ME faz a descoberta do ano: alunos aprendem melhor com professores!

Os alunos que durante o ensino ‘online’ mantiveram um maior contacto com os professores foram os menos prejudicados pela pandemia de Covid-19, revela o diagnóstico das aprendizagens que confirma a importância dos docentes mesmo à distância.

Esta é uma das principais conclusões do segundo relatório do estudo diagnóstico realizado em janeiro pelo Instituto de Avaliação Educativa (IAVE) divulgado esta segunda-feira e que tinha como objetivo avaliar o impacto da suspensão das atividades presenciais nas escolas em 2020 devido à pandemia.

O estudo, que envolveu mais de 23 mil alunos do 3.º, 6.º e 9.º anos, procurou perceber o estado das aprendizagens em três áreas: literacia matemática; literacia científica e literacia de leitura e informação.

“Nada substitui o papel do professor e o que este estudo nos mostra é que, mesmo em contexto de ensino à distância, a presença do professor em interação direta com os alunos é muito melhor para as aprendizagens“, sublinhou o secretário de Estado e Adjunto da Educação na sessão de apresentação do relatório.

Segundo os resultados do estudo de diagnóstico, os alunos que tiveram aulas síncronas ‘online’ conseguiram melhores desempenhos nas três áreas avaliadas.

“Isto volta a reforçar o reconhecimento que todos temos de ter do papel que os professores desempenham e não endeusarmos máquinas que nunca vão substituir o papel dos professores”, defendeu João Costa.

Depois do enaltecimento do trabalho dos professores, que se saúda, embora mais não seja do que o reconhecimento de uma evidência, o secretário de Estado da Educação, acolitado pelo presidente do IAVE, voltou a uma ideia que lhe é cara, mas também já não é nova: a pandemia prejudicou as aprendizagens de todos os alunos, no entanto foram os mais carenciados, seja em equipamentos para o ensino à distância, seja em apoio familiar, os que sofreram maiores prejuízos.

O estudo agora divulgado pretende quantificar as aprendizagens perdidas pelos alunos que beneficiam da acção social escolar comparativamente com os restantes. E mostra que aprenderam menos, o que, para os professores no terreno, também não é notícia: já assim sucedia antes da pandemia.

O que aí vem também não surpreende: os professores são exortados a trabalhar os dados do estudo de diagnóstico e as dificuldades evidenciadas pelos alunos no sentido de as superar. Mas fica a dúvida habitual: será que sem o estudo do IAVE os professores não seriam capazes de perceber o que é que os alunos não sabem? É um estudo feito com uma amostra de alunos de todo o país que nos vai indicar o que devemos fazer em concreto com cada uma das nossas turmas e dos nossos alunos?

Assumindo os professores, como sempre fizeram, a sua parte, espera-se que também o Governo comece a fazer o que lhe compete: assumir que o combate pelo sucesso escolar pleno e pela igualdade de oportunidades no acesso à Educação não se faz só nas escolas. Se persistentemente se identificam factores extra-escolares que condicionam o insucesso, está mais do que na altura de desenvolver políticas económicas e sociais que atenuem ou corrijam esses desequilíbrios e desigualdades. Ou, enquanto essas assimetrias persistirem, instituir apoios directos aos alunos e às famílias em risco.

Limitar-se a mandar os outros fazer coisas é muito pouco para um Governo que continua, apesar das propaladas autonomias e descentralizações, a controlar ferreamente o orçamento da Educação.

O (pl)ano da recuperação

As aulas arrancam daqui a uma semana, com início previsto entre 14 e 17 de setembro, e a Direção-Geral da Saúde (DGS) reviu as diretrizes para as escolas no âmbito das medidas de combate à pandemia de covid-19. Mas é na dimensão das turmas, que não foi revista, que os professores veem um dos grandes entraves ao controlo da disseminação do coronavírus e ao ensino, quando há muito para recuperar. Já João Costa, secretário de Estado Adjunto e da Educação, garante que a recuperação das aprendizagens será garantida por meio do Plano 21|23 Escola+.

