As cicatrizes da pandemia

As crianças e os jovens acabados de entrar no mercado de trabalho serão os grupos mais fustigados pela pandemia, a médio e longo prazo. As primeiras por causa das perdas nas aprendizagens, os segundos porque demorarão a recuperar do solavanco sofrido na sua inserção laboral. A conclusão é da economista Susana Peralta, co-autora do relatório Portugal – Balanço Social 2021, que traça o retrato do país após o primeiro ano da pandemia.

No ano de 2020, o risco de pobreza tinha aumentado 2,2 pontos percentuais, para 18,4% da população, conforme tinha já demonstrado o inquérito do Instituto Nacional de Estatística (INE) aos rendimentos e condições de vida, realizado já em 2021, mas com base nos rendimentos do ano anterior. As mulheres, as pessoas com 65 ou mais anos de idade e as famílias com crianças (sobretudo as monoparentais) e os desempregados foram os grupos mais fustigados pelo agravamento da pobreza, o que também não constituiu surpresa num cenário em que, num único ano, surgiram 230 mil novos pobres em Portugal, fazendo aumentar para 1,9 milhões os portugueses obrigados a viver com menos de 554 euros por mês.

Para Susana Peralta, porém, o país está em condições de recuperar rapidamente deste efeito imediato da pandemia na sua situação social. “Os níveis de consumo e do PIB [Produto Interno Bruto] deverão rapidamente voltar aos níveis de 2019 – não sei quando, mas num prazo razoavelmente rápido, também por causa das políticas governamentais de apoio às empresas”, começa por situar a investigadora da Nova School of Business and Economics, para quem as cicatrizes mais difíceis de fazer desaparecer serão as deixadas pelo SARS-Cov-2 nas crianças e nos jovens, “cujo potencial corre o risco de sair fortemente limitado”.

O estudo dos economistas da Universidade Nova tem uma leitura algo ambivalente. Por um lado, chama – bem! – a atenção para os impactos desiguais que a pandemia teve na sociedade: afectou mais os mais pobres, os trabalhadores precários, os jovens em início atribulado da vida activa, as crianças dos primeiros anos de escolaridade e as que revelam menor autonomia ou tiveram menos apoio familiar. As políticas de contra-ciclo tomadas pelos governos contrariaram em parte os feitos adversos dos confinamentos e das restrições às actividades económicas, mas foram claramente insuficientes para apoiar eficazmente todos os que precisavam.

Por outro lado, no entanto, há um aspecto que fica mal esclarecido: agora que a moda é hiperbolizar as consequências da pandemia, como se a humanidade não tivesse já superado outras crises de saúde pública bem mais graves, corre-se o risco de escamotear a realidade: a crise pandémica não trouxe nada de radicalmente novo em termos económicos ou sociais, apenas acentuou e agravou algumas tendências que já antes se manifestavam, como o crescimento das desigualdades, a exclusão social, a alienação consumista

Da mesma forma, parece-me excessivo e alarmista sugerir que precisaremos de década para reparar os danos e aos atrasos que a pandemia terá causado ao desenvolvimento psico-social e cognitivo dos alunos mais novos. É certo que esta realidade existe, e todos os professores a podem constatar reconhecendo, por exemplo, a imaturidade de muitos alunos em relação à idade que já têm ou o atraso no desenvolvimento de conhecimentos e competências que, com a idade e a escolarização que já têm, deveriam estar assimilados. Mas isto já se previa que iria suceder, e que seriam necessárias medidas especiais para apoiar os alunos, sobretudo os mais fragilizados, no regresso à escola presencial. Ora a verdade é que, para além dos habituais números de propaganda, pouco ou nada foi feito nesta área.

O declínio das aprendizagens em tempo de pandemia não é uma inevitabilidade, e pode sempre ser revertido. O que é preciso é investir em recursos humanos – mais professores e outros profissionais da Educação – e dar meios às escolas para responder às necessidades dos seus alunos, em vez de se continuarem a focar nos devaneios eduqueses do secretário Costa e dos seus sequazes. Se o não querem fazer, assumam por uma vez as responsabilidades próprias, e parem de culpar a pandemia.

