Câmaras ligadas!

Os professores podem exigir aos alunos que mantenham as câmaras ligadas quando estão a decorrer as aulas, uma medida que melhora a qualidade do ensino e a relação entre estudantes e docentes. “De acordo com a Resolução do Conselho de Ministros e com pareceres da Comissão Nacional de Protecção de Dados, os professores podem exigir que as câmaras estejam ligadas, dado estar-se em contexto de sala de aula, não havendo divulgação de imagens”, disse à Lusa o Ministério da Educação.

Dar aulas para um ecrã negro, sem conseguir ver a turma, foi um dos grandes desafios que os professores tiveram de lidar em Março, quando os estudantes foram pela primeira vez obrigados a ter aulas à distância. “Não ver os alunos, não perceber se estão motivados ou não, se estão a acompanhar o que estamos a dizer torna o trabalho do professor muito mais difícil”, disse à Lusa o presidente da Associação Nacional de Directores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP), Filinto Lima.

No passado ano lectivo, muitos docentes queixaram-se de não conseguir que os alunos ligassem as câmaras. Os professores sabiam que sem contacto visual era ainda mais difícil manter a turma interessada. Agora os docentes podem exigir mais aos seus alunos.

Depois da polémica do ano passado, surgida quando se começou a invocar o direito à imagem ou questões de privacidade e protecção de dados para instituir o direito a assistir às aulas online de câmara desligada, este ano parece predominar, pelo menos para já, algum bom senso nesta questão.

Na verdade, todos reconhecemos que uma das principais razões da menor eficácia das aulas à distância é a falta da presença física que existe na sala de aula e que facilita e enriquece as interacções que se estabelecem entre alunos e professor. Sendo as câmaras o elemento que nos permite, ainda que distantes, vermo-nos uns aos outros, faz algum sentido, do ponto de vista pedagógico, que elas estejam permanentemente desligadas?

Quanto às questões de imagem e privacidade, convém lembrar que as aulas virtuais ocorrem, em regra, dentro de plataformas seguras, acessíveis apenas ao público restrito a que se destinam e cumprindo a regulamentação nacional e internacional em vigor nesta matéria. São usadas, sem problemas, por escolas e universidades de todo o mundo, bem como por empresas e organizações que certamente levam as questões de privacidade das suas comunicações e da protecção de informação sensível muito a sério.

De resto, não é difícil ao comum internauta aperceber-se de que a sua informação pessoal está muito mais exposta e é facilmente rastreável quando faz uma pesquisa no browser ou usa o email, por exemplo, do que a participar numa videoconferência. E nem isso nos coíbe de recorrer ao correio electrónico, fazer pesquisas no dr. Google ou navegar despreocupadamente nas redes sociais. Assim como a privacidade familiar é mais facilmente exposta se o aluno mantiver o microfone ligado – que apanha todos os sons à sua volta – do que com a câmara, que pode facilmente ser direccionada para captar apenas o aluno.

Tendo em conta o “perfil dos alunos” que geralmente se mostram mais renitentes em ligar a câmara – e o dos pais que os defendem no uso desse “direito! – percebe-se que raramente são as questões dos dados ou da imagem que os preocupam. Deixemos-nos de histórias: querem beneficiar de um serviço educativo levado até às suas casas graças ao esforço e dedicação dos seus professores. Mas não estão dispostos a cumprir o mínimo que há a esperar da sua parte, como comparecer pontualmente e com compostura, assistir e permanecer atentos durante toda a sessão, disponíveis para participar sempre que solicitados.

A exigência das câmaras ligadas é feita em defesa dos alunos, sobretudo dos à partida menos motivados, como forma de melhor garantir o bom aproveitamento das aulas online. Que os professores, é bem sabido, ganham o mesmo ao fim do mês, quer os alunos aprendam ou não aprendam. São o seu brio e profissionalismo que os levam a insistir, mesmo em circunstâncias difíceis, naquilo que sabem ser as condições mais propícias ao ensino e à aprendizagem. Oxalá os alunos, e as suas famílias, sejam capazes de o reconhecer.

As aulas dois-em-um

São vários os estabelecimentos de ensino com alunos em quarentena, isolamento profilático ou pertencentes a grupo de risco em que se pretende, através do computador ou com a instalação de câmaras de vídeo, que as aulas presenciais sejam filmadas para serem visionadas em casa. Esta é uma questão que se coloca quando apenas parte da turma está ausente da sala de aula.

A transmissão direta da aula está a merecer sérias reservas dos professores, que a FENPROF acompanha. Por um lado, questionam-se a validade pedagógica e os benefícios para os alunos desta “dupla aula”, não só pelas limitações técnicas, mas porque um formato de aula presencial, quando sujeito a este duplo desenvolvimento, acaba por prejudicar a relação pedagógica entre o docente e os alunos, qualquer que seja o modo como participam na aula; por outro lado, há o risco de os professores verem gravado, adulterado e/ou divulgado o seu trabalho, por exemplo, através das redes sociais, como já aconteceu no passado, agora agravado pelo facto de estes estarem a desenvolver uma atividade presencial, cuja preparação e concretização em muito se distingue das atividades orientadas para o ensino a distância.

Está a normalizar-se, num número crescente de escolas, este dois-em-um que é um ensino semi-presencial não assumido: o professor dá a aula presencial aos alunos que estão na escola, enquanto os que estão em quarentena assistem em casa por videoconferência. A avaliar pelo que tenho lido nos últimos dias pelas redes sociais, o tema tende a dividir profundamente a classe docente. Há quem alinhe pelo clássico discurso do “o que é que nos custa?”, presumindo que em tempo de pandemia vale tudo para não prejudicar os alunos e que, ao aceitarem a filmagem das suas aulas, estão efectivamente a prestar um bom serviço educativo.

