A luta dos professores vista pela Direita

apaga-a-luz.JPGO homem é inqualificável, na arrogância presunçosa que ostenta, própria de quem acha que vive numa galáxia superior, muito acima do mundo chão dos professorzecos. Padece, como agora se diz, de excesso de auto-estima.

O discurso tenta ser provocatório, mas exprime sobretudo boçalidade e ignorância atrevida, pelo que não é digno de qualquer tentativa de contraditório. Nem merecem sequer, ele e quem o contrata para o pseudo-debate, qualquer tipo de divulgação ou publicidade.

No entanto, é importante questionar se compete à televisão pública gastar o dinheiro dos contribuintes pagando a comentadores que fazem gala de exibir a ignorância e o preconceito falando de assuntos de que, manifestamente, nada sabem. Pois uma coisa é confrontar diferentes ideias e pontos de vista, contribuindo para o debate público que é próprio das sociedades democráticas. Outra é dar palco ao exibicionismo de betinhos da direita gira, arrogantes e contentes consigo próprios, que se acham engraçados e acutilantes por atirarem irresponsavelmente umas bojardas sobre assuntos que estão para além do seu parco entendimento.

Mas o discurso anti-professores deste e de outros avençados tem, apesar de tudo, uma utilidade indesmentível: clarifica o pensamento da direita sobre a profissão docente. Quando a relação dos professores com o actual governo se degrada de dia para dia e se evidenciam os limites e contradições da geringonça em matéria educativa, pensar em possíveis vantagens de uma mudança política é, para muitos professores, uma tentação quase inevitável. Então, para percebermos o que poderemos esperar do PSD quando ele se abeirar de novo do poder, nada melhor do que dar a palavra aos betinhos desta direita folclórica e “radical”. Que nos dizem, sem papas na língua, aquilo que todos os outros também pensam, mas não se atrevem a dizer publicamente.

Os professores têm um trabalho como outro qualquer, não é uma profissão desgastante. Esse conceito só se aplica, por exemplo, aos mineiros que vão trabalhar longas horas para uma gruta debaixo da terra.

Não há problema algum em trabalhar com turmas numerosas ou em condições difíceis, pois supostamente todos os professores foram para a profissão por vocação. Estão a fazer o que gostam, portanto não se queixem.

Em vez de andarem sempre a protestar em defesa dos seus direitos, da sua carreira e das suas progressões, deviam manifestar-se, isso sim, em defesa dos seus alunos.

Os professores também não deveriam reclamar das colocações a centenas de quilómetros de casa porque se os concursos se fazem desta forma é porque eles próprios defenderam este modelo de colocações e para dar emprego a mais professores.

Finalmente, supra-sumo da demagogia, esta tirada absolutamente esmagadora: o Estado gasta mais de metade do orçamento da Educação com os professores, quando o deveria gastar com os alunos.

E, por último, a confissão… Fui acusado de não perceber nada de educação – e é verdade. E não quero perceber. Mas fui a uma coisa gira que é a Pordata e trouxe de lá uns números engraçados para provar aqui umas ideias…

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A ILC e os partidos

ilc-logo

Confesso que não pensava voltar tão depressa a escrever sobre a ILC. Largamente ultrapassadas as vinte mil assinaturas necessárias, seria o tempo de formalizar a sua admissão aos trabalhos parlamentares, de promover contactos exploratórios entre os seus promotores e os deputados e, naturalmente, de ser agendada a discussão e votação da iniciativa legislativa tendo em vista a recuperação de todo o tempo de serviço dos professores.

Contudo, verifiquei que alguns partidos políticos, visivelmente pouco à vontade com uma iniciativa de cidadãos que se intromete na rotina parlamentar, não quiseram deixar a poeira assentar. E sentiram a necessidade de vir desde já marcar algum terreno, posicionando-se relativamente ao futuro debate parlamentar.

