O racismo bonifácio e a direita observadora

Entre as muitas reacções que a crónica de Fátima Bonifácio continua a suscitar – maioritariamente de condenação e repúdio – há também quem defenda as opiniões da autora. Sem surpresa, a maioria dos apoiantes surgem nas páginas digitais do Observador, como se vê nesta montagem oportuna d’Uma Página Numa Rede Social:

Fugindo à luta ideológica mais óbvia e evitando defender o indefensável, há quem procure alargar a discussão, não se limitando a enquadrar e justificar as opiniões da autora mas procurando novas perspetivas para analisar o tema do momento.

É o que faz, bem, Gabriel Mithá Ribeiro, num texto ponderado e inteligente. Mesmo não concordando com tudo, não hesito em subscrever, no essencial, o seu ponto de vista: não têm ser os homens brancos do ISCTE, como o Rui Pina Pires que suscitou a polémica, a falar em nome dos supostos interesses e necessidades de africanos, ciganos ou outras minorias. É certo que se acham investidos de uma superioridade moral e científica que lhes dá o direito de serem eles, e não o povo em eleições, a definir o que chamam as “políticas públicas”. Mas o que isto representa é uma menorização cívica das minorias que devem ter uma voz própria na sociedade. Tal como, exemplifica Gabriel, os idosos não representam os jovens, nem os homens podem arrogar-se o direito de falar em nome das mulheres.

Acrescente-se que a diversidade étnica e cultural entre os afrodescendentes é muito superior à existente entre os povos europeus. A percepção que os próprios têm dessa realidade não deve ser interpretada, à maneira de Bonifácio, como uma demonstração de racismo entre os próprios africanos, mas sim como a coexistência de diferentes etnias, graus de miscigenação e culturas entre os afrodescendentes. Não podemos incluir todos numa única categoria de “negros”, como faziam os negreiros quando descarregavam os navios carregados de escravos em portos portugueses e brasileiros – e por vezes fazem também, certamente com boas intenções, alguns militantes anti-racismo. E mais: além das diferentes linhagens africanas, ciganas ou mestiças, existem, acima de tudo, pessoas. Talvez seja essa a chave para um dia ultrapassarmos de vez a dicotomia do racismo e do anti-racismo: conseguirmos tratar todos os cidadãos portugueses com a dignidade a que todos têm direito, respeitando os direitos e a individualidade de cada um.

Há outro ponto em que Mithá Ribeiro tem razão: os problemas das minorias estão, em grande medida, associados à pobreza persistente nas respectivas comunidades. Seja pela tradição nómada dos ciganos, pelo trabalho precário e mal remunerado de que sobrevivem muitos afrodescendentes, pela baixa escolarização e o desemprego forçado de uns e de outros, a verdade é que fazem parte do vasto grupo dos portugueses pobres. Alojados precariamente em construções clandestinas ou em bairros sociais, estas pessoas são em grande medida invisíveis aos olhos da gente bem que não convive com negros e ciganos, mas está na primeira linha da condenação do racismo. São os brancos pobres, forçados a conviver de mais perto com grupos étnicos não integrados e por vezes problemáticos, os que acabam por sentir os efeitos das tensões étnicas. E por alimentar os sentimentos racistas que a extrema direita tenta habilmente explorar.

Uma panóplia de brancos discutiu com vivacidade clubística o destino das minorias raciais sem que indivíduos que partilham essas identidades interviessem. Pelo menos, com ou sem a opinião de «pretos» e ciganos, nada se alteraria numa troca de argumentos entre brancos. A omnisciência branca ou, em rigor, o narcisismo branco basta-se a si mesmo.

