Os limites da aprendizagem divertida

Daisy-Christodoulou.jpgMuito interessante a extensa entrevista do DN a Daisy Christodoulou, uma investigadora britânica que, baseando-se nas evidências e nos avanços científicos das últimas décadas, questiona os mitos educativos que têm dominado a pedagogia e as políticas educativas.

É difícil resumir um discurso que, mesmo ao ritmo da pergunta e resposta, nos surge como muito claro e encadeado e onde tudo o que se diz é relevante. Que desconstrói, com conhecimento sólido e lógica implacável, quase tudo o que nos vão impingindo como sendo o rumo certo, único e inevitável da Educação para o século XXI. De um conteúdo premium do DN, que alguns leitores poderão ter dificuldade em consultar, ficam alguns destaques como convite à leitura integral. Sublinhados da minha responsabilidade.

Muita investigação apoia-se na ideia de que precisamos de memória. É uma infelicidade que algumas abordagens modernas da educação esqueçam isto, porque, na base, inteligência e tecnologia estão mais ligadas do que se possa pensar. Por exemplo, estamos habituados a ouvir dizer que as crianças não precisam de saber nada hoje, porque podemos googlar, e que, porque temos tecnologia, podemos não memorizar. Mas o trabalho de Herbert Simon prova o contrário. Para ser especialista é preciso conhecer uma grande quantidade de factos e tê-los armazenados na memória. Não há atalho.

Se queremos ser bons a História temos de saber algumas datas. Se queremos ser bons em futebol, não podemos fazer apenas jogos, é preciso treinar passes. O ponto de Ericsson é que, para treinar uma grande competência, temos de a “partir” em pequenas partes e praticá-las. Portanto, no caso de uma disciplina como História, é preciso saber datas, os eventos-chave, e temos de as lembrar. Há maneiras de o tornar mais interessante. O grande desafio para os professores não é dar às crianças coisas que elas já acham divertidas, mas encontrar maneiras de tornar lúdico o que elas precisam de aprender. 

Temos de distinguir o professor que lidera a sala de aula e o que fala constantemente. Acredito que deve liderar a sala, mas também penso que é preciso envolvimento e interatividade. A melhor abordagem que encontrei é a instrução direta. Foi investigada durante décadas e frequentemente é apontada como a mais eficaz. Não obriga o professor a fazer palestras, é interativa, há um questionamento constante do professor e reação dos alunos. Admito que há um problema com o professor dar palestras o tempo todo, que é as crianças perderem o fio à meada, não perceberem o que se passa ou perceberem mal, mesmo estando com atenção. A ideia da instrução direta é que o professor interage constantemente e faz perguntas e constantemente tenta perceber se os estudantes estão a acompanhar.

O problema que tenho com alguma retórica sobre competências no século XXI é que, muitas vezes, diz para esquecermos o conhecimento, os factos, o saber. A criatividade não nasce no vazio. O que é a criatividade? Talvez o processo de encontrar novas ideias com valor. De onde vêm? […] As novidades não vêm de quem não tem conhecimento, mas de quem tem mais conhecimento do que os outros. 

Gostava mais de inglês e de História, e estudei Literatura, e gostava de Educação Física. Algumas disciplinas eram mais difíceis do que outras, tive de trabalhar bastante na Matemática, não era natural em mim. Mas hoje a base do meu trabalho é um algoritmo que permite avaliar melhor, e mais rapidamente, o trabalho escrito dos alunos. Estou mesmo contente de não ter desistido da matemática, porque quando ultrapassamos as dificuldades percebemos e apreciamos mais. Precisamos de que os alunos sejam bem-sucedidos em áreas de que não gostam. E quanto melhor nos tornamos, mais nos apaixonamos por elas.

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A motivação no ensino superior

dead-poets-society_f.jpgNo Básico e no Secundário, já conhecemos a teoria há muito tempo: despertar o interesse pelo que se pretende ensinar é o primeiro passo para garantir a eficácia do processo educativo. Só se aprende quando se quer e gosta de aprender. Pelo que motivar os alunos deve ser a prioridade para todo o bom professor. Claro que daqui a dizer-se que, se o aluno não sabe, é porque não foi devidamente motivado para aprender, vai um caminho muito curto. O corolário lógico, também o sabemos bem, é responsabilizar o professor “que não soube motivar” pelos insucessos dos alunos.

