O babysitter do século XXI

Nove em cada dez casas portuguesas têm smartphones, tablets, computadores portáteis ou ligação à Internet. Os dispositivos electrónicos são usados por crianças cada vez mais novas. Os pais são os primeiros a passá-los para as mãos dos filhos e as crianças que mais usam aplicações (apps) são as que têm entre zero e os dois anos, revela o estudo Happy Kids: Aplicações Seguras e Benéficas para Crianças, do Católica Research Centre for Psychological, Family and Social Wellbeing (CRC-W), da Faculdade de Ciências Humanas, da Universidade Católica Portuguesa, que é apresentado em Lisboa nesta terça-feira.

Tal como nos anos de 1980, o Papa João Paulo II alertava para a televisão como a “ama electrónica” das crianças, agora, este estudo vem confirmar que os ecrãs continuam a ter essa função, quer em casa quer na rua, por exemplo, nos restaurantes, onde as crianças são postas frente a um tablet ou a um smartphone, dizem 587 pais dos mil que respondem que os filhos usam aplicações. Em casa, acontece quando os pais precisam de trabalhar ou fazer tarefas domésticas, respondem 490. Os dispositivos também podem ajudar a resolver uma birra para 99 dos pais.

O estudo, recentemente publicado, mostra uma realidade preocupante: numa idade crucial para o desenvolvimento das interacções sociais e a gradual descoberta do mundo à sua volta, as crianças até aos dois anos recebem telemóveis com aplicações para que estejam entretidas e não perturbem os afazeres ou o descanso dos pais.

E embora se tentem iludir com as supostas vantagens educativas dos aparelhos electrónicos, são os próprios pais que reconhecem as suas maiores desvantagens: comprometem a actividade física e o desenvolvimento de competências sociais e perturbam o sono. Mas sabe tão bem ter as criancinhas sossegadas e agarradas aos ecrãs…

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Há nesta utilização precoce dos smartphones uma falha que é especialmente notada pelos investigadores: raramente os pais se dispõem a explorar as aplicações em conjunto com os filhos. E confiam que, como as capacidades dos miúdos mais pequenos são naturalmente limitadas, não correrão os riscos a que estão sujeitos os mais velhos, mesmo em aparelhos ligados à internet.

E, no entanto, a investigação parece apontar uma realidade um pouco distinta: as crianças tendem a saber mais coisas acerca dos telemóveis, tablets e computadores colocados à sua disposição do que pensam pais. E por vezes a fazer um uso diferente daquele que está planeado. Há relatos e evidências de que as crianças começam cada vez mais cedo a pesquisar no Google, a instalar aplicações e mesmo a aceder a redes sociais. E a fazer estas coisas, frequentemente, sem a supervisão dos pais.

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Fake news

O problema da falta de vagas na rede pública de educação pré-escolar é real, afectando sobretudo a zona da Grande Lisboa.

Problema igualmente grave, mas menos falado, é o das crianças que fazem os seis anos entre 15 de Setembro e 31 de Dezembro e que são forçadas a ficar mais um ano no jardim de infância sempre que o ME não abre turmas suficientes para receber estes alunos no 1º ano. Ora a transição destes alunos, sendo facultativa, deveria ser decidida com base em critérios estritamente pedagógicos e não condicionada por critérios administrativos e economicistas.

Posto isto, é de lamentar a forma manipulatória e sensacionalista como estes assuntos continuam a ser tratados por alguma imprensa, veiculando informação falsa e colocando-se ao serviço de estratégias político-partidárias. Estiveram mal o Público e a jornalista Clara Viana, neste caso denunciado pel’Os Truques da Imprensa Portuguesa.

Primeiro, inventa uma mentira e forja dados. Depois, perante a denúncia, mantém-na. Entretanto, um partido toma uma iniciativa com base na mentira. Por fim, faz notícia dessa iniciativa, sublinhando orgulhosamente que ela assenta na mentira original. É o Público.

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Questionam-se os leitores: mais do dobro é quanto? Em que é que se traduz este aumento de 100% a que se refere o Público? Segundo a mesma notícia, mais abaixo, este ano já se terão queixado de problemas de colocação no pré-escolar… 20 pessoas, um número manifestamente baixo no universo de pais e crianças para tirar qualquer ilação sobre variações.

