Movimento Zero

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Do que pude ver, ler e ouvir acerca da manifestação de ontem, dos polícias e guardas republicanos, algumas notas breves sobre um evento que parece ser apenas a ponta do icebergue. O mal-estar nas forças de segurança é profundo e não se desvanecerá com as tiradas demagógicas nem com as habituais promessas que ninguém tenciona cumprir.

Embora tenha sido evidente o aproveitamento da extrema-direita, não acho credível a ideia de que a maior parte dos guardas e polícias se situem nessa área política. O que sentem é um vazio de interesse e de propostas, da parte dos partidos tradicionais, em relação aos problemas específicos desta classe profissional. E uma expectativa positiva em relação ao partido de André Ventura, cujo discurso, embora demagógico, parece falar ao coração dos profissionais mais descontentes.

Pela minha parte, não me surpreende a hipocrisia dos partidos do centrão, mas incomoda-me ver os partidos mais à esquerda deixarem o caminho livre à extrema-direita. Neste jogo de sedução, o discurso securitário tende sempre a marcar pontos junto de quem está na primeira linha do combate à criminalidade e da defesa da segurança dos cidadãos. Não há propostas a fazer, à esquerda, para defender os direitos e melhorar a situação profissional de quem trabalha nas forças de segurança e com as quais estes profissionais se identifiquem?

Lamentável foi também o muro da vergonha, feito de blocos de betão, erguido em torno da escadaria do Parlamento. Quase meio século depois do cerco à Assembleia Constituinte, parece ainda estar vivo o trauma dos deputados “burgueses” da altura, sequestrados no interior do edifício. Mais vergonhoso do que os polícias a cantar o hino de costas para o Parlamento, é ver a Casa da Democracia a erguer barreiras para se defender de manifestantes – também parte do povo que deveria representar e defender.

Finalmente, o Movimento Zero e as suas reais ou supostas motivações e ligações à extrema direita ou a movimentos racistas ou supremacistas. Antes de mais nada, é um erro supor que todos os apoiantes e seguidores do movimento serão potenciais militantes da direita radical. Metendo os sindicatos ao bolso, o que este movimento parece representar, acima de tudo, é o fracasso do modelo de sindicalismo das forças de segurança.

Depois de terem resistido durante décadas à criação de sindicatos de polícia, os partidos do regime acabaram por ceder à inevitabilidade, promovendo então a proliferação de pequenos sindicatos para fomentar a divisão da classe e debilitar à nascença o movimento sindical. A estratégia de dividir para reinar, que foi igualmente seguida noutros sectores, como a Educação, pode trazer aos governos ganhos de curto prazo, mas que a longo prazo tem custos enormes: descredibilizando aqueles que poderiam ser os representantes genuínos dos trabalhadores, abre-se caminho para que outras representações, menos orgânicas, menos democráticas, nalguns pontos com laivos até de sociedade secreta, acabem por vingar.

Quando as propostas e as reivindicações sindicais são sistematicamente ignoradas pela tutela, quando nada de substancial é decidido em mesas negociais, ou quando os sindicalistas que ousam denunciar os problemas e tomar posições de força são sistematicamente suspensos, processados ou mesmo demitidos das suas funções, há um convite claro a que os polícias e os guardas da GNR encontrem outros meios de defender os seus direitos e interesses. O Zero, ou outro qualquer movimento ainda mais radical que lhe venha a seguir a pegada, é apenas a demonstração da incapacidade do poder político de dialogar e de se entender com os militares e agentes de segurança que nos protegem a todos.

O beijo aos avozinhos

beijos.jpgQuando a avozinha ou o avozinho vão lá a casa a criança é obrigada a dar o beijinho à avozinha ou ao avozinho, isto é educação e estamos a educar para a violência no corpo do outro.

Estou a dizer que obrigar alguém a ter um gesto físico de intimidade com outra pessoa, com obrigação coerciva, é uma pequena pedagogia… E agora vem o Foucault, com as microfísicas do poder… É uma pequena pedagogia que depois cresce e depois vemos os estudos em que 49% dos jovens adolescentes acham aceitável que o namorado ou a namorada lhes controle os telemóveis”.

