Confusão e protestos na abertura do ano lectivo

distanciamento

Um grupo de pais e encarregados de educação bloquearam, na manhã desta quinta-feira, o Jardim-de-Infância e Primeiro Ciclo do Bárrio, em Roriz, Barcelos, com troncos de madeira, num dia em que os alunos recomeçavam as aulas presenciais depois do confinamento, avança o ‘Jornal de notícias’.

Em causa está o encerramento de uma das salas de aula, com o qual os pais não concordam, bem como a adopção de turmas mistas, ideia que também não agrada aos encarregados de educação e que por isso levou ao boicote, segundo a mesma publicação.

«Temos quatro salas para o primeiro ciclo e este ano, pela primeira vez, decidiram fazer turmas mistas. Temos os meninos do primeiro e do segundo anos juntos, num total de 22 crianças. Como se explica que isto aconteça em ano de covid-19 e quando o ano passado os meninos tiveram muito menos aulas e precisam agora de mais acompanhamento?», explicam os pais ao ‘JN’.

Os responsáveis acrescentam ainda: «Para além disto, os alunos, porque são muitos, dividem a carteira, que tem uma fita vermelha no meio, como se os miúdos fossem cumprir e não passar para o lado do colega», continuam. «Queremos apenas ser ouvidos. Temos o mesmo número de alunos do ano passado e pela primeira vez fazem isto nesta escola», concluem.

Na escola que hoje é notícia em todo o lado, o ME seguiu a receita que todos os anos aplica em milhares de escolas por todo o país: face à descida do número de alunos matriculados – uma inevitabilidade, tendo em conta o declínio demográfico – reduz proporcionalmente o número de turmas. E faz ressurgir uma realidade que muitos julgavam já pertencer ao passado: as turmas mistas no 1.º ciclo, integrando alunos de mais de um ano de escolaridade.

Aqui, a revolta é maior porque a decisão de juntar os dois primeiros anos vai impedir o distanciamento físico dos alunos, obrigando a sentá-los dois a dois, sem máscara, partilhando a mesma mesa. Enquanto ao lado está uma sala de aula vazia…

Agrada-me ver que os pais vão finalmente abrindo os olhos para a realidade que andou meses a ser (mal) preparada e para a qual os professores, repetidamente, foram alertando. Claro que quando eram apenas os professores a falar, a reacção quase automática, vinda de diversos quadrantes, era a de que andavam a arranjar pretextos para não ir trabalhar. Ora aí têm a dura realidade.

Aos ajuntamentos na sala de aula some-se a confusão ainda maior, e notória neste primeiro de dia de escola para quase todos, nas entradas e saídas das escolas, com alunos e pais em despreocupado incumprimento da regra de distanciamento.

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E acrescente-se, embora isso não esteja a ser falado na comunicação social, que há escolas com professores e funcionários em isolamento ou de quarentena e que só abrirão, se tudo correr bem, na próxima semana.

Está lindo, e ainda a procissão vai no adro…

A Cidadania não é uma opção

cidadania2Manifesto posto a circular na quinta-feira alega que a ética não pode ser sujeita a objeção de consciência e critica os que defendem que disciplina seja opcional.

Cerca de 500 pessoas já assinaram o documento “Cidadania e desenvolvimento: a cidadania não é uma opção” que rejeita a possibilidade de evocar a objeção de consciência (dos pais) para que os alunos do 2.º e 3. º ciclos não frequentem a disciplina.

“É uma tomada de posição pública ao ataque a uma disciplina que é fundamental para a educação dos jovens e para a criação de uma sociedade melhor”, afirmou Helena Ferro de Gouveia, uma das autoras do manifesto que conta com o apoio de Ana Gomes, Pedro Bacelar de Vasconcelos, Teresa Pizarro Beleza, Daniel Oliveira, Alexandre Quintanilha, Catarina Marcelino, Miguem Somsen, entre professores, políticos, jornalistas, médicos, investigadores, deputados e organizações nacionais e locais.

“A ciência e ética estão na base da educação”, afirma o documento que defende que disciplinas como Cidadania ajudam os alunos “a distinguir entre o que é ideologia e o que é conhecimento”.

Em texto recentemente divulgado, 88 “personalidades” puxaram dos seus galões e tomaram uma posição colectiva, tentando condicionar a aprendizagem e o exercício da Cidadania na escola. Nesta tomada de posição invoca-se o direito à objecção de consciência dos pais e exige-se que a disciplina de Cidadania e Desenvolvimento se torne facultativa.

