O praxismo ataca de novo

Desta vez na Universidade do Minho, com um estúpido blackface que consegue ser ainda mais deprimente do que propriamente ofensivo.

Claro que o pessoal que faz estas coisas tem dificuldade não só em lidar com as críticas como em justificar porque as fez, e corre a apagá-las. Mas é difícil apagar por completo o rasto – uma vez na net, sempre na net. Embora nada se aprenda com ele, o vídeo aí está, em jeito de testemunho para a posteridade, no youtube. Mas é difícil vê-lo sem se sentir involuntariamente aquele sentimento constrangedor a que se costuma chamar vergonha alheia…

Durante a noite desta terça-feira, 8 de Dezembro, um vídeo de uma praxe na Universidade do Minho começou a ser divulgado nas redes sociais. Nele, um grupo de estudantes do curso de Biologia e Geologia foi filmado no âmbito da Latada, com roupa preta, saias feitas de palha, colares de latas e as caras pintadas de negro.

O que salta à vista é a pintura facial, conhecida como blackface”. Nos últimos anos, pintar a cara de negro tornou-se sinónimo de uma atitude racista, vista como uma forma de satirizar a comunidade negra. Vários líderes mundiais pediram publicamente desculpas depois de terem surgido fotografias suas em disfarces que implicaram o uso de blackface.

Através do vídeo, não é possível ver se todos os estudantes estavam juntos ao mesmo tempo, mas vários têm o mesmo cenário à sua volta. Ao longo do vídeo, os “caloiros” vão gritando hinos de curso, músicas de praxe e saudações a superiores hierárquicos na praxe; não é perceptível se o uso de blackface está associado a alguma mensagem, pelo que poderá ter servido para tentar ocultar a identificação dos estudantes.

O reino da estupidez

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A praxe em Coimbra não vai ser suspensa devido à pandemia de covid-19, mas terá novas regras, como o uso de máscara, distanciamento e proibição de grupos com mais de dez alunos, afirma o Conselho de Veteranos.

Depois de já todas as principais cidades universitárias – Lisboa, Porto, Braga, Aveiro – terem cancelado as actividades praxísticas, o “Conselho de Veteranos”, essa anacrónica instituição que preside à praxe coimbrã, determinou a sua realização.

Uma decisão irresponsável que, em plena pandemia, em nada dignifica a Universidade de Coimbra. Uma instituição secular que, nos dias de hoje, deveria ser capaz de se afirmar de outras formas, que não o triste espectáculo dos caloiros e dos “doutores” a fazer macacadas pelas ruas e praças da cidade.

Em vez de almejar a liderança na inovação científica ou na qualidade pedagógica, a UC prefere remeter-se ao estatuto de universidade regional e disputar, com as universidades privadas e os politécnicos do interior, o campeonato das praxes mais estúpidas, insistentes e degradantes. Uma universidade que parece ter desistido de cativar os melhores alunos, contentando-se em acolher os cábulas e os folgazões.

O reino da estupidez: o epíteto foi posto há mais de duzentos anos a uma academia retrógrada e conservadora, cultivando a mediocridade e avessa a reformas e a mudanças. Assombrosamente, continua actual.

O fim das praxes

praxeA Associação Académica de Lisboa é mais perentória na discussão: “não vai ser possível” reativar as atividades praxísticas no arranque do próximo ano letivo. Já os representantes de Porto e Coimbra dizem que, sem condições de segurança asseguradas, não devem ocorrer.

Ainda não é oficialmente assumido, mas parece estar a preparar-se uma pequena revolução na reabertura das universidades.

O que décadas de persuasão e de protesto dos grupos anti-praxe, das autoridades académicas (embora off the record o discurso possa ser diferente) e até de algumas associações de estudantes não conseguiu – acabar com os rituais humilhantes e estupidificantes da praxe – parece prestes a ser alcançado pelo novo coronavírus.

De facto, mesmo as mentes mais obtusas, que acham que a “integração” se faz através das palhaçadas praxísticas e da transmissão dos valores anacrónicos e reaccionários que lhes estão subjacentes, perceberão que não há condições, em tempo de pandemia, para os contactos de proximidade entre caloiros e “doutores” que caracterizam a praxe.

Uma oportunidade para os doutores da faculdade assumirem as suas responsabilidades e os valores do que devem ser instituições em harmonia com os valores do século XXI. Está mais do que na altura de as universidades e associações de estudantes organizarem programas de verdadeira integração dos novos estudantes na transição para uma nova etapa das suas vidas. Para todos, e não apenas para os que aceitarem os rituais da submissão e da humilhação. 

 Ou o discurso da “inclusão” é só para os professores básicos e secundários?…

Cortejo de bêbedos

CORTEJO-DA-QUEIMA-DAS-FITAS-CJM.pngEstudantes da universidade, do politécnico e dos institutos de ensino superior privado de Coimbra assinaram um abaixo-assinado em que contestam o novo regulamento dos carros no Cortejo da Queima das Fitas.

Recorde-se que, há algumas semanas, foi apresentado o regulamento que prevê a diminuição do número de bebidas alcoólicas transportadas nos carros dos cursos.

