Presidenciais 2021

De umas Presidenciais sem entusiasmo nem grandes surpresas, algumas notas soltas no rescaldo da noite eleitoral…

Marcelo Rebelo de Sousa cumpre a expectativa da reeleição à primeira volta, prosseguindo o que já se tornou tradição na democracia portuguesa no que se refere aos segundos mandatos presidenciais. Os cerca de 60% dão-lhe uma margem mais do que confortável, mas longe do quase unanimismo que provavelmente ambicionaria.

Ana Gomes consegue um honroso segundo lugar, embora com menos votos do que, em eleições anteriores, obtiveram outros candidatos fortes da área socialista. A vitória sobre André Ventura deveria levar este, se fosse homem de palavra, a abandonar a liderança do partido. Não o fará, obviamente, desde logo porque o partido é ele próprio e depois porque o seu resultado está longe de ser uma derrota: em muitos concelhos do interior desertificado e empobrecido do país, o facho aparece em segundo lugar, por vezes com mais de 20% dos votos. Significa que existe descontentamento e que há problemas reais das populações que não estão a ser ouvidos e tidos em conta pelos partidos tradicionais e que este descontentamento tenderá a alimentar, agora e no futuro, projectos populistas e autoritários, ainda que disfarçados de anti-sistémicos.

Mas, relativamente a Ventura, há mais: o candidato que agora obteve nas urnas quase meio milhão de votos poderá ter, se tivermos em conta a elevada abstenção e projectarmos este valor no total do universo eleitoral, mais de um milhão de potenciais apoiantes: ou seja, cidadãos sensíveis ao discurso securitário, racista, xenófobo e proto-fascista do líder do Chega.

Quanto a João Ferreira e Marisa Matias, embora tenham tido boas prestações em campanha – mais ele, com um discurso quase sempre incisivo, oportuno e bem articulado, do que ela, notoriamente menos inspirada do que em campanhas anteriores – são candidatos derrotados na medida em que não conseguiram segurar, sequer, o eleitorado habitual dos respectivos partidos. Aliás, a esquerda é toda ela derrotada numas eleições em que os quatro candidatos oriundos do universo PS-BE-PCP não atingem, juntos, nem 25% dos votos expressos.

Finalmente, o liberal Tiago Mayan demonstrou que a narrativa liberal com que se tenta construir uma alternativa política à direita continua pouco convincente e desajustada da realidade económica e política do país. O voto liberal tende a concentrar-se em nichos da população jovem e urbana, o que a noite eleitoral tornou bem visível, pois só já para o final, com o apuramento dos votos nos maiores centros urbanos, é que o candidato da Iniciativa Liberal conseguiu relegar Tino de Rans, seguramente o candidato com menores ambições, para o último lugar.

Os sete candidatos

A análise bem humorada de Guilherme Duarte, daqui.

Faltaram afectos aos professores

Imagem daqui.

O candidato presidencial João Ferreira considerou hoje que o actual chefe de Estado distribuiu “muito mal” os “conhecidos afectos” e que os professores são uma classe profissional “para a qual claramente faltaram afectos” nos últimos cinco anos.

“Acho que este é um belíssimo exemplo de que os conhecidos afectos daquele que actualmente ocupa o cargo de Presidente da República foram muito mal distribuídos. É o exemplo de uma classe profissional para a qual, claramente, faltaram afectos ao longo destes anos”, disse à agência Lusa o candidato apoiado pelo PCP e pelo PEV, depois de uma reunião com a Federação Nacional dos Professores, em Lisboa.

O também eurodeputado comunista e elemento do Comité Central do partido considerou que esta falta de “afectos numa dimensão simbólica” imputada a Marcelo Rebelo de Sousa foi acompanhada pela carência na “valorização da profissão de professor”, assim como no “combate à enorme precariedade que ainda prevalece” nesta profissão.

Enquanto não reúne com o ministério – a primeira reunião ao fim de quase um ano de interregno está marcada para amanhã – a Fenprof conversou hoje com João Ferreira. À saída , o candidato presidencial apoiado pelo PCP aproveitou para criticar uma presidência de muitos “afectos” e poucas realizações. É certo que o cargo presidencial não tem poderes executivos nem deliberativos, mas ainda assim João Ferreira pensa, como muitos professores, que o presidente Marcelo poderia ter usado mais e melhor a sua influência política a favor da valorização profissional da classe docente.

