Educadoras sexagenárias

educadora1.pngA falta de renovação geracional é uma realidade da profissão docente no nosso país e um sinal claro do desinvestimento na Educação. As poupanças orçamentais conseguidas com a redução do número de profissionais ao serviço e o aumento da idade da aposentação têm como consequência directa o envelhecimento da profissão.

Mas não há sector onde isto se note mais do que na educação pré-escolar. Primeiro, porque a idade média destes docentes é das mais elevadas, comparativamente com outros grupos de recrutamento. E também porque, tendo em conta a tenra idade das crianças que frequentam os jardins de infância, é aqui que a diferença etária mais se faz notar.

Educadoras com idade para serem avós dos meninos que têm nas suas salas: sem pôr em causa a competência profissional destas colegas, que nem sequer é o que está em causa, deve reconhecer-se o desafio que, quotidianamente, se coloca a quem já não tem a energia da juventude e acumula décadas de serviço numa profissão reconhecidamente exigente e desgastante. O DN falou com duas educadoras já na casa dos sessentas, e os testemunhos confirmam aquilo que, com um pouco de bom senso, facilmente se consegue intuir.

“Falta de energia.” Esta é a frase que Teresa Santos e Isabel Rodrigues, educadoras de infância na Escola Básica D. Dinis, em Odivelas, mais vezes repetem para descrever o seu quotidiano. Teresa tem 63 anos, completa 64 em março; Isabel faz 62 em fevereiro. Ambas somam 40 anos de serviço. Mas nenhuma tem garantida a aposentação a curto prazo.

Pertencem ao grupo que, de longe, entre toda a classe docente, mais tem vindo a envelhecer ao longo da última década. Um paradoxo, tendo em conta que é também aquele que acompanha as crianças mais novas da rede escolar. Aquelas que maior dependência têm dos adultos e que, por isso, maior esforço – físico e mental – exigem deles.

Anúncios

Quando os estranhos estão na escola

auxiliares.JPGAs notícias sobre a falta de pessoal auxiliar nas escolas são recorrentes, ao ponto de condições de funcionamento que deveriam ser inaceitáveis se terem, em muitos lados, tornado normais. A principal causa desta situação já nem é a insuficiência dos quadros de pessoal das escolas e agrupamentos, mas sim o elevado número de funcionários que por vezes se encontram doentes, obrigando a substituições temporárias. Uma situação agravada pela média etária relativamente elevada destes profissionais.

Mas há uma problema, com estes profissionais, de que raramente se fala: apesar de ser, injustamente, uma profissão económica e socialmente desconsiderada, a função de assistente operacional num estabelecimento de ensino não é, não deveria ser, para qualquer um. Nem toda a gente está em condições de trabalhar numa escola. E quem o faz deveria ter, além de um mínimo de apetência e gosto em lidar com crianças e jovens, a formação adequada às funções que irá desempenhar, algo que se torna ainda mais evidente quando pensamos nas escolas do primeiro ciclo e na educação pré-escolar.

Há algo de profundamente errado na forma como se continuam a preencher vagas de assistentes operacionais nas escolas portuguesas. E o facto de a situação ser mais grave nos níveis de ensino já entregues à responsabilidade das autarquias não augura nada de bom relativamente à municipalização anunciada de todo o pessoal não docente…

Estamos na Escola Secundária Pinhal do Rei, que alberga alunos de nacionalidades e contextos sociais bem diversos, embora não seja aquela a escola que mais preocupa Pedro Lopes. O professor de Economia está habituado a fazer muitas contas no exercício da função, sobretudo no que toca às assistentes operacionais disponíveis, particularmente nos jardins-de-infância e nas escolas do primeiro ciclo, em que a maioria desses quadros é da responsabilidade da câmara municipal.

“O problema é que as pessoas são requisitadas ao IEFP. Não têm formação (nem vocação, a maioria das vezes), e além disso muitas recusam o emprego, porque é-lhes mais vantajoso estar no desemprego”, admite o responsável, a braços com 16 escolas, a maioria infantários e de primeiro ciclo. Às tantas, o diretor já não sabe se a emenda não é pior do que o soneto: “Isto é quase um paradoxo, porque passamos a vida a dizer aos mais pequeninos para não falarem com estranhos, e de repente a pessoa que lhes dá a sopa é um desses estranhos”, adverte Pedro Lopes, que se mostra sobretudo preocupado com essa franja de alunos, dos 3 aos 6 anos de idade.