Pelo que me parece muito bem que, à ofensiva da elite conservadora, seja dada uma resposta à altura por parte de cidadãos que se erguem em defesa dos valores da liberdade, da tolerância e da democracia.

O manifesto encontra-se em fase de recolha de assinaturas e não consegui, no escasso tempo disponível para a preparação deste post, ter acesso ao documento que, assim que puder, divulgarei.

Mais logo escrevo sobre o assunto

cavaco-goodfelasMas fica já aqui uma boa introdução…

Um gajo que teve mais-valias em acções não cotadas em bolsa, se esquece do sítio onde guardou a escritura da casa e que, enquanto governante, criou um inner circle que vai desde banqueiros corruptos a suspeitos de assassinato, junta-se em abaixo assinado contra aulas de Educação para a Cidadania a um gajo que fundou empresa única e especificamente para sacar dinheiro dos fundos comunistários, não se lembra do ordenado que recebia nem que era obrigatório descontar para a segurança social. Pelo meio recebem a assinatura solidária de um gajo que não declara ao fisco o dinheiro entrado em caixa [esmolas e donativos] nem paga IMI dos prédios de que é proprietário.

Secundária Camões quer exames cancelados

sec-camoesO Conselho Pedagógico da Escola Secundária Camões, em Lisboa, exigiu ao Ministério da Educação o cancelamento dos exames nacionais por considerar que a reabertura das aulas presenciais poderá “pôr em causa a saúde pública de toda a comunidade escolar”, expondo-a “a riscos desnecessários e de consequências imprevisíveis”.

Num documento aprovado no passado dia 23, e que está agora publicado no Facebook desta escola, o Conselho Pedagógico lembra que “o recomeço das aulas presenciais tem apenas como objectivo a preparação dos exames nacionais” e que este regresso, que segundo o Governo poderá acontecer a partir de 18 de Maio, se dará numa altura em que “a evolução da pandemia é incerta”.

A posição tomada nesta escola de Lisboa faz, aparentemente, sentido: se as aulas vão reabrir apenas por causa dos exames e em função deles; se a reabertura implica riscos evidentes, que serão extensivos à própria época de exames e às condições da sua realização, então não seria mais correcto cancelar, simplesmente, a realização das provas?

Claro que o problema, como toda a gente sabe e este CP também não ignora, é o acesso ao ensino superior. Há muitos anos que a avaliação do secundário anda a reboque das necessidades do sistema de ingresso nas universidades e politécnicos, mas a pandemia teve o condão dar a esta realidade uma assombrosa evidência. Já ninguém discute o que faria sentido discutir – o mérito ou a relevância dos exames, ou o peso que devam ter na avaliação final. A sua necessidade impõe-se porque, aparentemente, sem eles será impossível estabelecer critérios para a entrada no ensino superior.

Tentando dar resposta a este magno problema, os professores do antigo “Liceu Camões” propõem a solução evidente: que os dois ministérios com responsabilidades na matéria – o da Educação e o do Ensino Superior – se reúnam e, em conjunto com as instituições de ensino superior, definam novas regras de seriação e selecção de candidatos, a vigorar este ano, e que não estejam dependentes de resultados de exames nacionais. Algo que, no fundo, não seria mais do que fazer convergir o sistema português com os modelos dominantes a nível internacional.

A decisão de retomar as aulas presenciais a partir de 18 de Maio está tomada e não me parece que o Governo esteja disposto a voltar atrás, mesmo que tomadas de posição semelhantes a esta se multipliquem pelas escolas do país. Mas a verdade é que retirar os exames da equação permitiria às escolas concentrarem-se na conclusão do presente ano lectivo e na preparação atempada do próximo – o qual, independentemente dos avanços que possam ocorrer no controle da pandemia, irá ser sempre um ano complicado…

Ano excepcional, medidas excepcionais – defende a Fenprof

tiagobr2No contexto de exceção que se vive, é estranho que os responsáveis do Ministério da Educação continuem sem revelar uma alternativa para tudo o que ainda falta até final do ano em curso  (atividade letiva, implicação da avaliação do 2.º período e avaliação final, bem como provas e exames), limitando-se a afirmar que, em 9 de abril, se avaliará a situação e se decidirá se as escolas reabrirão ou continuarão encerradas. Isto, apesar de as autoridades de saúde pública e o Governo preverem para 14 de abril o pico epidemiológico em Portugal, uma perspetiva que – a ser bem sucedida a estratégia que lhe está subjacente, ou seja, estender a duração do surto no tempo para evitar um pico repentino – implicará o prolongamento da situação de isolamento ou, pelo menos, de contenção social até praticamente ao final do ano letivo, para evitar um novo surto. O próprio Primeiro-Ministro já admitiu que as escolas se manterão encerradas no 3.º período.

