Balanço de um fim de semana offline

Fustigado pela tempestade, aqui pelos meus lados especialmente assanhada, estive boa parte do fim de semana sem electricidade nem acesso à internet. Daí, sobretudo, a exiguidade das postagens…

E, no entanto, estar offline nem foi mau de todo. Deu para pôr alguma leitura em dia, recolocar em serviço um velho rádio de pilhas e reflectir um pouco sobre a fragilidade dos alicerces desta sociedade da tecnologia e da informação que vamos construindo.

Talvez os media lisboetas não se tenham apercebido em toda a sua dimensão do que foi a tempestade Leslie. Aqui, pela região centro, sentimo-la bem. E aos seus efeitos: estragos em habitações e automóveis, milhares de árvores derrubadas, ruas e estradas obstruídas com contentores de lixo, placas de sinalização e troncos derrubados e revestidas de todo o tipo de detritos.

Mas se a natureza surpreende por vezes pela violência destrutiva dos seus elementos, a acção humana espanta pela falta de prevenção e pela lentidão da resposta. Cerca de 300 mil pessoas que terão ficado, durante a noite de sábado e grande parte do dia seguinte, sem electricidade. E não vou aqui, do conforto do lar onde escrevo, criticar o trabalho das equipas de emergência que continuam lá fora, ao frio e à chuva, a dar o seu melhor para repor a normalidade na rede eléctrica. O que me parece é que a dimensão cada vez maior das avarias eléctricas é o resultado de uma política de energia mais preocupada em aumentar lucros e favorecer monopólios do que em investir na fiabilidade e na segurança das infraestruturas. Pois não se tratou apenas avarias em linhas isoladas que servem pequenas aldeias. Estou a falar de falhas cruciais em zonas urbanas densamente povoadas, onde deveriam existir redundâncias e as linhas deveriam estar mais protegidas das vulnerabilidades climáticas.

Com o regresso ao contacto com o mundo exterior, fui sabendo das novidades. A remodelação surpresa de quatro ministros que deixou intacto, como seria de esperar, o da Educação. E a melhoria da classificação de Portugal nos rankings das empresas de notação financeira. Uma novidade de que já se falava há uns dias, mas a que a imprensa de fim de semana deu o devido destaque.

Já não estamos no lixo, dizem-nos sorridentes. Pois, mas aqui para os meus lados ainda há muito lixo para remover das ruas…

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O regresso das moradas falsas

filipa-lencastreQuando se exige a morada fiscal para confirmar que o aluno vive na área de influência da escola pretendida, o que farão os pais mais persistentes e determinados em que os seus rebentos frequentem determinada escola pública? Já se adivinhava…

Pais mudam morada fiscal para inscrever filhos na escola

Em vez de pensar no que fazer a seguir para dificultar a vida aos pais que, bem ou mal, pensam estar a fazer o melhor pelos seus filhos, era preferível enfrentar o problema de fundo: anda-se há demasiado tempo a alimentar a cultura dos rankings e o mito das escolas boas e das escolas más.

Alunos empenhados, pais com estudos superiores, classe alta ou média-alta, relativa homogeneidade dos grupos-turma: têm sido estes os factores decisivos a catapultar determinadas escolas para o topo dos rankings de resultados escolares e não as virtudes de uma qualquer “liderança” inspiradora ou “projecto educativo” fora de série.

Na verdade, toda esta polémica se reduz a uma coisa muito simples: uma escola é frequentada por muitos bons alunos e por isso apresenta bons resultados. O resto é a aplicação do velho adágio popular: se queres ser dos bons, junta-te a eles.

A solução do problema também não é difícil de compreender: se os alunos que querem ser bons não cabem todos nas escolas tidas por boas, do que precisamos é de multiplicar as boas escolas pelo país inteiro. O que implica planeamento, investimento criterioso e definição correcta de prioridades, dando mais a quem mais precisa.

Claro que é mais fácil dizer do que fazer, e isso é complicado para um ministério que se tem revelado melhor a mandar trabalhar os outros do que a governar com competência. Não será propriamente barato, embora custe quase uma ninharia se comparado com os “investimentos” a fundo perdido no resgate dos bancos. E já não virá a tempo de dar milhões de votos nas próximas eleições…

Rankings… da desigualdade

mexia.JPGAntónio Mexia ganha cerca de 52 vezes mais do que a média salarial dos trabalhadores da EDP. O presidente da elétrica nacional teve direito a 2,2 milhões de euros em 2017, entre remuneração fixa, variável e prémios.

Os custos com remunerações dos colaboradores do grupo EDP ascenderam a 491,7 milhões de euros, ligeiramente abaixo dos 493,7 milhões de 2016. Já os custos remuneratórios com os órgãos sociais aumentaram de 16 para 16,4 milhões de euros, sendo a maior fatia atribuída ao conselho de administração. Dividindo a massa salarial pelo número global de trabalhadores (11 657), conclui-se que o presidente executivo da EDP ganha cerca de 52 vezes mais do que a média do grupo. Ou seja, um trabalhador ganha, em média, pouco mais de 42 mil euros num ano.