Bem pode João Costa defender o seu plano infalível para recuperar aprendizagens, construído com os peritos do costume e o eduquês habitual. Aposta-se na prosa, extensa e retumbante, mas a verdade é que as medidas reconhecidamente eficazes para superar as dificuldades, como a redução do tamanho das turmas, o fim das turmas multinível no primeiro ciclo ou a contratação de mais profissionais – professores, psicólogos, terapeutas – foram, sem surpresa, excluídas do plano ou reduzidas a uma expressão quase simbólica.

Adiada continua a ser uma política séria de investimento nos profissionais de Educação, indiscutivelmente os maiores activos das escolas. Continuamos com quadros de pessoal desajustados das necessidades, com uma política de contratações que não promove a estabilidade nem permite a fixação de profissionais que são fundamentais numa escola que se quer universal e inclusiva. Fala-se muito da dificuldade em contratar docentes para substituições temporárias em certas zonas do país mas referem-se pouco as carências existentes, por exemplo, ao nível de terapeutas da fala. Estes e outros técnicos especializados deveriam ter um lugar permanente nas escolas, não estando a sua contratação dependente de programas ministeriais limitados no tempo ou das disponibilidades, muitas vezes insuficientes, dos centros de recursos para a inclusão.

Em vez de enfrentar e resolver os problemas e bloqueios estruturais do sistema educativo, a equipa do ministro-de-facto João Costa prefere o ilusionismo político e os exercícios de demagogia. Seguíssemos nós os seus conselhos e iríamos continuar a “ouvir vozes” dos alunos, a brincar a aprender e a substituir aprendizagens efectivas por improvisadas terapias de grupo. Contudo, os professores são responsáveis e assumem o seu compromisso profissional com as necessidades dos seus alunos, não com os lirismos e oportunismos dos governantes. Pelo que é de esperar, se novas paragens e confinamentos não vierem atrapalhar novamente o desenvolvimento do ano lectivo, que as aprendizagens perdidas ou comprometidas acabem, a seu tempo, por ser recuperadas. Apesar da burocracia inútil que o ministério inventa, não por causa dela.

1,6 mil milhões para a Educação – mas falta o resto…

“Apesar de qualquer esforço, os dias e meses que se perderam com o ensino presencial foram muito prejudiciais para o desenvolvimento das crianças e do seu processo  de aprendizagem”, começou por referir António Costa durante o seu discurso de encerramento no 23º Congresso do PS, em Portimão.

Face a estas dificuldades no ensino geradas pela pandemia, o secretário-geral dos Socialistas, agora reeleito,  e primeiro-ministro prometeu que o próximo objetivo do Governo passa por executar “um programa de recuperação das aprendizagens”, onde vão ser investidos 900 milhões de euros, tanto no “reforço da flexibilidade e autonomia dos processo de tutoria” como também no reforço de “técnicos especializados no apoio à recuperação de todas as crianças e jovens” prejudicados pelo ensino à distância.

Elegidos como prioridade no Programa de Recuperação e Resiliência, diz António Costa, estão a modernização das escolas profissionais e docentes. “Os que ficaram para trás na recuperação das escolas vão ter a resposta”: 750 milhões de euros que vão ser investidos na “modernização das instalações, na aquisição de novos equipamentos, qualificação de professores e técnicos.

“O ensino profissional tem que ser um de primeira qualidade”, reforça.

À falta de melhores ideias, António Costa engatilha uma vez mais o discurso dos milhões que serão vertidos no sector da Educação. Mas não é sequer preciso ser muito perspicaz para perceber que quando o “investimento” se faz em torno de negociatas de “equipamentos” e “formações”, pouco dinheiro chegará efectivamente às escolas, para ser gasto onde verdadeiramente faz falta: no apoio directo aos alunos “prejudicados” pelo ensino à distância.