Este novo paternalismo branco limitou-se a reciclar o do tempo colonial. Agora já não é o dever moral dos brancos «civilizar e cristianizar os pretos» mas proteger os ditos cujos, mais os ciganos, da «discriminação». As raças inferiores, essas, continuam no quintal, no recreio, infantilizadas. […]

É preciso deixar muito claro que a questão racial tem uma dimensão de dor psicológica para a intimidade de negros, mestiços, mulatos, ciganos e outros mais, e pode não ser tanto pelas razões propaladas, antes por uma impossibilidade quase genética de os indivíduos se descartarem de responsabilidades próprias no seu destino, nos seus sucessos e falhanços. Trazer tais matérias para a praça pública pode ser justamente o contrário da solução que a sanidade mental dos indivíduos pode necessitar. Há matérias em que não se deve ser invasivo da intimidade, sensibilidade, identidade de terceiros. Se é para ser estridente, desbocado, deixem que as minorias o façam na primeira pessoa.

O racismo no reino dos Bonifácios

apartheid.png[…] As mulheres, que sem dúvida têm nos últimos anos adquirido uma visibilidade sem paralelo com o passado, partilham, de um modo geral, as mesmas crenças religiosas e os mesmos valores morais: fazem parte de uma entidade civilizacional e cultural milenária que dá pelo nome de Cristandade. Ora isto não se aplica a africanos nem a ciganos. Nem uns nem outros descendem dos Direitos Universais do Homem decretados pela Grande Revolução Francesa de 1789. Uns e outros possuem os seus códigos de honra, as suas crenças, cultos e liturgias próprios.

Os ciganos, sobretudo, são inassimiláveis: organizados em famílias, clãs e tribos, conservam os mesmos hábitos de vida e os mesmos valores de quando eram nómadas. E mais: eles mesmos recusam terminantemente a integração. […]

Africanos e afro-descendentes também se auto-excluem, possivelmente de modo menos agressivo, da comunidade nacional. Odeiam ciganos. Constituem etnias irreconciliáveis, e desta mútua aversão já nasceram, em bairros periféricos e em guetos que metem medo, batalhas campais só refreadas pela intervenção policial. Os africanos são abertamente racistas: detestam os brancos sem rodeios; e detestam-se uns aos outros quando são oriundos de tribos ou “nacionalidades” rivais.

O texto polémico de Fátima Bonifácio demonstra bem como o preconceito racial e o chamado racismo estrutural continuam presentes em Portugal. Partindo de uma sugestão infeliz de Rui Pena Pires – mais um sociólogo-isczé arvorado em mentor ideológico do PS – que passaria por aumentar a representatividade política das minorias através de um sistema de quotas, a colunista do Público destila azedume, ignorância e preconceito contra ciganos e africanos. É verdade que, como diz, não se integra por decreto. Mas por aquilo que escreve fica-se a perceber que o seu objectivo é mesmo o de não integrar.

Claro que as quotas para negros ou ciganos, na política por exemplo, não fazem sentido. O que o PS e todos os partidos conscientes do problema devem fazer, isso sim, é promover uma maior diversidade entre os detentores de cargos públicos. Como fez, muito bem, António Costa – ele próprio descendente de indianos – ao chamar para o seu governo uma ministra negra e um secretário de Estado de etnia cigana. Não se trata de nomear alguém especificamente por causa da sua etnia, mas de destacar pessoas competentes e bem sucedidas profissionalmente para cargos públicos, mostrando que a etnia não deve constituir barreira ao seu acesso.

Mas Fátima Bonifácio parece não entender nada disto. Uma incompreensão especialmente grave, sendo a senhora uma conceituada historiadora do século XIX português. Como é possível a baralhada de conceitos e anacronismos, misturando a “Cristandade” com a Revolução Francesa – que combateu precisamente a ideia do Estado confessional, defendendo a laicidade – ou confundindo a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão – essa sim, um produto da Revolução Francesa – com a Declaração Universal dos Direitos do Homem, surgida mais de 150 anos depois?