As afirmações foram feitas no último “Prós e Prós”, desta vez dedicado ao tema dos abusos sexuais, a que o movimento de denúncia MeToo trouxe justificado mediatismo. Embora o discurso possa soar estranho e o exemplo ser pouco feliz, o argumento de Daniel Cardoso parece ter alguma lógica, pelo menos na parte inicial. Já a relação entre o “abuso” de ter de beijar os avós na primeira infância e o de controlar o telemóvel do/a namorado/a parece-me  um perfeito disparate…

Reflectindo um pouco na questão, que se tornou tema de debate nacional, parece-me antes de mais que o activismo fundamentalista de DC o leva a cometer pelo menos dois erros de base. Um, é o de teorizar sobre a expressão dos afectos de um bebé ou de uma criança pequena como se estas fossem adultos em miniatura. Outro, é o egocentrismo exacerbado cada vez mais típico da cultura urbana hedonista e individualista que parece estar a tornar-se o novo normal do século XXI. Tão cheia de grandes princípios, liberdades absolutas, causas politicamente correctas, activismo de redes sociais, quanto carente em relação aos valores que verdadeiramente unem as pessoas e cimentam as famílias e a sociedade.

À maioria destes novos doutrinadores das relações sociais não passa sequer pela cabeça a hipótese de ter um filho e de assumir a responsabilidade de lhe dar uma educação à altura dos seus elevados princípios. Mas estão na linha da frente para dizer aos outros o que devem fazer a esse respeito. Deviam ser talvez um pouco mais contidos na manifestação atrevida da sua ignorância. E falarem-nos, de preferência, daquilo que sabem.

Na verdade, não me lembro de alguma vez ter “obrigado” os meus filhos a beijarem ou a tratarem afectuosamente os avós. Retribuíam, com naturalidade, o amor, o carinho, as atenções que os avós lhes davam. E, como julgo que sucederá com a grande maioria das crianças, nunca viram os avós como umas visitas “que vão lá a casa”.

Pelo que, no caso da criança, evocada por DC, que não quer beijar os avós, eu pergunto em primeiro lugar o que estará a falhar na educação que lhe está a ser dada. Transmitimos à criança, desde bebé, que não há regras nem limites, que pode fazer tudo o que quer? Que todos à sua volta lhe darão para sempre amor incondicional e ilimitado, sem que ela deva mostrar reconhecimento e retribuir?

Não sou especialista em psicologia infantil, mas sei bem que todos os bebés gostam, instintivamente, de agradar a quem os rodeia e os trata bem. Encantam-nos com os seus sorrisos, muito antes de saberem falar. À medida que crescem, deverão aprender aos poucos a exprimirem esses afectos, de acordo com os hábitos sociais e familiares. Chama-se a isto educar, e continuo a pensar que uma boa educação é, a par da protecção, do afecto e dos cuidados de saúde e higiene, o melhor que os pais podem fazer pelos seus filhos.

Posto isto, há outras coisas que é preciso ter em atenção. Sabemos que nem todos os adultos, mesmo fazendo parte da família, têm a mesma empatia com as crianças. Obrigá-las a mostrar afecto a um familiar com quem nunca teve uma relação próxima pode ser mutuamente constrangedor. Aqui, impõe-se o bom senso, mais do que fundamentalismos num ou noutro sentido.

Há ainda os casos, relativamente raros mas preocupantes, de adultos que molestam sexualmente crianças. Dizem-nos as estatísticas que a maior parte dos casos de pedofilia ocorrem com familiares ou amigos da família da vítima. Se uma criança dá sinais de perturbação perante a aproximação de determinada pessoa, isso deve constituir um sinal de alerta para pais e outros cuidadores. Mas nada disto se deve confundir com o receio infantil de beijar uma tia desconhecida que um dia apareceu lá em casa. Ou de se picar na barba do avô…

O radicalismo docente

stop.pngA recente formação e afirmação do novo Sindicato de Todos os Professores está a provocar uma onda de choque no tradicional sindicalismo docente. E faz ressurgir uma tese que há muitos anos é defendida pelos críticos do sindicalismo-que-temos mas que nunca foi, verdadeiramente, comprovada.