Em concreto, continuamos com turmas “normais” de 28 alunos e turmas com alunos que justificam redução a funcionar “em desconformidade”, pois nem as medidas preventivas da pandemia nem as alardeadas necessidades de reforçar o apoio aos alunos justificaram, até agora, qualquer redução do tamanho das turmas. Quanto a professores de apoio, psicólogos, terapeutas e outros profissionais especializados de que as escolas se encontram carentes, o que temos são medidas pontuais e avulsas que vão permitindo uma ou outra contratação temporária aqui ou ali.

Um novo ano lectivo sem novidades, mas com muitas apreensões para quem se preocupa com os seus alunos e o futuro da Educação – eis o que se antevê…

PCP critica o plano de recuperação do Governo

O que é preciso para recuperar aprendizagens e melhorar o acompanhamento dos alunos, tornar as aulas mais interessantes e produtivas e dar apoio efectivo aos alunos com dificuldades?

Será aumentando ainda mais a burocracia escolar, colocando os professores a preencher plataformas e papéis, ou libertando o seu tempo para se poderem dedicar inteiramente ao trabalho com os alunos?

Polvilhar o horário de cada turma com meia dúzia de coadjuvâncias, ou reduzir o tamanho das turmas, de forma a que todos os professores possam dar mais atenção e apoio aos alunos que precisem?

Apoios especializados ao nível da psicologia, terapias e educação especial para os alunos com maiores comprometimentos, ou apoios generalistas que são apenas mais do mesmo?

O PCP identifica bem o caminho certo para o pós-pandemia educativo: turmas reduzidas, mais profissionais nas escolas, flexibilidade não para andar a brincar aos currículos e às avaliações, mas para gerir créditos horários que permitam responder às necessidades dos alunos e da organização das escolas.

Principal muleta de suporte a um governo cada vez mais isolado e fechado em si mesmo, esperemos que o PCP saiba impor, mais do que exigir, melhores soluções governativas para a Educação portuguesa.

Em relação ao Plano de Recuperação de Aprendizagens para o próximo ano lectivo apresentado pelo Governo no início de Julho, Jorge Pires criticou “um plano de intenções, pouco desenvolvido e de objectivos pouco claros”, que, acusa, foi “elaborado à revelia de quem tem o conhecimento real da situação”.

“Ainda que, após a sua apresentação, o Ministério da Educação tivesse promovido uma aparente audição das organizações representativas da comunidade educativa, ela não levou o Ministério a alterar o projecto que elaborara, ficando por responder às muitas questões levantadas por organizações sindicais, associações de dirigentes escolares ou pelo movimento associativo de pais”, lamentou. Outra das críticas é o facto de, dos 900 milhões anunciados pelo Governo para dois anos, “apenas 140 milhões são dirigidos aos trabalhadores o que é manifestamente pouco”.

Entre as medidas que o PCP exige agora ao executivo socialista na área da educação está a redução do número de alunos por turma, a flexibilização da organização das turmas e o “reforço efectivo de horas atribuídas às escolas para o desenvolvimento de tutorias e mentorias”.

Reforçar os “meios destinados a uma educação verdadeiramente inclusiva” e criar “equipas multidisciplinares específicas ou reforço significativo das existentes para que articulem os Planos de Recuperação” é outro dos pedidos.

Leituras para férias

A generalidade dos docentes não entrou ainda em férias, mas o ME, sempre a pensar em nós, já preparou um conjunto de leituras eduquesas para animar o Verão.

Leituras que pessoalmente não recomendo, desde logo pela consideração e estima que me merecem os leitores, mas ainda assim ficam os links que demonstram o particular talento da equipa dirigida pelo SE Costa em transformar qualquer ideia válida no domínio da Educação – neste caso, a recuperação de aprendizagens afectadas pela pandemia – num monte de burocracia estéril e de eduquês pedante, repetitivo e passado de validade. Para não lhe chamar coisa pior.

Ainda assim, a quem quiser ter uma amostra da fraca qualidade e da irrelevância destes roteiros – o que não impede que não nos venham massacrar com eles lá para Setembro – recomendo em alternativa dois inspirados e bem humorados posts do Paulo Guinote, aqui e aqui.

