O pai do “PASEO”

…Continua imparável na redondez e na vacuidade do discurso.

Dizem que Guilherme de Oliveira Martins é boa pessoa, e um homem extraordinariamente culto, o que nada me custa a acreditar.

Mas essa seria uma boa razão para deixar de escrever, sobre Educação, apenas lugares-comuns e conversa da treta.

Pois esta é também uma forma de menorizar a incensada “paixão de educar”…

…a aprendizagem deve encontrar a sua essência na exigência de pensar. E daí a filosofia não poder ausentar-se da escola, desde os mais precoces momentos da educação básica. Não se trataria de qualquer pretensiosismo, mas de compreender as pessoas, as coisas, a vida e o mundo, ler diretamente os textos e os autores, cabendo ao educador escolher os exemplos adequados a cada idade, encarando a criança como cidadão na medida das suas capacidades. Por isso, precisamos de “professores preparados e disponíveis para desempenhar o papel de moderadores”, no ambiente de uma comunidade de reflexão...

O golpe de 6 de Julho

…a partir do próximo dia 1 de Setembro, todos os programas até agora em vigor, do 1.º ao 12.º ano, serão substituídos por “aprendizagens essenciais”, eufemismo para designar a mediocridade assassina da desconstrução curricular iniciada em 2015. Acresce o absurdo dessas “aprendizagens essenciais” serem obviamente indissociáveis dos programas … que o despacho anulou. Nunca assisti a uma alteração curricular desta magnitude, feita desta maneira. O menor denominador comum, do qual seria expectável que tentássemos afastar todos os alunos, passa a ser o Santo Graal para que devemos conduzir todos. Eis o desígnio da “escola inclusiva”, caritativamente grátis para quem não puder pagar ensino privado. Eis o que os Costas (o António e o João) prescrevem para o futuro dos nossos jovens, se outra coisa não sobrar de nós, senão submissão e conformismo.

A versão menos elaborada e mais redutora do paradigma ideológico chegou, autoritária, populista, para substituir a densidade dos vários saberes disciplinares pela superficialidade de uma cultura digital estupidificante e escravizante de professores e alunos, mas favorável ao império das multinacionais tecnológicas, que cada vez mais grudará os mais desfavorecidos às suas frágeis circunstâncias de partida.

Santana Castilho continua em boa forma nas suas crónicas semanais no Público. Denunciando, sem rodeios, o ataque dissimulado mas implacável àquilo que, num mar de normativos eduqueses, ainda dava alguma consistência ao currículo e ao corpo de conhecimentos que a escola deve transmitir: os programas das disciplinas.

É claro que a salgalhada de programas, metas curriculares e aprendizagens essenciais não fazia sentido, mas também é certo que as AE de pouco valem sem um programa devidamente estruturado que lhes sirva de referência. Nesta perspectiva, faria mais sentido uma revisão dos programas disciplinares, pois a par de alguns já com trinta anos de vigência há outros, como é o caso da Matemática, mexidos e remexidos por diversos governos. Sendo que, na maioria dos casos, mais lhes valia terem ficado quietos. Sucede que renovar os programas soaria, para os pedagogos pseudo-modernistas que inspiram as políticas deste governo, como uma valorização do saber disciplinar que, de um modo geral, abominam.

Tópicos de aprendizagens avulsas, como encontramos nas aprendizagens essenciais, temperados pelo PASEO (a sigla neo-eduquesa para o Perfil dos Alunos) e a nova estrela da companhia, a Estratégia de Educação para a Cidadania: eis o que se adequa aos exercícios de desconstrução curricular que as escolas “inovadoras” são exortadas a fazer. O objectivo é aprender alguma coisa em torno de “domínios”, “fenómenos” ou “problemas”, pondo de parte as fronteiras entre os saberes disciplinares. A realidade é que experiências destas já se fazem há muitos anos, sem que os resultados obtidos as recomendem. Mas claro que esta escola dita inclusiva, onde a modernidade dos projectos e dos discursos esconde a mediocridade e a inconsistência das aprendizagens, não será para todos: quem quiser e puder não hesitará em colocar os filhos em escolas privadas que garantam a qualidade do ensino. Ou que consigam, no mínimo, criar alguma ilusão nesse sentido. Um novo acentuar das desigualdades educativas nascerá daqui.