Foi o caso do PCP, que se demarcou da ILC com uma posição idêntica à da Fenprof: já existem os instrumentos legislativos para condicionar o governo a contar todo o tempo de serviço aos professores, pelo que novas leis se poderiam revelar contraproducentes. Falta apenas cumprir-se a lei que já existe e avançar para as negociações com os sindicatos. Este falso optimismo conduziu, como sabemos, a um bloqueio negocial. E o governo acabou por clarificar, preto no branco, a sua posição:

Em comunicado, o Ministério da Educação (ME) garante que “o compromisso do governo é exatamente o que consta do documento assinado entre as partes a 18 de novembro de 2017”.

Acordo esse onde “ambas as parte aceitam ‘mitigar o impacto do congelamento’ através da definição de uma base negocial, que comporta três variáveis: o tempo, o modo concreto de recuperação e o calendário”, sublinha o ME.

O ministério escreve ainda que foi na base desse compromisso que “negociou de boa-fé com as organizações sindicais e apresentou uma proposta para a primeira variável: o tempo”.

Mas ainda mais surpreendido fiquei com o Alexandre Henriques, o incansável promotor desta iniciativa, a chamar “traidor” ao PCP por causa da posição crítica que este partido assumiu em relação à ILC. Que me pareceu uma reacção exagerada, até porque há uma ideia que devemos ter sempre presente: nenhum dos partidos parlamentares está em condições de defender a recuperação imediata, a 1 de Janeiro de 2019, de todo o tempo de serviço congelado. Se achamos que são “traidores” os que, honestamente, nos dizem isso mesmo, então é meio caminho andado para nos iludirmos com quem nos vai embalando, não com a verdade, mas com o que acham que queremos ouvir.

Todos os professores já se depararam inúmeras vezes com a conversa ensaiada daqueles meninos ou meninas que, em risco de não passarem de ano, nos dizem: se me der negativa, chumbo!… Claro que sabemos, e muitas vezes acabamos a explicar isso mesmo ao aluno em causa, que ninguém fica retido só por causa de uma “negativa”. Da mesma forma, qualquer que seja o destino da ILC, ou de qualquer proposta de lei alternativa que venha a ser apresentada, ele não será decidido por uma só bancada parlamentar.

Deixemos então o PCP, que já explicou as suas reservas, o BE, que mostrou apoio aos professores mas sozinho nada decide e o PS, que nunca poderá aprovar uma lei que contraria por completo a política do governo em matéria de carreiras e remunerações dos professores. E foquemo-nos nas piruetas do partido que, muito provavelmente, terá a palavra decisiva na resolução deste imbróglio. Senhoras e senhores, caso ainda não tenham reparado nele, apresento-vos o PSD:

O PSD, que tem estado ao lado dos sindicatos nas exigências de contagem total do tempo congelado nas progressões de carreira, já começa a admitir que podem haver razões para o Governo não alinhar nessa exigência.

Os parlamentos decidem com base nas maiorias, pelo que a eventual recuperação do tempo de serviço dos professores estará dependente de o PSD se unir aos partidos à esquerda do PS para aprovar algo que favoreça a classe docente. Ou de, pelo contrário, se deixar convencer pelos argumentos do governo.

Olhando para a História recente em busca de analogias, verificamos que a conjuntura política mais semelhante à actual correspondeu ao segundo, e minoritário, governo de Sócrates. Já nessa altura ouvimos muitas juras de amor do PSD aos professores. Mas, na hora da verdade das votações parlamentares, encontraram sempre subterfúgios para frustrar as expectativas da classe docente.

Se alguém anda, já nem digo à procura de traidores, mas de ratos especialistas em roer a corda, o melhor é manter-se atento ao partido das setinhas…

O fim da geringonça?

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A foto, tirada na sequência do entendimento entre PS e PSD sobre a municipalização e o acesso à próxima vaga de fundos estruturais que estará para vir, é daquelas que dizem mais do que mil palavras.

E nem é preciso um acordo escrito para se perceber que daqui para a frente o PS de Costa encontrará no PSD de Rio um parceiro solícito para todos os pactos de regime de que ambos beneficiarão.

Claro que isto não vai ser o fim da solução governativa assente na maioria de esquerda, mas é evidente que retira margem de manobra e capacidade de pressão aos partidos que têm suportado o governo minoritário do PS.