ROTEIRO – SEMESTRALIZAÇÃO DO CALENDÁRIO ESCOLAR

Calendário escolar (Eixo: Ensinar e Aprender / Domínio: 1.2. + Autonomia Curricular)

ROTEIRO – PROMOÇÃO DE ABORDAGENS CURRICULARES INTERDISCIPLINARES

Aprender Integrando (Eixo: Ensinar e Aprender / Domínio: 1.2. + Autonomia Curricular)

ROTEIRO – AVANÇAR RECUPERANDO

Avançar recuperando (Eixo: Ensinar e Aprender / Domínio: 1.2. + Autonomia Curricular)

ROTEIROS DE ORGANIZAÇÃO DE EQUIPAS EDUCATIVAS

Constituição de equipas educativas (Eixo: Ensinar e Aprender / Domínio: 1.2. + Autonomia Curricular)

ROTEIROS DE ORGANIZAÇÃO DE TURMAS DINÂMICAS

Turmas dinâmicas (Eixo: Ensinar e Aprender / Domínio: 1.2. + Autonomia Curricular)

ROTEIRO – COMEÇAR UM CICLO

Começar um ciclo (Eixo: Ensinar e Aprender / Domínio: 1.2. + Autonomia Curricular)

Uma reunião cheia de nada

Decorreram hoje as reuniões entre o ME e os sindicatos de professores a propósito do Plano 21|23 Escola+, dedicado à recuperação de aprendizagens supostamente afectadas pela pandemia. Os secretários de Estado João Costa e Inês Ramirez ouviram as posições críticas da parte da Fenprof e da FNE. Mas é o STOP que nos apresenta um relato mais extenso e circunstanciado do encontro com a equipa ministerial.

Neste plano, refere-se que nos últimos anos contrataram-se de forma, sem precedentes, milhares de Profissionais de Educação (pessoal docente e não docente), mas curiosamente não se informa quantos profissionais nesse mesmo período se reformaram ou estão de baixa e, ainda, qual a idade média dos professores que vincularam (ou que há muitos milhares que já ultrapassaram os 10 anos de trabalho precário e, assim, continuarão).

Mas sobretudo este mesmo plano não tem uma única referência ou proposta para inverter as condições de exaustão, desmotivação e de envelhecimento – sem precedentes – em que se encontram os Profissionais de Educação!

Supostamente reconhece-se que os Profissionais são essenciais para o funcionamento regular das escolas e da recuperação das aprendizagens, mas, na prática, o ME continua – totalmente – indiferente com os muitos milhares à beira de burnout, deprimidos, exaustos e desmotivados (cujos estudos/pesquisas demonstrativos são sobejamente conhecidos). Algo particularmente grave quando é reconhecido que a classe docente em Portugal é das mais envelhecidas da Europa e mais uma vez, neste plano, não há qualquer proposta para rejuvenescer a classe.

Além do ME não responder aos problemas incontornáveis de envelhecimento, exaustão e desmotivação, este Plano, na prática, levará a sobrecarregar ainda, com mais trabalho – sobretudo burocrático – os docentes e as direções escolares. […]

Os professores estão cada vez mais sobrecarregados de papeladas/burocracia e, cada vez, têm menos tempo para os alunos, para preparar aulas inovadoras, para pesquisar (por exemplo, os vários “materiais…bancos…recursos…bibliotecas” galvanizados neste plano), etc. E o que o ME apresenta com este plano é, na prática, ainda mais trabalho com papeladas/dados, evidências e formações em horário pós-laboral, com questionável interesse efetivo para as aprendizagens dos nossos alunos…

Não podemos tolerar a forma como Ministério tem gerido os seus recursos humanos que são indispensáveis para a melhoria das aprendizagens, levando a que cada vez mais Profissionais da Educação fiquem para trás, exaustos, desmotivados ou mesmo de baixa……(”mas ironicamente afirma-se no Plano, na página 4 que “ninguém fica para trás. Isto já acontecia antes da pandemia, com esta agravou-se e este plano infelizmente não vai no sentido correto. Não raras vezes mais é, na verdade, menos.