Mas o problema mais grave é, sem dúvida, outro: o número de queixas apontado é falso. Sendo que as queixas submetidas no Portal da Queixa são abertas e visíveis por qualquer pessoa que aceda ao Portal, é fácil de verificar que apenas foram submetidas 13 queixas (e não 20) relativamente ao período de inscrições de 2018.

Como se não bastasse, também o número de queixas relativas a 2017, através do qual se chega à conclusão sobre o aumento de 100%, é falso. Não foi de 10 (como se deduz pela notícia), mas sim de 14.

Ou seja, a “onda de reclamações” que supostamente decorria de aumento de 100% (de 10 para 20), afinal, é uma redução do número de queixas, igualmente desprezível, de 14 para 13. É – digamos – uma onda em maré vaza.

Demasiados alunos por sala no pré-escolar

pre-escolar.jpgAs turmas do ensino pré-escolar em Portugal têm uma dimensão média de 17 crianças por sala e educador, um dos rácios mais altos entre os países da OCDE, que regista uma média de 14 crianças por sala.

Os dados constam do relatório ‘Education at a Glance 2016’, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), hoje divulgado.

Portugal é o sétimo país com o maior número de crianças por sala de pré-escolar, atrás de Indónesia, Reino Unido, China, França, México e Chile. No extremo oposto fica a Austrália, que tem apenas cinco crianças por sala.

A frequência do ensino pré-escolar em Portugal aumentou de forma significativa na última década, com um crescimento de 61% para 77% entre 2005 e 2014 para crianças de três anos, o que deixa o país com taxas de frequência acima da média da OCDE.

A frequência a partir dos quatro anos foi universalizada a partir do presente ano letivo, mas em 2014 eram já 91% as crianças dessa idade que frequentavam este nível de ensino, novamente acima da média dos países da OCDE, que se fixou nos 85%.

O investimento público no pré-escolar está nos 0,6% do Produto Interno Bruto (PIB), próximo dos 0,8% da média da OCDE.

Estamos no bom caminho – embora ainda com trabalho para fazer – no que toca à universalização da frequência da educação pré-escolar. Na comparação internacional, o que se destaca pela negativa é ser Portugal um dos países da OCDE com maior número de crianças por educador e por sala.

O pré-escolar é há muito reconhecido como uma fase crucial do desenvolvimento infantil. É nas salas dos infantários que os miúdos adquirem e desenvolvem as competências sociais, emocionais e cognitivas que favorecem percursos escolares de sucesso. É também aí que, cada vez mais, se faz a detecção de problemas e dificuldades que possam comprometer a escolarização, permitindo a intervenção precoce.

Mas tudo isto fica comprometido quando continuamos a apostar num número excessivo de crianças por sala, o que tem um resultado muito claro: quanto maior for o grupo, mais a atenção do/a educador/a tem de ser dividida por todos. Em idades em que dar atenção individualizada a cada um dos miúdos é fundamental.

A solução, que passa obviamente por abrir mais salas, nem será complicada ou muito dispendiosa: em muitas zonas do país abundam os horários-zero na Educação Pré-Escolar, pelo que a abertura das salas se faria aí a custo zero, ou muito perto disso, aproveitando os recursos humanos disponíveis. Noutros lados, implicaria o recrutamento de novos profissionais, o que também é justo e exequível.

Claro que haveria de gastar algum dinheiro, mas nada de incomportável quando se assumem, noutras áreas da governação, compromissos bem maiores e nada prioritários. Quanto nos custaria a contratação de uns poucos milhares de educadores de infância? Porventura menos do que meio avião de combate, ou talvez tanto como meia dúzia de reformas douradas dos jardinsgonçalves que faliram a banca portuguesa…

A importância da sesta

sono.gifAntónio fez quatro anos na semana passada. Quando entrou no pré-escolar, com três anos de idade, as cinco sestas que dormia durante a semana, de segunda a sexta-feira, acabaram abruptamente – na escola do António não se faz a sesta. Indiferente a normas, ele dorme na mesma: ainda hoje não é raro a professora ir dar com ele a dormitar. Arranja-lhe umas almofadas e o António dorme meia hora, uma hora no máximo, no cantinho da sala. “É ele próprio que pede para descansar”, diz a mãe, que chegou a perguntar na escola se queriam que levasse alguma coisa, um colchão para o menino dormir.

