o primeiro momento visou menorizar a História e substituir o pensamento estruturado, crítico e fundamentado que a disciplina promove pelas vacuidades sem substância das diversas “educações para a cidadania”. Não mudei de opinião, mas o quadro negro que hoje se desenha para o futuro do ensino da História nas escolas portuguesas justifica que todos os esforços se unam no sentido de denunciar a situação e procurar o apoio de todos os que possam e queiram ajudar-nos a salvar a disciplina. É por isso que assinei e divulgo o abaixo-assinado promovido pela APH, apelando também à sua assinatura por todos os interessados.

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…Não chega afirmar que o Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória assenta numa base humanista. É necessário concretizá-lo. Tendo em conta as caraterísticas da construção do saber histórico – o desenvolvimento de valores ligados ao pensamento democrático, à estruturação do pensamento, ao desenvolvimento das capacidades de análise, de síntese e de crítica –, que podem e devem ser potenciados pela oportunidade que constituem as AE e o modelo de ensino que lhes está associado, parece uma contradição a diminuição efetiva da carga horária da disciplina que se está a verificar, efetivamente, em muitas escolas.

Os agentes educativos abaixo-assinados vêm, respeitosamente, solicitar que Vossa Excelência se digne a ter em consideração a petição acima descrita, enquadrada pela necessidade de desenvolvimento de boas práticas educativas e de cidadania, na aplicação das Aprendizagens Essenciais e da política educativa que as contextualiza.

A flexibilidade vai chegar às universidades

flexibilidadeSegundo a secretária de Estado, para que o ensino superior se inove é preciso “diversificar as portas de entrada”, para que cada vez mais alunos com o ensino secundário concluído acedam às universidades e aos institutos politécnicos. Além disso, sustentou Mariana Vieira da Silva, cada aluno deve poder “desenhar o seu percurso” académico, o que implica um outro desafio, o da “flexibilização de currículos”.

Depois de ter assumido a flexibilização dos currículos e das aprendizagens como estratégia fulcral para garantir o sucesso universal e obrigatório no ensino não superior, o Governo parece querer convencer as universidades e os politécnicos de que a chave para a melhoria do sucesso académico não passa, afinal, por mais empenhamento dos estudantes ou melhores práticas pedagógicas dos professores. Pelo contrário: em vez de se ensinar os alunos a superar dificuldades, aposta-se em remover-lhes os obstáculos do caminho, permitindo que cada um construa o seu percurso individualizado de sucesso.

Admito que possa estar a ver mal a coisa – a minha experiência universitária restringe-se à condição de estudante e concluiu-se há mais de 30 anos, pelo que me falta conhecimento “por dentro” da realidade actual do ensino superior – mas parece-me errada esta concepção flexibilizadora que agora se pretende impor.

Em boa verdade, alguém vá para um curso superior fazer apenas as cadeiras de que gosta ou, dentro destas, escolher as matérias e as aprendizagens mais do seu agrado, será que está efectivamente a aprender? A experiência universitária não deve passar também por sair da zona de conforto e estudar aquelas coisas que, embora possam ser mais difíceis ou menos sedutoras, são indispensáveis ao exercício autónomo e qualificado de uma profissão? Será possível ser-se um profissional ou um especialista em qualquer área assumindo apenas as partes agradáveis e rejeitando os “ossos do ofício”?

Faz sentido um estudante de Medicina recusar, por exemplo, as actividades onde tenha de ver sangue ou lidar com doentes? Ou um professor dizer que adora ensinar, mas que não quer ter de avaliar os seus alunos? Será aceitável ter um engenheiro que faça projectos sem realizar os cálculos necessários, porque não lhe agrada ou não sabe fazer essa tarefa?

Claro que me podem dizer que estou a exagerar. Que a flexibilidade é outra coisa. Podem até acrescentar, como já fazem em relação ao básico e ao secundário, que o novo sistema será até mais, e não menos, exigente. Acredita quem quiser. Mas seria importante que estes assuntos fossem publicamente debatidos. Conhecermos opiniões isentas e informadas do interior das academias, em vez de ouvirmos apenas as frases feitas proferidas pelos bonzos do costume.

Finalmente, a criatividade, outro mantra omnipresente nas não-tão-novas pedagogias. Dizem-nos que a universidade a promove pouco, e que os jovens acabam por encontrar ambientes mais criativos nas empresas, quando começam a trabalhar, do que nas faculdades. Sem negar a necessidade de, mais numas áreas do que noutras, estimular o espírito criativo e a iniciativa dos estudantes, noto que não se cria a partir do nada, muito menos ignorando ou desprezando o que outros fizeram antes de nós. O apelo à criatividade não deve substituir, antes complementar, a aquisição de conhecimento estruturado. E, sobre a criatividade, convém ter presente a velha máxima do sempre criativo Thomas Edison: ela exige 99% de transpiração e apenas 1% de inspiração…