Desigualdades e hipocrisias

pobreza-educ.JPGDirectora do Pordata lembra que a escola não está a conseguir atenuar as desigualdades “à velocidade necessária” para que determinismos sociais “terríveis” se apaguem.

A demógrafa e directora do portal de estatísticas Pordata mostra-se preocupada com a desigualdade de oportunidades no acesso à Educação. Os alunos mais carenciados continuam, em geral, a ter piores resultados escolares. Mas o discurso situacionista sobre Educação que as fundações e as organizações internacionais vão alimentando parte de pressupostos errados que, pela minha parte, nunca me cansarei de denunciar.

Se a escola não é eficaz a combater a perpetuação das desigualdades, isso não significa que devemos que fazer mais uma reforma educativa, insistindo naquilo que, comprovadamente, não funciona.

A necessidade que temos é de encontrar outras formas de realizar as transformações sociais que a escola, está mais do que demonstrado, não consegue fazer sozinha.

Por muito boa que seja a escola, se a sociedade não criar oportunidades reais de ascensão económica e social aos filhos dos pobres, a pobreza irá sempre perpetuar-se.

Por muito talentosas que sejam as crianças de meios desfavorecidos, se as fortunas e as heranças se continuarem a transmitir entre um punhado de famílias, a multidão de remediados e deserdados terá sempre de se contentar com os restos do banquete.

Se a exploração do trabalho, agora organizada à escala global, continuar a favorecer, na distribuição de rendimentos, o capital em detrimento do trabalho, não haverá “nivelador social” que consiga contrariar o aprofundamento das desigualdades.

Mas é óbvio que interessa propagar a ideia, e por isso ela está tão presente no discurso institucional, de que podemos combater eficazmente a desigualdade através da escola, deixando intactos os mecanismos políticos, económicos e sociais que a reproduzem.

O grupo Jerónimo Martins, ao qual pertence a Pordata, é o campeão português da desigualdade salarial. O CEO da empresa ganha 130 vezes mais do que o trabalhador médio do grupo. Se estivessem mesmo preocupados com a pobreza e as desigualdades, provavelmente encontrariam muito que fazer portas adentro, na gestão do seu universo empresarial.

Muito mais fácil do que pôr em causa o modelo de negócio, os lucros milionários e o dumping fiscal é culpar o sistema educativo e os professores, por não serem capazes de corrigir as injustiças sociais e a desigualdade de oportunidades que o capitalismo neoliberal faz questão de acentuar.

Restará saber, no dia em que o filho de uma caixeira do Pingo Doce provar ser melhor gestor do que qualquer um dos que actualmente se sentam no Conselho de Administração, qual dos soaresdossantos colocaria o seu lugar à disposição.

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Viver a vida

Para além da saúde, que faz sempre falta, de que mais precisamos para conhecer o mundo em que vivemos, compreender a realidade que nos rodeia, construir o nosso futuro e encarar a vida com confiança?

Muita cultura? Muito dinheiro? Ou será, como em quase tudo, uma questão de medida certa?…

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Não é a pedagogia. É a economia, estúpido!

javier.jpgO que limita a capacidade de aprendizagem de muitas crianças e dificulta a tarefa do docente não é a nossa falta de motivação ou o desconhecimento de alguns métodos de ensino, mas sim a desigualdade e a pobreza. E esta reforma não resolve o problema, mas desmantelará a educação pública.

O tweet foi escrito por um professor espanhol e refere-se à realidade educativa de Espanha.

Javier não estaria a pensar nas flexibilidades curriculares e noutras reformas educativas à portuguesa.

Mas ajuda-nos a perceber o quanto é fácil acusar os professores em vez de questionar a voragem do capitalismo neoliberal.

E mostra-nos que a agenda da OCDE e das multinacionais com interesses económicos na educação não conhece fronteiras…

Reflexões natalícias III

pai-natal.JPGQuando a avaliação das “competências” invade à força toda o sistema educativo – veja-se o novo Perfil do Aluno e todo o enfoque nas educações para a cidadania que os novos planos ministeriais trazem consigo – espera-se que os professores dediquem cada vez mais tempo a transformar os seus alunos em cidadãos autónomos, críticos, activos, capazes de actuar no meio envolvente e de se tornarem eles próprios agentes da mudança económica, social e política.