“É muito complicado para uma criança dessa idade ter hoje uma pessoa, amanhã outra e para a semana outra. Sem contar aquelas vagas que demoram uma eternidade a ser ocupadas, porque a câmara chega a abrir concursos em que não concorre ninguém.” É o caso dos lugares para onde se pede “uma pessoa que faça duas horas de manhã e duas à tarde. Imagine que a pessoa tem de se deslocar, pagar combustível, ter outras despesas, é claro que não lhe compensa”, considera o responsável do agrupamento.

Já têm seis anos e ainda não andam na escola

041700a[1]E, aparentemente, estão muito bem.

Uma boa parte do insucesso escolar no 1.º ciclo ocorre precisamente porque há crianças que são encaminhadas para a escola dos mais crescidos ainda antes de fazerem seis anos e de terem desenvolvido a maturidade necessária para se integrarem no novo ambiente escolar.

A verdade é que, se é certo que muitos miúdos se adaptam bem e não revelam dificuldades de aprendizagem, nalguns casos nota-se bem que aquelas crianças teriam beneficiado em ficar mais um ano na educação pré-escolar . Cada caso é um caso, e por isso mesmo a transição, para o 1.º ano de escolaridade, dos alunos que só completam os seis anos entre Setembro e Dezembro, deveria ser cuidadosamente ponderada, tendo em conta o parecer dos educadores e de outros especialistas que tenham acompanhado as crianças.

De resto, a longa escolaridade até aos 18 anos, a que se seguirá, para a grande maioria dos actuais alunos do 1.º ciclo, a frequência universitária, significa que passarão na escola uma grande parte da sua vida: não é preciso ter pressa para entrar, sobretudo quando, em alternativa, podem usufruir de mais um ano no jardim de infância…

«Quantos anos tens?» «Seis» «Andas em que ano?» «Na “pré”, mas já podia andar no primeiro ano. Os meus pais é que não deixaram.»

Tomé é uma das 9912 crianças que, em 2017, com seis anos, permanecia na educação pré-escolar, número que representava 9,9 por cento dos inscritos nesta valência.

A taxa tem vindo a aumentar e em 2017 era de mais 70 por cento do que em 2007, segundo um relatório do Conselho Nacional de Educação, o que, para o pedopsiquiatra Pedro Strecht, é uma boa notícia. «É um erro os miúdos entrarem [para o primeiro ano] antes dos seis anos. Há todo um tempo de crescimento e de maturidade que é necessário para fazerem a integração e a digestão das próprias experiências».

A explicação para os números não consta do estudo, mas as razões encontrar-se-ão entre a falta de vagas no primeiro ano do ensino básico para todos os alunos condicionais [crianças que fazem seis anos entre 16 de setembro e 31 de dezembro] e a decisão dos pais [destes alunos] de os manter no pré-escolar.

O babysitter do século XXI

Nove em cada dez casas portuguesas têm smartphones, tablets, computadores portáteis ou ligação à Internet. Os dispositivos electrónicos são usados por crianças cada vez mais novas. Os pais são os primeiros a passá-los para as mãos dos filhos e as crianças que mais usam aplicações (apps) são as que têm entre zero e os dois anos, revela o estudo Happy Kids: Aplicações Seguras e Benéficas para Crianças, do Católica Research Centre for Psychological, Family and Social Wellbeing (CRC-W), da Faculdade de Ciências Humanas, da Universidade Católica Portuguesa, que é apresentado em Lisboa nesta terça-feira.

Tal como nos anos de 1980, o Papa João Paulo II alertava para a televisão como a “ama electrónica” das crianças, agora, este estudo vem confirmar que os ecrãs continuam a ter essa função, quer em casa quer na rua, por exemplo, nos restaurantes, onde as crianças são postas frente a um tablet ou a um smartphone, dizem 587 pais dos mil que respondem que os filhos usam aplicações. Em casa, acontece quando os pais precisam de trabalhar ou fazer tarefas domésticas, respondem 490. Os dispositivos também podem ajudar a resolver uma birra para 99 dos pais.

O estudo, recentemente publicado, mostra uma realidade preocupante: numa idade crucial para o desenvolvimento das interacções sociais e a gradual descoberta do mundo à sua volta, as crianças até aos dois anos recebem telemóveis com aplicações para que estejam entretidas e não perturbem os afazeres ou o descanso dos pais.

E embora se tentem iludir com as supostas vantagens educativas dos aparelhos electrónicos, são os próprios pais que reconhecem as suas maiores desvantagens: comprometem a actividade física e o desenvolvimento de competências sociais e perturbam o sono. Mas sabe tão bem ter as criancinhas sossegadas e agarradas aos ecrãs…

telem.JPG

Há nesta utilização precoce dos smartphones uma falha que é especialmente notada pelos investigadores: raramente os pais se dispõem a explorar as aplicações em conjunto com os filhos. E confiam que, como as capacidades dos miúdos mais pequenos são naturalmente limitadas, não correrão os riscos a que estão sujeitos os mais velhos, mesmo em aparelhos ligados à internet.