Em contrapartida, há também quem aponte os vários problemas e constrangimentos que esta opção levanta. Pessoalmente, congratulo-me que os sindicatos da Fenprof assumam sem tibiezas a defesa dos direitos e da dignidade dos professores que representam. Independentemente de haver quem voluntariamente aceite o “desafio” que algumas escolas estão a propor, essa opção não pode ser imposta aos restantes professores.

No início do confinamento, quando todos mergulhámos de cabeça no novo mundo do ensino à distância, pareceu-me, na minha ingenuidade, que as sessões online substituiriam, até onde fosse possível, as aulas presenciais. E que aos alunos seria exigida, além da presença na sessão, uma postura adequada e uma participação activa e responsável, que passaria por ver e ser visto por todos e poder comunicar, em tempo real, com os colegas e o professor. Afinal, estava enganado. Os defensores dos direitos das crianças, da inviolabilidade do domicílio e do direito à imagem logo protestaram, alto e bom som, contra a intrusão: meninos e meninas teriam o direito a estar nas sessões com a câmara desligada. Nalgumas turmas, dar a aula para um mosaico de rectângulos pretos tornou-se, ao fim de pouco tempo, o novo normal. Ficando apenas o professor, feito lorpa, com a imagem ligada. E presumindo, optimista, que do outro lado alguém estaria a prestar atenção ao que ele ia dizendo ou mostrando.

Ora bem, estas coisas têm consequências. Se o direito à imagem ou as questões da privacidade se sobrepõem à eficácia das tecnologias educativas, então esses direitos existem para todos os intervenientes, incluindo os professores. Nem o contrato que assinámos com o ME nem o estatuto da carreira prevêem a cedência dos nossos direitos de imagem ao empregador. Não somos entertainers ou artistas de TV, para podermos ser obrigados a expormo-nos perante uma câmara se não estivermos dispostos a fazê-lo.

Pela parte que me toca, não me importo de me expor numa sessão online, para alunos meus que estão em casa e trabalhando exclusivamente para eles, numa aula pensada em moldes de ensino à distância. Mas está fora de questão filmar-me, ou deixar que me filmem, no contexto de uma aula presencial normal, para exibição doméstica ao resto da turma.

Outra questão é a viabilidade prática de uma aula dada em simultâneo para alunos numa sala e colegas que assistem remotamente. Talvez o modelo possa ser viável se pensarmos nas antigas aulas magistrais, que ainda subsistirão nalguns cursos superiores, com um professor sentado à secretária ou estático à frente da sala a explicar a matéria. Só que as aulas dos nossos dias, regra geral, não funcionam assim. O professor desloca-se pela sala, interage com os alunos e estes participam na aula segundo dinâmicas próprias. Não há webcam que consiga captar toda esta dinâmica, nem é possível o professor dar atenção a quem assiste remotamente ao mesmo tempo que gere o trabalho com a turma física que tem à sua frente. E já nem falo nas evidentes limitações do decrépito material informático que equipa a generalidade das salas de aula portuguesas. Uma aula dada nestas condições será insatisfatória para todos os alunos, tanto os que estão na sala como os que vêem – ou tentam ver – em casa.

E isto não teria de ser assim. Há professores de risco que estão presentemente afastados das suas escolas, obrigados a recorrer ao atestado médico porque o ME determinou que todo o ensino seria presencial. Ora estes professores poderiam estar a ser aproveitados para constituir uma bolsa de docentes destinada a apoiar os alunos em confinamento. A política educativa é feita de escolhas, e em vez de enquadrar, na nova realidade, os professores mais vulneráveis, o ME preferiu continuar a apostar numa telescola de mais do que duvidosa utilidade.

Mas o facto de não se terem pensado as coisas a tempo, deixando a tentação economicista falar mais alto não pode, uma vez mais, servir de pretexto para se exigir aos professores mais sacrifícios. Quando se a hipótese foi colocada, o ME rejeitou liminarmente os desdobramentos de turmas ou um planeamento sério do ensino semi-presencial, que seria a solução mais adequada à actual fase da pandemia. Mas vem agora caucionar, com um silêncio cúmplice, a iniciativa das escolas que exigem que o mesmo professor se desdobre a atender as duas partes da mesma turma: a que ficou na escola e a que está de quarentena.

Contudo, a mais rematada hipocrisia a este respeito não a vi escrita por nenhum director ou porta-voz ministerial: eram colegas nossos que defendiam, algures numa rede social, que ensinar ao mesmo tempo uns alunos na escola e outros em casa era uma excelente medida, pois permite finalmente resolver o problema – que nos garantiam ser inexistente – da falta de distanciamento nas salas de aula…

Contra o Nónio

antinonio.pngQuem lê com regularidade a imprensa online portuguesa não tem como lhe escapar. À segunda ou terceira notícia que abre no mesmo site, um fundo escuro obscurece a página e surge uma janela convidando o leitor a registar-se na plataforma Nónio para ter acesso à notícia que pretende ler.

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O site Anti-Nónio explica detalhadamente como funciona e porque não é recomendável fazer o registo nesta ferramenta destinada essencialmente à recolha sofisticada e em larga escala de dados pessoais…

O leitor NÃO DEVE registar-se no Nónio, por três grandes motivos:

Muito bem, dir-se-á, mas a verdade é que hoje em dia há muitos jornais online que impõem o registo ou o login no Nónio para permitir o acesso ao que se quer ler. Para grandes males grandes remédios: a solução passa por instalar uma extensão que bloqueia o programa. Ficam os links para a instalação nos dois mais populares browsers actualmente usados:

Post actualizado a 19/12/2019: foi acrescentado o DeleteNonio à lista dos plugins anti-Nónio.