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Leituras: A Revolução dos Cravos

salgueiro-maia.JPGO MFA triunfou sem encontrar qualquer resistência. A insurrei­ção causou três vítimas, três transeuntes mortos acidentalmente diante do quartel da Direcção-Geral de Segurança.

Na noite dos acontecimentos, sentia-me confundido perante a facilidade com que o Movimento das Forças Armadas conseguira, sem efusão de sangue, abater as estruturas existentes.

O que para mim permanecia inexplicável era a atitude passiva dos corpos de elite (Guarda Nacional Republicana, Polícia Militar), encarregados da defesa das instituições. No entanto, a relação de forças era-lhes favorável; o seu material era superior ao dos amoti­nados. Então? Pois se reflectirmos bem, poucas tropas participaram na rebelião: uma ínfima parte da guarnição de Lisboa, apoiada por algumas centenas de oficiais e soldados e por veículos blindados da Escola Prática de Santarém e algumas unidades militares vindas de Leiria e Tomar. Estas tropas, numericamente inferiores e menos bem armadas, foram suficientes para neutralizar, em poucas horas, mili­tares profissionais mais aguerridos que elas.

Otelo Saraiva de Carvalho expôs, numa obra publicada em 1977, as forças de que dispunha. Manobrava, de Lamego, no Norte, a Faro, no Sul, um pequeno exército de 5 mil homens, 3 mil dos quais convergiram para Lisboa. Houve hesitações em Coimbra, em Leiria e em Tomar. Em Évora, a tropa não seguiu os oficiais que se dispu­nham a actuar.

O número de tropas que realmente participou na insurreição não foi, portanto, elevado. Além do mais, os soldados que nela intervie­ram pareceram-me muito jovens e sem experiência; davam a impres­são de ir para um simples exercício militar e não fazer uma revolução. Quanto ao equipamento, segundo o capitão Salgueiro Maia, da Es­cola Prática de Cavalaria de Santarém, eram velhas máquinas blin­dadas que, de cada vez que saíam, costumavam sofrer várias pannes. Mas nesse dia, a 60 quilómetros à hora, “uma velocidade infernal”, só houve um pneu rebentado à entrada de Lisboa…

De facto, nesta aventura, a audácia e a coragem compensaram.

Na ponta das espingardas, que, felizmente, não tinham sido necessárias, os soldados colocaram a flor da estação, generosamente oferecida pela população: o cravo. Os acontecimentos que eu acabava de viver tiveram, na história de Portugal, a designação idílica de “Revolução dos Cravos”.

A revolta, que se circunscreveu à área da capital, não tocou as guarnições de província, nem as do Ultramar. As tropas não inter­vieram; a população civil, os estudantes e os operários não participa­ram, de maneira nenhuma, no confronto. Foi obra de um punhado de militares. Passa-se com a vida dos regimes políticos o mesmo que com a das pessoas: nascem, desenvolvem-se durante um período mais ou menos longo e morrem. Assim, como um fruto maduro de mais se solta da árvore por efeito de um sopro de vento, o regime desmoronou-se no meio da indiferença geral, testemunho da incrível passividade daqueles que pagavam para o sustentar.

A 25 de Abril, num só dia, um regime velho de meio século apagava-se. Uma página da história portuguesa acabava de ser definitivamente virada.

Diante dos meus olhos, uma população exuberante saudara com entusiasmo delirante a queda do regime. Assisti a cenas de ruas realmente emocionantes. As pessoas interpelavam-se, sorriam umas às outras, abraçavam-se, sem sequer se conhecerem. As raparigas e os rapazes clamavam a sua alegria; no entanto, nunca tinham vivido um regime de liberdade. Os adultos gritavam e cantavam, a trans­bordar de felicidade; as pessoas idosas, algumas septuagenárias, que se lembravam dos tempos de antanho, desfaziam-se em lágrimas. E dizer, meditava eu, que esta mesma multidão, somente duas sema­nas antes, concedera um acolhimento indiscritível a Marcelo Caeta­no. Estranha versatilidade a das multidões!

Max Wery, e assim murcharam os cravos (1994).