A banalização do mal

soco.jpgUma professora primária grávida de seis semanas foi agredida, durante a manhã de ontem, pela mãe de um aluno dentro das instalações da Escola Professor Agostinho da Silva, em Lisboa. 

Ao Notícias ao Minuto, fonte da PSP informou que a encarregada de educação, de 28 anos, agrediu a vítima – que terá uma gravidez de risco – por não ter concordado com uma reprimenda verbal que a docente, de 35 anos, terá dado ao seu filho, de seis anos, no dia anterior. 

Na sequência das agressões, a professora foi transportada para a Maternidade Alfredo da Costa e, posteriormente, encaminhada para Hospital de São José para realizar exames complementares. Até ao momento, não foi possível apurar o estado de saúde da vítima. 

O Ministério da Educação informou, esta quarta-feira, à agência Lusa que a professora já foi substituída e que a agressora será presente a tribunal. “A professora está ausente de serviço, tendo já sido substituída para que a atividade letiva prossiga naquela turma“, sustentou a tutela. 

Mais uma agressão a uma docente – a 24.ª que o contador do ComRegras contabiliza este ano – desta feita com especiais requintes de premeditação e malvadez: a agressora, fez-se acompanhar dos próprios filhos, que assistiram às agressões, tal como os alunos da turma do 1.º ano de escolaridade leccionada pela professora, presentes na sala.

Quanto aos motivos, a futilidade habitual, alguma coisa que a mãezinha não gostou que a professora terá dito ao seu rico filho. Em pano de fundo, o sentimento que se instalou insidiosamente nalguns sectores da sociedade: pode-se insultar, desconsiderar e até agredir os professores, que nada acontece.

O ministério, percebendo que teria de dizer alguma coisa sobre o assunto, tenta sossegar os pais com o recomeço das aulas – será a terceira professora que aquelas crianças terão este ano, uma realidade que não parece incomodar muito os responsáveis, tal como o trauma de alunos de 6 anos terem presenciado a agressão. E acrescentou, pois fica sempre bem, que “repudia veementemente todas as formas de violência, em particular em ambiente escolar, e convida os encarregados de educação para uma atitude proativa de prevenção de comportamentos violentos e de desrespeito”.

Pela minha parte, entendo que os professores portugueses têm direito a muito mais do que às palavras hipócritas e de mera circunstância que os responsáveis proferem nestas ocasiões. Deveria o ministro pronunciar-se claramente, condenando as agressões e solidarizando-se incondicionalmente com a vítima, em vez de se esconder atrás de sonsas e anónimas “notas de imprensa”. Quanto ao ME, deveria agir judicialmente até às últimas instâncias em defesa de quem tem ao seu serviço e que tantas vezes arrisca a saúde e a integridade física no exercício da profissão. Para que fosse feita, em todos estes casos, efectiva justiça.

Os casos mais graves de violência escolar, habitualmente perpetrados por alunos mais velhos ou pelos seus encarregados de educação só serão eficazmente combatidos se forem tratados, desde o primeiro momento, como aquilo que efectivamente são: crimes ignóbeis que devem ser exemplarmente punidos.

Professor não pode ser saco de pancada

billy_bully_ready_for_a_fight_lg_clr[1]Foi no dia 23 de outubro. Já tinha acabado as aulas [na Escola Maria Alberta Meneres, em Sintra] e estava na reprografia quando uma funcionária apareceu a pedir ajuda, porque um aluno de 11 anos estava a abrir os cacifos dos colegas. Decidi ir falar com ele. Estou nesta escola há 20 anos e eles conhecem-me. Quando chegámos lá, estava completamente fora de si. Dizia para a funcionária [de 54 anos]: “Vai-te f…., vai para o c……, filha da p…” Aproximei-me para tentar que viesse comigo, mas assim que lhe agarrei no braço ele começou às cotoveladas, murros e empurrões. Eu e a funcionária éramos autênticos sacos de boxe. Acabámos as duas por ir para o hospital.

