A cassete da flexibilidade

  1. cassete.gifOs alunos aprendem de forma diferente a um ritmo próprio;
  2. A diferenciação pedagógica contribui para gerir a diversidade e para uma Escola onde todos aprendam;
  3. A motivação, a proximidade, os afetos são preditores de aprendizagens de qualidade;
  4. Saber escutar a “voz dos alunos, dos docentes e dos não docentes” é essencial;
  5. Promover o exercício efetivo de uma cidadania ativa e inserir a mesma no ensino disciplinar;
  6. A transversalidade e de integração de saberes e de valores, não se compadece com currículos rígidos.

Chega!… Fica apenas a introdução da prosa. Mas acrescento que é difícil encontrar, num único texto, tão grande chorrilho de banalidades e lugares-comuns erguido em torno da louvor da política educativa do actual governo.

A prosa eduquesa do director do agrupamento de Colmeias chega a ser indecorosa e a despertar vergonha alheia na forma despudorada como desbobina a propaganda governamental. Sem qualquer rigor de argumentação ou análise, sem revelar um mínimo daquele espírito crítico que agora se tornou de bom tom exigir aos alunos, a defesa da flexibilidade curricular faz-se repetindo estribilhos, indo atrás das modas e dos mitos educativos do momento. Como se fossem novas as metodologias activas e outras ideias e práticas pedagógicas com mais de cem anos e que nunca estiveram ausentes das escolas portuguesas. Como se não se tivesse já tentado anteriormente, com modestos resultados, flexibilizar o currículo.

Dir-se-ia que devem estar tocados pela graça ou pela omnisciência divinas, os mentores de uma reforma educativa na qual o director Elias não encontra um erro, uma falha, um problema, uma dificuldade. Doura a pílula de uma pseudo-reforma feita em cima do joelho, sem motivação e envolvimento dos seus agentes, sem meios e condições para uma efectiva e duradoura mudança, sem uma avaliação ou um acompanhamento sérios e independentes, que não os de quem tem algo a ganhar com o êxito da experiência – os que irão enriquecer o currículo profissional ou a carreira política com o sucesso, real ou inventado, conseguido à custa do trabalho de professores e alunos.

Pensas que estás na tua barraca?

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Uma admoestação infeliz da professora à filha da colunista, que estaria mal sentada na sala de aula, serviu de pretexto à crónica no DN. A rapariga de 12 anos comentou em casa. E perguntou à mãe se achava bem que a professora fizesse uma pergunta destas.

Não, não acho. Não valorizei. Não falei com a professora. Não falei sequer com o diretor de turma. Mas não acho. E expliquei porquê à minha filha. Naquela pergunta que a professora lhe fez, e que não a afetou porque ela não vive numa barraca, está toda a injustiça social, a falta de pedagogia e a falta de empatia que tantas vezes persiste nas salas de aula portuguesas.

Na cabeça de quem fez aquela pergunta, que, calha, é professora, uma criança que vive numa barraca porta-se naturalmente mal, tem maus resultados, não tem emenda, talvez não tenha mesmo lugar ali, naquela escola, que, calha, é uma escola pública.

Até aqui, estaremos de acordo: admitindo que tudo se passou como é descrito, terá sido excessiva a linguagem da professora. Embora também se saiba como algumas turmas difíceis testam os professores até ao limite, e como por vezes é difícil corrigir atitudes e comportamentos, reagindo sempre no momento certo, no tom adequado e da forma mais eficaz, sem dizer uma só palavra ou expressão além do que é necessário ou apropriado.

Mas houve outra passagem desta crónica que também me chamou a atenção.

Uma das questões com que me debato e que me deixa os nervos em franja é porque é que a escola pública, que deveria ser o principal instrumento de justiça social e de criação de igualdade de oportunidades, continue a não conseguir, quase 45 anos depois do 25 de Abril, garantir um ensino igual para todos.