E, no entanto, a investigação parece apontar uma realidade um pouco distinta: as crianças tendem a saber mais coisas acerca dos telemóveis, tablets e computadores colocados à sua disposição do que pensam pais. E por vezes a fazer um uso diferente daquele que está planeado. Há relatos e evidências de que as crianças começam cada vez mais cedo a pesquisar no Google, a instalar aplicações e mesmo a aceder a redes sociais. E a fazer estas coisas, frequentemente, sem a supervisão dos pais.

Fake news

O problema da falta de vagas na rede pública de educação pré-escolar é real, afectando sobretudo a zona da Grande Lisboa.

Problema igualmente grave, mas menos falado, é o das crianças que fazem os seis anos entre 15 de Setembro e 31 de Dezembro e que são forçadas a ficar mais um ano no jardim de infância sempre que o ME não abre turmas suficientes para receber estes alunos no 1º ano. Ora a transição destes alunos, sendo facultativa, deveria ser decidida com base em critérios estritamente pedagógicos e não condicionada por critérios administrativos e economicistas.

Posto isto, é de lamentar a forma manipulatória e sensacionalista como estes assuntos continuam a ser tratados por alguma imprensa, veiculando informação falsa e colocando-se ao serviço de estratégias político-partidárias. Estiveram mal o Público e a jornalista Clara Viana, neste caso denunciado pel’Os Truques da Imprensa Portuguesa.

Primeiro, inventa uma mentira e forja dados. Depois, perante a denúncia, mantém-na. Entretanto, um partido toma uma iniciativa com base na mentira. Por fim, faz notícia dessa iniciativa, sublinhando orgulhosamente que ela assenta na mentira original. É o Público.

truques.jpg

Questionam-se os leitores: mais do dobro é quanto? Em que é que se traduz este aumento de 100% a que se refere o Público? Segundo a mesma notícia, mais abaixo, este ano já se terão queixado de problemas de colocação no pré-escolar… 20 pessoas, um número manifestamente baixo no universo de pais e crianças para tirar qualquer ilação sobre variações.

Mas o problema mais grave é, sem dúvida, outro: o número de queixas apontado é falso. Sendo que as queixas submetidas no Portal da Queixa são abertas e visíveis por qualquer pessoa que aceda ao Portal, é fácil de verificar que apenas foram submetidas 13 queixas (e não 20) relativamente ao período de inscrições de 2018.

Como se não bastasse, também o número de queixas relativas a 2017, através do qual se chega à conclusão sobre o aumento de 100%, é falso. Não foi de 10 (como se deduz pela notícia), mas sim de 14.

Ou seja, a “onda de reclamações” que supostamente decorria de aumento de 100% (de 10 para 20), afinal, é uma redução do número de queixas, igualmente desprezível, de 14 para 13. É – digamos – uma onda em maré vaza.

Demasiados alunos por sala no pré-escolar

pre-escolar.jpgAs turmas do ensino pré-escolar em Portugal têm uma dimensão média de 17 crianças por sala e educador, um dos rácios mais altos entre os países da OCDE, que regista uma média de 14 crianças por sala.

Os dados constam do relatório ‘Education at a Glance 2016’, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), hoje divulgado.

Portugal é o sétimo país com o maior número de crianças por sala de pré-escolar, atrás de Indónesia, Reino Unido, China, França, México e Chile. No extremo oposto fica a Austrália, que tem apenas cinco crianças por sala.

A frequência do ensino pré-escolar em Portugal aumentou de forma significativa na última década, com um crescimento de 61% para 77% entre 2005 e 2014 para crianças de três anos, o que deixa o país com taxas de frequência acima da média da OCDE.

A frequência a partir dos quatro anos foi universalizada a partir do presente ano letivo, mas em 2014 eram já 91% as crianças dessa idade que frequentavam este nível de ensino, novamente acima da média dos países da OCDE, que se fixou nos 85%.

O investimento público no pré-escolar está nos 0,6% do Produto Interno Bruto (PIB), próximo dos 0,8% da média da OCDE.

Estamos no bom caminho – embora ainda com trabalho para fazer – no que toca à universalização da frequência da educação pré-escolar. Na comparação internacional, o que se destaca pela negativa é ser Portugal um dos países da OCDE com maior número de crianças por educador e por sala.