A EDP, aumentando a sua despesa com a administração e reduzindo os encargos com os trabalhadores não alcança, ainda assim, o topo da disparidade salarial em Portugal. No primeiro lugar continua, destacado, o grupo Jerónimo Martins. Não é o ter criado uma fundação muito preocupada em estudar, em abstracto, “as desigualdades” que iliba o grupo da família Soares dos Santos da responsabilidade social concreta de pagar mal aos trabalhadores para aumentar os lucros dos patrões.

Recorrendo às contas de 2016, a Jerónimo Martins é claramente o grupo que contém a maior distância entre o topo e o fundo. Pedro Soares dos Santos, presidente executivo da dona dos supermercados Pingo Doce, arrecadou no total 1,269 milhões de euros em 2016, mais 46% em relação a 2015. Já a média salarial do grupo foi de 12 500 euros anuais por trabalhador. Na prática, Soares dos Santos ganhou mais 101 vezes que um colaborador da Jerónimo Martins.

Os dados do Eurostat revelam que Portugal é o quarto país da União Europeia com maior desigualdade salarial, apenas atrás de Chipre, Roménia e Polónia.

Preparação para o PISA – e parece que é legal…

exame-murcia.JPGAo contrário de Portugal, onde os resultados dos alunos nos últimos testes PISA, realizados em 2015, registaram uma subida, em Espanha o panorama foi algo desanimador. E se de então para cá poucas melhorias foram introduzidas no sistema educativo, agora que as provas de 2018 estão quase à porta – realizam-se em Maio – a região espanhola de Múrcia decidiu fazer algo que supunha, na minha ingenuidade, ser interdito: treinar os alunos especificamente para a prova, a fim de que obtenham melhores resultados do que os seus colegas de há três anos atrás.

Dizem-nos que os alunos até são bons, mas falta-lhes perseverança suficiente para responder a todas as questões e manter a boa performance até ao final da prova. Perante isto, nada como umas sessões de “coaching” para tornar os alunos mais persistentes e confiantes. E obter, para os políticos que os patrocinam, melhores resultados nos testes internacionais. Não quereria duvidar da bondade da iniciativa; apenas noto que, nesse caso, deveria ser extensiva a todos os alunos da região de Múrcia, e não apenas aos 2000 que foram aleatoriamente seleccionados para realizar os testes PISA. Mas os responsáveis educativos não ficam por aqui…

Além disso, a inspecção educativa informará as escolas sobre as características da prova e serão postas à disposição dos professores provas-modelo para que os estudantes se familiarizem com o tipo de exame, centrado na aplicação de conhecimentos pelos alunos, diferente do modelo de provas que realizam habitualmente nas avaliações normais nas escolas.

Ora toma, OCDE, que já almoçaste. E se alguém pensa que este empurrãozinho em prol da melhoria de resultados é exclusivo da região murciana, a notícia esclarece que não é bem assim. Se calhar os outros fazem é menos alarido das “boas práticas” para a subida nos rankings internacionais…

Este tipo de preparação é posta em prática em muitas das comunidades e países que participam no programa, mas na Região não se tinha  levado a cabo nas outras convocatórias do PISA.

Ainda os rankings escolares

ranking.gifO director Agnelo Figueiredo, assumido defensor dos rankings escolares, insurge-se contra os apelos ao fim da divulgação dos dados estatísticos que servem de base às listagens e às análises jornalísticas a que já nos habituámos.

Usa, para o efeito, um argumento a que sou sensível, mas que não me convence por inteiro: o dever de a administração pública divulgar a informação de interesse público que possua. Creio que essa obrigação seria igualmente cumprida se fossem fornecidos, a cada escola, os seus dados detalhados, bem como os de grupos de escolas que constituíssem referência: a proximidade geográfica ou as semelhanças ao nível das características da população escolar ou do meio envolvente, por exemplo.

É que se vamos falar de deveres do Estado, então devemos considerar que também lhe compete promover a igualdade de oportunidades e combater o agravamento das desigualdades, dois objectivos que, em matéria de política educativa, a publicação dos rankings claramente contraria. Aliás, publicar ou não rankings é matéria que, internacionalmente, está longe de ser consensual. A tendência é que a sua publicação se imponha em países com sistemas educativos mais elitistas e desequilibrados. Pelo contrário, os sistemas mais homogéneos e mais eficazes na promoção do sucesso para todos, no fundo os países com que habitualmente nos gostamos de comparar, evitam a publicação de rankings. O que não quer dizer que não avaliem políticas e resultados educativos, ou que tenhamos lições a dar-lhes em matérias como a democracia ou a transparência dos actos da administração pública.