Continuar a denunciar as agressões a professores é fundamental para que ninguém possa negar que o problema existe, embora esteja longe de ser generalizável à maioria das escolas. Felizmente, o bom relacionamento entre professores e alunos continua a ser regra entre nós, atestada por sucessivas avaliações internacionais.

Claro que a violência entre alunos também é grave e os casos, muito mais raros, de agressões de professores a alunos são condenáveis sem reservas. A diferença é que, enquanto o professor agressor se torna alvo imediato do poder disciplinar do ME, os professores agredidos são muitas vezes incentivados a perdoar e a esquecer o mal que lhes fizeram. Quando a tutela e, muitas vezes, as lideranças de proximidade encaram as ofensas verbais e físicas aos professores como “ossos do ofício”, em vez de os apoiar e assumir a sua defesa contra o agressor, torna-se bem claro que os professores estão por sua conta. Têm de agir, individual e colectivamente para, também aqui, exigirem respeito e fazerem valer os seus direitos.

Outro ponto a considerar tem a ver com aquilo que pode ser visto como o lado negro da escola inclusiva que todos queremos, supostamente, construir. Meter na escola todos os menores de 18 anos, incluindo os que não querem lá estar e aqueles que, sem apoios e condições especiais, pouco aprenderão, implica um reforço de meios adequados para integrar todos os alunos, gerir conflitos e garantir a segurança das pessoas e das instalações. Aqui, pensamos geralmente em jovens delinquentes ou pré-delinquentes, mas actualmente vão sendo cada vez mais frequentes os casos de alunos com perturbações, patologias ou distúrbios mentais que, não sendo devidamente tratados e acompanhados, se podem tornar violentos. Ainda recentemente uma direcção escolar justificava a agressão a uma professora pelo facto de o aluno ter uma perturbação do espectro do autismo, sendo assim “normal” que ele se torne violento e ataque quem estiver à sua beira.

Ora esta normalização da agressão verbal e física, a pretexto de que o aluno não se controla, vive uma vida difícil ou é aquela a forma que tem de se exprimir, não é de todo aceitável. Os maus tratos, a tortura e outras situações degradantes da dignidade humana não podem aceitar-se em local ou circunstância alguma, muito menos na escola. E se todos reconhecemos o avanço civilizacional que foi o fim dos castigos corporais e das humilhações psicológicas nas escolas, não podemos agora, sob o pretexto de que queremos a escola inclusiva e de que temos de aceitar todos os alunos tal como eles são, permitir que estes possam ofender ou atacar professores, funcionários ou colegas que deles se aproximem.

Finalmente, o caso ontem relatado pelo Expresso e que motiva este post serve de alerta para os excessos de voluntarismo: perante um miúdo violento e descontrolado, o melhor é não lhe tocar sem que se tenha a certeza de conseguir controlar, em segurança, a situação. Caso contrário, corremos o risco de passarmos a ser nós o bombo da festa. Tal como polícias, bombeiros e outros profissionais de segurança fazem há muito, em situações de perigo há que intervir e ajudar os outros, mas preservando a nossa segurança em primeiro lugar. Se ninguém protege os professores, devem eles proteger-se, em primeiro lugar, a si próprios. E se a nova regra é que, em nome da inclusão, devemos aceitar que meninos e meninas façam tudo o que lhes apetecer, então o melhor é sair-lhes da frente.

Denunciar a violência nas escolas

Os pais de dois alunos de 5 anos do Centro Escolar de Riachos, Torres Novas, denunciaram “várias agressões” aos filhos, por outras crianças, acusando os responsáveis escolares de “nada fazerem”.
Ao CM, a coordenadora disse que “está a ser feito tudo” para resolver “situações de sala de aula”. “O meu filho é agredido com pontapés e murros, é ofendido ao máximo e sofre de racismo”, disse ao CM Flávio Salinas.

Duas jovens, de 16 e 17 anos, envolveram-se numa luta, motivada pelo que se pensam ser motivos amorosos, tendo a mais nova agredido a mais velha com um canivete, provocando-lhe um corte na orelha.
A altercação ocorreu por volta das 11 horas, desta terça-feira, 19 de Novembro, nas imediações da Escola Básica e Secundária de Salvaterra de Magos, onde as duas jovens estudam, tendo a jovem de 17 anos sido transportada ao Centro de Saúde de Salvaterra de Magos, onde foi assistida aos ferimentos sofridos durante as agressões.

