Exame de Matemática A: não haverá prova-modelo

boy_math_hg_clrO exame nacional de Matemática A está envolto em polémica. Chegaram agora ao 12º ano os alunos que estrearam, no 10º, o novo programa imposto por Nuno Crato e que sempre mereceu contestação da Associação de Professores de Matemática e da maioria dos professores da disciplina.

E foi um dirigente desta organização que ontem criticou publicamente que, perante um novo programa que ninguém sabe como será aplicado em contexto de exame, não seja elaborada, para orientação de alunos e professores, uma prova-modelo.

O presidente do Instituto de Avaliação Educativa (Iave), o organismo responsável pela elaboração dos exames nacionais, pôs de lado, nesta segunda-feira, a hipótese de vir a ser elaborada uma prova modelo do exame de Matemática A do 12.º ano, que em 2018, pela primeira vez, terá na base o novo programa da disciplina.

Hélder de Sousa, que interveio no debate promovido pela Fundação Francisco Manuel dos Santos sob o tema Exames: Como e Para Quê, respondia assim a esta afirmação do professor da Universidade de Coimbra, Jaime Carvalho e Silva: é “um escândalo que o novo exame de Matemática A se realize sem que antes haja uma prova modelo”. “Os alunos e professores estão a viver uma situação de grande instabilidade porque ninguém sabe o que vai sair no exame”, justificou.

O presidente do Iave referiu que a elaboração de “provas modelo foi abandonada há muitos anos em Portugal”, embora os alunos possam treinar com base nos exames realizados em anos anteriores. “Se o programa for leccionado como deve ser não vai haver problemas. O Iave não vai introduzir surpresas na prova, que terá de funcionar como um denominador comum do antigo [porque há alunos que chumbaram no ano lectivo passado e vão ter de realizar de novo o exame] e do novo programa”, garantiu.

A complicar tudo, as notórias dificuldades de aplicação de um programa que se tem mostrado desajustado e em muitos casos inexequível pela sua extensão: ao contrário dos examocratas de gabinete, os professores no terreno percebem que não será possível cumprir tudo o que é exigido, pelo que o “denominador comum” de que fala Hélder de Sousa deveria ser divulgado, para se perceber o que é prioritário no trabalho com os alunos. É essa, aliás, a regra seguida na generalidade dos países que têm exames nacionais: uma definição clara do que poderá sair nas provas.

No debate houve ainda tempo para falar das provas de aferição, que vieram substituir alguns exames do ensino básico enquanto instrumentos de avaliação externa. E também aqui o bom senso falou pela voz do dirigente da APM, que duvidou do acerto da reacção pavloviana do ME: perante os 80% de alunos que revelaram dificuldades nas provas, anunciou de imediato mais formação para professores. Com resultados tão desalinhados em relação ao que é obtido nas restantes avaliações, não seria mais sensato, em vez da habitual manifestação de desconfiança no trabalho dos professores, questionarem se as provas foram bem elaboradas?

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Mais formação de professores é a solução?

ana-rita-bessaPerante os resultados insatisfatórios obtidos pelos alunos portugueses do 2º, 5º e 8º ano nas provas de aferição, estaremos com um problema de impreparação dos professores para promover o sucesso escolar dos seus alunos? Será mesmo de mais formação, dada pelos mesmos formadores de sempre e idêntica a tantas outras que já tiveram, o que os professores portugueses mais necessitam? O CDS parece achar que não, e por esse motivo interpelou hoje o Governo no Parlamento.

“Considera o Ministério da Educação que os professores que estão atualmente no sistema são os primeiros responsáveis por estes resultados?”, questionou Ana Rita Bessa numa pergunta dirigida ao ministério de Tiago Brandão Rodrigues.

A coordenadora do CDS-PP para a Educação quer saber se o Ministério da Educação consultou em primeiro lugar as escolas, dando-lhes a oportunidade de determinarem planos próprios de recuperação face aos seus resultados específicos, “numa verdadeira lógica de autonomia e responsabilização”.

“Os resultados das provas de aferição parecem ter um problema de fiabilidade e a decisão política de as implementar, nos moldes em que o Ministério da Educação o fez foi denunciado pelo CDS como um erro”, sublinha Ana Rita Bessa.

Já o escrevi por aqui: perante resultados tão desalinhados com os que têm sido obtidos por outras provas de avaliação de âmbito nacional – provas finais, testes intermédios, exames nacionais, testes internacionais – a primeira e fundamental questão a colocar seria a adequação do instrumento de avaliação utilizado. Também o CDS nota que “as provas de aferição foram realizadas com a matéria global de todo o ano sem incentivo ao estudo específico, porque ‘não contam para a nota’, o que gera nos alunos uma atitude displicente em relação às provas e ao seu desempenho nelas”.