Essa tese tenta resolver a contradição clássica que enfrentam os movimentos sindicais quando enveredam pela luta reivindicativa: deve a luta ser branda, com objectivos limitados, mas mantendo ao máximo a unidade dos trabalhadores em torno de objectivos comuns? Ou é admissível, perante a ausência de resultados, correr o risco de uma radicalização que aliene o apoio dos sectores mais moderados?

A tese a que me refiro é a dos que contestam a “luta branda” e sem resultados significativos e defendem que uma “luta dura”, ainda que feita por uma minoria, respaldada no apoio dos sindicatos e, tanto quanto possível, na solidariedade dos colegas, pode obter mais e melhores resultados, rompendo a paz podre dos consensos paralisantes – à sombra dos quais os professores vêm lentamente perdendo estatuto social e remuneratório e assistindo à degradação das suas condições de trabalho.

Na fase actual da greve às avaliações esta clivagem entre uma maioria de professores que, tendo apoiado a greve, neste momento já a não estão a fazer, e uma minoria que continua determinada em prolongar esta luta até Setembro, de forma a desfazer o mito dos anos lectivos a abrirem “com toda a normalidade” pode permitir-nos avaliar as potencialidades desta luta de uma “vanguarda” irredutível.

Pois nas escolas de norte a sul do país coexistem situações muito variadas: embora a grande maioria tenha entrado, resolutamente ou a contragosto, na quase normalidade habitual desta época do ano, há também aquelas em que subsistem muitas reuniões de avaliação por fazer. Há conselhos de turma realizados irregularmente que terão de ser repetidos. Há directores que publicaram pautas com notas incorrectas e agora enfrentam os recursos dos pais. Há professores a desmarcar e a adiar férias e outros que se dispõem a gozá-las, nem que para isso tenham de faltar ao serviço ao abrigo da greve.

Se os professores em luta conseguirem fazer entrar a greve às avaliações por Agosto dentro, até à altura em que os directores terão mesmo de deixar os professores gozar as férias a que têm direito, então podemos adivinhar um verdadeiro caos em Setembro, nas escolas onde os alunos permanecem por avaliar. E onde a “normalidade” do lançamento do ano lectivo estará efectivamente posta em causa.

Capitalizar com esta luta, conseguindo converter a força e determinação dos professores em ganhos objectivos para a classe seria, neste contexto, uma importante e moralizadora vitória. Mas subsiste sempre o risco de a contestação se fechar em si mesma e de o progressivo isolamento dos resistentes os tornar vulneráveis ao inevitável endurecimento da posição do governo.

Apesar da curiosidade, os professores que de momento estão de fora não podem limitar-se a ser espectadores neutros, ainda que interessados no desfecho. Parafraseando Churchill, talvez nunca tantos professores tenham devido tanto, a tão poucos colegas que persistem na luta.

Choque com a realidade

train-in-vain.gifPor vezes nem as mais belas teorias aguentam o confronto com o mundo real.

Quando ideologias, religiões, convicções ou meras teimosias estão em nítida rota de colisão com a dura realidade…

O melhor é desviarmo-nos a tempo.

Heterodoxias: Terrorismo e religião

terrorismo.pngEnquanto aceitarmos o princípio de que a fé religiosa deve ser respeitada pelo simples facto de ser fé religiosa, será difícil negar o respeito à fé de Osama bin Laden e dos bombistas suici­das. A alternativa, tão óbvia que não devia ser preciso insistirmos nela, é abandonar o princípio do respeito automático pela fé reli­giosa. Esta é uma das razões pelas quais eu faço tudo o que está ao meu alcance para alertar as pessoas contra a fé em si mesma, e não apenas contra a chamada fé «extremista». Embora em si mes­mos não sejam extremistas, os ensinamentos da religião «mode­rada» são um convite aberto ao extremismo.