Novamente com este tipo de plano reforça-se os erros do passado, priorizando os meios materiais (equipamentos e infraestruturas), mas não os recursos humanos.  A persistência neste tipo de erro leva-nos a questionar se, alguém do ME, conhece ou está efetivamente preocupado com o trabalho quotidiano de uma escola normal?! Algo bem diferente do que ir pontualmente a uma escola discursar cenários generalizados.

Perante reivindicações justas e muito concretas dos professores, como a redução do tamanho das turmas, o fim das turmas multinível no 1.º ciclo, a consideração de todo o trabalho com alunos na componente lectiva dos docentes e a contratação de mais profissionais – docentes, psicólogos, terapeutas, auxiliares – para as escolas, nem uma palavra dos responsáveis. Ou então o habitual chutar para canto, respondendo a alhos com bugalhos ou recorrendo à sonsice que já se tornou imagem de marca do SE Costa. Por detrás do palavrório oco em torno de autonomias, flexibilidades e inclusões, revelam-se tanto o desconhecimento da realidade educativa como a falta de ambição da política educativa deste governo. E um paradoxo bem sublinhado pelos dirigentes do STOP: este é o governo que, exigindo cada vez menos dos alunos – cidadãos cultos, informados e dotados de espírito crítico serão sempre mais difíceis de manipular – não pára de aumentar as exigências sobre os professores.

Pelo relato do STOP, ficamos a saber que o Governo pretende continuar com a redução do número de alunos por turma até aos números pré-troika – ou seja, passar as turmas de 30 para um máximo de 28! E para que cada professor tenha menos alunos a solução será “maximizar a possibilidade de um mesmo professor assegurar, na mesma turma, mais do que uma disciplina”. Acham que o actual rácio de professor/alunos já é o melhor de sempre, pelo que aparentemente nada querem mudar aqui.

Sobre contratações e vinculações, o ME continua a esgrimir com números aparentemente favoráveis. Só que continua a omitir que a grande maioria destes profissionais vêm apenas substituir os que se aposentaram ou entraram em baixas prolongadas nos últimos anos. De resto, continua o discurso hipócrita e manipulador de quem atira a pedra e esconde a mão e a eterna converseta da autonomia, um presente envenenado que transfere para as escolas a gestão das carências do sistema, enquanto o ME continua a controlar e a condicionar fortemente o trabalho dos professores…

A finalizar o Secretário de Estado João Costa reforçou a ideia que este plano pretende dar mais autonomia às escolas, sem terem que pedir autorização ao ME. Sobre o prolongamento do ano letivo (e redução inerente das pausas letivas) afirmou que estão a avaliar a eficácia dessas medidas, mas não concorda com prolongamentos artificiais do ano letivo. Sobre a questão deste plano trazer ainda mais trabalho burocrático para os professores, disse que a ideia é que esse trabalho burocrático extra seja para o ME (e não para as escolas). Na generalidade disse que “nada no plano é impositivo”, mas apenas um “buffet de possibilidades” para as escolas poderem optar. Por último, chegou a afirmar que vários elementos do governo estarão surpreendidos pela Educação estar a conseguir tanto dinheiro.

O plano de recuperação mais importante

aqui contei como a redução do número de alunos por turma e a adopção de modalidades de ensino semi-presencial deram a muitos professores espanhóis a possibilidade de experimentar a possibilidade de trabalhar, não com as habituais turmas de 30 alunos, mas com grupos bem mais reduzidos. Mesmo com as contingências da pandemia, o ensino mais individualizado e ajustado às características específicas dos alunos e das turmas conduziu a uma melhoria efectiva da qualidade do ensino e do sucesso dos alunos. E isto não foi nenhum guru ou especialista em Educação que descobriu. Foi uma constatação empírica dos próprios professores.