Educação para a adversidade

we-can-do-it…se há uma falha evidente na “filosofia” actual que domina o nosso sistema educativo é desajustamento entre uma ideologia baseada num desmesurado optimismo e uma crença no progresso das sociedades humanas, que está em claro contra-ciclo com a realidade que se tem vivido nas últimas décadas. O século XXI, até ao momento, se trouxe alguns ganhos no combate à pobreza extrema em algumas zonas do mundo, não se tem revelado especialmente favorável no combate às desigualdades económicas, à justiça social ou à estabilização das condições laborais da maioria da população das economias consideradas “desenvolvidas”.

O nosso tão aclamado “Perfil do Aluno à Saída da Escolaridade Obrigatória” é um documento ambicioso na enunciação de tudo o que se acha que os indivíduos devem desenvolver para serem cidadãos de uma sociedade mais justa, sustentável, inclusiva, humanista e tolerante, mas pouco ou nada tem acerca do modo como se deve lidar com a adversidade. Porque não chega ser-se flexível, crítico ou reflexivo, se isso é envolvido por uma retórica que dá a entender que tudo será um caminho para a felicidade e o bem-estar. Porque pouco ou nada se contempla quanto a reagir a situações negativas, de emergência, de crise global, como as que a maioria do mundo enfrentou já por duas vezes desde a viragem para o século XXI.

Não acompanho Paulo Guinote na intensidade da crítica ao E@D. Não me parece que tivesse sido possível, mesmo “parando para pensar” um pouco mais, ou escutando outras vozes, indo além do habitual círculo de avençados e cortesãos do SE Costa, fazer muito mais, ou melhor, do que foi conseguido com o ensino remoto dito de emergência.

Quanto ao essencial do post, contudo, subscrevo inteiramente. Há um problema de fundo que vem de trás, mas que o confinamento agravou, e que assenta numa visão da Educação centrada no lúdico, no fácil, nos mitos educativos do conhecimento inato e da aprendizagem espontânea, na ilusão de tudo se pode aprender rapidamente e sem esforço e de que a missão fundamental dos professores do século XXI é a de facilitadores da aprendizagem, removendo da frente dos meninos e das meninas tudo o que possa representar obstáculo na senda do conhecimento.

A verdade é que o caminho da felicidade e da realização pessoal não se faz apenas de facilidades, sendo preciso desenvolver a persistência, a resiliência, capacidades de adaptação e superação, hábitos de trabalho: competências de base essenciais para superar as dificuldades, não apenas da escola, mas sobretudo ao longo de toda a vida. Para nos conhecermos a nós mesmos, as nossas capacidades e os nossos limites. E, transformando as dificuldades em desafios, conseguir, sempre que isso é possível, dar a volta por cima.

No rol das muitas educações para a cidadania que se recomendam para o desenvolvimento de competências transversais, falta certamente uma educação para a adversidade. E isso nota-se, cada vez com mais frequência, nas nossas crianças e jovens, quando as coisas não lhes correm como pretendido. Lidar com a frustração e o fracasso, enfrentar os constrangimentos, retirar ganhos e ensinamentos mesmo das más experiências da sua vida: parece haver um claro défice destas competências entre as gerações mais novas.

Paulo Guinote nota, acertadamente, que ao não capacitarmos os nossos alunos para reagir à adversidade estamos a remetê-los a uma especial vulnerabilidade. E nem é tanto na escola, onde existem cada vez mais redes de segurança, que garantem que nenhum aluno é “prejudicado”. Se for preciso será até, como vai acontecendo cada vez mais, levado ao colo, para não se cansar demasiado.

Mas, fora da escola, a vida não é assim. E é quando começam a dar os primeiros tombos, na vida social ou sentimental, no ingresso na universidade ou na entrada no competitivo mundo laboral, que as vulnerabilidades vêm ao de cima. A descoberta de que nem sempre conseguimos concretizar os nossos sonhos ou ganhar os nossos desafios traduz-se em números preocupantes de adolescentes e jovens adultos vítimas de depressões, crises de ansiedade, tentativas de suicídio. Frágeis, inseguros e dependentes de drogas de todos os tipos, tanto as ilícitas como as que se vendem nos supermercados e nas farmácias.

Temo que o vanguardista perfil dos alunos e todo o modelo de escola que se tenta construir a partir dele estejam a desvalorizar esta realidade preocupante. Como a pandemia e o confinamento demonstraram, aprender a lidar com a adversidade e o imprevisto pode não ser um tema curricular apelativo. Mas a sua necessidade tornou-se, no tempo que vivemos, clara e evidente.

