Greve de professores na Polónia

Uma greve de 600 mil professores e auxiliares educativos cumpriu ontem o seu quinto dia na Polónia. Está a ser praticamente ignorada pelos media internacionais, sempre tão atentos às recomendações da OCDE ou aos prémios para os docentes que se enquadram no modelo de professor missionário tão apreciado pelas fundações e multinacionais influentes no sector. Na imprensa portuguesa, tanto quanto me consegui aperceber, há zero notícias sobre o assunto.

Mas existe alguma informação disponível aqui e ali, bem como imagens que têm sido partilhadas em redes sociais relativas, nomeadamente, aos exames. Na falta de juízes reformados ou árbitros “representantes dos trabalhadores” que decretem a obrigatoriedade de os grevistas assegurarem este serviço, as autoridades recorrem aos bons serviços de padres e freiras para vigiarem as salas de exame…

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Campos nazis na Polónia ou campos da morte polacos?

auschwitz.JPGO Senado da Polónia aprovou na quarta-feira uma polémica lei sobre o Holocausto, que tem como objetivo “defender a imagem do país”, sob fortes críticas de Israel, que acusa Varsóvia de “querer reescrever a história”.

O projeto-lei prevê um máximo de três anos de prisão ou o pagamento de uma multa a quem utilize a expressão “campos da morte polacos” para denominar os campos de concentração instalados no país pelo regime nazi durante a II Guerra Mundial. As mesmas sentenças estão previstas para quem acusar a Polónia de cumplicidade com o Holocausto.

A relação da Polónia com o nazismo, o anti-semitismo e o Holocausto é ainda hoje difícil, complexa e contraditória. Invadidos e ocupados pelos Nazis, os Polacos viram ser instalados no seu território os principais campos da morte que serviram a “solução final” aplicada a judeus, ciganos e outras minorias étnicas e sociais que não teriam lugar no futuro Reich. É natural, e compreensível, que não gostem de ser associados e responsabilizados pelo genocídio perpetrado, no seu território, pelos ocupantes nazis.

Mas também é verdade que o anti-semitismo estava já disseminado na Polónia antes da guerra – e existe ainda hoje em franjas consideráveis da população polaca – tanto ou mais do que na própria Alemanha. Só que nada na História é a preto e branco: se muitos polacos colaboraram com os ocupantes nazis na perseguição, deportação e extermínio de judeus, em Auschwitz e noutros locais, também não foram poucos os que resistiram e acabaram também como vítimas da barbárie nazi.

Na sequência da invasão e ocupação da Polónia pela Alemanha nazi – considerada uma das mais brutais da II Guerra – morreram 2,77 milhões de polacos e ainda 2,9 milhões de judeus polacos.

Os polacos são a nacionalidade com mais cidadãos distinguidos pelo museu Yad Vashem por salvar vidas de judeus durante a guerra – 6706 cidadãos (num total de 26.513). Muitos polacos foram mortos por terem escondido judeus nas suas casas (a pena era a morte de todos os habitantes da casa).

A Polónia foi também o país com o maior movimento de resistência aos ocupantes nazis. O Armia Krajowa (Exército Nacional) era a mais importante força de resistência e era leal ao governo polaco exilado em Londres, chegando a ter cerca de 300 mil combatentes depois de ter absorvido a maior parte de outros movimentos de resistência.

Muitos polacos aproveitaram a situação da altura para tirar vantagens para si próprios. Existe uma palavra, szmalcownik, para designar os que informavam sobre os judeus escondidos para obter recompensas, ou chantageavam os próprios judeus ou os polacos que os escondiam.

O número de colaboracionistas polacos é de “muitos milhares”, diz o “caçador de nazis” Efraim Zuroff do Centro Simon Wiesenthal.