São esses professores que agora se entrincheiram contra o regresso das turmas numerosas no próximo ano lectivo. Um exemplo que merece ser conhecido e divulgado, pois todos os bonzos que por cá opinam com regularidade sobre Educação fogem como o diabo da cruz quando o tema é a necessidade de reduzir o tamanho das turmas. Mas também nisso não são originais. Limitam-se a seguir a agenda das OCDEs e multinacionais da Educação, que preferem promover alguns professores do ano escolhidos a dedo a criar condições de verdadeiro sucesso educativo para todos os alunos.

A este respeito, leia-se o que escrevia ontem, numa série de tweets inspirados, o nosso colega Samuel Paty

Este ano constatou-se pela primeira vez de uma forma objectiva e fiável, com dados e empirismo, que a redução do rácio professor/alunos melhora a qualidade do ensino. Centenas de milhares de professores e milhões de estudantes certificam-no. Pois bem, amanhã os gurus aparecerão nos meios de comunicação social a dizer que isto não tem influência.

E o problema não é que eles falem ou sejam sequer ouvidos. O problema é que esta gente está em todo o lado onde se decidem as leis educativas e o nosso futuro. Por isso a crítica furiosa e a necessidade de nos entrincheirarmos.

Não é normal que no debate educativo no Congresso houvesse 300 “especialistas” para falar e apenas dois deles fossem professores que diariamente põem os pés numa sala de aula da primária ou secundária real. Não é normal nem é lógico.

Nem tão pouco é normal que em cada artigo, reportagem, entrevista ou menção nos meios de comunicação social sejam sempre os mesmos professores universitários, gurus, xamãs e outros que só sabem citar-se uns aos outros e cujos estudos são apenas recortes de artigos com dados soltos reunidos ao acaso.

É mau que opinem? Não. Como não o é para pais, mães, associações, inspectores… MAS desde logo a proporção na opinião pública deve ser de 1 para 10 no mínimo. Para cada pessoa fora da sala de aula, deveria haver dez professores que passam 6 horas por dia com 30 alunos.

Quantos de vós puseram os pés numa verdadeira sala de aula durante pelo menos um ano? Nenhum? Bem, de 30 de vós, apenas 2, no máximo, têm espaço para dar a vossa opinião. Ou tiram à sorte ou decidem pela meritocracia. Aí já não me meto. Mas depois de dar voz a esses dois, pergunta-se a 20 docentes reais.

Dito isto, recordem. Apenas duas coisas fazem falta para melhorar a educação no nosso país:

– Rácios professor/aluno mais baixos, especialmente em zonas deprimidas e meios socioeconómicos baixos.

Eliminar todos os elementos segregadores, misturando ricos e pobres.

O resto é fumo.

CNE dá parecer sobre a recuperação de aprendizagens

O documento, que não encontrei online, parece trazer consigo algumas ideias válidas, como a redução da burocracia, a atenção especial aos alunos mais novos, indiscutivelmente os que terão sido mais afectados pela paragem forçada das aulas presenciais. Mas nota-se que as boas intenções de quem o redigiu e aprovou se deixam contaminar facilmente pelos preconceitos eduqueses, algo que é típico numa instituição dominada por académicos e tecnocratas que desconhecem a realidade concreta das escolas.

Quando seria precisa abertura de espírito e um pouco do tal pensamento crítico tantas vezes invocado pelos catedráticos da pedagogia, o que se vê é a incapacidade de pensar fora da caixa. E lá surgem os clichés do “mais do mesmo”, da flexibilidade curricular como virtude, quando na maioria dos casos é apenas complicação, do “treino e memorização” encarados como inutilidades e perdas de tempo, quando na verdade são elementos fundamentais e estruturantes do conhecimento e do desenvolvimento de competências.

Por causa dos efeitos da pandemia e dos confinamentos, o Conselho Nacional de Educação (CNE) pede às escolas “especial atenção” com os alunos que irão chegar ao 3.º ano de escolaridade e defende a reorganização do ensino secundário, reduzindo o peso dos exames nacionais no acesso ao superior, evitando aprendizagens baseadas quase exclusivamente “no treino e na memorização”.