Os filhos da pandemia

Os filhos da pandemia não escrevem, não falam, não lêem, não compreendem, não interpretam, não pensam… O desinteresse pelas conteúdos curriculares e a alienação pelo conhecimento em geral são perigosamente alarmantes. Retirem-lhes o telemóvel e as redes sociais e ficaremos perante seres desprovidos de qualquer interesse. Se antes dos confinamentos, o vício da tecnologia já era preocupante, quase dois anos depois do primeiro encerramento das escolas, estes comportamentos de adição pioraram e nada voltará a ser como antes. Alguns leitores dirão que nem todos os alunos são assim. Nós dizemos que são cada vez mais. Já antes da pandemia, o neurocientista francês Michel Desmurget, no seu livro de 2019 intitulado A Fábrica de Cretinos Digitais, chamava a atenção para a descerebração provocada pelo uso e abuso dos recursos digitais por parte dos jovens. Associando o vício do digital ao crack, Desmurget alerta para algumas consequências do uso exagerado dos recursos digitais como a diminuição da capacidade linguística e comunicativa, da concentração e do conhecimento de contexto. Estamos perante um admirável mundo novo com o qual a escola e os professores não conseguem competir.

Não culpemos apenas a pandemia! Todos os problemas com que hoje nos deparamos vinham a dar sinais de alerta há muito tempo e nós, nas escolas, tínhamos a consciência plena de que o futuro do ensino público não se avizinhava sorridente. Se os professores ficaram ainda mais assoberbados de tarefas burocráticas e viram a sua condição profissional degradar-se de ano para ano, é dos alunos que importa cuidar. Conseguiremos, através das aprendizagens essenciais, recuperar estes indivíduos que viram as suas vidas viradas do avesso? Facilitaremos ainda mais do que antes, de forma a permitir que o insucesso não alastre? Como encontrar tempo para ensinar e avaliar eficazmente, não estando previstas nos horários dos professores as intermináveis horas gastas a avaliar? Como mostrar aos alunos e encarregados de educação a importância da escola e do professor, quando os nossos governantes são os primeiros a contar com o nosso espírito de missão? E quem são estes jovens que regressaram à escola, sem esperança nem motivação, tementes a um novo confinamento, incapazes de perceber ainda o impacto que estes dois anos virão a ter nas suas vidas?

A professora Carmo Machado escreve, na sua habitual crónica na Visão, sobre os alunos que há dois anos vêem a sua vida virada do avesso, por culpa da pandemia. Todo o texto, e não apenas o trecho que aqui transcrevo, merece leitura integral, pois entre o imenso linguajar reproduzido pelos media sobre as aprendizagens perdidas ou as mazelas na saúde mental das crianças e jovens privados da escola, pouco se ouve ou lê sobre o real impacto da pandemia na população em idade escolar. Menos ainda se refere uma realidade que todos os professores no terreno conseguem constatar: a regressão, não apenas nas aprendizagens, mas no próprio desenvolvimento cognitivo, físico e emocional dos nossos alunos começou antes da pandemia. Esta apenas veio acentuar e agravar problemas vindos de trás: os babysitters electrónicos que cada vez mais cedo acompanham os miúdos, os hábitos passivos, consumistas e sedentários induzidos precocemente, a falta de leituras, de convívio social e familiar, de conhecimento e de exploração do mundo em que vivem, e que cada vez mais conhecem como realidade virtual, mediada através dos ecrãs.

Carmo Machado escreve com o conhecimento da realidade preocupante que tem quem trabalha nas escolas: cada vez mais crianças a necessitar de terapia da fala na educação pré-escolar e no primeiro ciclo, não por terem perturbações ao nível da fala, mas simplesmente porque as famílias não os estimularam a falar nos primeiros anos de vida. Miúdos que chegam ao terceiro ciclo com maturidade e comportamentos típicos dos primeiros anos de escolaridade. Adolescentes prestes a concluir o ensino básico que mais parece estarem ainda a iniciá-lo. E no secundário, inúmeros alunos que não percebem o que lêem, que não compreendem o que lhes dizem, que não conseguem elaborar um pensamento ou expor uma ideia. Não estaremos obviamente a falar de todos os alunos, mas é certo que a pandemia teve também este efeito perverso: acentuou as desigualdades no acesso à educação e ao conhecimento. Continuamos a ter, felizmente, alguns bons alunos. Mas tendem a ser cada vez menos, e a diferença entre eles e os que pouco aprendem e de nada querem saber, essa não pára de aumentar.