Pois bem, este discurso parece ter chegado já ao ensino superior: será que um estudante universitário, que escolheu especificamente o seu curso superior, também precisa de ser motivado da mesma forma que qualquer adolescente entediado ou rebelde a frequentar o ensino obrigatório? Terão os catedráticos de saltar para cima das mesas, ou tentar fazer o pino, para despertarem a atenção e o interesse dos seus alunos?

O físico Carlos Fiolhais analisa o problema e chega a uma conclusão diferente: contra a corrente das pedagogias dominantes, reafirma a importância de cultivar a autonomia e responsabilizar os estudantes pelas suas aprendizagens. Sem negar a importância da motivação, salienta uma evidência que demasiadas vezes se faz por esquecer: se não há aplicação, esforço e vontade de aprender da parte do aluno, não serão os malabarismos pedagógicos que irão ensinar-lhe alguma coisa.

“No ensino superior os alunos são adultos, portanto têm uma responsabilidade”, disse ao PÚBLICO o professor catedrático da Universidade de Coimbra […].

Apesar de admitir que há instrumentos que podem ser utilizados para captar a atenção, Fiolhais considera o segredo é a motivação. “Mas não é o professor que tem que motivar. Isso é um erro grande”, diz, acrescentando que essa perspectiva parte de uma “infantilização no ensino secundário” que se vai estendendo ao superior.

O problema estrutural vem de trás, refere: “Muitas vezes, a chave para entrar no superior são as explicações.” Nessa transição entre formatos de ensino, há a questão de os alunos estarem habituados ao que Fiolhais considera ser uma forma de “paternalismo”. “O saber exige esforço, a vontade e a atenção do próprio.”

Carlos Fiolhais, que já foi responsável por uma cadeira de comunicação de ciência, em que ensinava técnicas para transmitir melhor uma mensagem, admite que há falta de formação pedagógica nos docentes do ensino superior, mas entende que esse factor “não é o mais importante”. E prossegue: “Se o próprio (aluno) não se mobiliza interiormente, não há nenhum ilusionismo nem meios audiovisuais que valham.”

Se há “um conjunto de técnicas” que pode ser utilizado para passar a mensagem, essa capacidade “nunca substitui a de abarcar os assuntos. É uma ilusão que a forma pode substituir o conteúdo”, assegura o também director do Centro Ciência Viva Rómulo de Carvalho. “Tenho truques pedagógicos, tipo Clube dos Poetas Mortos, de subir para cima da mesa. Mas a minha experiência diz-me que é uma eficácia de curto prazo.”

Maus tempos para a Educação

aula-divertida.gifFlexibilidade curricular, competências transversais, direito ao sucesso, aulas divertidas: os sinais dos tempos em matéria educativa são o pretexto para uma reflexão profunda e pertinente de António Jacinto Pascoal nas páginas do Público.

Este nosso colega começa por tentar desbravar o ideário confuso da pedagogia agora dominante, tal como ela é vertida para os documentos oficiais e ministrada nas formações que, visando públicos seleccionados, andam a ser dadas pelo país fora. Basicamente, defende-se um ensino centrado na auto-aprendizagem dos alunos, no desenvolvimento de competências em detrimento da assimilação de matérias, no derrube das barreiras disciplinares, tidas como obstáculo à aprendizagem.