Poderá dizer-se que não há, neste aspecto, nada que faça da fé religiosa um caso à parte. O amor patriótico pelo país ou pelo grupo étnico a que se pertence também pode levar a querer afeiçoar o mundo a esta ou aquela versão de extremismo, não é verdade? Como acontece com os kamikazes do Japão e os Tigres Tâmil do Sri Lanka. Mas a fé religiosa é um silenciador especial­mente potente da reflexão racional, tendendo normalmente a sobrepor-se às outras filiações. Desconfio de que tal se deve sobre­tudo à fácil e enganadora promessa de que a morte não é o fim, e de que o céu do mártir é particularmente glorioso. Mas deve-se também, em parte, ao facto de ela, por sua própria natureza, desencorajar o questionamento.

[…]

Tal como o Islão, também o Cristianismo ensina às crianças que a fé inquestionável é uma virtude. Não é preciso defender aquilo em que se acredita. Basta anunciar que faz parte da nossa fé, e o resto da sociedade, quer partilhe a mesma fé, ou outra, ou nenhuma, é obrigado, por força da tradição, a «respeitar» a nossa crença sem a questionar; até ao dia em que ela se manifeste atra­vés de um horrível massacre como a destruição do World Trade Center, ou as bombas de Londres e Madrid. Depois assiste-se a um grande coro de repúdio, com os clérigos e os «líderes da comuni­dade» (a propósito, quem foi que os elegeu?) a perfilarem-se para explicar que tal extremismo constitui uma perversão da «verda­deira» fé. Mas como pode haver uma perversão da fé, se a fé, carecendo de uma justificação objectiva, não possui um padrão demonstrável que se possa perverter?

De uma maneira mais geral (e isto não se aplica menos ao Cristianismo do que ao Islão), o que é realmente pernicioso é a prática de ensinar às crianças que a fé, em si mesma, é uma vir­tude. A fé é um mal precisamente porque não exige justificação e não permite qualquer discussão. E na presença de vários outros ingredientes que não é difícil ocorrerem, ensinar às crianças que a fé incontestada é uma virtude molda-as de maneira a tornarem- se potenciais armas letais para futuras jihads ou cruzadas. Imuni­zado contra o medo devido à promessa do paraíso dos mártires, esse verdadeiro projéctil imbuído de fé merece um lugar de des­taque na história do armamento, ao lado do arco, do cavalo de guerra, do tanque e da bomba de fragmentação. Se se ensinasse as crianças a questionar e analisar reflectidamente as suas cren­ças, em vez de lhes ensinar a superior virtude de uma fé que nada pergunta, aposto que não haveria bombistas-suicidas. Estes fazem o que fazem porque acreditam efectivamente naquilo que lhes ensinaram nas escolas religiosas: que o dever para com Deus ultrapassa todas as outras prioridades, e que o martírio ao serviço dele será recompensado nos jardins do Paraíso. Ora essa lição foi -lhes ensinada não necessariamente por fanáticos extremistas, mas por instrutores religiosos que no fundo são gente boa, normal o afável, que fizeram as crianças sentar-se em filas nas madrassas, acenando ritmicamente com as suas cabecinhas inocentes para cima e para baixo enquanto decoravam cada palavra do livro sagrado como papagaios dementes. A fé pode ser muitíssimo perigosa, e implantá-la deliberadamente na mente vulnerável de uma criança inocente é um erro grave.

Richard Dawkins, A desilusão de Deus (2006).
Excerto da 7ª edição portuguesa, Casa das Letras, Lisboa, 2017, pp. 365-367.

A foto da semana

Esta foto da cimeira internacional sobre a condição docente tem dado que falar: mostra, em primeiro plano na delegação portuguesa, Mário Nogueira, secretário-geral da Fenprof, ao lado de Tiago Brandão Rodrigues, ministro da Educação.