E que dizer da ideia, típica do pensamento racista, de que os ciganos são “inassimiláveis”? Será preciso lembrar que estão assimilados em vários países europeus? Sabendo-se que as primeiras comunidades existem em Portugal há mais de 500 anos, a falta de integração não pode se apenas uma “culpa” dos ciganos. E hoje, quando o mundo em que a cultura cigana construiu as suas crenças e vivências já não existe, a integração plena dos ciganos, em plena igualdade de direitos e obrigações com os restantes cidadãos, deve ser uma prioridade. O que passa, por exemplo, por apoiar os jovens – e mais ainda as jovens, algumas delas verdadeiras heroínas – que querem continuar a estudar e almejam um futuro diferente daquele que a cultura e mentalidade tradicional do seu povo habitualmente lhes reserva.

Quanto aos comentários sobre os “africanos”, Bonifácio parece ser daquelas pessoas que colocam na categoria de “pretos” todos os oriundos da África subsariana. Como historiadora, deveria reconhecer a diversidade étnica e cultural do continente negro, muito maior do que a existente na Europa. Claro que a cabo-verdiana não quer ser confundida com a angolana. Tal como a cronista não gostaria de ser confundida, noutro país, com uma espanhola ou uma russa. E faria questão, certamente, de vincar a sua nacionalidade.

O discurso racista de Fátima Bonifácio ressoa a ideias passadas: parece distante do nosso tempo. Mas não: este neo-reaccionarismo é típico da amálgama em que se está a tornar a nova direita, onde, como explica Rui Tavares, tanto se misturam populismos e elitismos, como coexistem liberalismos e autoritarismos. No caso da historiadora deveria existir, até por dever de ofício, um pouco mais de discernimento…

Se há coisa que todos os historiadores devem saber é que inevitavelmente nos tornaremos artefactos históricos. Chega sempre um momento em que aquilo que escrevemos passa a valer mais como documento do passado do que como análise do presente. Só convém ter cuidado para não cair no século errado.

Alcoholocausto – um carro polémico na Queima de Coimbra

alcoholocausto.jpgA Queima das Fitas de Coimbra, cujo cortejo ontem se realizou, continua a ser notícia pelos piores motivos. Este ano, os finalistas do curso de História não encontraram tema mais interessante para o carro em que desfilaram do que uma espécie de paródia do Holocausto. Alcoholocausto era o nome que tinham para o baptizar, e só a onda de contestação no interior da Faculdade de Letras os forçou a, não desistindo da ideia, retirar o nome ofensivo.

Tentar descortinar os antecedentes desta ideia infeliz leva-nos a questões preocupantes. O que é que gente desta anda a fazer num curso de História? Como é possível ser finalista, quase “doutor”, como os praxistas se gostam de designar, e não ter um mínimo de noção sobre o que foi o Holocausto? Não perceber que há formas de o evocar que são, simplesmente, inaceitáveis, qualquer que seja a perspectiva e o contexto? Independentemente dos conhecimentos académicos – até acredito que, tal como nos meus tempos de estudante, o nazismo não faça parte das matérias de estudo – não adquiriram um mínimo de sensibilidade e espírito crítico? Não aprenderam que a História não se faz de achismos, de preconceitos, de factos avulsos e anedóticos, mas do conhecimento e da compreensão profundos das realidades de cada época e das pessoas que nela viveram?

Leia-se, por exemplo, o testemunho de duas professoras da faculdade em que estudam estes alunos:

Adriana Bebiano foi uma das professoras da FLUC a falar diretamente com os estudantes em causa. “Não podemos identificar todos, mas alguns são e reproduzem um discurso antissemita”, disse ontem ao DIÁRIO AS BEIRAS. Para a docente, tanto o nome de carro como o comboio (que tem como referente os comboios de deportação de milhões de seres humanos para os campos da morte), são “uma brincadeira de mau gosto e de falta de respeito pelo holocausto, pela memória do maior genocídio da história ocidental moderna e uma falta de noção do que é a responsabilidade implicada no conceito de liberdade de expressão”.
“O respeito pela memória mais trágica da história europeia, devia fazer parte da ética e, já agora, constituir o cerne da formação em História”, notou.
Para Catarina Martins, o argumento da “liberdade de expressão” dado pelos alunos cai por terra quando se trata de um genocídio.
“A herança de 25 de Abril é da defesa da liberdade com garantia de direitos e respeito pelas diferenças, o que implica o combate de tudo que possa conduzir à repetição de fascismos. Banalizar a história dos fascismos é uma estratégia que serve para fomentá-los”, adverte. 

