Não é a pedagogia. É a economia, estúpido!

javier.jpgO que limita a capacidade de aprendizagem de muitas crianças e dificulta a tarefa do docente não é a nossa falta de motivação ou o desconhecimento de alguns métodos de ensino, mas sim a desigualdade e a pobreza. E esta reforma não resolve o problema, mas desmantelará a educação pública.

O tweet foi escrito por um professor espanhol e refere-se à realidade educativa de Espanha.

Javier não estaria a pensar nas flexibilidades curriculares e noutras reformas educativas à portuguesa.

Mas ajuda-nos a perceber o quanto é fácil acusar os professores em vez de questionar a voragem do capitalismo neoliberal.

E mostra-nos que a agenda da OCDE e das multinacionais com interesses económicos na educação não conhece fronteiras…

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Reflexões natalícias III

pai-natal.JPGQuando a avaliação das “competências” invade à força toda o sistema educativo – veja-se o novo Perfil do Aluno e todo o enfoque nas educações para a cidadania que os novos planos ministeriais trazem consigo – espera-se que os professores dediquem cada vez mais tempo a transformar os seus alunos em cidadãos autónomos, críticos, activos, capazes de actuar no meio envolvente e de se tornarem eles próprios agentes da mudança económica, social e política.

Mas antes de se pensar em avaliar os alunos pela sua capacidade de melhorar o mundo em que vivemos, não seria mais lógico avaliar em primeiro lugar a comprovada incapacidade de políticos, gestores e burocratas em fazê-lo?…

Indo um pouco mais longe: não será já a busca das escolas e das pedagogias capazes de “fazer a diferença”, conduzindo ao sucesso escolar as crianças oriundas de meios desfavorecidos, um sinal inequívoco de uma sociedade conformada com a persistência da desigualdade e da pobreza?…

Enquanto brincamos à caridadezinha…

A capa da edição de hoje do Diário de Aveiro é paradigmática do conceito de solidariedade que colectivamente vamos promovendo.

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Grandes campanhas de recolha de alimentos à porta dos hipermercados, centenas de toneladas de comida a serem armazenadas e distribuídas pelos banqueiros da generosidade alheia. O que não significa que a ajuda de que necessitam chegue mesmo aos que dela mais necessitam.

Como se combater a pobreza se resumisse a dar de comer a quem tem fome, não havendo outras necessidades básicas, e carências dramáticas, a satisfazer.

Como se os únicos que precisam e merecem ser ajudados sejam os pobrezinhos conformados e subservientes, prontos a estender a mão, atentos e agradecidos, à caridade alheia.

À medida que se institucionaliza e profissionaliza a “ajuda alimentar” e os negócios a ela adjacentes, vamo-nos esquecendo do fundamental: os baixos salários que se pagam no nosso país e que não permitem que os pobres se libertem da pobreza nem que se construa uma sociedade mais justa e onde ao trabalho e à dignidade humana seja dado o devido valor. Aí sim, seríamos verdadeiramente solidários.

Como erradicar a pobreza?

pobres.jpgJulgava eu que passaria, em primeiro lugar, por proporcionar trabalho, com salário decente, a todas as pessoas aptas a trabalhar e a conseguir, dessa forma, as condições materiais que permitem, não só satisfazer as necessidades básicas, mas também o acesso a uma vida digna.

Por um sistema de segurança social que garanta rendimentos aos que, por motivos de idade, doença ou incapacidade, não podem trabalhar.

Pela garantia de acesso universal à educação e à saúde e a uma habitação adequada para cada agregado familiar.

Por políticas redistributivas que contrariem a acumulação excessiva de riqueza no topo da sociedade, taxando os rendimentos elevados e os consumos de luxo, de forma a gerar recursos que permitam melhorar a situação económica dos mais necessitados.

Afinal, parece que nada disto é determinante. Alguém descobriu que a solução do problema da pobreza está… nas escolas!

O presidente da Rede Europeia Anti-Pobreza (EAPN) em Portugal, Jardim Moreira, revelou esta sexta-feira que, no prazo de “três semanas”, vai assinar com o Ministério da Educação um protocolo de “combate à pobreza em Portugal, a partir das escolas”. 

O resto da notícia, se nada esclarece em relação ao que realmente se pretende, diz o suficiente para nos deixar apreensivos com mais uma treta que nos há-de cair em cima: “não há dinheiro”, mas em contrapartida teremos “formação” e “parcerias”, para “mudar mentalidades” e criar uma “sociedade renovada”.

Entenda-se de uma vez por todas que a pobreza, mais do que estado de espírito, que também poderá ser, é acima de tudo a privação das condições materiais indispensáveis a uma vida digna. Deixemo-nos de hipocrisias: isto só se resolve, numa economia de mercado, dando às pessoas os meios de obter o dinheiro necessário ao pagamento das suas despesas.