Há, contudo, um ponto em que concordo inteiramente com A. Figueiredo:

Infelizmente, as bases de dados relativas aos exames de 2017 ainda não estão disponíveis para os cidadãos; apenas para os jornalistas. Mas as de 2016, por exemplo, podem ser descarregadas […] Esta é, de resto, a única crítica que se pode fazer à Administração Educativa: por que raio os jornais têm acesso às bases de dados antes dos cidadãos e das escolas? Pagaram por esse “exclusivo”? E, se pagaram, será legítimo?

O envio prévio das bases de dados à comunicação social – com embargo noticioso imposto como condição, para que todos apresentem as suas notícias em simultâneo – mostra claramente o carácter demagógico e propagandístico do circo que anualmente se monta em torno dos rankings escolares.

A gestão condicionada do acesso à informação pública é no essencial uma questão política, e o procedimento aqui denunciado, não sendo de agora, demonstra apenas que nunca foi a necessidade de “informar” as escolas e as comunidades ou de lhes permitir “reflectir” sobre os seus resultados que presidiu à decisão de divulgar as bases de dados com os resultados dos exames. A decisão teve, na sua base, uma clara motivação política, e é apenas por calculismo – evitarei chamar-lhe cobardia política – que um ministro que assevera não acreditar em rankings colabora na sua construção e divulgação.

Rankings para todos os gostos

ranking.JPGOs rankings das escolas dominarão a actualidade educativa na imprensa deste fim de semana. Não é já um manancial de números tão grande como noutros tempos – o fim dos exames no 4º e no 6º ano ditou o fim dos rankings nestes níveis de ensino.

Em contrapartida, ao ranking puro e duro que arruma as escolas com base nos resultados obtidos nas provas e exames do 9º, 11º e 12º ano, tem-se vindo a juntar o ranking dito alternativo dos “percursos directos de sucesso”.

Já em tempos tinha enumerado, em dez pontos, as minhas objecções em relação aos rankings escolares, pelo que me dispenso agora de estar novamente a demonstrar quão simplista, redutora e tendenciosa pode ser esta pretensa avaliação das melhores escolas. Limito-me por isso a deixar algumas notas, baseadas no muito que já se escreveu sobre o tema nas últimas horas.

Hegemonia esmagadora dos privados. Entre as trinta escolas com média de resultados mais elevada não há uma única escola pública. Superioridade do ensino privado, ou apenas o resultado lógico e natural de se trabalhar com alunos seleccionados?

Notas mais inflacionadas no norte litoral. Há 16 escolas secundárias que há cinco anos vêm dando aos seus alunos notas muito mais altas do que estes mereceriam, conferindo-lhes uma vantagem injusta no acesso à universidade. Todas se inscrevem dentro de um quadrilátero com vértices em Monção, Viana do Castelo, Santa Maria da Feira e Lamego. A grande maioria são privadas. Claro que isto não tem nada a ver com o facto de as médias de entrada serem em regra mais elevadas nas universidades do norte do país…

A “melhor” escola pública do país e a “melhor” privada do Porto situam-se na mesma avenida da cidade. Concentração boavisteira de talento ou será algum factor do micro-clima local que “faz a diferença”?

Escolas públicas intervencionadas pela Parque Escolar têm em média melhores resultados. E não é só, nem principalmente, por estas escolas terem melhores condições físicas e pedagógicas. É, acima de tudo, porque os melhores recursos atraem os melhores alunos, fazendo mesmo, nalguns casos, efectiva concorrência aos colégios privados.

Nem tudo tem explicação “científica” nas oscilações anuais dos rankings. Em termos de resultados académicos, há “fornadas” boas e menos boas de alunos nas escolas, , como muito bem sabem todos os que lidam com alunos reais, e não apenas com estatísticas de desempenho escolar. E quanto mais pequena é a escola, maiores podem ser as variações. Este ano, uma só excelente aluna fez a sua escola subir 833 lugares no ranking. E uma turma fora de série colocou uma pequena escola pública dos arredores de Leiria entre as mais bem sucedidas a nível nacional.

No fundo do ranking, ficam sempre os mesmos: escolas do interior desertificado ou dos subúrbios degradados, onde predominam alunos carenciados e desmotivados. A estes não há ranking que lhes valha, nem solução para os seus problemas que não passe por assumir que a intervenção necessária precisa de dar respostas também aos problemas económicos, sociais e culturais do meio envolvente.

Colaborações: ComRegras

No Topo: O fim dos rankings escolares

Espero, tendo em conta alguns antecedentes, não estar a falar cedo demais. Mas tudo parece indicar a vontade do actual ministério em pôr fim a um ritual que se vinha a tornar pernicioso e desmoralizador para as escolas portuguesas: a divulgação anual das médias de resultados dos exames nacionais, dados que a comunicação social de imediato traduzia em rankings das melhores e das piores escolas nacionais…

topo-e-fundo_ComRegras

No Fundo: As provocações aos professores

Quando o ministério apresenta aos professores propostas negociais que não só ficam muito aquém das expectativas dos docentes como ignoram os próprios compromissos e promessas feitos pela equipa ministerial em 2017, elas só podem ser entendidas como provocações à classe docente…