 Neste quadro, em que nada poderá ser facilitado, esperava-se que o Ministro da Educação, no mínimo, apontasse um caminho que fosse conhecido, discutido e acompanhado pela comunidade educativa e a sociedade em geral. Contudo, declarações recentes do governante não permitem perceber, com clareza, qual a estratégia que está a ser preparada para o futuro próximo, não indo muito além de algumas frases feitas. O que os professores e as escolas conseguiram fazer na quinzena ainda em curso não poderá, simplesmente, ser replicado, semanas a fio, no 3.º período. O que é necessário é que deste tempo, que foi, essencialmente, de aprendizagem perante um quadro inesperado, se percebam as dificuldades, as limitações, os problemas, para que não se repitam no futuro. E do Ministro da Educação exige-se clareza e assertividade!

 O que aconteceu na semana que passou, prolongando-se para esta, foi muito diferente de escola para escola. As escolas, os professores e a grande maioria dos alunos procuraram dar o seu melhor, mas há problemas que são de difícil superação, desde logo e sem menorizar outros, o da falta de recursos por parte de muitos alunos e de alguns docentes para poderem desenvolver atividade a distância ou a situação de desigualdade de alunos que, mesmo possuindo os equipamentos, não dispensam um apoio individualizado. Esquecer isto é pôr em causa os fundamentos da escola inclusiva.

Continuar a ler o comunicado…

Rompendo o falso consenso em torno das virtudes da aprendizagem online e do novo mundo tecnológico que, graças ao ataque do coronavírus, parece estar ali ao virar da esquina, a Fenprof assume, num extenso comunicado, uma posição clara e assertiva em relação aos tempos difíceis que vivemos, também, na Educação.

Haja quem diga claramente que o ensino a distância, por melhor que seja, não substitui a presença física de alunos e professores. Que a aprendizagem online, podendo ser uma solução temporária e de recurso, representa também a negação da escola inclusiva em que tanto se diz apostar, prejudicando sobretudo os alunos que mais precisam de ser apoiados. Que as aprendizagens feitas em casa não são equivalentes, em termos de desenvolvimento de competências, compreensão aprofundada das matérias ou até de cumprimento de programas, com o normal desenrolar da aprendizagem em contexto escolar. Que o papel do professor é fundamental e não pode ser substituído por máquinas de ensinar.

Se para alguma coisa serviram estas duas semanas de isolamento social, foi precisamente para que se percebessem as enormes dificuldades e as fortes assimetrias que se impõem perante as tentativas de construir, praticamente a partir do zero, redes de ensino e aprendizagem assentes nas tecnologias de informação. Quando já se percebeu que no terceiro período vamos todos comer, novamente, deste arroz, o estado de negação e as indecisões do ME fazem-nos perder um tempo precioso se queremos ainda tentar fazer, na recta final do ano lectivo, algum trabalho de jeito com os nossos alunos.

E de nada adianta empurrar, uma vez mais, responsabilidades para a autonomia das escolas, as autarquias, as forças vivas locais ou as redes de voluntariado. A dimensão do problema e a urgência da resposta impedem o ME de encetar a habitual fuga às responsabilidades. Não há volta a dar: o Governo que terá de tomar a iniciativa, na Educação, tal como está a fazer na Saúde ou na Economia.

Claro que tudo seria mais fácil se António Costa, em vez de reconduzir uma inexistência, tivesse nomeado um Ministro.

Pelo fim da precariedade na docência

Cartaz_TomarPosicao.jpgNuma altura em que o ME aposta no aprofundar de invejas, rivalidades e divisões entre a classe docente, é mais importante do que nunca a demonstração de unidade em torno de objectivos que devem ser comuns a todos os professores.

Sendo assim, exigir o fim da precariedade na docência não deve ser uma reivindicação apenas dos professores mais jovens. Trata-se de um princípio de dignidade e de justiça que deve importar a todos os docentes que defendem a valorização e a dignificação da sua profissão.

Por isso, divulgo a iniciativa da Fenprof e apelo a todos os professores que assinem e divulguem o postal digital contra a precariedade na profissão docente. E em defesa de regras justas e efectivas que permitam a vinculação dinâmica de todos os professores necessários ao sistema educativo.