E perceba-se, finalmente, que isto não foi um acaso infeliz. Estes jovens parecem mesmo convencidos de que a vida num campo de concentração teria o seu quê de divertido. Nota-se uma fixação perturbadora num conjunto de ideias que tentam, nas suas festarolas académicas, reproduzir…

O “fascínio” não é de agora: em outubro do ano passado, no Cortejo da Festa das Latas, os “doutores” do curso de História da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra desafiaram os caloiros a vestirem-se de judeus e nazis. Serão os mesmos que pretendiam, no próximo domingo, no cortejo da Queima das Fitas, desfilar com um carro a que deram o nome de “Alcoholocausto” e onde ostentariam o símbolo de um comboio. 

Tentando emendar a mão, os estudantes dizem agora que a crítica que pretendem fazer é à própria universidade e ao curso que frequentam. Queixando-se da falta de liberdade de expressão, ensaiam um discurso de vitimização que acaba por ser sempre uma saída airosa nestas situações. Não convencem…

Os elementos do carro lamentam as críticas da opinião pública. No lugar do nome, estará um ponto de interrogação e mensagens como “com esta polémica toda, parece que há Polícia Académica”.

Segundo André Oliveira, um dos elementos do carro, “não foi dado o benefício da dúvida e ninguém se mostrou disponível para dialogar a não ser o diretor da Faculdade de Letras”. “Quisemos alertar que vamos sair daqui licenciados em História sem nunca abordar este tema e nós quisemos que ele não caísse no esquecimento”, aponta.

O carro de História vai, durante o desfile, distribuir folhetos a evocar o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto.

Etnia não é fantasia de Carnaval

cristiana-xia-wu.pngFoi há dias noticiada e comentada a celebração carnavalesca da “raça africana” promovida por uma escola de Matosinhos. Mas não foi caso único. No Marco de Canavezes, acha-se natural fantasiar as crianças como chineses “de olhos em bico”.

Estas iniciativas, encaradas com a ligeireza do “é Carnaval, ninguém leva a mal”, são mesmo assim reveladoras de um certo tipo de racismo há muito naturalizado entre nós e tão interiorizado que a maioria das pessoas nem dá conta da sua existência. Mas existe, e as pessoas que são alvo destes estereótipos discriminatórios e preconceituosos sentem-no facilmente. A palavra a Cristiana Xia Wu, uma jovem inteligente e sensível que nos explica claramente o que tantos têm dificuldade em entender:

Era uma noite banal, estava no meu telemóvel e apareceram no Twitter umas fotos de um desfile de Carnaval, cujas pessoas estavam aparentemente vestidas de “chineses”. À primeira vista, nem sequer tinha reparado nesse aspecto, mas foi depois de ler as mensagens dos cartazes nas mãos das pessoas que me apercebi do que é que se tratava. “Socorro! Quero sair desta invasão!”, “Os chineses são espertos, apesar de terem olhos em bico”, diziam. A minha primeira reacção foi de choque. Sei que estes preconceitos existem, mas a manifestação dos mesmos foi tão directa que tive de pensar por uns momentos para processar o que li. As pessoas bem dizem que “é Carnaval, ninguém leva a mal”, mas essa frase nem passou pela minha cabeça. Como é que não poderia levar a mal quando essas mensagens têm um impacto nas pessoas com origem chinesa?

Senti-me desconfortável. As tais fotografias levaram-me ao passado, aos tempos em que não sabia como reagir quando as pessoas gozavam com a minha aparência ou quando elas faziam comentários negativos em relação a nós. Desde pequena, formei uma barreira de defesa em relação a essas atitudes preconceituosas e passei simplesmente a ignorar cada vez que ouvia palavras ignorantes. Não valia a pena ficar triste e perder tempo a pensar nessas coisas — era assim que pensava quando era apenas uma criança.