No mundo ocidental, já estivemos mais perto de erradicar a pobreza do que estamos hoje. E regredimos neste combate precisamente porque ele não é um problema de mentalidades: é mesmo o resultado inevitável das políticas neoliberais que promovem  a concentração de riqueza e aumentam a exclusão social.

Um retrato da pobreza

classes-populares.jpgCompreender e explicar a pobreza em Portugal, em especial os mecanismos que a produzem e perpetuam numa das sociedades europeias com mais desigualdade social, é o que procuram fazer Francisco Louçã, João Teixeira Lopes e Lígia Ferro no novo livro lançado esta semana – As Classes Populares.

Em entrevista ao Público, João Teixeira Lopes, sociólogo e militante do Bloco de Esquerda, defende que a pobreza, não só está a aumentar em Portugal, como se acentuou com a vinda da troika.

Dois terços da população enquadram-se naquilo a que podemos chamar as classes populares, isto é, [pessoas que têm] profissões subalternas, de execução, precarizadas, ligadas a rendimentos baixos. Nós temos hoje uma sociedade fortemente polarizada, em que as classes médias claramente empobreceram e se mostram instáveis. Aquela ideia de que nos transformamos num país de classe média, devido à educação ou a outros mecanismos de elevador social, não se verifica de todo. Pelo contrário, vemos, desde logo pela distribuição do rendimento e por aquilo que são as relações de trabalho e a forma como foram alteradas no período da troika, um forte empobrecimento de largas franjas da população.

Desemprego estrutural elevado, precarização do trabalho, baixos salários: eis a receita para o esmagamento das classes médias, que obriga as novas gerações a conformarem-se com rendimentos muito inferiores aos dos seus pais, forçando os jovens a manterem-se indefinidamente na casa paterna, adiando projectos de vida autónomos. E, pior que tudo, conformando-se com essa situação.

Ao mesmo tempo, recrudescem o discurso moralista e a acção assistencialista sobre a pobreza: é preciso vigiar os pobres e castigá-los sempre que se mostrem preguiçosos ou relapsos no cumprimento das suas obrigações.

[…] as classes populares não se reduzem aos pobres, mas a pobreza é uma franja significativa das classes populares, em particular porque a pobreza é flutuante: as pessoas que hoje não são pobres mas que podem vir a sê-lo e as pessoas que já foram ou deixaram de o ser mas que podem voltar a sê-lo. Portanto, a vulnerabilidade à pobreza em Portugal é altíssima. E as instituições de solidariedade social adoptam com estas pessoas um discurso altamente paternalista, moralizador e punitivo em relação aos maus pobres. E com isto acabam por subalternizar ainda mais estas pessoas, como se fossem umas crianças grandes, recebendo ralhetes, reprimendas, vendo o seu subsídio ser cortado se porventura um qualquer acto burocrático falhou. Esta normalização do pobre, do assistido, é um dos aspectos mais visíveis nas classes populares hoje em dia, esta visão punitiva que vai no sentido de manter os pobres dentro dos trilhos, domesticados.

Noutras épocas, e apesar de menos instruídas, as classes baixas acabavam, mais tarde ou mais cedo, por tomar consciência da sua condição de explorados. Paradoxalmente, os jovens cultos, instruídos e cosmopolitas dos dias de hoje, os tais que têm “o conhecimento na palma da mão” graças ao omnipresente telemóvel, parecem ser mais facilmente iludidos sobre a sua situação do que eram antigamente os mineiros, os jornaleiros ou os operários. Teixeira Lopes explica-o muito bem:

Há uma grande margem de conformismo. E o consumo cultural serve para integrar e para fornecer essa base de conformismo. A ideia, hoje tão presente nos novos media, de que a sua voz é escutada, a sua participação desejada, contribuí para criar uma ilusão de que se é escutado e tido em conta. São mecanismos que facilitam o exercício da dominação. Até as formas de organização do trabalho que parecem não hierarquizadas (coworking, partilhar espaços, trabalho por objectivos em ambientes aparentemente descontraídos…) fornecem muitas vezes a ideia de que a pessoa se está a realizar pessoalmente ou de que tem pelo menos essa hipótese e de que não é oprimida. A exploração é neste caso muito mais subtil e menos à flor da pele, até porque, pela socialização, estes jovens vão incorporando este tipo de situação como aceitável, normal ou pelo menos sem alternativa.