Julgo que o problema maior, em relação à Polónia, já nem é tanto o que aconteceu durante a guerra e o Holocausto mas sobretudo a forma como a sociedade lidou com essa memória histórica no pós-guerra. Enquanto na Alemanha o legado nazi foi radicalmente renegado, na Polónia, um dos países onde o nazismo causou mais mortes e sofrimento, os Polacos assumiram o papel de vítimas, o que de certa forma os dispensou de uma profunda auto-crítica em relação a sentimentos racistas e anti-semitas ainda hoje presentes num país que, dizem os estrangeiros por lá residentes, continua a denotar preocupantes sinais de xenofobia. E quando governos e parlamentos populistas cavalgam estes sentimentos em vez de os contrariar, as coisas podem facilmente dar para o torto. Como nota, acertadamente, o editorialista do Público:

Esta lei não surge só como alegada “prevenção” contra difamações ou provável tentativa de negação da História, mas como fruto de uma alma nacionalista inflada por uma crescente demagogia política. Em Novembro passado, muitos milhares de polacos exigiram nas ruas, no seu Dia da Independência, uma “Europa branca” de “sangue limpo”, gritando palavras de ordem contra refugiados, muçulmanos, judeus, e homossexuais. O ministro do Interior disse-se “orgulhoso”, e não se demarcou do que o mundo viu ou ouviu.

A actual lei é apenas mais um tijolo no muro antieuropeu que na Polónia se vai erguendo.

Racismo e xenofobia na Polónia

De acordo com um inquérito feito em 2013 pelo Centro de Investigação sobre Preconceito, da Universidade de Varsóvia, 69% dos polacos não queriam não brancos a viver no país. Desde então, o ambiente piorou. E isso não se nota apenas nos protestos contra o acolhimento de refugiados, que têm levado milhares de pessoas a desfilar pelas ruas de diversas cidades da Polónia.

Reflecte-se na estatística criminal. “A Procuradoria-Geral da República registou 835 crimes de ódio em 2013. Em 2015, 1548. As vítimas são, sobretudo, pessoas de etnia cigana (236), judeus (208), muçulmanos (192) e negros (166). Os muçulmanos e os negros são muito raros na Polónia, pelos que estes números são surpreendentemente altos”, aponta Michal Bilewicz, membro daquele centro de investigação, numa entrevista por e-mail. 

DG-kJDmbuwA.jpgNos últimos tempos, têm-se tornado mais frequentes os relatos de insultos, intimidação e violência racista e xenófoba, que causam alguma perplexidade num país com uma grande homogeneidade étnica e cultural: quando mais de 99% dos habitantes da Polónia são eslavos, é caso para perguntar de que é que têm medo. Mas a realidade é que a desconfiança e o preconceito contra os estrangeiros estão bem presentes na sociedade e na mentalidade de uma grande parte dos polacos.

Sucede ainda que a Polónia é o segundo destino preferencial dos estudantes portugueses envolvidos no programa Erasmus, havendo também alguns portugueses, a maioria quadros de empresas, a trabalhar na Polónia. E estes nossos concidadãos vão sentindo igualmente a expressão desse ódio contra os estrangeiros bastante disseminado no país. Por vezes por as barbas ou o tom moreno da pele levarem a que sejam confundidos com árabes, outras vezes apenas por serem estrangeiros. E as agressões, se na maioria das vezes, são apenas verbais, por vezes envolvem também humilhação e violência física, como sucedeu nalguns casos relatados na notícia do Público acima citada.

Claro que nem todos os polacos pensam ou agem desta forma, que a intolerância é maior nas pequenas cidades do que em Varsóvia ou Cracóvia e que há portugueses que gostam de viver no país e não têm até agora razões de queixa. Mas também é verdade que o discurso do ódio e da intolerância tem sido aproveitado por políticos demagogos e irresponsáveis em busca de um bode expiatório para o descontentamento das populações, que tardam em sentir os benefícios do crescimento económico que a Polónia tem vindo a registar.

O ódio aos estrangeiros, particularmente aos judeus, a minoria étnica e cultural mais significativa, tem raízes profundas na Polónia, e já existia quando o país foi invadido e ocupado pela Alemanha nazi, que aí instalou os principais campos de concentração e extermínio. Hoje, restará um número residual de judeus, mas continuam a aparecer cruzes suásticas e mensagens anti-semitas pintadas nas paredes. E diaboliza-se a ameaça islâmica, como se vê na capa da revista polaca que ilustra este texto, quando praticamente não há muçulmanos na Polónia.