Omnipresente, está uma ideia que, de tantas vezes repetida, já quase todos tomam como verdadeira. Mas longe de cabalmente demonstrada. A de que o mundo muda hoje ao ritmo mais acelerado de sempre e que dentro de uma ou duas décadas tudo à nossa volta estará radicalmente diferente. No mundo da educação, isto significaria que não adianta transmitir hoje conhecimentos que amanhã estarão obsoletos, importa sobretudo desenvolver competências que capacitem os adultos de amanhã para “empregos ainda não criados, para tecnologias ainda não inventadas, para a resolução de problemas que ainda se desconhecem”. A citação é do decreto-lei 55/2018, o da reorganização curricular, e mostra como o mantra ideológico contamina até a produção legislativa, retirando o módico de rigor e sensatez que deveria presidir a qualquer intervenção no sistema educativo. Nem se percebe que a grande revolução educativa que se anuncia é, afinal de contas, aquilo que a escola nunca deixou de fazer: preparar crianças e jovens para a vida num mundo em constante mudança. Jacinto Pascoal pressente-o bem. E não poderia ser mais claro e incisivo:

O que nós conhecemos é o passado e conhecemos o presente e é nele que vivemos e é nele que devemos resolver problemas. Supor que o direito à aprendizagem e ao sucesso educativo (eis a grande obsessão) reside numa solução exclusivamente escolar é um erro fatal e uma forma subtil de descarregar o ónus no sistema de ensino em geral e nos professores em particular. Enquanto os problemas da pobreza, dos salários baixos, das condições socioeconómicas, da habitação e da estabilidade profissional não forem resolvidos, não haverá direito efectivo à aprendizagem nem sucesso (essa faca de dois gumes) educativo. É que, diga-se o que se disser, os alunos não partem de condições sociais igualitárias nem de circunstâncias globalmente justas para poderem emergir em igualdade de oportunidades. Não admira o fracasso (para não usar o termo insucesso) que muitos experimentam. Haverá sempre expedientes a salvaguardar as elites, quanto mais não seja pelo poder financeiro.

Se há coisa que caracteriza bem os projectos políticos de centro-esquerda que subsistem em pleno século XXI, ela é precisamente a capitulação perante o neoliberalismo dominante. Os poucos governos socialistas e sociais-democratas que ainda subsistem desistiram dos programas de reforma económica e social que poderiam combater eficazmente a discriminação e a pobreza, redistribuir a riqueza e aumentar a igualdade de oportunidades e a justiça social. Como têm medo de se meter com banqueiros, empresários, tecnocratas e gestores da nova ordem internacional, metem-se com os professores. E exigem-lhes que resolvam, na escola, os problemas de uma sociedade doente. Uma utopia, a rimar com outras: no novo programa educativo não falta sequer a busca do Homem Novo, esse mito da velha Esquerda recriado, para a educação portuguesa no século XXI, no delírio colectivo a que chamaram Perfil dos Alunos

Novas pedagogias – As inteligências múltiplas

inteligencias.jpgA teoria das inteligências múltiplas foi formulada pela primeira vez em 1983 pelo psicólogo Howard Gardner. Trata-se de uma hipótese que defende a existência de vários tipos de inteligência. Surgiu como uma tentativa de compreender o funcionamento da inteligência humana, não como uma corrente pedagógica. Mas a dificuldade em a comprovar experimentalmente faz com esteja ainda longe de ser consensualmente aceite entre a comunidade científica.

A aplicação desta teoria às salas de aula sugere a adopção de pedagogias diferenciadas e construtivistas, mais centradas no aluno e nas suas múltiplas capacidades ou “inteligências” e menos no ensino directivo do professor e dos manuais escolares. Tem sido avaliada de forma reiterada e, pelo menos ao nível dos resultados académicos, ainda não foi demonstrado que esta abordagem melhore a aprendizagem dos alunos”. A investigadora Marta Ferrero considera que não passa de uma moda, com todas as desvantagens que têm as modas educativas: “Está-se a investir tempo a adaptar programas e dinheiro a formar professores que deixam de ser empregues noutras metodologias que se sabe serem eficazes“.

Estamos, afinal de contas, a falar dos chamados neuromitos  educativos, construídos a partir da investigação no âmbito da Psicologia, da Psiquiatria e da Neurologia. Com base em leituras superficiais e tantas vezes mal compreendidas destes trabalhos, elaboram-se teorias e metodologias educativas que, por muito sedutoras que possam parecer, carecem do ingrediente básico que transmite credibilidade a todo o conhecimento científico: a sua validade não é sustentada por provas claras e inequívocas.