Perante esta realidade, a nossa colega partilha com os seus leitores as suas dúvidas e inquietações, sentidas igualmente pela generalidade dos professores: que fazer por estes alunos? Vamos continuar a baixar a fasquia avaliativa, para que todos tenham sucesso, pois o insucesso seria ainda mais traumatizante? Será uma avaliação burocratizada, à moda dos Maias, que vai superar as dificuldades dos alunos, enquanto os seus professores assumem mais uma carga de trabalhos? Ou devemos dar-lhes mais do que eles aparentemente gostam, inundando a escola de gadgets e tecnologia? Continuaremos a apostar no suave milagre das flexibilidades, dos DACs, das escolas inclusivas e de todas as modas filosóficas e pedagógicas que vão chegando às escolas? Ou estará finalmente na altura de reflectir e discutir, séria e abertamente, os problemas e desafios da Educação do século XXI?

Praticamente ausente dos debates pré-eleitorais que marcaram a semana política, não parece que a Educação esteja no centro das prioridades ou das preocupações dos Portugueses. Infelizmente…

Ubuntu: a última loucura do ME

As Escolas Ubuntu inserem-se no âmbito do plano de recuperação da aprendizagem do Ministério da Educação e no presente ano letivo, pela primeira vez, todas as escolas se podem candidatar a esta ferramenta de trabalho.

Para já, estão envolvidas cerca de 350 escolas, o que representam 50% do sistema, em 150 concelhos do país.

“Esta é uma iniciativa que o Ministério da Educação apoia para as escolas públicas que, voluntariamente, decidam aderir. E acreditamos que muitas mais vão aderir”, disse Rui Marques.

Os responsáveis do ME recusam reduzir o tamanho das turmas, são somíticos na contratação e vinculação de professores, condenam à eterna precariedade os psicólogos, terapeutas e outros técnicos cada vez mais necessários nas escolas. Faltam sempre recursos para o essencial, mas continuam a sobrar para o acessório. Sobretudo quando há dinheiro fácil para gastar e “parceiros” bem relacionados para o estoirar. Duvido muito que este delírio a que deram o nome de Ubuntu tenha estado no centro das preocupações e solicitações das escolas no pós-pandemia. Mas é mesmo disto que levam, e não digam que vão daqui.

Em declarações à Lusa, o secretário de Estado adjunto e da Educação, João Costa, afirmou que o Ubuntu “tem muitas provas dadas de eficácia na promoção do bem-estar e do envolvimento dos próprios alunos”.

“Por isso, estamos a fazer esta parceria, permitindo que todos os agrupamentos que desejem adiram a este programa tão transformador”, referiu.

E acrescentou: “Sabemos que, para muitos alunos, as dificuldades de aprendizagem se devem a obstáculos em gerirem as suas emoções, em se relacionarem consigo e com os outros, com consequências na autoestima, na confiança e no controlo das atitudes”.

“Quisemos, no âmbito do plano de recuperação das aprendizagens 21|23 Escola+, dar um impulso grande ao trabalho sobre competências sociais e emocionais, apoiando os professores tutores das escolas, tanto mais que uma das grandes faturas da pandemia está ao nível da perturbação das emoções”, prosseguiu.

O método Ubuntu passa pelo aprofundamento do conhecimento de si e das suas capacidades e forças — os três primeiros passos — seguindo em direção ao outro — os dois últimos passos, numa dinâmica perpétua e circular, onde se volta sempre ao centro de cada um, para poder ir ao encontro do outro de forma renovada e melhorada.

Começa agora a perceber-se a converseta das “vozes dos alunos” e as alegadas preocupações com a “saúde mental” dos alunos. Traziam a coisa fisgada. Já o bem-estar mental dos professores continua a ser completamente desprezado, a avaliar pelo excesso de trabalho e pela catadupa de burocracia, agora na versão “maiata”, que continua a ser despejada sobre as escolas. Pelo que, mesmo dando de barato toda a homeopatia pedagógica a que este projecto parece resumir-se, ressalta a contradição de fundo: pode um sistema educativo que despreza, adoece e maltrata um número crescente dos seus profissionais docentes promover a saúde mental dos alunos?

É a falta de professores, estúpido!

O ano letivo 2021-2022 é o primeiro de três anos da implementação do Plano de Recuperação de Aprendizagens “21-23 Escola+”, aprovado pelo Governo em junho. Representa um investimento superior a 900 milhões de euros na escola pública para reforço dos recursos humanos nas escolas, formação e capacitação do pessoal docente e não docente, incremento dos recursos digitais e apetrechamento das escolas em equipamentos e infraestruturas. Contudo, um mês e meio após o arranque do ano letivo, pais e diretores receiam que o cumprimento do plano possa estar em causa, apontando como principal fator a escassez de professores.

Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP) pede, por isso, um “concurso extraordinário para efetivar professores docentes contratados ainda este ano”. “O Governo não deve continuar a tratar mal os nossos professores. Coloca-os no desemprego em agosto e vai buscá-los logo a seguir para estar ao serviço da escola. Usa os professores como se fossem material descartável. Que promovam a locação destes profissionais e que os efetivem nas escolas, com um concurso extraordinário já este ano. Não nos esqueçamos que 58 por cento dos docentes agora no ativo se vão reformar até 2030 [ver números nesta página] e os jovens não querem ser professores. Não há condições, nem valorização da carreira. Há que pegar em professores contratados com muita experiência, que já deram muito de si ao ensino, e dar-lhes algum conforto para bem da educação nacional”, pede.

Numa excelente peça jornalística do DN, são ouvidos diversos intervenientes e observadores do que se passa nas escolas, tentando responder a uma questão incontornável: um mês e meio de depois do recomeço das aulas, que balanço fazer dos planos de recuperação de aprendizagens?

As respostas são diversas, mas convergem num ponto essencial: há falta de professores nas escolas. Sem um aumento de meios humanos é impossível reforçar apoios educativos, tutorias, coajuvâncias ou projectos específicos orientados para a promoção do sucesso educativo. E esta falta de docentes é sentida de duas formas: na escassez de contratações permitidas ao abrigo dos planos de resiliência e na dificuldade em substituir professores de baixa ou de licença. Um problema que continua a ser ignorado, que se agrava ano após ano enquanto as cabeças pensantes do ministério vão inventando novos “desafios” e subterfúgios e atulhando as escolas de inútil burocracia. Talvez na ilusão de que, ignorando a questão essencial, ela se resolverá por si mesma.

É, no fundo uma questão de planeamento, ou da sua ausência. Isso mesmo é notado também na notícia do DN em relação, por exemplo, ao volumoso investimento na chamada transição digital. Insistindo no velho erro de começar a casa pelo telhado, anunciam-se compras de centenas de milhares de computadores que, às escolas, vão chegando apenas a conta-gotas. Mas esquecem-se completamente as infraestruturas obsoletas, datadas do primeiro plano tecnológico para a Educação, que temos na generalidade das nossas escolas.

Em suma, uma Educação à deriva, um sector que passa cada vez mais à margem dos grandes debates públicos e que, perante o desinteresse generalizado, vai ficando entregue a carreiristas, demagogos e burocratas. Na ausência de estratégia, como certeiramente nota o diretor do Agrupamento de Escolas da Abelheira, resta correr atrás do prejuízo.

ME faz a descoberta do ano: alunos aprendem melhor com professores!

Os alunos que durante o ensino ‘online’ mantiveram um maior contacto com os professores foram os menos prejudicados pela pandemia de Covid-19, revela o diagnóstico das aprendizagens que confirma a importância dos docentes mesmo à distância.

Esta é uma das principais conclusões do segundo relatório do estudo diagnóstico realizado em janeiro pelo Instituto de Avaliação Educativa (IAVE) divulgado esta segunda-feira e que tinha como objetivo avaliar o impacto da suspensão das atividades presenciais nas escolas em 2020 devido à pandemia.

O estudo, que envolveu mais de 23 mil alunos do 3.º, 6.º e 9.º anos, procurou perceber o estado das aprendizagens em três áreas: literacia matemática; literacia científica e literacia de leitura e informação.

“Nada substitui o papel do professor e o que este estudo nos mostra é que, mesmo em contexto de ensino à distância, a presença do professor em interação direta com os alunos é muito melhor para as aprendizagens“, sublinhou o secretário de Estado e Adjunto da Educação na sessão de apresentação do relatório.

Segundo os resultados do estudo de diagnóstico, os alunos que tiveram aulas síncronas ‘online’ conseguiram melhores desempenhos nas três áreas avaliadas.

“Isto volta a reforçar o reconhecimento que todos temos de ter do papel que os professores desempenham e não endeusarmos máquinas que nunca vão substituir o papel dos professores”, defendeu João Costa.