Mas nada disto interessa questionar quando duas coisas se tornaram claras.

Primeira, o ME quer levar para a frente o seu projecto das flexibilidades, mesmo contra a vontade das escolas e os professores, e pretende usar os resultados destas provas para demonstrar a sua necessidade: os alunos limitam-se a estudar para os testes e a esquecer a matéria, em vez de realizarem “aprendizagens significativas”.

Em segundo lugar, já se percebeu que a torneira do dinheiro fresco para formações, canalizado directamente de Bruxelas, estará prestes a abrir. E que serão os decisores ministeriais e as suas adjacências a controlar o fluxo financeiro, dirigindo-o para os projectos que concretizem o programa de reformas do secretário de Estado João Costa e dos seus acólitos.

Confiar na autonomia das escolas, dos departamentos curriculares, dos conselhos pedagógicos e dos centros de formação para ouvirem os professores, identificarem necessidades e promoverem a formação que os próprios consideram necessária à melhoria do seu desempenho profissional, isso é que nunca. Seriam, provavelmente, autonomia e confiança a mais.

Colaborações: ComRegras

No Topo: Descongelamento das progressões na carreira em 2018

O retomar da contagem de tempo de serviço para efeitos de progressão na carreira já tinha sido várias vezes anunciado pelo governo. Mas só agora surge, preto no branco, na proposta negocial apresentada aos sindicatos da função pública. Não sendo novidade, esta não deixa de ser uma boa notícia para professores, educadores e trabalhadores não docentes das escolas. Mas há também a parte má da notícia…

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No Fundo: Os resultados das provas de aferição

Foram esta semana divulgados os resultados nacionais das provas de aferição realizadas pelos alunos dos 2º, 5º e 8º anos de escolaridade. Que, como todos sabemos, não foram famosos. A maioria dos alunos não concretizou satisfatoriamente as tarefas propostas, mostrando dificuldades ou não realizando sequer o que lhe era pedido. Este padrão mostrou-se comum às diversas disciplinas e áreas disciplinares avaliadas…

Provas de aferição: as reacções aos resultados

afer3Os resultados, aparentemente desastrosos, das provas de aferição – chegou a haver, nalguns parâmetros aferidos, percentagens superiores a 80% de alunos que não conseguiram fazer o que lhes era pedido – estão a suscitar diferentes reacções da parte dos diversos intervenientes e interessados nestas coisas. Interessa ver é se bate a bota com a perdigota, ou seja, se aquilo que dizem é o resultado de uma análise e reflexão serena, com base nos resultados e nas condicionantes destas provas, ou  é apenas o engatilhar de um discurso que já estava preparado para o efeito.

Comecemos pelo ME, onde o secretário de Estado João Costa se confessa preocupado com o facto de tão grande número de alunos não estar a aprender “com qualidade”, desfiando em seguida o rol de medidas que pretende implementar. E que são, regra geral, mais do mesmo: Continuar a ler

Resultados desastrosos nas provas de aferição

Foram divulgados ontem os resultados globais e o relatório das provas de aferição realizadas, em 2016/17, pelos alunos dos 2º, 5º e 8º anos e os resultados, ao que parece, não são famosos. Recorrendo aos documentos divulgados, em primeira mão, pelo ComRegras, e que no momento em que escrevo este post ainda não estavam disponíveis no site do IAVE, é possível identificar as maiores fragilidades detectadas através destas provas:

  • De um modo geral, os desempenhos são superiores na aquisição de conhecimentos, baixando quando se avalia a sua aplicação, a interpretação e o raciocínio;
  • Contrastando com a polémica que houve na altura em torno das provas das expressões artísticas e físico-motoras, os alunos do 2º ano acabaram afinal por se sair melhor, nestas áreas, do que no Português e na Matemática, as disciplinas “estruturantes” na organização curricular do 1º ciclo;
  • No 2º e no 3º ciclo os resultados podem considerar-se desastrosos, se considerarmos que, com excepção dos domínios da “localização e quadro natural da Península Ibérica” (HGP, 5º ano) e “compreensão do oral” (Português, 8º ano), a grande maioria dos alunos teve um desempenho insatisfatório.

Na interpretação dos resultados são feitas algumas observações pertinentes. Nota-se que foi feito um esforço para retirar destas provas um diagnóstico do estado actual do nosso ensino básico. Mas na altura de tirar conclusões e perspectivar o futuro, impuseram-se as ideias feitas e disfarçou-se mal a tentativa de instrumentalizar os resultados obtidos para dar força a medidas que já estavam há muito tempo decididas.

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Por exemplo, nas Ciências Físicas e Naturais são constatados muitos “inconseguimentos”, mas o item onde os alunos até se portaram melhor foi a “Análise e interpretação de situações experimentais”. Pois bem, quando as maiores falhas se notam sobretudo nos conhecimentos teóricos, o que o relatório recomenda para melhorar nestas disciplinas é… “reforçar o ensino experimental”.