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O ar descontraído e sorridente de ambos, sentados lado a lado, motivou de imediato alguns comentários de desagrado. Espontâneos e irreflectidos, uns, insidiosamente lançados, outros, pelos apologistas do desentendimento que pululam nas redes sociais: então professores e governo andam de candeias às avessas, estão por satisfazer quase todas as reivindicações dos professores, andámos há uma semana atrás a fazer greves – e agora estão ali os dois juntos, tão amigos?…

Para entender o que está em causa, impõe-se perceber, antes de mais, a natureza do evento: ao contrário de outras iniciativas oficiais, que servem fins de propaganda governamental e por onde desfilam apenas dirigentes e comissários políticos, nesta cimeira cada país participa com uma delegação de governantes e sindicalistas. Ou seja, a par dos ministros, que defendem as suas políticas, falam também, em igualdade de circunstâncias, os líderes sindicais dos professores, dando conta dos problemas que afectam a classe e do sentir colectivo dos profissionais que representam.

9a4m2d.JPGA participação dos sindicalistas, nacionais e estrangeiros, representa assim o aproveitamento da oportunidade de não deixar que políticos, burocratas e autoproclamados “especialistas” da Educação monopolizem  uma vez mais o debate político sobre a condição docente. Numa cimeira sobre os problemas e desafios que se colocam aos professores, agora e no futuro, só teríamos de censurar os nossos representantes sindicais se não tirassem partido da possibilidade de, com a sua presença e usando da palavra, contrariar o discurso oficial sobre as condições em que exercemos a nossa profissão.

Assumindo em pleno as reivindicações dos professores, a delegação da Fenprof não deixou os seus créditos por mãos alheias. Nem Mário Nogueira, apesar do fato de cerimónia, esqueceu o pin da mais recente iniciativa da Fenprof, que faz questão de lembrar a todos os esquecidos a enorme dívida ainda por saldar em relação aos professores: os nove anos, quatro meses e dois dias de tempo de serviço congelado que o governo não quer recuperar.

O Imperialismo Nazi Alemão está em Palmela

Não, não é uma nova temporada dos Malucos do Riso. É mesmo assim que o MRPP intitula o seu comunicado especialmente dirigido aos “Operários Portugueses”, redigido numa linguagem que nos faz remontar ao radicalismo revolucionário dos tempos do PREC e que já na altura se tornava ridícula nos seus manifestos exageros.

Em finais de Janeiro, declararam os nazis imperialistas alemães acantonados em Palmela, vamos iniciar o modelo de trabalho de 17 turnos semanais, que garante a produção aos sábados a dois turnos.

Os nazis imperialistas alemães da Autoeuropa pretendem fabricar um automóvel T-Roc com a pele, a carne e o sangue dos trabalhadores portugueses.

Toda a classe operária portuguesa deve unir-se como um só homem contra os nazis imperialistas alemães […].

Hoje, este discurso anacrónico deixa-nos perplexos: que assim escreve acredita nas suas próprias palavras? E mais: esperam convencer alguém desta forma?

Vendo com mais atenção, percebe-se que o MRPP está apenas a fazer jus à sua vocação de sempre, a de lançar gasolina para a fogueira. Um partido de extrema-esquerda que quando influiu nos acontecimentos políticos foi para fazer, com o seu radicalismo, o jogo da direita.

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O ministro radical

tiago-rodrigues-radical.JPGTiago Brandão Rodrigues revelou hoje, reagindo a uma interpelação de Mário Nogueira, uma faceta que ainda lhe desconhecíamos: a de defensor radical dos direitos dos professores.

Confrontada com um ministro troca-tintas e um ministério sem peso político e inteiramente subordinado à lógica economicista do Ministério das Finanças, a Fenprof retomou a velha estratégia das esperas ao ministro. E foi à entrada da Fundação Gulbenkian, onde ia participar na sessão de abertura do pomposamente designado 1º Congresso das Escolas, que Mário Nogueira interpelou Tiago Rodrigues:

“Viemos dizer ao senhor ministro que é responsabilidade sua reunir com os professores para discutir as condições de carreira e as questões do tempo de serviço. É um roubo durante nove anos terem-nos tirado salário e carreiras”, afirmou Mário Nogueira, sublinhando que os docentes “estão à espera de ter um ministro que os defenda na contagem do tempo de serviço que prestaram”.

