A solução final, revisitada

Tentámos de todas as maneiras. Testámos todos os tipos de métodos. Você tenta métodos não letais e não funcionam. Só nos restam estas más opções. É mau.

A afirmação não é de Hitler, nem de qualquer dos responsáveis nazis pela solução final que conduziu ao massacre de milhões de judeus e de outras minorias étnicas e sociais indesejadas. Embora eles também só tenham recorrido às câmaras de gás porque, alegadamente, outras soluções “não letais”, como os guetos e os campos de concentração, não funcionaram.

Quem de facto proferiu estas palavras foi Benjamin Netanyahu, o primeiro-ministro israelita, tentando justificar o massacre, pela tropa de Israel, de mais de 60 palestinianos. A culpa destas mortes, segundo ele, não foi de quem disparou as armas, mas dos desgraçados que se foram colocar mesmo à frente das balas.

Quem diria, em 1945, que os ideais nazis do Estado racista, da conquista de “espaço vital” e da submissão das “raças inferiores”, deportadas ou confinadas a guetos, seriam tão fielmente recuperadas pelos descendentes dos que sobreviveram à guerra e ao genocício? Quem diria que a ideologia dos algozes sobreviveria através dos netos das vítimas?

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Colaborações: ComRegras

No Topo: Professor, não é qualquer um

Será legítimo, ao primeiro-ministro de um governo que acabou com o programa “Novas Oportunidades” e as suas “histórias de vida” em nome da exigência e do rigor na formação de adultos, entrar na docência universitária pelo topo da carreira, sem as habilitações ou o currículo académico relevante que a lei exige?…

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No Fundo: A escola “racista”

O discurso é insidioso e recorrente: crianças e jovens pertencentes a determinadas minorias étnicas, sobretudo ciganos e afrodescendentes, apresentam maiores taxas de insucesso e abandono escolar. Como aparentemente a escola não consegue proporcionar a estes alunos o mesmo sucesso que têm os outros, conclui-se, de forma apressada e irresponsável: a escola é racista. Ou, naquele sociologês pedante com que se pretende disfarçar o preconceito e a falta de rigor: há “racismo institucional” na escola portuguesa.

Não é “racismo institucional”. É a economia, estúpido!

criancas-africanas.jpgAlunos de origem imigrante frequentam menos anos e mais tardiamente o ensino pré-escolar e reprovam mais

O “racismo institucional” existe nas escolas portuguesas, onde a maioria dos alunos afrodescendentes tem piores notas, mais probabilidade de chumbar e são quase todos enviados para o ensino profissional, revela um estudo sobre “imigração e escolaridade”.

Provavelmente – deixem-me adivinhar – a população cigana ou a afrodescendente estarão muito subrepresentadas entre o universo de estudantes que frequentam o ISCTE. Para já não falar no que sucederá em relação ao corpo docente. Contudo, esta realidade evidente e insofismável nunca levaria os investigadores desta instituição a declarar-se praticantes do “racismo institucional” de que acusam as escolas portuguesas.

Pois, dirão eles, mas nós não escolhemos os nossos alunos: eles não chegam até nós porque são precocemente excluídos no percurso que fazem pelo básico e secundário. Certo, mas um raciocínio semelhante se aplica nos outros níveis de ensino. Não é a escola que exclui ou discrimina os alunos: são as condições económicas, sociais, familiares e culturais do seu meio de origem que determinam, em larga medida, o sucesso escolar e as oportunidades académicas dos alunos.

Há mais alunos negros ou ciganos a reprovar pela mesma razão que faz com que o insucesso também seja maior entre as crianças pobres do que entre as ricas. Ou que quem tem pais com formação superior mostre geralmente mais interesse pela escola, empenho nas tarefas escolares e, consequentemente, sucesso académico, do que os filhos de pais analfabetos.

Sinceramente, cada vez há menos paciência para esta sociologia de palas nos olhos, feita sempre em torno dos mesmos clichés e preconceitos, vendo a sociedade pelas lentes distorcidas dos seus “observatórios” em vez de a olhar tal como ela se apresenta. Uma sociologia do conformismo, profundamente reaccionária na medida em que desiste de analisar com rigor e acuidade os problemas sociais, preferindo abraçar causas e discursos tão inóquos como politicamente correctos.