António anda numa escola básica de ensino público, com jardim-de-infância, em Alvalade, Lisboa. Como acontece em muitas escolas, as crianças do pré-escolar (a partir dos três anos) não dormem a sesta. “Disseram-nos logo que ele não dormiria, que não tinham condições”, diz ao DN Catarina Januário, a mãe. Na semana em que entrou na escola “vinham entregar-me o António ao colo” – tinha adormecido entretanto. E a questão mantém-se passados estes meses: “Volta, não volta, adormece”. À tarde tem de tomar um lanche reforçado porque não é raro adormecer antes do jantar.

Sempre se soube que a sesta é um hábito natural, saudável e essencial ao bem-estar das crianças mais pequenas, que têm necessidade de dormir mais horas do que os adultos. Este hábito tende a perder-se naturalmente por volta dos 5-6 anos, e sendo incompatível com os horários escolares do 1º ciclo, fazer o “desmame da sesta” é assumido como uma responsabilidade da educação pré-escolar.

A questão que se coloca é, então, quando fazer. Logo aos três anos, como parece ser a tendência crescente, que vem acompanhando a universalização do pré-escolar? Ou aos cinco, como preparação para a entrada na escola dos meninos mais crescidos?

A resposta complica-se porque a realidade demonstra que não há uma idade ideal para abandonar a sesta: alguns miúdos parecem prontos para o fazer aos três anos, mas outros, aos cinco, ainda sentem absoluta necessidade de dormir, nem que seja meia hora, depois do almoço.

Os horários das crianças também contam: aqueles que se levantam muito cedo, porque os pais os entregam nos infantários antes de ir para o trabalho, precisam mais da sesta do que os que dormem até mais tarde de manhã. Recordo-me que os meus filhos nunca foram grandes adeptos da sesta no infantário, provavelmente por esta razão.

Há contudo um aspecto da questão que não deveria levantar dúvidas: quaisquer que sejam as soluções encontradas, elas não devem estar nunca condicionadas pelas limitações físicas dos infantários. Nunca, nos tempos contemporâneos, nasceram tão poucas crianças em Portugal, pelo que não se justificam as carências de espaços adequados que se continuam a constatar.

Equipar devidamente a rede pública de infantários, dotando os estabelecimentos com áreas distintas para as actividades educativas, as refeições e o repouso parece-me ser condição essencial para uma educação pré-escolar de qualidade. Só a partir daí a questão do dormir ou não dormir poderá ser perspectivada da única forma correcta: em função das necessidades das crianças.

Divulgação: EDUTALKS

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Crianças que não sabem pegar num lápis

desenhar.jpg…o uso excessivo de ecrãs tácteis está a impedir que os músculos dos dedos das crianças se desenvolvam de forma correcta, revela o The Guardian, depois de ouvir vários especialistas britânicos.

Segundo os médicos e terapeutas ouvidos, as crianças têm cada vez mais dificuldade em pegar num lápis ou numa caneta e isso deve-se ao uso das novas tecnologias, desde cedo. “As crianças não entram na escola com a força e destreza com que entravam há cerca de dez anos”, revela Sally Payne, terapeuta pediátrica da Fundação Heart of England, ao The Guardian.

Sally Payne conta que as crianças que chegam à escola recebem um lápis, mas são cada vez menos as que são capazes de segurá-lo porque não têm destreza e as aptidões fundamentais do movimento. “Para poder agarrar num lápis e movê-lo é necessário um forte controlo sobre os músculos dos dedos. As crianças precisam de oportunidades para desenvolver essas competências”, acrescenta a terapeuta. Oportunidades essas que podem ser desenvolvidas em casa ou no pré-escolar.

Sabe-se há muito que um dos processos evolutivos que mais contribuiu para o aparecimento da humanidade foi o desenvolvimento da motricidade fina associada às nossas mãos. Na verdade, a oponibilidade do polegar em relação aos outros dedos – que nos dá a possibilidade de agarrar e manipular objectos com força e precisão – existe em todos os primatas, mas está especialmente desenvolvida no género humano.