Deputado visitante

Para braço direito do novo líder do PSD, o tal que vinha dar um “banho de ética” na política portuguesa, foi escolhido a dedo…

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Ao longo de 10 anos, Feliciano Barreiras Duarte, hoje secretário-geral do PSD, deu a morada da casa dos pais no Bombarral para cálculo do subsídio de transporte e ajudas de custo na Assembleia da República. Mas, pelo menos durante nove desses 10 anos, morou na Avenida de Roma, em Lisboa.

Feliciano Barreiras Duarte, refira-se, já tinha tido problemas relacionados com moradas e subsídios nos anos 90, quando foi vereador do PSD na câmara do Bombarral (que tinha gestão socialista). A situação era a inversa. Barreiras Duarte era estudante universitário nessa época e declarava ter a sua residência fixa em Lisboa. Chegou a receber dinheiro de quilómetros, mesmo sem ter carta de condução. Isso permitia-lhe receber as respetivas ajudas de custo para ir às reuniões de câmara no Bombarral.

Novo líder

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© Henricartoon

Santana Lopes e a avaliação dos professores

santana.jpgEm dia de eleições no PSD, disputa que deixa indiferentes a maioria dos Portugueses e que, mesmo no interior do partido, parece suscitar escassos entusiasmos, pego no tema apenas para constatar, também aqui, a ausência da Educação do escasso debate político que a escolha do líder social-democrata tem suscitado.

Ainda assim, a classe docente passou de raspão pelo discurso de Santana Lopes. Sem se alongar no assunto, o candidato considerou que, haverá professores a mais no sistema educativo, que precisarão de ser “requalificados”:

Consoante as avaliações que vão sendo feitas, acho que o Estado tem obrigação de propor aos professores, de acordo com a necessidade do corpo discente que vai existindo, a sua reorientação profissional por acordo com os próprios, a sua requalificação, pode ser bom para eles.

A formulação da ideia é confusa, e percebe-se que Santana não terá reflectido muito antes de mandar os seus bitaites, mas o essencial será a retoma do estribilho da avaliação punitiva, que serve para distinguir os “bons” dos “maus” professores, propondo-se a estes últimos a saída da profissão. Claro que não se fala aqui em despedimentos, mas sabemos bem em que consistiu a “requalificação” feita por governos anteriores.

Por outro lado, a estupidez da proposta está também bem patente no pressuposto de que haverá excesso de professores. Quando as previsões para os próximos 15 anos apontam para a aposentação de pelo menos 55 mil profissionais docentes, isto significa que cerca de metade dos actuais professores dos quadros terão de ser substituídos ao longo desse período de tempo. Mesmo contando com a quebra demográfica que irá absorver boa parte destas saídas, o grande desafio para o futuro será o de atrair jovens com competência e vocação adequadas às exigências da profissão, formá-los devidamente e proporcionar-lhes as condições necessárias a um bom desempenho profissional. Mas claro que pretender que percebesse isto seria provavelmente exigir de mais a um simples santanalopes.

São coisas que não se aprendem nas universidades de Verão do PSD…

David Justino apoia Rui Rio

rui-rioQuase de saída da presidência do CNE, David Justino não perde tempo e já abraçou um novo desafio:

David Justino é coordenador da moção de Rio

O presidente do Conselho Nacional de Educação vai coordenar o documento estratégico com que o ex-autarca do Porto se apresentará às eleições diretas para a presidência do PSD.

Conselheiro-mor da Educação Nacional, Justino nunca deixou de ser um militante destacado do PSD, nem de seguir, à frente do CNE, uma agenda política favorável aos interesses do seu partido. E é no contexto da militância partidária que passa agora a colaborador directo de Rui Rio, o que talvez seja também sinal seguro de que está aqui o novo homem forte do PSD.

Na verdade, tendo servido como vereador de Isaltino e como assessor de Cavaco, David Justino soube sempre reconhecer e acompanhar, não direi os melhores, mas pelo menos os mais eficazes a alcançar e a conservar o poder…