Provas de aferição: as reacções aos resultados

afer3Os resultados, aparentemente desastrosos, das provas de aferição – chegou a haver, nalguns parâmetros aferidos, percentagens superiores a 80% de alunos que não conseguiram fazer o que lhes era pedido – estão a suscitar diferentes reacções da parte dos diversos intervenientes e interessados nestas coisas. Interessa ver é se bate a bota com a perdigota, ou seja, se aquilo que dizem é o resultado de uma análise e reflexão serena, com base nos resultados e nas condicionantes destas provas, ou  é apenas o engatilhar de um discurso que já estava preparado para o efeito.

Comecemos pelo ME, onde o secretário de Estado João Costa se confessa preocupado com o facto de tão grande número de alunos não estar a aprender “com qualidade”, desfiando em seguida o rol de medidas que pretende implementar. E que são, regra geral, mais do mesmo: Continuar a ler

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Resultados desastrosos nas provas de aferição

Foram divulgados ontem os resultados globais e o relatório das provas de aferição realizadas, em 2016/17, pelos alunos dos 2º, 5º e 8º anos e os resultados, ao que parece, não são famosos. Recorrendo aos documentos divulgados, em primeira mão, pelo ComRegras, e que no momento em que escrevo este post ainda não estavam disponíveis no site do IAVE, é possível identificar as maiores fragilidades detectadas através destas provas:

  • De um modo geral, os desempenhos são superiores na aquisição de conhecimentos, baixando quando se avalia a sua aplicação, a interpretação e o raciocínio;
  • Contrastando com a polémica que houve na altura em torno das provas das expressões artísticas e físico-motoras, os alunos do 2º ano acabaram afinal por se sair melhor, nestas áreas, do que no Português e na Matemática, as disciplinas “estruturantes” na organização curricular do 1º ciclo;
  • No 2º e no 3º ciclo os resultados podem considerar-se desastrosos, se considerarmos que, com excepção dos domínios da “localização e quadro natural da Península Ibérica” (HGP, 5º ano) e “compreensão do oral” (Português, 8º ano), a grande maioria dos alunos teve um desempenho insatisfatório.

Na interpretação dos resultados são feitas algumas observações pertinentes. Nota-se que foi feito um esforço para retirar destas provas um diagnóstico do estado actual do nosso ensino básico. Mas na altura de tirar conclusões e perspectivar o futuro, impuseram-se as ideias feitas e disfarçou-se mal a tentativa de instrumentalizar os resultados obtidos para dar força a medidas que já estavam há muito tempo decididas.

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Por exemplo, nas Ciências Físicas e Naturais são constatados muitos “inconseguimentos”, mas o item onde os alunos até se portaram melhor foi a “Análise e interpretação de situações experimentais”. Pois bem, quando as maiores falhas se notam sobretudo nos conhecimentos teóricos, o que o relatório recomenda para melhorar nestas disciplinas é… “reforçar o ensino experimental”.

Na História e Geografia do 2º ciclo também se nota que há menos dificuldades na parte da geografia e ambiente natural da Península Ibérica, que se presta mais a abordagens interdisciplinares, do que nos conteúdos mais específicos da História. Perante isto, o que se sugere? Exactamente, mais interdisciplinaridade…

Há também uma receita comum para todas as disciplinas e áreas disciplinares e que já todos adivinharam: mais formação de professores. Os alunos não aprendem em condições, subentende-se, porque os professores são retrógrados, estão desactualizados e precisam de ser reciclados de acordo com os novos paradigmas educativos “do século XXI”.

O relatório oficial defende a pertinência das provas de aferição e a sua realização a meio de cada ciclo de estudos, deixando margem às escolas e aos alunos para trabalharem na superação das dificuldades detectadas. Mas em nenhum momento os relatores questionam se, perante os resultados obtidos, as provas eram adequadas aos alunos e aos fins pretendidos com a sua realização.

De facto, havendo uma discrepância tão grande entre os resultados das provas e as classificações atribuídas aos alunos pelos seus professores, alguma coisa estará mal: ou andamos nós a passá-los sem saberem, e nesse caso deveríamos ser mais rigorosos e exigentes na avaliação, ou então é a aferição que não está a aferir correctamente as reais competências e capacidades dos alunos. Se considerarmos a evolução positiva dos alunos portugueses em testes semelhantes feitos por organizações internacionais, então a segunda hipótese surge, naturalmente, como a mais provável, e era por aqui que qualquer reflexão crítica deveria começar.

Em qualquer dos casos, não me parece que a aposta num ensino cada vez mais focado em interdisciplinaridades, projectos e outras flexibilidades curriculares, como é recomendado no relatório final, possa ser a solução mágica para a melhoria de resultados em provas de aferição de âmbito nacional centradas na avaliação dos reais conhecimentos, competências e capacidades dos alunos.

Provas de aferição por computador

computadoresnaescolaO objectivo do Governo é que a prazo as provas nacionais de aferição dos alunos sejam feitas todas online. Para já, e a partir do terceiro trimestre de 2018, o novo sistema será lançado em relação ao 8.º ano de escolaridade, de forma a que, na prática, apenas a própria prestação da provas pelos alunos seja feita em papel. Todo o restante processo passará a ser desmaterializado e funcionará na Internet.

Claro que isto vai permitir a correcção automática das questões de resposta fechada e uma intervenção mais simples e rápida dos professores classificadores. Poupa-se tempo, dinheiro e espaço em arquivo. Evita-se que andem folhas de resposta para trás e para diante e rituais que se vão tornando ridículos e anacrónicos, como o fazer e desfazer de anonimatos.

Ainda assim, esta medida inscrita no Simplex+2017 hoje apresentado suscita algumas interrogações.