Apelam à escola para que mude, sabendo que a mudança necessária vai muito para além da escola: passa por corrigir as causas profundas que geram pobreza, exclusão e desigualdade na sociedade. Mas não querem, indo por aí, incomodar algum “curador” da Fundação em que transformaram o ISCTE. Contentar-se-iam com uma escola que fabricasse sucesso fictício, que desse diplomas independentemente do saber adquirido, apenas para demonstrar que a “inclusão” funciona.

E nem se apercebem de como os próprios factos que observam entram em contradição com as conclusões preguiçosas que tiram: nem todos os filhos de imigrantes são mal sucedidos na escola. O grau de instrução dos pais, o nível económico das famílias, as expectativas destas em relação à escola e a motivação que conseguem transmitir aos filhos são, esses sim, fortes preditores de sucesso escolar. Não é a barreira linguística ou cultural que faz com que uma criança chinesa ou moldava tenha, em média, melhor aproveitamento escolar do que um menino cigano ou de origem africana. Como aliás os doutos investigadores acabam a reconhecer…

Os dados mais recentes revelam a persistência destas desigualdades e evidenciam que “as desvantagens recaem sobre certos grupos de imigrantes, podendo outros igualar ou ultrapassar os resultados dos nacionais”, nomeadamente os oriundos da China, França, Moldávia, Espanha e Ucrânia.

Campos nazis na Polónia ou campos da morte polacos?

auschwitz.JPGO Senado da Polónia aprovou na quarta-feira uma polémica lei sobre o Holocausto, que tem como objetivo “defender a imagem do país”, sob fortes críticas de Israel, que acusa Varsóvia de “querer reescrever a história”.

O projeto-lei prevê um máximo de três anos de prisão ou o pagamento de uma multa a quem utilize a expressão “campos da morte polacos” para denominar os campos de concentração instalados no país pelo regime nazi durante a II Guerra Mundial. As mesmas sentenças estão previstas para quem acusar a Polónia de cumplicidade com o Holocausto.

A relação da Polónia com o nazismo, o anti-semitismo e o Holocausto é ainda hoje difícil, complexa e contraditória. Invadidos e ocupados pelos Nazis, os Polacos viram ser instalados no seu território os principais campos da morte que serviram a “solução final” aplicada a judeus, ciganos e outras minorias étnicas e sociais que não teriam lugar no futuro Reich. É natural, e compreensível, que não gostem de ser associados e responsabilizados pelo genocídio perpetrado, no seu território, pelos ocupantes nazis.

Mas também é verdade que o anti-semitismo estava já disseminado na Polónia antes da guerra – e existe ainda hoje em franjas consideráveis da população polaca – tanto ou mais do que na própria Alemanha. Só que nada na História é a preto e branco: se muitos polacos colaboraram com os ocupantes nazis na perseguição, deportação e extermínio de judeus, em Auschwitz e noutros locais, também não foram poucos os que resistiram e acabaram também como vítimas da barbárie nazi.

Na sequência da invasão e ocupação da Polónia pela Alemanha nazi – considerada uma das mais brutais da II Guerra – morreram 2,77 milhões de polacos e ainda 2,9 milhões de judeus polacos.

Os polacos são a nacionalidade com mais cidadãos distinguidos pelo museu Yad Vashem por salvar vidas de judeus durante a guerra – 6706 cidadãos (num total de 26.513). Muitos polacos foram mortos por terem escondido judeus nas suas casas (a pena era a morte de todos os habitantes da casa).

A Polónia foi também o país com o maior movimento de resistência aos ocupantes nazis. O Armia Krajowa (Exército Nacional) era a mais importante força de resistência e era leal ao governo polaco exilado em Londres, chegando a ter cerca de 300 mil combatentes depois de ter absorvido a maior parte de outros movimentos de resistência.

Muitos polacos aproveitaram a situação da altura para tirar vantagens para si próprios. Existe uma palavra, szmalcownik, para designar os que informavam sobre os judeus escondidos para obter recompensas, ou chantageavam os próprios judeus ou os polacos que os escondiam.

O número de colaboracionistas polacos é de “muitos milhares”, diz o “caçador de nazis” Efraim Zuroff do Centro Simon Wiesenthal.