Clicar no cartaz para aceder.

É mais do que tempo de acabar com o recurso abusivo à precariedade laboral na profissão docente!
A necessidades permanentes têm de corresponder vínculos efetivos.
Pelo cumprimento da Diretiva 1999/70/CE, fim dos abusos e das discriminações.
Pelo direito dos professores à vinculação com 3 anos de serviço.

Subscrevo!

geringoncaHá quatro anos, celebrámos o fim de um tabu. Era finalmente possível uma solução governativa suportada pelo conjunto da esquerda. Foi preciso um Governo de direita de uma inaudita agressividade social para o conseguirmos, quase meio século depois do 25 de Abril. Pela primeira vez a esquerda deixou de se enredar em guerras pueris, que tantas vezes entregaram o poder à direita, e centrou-se no essencial — o bem comum.

A solução, que os detratores apadrinharam ‘geringonça’ e que carinhosamente e com orgulho a tomámos como nossa, nasceu da vontade dos eleitores. Eles exigiram-na ao longo da campanha eleitoral aos líderes dos principais partidos de esquerda. António Costa, Catarina Martins e Jerónimo de Sousa tiveram o mérito de saber ouvir os que neles votaram. Mas também nasceu da correlação de forças que saiu daquelas eleições. A ‘geringonça’ nunca teria existido com uma maioria absoluta ou se dependesse de outras forças políticas.

O manifesto, publicado no Expresso, é apoiado por um diversificado leque de personalidades de esquerda. Elenca algumas das realizações políticas mais importantes dos últimos quatro anos: aumento de rendimentos dos cidadãos, através da devolução dos cortes em salários, pensões e subsídios aplicados durante o passismo; reversão de algumas privatizações; redução das propinas e dos passes sociais, ao mesmo tempo que se aumentaram os impostos sobre os rendimentos mais elevados.

Claro que não esqueço, como os subscritores também não deixam de salientar, que nem tudo foram rosas. O combate à corrupção e à promiscuidade de interesses entre público e privado ficou muito aquém do necessário. O investimento público foi mantido em valores extremamente baixos o que compromete o desenvolvimento do país e a sustentabilidade das políticas agora encetadas a longo prazo. Não foram dados os passos necessários para combater a precariedade laboral ou resolver problemas que comprometem o futuro das nossas cidades, como o da gentrificação e da crise habitacional.

Enquanto professor, não posso ignorar que os investimentos e as reformas necessárias no sector da Educação ficaram por fazer, substituídas por uma vaga neoeduquesa que apenas veio criar novos problemas e dificuldades às escolas. Quanto aos profissionais da educação, não esqueço a solução injusta imposta aos professores na recuperação de tempo de serviço, a falta crónica de assistentes operacionais em muitas escolas e a ausência de respostas ao acentuado envelhecimento da classe e ao elevado desgaste da profissão, situações que justificariam plenamente a existência de um regime especial de aposentação.

Ainda assim, e acima de tudo, o maior sucesso desta solução política reside em ter derrotado, gostaria de acreditar que de forma definitiva, o discurso das inevitabilidades que o passismo tentou normalizar: que temos de empobrecer e emigrar, que a saúde e a educação públicas não devem ser direitos universais, mas esmolas que o Estado dá apenas a quem precisa, que manter os salários baixos e impor a desregulação laboral são as formas mais eficazes de criar emprego. A continuidade desta solução política deve significar que se mantêm abertas as portas que a derrota eleitoral da direita permitiu descerrar. Fundamental para que novas e mais significativas realizações possam ser alcançadas…

Nas próximas eleições, muitos desejariam votar na atual solução governativa e não em qualquer partido especifico. Querem reeditar esta solução com os partidos de esquerda que consigam representação parlamentar. O Partido Socialista, mesmo próximo da maioria, não pode nem deve desbaratar o capital político construído por si e pelos seus parceiros nesta legislatura. Só podemos, como eleitores sem partido, fazer o que fizemos há quatro anos: garantir que o PS fica dependente de quem se compromete com as causas sociais, ambientais, políticas e económicas, não dando maiorias absolutas nem entregando o futuro do próximo governo a aliados que não tenham um compromisso firme com o Estado social e os direitos dos trabalhadores.
Sabemos o que foram as maiorias absolutas em Portugal. Sabemos o que foram os últimos quatro anos. Por isso, a nossa escolha é o nosso apelo: votar na ‘geringonça’. Com o nosso voto faremos a nossa parte, criando as condições políticas para que ela seja inevitável.