Mas antes de se pensar em avaliar os alunos pela sua capacidade de melhorar o mundo em que vivemos, não seria mais lógico avaliar em primeiro lugar a comprovada incapacidade de políticos, gestores e burocratas em fazê-lo?…

Indo um pouco mais longe: não será já a busca das escolas e das pedagogias capazes de “fazer a diferença”, conduzindo ao sucesso escolar as crianças oriundas de meios desfavorecidos, um sinal inequívoco de uma sociedade conformada com a persistência da desigualdade e da pobreza?…

Enquanto brincamos à caridadezinha…

A capa da edição de hoje do Diário de Aveiro é paradigmática do conceito de solidariedade que colectivamente vamos promovendo.

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Grandes campanhas de recolha de alimentos à porta dos hipermercados, centenas de toneladas de comida a serem armazenadas e distribuídas pelos banqueiros da generosidade alheia. O que não significa que a ajuda de que necessitam chegue mesmo aos que dela mais necessitam.

Como se combater a pobreza se resumisse a dar de comer a quem tem fome, não havendo outras necessidades básicas, e carências dramáticas, a satisfazer.

Como se os únicos que precisam e merecem ser ajudados sejam os pobrezinhos conformados e subservientes, prontos a estender a mão, atentos e agradecidos, à caridade alheia.

À medida que se institucionaliza e profissionaliza a “ajuda alimentar” e os negócios a ela adjacentes, vamo-nos esquecendo do fundamental: os baixos salários que se pagam no nosso país e que não permitem que os pobres se libertem da pobreza nem que se construa uma sociedade mais justa e onde ao trabalho e à dignidade humana seja dado o devido valor. Aí sim, seríamos verdadeiramente solidários.

Como erradicar a pobreza?

pobres.jpgJulgava eu que passaria, em primeiro lugar, por proporcionar trabalho, com salário decente, a todas as pessoas aptas a trabalhar e a conseguir, dessa forma, as condições materiais que permitem, não só satisfazer as necessidades básicas, mas também o acesso a uma vida digna.

Por um sistema de segurança social que garanta rendimentos aos que, por motivos de idade, doença ou incapacidade, não podem trabalhar.

Pela garantia de acesso universal à educação e à saúde e a uma habitação adequada para cada agregado familiar.

Por políticas redistributivas que contrariem a acumulação excessiva de riqueza no topo da sociedade, taxando os rendimentos elevados e os consumos de luxo, de forma a gerar recursos que permitam melhorar a situação económica dos mais necessitados.

Afinal, parece que nada disto é determinante. Alguém descobriu que a solução do problema da pobreza está… nas escolas!

O presidente da Rede Europeia Anti-Pobreza (EAPN) em Portugal, Jardim Moreira, revelou esta sexta-feira que, no prazo de “três semanas”, vai assinar com o Ministério da Educação um protocolo de “combate à pobreza em Portugal, a partir das escolas”. 

O resto da notícia, se nada esclarece em relação ao que realmente se pretende, diz o suficiente para nos deixar apreensivos com mais uma treta que nos há-de cair em cima: “não há dinheiro”, mas em contrapartida teremos “formação” e “parcerias”, para “mudar mentalidades” e criar uma “sociedade renovada”.

Entenda-se de uma vez por todas que a pobreza, mais do que estado de espírito, que também poderá ser, é acima de tudo a privação das condições materiais indispensáveis a uma vida digna. Deixemo-nos de hipocrisias: isto só se resolve, numa economia de mercado, dando às pessoas os meios de obter o dinheiro necessário ao pagamento das suas despesas.

No mundo ocidental, já estivemos mais perto de erradicar a pobreza do que estamos hoje. E regredimos neste combate precisamente porque ele não é um problema de mentalidades: é mesmo o resultado inevitável das políticas neoliberais que promovem  a concentração de riqueza e aumentam a exclusão social.

Um retrato da pobreza

classes-populares.jpgCompreender e explicar a pobreza em Portugal, em especial os mecanismos que a produzem e perpetuam numa das sociedades europeias com mais desigualdade social, é o que procuram fazer Francisco Louçã, João Teixeira Lopes e Lígia Ferro no novo livro lançado esta semana – As Classes Populares.