Adaptado daqui.

Novas pedagogias – O trabalho de projecto

trab-projecto.jpgA aprendizagem por projectos pretende substituir o sistema formal de ensino, centrado na explicação do professor, no uso sistemático do manual e na avaliação formal através de testes, por uma aprendizagem baseada na resolução de problemas. Será que resulta?

Este método surgiu nos Estados Unidos, nos cursos universitários de Medicina, estendendo-se progressivamente ao ensino secundário e ao básico. A investigadora Marta Ferrero reconhece que o sistema funciona e tem dado bons resultados com estudantes mais avançados, que já têm algum conhecimento da matéria, mas não é recomendado quando se trata de ensinar conhecimentos básicos nem para alunos com dificuldades.

Entre nós, o trabalho de projecto tem sido apontado como uma metodologia de eleição pelos apóstolos do novo projecto de flexibilidade curricular, por ser alegadamente capaz de melhorar as aprendizagens de alunos desmotivados pelas pedagogias tradicionais. Ora  a investigação parece apontar no sentido oposto: são precisamente os alunos com maiores dificuldades os que mais facilmente ficarão “perdidos” perante as abordagens holísticas e problematizadoras que lhes são propostas, mas para as quais não reúnem os pré-requisitos necessários a uma aprendizagem bem sucedida.

Voltando à investigadora citada, ela sublinha que “o problema é que há métodos que servem para umas idades ou aprendizagens e não para outros. Escolhe-se uma metodologia, esquecem-se ou não se ensinam essas diferentes matizes e, de repente, generaliza-se um sistema a todos os alunos e níveis de ensino”. Obviamente, é perigoso: em pedagogia, nem tudo funciona em qualquer circunstância.

Adaptado daqui.

Teóricos…

perito-ed.JPGQuando a ideia é aprender alguma coisa com eles, eis o método mais eficaz para avaliar o que cientistas da educação, pedagogos  e especialistas em desenvolvimento do currículo, inovação educativa, flexibilidade curricular, educação do século XXI terão para nos ensinar. Basta perguntar-lhes se dão mesmo aulas nalguma escola básica ou secundária.

Se a resposta for sim: óptimo, por favor compartilhe a sua experiência.

Se a resposta for não: obrigado, volte quando já o tiver feito.

Adaptado daqui.

Novas pedagogias – O método global

abc.pngNos últimos anos tem-se criticado muito o ensino tradicional e a escola dita do século XIX, procurando abrir espaço para a adopção de “novas pedagogias” – a maior parte delas não tão novas assim – que supostamente permitiriam uma aprendizagem mais activa, dinâmica e significativa por parte dos alunos.

Mas será que as teorias pedagógicas que nos apresentam como inovadoras realmente funcionam? Demonstraram já a sua eficácia, na prática, em relação às metodologias tradicionais?

Um interessante trabalho publicado num site espanhol de divulgação científica vem justamente tentar esclarecer, baseando-se em evidências, esta problemática: quais as pedagogias que provaram que funcionam?

Dentro de uma temática que revisitaremos, vejamos por agora o que sucede com o método global para aprender a ler.

Com este método, em vez de se ensinar as letras e a sua correspondência com sons, parte-se de textos e palavras que se apresentam ao aluno partindo do princípio de que ele aprenderá por si mesmo o alfabeto. Os defensores do método global dizem que a aprendizagem se faz de uma forma mais natural e interessante para o aluno. Mas, nos casos em que corre mal, pode atrasar a aprendizagem da leitura.

O que a investigação demonstrou é que o método mais eficaz para ensinar a ler todas as crianças – incluindo os que são capazes de aprender sozinhos e por isso qualquer método lhes serve – é o alfabético. Quando se aplica o método global muitas aprendem a ler igualmente bem, mas uma parte não. Estas podem chegar ao 3º e 4º anos de escolaridade e continuam sem descodificar bem e não conseguem compreender o que lêem. Isto vai-se reflectir nas restantes aprendizagens e “arrastar-se ao longo de toda a escolaridade, com consequências catastróficas”.

Adaptado daqui.