Na História e Geografia do 2º ciclo também se nota que há menos dificuldades na parte da geografia e ambiente natural da Península Ibérica, que se presta mais a abordagens interdisciplinares, do que nos conteúdos mais específicos da História. Perante isto, o que se sugere? Exactamente, mais interdisciplinaridade…

Há também uma receita comum para todas as disciplinas e áreas disciplinares e que já todos adivinharam: mais formação de professores. Os alunos não aprendem em condições, subentende-se, porque os professores são retrógrados, estão desactualizados e precisam de ser reciclados de acordo com os novos paradigmas educativos “do século XXI”.

O relatório oficial defende a pertinência das provas de aferição e a sua realização a meio de cada ciclo de estudos, deixando margem às escolas e aos alunos para trabalharem na superação das dificuldades detectadas. Mas em nenhum momento os relatores questionam se, perante os resultados obtidos, as provas eram adequadas aos alunos e aos fins pretendidos com a sua realização.

De facto, havendo uma discrepância tão grande entre os resultados das provas e as classificações atribuídas aos alunos pelos seus professores, alguma coisa estará mal: ou andamos nós a passá-los sem saberem, e nesse caso deveríamos ser mais rigorosos e exigentes na avaliação, ou então é a aferição que não está a aferir correctamente as reais competências e capacidades dos alunos. Se considerarmos a evolução positiva dos alunos portugueses em testes semelhantes feitos por organizações internacionais, então a segunda hipótese surge, naturalmente, como a mais provável, e era por aqui que qualquer reflexão crítica deveria começar.

Em qualquer dos casos, não me parece que a aposta num ensino cada vez mais focado em interdisciplinaridades, projectos e outras flexibilidades curriculares, como é recomendado no relatório final, possa ser a solução mágica para a melhoria de resultados em provas de aferição de âmbito nacional centradas na avaliação dos reais conhecimentos, competências e capacidades dos alunos.

Provas de aferição por computador

computadoresnaescolaO objectivo do Governo é que a prazo as provas nacionais de aferição dos alunos sejam feitas todas online. Para já, e a partir do terceiro trimestre de 2018, o novo sistema será lançado em relação ao 8.º ano de escolaridade, de forma a que, na prática, apenas a própria prestação da provas pelos alunos seja feita em papel. Todo o restante processo passará a ser desmaterializado e funcionará na Internet.

Claro que isto vai permitir a correcção automática das questões de resposta fechada e uma intervenção mais simples e rápida dos professores classificadores. Poupa-se tempo, dinheiro e espaço em arquivo. Evita-se que andem folhas de resposta para trás e para diante e rituais que se vão tornando ridículos e anacrónicos, como o fazer e desfazer de anonimatos.

Ainda assim, esta medida inscrita no Simplex+2017 hoje apresentado suscita algumas interrogações.

Será definitivamente descartada a avaliação das expressões físicas e artísticas que o ME diz querer valorizar?

Estarão a pensar usar consolas Wii nas escolas para avaliar a actividade física dos alunos?

Ou irão aferir a coordenação motora através do manuseamento do rato do computador e a sensibilidade artística com a construção um powerpoint com efeitos especiais?

Estará para breve o reforço do parque informático das escolas, de forma a passar a haver um computador disponível, em simultâneo, para todos os alunos do mesmo ano de escolaridade?

Ou em alternativa, e já que é para ser simplex e acompanhar a onda, distribui-se uma app para os alunos fazerem a prova no próprio telemóvel?

A prova de aferição de Português e Estudo do Meio

Das provas nacionais ontem realizadas, interessou-me sobretudo a de aferição do 2º ano, de Português e Estudo do Meio, uma estreia absoluta.

afericao2ano.JPGMesmo para quem nunca leccionou neste nível de ensino, parece uma prova demasiado puxada, e julgo que os colegas do 1º ciclo tenderão a confirmá-lo. Tanto ao nível da extensão dos textos, como de algum vocabulário utilizado. Algumas perguntas e exercícios também se afiguram de uma complexidade escusada. Compreender e interpretar o cartaz da imagem será talvez uma tarefa mais adequada para o 2º ciclo.

Também percebo que uma prova deste tipo, aplicada a nível nacional, tenha de ter alguma ambição, e não sendo para dar uma nota aos alunos, faça sentido ver quantos conseguem chegar mais longe do que o mínimo exigível.

Sendo assim, faria sentido, como defendi desde que este modelo de avaliação externa foi anunciado, que as provas se realizassem, não no 2º, mas no 3º ano, quando os alunos já progrediram mais nas aprendizagens e a avaliação das mesmas pode fornecer resultados mais interessantes.