Alunos…

Depois da inspirada colecção de professores, faltava a dos diferentes tipos de alunos, representados através de cenas e personagens de filmes de animação.

Publicação original na conta Twitter Dilo en voz alta, onde podem ser vistos mais alguns bonecos.

 

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A alunos e professores, a Escola Portuguesa deseja um bom regresso às aulas.

Falta de perfil

Não deixa de ser curioso, e ao mesmo tempo revelador, que um governo cuja política educativa tanto tem apostado no que chamam o Perfil do Aluno tenha um ministro da Educação com tão evidente falta de perfil para o cargo.

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Nesta altura Tiago Brandão Rodrigues já deve andar de novo desaparecido, deixando ao secretário de Estado o papel de polícia-bom que tenta amansar a contestação nas escolas e aos burocratas do ministério a negociação sindical. E a intervenção política aos dirigentes e deputados do PS.

Deveriam renovar o convite a Oliveira Martins e à sua equipa perfiladora, agora para elaborarem o Perfil do Ministro…

O verdadeiro perfil do aluno

Será este o verdadeiro perfil do aluno que, sob a capa do direito ao sucesso e da escola divertida, se pretende promover?

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Sem respostas definitivas para uma questão tão complexa, que precisa, acima de tudo, de continuar a ser discutida – e de ter mais professores no terreno a participar nessa discussão – fica o cartoon super-inspirado de Antero Valério.

Colaborações: ComRegras

No Topo: União Sindical

Quando a insatisfação começa a aumentar entre os professores, devido às condições gravosas e limitativas que o ME pretende impor na progressão nas carreiras, e que nalgumas situações se traduzem mesmo na não progressão – nuns casos por falta de tempo, noutros por ausência de vaga, noutros ainda por falta de aulas assistidas – torna-se claro que o jogo dúbio e enganador do governo com os professores teve apenas em vista criar condições políticas para a aprovação do orçamento.

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No Fundo: O dia do perfil

Não será consensual esta colocação do dia em que mais de duas centenas de escolas debateram o perfil do aluno entre os piores acontecimentos da semana: certamente que milhares de docentes e estudantes que nas suas escolas aceitaram o repto do ME e participaram no debate terão encontrado na iniciativa motivos de satisfação pessoal e profissional.

O dia do perfil, um dia depois

tecnologia.gifPara além do mediatismo do ministro contracenando com as celebridades – Catarina Furtado, o seleccionador nacional, o professor do Técnico e o músico dos DAMA – o que ficou do Dia do Perfil e da tão celebrada participação dos alunos na discussão sobre a escola flexível, autónoma e inovadora que se pretendeu promover?

Curiosamente, o jornalismo preguiçoso que transcreve o press release da agência Lusa sobre o evento mostra-se pouco curioso em saber, indo às escolas, o que os alunos realmente pensam do tema do dia. Salvam a honra do convento uma ou outra reportagem televisiva, como a do Porto Canal, e a notícia do Público que dá conta de algumas actividades concretas das escolas no âmbito da iniciativa ministerial.

A ideia que fica é que o “Perfil do Aluno” não é algo que desperte interesse nos jovens. Aquele eduquês pedante, retumbante e palavroso não motiva nem mobiliza ninguém, e só “especialistas” e “cientistas da educação” contentes consigo próprios e com a sua habilidade para os jogos florais podem auto-satisfazer-se com semelhantes prosas. Quanto aos miúdos, o que eles querem realmente discutir é o que fazer para as aulas não serem “uma seca”, para que os colegas que “não gostam da escola” passem a querer ir às aulas, para que possam aprender mais, melhor ou, acima de tudo, coisas que lhes interessem.

Concordo que “os alunos têm mais a dizer do que as pessoas pensam”, mas não sou tão optimista como o director do agrupamento de Caneças, que acha  que “a relação com a escola muda, só por os miúdos serem ouvidos e envolvidos no processo de trabalho”: parece-me é que há responsáveis pela Educação que pretendem inventar coisas que mudem a escola sem que eles tenham de fazer a sua parte do trabalho nem de assumir as suas responsabilidades.