Depois do enaltecimento do trabalho dos professores, que se saúda, embora mais não seja do que o reconhecimento de uma evidência, o secretário de Estado da Educação, acolitado pelo presidente do IAVE, voltou a uma ideia que lhe é cara, mas também já não é nova: a pandemia prejudicou as aprendizagens de todos os alunos, no entanto foram os mais carenciados, seja em equipamentos para o ensino à distância, seja em apoio familiar, os que sofreram maiores prejuízos.

O estudo agora divulgado pretende quantificar as aprendizagens perdidas pelos alunos que beneficiam da acção social escolar comparativamente com os restantes. E mostra que aprenderam menos, o que, para os professores no terreno, também não é notícia: já assim sucedia antes da pandemia.

O que aí vem também não surpreende: os professores são exortados a trabalhar os dados do estudo de diagnóstico e as dificuldades evidenciadas pelos alunos no sentido de as superar. Mas fica a dúvida habitual: será que sem o estudo do IAVE os professores não seriam capazes de perceber o que é que os alunos não sabem? É um estudo feito com uma amostra de alunos de todo o país que nos vai indicar o que devemos fazer em concreto com cada uma das nossas turmas e dos nossos alunos?

Assumindo os professores, como sempre fizeram, a sua parte, espera-se que também o Governo comece a fazer o que lhe compete: assumir que o combate pelo sucesso escolar pleno e pela igualdade de oportunidades no acesso à Educação não se faz só nas escolas. Se persistentemente se identificam factores extra-escolares que condicionam o insucesso, está mais do que na altura de desenvolver políticas económicas e sociais que atenuem ou corrijam esses desequilíbrios e desigualdades. Ou, enquanto essas assimetrias persistirem, instituir apoios directos aos alunos e às famílias em risco.

Limitar-se a mandar os outros fazer coisas é muito pouco para um Governo que continua, apesar das propaladas autonomias e descentralizações, a controlar ferreamente o orçamento da Educação.

O (pl)ano da recuperação

As aulas arrancam daqui a uma semana, com início previsto entre 14 e 17 de setembro, e a Direção-Geral da Saúde (DGS) reviu as diretrizes para as escolas no âmbito das medidas de combate à pandemia de covid-19. Mas é na dimensão das turmas, que não foi revista, que os professores veem um dos grandes entraves ao controlo da disseminação do coronavírus e ao ensino, quando há muito para recuperar. Já João Costa, secretário de Estado Adjunto e da Educação, garante que a recuperação das aprendizagens será garantida por meio do Plano 21|23 Escola+.

Bem pode João Costa defender o seu plano infalível para recuperar aprendizagens, construído com os peritos do costume e o eduquês habitual. Aposta-se na prosa, extensa e retumbante, mas a verdade é que as medidas reconhecidamente eficazes para superar as dificuldades, como a redução do tamanho das turmas, o fim das turmas multinível no primeiro ciclo ou a contratação de mais profissionais – professores, psicólogos, terapeutas – foram, sem surpresa, excluídas do plano ou reduzidas a uma expressão quase simbólica.

Adiada continua a ser uma política séria de investimento nos profissionais de Educação, indiscutivelmente os maiores activos das escolas. Continuamos com quadros de pessoal desajustados das necessidades, com uma política de contratações que não promove a estabilidade nem permite a fixação de profissionais que são fundamentais numa escola que se quer universal e inclusiva. Fala-se muito da dificuldade em contratar docentes para substituições temporárias em certas zonas do país mas referem-se pouco as carências existentes, por exemplo, ao nível de terapeutas da fala. Estes e outros técnicos especializados deveriam ter um lugar permanente nas escolas, não estando a sua contratação dependente de programas ministeriais limitados no tempo ou das disponibilidades, muitas vezes insuficientes, dos centros de recursos para a inclusão.

Em vez de enfrentar e resolver os problemas e bloqueios estruturais do sistema educativo, a equipa do ministro-de-facto João Costa prefere o ilusionismo político e os exercícios de demagogia. Seguíssemos nós os seus conselhos e iríamos continuar a “ouvir vozes” dos alunos, a brincar a aprender e a substituir aprendizagens efectivas por improvisadas terapias de grupo. Contudo, os professores são responsáveis e assumem o seu compromisso profissional com as necessidades dos seus alunos, não com os lirismos e oportunismos dos governantes. Pelo que é de esperar, se novas paragens e confinamentos não vierem atrapalhar novamente o desenvolvimento do ano lectivo, que as aprendizagens perdidas ou comprometidas acabem, a seu tempo, por ser recuperadas. Apesar da burocracia inútil que o ministério inventa, não por causa dela.