Porém, naquela noite não consegui ficar indiferente. Simplesmente não podia. Desde que comecei a estudar no Reino Unido, e tendo conhecimento das experiências da minha irmã que estuda nos Estados Unidos, apercebi-me que Portugal tem um problema muito sério em relação ao racismo. O racismo está tão interiorizado que actos que deviam ser considerados como sendo tal, não são. Tudo é considerado uma pura brincadeira. Só porque não expressamos o nosso descontentamento, não significa que aceitamos tais atitudes. Aliás, a maior parte das pessoas não aceita que está a ser racista porque não estão conscientes. Há uma falta de espaço na sociedade para aceitar acusações de racismo quando as mesmas acontecem. Além disso, onde é que está o nosso direito de nos sentirmos ofendidos?

Quando se analisa o racismo, mesmo na versão branda e dissimulada que é a mais habitual entre nós, tende a ver-se apenas os danos que ele causa àqueles que toma como alvo. Mas talvez ganhássemos em perceber que a atitude discriminatória, ainda que condescendente, em relação ao Outro, também diminui quem a pratica. E empobrece-nos a todos enquanto sociedade. Uma vez mais, são sábias as palavras da jovem luso-chinesa que venho citando…

…simplesmente, quero chamar a atenção das consequências desse tipo de desfile. Pensem no tipo de cidadãos que querem formar. Pensem na possibilidade de formar pessoas com uma mente aberta, livre de preconceitos. Pensem na possibilidade de uma sociedade portuguesa diversa e rica culturalmente. Ninguém gosta de pessoas intolerantes, certo?

E eu pensarei nas crianças chinesas que nasceram cá em Portugal e que viram esse espectáculo, tentando encontrar a melhor solução para que elas não se sintam desconfortáveis nas suas peles, porque não há nada de errado em ter origem chinesa. Não devemos sentir que temos de negar uma parte da nossa identidade para nos sentirmos mais aceites pela maioria. Podemos ser perfeitamente ambos — portugueses e chineses, tendo orgulho em ambas as culturas.

No Carnaval também se leva a mal

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O tema é polémico. Uma escola básica de Matosinhos decidiu aproveitar a quadra carnavalesca para celebrar “as raças”.  A diversidade cultural, quereriam eles dizer. Mas saiu aquela expressão infeliz. E a partir daí, não se encontrou melhor forma de concretizar o objectivo do que pedir a miúdos e graúdos que fossem mascarados de “africanos”. Incluindo, na fantasia, pintar a cara de preto.

Acredito que a intenção fosse boa. Mas o chamado blackface, que ocorre quando um branco se fantasia de negro, recorrendo a estereótipos associados a culturas e etnias africanas – a pele pintada de preto, a carapinha, os trajes garridos – é historicamente considerado uma manifestação de racismo. E a iniciativa gerou polémica nas redes sociais…

Fora do desfile, alunos e alguns adultos posaram para a fotografia. O momento foi partilhado na mesma rede social onde tinha feito o anúncio. Cara pintada de negro, perucas fartas e encaracoladas, trajes coloridos e tribais, saias de palha, colares de missangas e argolas no nariz, há um grupo de adultos que posa para a posteridade com sorriso largo. O mesmo acontece numa foto de grupo com os alunos. O objectivo, diziam, era promover a diversidade.

Mas há quem ache precisamente o contrário e o acontecimento não passou em claro na página de Facebook de um movimento que denuncia casos de Blackface em Portugal. A celeuma subiu de tom a associação de pais acabou mesmo por remover a publicação original.

Face a este imbróglio, a Associação de Pais e Encarregados de Educação da Escola Básica do Godinho lançou um comunicado. Diz a nota publicada no Facebook que no desfile estavam presentes outras escolas do Agrupamento de Escolas de Matosinhos (AEM), que, “juntamente com os professores das escolas”, escolheram para este desfile o tema Culturas do Mundo. Na sequência desta decisão ficou decidido que a EB do Godinho representaria o continente africano. Entre outras, “foram representadas várias culturas”, como a brasileira e a chinesa. O propósito, lê-se, seria “celebrar a diversidade cultural”.