Em entrevista ao Público, João Teixeira Lopes, sociólogo e militante do Bloco de Esquerda, defende que a pobreza, não só está a aumentar em Portugal, como se acentuou com a vinda da troika.

Dois terços da população enquadram-se naquilo a que podemos chamar as classes populares, isto é, [pessoas que têm] profissões subalternas, de execução, precarizadas, ligadas a rendimentos baixos. Nós temos hoje uma sociedade fortemente polarizada, em que as classes médias claramente empobreceram e se mostram instáveis. Aquela ideia de que nos transformamos num país de classe média, devido à educação ou a outros mecanismos de elevador social, não se verifica de todo. Pelo contrário, vemos, desde logo pela distribuição do rendimento e por aquilo que são as relações de trabalho e a forma como foram alteradas no período da troika, um forte empobrecimento de largas franjas da população.

Desemprego estrutural elevado, precarização do trabalho, baixos salários: eis a receita para o esmagamento das classes médias, que obriga as novas gerações a conformarem-se com rendimentos muito inferiores aos dos seus pais, forçando os jovens a manterem-se indefinidamente na casa paterna, adiando projectos de vida autónomos. E, pior que tudo, conformando-se com essa situação.

Ao mesmo tempo, recrudescem o discurso moralista e a acção assistencialista sobre a pobreza: é preciso vigiar os pobres e castigá-los sempre que se mostrem preguiçosos ou relapsos no cumprimento das suas obrigações.

[…] as classes populares não se reduzem aos pobres, mas a pobreza é uma franja significativa das classes populares, em particular porque a pobreza é flutuante: as pessoas que hoje não são pobres mas que podem vir a sê-lo e as pessoas que já foram ou deixaram de o ser mas que podem voltar a sê-lo. Portanto, a vulnerabilidade à pobreza em Portugal é altíssima. E as instituições de solidariedade social adoptam com estas pessoas um discurso altamente paternalista, moralizador e punitivo em relação aos maus pobres. E com isto acabam por subalternizar ainda mais estas pessoas, como se fossem umas crianças grandes, recebendo ralhetes, reprimendas, vendo o seu subsídio ser cortado se porventura um qualquer acto burocrático falhou. Esta normalização do pobre, do assistido, é um dos aspectos mais visíveis nas classes populares hoje em dia, esta visão punitiva que vai no sentido de manter os pobres dentro dos trilhos, domesticados.

Noutras épocas, e apesar de menos instruídas, as classes baixas acabavam, mais tarde ou mais cedo, por tomar consciência da sua condição de explorados. Paradoxalmente, os jovens cultos, instruídos e cosmopolitas dos dias de hoje, os tais que têm “o conhecimento na palma da mão” graças ao omnipresente telemóvel, parecem ser mais facilmente iludidos sobre a sua situação do que eram antigamente os mineiros, os jornaleiros ou os operários. Teixeira Lopes explica-o muito bem:

Há uma grande margem de conformismo. E o consumo cultural serve para integrar e para fornecer essa base de conformismo. A ideia, hoje tão presente nos novos media, de que a sua voz é escutada, a sua participação desejada, contribuí para criar uma ilusão de que se é escutado e tido em conta. São mecanismos que facilitam o exercício da dominação. Até as formas de organização do trabalho que parecem não hierarquizadas (coworking, partilhar espaços, trabalho por objectivos em ambientes aparentemente descontraídos…) fornecem muitas vezes a ideia de que a pessoa se está a realizar pessoalmente ou de que tem pelo menos essa hipótese e de que não é oprimida. A exploração é neste caso muito mais subtil e menos à flor da pele, até porque, pela socialização, estes jovens vão incorporando este tipo de situação como aceitável, normal ou pelo menos sem alternativa.

A terminar a entrevista, o autor recusa fazer futurologia e antever como irá evoluir uma sociedade demasiado desigual para ser estável e coesa a longo prazo. Será que os jovens se irão cansar e revoltar com a precariedade e a subalternização, rompendo as amarras da sujeição? Ou o sistema capitalista conseguirá, como tantas vezes no passado, desmobilizar as críticas e a revolta? O que parece evidente é que a perda de rendimentos acaba por retrair o consumo, impedindo, a prazo, o crescimento económico. Nada de novo, é a situação que há uma década estamos a viver.