Um estudante de 16 anos, da escola secundária Joaquim de Araújo, em Penafiel, foi agredido, na terça-feira, por um professor, dentro da sala de aula. O jovem em causa sofre de surdez e teve, por isso, que receber assistência médica em dois hospitais. A direcção do agrupamento abriu um processo disciplinar e pediu a sua suspensão preventiva. 

Na Escola Eb. 2/3 de Fânzeres (Agrupamento de Santa Bárbara – Gondomar), no dia 6 de novembro de 2019, dois professores foram agredidos dentro do recinto escolar.
No primeiro caso, um aluno com antecedentes disciplinares dá um estalo a um professor de 62 anos de idade fugindo depois da escola.
No segundo caso, uma aluna apostou com as colegas que se tirasse negativa puxava o cabelo à professora. Tirou e puxou.
Ambos os alunos foram suspensos.

Já deu para perceber que, ao contrário do que afirma a propaganda governamental, a violência escolar está longe de ser um fenómeno “residual” ou circunscrito a um punhado de escolas que servem os bairros mais problemáticos dos principais centros urbanos. Também não é, felizmente, uma realidade do quotidiano da maioria das escolas portuguesas. O que aí domina, sim, é a pequena indisciplina, que quando não é controlada e combatida pode ser, também já se percebeu, o caldo de cultura que propicia incidentes mais graves.

Aqui, entram em jogo as direcções escolares e o próprio ME, que não actuam como deveriam nestas situações. Em nome de uma permissividade indevidamente associada à ideia de “escola inclusiva” e da preservação do que entendem ser a boa imagem das escolas, continuam a esconder-se e a desvalorizar-se agressões graves, não se punindo os agressores nem protegendo adequadamente as vítimas. O facto de serem cada vez mais frequentes as agressões a professores é um sintoma, não só que estes são cada vez menos respeitados e considerados por certas franjas da sociedade, mas também de um salto qualitativo no fenómeno da violência em meio escolar: um aluno que se atreve a bater num professor, o que não fará a um colega com quem se desentenda?…

Quanto aos professores, é ainda de notar que a falta de solidariedade das direcções e, por vezes, dos próprios colegas, leva a que, com demasiada frequência, o professor tenha vergonha de assumir sozinho que se foi maltratado, insultado e agredido. E passa por uma segunda humilhação que é constatar a impunidade do agressor.

Enquanto os responsáveis continuam a fingir que o problema da violência nas escolas não existe, ou não lhes diz respeito – talvez tencionem também passá-lo para as autarquias, à boleia da descentralização de competências! – é importante continuar a denunciá-lo. A comunicação social tem estado, honra lhe seja feita, atenta aos casos que vão sendo conhecidos.

contador-violÊncia-professores_funcionários.jpg

Mas há um esforço que deve ser feito pelos próprios professores e por todos aqueles que podem falar em seu nome. Entre todos, destaco o trabalho meritório e a todos os títulos exemplar do blogue ComRegras, que criou o Contador de agressões a docentes e não docentes e onde se vai mantendo um registo actualizado dos casos que vão sendo do conhecimento público e daqueles que lhes chegam através de denúncia.

Violência escolar: o rei vai nu…

carmo-machadoTambém eu já fui injuriada. A minha experiência profissional com três décadas de escola pública mostra que os alunos dos cursos profissionais são, em regra, mais indisciplinados do que os alunos dos cursos do ensino regular e que os do ensino básico provocam mais problemas do que os do secundário. Porém, é tudo uma questão de sorte. Já me chamaram “filha da puta”. Já entraram e saíram da sala com estrondo, aos pontapés e aos palavrões. Já me ameaçaram. Já amarrotaram e rasgaram testes corrigidos, atirando-os para o caixote do lixo, ali mesmo à minha frente. Todos os dias, dia após dia, há professores a passar por alguma situação de violência. São atos contínuos que vão corroendo a mente e o corpo. Num dia normal de trabalho, um professor lida com cerca de 90 a 120 alunos. Todos diferentes, sim! Mas também todos iguais na sua adolescência, na sua atribulada vida familiar, no seu (des)interesse pela escola, na sua (des)preocupação com as notas, na sua obsessão pelo telemóvel, na sua descoberta da sexualidade, na sua atitude de revolta.