Para isso, “nas semanas anteriores” ao desfile, o tema foi levado para a sala de aula para que os alunos pudessem conhecer a “riqueza cultural de cada povo”.

Lê-se no comunicado que “as vestes usadas tentaram representar a riqueza da sua cultura, com os tecidos tradicionais africanos”. A AP lamenta que esta abordagem “tenha sido interpretada como Blackface”, sublinhando que não foi essa a intenção, “nem nunca esteve subjacente qualquer comentário racista”.

Enquanto a ideia de escola de sucesso continuar conotada com a necessidade de promover sempre novas actividades, cada vez mais originais e criativas, há sempre o risco de se embarcar em iniciativas insensatas, de que posteriormente nos vimos a arrepender. Tentarem celebrar o multiculturalismo e acabarem acusados de racistas não estaria certamente nas expectativas dos organizadores. O que sugere que talvez uma escola mais crítica e reflexiva e menos folclórica possa constituir uma mais-valia para todos. Como se vê, os conhecimentos que permitem compreender e enquadrar as realidades históricas e culturais não são substituíveis por competências na área da caracterização e da maquilhagem…

Quanto à dita diversidade cultural, penso que passará mais por uma verdadeira integração dos descendentes de caboverdianos, angolanos, guineenses, brasileiros, chineses e europeus de diversas origens que temos entre nós, de forma a que possam estar presentes em todas as escolas, e não apenas nas que servem os guetos em que se tendem a tornar algumas comunidades. Esse é o verdadeiro multiculturalismo, que não exclui ninguém e deixa espaço à afirmação e à convivência das diferentes culturas. Em que ninguém precisa de se disfarçar de caricatura do outro, tentando ser aquilo que não é…

A solução final, revisitada

Tentámos de todas as maneiras. Testámos todos os tipos de métodos. Você tenta métodos não letais e não funcionam. Só nos restam estas más opções. É mau.

A afirmação não é de Hitler, nem de qualquer dos responsáveis nazis pela solução final que conduziu ao massacre de milhões de judeus e de outras minorias étnicas e sociais indesejadas. Embora eles também só tenham recorrido às câmaras de gás porque, alegadamente, outras soluções “não letais”, como os guetos e os campos de concentração, não funcionaram.

Quem de facto proferiu estas palavras foi Benjamin Netanyahu, o primeiro-ministro israelita, tentando justificar o massacre, pela tropa de Israel, de mais de 60 palestinianos. A culpa destas mortes, segundo ele, não foi de quem disparou as armas, mas dos desgraçados que se foram colocar mesmo à frente das balas.

Quem diria, em 1945, que os ideais nazis do Estado racista, da conquista de “espaço vital” e da submissão das “raças inferiores”, deportadas ou confinadas a guetos, seriam tão fielmente recuperadas pelos descendentes dos que sobreviveram à guerra e ao genocício? Quem diria que a ideologia dos algozes sobreviveria através dos netos das vítimas?

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Colaborações: ComRegras

No Topo: Professor, não é qualquer um

Será legítimo, ao primeiro-ministro de um governo que acabou com o programa “Novas Oportunidades” e as suas “histórias de vida” em nome da exigência e do rigor na formação de adultos, entrar na docência universitária pelo topo da carreira, sem as habilitações ou o currículo académico relevante que a lei exige?…

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No Fundo: A escola “racista”

O discurso é insidioso e recorrente: crianças e jovens pertencentes a determinadas minorias étnicas, sobretudo ciganos e afrodescendentes, apresentam maiores taxas de insucesso e abandono escolar. Como aparentemente a escola não consegue proporcionar a estes alunos o mesmo sucesso que têm os outros, conclui-se, de forma apressada e irresponsável: a escola é racista. Ou, naquele sociologês pedante com que se pretende disfarçar o preconceito e a falta de rigor: há “racismo institucional” na escola portuguesa.