Verão tórrido

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© Henricartoon

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Leituras: A praia é de todos

banhistas.jpgNum qualquer domingo de Agosto é vê-los passar, os corpos que envergonhariam o Tarzan dos Macacos, tatuados, depilados, bron­zeados nas camas dos solários, exibindo com brio o resultado de dietas proteicas e serviço de ginásio. São corpos que dão trabalho a tempo inteiro, preparados para a exibição da força, sobretudo da força de vontade, da disciplina, da virilidade sem ruga e sem pêlo, de peitos lisos e glabros, pernas e braços pelados. Algumas barbas parecem desenhadas a pincel fino e tinta-da-china, com barrocos arabescos de personagem de banda desenhada; ou são farfalhudas como bichos, imitando barbas postiças. Os cortes de cabelo apropriam-se das irregularidades do punk, mas são de alta manutenção e carinhosamente feitos e refeitos a régua e esquadro. É um corpo em que todo o animalesco foi suprimido, mantendo-se a imagem idealizada do animalesco, propondo uma aparência quase robótica de combatente de jogo de vídeo, imaginado por um computador. Impera a tatuagem, o piercing declina, mas ainda marca presença. Cada um propõe uma leitura da imagem que esco­lheu para o ilustrar. Opta-se por tatuagens de catálogo, algumas pormenorizadas, que devem ter doído muito. Motivos geométri­cos, escorpiões e dragões, flores estilizadas, cometendo alguns o erro crasso de mandar gravar o nome da amada do momento, que depois custa milhares de euros a raspar. E eu penso na utilidade que teria, em vez destas tatuagens meramente artísticas, se cada um mandasse gravar em si informações relevantes como o nome, a ocupação e o número de contacto. «Reparação de máquinas de lavar loiça» ou «trabalhos de costura», «tintureira a domicílio», «Tânia, reiki e massagem terapêutica»; ou o mero aviso «sou muito bom rapaz»; ou algo íntimo, perene: «o meu sonho é trabalhar no Pingo Doce», que é, aliás, escrito mais próprio para uma t-shirt. A praia seria um funcional serviço de anúncios e a gente sempre ia despachando a lista dos afazeres.

O corpo ideal, que há duzentos anos era divino, escondido, desconhecido, secreto, branco, perfumado de óleos, empoado, ele­gante, erecto com requebros, recamado de sedas e veludos, orna­mentado de jóias e toucados, fitas e cabeleiras – transformou-se nesta parada nua de guerreiros e amazonas. Até há bem poucas décadas, o corpo era mantido na sua porcaria natural e nunca se tomava banho – a higiene era espiritual e fazia-se com missas e expiações. A gordura, que já foi formosura nos tempos em que fidalgos e abades eram anafados, é desde o Romantismo pura e sim­plesmente interdita. E é assim que, a partir de meados do século XX, proscrita a gordura, se prescreve o biquíni. O corpo passou a ter de estar em boa forma para ser exibido e socialmente avaliado, fazendo florescer à sua volta uma miríade de paraciências e indús­trias, mormente a da saúde, que se foi abarbatando com noventa por cento do espaço psíquico dos cidadãos. Claro que nem todos se achegam ao ideal. A maioria não pode, nem quer. Descansa e deixa-se ir. A praia relaxa e a todos acolhe com boa cara.

Luísa Costa Gomes, Da Costa, praias e montes da Caparica (2018).