1,6 mil milhões para a Educação – mas falta o resto…

“Apesar de qualquer esforço, os dias e meses que se perderam com o ensino presencial foram muito prejudiciais para o desenvolvimento das crianças e do seu processo  de aprendizagem”, começou por referir António Costa durante o seu discurso de encerramento no 23º Congresso do PS, em Portimão.

Face a estas dificuldades no ensino geradas pela pandemia, o secretário-geral dos Socialistas, agora reeleito,  e primeiro-ministro prometeu que o próximo objetivo do Governo passa por executar “um programa de recuperação das aprendizagens”, onde vão ser investidos 900 milhões de euros, tanto no “reforço da flexibilidade e autonomia dos processo de tutoria” como também no reforço de “técnicos especializados no apoio à recuperação de todas as crianças e jovens” prejudicados pelo ensino à distância.

Elegidos como prioridade no Programa de Recuperação e Resiliência, diz António Costa, estão a modernização das escolas profissionais e docentes. “Os que ficaram para trás na recuperação das escolas vão ter a resposta”: 750 milhões de euros que vão ser investidos na “modernização das instalações, na aquisição de novos equipamentos, qualificação de professores e técnicos.

“O ensino profissional tem que ser um de primeira qualidade”, reforça.

À falta de melhores ideias, António Costa engatilha uma vez mais o discurso dos milhões que serão vertidos no sector da Educação. Mas não é sequer preciso ser muito perspicaz para perceber que quando o “investimento” se faz em torno de negociatas de “equipamentos” e “formações”, pouco dinheiro chegará efectivamente às escolas, para ser gasto onde verdadeiramente faz falta: no apoio directo aos alunos “prejudicados” pelo ensino à distância.

Em concreto, continuamos com turmas “normais” de 28 alunos e turmas com alunos que justificam redução a funcionar “em desconformidade”, pois nem as medidas preventivas da pandemia nem as alardeadas necessidades de reforçar o apoio aos alunos justificaram, até agora, qualquer redução do tamanho das turmas. Quanto a professores de apoio, psicólogos, terapeutas e outros profissionais especializados de que as escolas se encontram carentes, o que temos são medidas pontuais e avulsas que vão permitindo uma ou outra contratação temporária aqui ou ali.

Um novo ano lectivo sem novidades, mas com muitas apreensões para quem se preocupa com os seus alunos e o futuro da Educação – eis o que se antevê…

PCP critica o plano de recuperação do Governo

O que é preciso para recuperar aprendizagens e melhorar o acompanhamento dos alunos, tornar as aulas mais interessantes e produtivas e dar apoio efectivo aos alunos com dificuldades?

Será aumentando ainda mais a burocracia escolar, colocando os professores a preencher plataformas e papéis, ou libertando o seu tempo para se poderem dedicar inteiramente ao trabalho com os alunos?

Polvilhar o horário de cada turma com meia dúzia de coadjuvâncias, ou reduzir o tamanho das turmas, de forma a que todos os professores possam dar mais atenção e apoio aos alunos que precisem?

Apoios especializados ao nível da psicologia, terapias e educação especial para os alunos com maiores comprometimentos, ou apoios generalistas que são apenas mais do mesmo?

O PCP identifica bem o caminho certo para o pós-pandemia educativo: turmas reduzidas, mais profissionais nas escolas, flexibilidade não para andar a brincar aos currículos e às avaliações, mas para gerir créditos horários que permitam responder às necessidades dos alunos e da organização das escolas.

Principal muleta de suporte a um governo cada vez mais isolado e fechado em si mesmo, esperemos que o PCP saiba impor, mais do que exigir, melhores soluções governativas para a Educação portuguesa.

Em relação ao Plano de Recuperação de Aprendizagens para o próximo ano lectivo apresentado pelo Governo no início de Julho, Jorge Pires criticou “um plano de intenções, pouco desenvolvido e de objectivos pouco claros”, que, acusa, foi “elaborado à revelia de quem tem o conhecimento real da situação”.

“Ainda que, após a sua apresentação, o Ministério da Educação tivesse promovido uma aparente audição das organizações representativas da comunidade educativa, ela não levou o Ministério a alterar o projecto que elaborara, ficando por responder às muitas questões levantadas por organizações sindicais, associações de dirigentes escolares ou pelo movimento associativo de pais”, lamentou. Outra das críticas é o facto de, dos 900 milhões anunciados pelo Governo para dois anos, “apenas 140 milhões são dirigidos aos trabalhadores o que é manifestamente pouco”.