Mário Nogueira, pelo lado da Fenprof, secundou esta ideia de abandono dos professores por parte dos órgãos de soberania, Presidente da República incluído. Mas é claro, acrescento eu, que nem será do lado presidencial que advirão as maiores queixas dos professores. Todos sentem o quotidiano desprezo que o ministério que tutela a classe nutre por ela, e que se manifesta não só nas orelhas moucas às suas reivindicações profissionais como na própria política educativa, toda ela construída, não com os professores que a põem em prática, mas contra eles. Quanto ao Parlamento, nem é bom lembrar as teatradas em torno da recuperação do tempo de serviço e como todos os principais partidos encontraram formas de se desentender para permitir ao Governo levar a sua avante, frustrando as aspirações dos professores.

Insubmisso até ao fim

melenchon.JPGAo contrário dos que se têm entretido a crucificar o candidato derrotado de esquerda, Jean-Luc Mélenchon, por ainda não ter apelado claramente ao voto em Emmanuel Macron na segunda volta das presidenciais francesas, parece-me que as reservas do candidato da esquerda “insubmissa” faz todo o sentido:

  • Reafirma a ideia de que os candidatos não são donos dos votos dos seus eleitores. Cada um dos votantes em Mélenchon terá agora de, pensando pela sua cabeça, decidir qual a forma mais inteligente e eficaz de usar o seu voto de acordo com aquilo que pretende para o futuro da França.
  • Passa a bola para o lado do candidato centrista, que é quem efectivamente vai a jogo no próximo domingo. Se está interessado nos votos da esquerda e quer derrotar a direita nacionalista, racista e xenófoba representada por Le Pen, não pode limitar-se a promessas vagas e a agitar o papão da extrema-direita. Tem de assumir compromissos concretos e mostrar claramente, aos eleitores de esquerda, as boas razões que poderão ter para votar nele.
  • A democracia tende a funcionar melhor quando não estende a passadeira vermelha a políticos situacionistas, oportunistas e demagogos, como Macron aparenta ser. E mais importante do que a eleição, praticamente certa, é o que irá fazer um Presidente que não dispõe do apoio de um grande partido para governar. Em vez de lhe passarem um cheque em branco, os Franceses terão tudo a ganhar se venderem caro o seu voto ao mais que provável vencedor das presidenciais de domingo.

As eleições francesas

macron-lepen.jpgDeram o resultado esperado, a vitória do politicamente correcto Macron e a passagem, com Marine Le Pen, à segunda volta, onde a esperada união de esquerdas e direitas democráticas deverá travar o passo ao populismo xenófobo da Frente Nacional.

Em frangalhos ficam a direita tradicional, republicana e gaulista, que não consegue chegar à última fase do processo eleitoral, e os socialistas, que vêem pulverizar-se os votos no seu candidato em benefício do banqueiro que eles próprios trouxeram para a ribalta política.

Jean-Luc Mélenchon, o representante das esquerdas à esquerda do PS francês, consegue um resultado que noutras circunstâncias se consideraria muito satisfatório, tendo em conta que provém de uma área política tradicionalmente minoritária. Seria certamente o meu candidato, se votasse nestas eleições.

Segue-se a votação final a 7 de Maio, dia em que, à esquerda e à direita, muitos eleitores votarão, sem convicção, no situacionista Macron, apenas para travar o passo à extrema-direita.

A falta que faz um perfil de saída nas escolas americanas

trumpTrump tem a maturidade emocional de uma criança de 4 anos, o vocabulário de uma de 6 e é incapaz de pensar um problema complexo.

Quem o diz é Peter Kuznick, professor de História na Universidade Americana em Washington e especialista em temas nucleares, que se confessa aterrorizado com a presidência de Trump e com o acesso que este homem impulsivo, ignorante e notoriamente xenófobo passou a ter aos comandos das armas nucleares dos EUA. E acrescenta:

Apesar de muitas semelhanças, Trump ainda não é um Hitler, nem nós deixaremos que ele se torne num. Ele apela às piores tendências que existem na sociedade, tem posições muitos hostis em relação aos muçulmanos e não lhe corre no sangue um pingo de bondade ou de generosidade humana. Mas ainda não vimos aquele ódio cego que poderia levar a uma loucura genocida como no caso de Hitler. Um sinal preocupante, porém, é o desprezo que mostra pela verdade. Não é um nazi, mas não tenho dúvidas de que um homem como Trump seria um nazi na Alemanha dos anos 30.

E como deter Trump? Depois de derrotados pelo voto os seus opositores, Kuznick aposta numa vitória contra Trump ganha na secretaria.