Que razões levam os professores a não marcarem faltas disciplinares amiúde ou, em casos mais trágicos, a não denunciar os alunos à polícia? Medo? Vergonha? Sensação de impunidade? No meu caso, é cansaço. É sobretudo cansaço, como diz o poeta.

Tomando como pretexto o debate televisivo da semana passada sobre a violência escolar, Carmo Machado volta ao tema, trazendo à discussão a sua experiência pessoal, semelhante à de muitos outros professores, numa crónica pertinente e inspirada que merece leitura integral.

Apesar de os responsáveis educativos se recusarem a, já nem digo enfrentar o problema, mas pelo menos a reconhecer a sua existência, a verdade é que o caldo de cultura que é a pequena indisciplina, disseminada na grande maioria das nossas escolas, potencia, quando estão presentes outros factores, uma escalada no sentido da indisciplina grave e das agressões verbais e físicas de alguns alunos contra colegas e professores.

A grande maioria destas situações são resolvidas pelos professores na sala de aula, admite a colega Carmo. Mas a verdade é que são muitas vezes mal resolvidas, como também reconhece: deixam-se passar sem castigo comportamentos inaceitáveis, não se fazem queixas e participações para não colocar em causa o nome das escolas e dos responsáveis. Ou, simplesmente, porque há a noção da inutilidade de avançar com a queixa para a ver acabar esquecida num qualquer fundo de gaveta. É isto que faz com que a violência se perpetue e agrave em certos ambientes escolares. E é também por esta via que se permite que o ME continue a afirmar, cinicamente, que a violência escolar está a diminuir. Algo que os professores no terreno, sobretudo os que lidam diariamente com os ambientes mais complicados, podem categoricamente desmentir.

Na verdade, do lado dos docentes, pode afirmar-se que a insegurança e as ameaças que se tornaram parte do quotidiano, nalgumas escolas TEIP e não só, estão a ter graves efeitos na saúde mental dos professores. Quando estes circulam com medo em certas zonas das escolas, quando receiam enfrentar determinadas turmas, é evidente que algo terá urgentemente de ser feito para reprimir os agressores e devolver a segurança e a tranquilidade aos espaços escolares e a quem neles estuda e trabalha. Termino com as palavras pesarosas, mas ao mesmo tempo sensatas e realistas, da cronista da Visão que venho a citar…

A sensação de impotência e de vazio espalha-se pelas salas de professores. Lidamos diariamente com comportamentos de baixo impacto mas de elevada frequência. E, pouco a pouco, dia após dia, semana após semana, mês após mês, ano após ano, o reflexo destes comportamentos aliado à urgência em apagar tantos fogos ao mesmo tempo vão-se acumulando dentro de nós. Eis-nos chegados a um ponto em que a nossa caixa de ressonância começa a vibrar cada vez menos com a escola. Vivemos as semanas de trabalho na esperança de que os meses e os períodos se sucedam rapidamente e o ano letivo termine. Por tudo isto, considero urgente um debate honesto sobre o cansaço, a exaustão e a desilusão dos profissionais de ensino em Portugal. Neste contexto, dificilmente conseguiremos chegar aos 66 anos e muitos meses na posse de plenas capacidades mentais. Eu por mim falo!

Violência escolar no Prós e Prós

pros-pros.JPGA violência escolar esteve em debate na RTP na passada segunda-feira. Reconhecendo a importância e oportunidade do tema, não gosto do formato do programa, que mais apropriadamente se deveria chamar Prós e Prós. Embora se tente ensaiar o confronto de ideias e a polémica, o que dali resulta quase sempre é a insinuação de falsos consensos e, muitas vezes, a sensação de superficialidade e tempo perdido que invade o espectador atento e interessado no tema do debate.