*Afonso Cruz (escritor), André Letria (ilustrador, editor), André Freire (politólogo, professor universitário), Bárbara Bulhosa (editora), Beatriz Batarda (atriz), Boaventura Sousa Santos (professor universitário, escritor), Daniel Oliveira (jornalista), Daniel Sampaio (psiquiatra, professor universitário), Noiserv (músico), Ernesto Costa (professor universitário), Filipe Duarte (ator), Filomena Cautela (apresentadora), Gonçalo Waddington (ator, realizador, encenador), Irene Lima (música), José Pedro Vasconcelos (apresentador), Lídia Jorge (escritora), Marco D’Almeida (ator), Miguel Gonçalves Mendes (realizador), Paulo Fidalgo (médico), Pedro Abrunhosa (músico), Pilar Del Río (jornalista), Sérgio Godinho (músico), Mísia (cantora), Tatiana Salem Levy (escritora), Tiago Rodrigues (ator, encenador), Valter Hugo Mãe (escritor), Vasco Lourenço (militar)

10 medidas para cumprir em 100 dias

roteiro-fne.PNGA pensar já na próxima legislatura, a FNE passou em revista os principais problemas que subsistem no sistema educativo e que afectam os seus profissionais. O caderno reivindicativo tomou a forma de um Roteiro, no qual são elencadas uma série de medidas necessárias para melhorar a qualidade do ensino e as condições de trabalho nas escolas, valorizando os profissionais da Educação.

Parece-me um documento bem elaborado e, sobretudo, oportuno: a um mês das eleições legislativas, é importante que os temas educativos entrem na discussão política e que os profissionais da educação e quem os representa façam ouvir a sua voz. Em democracia, a intervenção política não pode estar limitada aos directórios partidários e às suas adjacências. Para que os cidadãos façam escolhas informadas, é necessário confrontar todos partidos que querem o nosso voto com os problemas que continuam em cima da mesa, forçando-os a  pronunciarem-se sobre a forma como os pretendem – ou não – resolver.

A finalizar, o roteiro da FNE apresenta um conjunto de dez medidas consideradas prioritárias, que a federação pretende que um futuro governo resolva logo nos primeiros cem dias de governação:

1. Estabelecer em sede de negociação a forma e o prazo da recuperação do tempo em falta do total de 9 anos 4 meses e 2 dias que estiveram congelados.
2. Definir os critérios do conteúdo e da organização do tempo de trabalho dos docentes dos ensinos básico e secundário (com as clarificações necessárias para as componentes letiva e não letiva), estabelecendo compensações nos casos em que seja pontualmente necessário exceder os limites estabelecidos.
3. Iniciar o processo negocial de restabelecimento das carreiras especiais de não docentes.
4. Iniciar um processo negocial que conduza à determinação de condições específicas de aposentação, sem penalizações, e tendo em conta o especial desgaste que o trabalho em educação provoca.
5. Extinção do regime de quotas no acesso aos 5º e 7º escalões.
6. Revisão da Portaria de rácios, promovendo a adequação do número de Assistentes Operacionais e de Assistentes Técnicos às necessidades permanentes das escolas em termos de apoio e enquadramento dos alunos.
7. Revisão da dimensão geográfica dos Quadros de Zona Pedagógica, tonando-os mais pequenos.
8. Legislar no sentido de acabar com a precariedade dos vínculos laborais nas Instituições de Ensino Superior.
9. Determinar que o direito à formação contínua obrigatória deve ser assegurado com redução do tempo de trabalho.
10. Proceder à revisão do regime jurídico do ensino português no estrangeiro.

Cordão humano contra a violência escolar

cordaovaladares2Cerca de 70 pessoas fizeram hoje um cordão humano em Vila Nova de Gaia em protesto pela agressão quarta-feira a uma professora da Escola Básica nº 2 de Campolinho, alertando também para a falta de segurança.

Analisando os pormenores desta agressão cobarde e hedionda à professora da escola de Campolinho nota-se, com alguma clareza, um padrão típico destas situações: uma família desestruturada, uma criança de sete anos que não gosta das aulas e que, provavelmente, inventa e relata em casa supostos maus tratos ou agressões na sala de aula.

Juntem-se a isto a facilidade com que se acede ao interior de uma escola, o sentimento de impunidade induzido pela brandura das leis e a ineficácia da justiça e a desconsideração pública a que os professores são remetidos por parte de quem os tutela e que deveriam ser os primeiros a respeitar e valorizar a classe, e temos, em certas escolas, as condições propícias a que, quando menos se espera, surjam estes incidentes.