Confesso que fiquei um pouco perplexo com esta defesa do ensino igual para todos, uma ideia que defendo convictamente e que sempre associei aos ideais de liberdade, igualdade, democracia e justiça social que se impuseram no nosso país com a Revolução de Abril. É que o actual governo tem apostado exactamente no oposto: numa escola feita à medida de cada aluno, onde o ensino deve ser ministrado de forma diferenciada, tendo em conta a diversidade, não só de públicos escolares, mas de alunos dentro da sala de aula. Aquilo a que o ministro, num dos seus raros momentos de inspiração, chamou uma vez a escola-alfaiate, onde o ensino é como um fato talhado à medida de cada aluno.

Olho assim o desabafo desta mãe com algum optimismo: afinal não sou só eu, e mais uns quantos professores passadistas da velha guarda, a considerar que um ensino “igual para todos” é o melhor garante da igualdade de oportunidades. O aluno pobre tem de ser tratado com dignidade e respeito. Mas a pobreza por si só não justifica que lhe seja exigido menos do que a outro, mais afortunado economicamente. O ensino à medida de cada um acaba demasiadas vezes com o pobre “a aprender um ofício” e o rico a preparar a entrada na universidade, perpetuando a desigualdade social ao longo de sucessivas gerações.

Conselhos às futuras professoras

senhorita-rotesmeier.jpgSeñorita Rotesmeyer é como assina uma professora espanhola do ensino básico que sigo no Twitter. Um destes dias, a propósito de um diálogo com algumas caloiras dos cursos de Ciências da Educação, brindou-nos com uma sequência de tweets que traduz uma interessantíssima reflexão sobre a profissão de professor. E que não quis deixar de partilhar. A tradução e adaptação dos textos é da minha responsabilidade.

Hoje algumas alunas do 1.º ano de Ciências da Educação vieram  fazer-me umas perguntas. Entre elas: – “Qual é a melhor metodologia para a sala de aula?”

– A que funcione com o teu grupo. Não te deixes levar por modas. Experimenta daqui e dali. E o que resultar com as características e peculiaridades do teu grupo, essa será a metodologia perfeita. Se insistimos em fazer funcionar algo que não serve para o teu grupo, só porque a maioria o faz, estarás fechando portas, e a escola serve para abrir o mundo a esses meninos e meninas.

Outra: – “Pensas o mesmo sobre educação que quando começaste?”

– Não. Quando terminas o curso és idealista e tens uma visão da escola baseada nas pedagogias estudadas e no lado bonito. Quando começas a enfrentar problemas, descobres a realidade. E quão difícil é às vezes ter as ferramentas necessárias para resolver muitos aspectos que nos escapam das mãos. Queremos “salvar” cada criança de ambientes complicados, queremos ajudar em situações para as quais não estamos preparados. E é quando aceitas que não podes fazer tudo, que descobres verdadeiramente o sentido de educação.

E no final, a que eu mais gostei: – “Que tens para nos dizer a nós, que só há seis meses estudamos para ser professoras?”

– Digo-vos que acreditem em vocês próprias e no importante trabalho que irão desenvolver. Sois um elo imprescindível ao futuro da sociedade. Sois as criadoras de todas as profissões. Sois as que dão asas para voar aos vossos alunos.

– E digam o que disserem, critiquem o que criticarem, nunca esqueçam que toda a criança que passe pelas vossas mãos merece o maior respeito e carinho. Um dia, muitos anos depois, só posso desejar-vos que olhem para trás e se sintam tão orgulhosas como naquele dia em que pensaram: EU QUERO SER PROFESSORA. Que nunca se esqueçam.

Mitos educativos do século XXI

Contrariando os mitos educativos do século XXI e as formatações que andam por aí a ser impostas, à força toda, por um bando de iluminados demasiado cioso da sua verdade, recorro uma vez mais às palavras sábias e incisivas de Javier, o nosso colega espanhol que se mostra especialmente hábil a desmontar, no Twitter, a retórica dos demagogos da “nova” pedagogia. E é interessante notar a universalidade dos chavões e dos argumentos. Porque a ofensiva neoliberal e eduquesa contra os professores e a escola pública de qualidade é uma cruzada global…

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MITOS:

  • Ensina o que não sabes.
  • Menos conteúdos e mais competências.
  • PISA melhora a qualidade do ensino.