Entre as medidas que o PCP exige agora ao executivo socialista na área da educação está a redução do número de alunos por turma, a flexibilização da organização das turmas e o “reforço efectivo de horas atribuídas às escolas para o desenvolvimento de tutorias e mentorias”.

Reforçar os “meios destinados a uma educação verdadeiramente inclusiva” e criar “equipas multidisciplinares específicas ou reforço significativo das existentes para que articulem os Planos de Recuperação” é outro dos pedidos.

Leituras para férias

A generalidade dos docentes não entrou ainda em férias, mas o ME, sempre a pensar em nós, já preparou um conjunto de leituras eduquesas para animar o Verão.

Leituras que pessoalmente não recomendo, desde logo pela consideração e estima que me merecem os leitores, mas ainda assim ficam os links que demonstram o particular talento da equipa dirigida pelo SE Costa em transformar qualquer ideia válida no domínio da Educação – neste caso, a recuperação de aprendizagens afectadas pela pandemia – num monte de burocracia estéril e de eduquês pedante, repetitivo e passado de validade. Para não lhe chamar coisa pior.

Ainda assim, a quem quiser ter uma amostra da fraca qualidade e da irrelevância destes roteiros – o que não impede que não nos venham massacrar com eles lá para Setembro – recomendo em alternativa dois inspirados e bem humorados posts do Paulo Guinote, aqui e aqui.

ROTEIRO – SEMESTRALIZAÇÃO DO CALENDÁRIO ESCOLAR

Calendário escolar (Eixo: Ensinar e Aprender / Domínio: 1.2. + Autonomia Curricular)

ROTEIRO – PROMOÇÃO DE ABORDAGENS CURRICULARES INTERDISCIPLINARES

Aprender Integrando (Eixo: Ensinar e Aprender / Domínio: 1.2. + Autonomia Curricular)

ROTEIRO – AVANÇAR RECUPERANDO

Avançar recuperando (Eixo: Ensinar e Aprender / Domínio: 1.2. + Autonomia Curricular)

ROTEIROS DE ORGANIZAÇÃO DE EQUIPAS EDUCATIVAS

Constituição de equipas educativas (Eixo: Ensinar e Aprender / Domínio: 1.2. + Autonomia Curricular)

ROTEIROS DE ORGANIZAÇÃO DE TURMAS DINÂMICAS

Turmas dinâmicas (Eixo: Ensinar e Aprender / Domínio: 1.2. + Autonomia Curricular)

ROTEIRO – COMEÇAR UM CICLO

Começar um ciclo (Eixo: Ensinar e Aprender / Domínio: 1.2. + Autonomia Curricular)

Uma reunião cheia de nada

Decorreram hoje as reuniões entre o ME e os sindicatos de professores a propósito do Plano 21|23 Escola+, dedicado à recuperação de aprendizagens supostamente afectadas pela pandemia. Os secretários de Estado João Costa e Inês Ramirez ouviram as posições críticas da parte da Fenprof e da FNE. Mas é o STOP que nos apresenta um relato mais extenso e circunstanciado do encontro com a equipa ministerial.

Neste plano, refere-se que nos últimos anos contrataram-se de forma, sem precedentes, milhares de Profissionais de Educação (pessoal docente e não docente), mas curiosamente não se informa quantos profissionais nesse mesmo período se reformaram ou estão de baixa e, ainda, qual a idade média dos professores que vincularam (ou que há muitos milhares que já ultrapassaram os 10 anos de trabalho precário e, assim, continuarão).

Mas sobretudo este mesmo plano não tem uma única referência ou proposta para inverter as condições de exaustão, desmotivação e de envelhecimento – sem precedentes – em que se encontram os Profissionais de Educação!

Supostamente reconhece-se que os Profissionais são essenciais para o funcionamento regular das escolas e da recuperação das aprendizagens, mas, na prática, o ME continua – totalmente – indiferente com os muitos milhares à beira de burnout, deprimidos, exaustos e desmotivados (cujos estudos/pesquisas demonstrativos são sobejamente conhecidos). Algo particularmente grave quando é reconhecido que a classe docente em Portugal é das mais envelhecidas da Europa e mais uma vez, neste plano, não há qualquer proposta para rejuvenescer a classe.