Quanto à flexibilidade curricular e ao trabalho por projectos, noto a cautela generalizada entre os envolvidos, que acham que “é cedo” para avaliar resultados. Mas nas entrelinhas lá se vão percebendo a desorientação, o cansaço e a falta de meios e condições para improvisar, num par de meses, uma mudança que noutros países levou uma década a implementar. E uma aluna vai dizendo que gosta, “apesar de estarmos sempre em grupos e haver gente que não trabalha”

Registo também as palavras do ministro, que diz que o projecto da flexibilidade é para avançar “de forma sólida”, e por isso vão monitorizando e avaliando o que as escolas estão a fazer. Mas, curiosamente, evita comprometer-se com o que oficiosamente tem sido dado como garantido: que a reforma (nunca assumida como tal) é para generalizar a todas as escolas em 2018/19.

E quanto à conferência das celebridades, que era suposto inspirar os conferencistas e participantes locais? Concluo dando a palavra à professora Anabela Magalhães, que registou no seu blogue como decorreu, na sua escola, o grande momento…

Bem tentamos acompanhar em directo a conferência que decorria no espaço expositivo da Fundação Champalimaud… mas a imagem chegava aos soluços, intercalada com enormes períodos estáticos, impossibilitando a compreensão da coisa . É que isto de querer fazer omeletes sem ovos é, comprovadamente, coisa impossível. E depois não sei o quê do aluno do século XXI… mas, nos entretantos, as escolas continuam com equipamentos já obsoletos do/no século XX.

 

O dia do perfil ou a mudança imposta aos professores

perfil-2No “Dia do Perfil”, evento algo ridículo que pretende substituir as aulas do dia pela discussão de um tema sem substância, percebe-se a vontade de, insidiosamente, tentar mobilizar os alunos contra os professores “retrógrados” e avessos à mudança.

Atrever-me-ia a dizer que talvez lhes saia o tiro pela culatra, pois os alunos que se interessam o suficiente por estas questões não se costumam contentar com as ideias simplistas e a retórica balofa com que o ME tenta formatar este tipo de discussões.

Mas prefiro fugir à agenda desinteressante do ME e colocar outras questões.

Porquê discutir uma coisa tão redonda, inóqua e sensaborona como o perfil do aluno?

Parte da resposta é evidente: porque enquanto se fala de perfis não se fala das turmas grandes, da indisciplina, da falta de apoios sociais e educativos, dos professores “congelados” e mal pagos, dos mega-agrupamentos, das más condições existentes em muitas escolas.

Também é muito bonito defender que se desenvolva o pensamento crítico nas escolas, mas a verdade é que a desconfiança dos políticos nos professores se estabelece, desde logo, porque estes ensinam os alunos a pensar pela sua cabeça mais do que aqueles desejariam.

E que dizer do discurso maniqueísta dos professores maus e dos bons? No discurso politicamente correcto dos tempos que correm, os bons professores já não são os que norteiam por princípios éticos e científicos o exercício da sua profissão, mas os que seguem acriticamente as modas educativas. Os que cumprem escrupulosamente a agenda do poder e obedecem sem questionar a todas as solicitações dos governantes de turno.

Claro que uma escola divertida, onde os alunos fazem o que querem, é bastante mais barata e inofensiva do que aquela que os confronta com exigências, regras, responsabilidades e desafios. Mas enquanto a escola assente no conhecimento estruturado exige professores motivados para ensinar e com sólida formação científica de base na sua área de especialidade, a guarda de crianças e adolescentes pode fazer-se com mão-de-obra pouco qualificada e a custos muito mais reduzidos. E a escola que nos dizem ser a do século XXI passa, em larga medida, por aqui.

A pedagogia da roda dentada

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O modelo da flexibilidade curricular não funciona.

Sempre suspeitei, mas quando vi este boneco, retirado de um documento de trabalho preparado para o Dia do Perfil, dissipei as dúvidas que ainda tinha.

Não sou engenheiro, a minha formação é em humanidades, mas basta-me olhar para o esquema para concluir que se engrenarmos as rodas daquela maneira elas nunca conseguirão rodar.

Mas admito que quem fez ou mandou fazer o boneco precise de o montar daquela forma para o perceber. Nesse caso, façam-no.

Não se fiquem apenas pela teoria e pelo mandar fazer aos outros. Apliquem a vós próprios as teorias do conhecimento em acção que ensinam a quem ainda vos quer ouvir.

Façam-no, se é a única forma de perceberem que há teorias contrafeitas que, por muito belas que pareçam, na prática nunca irão funcionar.