Julgo que o problema maior, em relação à Polónia, já nem é tanto o que aconteceu durante a guerra e o Holocausto mas sobretudo a forma como a sociedade lidou com essa memória histórica no pós-guerra. Enquanto na Alemanha o legado nazi foi radicalmente renegado, na Polónia, um dos países onde o nazismo causou mais mortes e sofrimento, os Polacos assumiram o papel de vítimas, o que de certa forma os dispensou de uma profunda auto-crítica em relação a sentimentos racistas e anti-semitas ainda hoje presentes num país que, dizem os estrangeiros por lá residentes, continua a denotar preocupantes sinais de xenofobia. E quando governos e parlamentos populistas cavalgam estes sentimentos em vez de os contrariar, as coisas podem facilmente dar para o torto. Como nota, acertadamente, o editorialista do Público:

Esta lei não surge só como alegada “prevenção” contra difamações ou provável tentativa de negação da História, mas como fruto de uma alma nacionalista inflada por uma crescente demagogia política. Em Novembro passado, muitos milhares de polacos exigiram nas ruas, no seu Dia da Independência, uma “Europa branca” de “sangue limpo”, gritando palavras de ordem contra refugiados, muçulmanos, judeus, e homossexuais. O ministro do Interior disse-se “orgulhoso”, e não se demarcou do que o mundo viu ou ouviu.

A actual lei é apenas mais um tijolo no muro antieuropeu que na Polónia se vai erguendo.

Colaborações: ComRegras

No Topo: Quem quer ser professor?

Apesar de praticamente não terem entrado novos profissionais para o sistema nos últimos dez anos e de o ensino superior não ter deixado de formar novos professores, a verdade é que, pelo menos em algumas disciplinas, em certos tipos de horários e em determinadas zonas do país, já há vagas para substituições temporárias que ficam, ao longo de semanas sucessivas, por preencher…

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No Fundo: Discriminação e racismo na escola pública

Apesar de o caso que esta semana foi publicamente divulgado se referir a uma escola do concelho de Portimão, a acusação será extensiva a outras escolas do país que alegadamente discriminam alunos de minorias étnicas, colocando-os em turmas “especiais”…

Discriminação e racismo numa escola de Portimão?

group_animated[1]A acusação à Escola Básica Major David Neto parte da associação SOS Racismo:

Em nota enviada à agência Lusa, a associação SOS racismo dá conta das denúncias efetuadas por vários encarregados de educação de alunos de uma turma do 4.º ano daquela escola, entre as quais alegadas agressões verbais e físicas por parte de funcionários e discriminação de crianças de outras etnias.

De acordo com as denúncias dos pais, a escola “tem uma turma onde colocou todas as crianças de etnia cigana, crianças com deficiências e crianças de raça negra, e crianças de ‘raça branca’ que são transferidas de outras escolas”, situação que classificam de “maior absurdo, porque a mistura racial e cultural enriquece a todos”.

Segundo os pais, a situação toma mais relevância, ao tomarem conhecimento de que as crianças de etnia cigana comem de pé, alguns deles colocados estrategicamente ao pé do caixote do lixo”.

Se as coisas se passam exactamente da forma que é descrita, então será evidente a atitude discriminatória em relação aos alunos referidos. Também é certo que educar exige  uma atitude pedagógica dos educadores: não é expectável que a dar maus exemplos aos alunos mal comportados eles aprendam a respeitar os outros ou se tornem melhores pessoas.

Em todo o caso, esperar que a escola, ao mesmo tempo que ensina, integre e socialize todas as crianças, resolvendo problemas complicados de origem social e familiar, exige um conjunto de meios e de condições, humanas e materiais, que geralmente não estão disponíveis. Isto não serve de desculpa para o indesculpável, mas ajuda a compreender que há situações em que as soluções ideais não existem e as decisões que se tomam são quase sempre em busca do mal menor.

Para que se perceba melhor: quando se juntam numa só escola um número apreciável de alunos pertencentes a uma minoria étnica ou cultural com dificuldades de integração, isso significa que, antes de a escola fazer alguma coisa, já a sociedade os “guetizou”. Não conheço o caso em concreto da escola de Portimão, mas se eventualmente as crianças que se apresentam como problemáticas estivessem distribuídas pelas diversas escolas da cidade, a sua integração seria certamente mais fácil.