Neste caso, há que saudar a pronta manifestação de solidariedade e denúncia pública promovida pelos colegas desta docente e, pela negativa, a forma como o ME continua, não só a desvalorizar toda a problemática da segurança escolar, como a deixar entregues a si próprios os professores vítimas de agressões.

“A menina apenas se recusava a querer trabalhar na escola, chorava e não queria vir para as aulas. No recreio estava muito bem, mas quando tocava não queria voltar para a sala”, argumentou Manuela Castro [coordenadora da escola], admitindo que a aluna pudesse não se sentir “motivada” para aprender, salientando que esta está no segundo ano na escola e que “até agora teve um comportamento normal”.

Argumentando que os “problemas começaram há duas semanas”, disse que a aluna começou a “a queixar-se de que lhe doía a barriga”, atribuindo-o “talvez devido à ansiedade” de ter de estar na sala de aula.

“A professora nunca foi violenta com ela nem com ninguém”, garantiu a coordenadora admitindo pertencer a aluna a uma “família desestruturada” que de “imediato pediu a transferência para outro agrupamento”.

Apesar de “já ter havido alguns antecedentes na escola”, a agressão, segundo o encarregado de educação Alfredo Pinto “não era fácil de adivinhar”, elogiando até, a forma “rigorosa” como a professora dava as aulas.

Afirmando não conhecer os agressores, mostrou-se “indignado” pelo ato ter ocorrido “diante dos filhos”, testemunhando a esposa, Elisabete Martins, que os gémeos “estavam em estado de choque” e que “tiveram dificuldade em adormecer”.

O rol de críticas estendeu-se “à falta de segurança” numa escola em que “qualquer encarregado de educação pode entrar”, ainda que neste caso “conste que a funcionária foi empurrada”, referiu Elisabete Martins.

Da parte do Sindicato de Professores do Norte (SPN), a presidente Manuela Mendonça, acusou “as campanhas públicas contra os professores, como no recente processo de recuperação de anos de serviço, de criarem um clima que põe em causa a sua imagem e debilita a sua autoridade”.

“Não temos dúvidas que há responsabilidade de todos quantos injustamente atacam os professores porque estão a pôr em causa a sua autoridade”, acrescentou a sindicalista, exigindo que os “agressores sejam exemplarmente punidos”.

Violência nas escolas NÃO

Mais uma agressão cobarde a uma professora, desta vez pela mãe a a avó de uma aluna, que acabou com a professora a ser empurrada escadas abaixo com a turma a assistir.

O ME não garante a segurança de quem trabalha em escolas problemáticas, um problema que estaria há muito resolvido se, de quando em vez, fosse um ministro, secretário de estado ou outro responsável ministerial o alvo das bordoadas. E a brandura das autoridades e do sistema judicial parece convencer alguns pais e outros familiares de que podem irromper pela escola para ofender, agredir e humilhar qualquer professor.

É por isso importante que, enquanto este panorama não muda, os professores saibam que podem contar com a solidariedade dos colegas. E que, todos juntos, nos vamos consciencializando de um problema que é de todos e que precisa de estar mais presente na nossa agenda reivindicativa.

A todos os que possam estar presentes, fica o apelo à participação.

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Uma professora da Escola Básica do Campolinho, em Valadares, Gaia, foi agredida pela mãe e avó de uma aluna. As crianças, todas com menos de 11 anos, assistiram à agressão.

A docente leciona na Escola Básica do Campolinho desde meados do segundo período. Na quarta-feira à tarde, a professora foi agredida pela mãe e pela avó de uma aluna e acabou a ser empurrada pelas escadas abaixo. Foi levada para o hospital por agentes do programa Escola Segura. Encontra-se em casa a recuperar, mas o Ministério da Educação garantiu que “as atividades letivas estão devidamente asseguradas”.

Cerca das 15.30 horas, a funcionária que se encontrava no portão foi abalroada pelas familiares da aluna. A mãe, na casa dos 20 anos, e a avó, na casa dos 60, dirigiram-se de seguida à sala de aula da professora – que já conheciam das reuniões de pais – onde a agrediram. O confronto acabou com a docente a ser atirada pelas escadas abaixo em frente aos alunos da escola.

Ao que o JN conseguiu apurar, a mãe da aluna alegou, junto da PSP, que a professora em questão “agredia a filha, dava puxões e atirava livros”.