Perante o repto lançado publicamente, o ministro não quis dar parte de fraco, e saiu-se com esta:

“Têm a minha palavra de que lutarei radicalmente pelos direitos dos professores. É preciso fazê-lo entre todos para que as condições do pessoal docente e pessoal não docente possam ser melhoradas inegavelmente e indubitavelmente.”

Nos próximos tempos iremos confirmar o que vale, de facto, a palavra de um ministro.

Em defesa da História e do padre António Vieira

pav.jpgA liberdade de expressão é um direito de todos os cidadãos, e o espaço público pode e deve servir para marcarmos posições e assumirmos divergências. O direito ao descanso e ao tempo livre nos dias feriados também não está em causa. Mas há ocasiões em que não consigo deixar de me perguntar se certas pessoas não estariam melhor a trabalhar do que a vir para a rua protagonizar cenas perfeitamente escusadas e lamentáveis…

Uma manifestação marcada em Lisboa para a tarde desta quinta-feira com o objectivo de protestar contra uma estátua do padre António Vieira, colocada recentemente no Largo Trindade Coelho, não conseguiu realizar a acção a que se tinha proposto: pôr flores ao pé da estátua e fazer uma performance poética. A causa para o impedimento foi a presença de um grupo da extrema-direita.

“Na tal democracia, estamos neste momento cercados por neonazis”, escreveu esta tarde, no Facebook, Mamadou Ba, dirigente da associação SOS Racismo, e um dos integrantes da organização “Descolonizando”. Esta organização marcou a manifestação e integra “investigadores, professores, artistas e activistas de diversas nacionalidades” com o objectivo de “reflectir, discutir e agir promovendo a construção de uma narrativa crítica, para a eliminação do racismo e da desigualdade”, segundo a página no Facebook.

O cartaz do protesto, intitulado “Descolonizando Padre António Vieira”, resume o que estava em causa para esta organização e o que motivou o protesto: “Não aceitamos essa estátua. Com a colaboração da Igreja, mais de seis milhões de africanos foram escravizados pelos portugueses no tráfico transatlântico. Padre António Vieira era um esclavagista selectivo. A colonização portuguesa no final do século XVI já tinha dizimado 90% da população indígena. A evangelização jesuíta foi a maior responsável pelo etnocídio ameríndio.” No cartaz, havia ainda um pedido a quem se juntasse ao protesto para levar flores, cartazes e velas que iriam integrar uma homenagem ao povo ameríndio na praça.

A manifestação, marcada para as 15 horas, tinha sido comunicada à Câmara Municipal de Lisboa, segundo Mamadou Ba. Mas quando os integrantes do protesto chegaram ao local foram surpreendidos, adiantou Mamadou Ba. “A estátua estava já cercada com elementos dos hammerskins [um dos grupos mais violentos da extrema-direita]”, disse o activista ao PÚBLICO, ao fim da tarde, por telefone.

Condeno, obviamente, a presença do grupo de extrema-direita que, com a sua contra-manifestação, impediu o grupo do SOS Racismo de se aproximar da estátua do padre António Vieira. Não é com actos intimidatórios ou violentos que devemos resolver as nossas divergências numa sociedade livre e democrática; é sim no plano da troca civilizada de argumentos que devemos tentar fazer valer o nosso ponto de vista e as ideias em que acreditamos.

Por essa razão devo acrescentar também que me parece incompreensível, e até certo ponto ridículo, que uma manifestação anti-racista e anti-esclavagista tome como alvo a figura do padre António Vieira. Que queiram julgar, quais inquisidores dos tempos modernos, um homem que no seu tempo foi preso, julgado e condenado pela Inquisição justamente por pensar pela sua própria cabeça.

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