No entanto, falta saber o que os responsáveis da escola e do agrupamento, bem como a autarquia, responsável pelas refeições escolares, terão a dizer sobre o assunto. Aguardemos, com serenidade, os indispensáveis esclarecimentos.

O apartheid palestiniano

issa.JPGQuase a finalizar o ano, um exemplo de coragem e determinação na luta contra o último bastião do racismo, do colonialismo e do apartheid enquanto políticas de Estado: Israel. Um homem que luta contra o expansionismo sionista não com pedras ou bombas, como desejam os governantes israelitas, para justificar novas violências, prisões e anexações, mas com a força da razão: a denúncia, o protesto pacífico, a desobediência civil.

Este não é um caminho fácil, mas se for seguido com perseverança e determinação perante estados repressivos, mas formalmente democráticos, acaba por dar frutos a médio e longo prazo. Foi assim na Índia Britânica, na África do Sul, nos EUA. Daí o empenho quotidiano das autoridades israelitas em fomentar o ódio e a violência entre os palestinianos, para que entre eles nunca se consiga afirmar um futuro líder com a estatura de um Gandhi, um Mandela ou um Luther King.

Issa Amro é um ativista palestiniano que não passa despercebido às forças israelitas que ocupam o território da Cisjordânia. A casa onde vive, na área de Tel Rumeida, em Hebron, fica paredes meias com um colonato problemático, onde uma pequena comunidade de judeus radicais vive protegida por militares israelitas em maior número. E fazem o que querem.

À casa de Issa — onde funciona a organização Juventude Contra os Colonatos (YAS), que fundou — rumam, diariamente, ativistas, jornalistas, políticos e diplomatas de todo o mundo, incluindo de Israel, para ouvirem, na primeira pessoa, como se (sobre)vive numa cidade onde vigora uma situação de “apartheid” que, aos poucos, vai vencendo a população palestiniana pelo cansaço. Mas não Issa.

O Expresso visitou-o em março de 2013. Os colonos tinham acabado de tentar incendiar-lhe a casa, pela calada da noite. “Apresentei queixa. Foi a quarta vez, mas nunca acontece nada. Sou sempre culpado até prova em contrário”, disse este defensor da resistência pacífica e da desobediência civil.

Esta terça-feira, Issa (Jesus, em árabe), de 37 anos, compareceu diante de um tribunal militar israelita, na prisão de Ofer (na Cisjordânia), para responder por 18 crimes, alguns deles praticados em 2010. (A acusação foi formulada apenas em 2016.) Entre as ofensas estão uma cuspidela a um colono, obstrução e insultos aos soldados israelitas, protesto ilegal, entrada em zona militar exclusiva e incitamento à desobediência civil.

Para o ativista, tudo não passa de perseguição política. “Eu divulgo muitos vídeos que os embaraça. Eles não querem palestinianos moderados por aqui, daqueles que falam com diplomatas sobre a solução de dois Estados.”

Quanto a Israel, se conseguiu concretizar a aspiração milenar do povo judeu a uma pátria palestiniana e impor, através da superioridade militar, o reconhecimento pelos estados vizinhos e pela comunidade internacional, a recusa obstinada em permitir a criação de um estado palestiniano evidencia que o país dos judeus continua a ser um estado pária a nível internacional, comportando-se externamente como um país colonialista, conquistando territórios que não lhe pertencem e expulsando os seus habitantes e internamente como um estado racista, com semelhanças evidentes com o apartheid da antiga África do Sul. Só que aqui os palestinianos ocupam o lugar dos negros e os territórios controlados pelo Hamas e a Autoridade Palestiniana fazem as vezes dos bantustões. Ou, se não quisermos ir tão longe, comparável ao segregacionismo que persistiu no sul dos EUA até à década de 60 do século passado…

De visita a Hebron, em março passado, onde conheceu Issa Amro, o ator norte-americano Richard Gere comparou a ordem ali vigente às Leis de Jim Crow, nos EUA, que instituíram a segregação racial entre 1876 e 1965. “Isto é exatamente como era o velho sul da América. Os negros sabiam onde podiam ir. Não podiam beber daquela fonte, não podiam ir àquele lugar, não podiam comer naquele sítio. Estava claro, e não se pisava o risco se não se quisesse levar um pontapé na cabeça ou ser linchado.” É ao que se arrisca Issa Amro, diariamente, na Palestina.