O órgão independente consultivo do Estado para questões de educação, escolhido pela Assembleia da República, diz que para o próximo ano letivo as escolas devem identificar as “aprendizagens estruturantes que não foram adquiridas ou consolidadas pelos alunos e que se definam estratégias para obviar as situações mais graves, de preferência sem recorrer a ‘mais do mesmo'”, evitando o aumento das horas letivas e “estratégias pedagógicas fomentadoras da passividade dos alunos”.

Além de ter “especial cuidado com os alunos que estiveram afastados da escola na sua versão digital” ou com os que “sofreram maiores dificuldades”, o CNE pede “especial atenção aos alunos que irão frequentar em 2021/2022 o 3.º ano de escolaridade, ano charneira no seu percurso escolar, em particular quanto às aprendizagens inerentes à literacia da leitura, da escrita e da oralidade, já que foram fortemente afetados nos dois primeiros anos de escolaridade”.

O CNE pede ainda que a educação no pós-pandemia aposte numa “cultura participativa, sem a ideia de policiamento do trabalho na escola e sem agudizar o trabalho burocrático dos professores, que deverão em vez disso ter agora mais tempo para a sua primordial e complexa tarefa educativa”.

Na gestão do currículo, a proposta é que “se use a flexibilidade curricular para reforçar conhecimentos, capacidades e atitudes identificados como menos apreendidos e consolidados em anos letivos anteriores”, sendo referido, em concreto, o caso do ensino secundário.

O CNE recomenda ao Ministério da Educação que “estude a reorganização do ensino secundário de forma a manter o 10.º ano mais livre e transversal aos diferentes percursos de conclusão do ensino obrigatório, relegando para os 11.º e 12.º anos a escolha das vias de conclusão e acesso ao ensino superior, podendo também, nestes anos, haver flexibilidade e permeabilidade entre os diversos desenhos curriculares e recurso à modalidade de ensino híbrido (remoto e presencial)”.

É, aliás, proposto que se reveja o regime de acesso ao ensino superior, sendo retomada uma proposta do CNE de 2020 que defende mudanças profundas, nomeadamente reduzindo o peso dos exames nacionais do ensino secundário na seriação dos candidatos ao superior.

A recomendação agora concluída pelo CNE pede que se evitem, no secundário, “práticas letivas e de aprendizagem baseadas, quase exclusivamente, no treino e na memorização”, com o objetivo de ter boas notas nos exames nacionais e chegar ao ensino superior.

Menos alunos por turma!

Na discussão pública sobre a Educação pós-pandemia, o ME e os seus agentes na comunicação social e junto das escolas tentam condicionar o debate em torno de um conjunto de falsos problemas e soluções de conveniência. Isto faz-se com um objectivo claro, que é impedir que se discutam os verdadeiros problemas, bloqueios e necessidades do sistema educativo, que transcendem em muito as “aprendizagens perdidas” devido aos confinamentos.

Um olhar para a vizinha Espanha permite-nos perceber melhor uma questão que por lá agita as escolas e os professores, mas entre nós tem escasso acolhimento. As turmas numerosas, em torno dos 30 ou mais alunos, eram uma realidade comum antes da pandemia. Mas a necessidade de reduzir a ocupação das salas de aula para garantir maior distanciamento levou as autoridades educativas a permitir o desdobramento ou a reconstituição das turmas, criando-se grupos mais pequenos. O que obrigou, naturalmente, à contratação de mais professores.

Passada a fase aguda da pandemia, quando o lento desconfinamento e os progressos da vacinação deixam antever, para o próximo ano lectivo, o regresso à normalidade possível, é tempo de apertar os cordões à bolsa: anuncia-se que em 2021/22 as turmas voltarão à sua dimensão normal e muitos dos professores entretanto contratados irão ser dispensados.

O problema é que, trabalhando com turmas mais pequenas, os professores espanhóis perceberam algo de essencial na sua profissão, que nem ministros, gurus educativos, OCDEs e multinacionais da Educação gostam de admitir: a verdadeira mudança educativa não está no aumento da burocracia escolar em torno de mais planos e projectos; não está em truques avaliativos ou na simulação de uma escola “inclusiva”. O segredo do sucesso está na criação de grupos-turma reduzidos, em torno dos 20 alunos, com os quais professores experientes conseguem trabalhar muito mais eficazmente, aplicando todas as “diferenciações” e “individualizações” que a cartilha eduquesa se digne inventar.