A terminar a entrevista, o autor recusa fazer futurologia e antever como irá evoluir uma sociedade demasiado desigual para ser estável e coesa a longo prazo. Será que os jovens se irão cansar e revoltar com a precariedade e a subalternização, rompendo as amarras da sujeição? Ou o sistema capitalista conseguirá, como tantas vezes no passado, desmobilizar as críticas e a revolta? O que parece evidente é que a perda de rendimentos acaba por retrair o consumo, impedindo, a prazo, o crescimento económico. Nada de novo, é a situação que há uma década estamos a viver.

Leituras: Andersen – A menina dos fósforos

menina-dos-fosforos.jpgQue frio estava! Caía neve, e a noite não vinha longe; era a última tarde do ano, a véspera do dia de Ano Novo. No meio daquele frio e daquela escuridão, passou na rua uma pobre rapariguinha, em cabelo e descalça. É verdade que, ao sair de casa, tinha umas grandes pantufas mas não lhe serviram por muito tempo, porque pertenceram à mãe e já tinham tido muito uso. E. eram tão grandes, que a pequena perdeu- as na pressa de atravessar a rua entre duas carruagens. Uma delas perdeu-se realmente; quanto à outra, uma garota levou-a com a intenção de fazer dela um berço para o seu pequenino, quando o Céu lhe desse um.

A rapariguinha caminhava com os pézitos descalços, que estavam vermelhos e azuis de frio; levava, no seu velho avental, uma grande quantidade de fósforos e, na mão, um embrulho. Era um mau dia para ela não tendo nenhum comprador e, portanto, nem uma pequena moeda. Tinha muita fome e muito frio, e uma aparência bem miserável. Pobre pequenita! Caíam, flocos de neve nos seus longos cabelos louros, tão graciosamente anelados em volta do pescoço, mas ela podia pensar nos seus cabelos anelados? Brilhavam luzes nas janelas, exalava-se na rua o aroma dos assados; era véspera de Ano Bom e era no que ela pensava.

Sentou-se e encolheu-se a um canto, entre duas casas. O frio apoderava-se dela cada vez mais, mas não ousava regressar a casa com todos os fósforos e sem a mais pequena moeda. Seu pai bater-lhe-ia; e, de resto, em casa, não estava também frio? Moravam junto ao telhado e o vento soprava através dele, embora as fendas maiores tivessem sido tapadas com palha e trapos. As suas mãozinhas estavam quase mortas de frio. Ai! como lhe faria bem um pequeno fósforo, se ela se atrevesse a tirar um só do embrulho, a esfregá-lo na parede e aquecer os dedos! Tirou um: ritche! como estalou! como ardeu! Era uma chama ardente e clara como uma pequena vela, quando a cobriu com a mão. Que luz estranha! Parecia à rapariguinha que estava sentada diante de um grande fogão de ferro, ornado de esferas e encimado por uma tampa de cobre brilhante. O fogo ardia de forma tão magnífica e tanto que aquecia! Mas, que aconteceu? A pequena estendia já os pés para os aquecer também; a chama apagou-se, o fogo desapareceu: ela estava sentada, com uma pontazita do fósforo queimado na mão.

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Universitários sem casa e com fome

student-homeless.jpgMais de 50 mil estudantes no Estado da Califórnia não têm domicílio fixo e muitos passam fome, segundo um estudo da rede universitária Cal State, que está a ser objeto de discussão pública esta semana.

Segundo a rede pública de universidades Cal State, a maior do país, o problema é nacional e muito subestimado.

O inquérito apurou que entre 8,7% e 12% dos 460 mil estudantes da rede Cal State, que conta 23 ‘campus’, não têm domicílio fixo e entre 21% e 24% não têm acesso regular a alimentação.

“Em média, 1 em cada 5 estudantes da rede universitária Cal State passa fome e 1 em cada 10 alunos está perto de se tornar sem abrigo”, como diz o Huffington Post.

Isto sucede no país mais rico do mundo e que tem, a acreditar nos rankings internacionais, das melhores universidades. O reverso da medalha é este: propinas muito elevadas, que mesmo nas universidades públicas podem ultrapassar os dez mil dólares anuais, e estudantes sem recursos que sobrevivem saltando refeições e pernoitando em tendas, carros, estações ou, de quando em vez, em casa de amigos.

Casos de estudantes que se prostituem ou traficam para pagar os estudos também não serão novidade. Mas, como sucede frequentemente com todas estas situações que contradizem a narrativa do sucesso e da igualdade de oportunidades que a sociedade norte-americana gosta de contar de si própria, o problema tem sido subvalorizado ou simplesmente ignorado.

Já os autores do estudo agora vindo a público, esses querem mesmo que se discuta o assunto, pois é por essa via que esperam encontrar soluções a longo prazo para um problema que para já apenas se vai atenuando com a atribuição pontual de cupões de alimentação ou facilidades de alojamento.