REALIDADE:

  • O docente deve dominar os conteúdos.
  • A competência não se constrói sem conteúdos.
  • O que ensinamos e o que aprendem os alunos determina a qualidade.
  • PISA empobrece-a.

Adaptado daqui.

Uma geração de niilistas?

cao-danado.jpgSentir que de nada serve tentar porque aparentemente alguns alunos não parecem munidos de valores mínimos suficiente para simplesmente saber onde começa a falta de respeito e de educação.

Observar esses mesmos alunos durante o intervalo, a serem agressivos uns com os outros (okay, energia a ser dissipada e tal), mas observar também os mesmos a insultarem-se gratuitamente uns com outros e em casos mais graves insultarem elementos de pessoal não docente sempre que podem.

Em cada oportunidade, observar os mesmos a deitarem lixo para o chão, apesar das inúmeras conversas sobre reciclagem e sobre plásticos nos oceanos. Riscarem as cadeiras e as mesas e em último caso destruir equipamento da escola de forma quase gratuita por mero capricho.

Quando apanhados com “a boca na botija” na sala por algum comportamento desviante, usam a “carta” de vitimização. “Não foi eu, exclamam” e por vezes em tom jocoso ou agressivo gritam na aula desafiando o professor.

A sensação é que estamos por um fio e que já não existem sequer parcos valores onde nos segurar e que muitos alunos não sabem lidar com a frustação independentemente de estarem na escola ou em casa. Sabem os pais que estão a criar uma geração de niilistas?

Não conheço o autor anónimo das Crónicas do Cão, mas quem descreve tão bem o (mau) ambiente de algumas salas de aula do século XXI só pode ser, naturalmente, professor.

É mesmo assim, dirão todos os professores que não têm a sorte de estar numa das poucas e afortunadas escolas onde se trabalha para tentar chegar ao topo dos rankings. Ou onde, mesmo sem essas ambições, ainda se conseguem encontrar os alunos atentos, motivados, empenhados e participativos que estimulam qualquer bom professor.

E não adianta dizer que é porque não sei quê, a tecnologia e o conhecimento na palma da mão, os nativos digitais, as mudanças de mentalidade. Na grande maioria dos casos é mesmo o não saber estar, a falta de objectivos e de valores. O niilismo, um sentimento próprio de idosos que já nada esperam da vida, parece ir-se apoderando das novas gerações…

Dizem-nos que a escola tem de mudar e isso, até certo ponto, é verdade. Mas desenganem-se os que pensam que é voltando às mesas em U ou à multiplicação trabalhos de projecto, colocando cadeiras com rodinhas, distribuindo “tabletes” ou sessões de mindfulness a toda a gente que se irão resolver os problemas de fundo de um sistema educativo em profunda crise.

Reflexões natalícias

Vector concept of investment in education

Em tempo de pausa lectiva, por uns dias afastados da azáfama do quotidiano docente, talvez sobrem alguns momentos para pensar um pouco na verdadeira missão da escola, no que deve ser o trabalho dos professores e do que esperar dos alunos que a frequentam.

Já sabemos que não é fácil, desde logo porque não pensamos todos da mesma forma – e ainda bem! – e a multiplicidade de experiências, vivências, leituras que cada um foi fazendo moldaram a sua forma de olhar a escola, os alunos e a profissão docente.

Com a ajuda de um tweet de Javier, proponho começar pelo que não queremos: por tudo aquilo em que querem transformar a escola – e que a escola não deve ser.

O conhecimento não é uma mercadoria.
O professor não é um técnico.
A aprendizagem não é um produto.
O aluno não é um consumidor.
As famílias não são clientes.
A tecnologia não é uma finalidade.
Soluções tecnocráticas não resolvem os nossos problemas.
A educação não é um negócio.

Pensamento do dia

aulaCrença da inovação educativa do século XXI: quanto mais simples, rápida, divertida e fácil for a aprendizagem, melhor.

Evidência empírica: quanto mais difícil e maior esforço exija por parte do aluno, mais duradoura e sólida será a aprendizagem.