Preocupantes neste recrudescer da xenofobia e do racismo são, por um lado, os sinais de que o poder político conservador não irá tentar conter o discurso do ódio, responsabilizando e criminalizando os que o fomentam, como o exigem as leis europeias de defesa dos direitos humanos. Por outro lado, a relativa indiferença, quando não cumplicidade, com que a maior parte da população encara as acções dos activistas que defendem a discriminação e a expulsão dos imigrantes: ao contrário do que sucede noutros países, incluindo a Alemanha, na Polónia os neonazis não têm a oposição de um movimento forte, e extensivo a todos os quadrantes políticos, de rejeição do nazismo e do fascismo.

Músicas do Mundo: Tanita Tikaram & Patrycja Markowska – Good tradition

Do investimento em educação

Ainda a propósito da reportagem de domingo sobre a educação na Polónia, e que comentei aqui, o Paulo Prudêncio destacou um ponto ao qual me parece oportuno voltar: a evolução registada desde os tempos comunistas, quando só cerca de 20% dos jovens polacos chegavam às universidades, ficando os restantes por formações técnicas ou vocacionais. Actualmente, mais de 50% que ingressam no ensino superior.

34625668[1]Em Portugal registou-se uma tendência semelhante ao longo das últimas décadas, embora com valores mais modestos, e ensombrados pelo facto de logo no ensino secundário se registarem taxas elevadas de insucesso e abandono, o que impossibilita, obviamente, o prosseguimento de estudos.

Contudo, há um aspecto importante que a Polónia tem em comum com Portugal: a elevada taxa de emigração, que sendo uma constante estrutural em ambos os países, se tem intensificado nos últimos anos, com especial incidência, agora, na população jovem mais qualificada. O que me leva a uma questão incómoda, mas que não pode deixar de ser colocada: de que serve o investimento na formação especializada e nas qualificações académicas dos jovens, se não desenvolvemos ao mesmo tempo as estruturas económicas e sociais que permitam tirar partido do acréscimo de competências e de conhecimentos das pessoas?

Ora é justamente este investimento em capital humano que parece estar a faltar em países onde uma economia mais desenvolvida coexiste com um ensino ainda acentuadamente elitista e com percursos escolares precocemente diferenciados, como sucede, por exemplo, na Alemanha ou na Inglaterra, países que, embora assegurem as suas necessidades de pessoal menos qualificado através de vias vocacionais ou profissionais à saída do secundário, acabam a importar, pela via da imigração, muitos profissionais com qualificações superiores.

Exemplo simples mas ilustrativo, contava-me recentemente uma colega cuja filha emigrou para Inglaterra que, no hospital onde esta trabalha, só são ingleses, praticamente, os porteiros, os seguranças, o pessoal administrativo e auxiliar. Médicos e enfermeiros são quase todos provenientes de outros países europeus.

Claro que me podem dizer, e até concordo, que o saber não ocupa lugar, que ter uma população culta e instruída é sempre uma vantagem, mesmo que as pessoas não apliquem de imediato nem tirem partido, em termos profissionais, do que aprenderam nos cursos superiores que frequentaram. Mas continuo a achar que é um logro pensarmos que o investimento em educação, só por si, resolve os problemas estruturais que têm emperrado o nosso desenvolvimento.

A educação na Polónia

O Público traz hoje uma extensa e interessante reportagem sobre o sistema educativo polaco, apontado pela OCDE como um dos que mais têm melhorado, de forma consistente, os resultados escolares dos seus alunos.

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Um aspecto interessante no caso polaco é a relação ambivalente com o anterior sistema educativo, herdado do regime comunista. Se é verdade que foi a reforma desse sistema, em 1999, que trouxe as mudanças que permitiram melhorar a educação dos polacos, não é menos certo que a Polónia tinha já então níveis de escolarização elevados e reduzidas taxas de insucesso e abandono escolar, o que fez com que a reforma então empreendida se pudesse centrar em medidas pedagógicas e organizacionais que permitiram aumentar rapidamente a qualidade do sucesso. Já em Portugal, o analfabetismo e a iliteracia, a desvalorização da escola e dos professores comum nalguns meios sociais, a tradição do trabalho infantil e do ensino elitista são factores estruturais que ainda hoje pesam sobre o sistema educativo, condicionando as sucessivas reformas que se tentam implementar.

Tal como já tinha feito em tempos em relação à Finlândia, deixo um pequeno exercício comparativo entre a educação na Polónia e em Portugal. Continuar a ler