Contudo, como sucede em geral com as capacidades inatas, a habilidade manual precisa de ser precocemente treinada para poder ser desenvolvida em toda a plenitude. Quando damos, às crianças pequenas, aparelhos onde elas apenas têm de tocar ou fazer deslizar os dedos para interagir com a bonecada que vai aparecendo no ecrã, estamos a impedir que desenvolvam a coordenação motora dos músculos da mão, algo que se consegue facilmente oferecendo à criança um lápis ou uma caneta para desenhar.

Correndo atrás do canto de sereia das novas tecnologias, acreditando nas fábulas que nos contam sobre os “nativos digitais” e o “conhecimento na palma da mão” estamos na realidade a descurar importantes etapas do desenvolvimento infantil, sem haver sequer a noção dos prejuízos que a falta de estímulos físicos e interacções sociais, substituídos pela omnipresença dos ecrãs, pode estar a causar às crianças do século XXI.

Como sempre, perante a falta de discernimento dos pais e da própria sociedade, é à escola, considerada por muitos retrógrada e fora de moda, que compete zelar pelos interesses das crianças que lhe são confiadas. O que implica, sempre que necessário, pôr de parte a falsa modernidade das tecnologias digitais, confiando sem receios no conhecimento, no bom-senso e na experiência dos profissionais da educação. E nas antiquíssimas, mas sempre eficazes, tecnologias analógicas.

A Autoeuropa precisa de ajuda estatal?

autoeuropa.JPGParece-me, no mínimo, muito duvidosa a solução encontrada para os trabalhadores da Autoeuropa com filhos pequenos e que, com os novos horários, irão ter de trabalhar em alguns sábados.

A Segurança Social já identificou as vagas em IPSS onde os trabalhadores da Autoeuropa poderão deixar os filhos nos sábados de trabalho, garantindo o pagamento das creches nesses dias, disse à Lusa fonte do Governo.

Os detalhes sobre o apoio aos casais com filhos que trabalham na fábrica da Volkswagen de Palmela serão discutidos numa reunião que se realiza esta quarta-feira entre os serviços da Segurança Social e os recursos humanos da Autoeuropa.

Segundo disse à agência Lusa fonte governamental, a reunião servirá para fazer a correspondência entre as disponibilidades de vagas em Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS) e as necessidades dos trabalhadores.

A verdade é que está há muito tempo identificada a falta de creches, infantários e outras estruturas de apoio à infância como uma das maiores dificuldades que as famílias com filhos enfrentam. É também uma das principais causas da diminuição da natalidade. O problema do trabalho aos fins de semana não surge agora, com o incremento da produção da fábrica de Palmela, nem se confina à Península de Setúbal. Ele existe há décadas por esse país fora, e vem aumentando graças, por exemplo, ao especial prazer que os Portugueses têm em se enfiar aos sábados e domingos em hipermercados e centros comerciais.

O que aqui causa estranheza é o carácter excepcional da medida: porque é que o Estado – ou melhor, todos os trabalhadores que financiam, com parte dos seus salários, a Segurança Social – há-de ser chamado a pagar a creche de apenas um grupo específico de empregados de determinada fábrica? No caso em concreto, até nem seria complicado, parece-me, tendo em conta o número de envolvidos e o volume de negócios da empresa, que esta criasse, como é comum noutros países, a sua própria estrutura de acolhimento para os filhos de funcionários que precisassem.

A medida agora anunciada, concebida à medida das necessidades produtivas da Autoeuropa, parece mais um subsídio encapotado à empresa, eximindo-a das suas responsabilidades sociais, do que um apoio às famílias prejudicadas com os novos turnos fabris. Porque se o governo estivesse realmente preocupado com as necessidades dos pais que trabalham aos fins de semana estenderia este tipo de apoios a todos os que estão em idêntica situação.

Dito isto, acrescento também que não me revejo nos ataques, que já começaram em força, na imprensa e nas redes sociais, contra os alegados “privilégios” dos trabalhadores da Auroeuropa. Claro que não é justo pagarem todos para apenas beneficiarem alguns. Mas neste processo há algo que merece ser respeitado: trabalhadores que assumem as suas ambições legítimas de melhorar as suas condições de vida e de trabalho e que sabem lutar pelos seus direitos. O facto de muitos outros não poderem ou não quererem fazer o mesmo não justifica a inveja pelas conquistas alheias. Deve, isso sim, dar-nos ânimo para seguir pelo mesmo caminho.