O pré-escolar é há muito reconhecido como uma fase crucial do desenvolvimento infantil. É nas salas dos infantários que os miúdos adquirem e desenvolvem as competências sociais, emocionais e cognitivas que favorecem percursos escolares de sucesso. É também aí que, cada vez mais, se faz a detecção de problemas e dificuldades que possam comprometer a escolarização, permitindo a intervenção precoce.

Mas tudo isto fica comprometido quando continuamos a apostar num número excessivo de crianças por sala, o que tem um resultado muito claro: quanto maior for o grupo, mais a atenção do/a educador/a tem de ser dividida por todos. Em idades em que dar atenção individualizada a cada um dos miúdos é fundamental.

A solução, que passa obviamente por abrir mais salas, nem será complicada ou muito dispendiosa: em muitas zonas do país abundam os horários-zero na Educação Pré-Escolar, pelo que a abertura das salas se faria aí a custo zero, ou muito perto disso, aproveitando os recursos humanos disponíveis. Noutros lados, implicaria o recrutamento de novos profissionais, o que também é justo e exequível.

Claro que haveria de gastar algum dinheiro, mas nada de incomportável quando se assumem, noutras áreas da governação, compromissos bem maiores e nada prioritários. Quanto nos custaria a contratação de uns poucos milhares de educadores de infância? Porventura menos do que meio avião de combate, ou talvez tanto como meia dúzia de reformas douradas dos jardinsgonçalves que faliram a banca portuguesa…

A importância da sesta

sono.gifAntónio fez quatro anos na semana passada. Quando entrou no pré-escolar, com três anos de idade, as cinco sestas que dormia durante a semana, de segunda a sexta-feira, acabaram abruptamente – na escola do António não se faz a sesta. Indiferente a normas, ele dorme na mesma: ainda hoje não é raro a professora ir dar com ele a dormitar. Arranja-lhe umas almofadas e o António dorme meia hora, uma hora no máximo, no cantinho da sala. “É ele próprio que pede para descansar”, diz a mãe, que chegou a perguntar na escola se queriam que levasse alguma coisa, um colchão para o menino dormir.

António anda numa escola básica de ensino público, com jardim-de-infância, em Alvalade, Lisboa. Como acontece em muitas escolas, as crianças do pré-escolar (a partir dos três anos) não dormem a sesta. “Disseram-nos logo que ele não dormiria, que não tinham condições”, diz ao DN Catarina Januário, a mãe. Na semana em que entrou na escola “vinham entregar-me o António ao colo” – tinha adormecido entretanto. E a questão mantém-se passados estes meses: “Volta, não volta, adormece”. À tarde tem de tomar um lanche reforçado porque não é raro adormecer antes do jantar.

Sempre se soube que a sesta é um hábito natural, saudável e essencial ao bem-estar das crianças mais pequenas, que têm necessidade de dormir mais horas do que os adultos. Este hábito tende a perder-se naturalmente por volta dos 5-6 anos, e sendo incompatível com os horários escolares do 1º ciclo, fazer o “desmame da sesta” é assumido como uma responsabilidade da educação pré-escolar.

A questão que se coloca é, então, quando fazer. Logo aos três anos, como parece ser a tendência crescente, que vem acompanhando a universalização do pré-escolar? Ou aos cinco, como preparação para a entrada na escola dos meninos mais crescidos?

A resposta complica-se porque a realidade demonstra que não há uma idade ideal para abandonar a sesta: alguns miúdos parecem prontos para o fazer aos três anos, mas outros, aos cinco, ainda sentem absoluta necessidade de dormir, nem que seja meia hora, depois do almoço.

Os horários das crianças também contam: aqueles que se levantam muito cedo, porque os pais os entregam nos infantários antes de ir para o trabalho, precisam mais da sesta do que os que dormem até mais tarde de manhã. Recordo-me que os meus filhos nunca foram grandes adeptos da sesta no infantário, provavelmente por esta razão.

Há contudo um aspecto da questão que não deveria levantar dúvidas: quaisquer que sejam as soluções encontradas, elas não devem estar nunca condicionadas pelas limitações físicas dos infantários. Nunca, nos tempos contemporâneos, nasceram tão poucas crianças em Portugal, pelo que não se justificam as carências de espaços adequados que se continuam a constatar.

Equipar devidamente a rede pública de infantários, dotando os estabelecimentos com áreas distintas para as actividades educativas, as refeições e o repouso parece-me ser condição essencial para uma educação pré-escolar de qualidade. Só a partir daí a questão do dormir ou não dormir poderá ser perspectivada da única forma correcta: em função das necessidades das crianças.