Fartos de eduqueses e de teorias e burocracias da treta, os nossos colegas espanhóis rejeitam as palavras doces dos políticos: não precisam que os queiram mais, preferem que lhes queiram melhor. Experimentaram a mais importante medida para tornar as aulas estimulantes e produtivas, dar atenção a todos os alunos, diversificar estratégias e metodologias e obter, no fim, verdadeiro sucesso educativo. E não querem outra coisa. O movimento #BajadLasRatios ganha, no Twitter, dimensão de reivindicação nacional da classe docente espanhola.

Por cá, estará na hora de acordar, ou vamos continuar a alimentar a converseta das “aprendizagens perdidas”, do “ouvir a voz dos alunos” e de “mais autonomia”? A aceitar dose reforçada de flexibilidade&inclusão e a insistir nas receitas que já antes da pandemia evidenciavam as suas limitações e o seu fracasso?…

Serviço sujo em nome da pandemia

A crónica semanal de Santana Castilho, assim intitulada, é desta vez dedicada ao plano de recuperação de aprendizagens apresentado, com pompa e circunstância, pelo primeiro-ministro e pelo ministro da Educação.

Oportunamente, SC nota que os 900 milhões de euros não irão resolver nenhum dos problemas estruturais da Educação portuguesa, nem tão pouco darão resposta efectiva aos danos mais sérios e persistentes causados pela pandemia. Do que aqui se trata é de aproveitar a situação para insistir numa política educativa feita de flexibilidades e facilitismos, de inclusões fictícias e burocracias galopantes. Insistindo-se numa “formação de professores” que será mais do mesmo, feita pelos mesmos de sempre, em vez de se apostar no fundamental: melhorar as condições em que se ensina e aprende nas escolas.

É este o serviço sujo que o ME se prepara para fazer com o pomposo plano de recuperação: substituir as medidas realmente importantes e estruturantes para a recuperação e a melhoria das aprendizagens dos alunos por um programa que é, fundamentalmente, um plano de compra de material informático.

O que se retira de toda esta narrativa enganadora é a inexistência de medidas para combater os problemas de sempre, agravados agora. Nenhuma referência para a redução do número de alunos por turma, a medida que mais sentido faria para responder às dificuldades e particularidades de cada aluno e melhorar as suas aprendizagens. Nenhuma intenção eficaz para prevenir a prevalência da indisciplina, fenómeno que mais impede o trabalho em sala de aula. Nem um ténue reconhecimento sobre a falência de uma inclusão que excluiu ainda mais os que careciam de apoio específico e prejudicou enormemente o trabalho dos restantes e dos professores. Nenhuma alusão ao indispensável reforço das equipas de intervenção precoce, depois de termos tido cerca de 90 mil crianças com necessidades educativas especiais abandonadas durante os períodos de suspensão do ensino presencial. Nenhum sinal de reconhecimento de que a autonomia profissional de cada professor é fulcral para promover a diferenciação pedagógica que a situação actual requer. Nada quanto ao tão reclamado alívio do trabalho burocrático que recai sobre os docentes, para que se pudessem concentrar nas tarefas exclusivas de ensino. Silêncio quanto à necessidade imperiosa de, no primeiro ciclo do ensino básico, não constituirmos turmas onde coexistam anos diferentes de escolaridade.

Em contrapartida, mais formação inútil e causticante para os professores, entregue aos bonzos do regime, mais tutorias em grupos (cuja dimensão mata o conceito), mais tretas pedagógicas (clubes de ciência, recuperações com artes e humanidades e oficinas de escrita). Em resumo, assistimos a um enunciado de intenções, para dar fôlego às medidas que o Governo vem desenvolvendo desde 2015, relativamente às quais a maioria dos professores percebeu, de há muito, que dão resultados contrários aos pretendidos.