Recusa publicar as declarações de impostos e passou os negócios para as mãos dos idiotas dos filhos. Há vários processos a correr contra ele e convém não esquecer que uma dúzia de mulheres apareceu durante a campanha a acusá-lo de assédio. O país está mobilizado contra ele. Desde os movimentos contra a Guerra do Vietname nos anos 1960 que não assistíamos a este nível de mobilização política. Muitos republicanos preferiam ver Mike Pence [atual vice-presidente] no lugar de Trump.

No lugar de Kuznick, não me sentiria tão confiante…

 

Os amigos de Trump

Extrema direita europeia saúda posse de Trump

Netanyahu felicita o “amigo” Donald Trump

Ex-líder do Ku Klux Klan saúda posse de Trump: “Conseguimos!”

Entretanto…

Papa alerta para o perigo de confiar “num salvador que nos defende com muros”

A marcha contra Trump transformou-se num festival pela democracia

E uma selecção de imagens das manifestações anti-Trump de ontem, por todo o mundo – fotos do Público.

O sósia de Trump

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© Público

Cinco razões para a vitória de Trump

trump.JPGModeradamente surpreendido com a eleição de Trump – pois quase nada proveniente dos States, por mais aberrante que seja, constitui para mim surpresa completa – recupero um texto premonitório de Michael Moore, no qual o controverso cineasta norte-americano apontava já, em Julho passado, as cinco principais razões que, segundo ele, haveriam de dar a vitória a esse “miserável, ignorante e perigoso palhaço em part-time e sociopata a tempo inteiro que vai ser o nosso presidente“:

1. A Matemática do Midwest: a Cintura da Ferrugem, um conjunto de quatro estados deprimidos na região dos grandes lagos – Michigan, Ohio, Pensilvânia e Wisconsin – que tradicionalmente votam democrata, mas onde um candidato desalinhado como Trump, que ameaça taxar duramente os fabricantes de automóveis que transfiram a produção para o México ou mesmo os telemóveis da Apple montados na China, pode facilmente inverter o sentido habitual de voto e dessa forma ganhar as eleições. Sobretudo se fizer estas promessas tendo como pano de fundo uma velha fábrica da Ford desactivada e entre a assistência numerosos desempregados.

2. Os Homens Brancos Zangados: homens que, um pouco por todo o país, assistiram com desagrado à progressiva conquista da igualdade de direitos por parte das mulheres. Poderem ter as mesmas oportunidades de estudar ou de praticar desporto que têm os rapazes, ainda vá. Ou mesmo pilotarem aviões, ou distinguirem-se na música, nas artes e noutras áreas. Mas levar o poder feminino ao ponto de permitir que uma mulher possa chegar ao mais alto cargo da nação e mandar nos homens, ainda para mais depois de terem aturado durante oito anos “um negro” a dizer-lhes o que fazer – isto é, para boa parte do eleitorado machista e conservador, excessivo.

3. O Problema Hillary: a candidata democrata é uma pessoa impopular, com uma imagem pública demasiado associada ao velho e corrupto sistema político. Hoje Hillary não entusiasma ninguém, ao contrário de Obama em 2008, e muitos dos que votam nela, incluindo o próprio Moore, fazem-no para tentar evitar que um fascista chegue à Casa Branca.

4. Os Eleitores Deprimidos de Sanders: a derrota de Bernie Sanders nas primárias democratas deixou amargos de boca entre os apoiantes deste candidato. E se a maioria se resignou a apoiar Hillary Clinton, não o fez com aquele entusiasmo que poderia arrastar mais apoiantes para a candidatura democrata. Uma aposta ousada na escolha do vice-presidente poderia ter conseguido chamar a si esta ala mais jovem e inconformada do partido. Mas essa foi também uma oportunidade perdida a favor de Trump.

5. O Efeito Jesse Ventura: este atleta de wrestling foi eleito governador do Minnesotta nos anos 90, não porque os eleitores estivessem convictos de que ele era o melhor candidato, mas porque quiseram protestar dessa forma contra o sistema político. E o mesmo terá acontecido, em parte, na eleição de Trump. Na câmara de voto não há câmaras de segurança, não há escutas, não há esposas, não há filhos, não há patrões, não há polícias. O eleitor não precisa de razões nem de justificações para votar como quiser e muitos terão votado em Trump apenas porque o podiam fazer. Perante um sistema político desacreditado por políticos que, como entre nós se diz muitas vezes, “são todos iguais”, por que não experimentar um que parece diferente, e ver o que acontece a seguir?…