O abaixo-assinado foi subscrito por mais de 1.600 estudantes de 66 cursos.

Perdida toda e qualquer noção do que possa ser o mítico espírito académico, esgotadas a irreverência e a criatividade que se exprimiam nos carros do cortejo, incapazes de se divertir apenas com a companhia uns dos outros, sem o recurso a drogas estimulantes, a actual geração estudantil de Coimbra mobiliza-se em defesa da épica bebedeira e do imundo chavascal a que a Queima das Fitas se vem reduzindo, ano após ano.

Há décadas que a cerveja destronou o vinho enquanto fornecedora dos carros da Queima. Mas, nos últimos anos, nem estômago vão tendo para beber as litrosas, preferindo despejar, uns sobre os outros, peganhentos banhos de cerveja.

Neste caso, nem sei o que mais me desgosta: se a imaturidade e a irresponsabilidade dos autoproclamados “doutores”, incapazes de controlar o álcool que consomem; se a reacção dos estudantes, que encontram nesta limitação de consumo um pretexto para se unirem em defesa do direito aos banhos de cerveja, do cortejo de bêbedos e dos comas alcoólicos.

Note-se que, desde a restauração da Queima das Fitas nos anos pós-revolucionários, a relação entre os estudantes das várias instituições de ensino superior não tem sido fácil, com os universitários a recusar a plena integração dos colegas do politécnico e das escolas privadas na festa da academia. E estes a serem reiteradamente discriminados, obrigados a desfilar no fim do cortejo, contidos a uma distância higiénica dos “doutores da faculdade”. Há, afinal, algo que os une: a incondicional defesa do bar aberto nos carros da Queima.

Praxes privadas

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© José Bandeira

Como acabar com os excessos da praxe

praxe-lxÉ todos os anos a mesma coisa: junto de quase todas as universidades e escolas superiores, caloiros e “doutores” divertem-se, ou fingem divertir-se, com o espectáculo cada vez mais degradante das macacadas da praxe.

Não direi que uma ou outra brincadeira não se torne engraçada, nem negarei que, para muitos estudantes, a praxe acabe mesmo por funcionar, à falta de melhor, como uma iniciação aos vícios e às virtudes da vida académica – é uma forma de integração, como os adeptos da praxe gostam de afirmar.

Mas a verdade é que há notórios exageros nesta cultura da praxe que, ao contrário do que se diz, tem muito pouco de “tradicional”: ela faz sobressair, com novas roupagens, velhos vícios da sociedade portuguesa – o culto da mediocridade, a subserviência, a humilhação, o machismo, o autoritarismo.

E, além de tudo, é chata: nalgumas academias as praxes arrastam-se durante semanas, em actividades sem imaginação nem interesse.

Como sucede tipicamente com teimosias de adolescentes retardados, não adianta proibir: iriam continuar as praxes em locais mais distantes, resguardados dos olhares dos funcionários e autoridades académicas.

Que fazer então para acabar com as praxes, e sobretudo com os excessos e abusos que elas potenciam, e que todos os anos são notícia? O reitor da Universidade de Lisboa parece ter a solução simples e eficaz.

O conselho que dou aos nossos professores para reduzir as praxes é: “Matem os alunos com trabalho.” Se eles tiverem muito trabalho para fazer, não têm tempo para andar naquelas brincadeiras, às vezes muito desagradáveis.

Creio que o professor Cruz Serra é bem capaz de ter toda a razão. Não será por acaso que, em regra, quando menos exigente é uma instituição universitária, mais exuberantes e prolongadas tendem a ser as praxes praticadas pelos estudantes.

A domesticação dos estudantes

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Cinquenta anos volvidos desde que o Maio de 68 colocou a França a ferro e fogo, em gigantescos protestos da juventude universitária, o Público resolveu comparar a contestação social e política desses tempos com a realidade dos nossos dias. E a principal conclusão é esta: hoje, os políticos já não têm medo do que os estudantes possam fazer.

“Passou a ser fixe ir para a Universidade, porque esta tornou-se também uma cena de copos, de noite, de festividades como as das semanas académicas, um sítio para curtir”, constata o sociólogo e professor da Universidade da Beira Interior, Nuno Augusto, que foi estudante universitário no tempo do movimento antipropinas dos anos 90. Desde então, aponta, as associações académicas, “que dão aos estudantes aquilo que eles querem, tornaram-se sobretudo em organizadores de festas”.

E o que tornou isto possível? “São jovens que encaram a democracia como um dado adquirido e que olham para a retirada de alguns direitos como algo natural. Nas condições em que foram socializados, a ideia de pagar propinas ou a precariedade no trabalho tornaram-se normalizadas”, refere este docente.

O sociólogo e professor da Universidade de Coimbra, Elísio Estanque, aponta no mesmo sentido: “Existe uma naturalização, por parte dos jovens, daquilo que lhes é oferecido, mesmo a precariedade no emprego e a falta de perspectivas futuras. E essa naturalização tem-se desenvolvido muito mais do que a rebelião”.