Um ponto sensível deste tipo de debates é a cuidadosa hierarquização dos convidados. Os VIPs, com direito a ocupar um dos dois palanques no palco. Seguem-se os de segunda categoria, que se sentam na parte da frente da plateia e que, com sorte, poderão ser chamados a animar a festa com as suas intervenções. Dos restantes, apenas se espera que componham o auditório e que vão pontuando com palmas as intervenções mais ousadas ou polémicas. Ou que pretendam passar por tal.

No caso em apreço, seguiram-se as regras não escritas habituais em todos os debates sobre Educação. Embora os professores sejam quem melhor conhece os alunos e avalia o que se passa nas escolas, a teorização sobre os problemas existentes é sempre remetida para outros profissionais: psicólogos, psiquiatras, economistas, académicos, encarregados de educação. Qualquer olhar exterior sobre a escola é sempre mais valorizado do que a experiência vivida no seu interior. Não é por isso de estranhar que os professores estivessem em minoria no palco e representados por situações de excepcionalidade: uma directora que ali foi chamada nesta qualidade e um professor que ganhou legitimidade para falar pelos restantes por ter ganho um prémio de “professor do ano” – atribuído por não professores.

Contudo, se no palco se desfiaram sobretudo vulgaridades e lugares-comuns, da plateia vieram algumas boas intervenções. Destaco, entre todas, a do Luís Braga, nome bem conhecido na blogosfera docente e nos grupos de professores nas redes sociais, pela forma clara e incisiva do seu discurso, aproveitando bem os “minutos de fama” que a televisão pública aceitou conceder-lhe.

Entre as ausências, foi especialmente notada a de um representante ministerial, o que reforça duas ideias que deverão ser centrais à nova governação: o low profile mediático, evitando o desgaste perante as câmaras e procurando adormecer o debate público sobre temas educativos – aquilo a que alguns ingénuos chamarão a pacificação do sector da Educação. E a ideia de que os professores deverão continuar a ser o saco de pancada e a válvula de escape do sistema, aqueles a quem se deverá poder pedir sempre mais um sacrifício ou impor, como obrigação, o que não passa de intolerável humilhação.

Num momento-chave do debate, uma frase de uma anterior ministra da Educação socialista foi oportunamente recordada. A governante, que se gabou de ter perdido os professores, mas ganho a opinião pública, assumiu pela primeira vez a escola pública como um campo de batalha, onde se degladiam forças e interesses contraditórios. Os frutos dessa conflitualidade criada quando se olhou para a escola como terreno de luta política vieram a colher-se mais tarde com a progressiva erosão da autoridade e da dignidade profissional dos professores, abandonados e hostilizados por quem os deveria valorizar e defender. E desenganem-se os pais que achem porventura que isto de os professores também estarem sujeitos a “levar no focinho” é mais democrático: o caos violento subjacente a este modelo de escola acabará por virar-se, de forma mais violenta ainda, contra os próprios alunos.

De resto, a discussão foi, como é habitual nos Prós e Prós, inconclusiva, fugindo demasiadas vezes do tema central do debate – a violência escolar – para se centrar em assuntos paralelos, lugares-comuns e, por vezes, algum narcisismo de intervenientes demasiado contentes consigo próprios. Um debate morno sublinhou a ideia de que a violência escolar está longe de ser uma preocupação nacional. E ainda mais preocupante é o número de professores que acham que ser agredido é uma coisa que só sucede a professores inflexíveis, chatos e antiquados. Ou que já ousam pensar que nada que um aluno lhes diga, ou faça, os deve incomodar ou ofender.

“Um gesto horrível que só eu vi”

valter-hugo-mae-1-l.jpgUm professor ainda jovem, tímido e algo frágil, foi surpreendido por um aluno escondido atrás de uma porta que o esmurrou sumariamente. Não é fácil de explicar mas, quando seguia ao meu lado, ouviu o seu nome à passagem, inclinou o rosto para o vão entre a porta e a parede, e só eu, por um ínfimo e inesperado instante, vi o punho voando e ouvi a ameaça clara do miúdo: fodo-lhe o focinho.