Além do ME não responder aos problemas incontornáveis de envelhecimento, exaustão e desmotivação, este Plano, na prática, levará a sobrecarregar ainda, com mais trabalho – sobretudo burocrático – os docentes e as direções escolares. […]

Os professores estão cada vez mais sobrecarregados de papeladas/burocracia e, cada vez, têm menos tempo para os alunos, para preparar aulas inovadoras, para pesquisar (por exemplo, os vários “materiais…bancos…recursos…bibliotecas” galvanizados neste plano), etc. E o que o ME apresenta com este plano é, na prática, ainda mais trabalho com papeladas/dados, evidências e formações em horário pós-laboral, com questionável interesse efetivo para as aprendizagens dos nossos alunos…

Não podemos tolerar a forma como Ministério tem gerido os seus recursos humanos que são indispensáveis para a melhoria das aprendizagens, levando a que cada vez mais Profissionais da Educação fiquem para trás, exaustos, desmotivados ou mesmo de baixa……(”mas ironicamente afirma-se no Plano, na página 4 que “ninguém fica para trás. Isto já acontecia antes da pandemia, com esta agravou-se e este plano infelizmente não vai no sentido correto. Não raras vezes mais é, na verdade, menos.

Novamente com este tipo de plano reforça-se os erros do passado, priorizando os meios materiais (equipamentos e infraestruturas), mas não os recursos humanos.  A persistência neste tipo de erro leva-nos a questionar se, alguém do ME, conhece ou está efetivamente preocupado com o trabalho quotidiano de uma escola normal?! Algo bem diferente do que ir pontualmente a uma escola discursar cenários generalizados.

Perante reivindicações justas e muito concretas dos professores, como a redução do tamanho das turmas, o fim das turmas multinível no 1.º ciclo, a consideração de todo o trabalho com alunos na componente lectiva dos docentes e a contratação de mais profissionais – docentes, psicólogos, terapeutas, auxiliares – para as escolas, nem uma palavra dos responsáveis. Ou então o habitual chutar para canto, respondendo a alhos com bugalhos ou recorrendo à sonsice que já se tornou imagem de marca do SE Costa. Por detrás do palavrório oco em torno de autonomias, flexibilidades e inclusões, revelam-se tanto o desconhecimento da realidade educativa como a falta de ambição da política educativa deste governo. E um paradoxo bem sublinhado pelos dirigentes do STOP: este é o governo que, exigindo cada vez menos dos alunos – cidadãos cultos, informados e dotados de espírito crítico serão sempre mais difíceis de manipular – não pára de aumentar as exigências sobre os professores.

Pelo relato do STOP, ficamos a saber que o Governo pretende continuar com a redução do número de alunos por turma até aos números pré-troika – ou seja, passar as turmas de 30 para um máximo de 28! E para que cada professor tenha menos alunos a solução será “maximizar a possibilidade de um mesmo professor assegurar, na mesma turma, mais do que uma disciplina”. Acham que o actual rácio de professor/alunos já é o melhor de sempre, pelo que aparentemente nada querem mudar aqui.

Sobre contratações e vinculações, o ME continua a esgrimir com números aparentemente favoráveis. Só que continua a omitir que a grande maioria destes profissionais vêm apenas substituir os que se aposentaram ou entraram em baixas prolongadas nos últimos anos. De resto, continua o discurso hipócrita e manipulador de quem atira a pedra e esconde a mão e a eterna converseta da autonomia, um presente envenenado que transfere para as escolas a gestão das carências do sistema, enquanto o ME continua a controlar e a condicionar fortemente o trabalho dos professores…

A finalizar o Secretário de Estado João Costa reforçou a ideia que este plano pretende dar mais autonomia às escolas, sem terem que pedir autorização ao ME. Sobre o prolongamento do ano letivo (e redução inerente das pausas letivas) afirmou que estão a avaliar a eficácia dessas medidas, mas não concorda com prolongamentos artificiais do ano letivo. Sobre a questão deste plano trazer ainda mais trabalho burocrático para os professores, disse que a ideia é que esse trabalho burocrático extra seja para o ME (e não para as escolas). Na generalidade disse que “nada no plano é impositivo”, mas apenas um “buffet de possibilidades” para as escolas poderem optar. Por último, chegou a afirmar que vários elementos do governo estarão surpreendidos pela Educação estar a conseguir tanto dinheiro.