Para este fenómeno tem contribuído, adianta Estanque, a tão elogiada “capacidade de adaptação dos jovens com mais qualificações” e o espírito de “humilhação e submissão” que se tem desenvolvido nas universidades, por via das praxes, “com o caloiro a ser educado, logo à partida, a ter de obedecer”. “E esse espírito está a contaminar muitos sectores da população mais jovem”, avisa.

A notícia do Público recorda que a “guerra das propinas” aconteceu há mais de vinte anos, com os estudantes universitários a mobilizarem-se e a virem para a rua protestar contra o elevado aumento de propinas então decidido pelo governo. E, de então para cá, não parecem ter existido outras grandes causas que tenham mobilizado os jovens universitários para a participação cívica e política, fazendo-os sair da zona de conforto dos estudos, das praxes e das noitadas.

As associações académicas, que historicamente assumiam esse papel de “agitar a malta”, estão hoje dominadas por carreiristas das juventudes partidárias, assumindo mais o papel de organizadoras de eventos do que o de defensoras dos estudantes que representam. E os jovens que por lá passam estão, em muitos casos, mais interessados em somar ao seu currículo a experiência associativa do que preocupados em resolver problemas.

A aversão de muitos jovens em relação à política, que consideram minada por valores negativos como o oportunismo, a desonestidade ou a corrupção. também não os ajuda a perceber a importância da luta organizada pelos seus direitos e pela defesa dos seus interesses.

Ainda assim, o futuro pode trazer-nos surpresas: o preço proibitivo dos quartos para estudantes em Lisboa e no Porto, os cortes na acção social  ou no número de vagas das maiores universidades, a falta de perspectivas profissionais para um número crescente de recém-graduados, tudo isto são realidades de que vamos ouvindo falar e que vão pesando sobre os universitários com maior intensidade.

Será que os líderes académicos conseguirão minimizar estes e outros problemas no remanso das negociações de gabinete, mantendo os colegas alienados das realidades que lhes dizem respeito, ou chegará inevitavelmente a altura em que os estudantes terão mesmo, como fizeram outras gerações antes deles, de vir para a rua gritar?…

Coimbra é uma lição… de democracia. Olé!…

garraiada.jpgO Conselho de Veteranos da Universidade de Coimbra (UC) reuniu, esta quarta-feira à noite, e escolheu manter a garraiada no programa da Queima das Fitas deste ano, contrariando assim o resultado de um recente referendo realizado na UC.

Nessa consulta, 70,7% dos alunos votantes responderam que não querem continuar a ter a garraiada no programa da Queima das Fitas, enquanto 26,7% se pronunciaram pela manutenção do evento tauromáquico na festa estudantil.

“O Conselho decidiu, por maioria, manter a garraiada”, afirmou ao JN, João Luís Jesus, o Dux Veteranorum (que preside ao Conselho), descrevendo este resultado como “surpreendente”. No entanto, João Luís Jesus recusou, para já, tecer mais considerações, adiantando que irá pronunciar-se sobre a posição do Conselho de Veteranos mais tarde.

A decisão do Conselho de Veteranos foi tomada por 27 membros. Este é o órgão supremo da Sociedade Académica, retendo simultaneamente poder executivo e legislativo.

Claro que o erro está em esperar atitudes democráticas de órgãos intrinsecamente antidemocráticos, como o dito conselho dos “veteranos”, formado por estudantes cujo único mérito é o de coleccionarem matrículas em vez de completarem os cursos.

Finalmente, uma praxe que vale a pena!

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Há praxes e praxes. Os caloiros de Biologia e Biologia Marinha da Universidade do Algarve não andaram a fazer flexões como se estivessem num regimento militar ou a levar com ovos e farinha em cima. Arregaçaram as mangas e tornaram a Ria Formosa ainda mais bonita, retirando-lhe 114 Kg de lixo.

Os novos alunos passaram a tarde de terça-feira, 19 de Setembro, a limpar a Ria Formosa, na zona do Ludo, perto da Praia de Faro) – uma actividade inserida na praxe académica e promovida pela associação ambiental Straw Patrol.

“Durante cerca de uma hora, aproveitando a maré baixa, os cerca de 40 alunos percorreram 350 metros de ria, recolhendo diversos tipos de lixo. Muito desse lixo recolhido estava associado à actividade piscatória”, lê-se na página de Facebook da Straw Patrol. Além de várias cordas e embalagens de sal (usadas provavelmente para apanhar lingueirão), foram recolhidas garrafas de água, tampas, palhinhas, ténis de corrida, beatas de cigarro, madeiras… “Feitas as contas, os alunos conseguiram evitar que 114 Kg de lixo entrassem nos oceanos e colocassem em risco a vida de organismos marinhos e a saúde e segurança humanas”, refere a mesma publicação.

Os caloiros foram acompanhados por alunos do 3º ano, responsáveis por acolher os novos alunos da faculdade. “Numa altura em que a praxe académica é amplamente discutida, estes alunos mostraram que é possível aliar a actividade de praxe à protecção dos ecossistemas marinhos, e fizeram toda a diferença”, conclui a Straw Patrol, um grupo de biólogos marinhos que nasceu para combater o lixo nos oceanos.

Colaborações: ComRegras

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