Valter Hugo Mãe parte de um episódio que fugazmente presenciou, em visita a uma escola, para oportunamente discorrer sobre a violência escolar. E explica-nos o que, fazendo uso de alguma inteligência, empatia e bom senso, deveria ser óbvio para toda a gente:

  • O desrespeito aos professores traduz a degeneração da escola e, por conseguinte, da principal instituição a que confiamos a formação das novas gerações;
  • Quando a sociedade não consegue garantir um ambiente educativo são está a abdicar da luta por um futuro melhor, abandonando a juventude à ignorância e ao egoísmo;
  • Políticas educativas inconsequentes têm colocado em causa a dignidade da profissão docente e, ainda pior, criado o clima de aparente aceitação da humilhação e da violência sobre os professores.

Valter Hugo Mãe conclui a breve crónica no JN com as palavras sábias e inspiradas que dirigiu ao professor agredido…

Dediquei o livro assim: peço-lhe que não tenha dúvida, é um dos meus heróis. Não é pelo medo que falhamos. É pela falta de coragem. Como conversámos, não está em causa desistir. Nem dos alunos, nem do futuro. Mas isso implica começar por não desistir dos professores.

Violência escolar: não se pode exterminá-la?…

escola-entronc.JPGEsta terça feira, dia 29, o pai de um aluno da Escola Dr Ruy de Andrade no Entroncamento terá agredido uma professora, depois do filho se ter queixado de esta o ter agredido.

Segundo conseguimos apurar a professora terá separado dois alunos que se envolveram em zaragata na terça feira, sendo que um deles comunicou ao pai que a professora lhe bateu, ao que este se dirigiu à Escola, procurou a professora, e tê-la-á agredido.

As agressões a professores parecem estar a impor-se no quotidiano escolar. Aparentemente, ninguém está a salvo, pois basta um miúdo ligar aos pais e dizer que o professor lhe bateu para que a palavra da criança se torne, para os pais justiceiros e vingativos, verdade inquestionável.

Daí até irromper pela escola para fazer justiça pelas próprias mãos vai um pequeno passo que alguns progenitores não hesitam em dar.

Claro que sempre existiram pessoas violentas, impulsivas e descontroladas. O que é recente é o estranho sentimento de impunidade e de tolerância que se instalou em relação à violência verbal e física contra professores. Insidiosamente, vai-se fazendo passar a ideia de que, quando surge um problema com alunos ou pais, talvez o professor não esteja a fazer bem o seu trabalho. O desinteresse com que o ME olha para estas situações, deixando os professores agredidos entregues a si mesmos – e que contrasta com a celeridade e severidade com que trata os casos raros de professores agressores – também está a funcionar como incentivo a que os pais mais exaltados decidam pôr os professores na ordem.

E, no entanto, o clima de permissividade em relação às agressões não é uma fatalidade nem estará tão generalizado como possa parecer. Na verdade, quando os professores, vencendo a vergonha e o medo, apresentam queixa, as leis e tribunais existentes parecem dar boa conta do recado…

Um pai de Valongo que no ano passado insultou, empurrou e chegou mesmo a passar com o carro por cima de um dos pés do professor da filha, então com 9 anos e a frequentar o 4.º ano do ensino básico numa escola do concelho, foi na semana passada considerado culpado de vários crimes de ofensa à integridade física qualificada e de injúria e difamação agravadas. Para além de ter sido condenado ao pagamento de duas multas, num total de 3300 euros, será ainda obrigado a pagar uma indemnização de 1400 euros ao professor, por danos materiais e morais. 

Ainda assim, parece evidente que se as agressões a professores fossem consideradas crimes públicos – uma promessa antiga, nunca concretizada – e se o ME acompanhasse os docentes nos processos contra os agressores, a celeridade e a eficácia da justiça seriam muito maiores. Não apenas a castigar os criminosos, mas sobretudo a passar uma mensagem clara de tolerância zero em matéria de violência escolar. Obviamente o caminho mais seguro para desencorajar futuras agressões.