Será definitivamente descartada a avaliação das expressões físicas e artísticas que o ME diz querer valorizar?

Estarão a pensar usar consolas Wii nas escolas para avaliar a actividade física dos alunos?

Ou irão aferir a coordenação motora através do manuseamento do rato do computador e a sensibilidade artística com a construção um powerpoint com efeitos especiais?

Estará para breve o reforço do parque informático das escolas, de forma a passar a haver um computador disponível, em simultâneo, para todos os alunos do mesmo ano de escolaridade?

Ou em alternativa, e já que é para ser simplex e acompanhar a onda, distribui-se uma app para os alunos fazerem a prova no próprio telemóvel?

A prova de aferição de Português e Estudo do Meio

Das provas nacionais ontem realizadas, interessou-me sobretudo a de aferição do 2º ano, de Português e Estudo do Meio, uma estreia absoluta.

afericao2ano.JPGMesmo para quem nunca leccionou neste nível de ensino, parece uma prova demasiado puxada, e julgo que os colegas do 1º ciclo tenderão a confirmá-lo. Tanto ao nível da extensão dos textos, como de algum vocabulário utilizado. Algumas perguntas e exercícios também se afiguram de uma complexidade escusada. Compreender e interpretar o cartaz da imagem será talvez uma tarefa mais adequada para o 2º ciclo.

Também percebo que uma prova deste tipo, aplicada a nível nacional, tenha de ter alguma ambição, e não sendo para dar uma nota aos alunos, faça sentido ver quantos conseguem chegar mais longe do que o mínimo exigível.

Sendo assim, faria sentido, como defendi desde que este modelo de avaliação externa foi anunciado, que as provas se realizassem, não no 2º, mas no 3º ano, quando os alunos já progrediram mais nas aprendizagens e a avaliação das mesmas pode fornecer resultados mais interessantes.

Trabalho de projecto

trab-grupo.jpgQue se sugere ao ME, na linha das flexibilidades pedagógicas e das transversalidades colaborativas que o mesmo ME propõe aos professores portugueses, para que as nossas escolas entrem definitivamente no século XXI.

Porque é que estragam tanto papel nas provas de aferição?

O enunciado da prova cuja realização vigiei ontem tinha 6 páginas “propositadamente” em branco.

O envelope trazia 30 exemplares, quando sabemos que as salas de aula portuguesas têm, em regra, mesas duplas e comportam, no máximo, 15 a 16 alunos sentados individualmente. Metade dos enunciados vão, portanto, directamente para o lixo.

Não conseguem encontrar forma de fazer as coisas de outra maneira?

É que nós, nas escolas, conseguimos. Que remédio. Não temos as verbas ilimitadas para o papel e as impressões de testes e fichas de que o IAVE parece dispor. Nem a Editorial do Ministério da Educação a trabalhar para nós.

Que tal um trabalho de grupo para estudar o problema?

Uma aprendizagem colaborativa entre o IAVE, que faz as provas de exame, a DGE, paladina das novas metodologias de aprendizagem activa, a DGAE e a DGEstE, sempre preocupadas com a despesa pública em Educação. Em parceria com o Ministério do Ambiente, para dar substrato científico ao tema e, claro, com as Finanças, que não devem apreciar estes esbanjamentos.

A prova de aferição de HGP

Sobre a prova de aferição de HGP ontem resolvida pelos alunos do 5º ano, dir-se-á genericamente o mesmo que se dizia sobre um medicamento popular noutros tempos: é como o Melhoral, não faz bem nem faz mal.

Mas basta ser proveniente do IAVE, um instituto público cujo responsável máximo não se coíbe de criticar e menorizar o trabalho dos professores sempre que acha que isso o engrandece ou enobrece a sua missão, para haver logo a curiosidade de ver, por exemplo, se as suas equipas dedicadas e especializadas na elaboração de provas cumprem escrupulosamente as recomendações que o IAVE faz aos professorzecos sobre a matéria.

De uma análise não exaustiva da prova, algumas impressões, para usar a peculiar expressão de João Costa, sobre a prova de HGP:

Todas, com excepção da última, são questões de resposta fechada, e na grande maioria escolhas múltiplas, ligações ou completamentos de espaços em que basta transcrever ou assinalar a resposta certa. Dá muito menos trabalho a classificar e obtêm-se resultados mais objectivos, o que é importante numa prova de aferição, mas parece-me que deixa de fora uma dimensão importante da avaliação escrita, que é aquela que envolve a elaboração da resposta.

A prova parece-me também demasiado extensa para os fins pretendidos. Provavelmente um formato mais curto, para 60 minutos de duração, serviria perfeitamente para os fins em vista e adequar-se-ia melhor ao nível etário e de conhecimentos dos alunos.

fig3.JPG

Do ponto de vista do rigor científico, notam-se ligeiras falhas, sobretudo ao nível da bonecada. Um mapa do Império Romano que ignora a Muralha de Adriano e coloca a Escócia dentro de um mundo a que nunca pertenceu. Ou, no cenário algo infantil da figura 3, e numa pergunta mal concebida, caçadores de mamutes coexistindo com agricultores e pastores: o anacronismo é dos pecados mais graves que se podem cometer em História, mas também facilmente evitável, se houver o devido cuidado a fazer as coisas e, naturalmente, se se dominam as matérias que se pretendem ensinar e avaliar.

Finalmente, as 16 páginas do enunciado da prova parecem-me pouco amigas do ambiente e puseram-me a pensar que, em muitas escolas deste país, um professor que fizesse testes deste tamanho esgotaria logo ali o crédito de fotocópias para o ano todo.

Provas de aflição

As provas de aferição vistas pelo humor do Antero Valério.

Tenham um excelente domingo!