Com aulas todos aprendem

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Aulas? Aulas no século XXI são um escândalo! Em aulas ninguém aprende!

Há quem defenda que nestes momentos de União Nacional devemos juntar esforços em torno do que é fundamental, evitando discussões e derivas pelo acessório. Como seria o caso deste regresso, eventualmente inoportuno, às palavras provocatórias de José Pacheco, proferidas há quatro anos atrás.

Discordo. Parece-me que são precisamente estes momentos de crise e emergência social que nos ajudam a perceber o que é realmente importante nas nossas vidas e o que efectivamente resulta no funcionamento das nossas organizações sociais, escola incluída.

Por exemplo, é fácil perceber agora que seria mais fácil e produtiva a integração das aulas televisivas nos projectos de educação a distância se não se tivesse andado a torpedear o currículo nacional com projectos locais de flexibilidade curricular, cujo interesse e real utilidade continuam por demonstrar.

E também não é difícil constatar que o fecho das escolas e o fim das aulas, com o confinamento das crianças e jovens ao seu meio de pertença, não está a resultar numa explosão de conhecimentos, descobertas e criatividade. Que seria algo a esperar do fim das aulas. Afinal, se com elas ninguém aprende, de há um mês a esta parte deveríamos ter começado todos, libertados que fomos das aulas opressivas, a aprender a sério.

Pelo contrário, a cada dia que passa vai-se tornando mais evidente a importância da presença física do professor junto dos alunos. E se tornam claras as limitações da auto-aprendizagem e das pedagogias construtivistas, quando não solidamente ancoradas em projectos pedagógicos que intensifiquem a presença efectiva dos professores, que se torna ainda mais determinante do que nas pedagogias tradicionais.

Os professores que por estes dias se vêm tornando involuntárias estrelas da TV deixam à vista de todos como uma boa explicação da matéria ou uma sistematização de conhecimentos sobre determinado tema são frequentemente, senão a maioria das vezes, a forma mais rápida e eficaz de aprender. Algo que até os admiradores do mentor da Escola da Ponte intuem, cada vez que se reúnem para assistir às palestras do seu mestre, em vez de lhe irem estudar a bibliografia – algo que leva mais tempo e dá mais trabalho.

Agora que alguém arranje maneira de explicar isto a mestre Pacheco, de forma a que ele perceba.

Inovação pedagógica ou dinheiro fresco?

Apesar de partilhado no maior grupo de professores no Facebook, o comentário de Paulo Serra merece ser lido e discutido também fora daquela rede social.

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A verdade é que são tudo menos originais as propostas flexibilizadoras do currículo, a valorização dos reais ou imaginários “saberes do aluno”, a pedagogia construtivista, o trabalho de projecto, as abordagens inter e transdisciplinares da aprendizagem. Estão na génese e nos fundamentos de correntes pedagógicas que entre nós tiveram e têm expressão, por exemplo, no Movimento da Escola Moderna ou no conhecido projecto da Escola da Ponte. No final dos anos 90, um outro governo socialista tentou generalizar estas ideias com mais uma reforma educativa, na qual pontificavam a então chamada gestão flexível do currículo, a área de projecto, as aulas de 90 minutos. Tudo insuflado por uma retórica tão pedante e palavrosa como oca e vazia de substância: o eduquês.

Hoje, tudo isto está em plena recuperação. Tenta-se reciclar, com o recurso às novas tecnologias, teorias educativas datadas e que, quando generalizadas, pouco ou nada fizeram pela melhoria concreta das aprendizagens escolares e, por essa razão, foram progressivamente abandonadas. Exploram-se, em centenas de acções de forma(ta)ção pelo país fora, as potencialidades dos dispositivos electrónicos e do trabalho em rede para recriar a “aprendizagem activa” que antes se promovia a consultar bibliotecas, a organizar debates ou a elaborar cartazes. Uma ideia que faria sentido, se houvesse um investimento efectivo em tecnologias educativas. No entanto, a única coisa que vemos é a instalação de umas quantas salas de aula ditas do futuro em escolas seleccionadas, servindo esporadicamente um número residual de alunos. Enquanto nas salas “normais” os equipamentos ainda funcionais se vão degradando irremediavelmente.

Assim sendo, a que se reduz toda a inovação educativa, nos tempos da flexibilidade e da inclusão? Basicamente, àquilo que Paulo Serra denuncia: há dinheiro europeu para formação, e é isso que se vai fazendo. Multiplicam-se as acções onde se anuncia a boa nova educativa que os professores vão ouvindo e reproduzindo, nem sempre com muita convicção. Mas não se criam as condições necessárias para a mudança. A sensação que fica é que predomina o show-off: todos querem ficar bem na fotografia mas, em última análise, tudo isto durará apenas enquanto houver dinheiro fresco para gastar…

Pausas durante as aulas

preguicoso.png“Pequenas pausas nas aulas” é uma das oito recomendações dos “prós”, nome atribuído aos alunos que aqui são considerados os grandes especialistas em educação, por serem quem diariamente está nas escolas e para quem é desenhado o ensino.

Os alunos lembram que a duração das aulas – por vezes superior a uma hora – torna impossível manter a concentração e acreditam que fazer uma pausa em algumas disciplinas poderia ser benéfico para a aprendizagem, mas também para melhorar a relação com os professores.

“Na altura de voltar à matéria, estamos mais capazes de estar atentos e vamos aproveitar melhor o que ouvimos. Ganhamos mais motivação nas aulas em que nos divertimos com o professor”, defendem.

Para os “prós” é também importante que os professores e restantes funcionários se preocupem com eles e tenham disponibilidade para os ouvir e conversar.

Os alunos acreditam que seria benéfico criar uma relação de amizade e cumplicidade que permitisse falar de outros assuntos além das matérias que estão nos manuais: “Gostamos que nos façam perguntas. É bom sentir que o professor se importa com a nossa opinião sobre o mundo e com a nossa vida”.

Nos tempos que correm, aulas longas e essencialmente expositivas serão muito mais a excepção do que a regra nas escolas portuguesas. Sobretudo quando falamos em aulas de 90 minutos, criação de um anterior governo socialista que, por razões diversas, tem resistido a sucessivas reformas e contra-reformas educativas. Então porquê esta insistência, patrocinada pelo SE João Costa, na necessidade das “pausas” e nos professores que “conversam”, “brincam” e “ouvem” os alunos?

Talvez fosse bom começar por reconhecer que haverá sempre uma minoria de alunos que acharão “secante” tudo o que se faça numa aula. Assumir que todos os jovens são igualmente dotados para os estudos e que todos terão de andar na escola, com aproveitamento, até aos 18 anos, é um desafio difícil e que, em certos casos, choca com a realidade, a mentalidade e as vivências de quem demonstra ter, desde muito cedo, “interesses divergentes dos escolares”. Estes, claro, acharão bem todas as pausas que se façam e, certamente, teriam uma sugestão ainda melhor: trocar o tempo de aulas pelos intervalos lectivos!

A maioria dos alunos, contudo, reconhece o interesse e a utilidade da maioria das aulas e das disciplinas. O que os leva a pedir aulas com mais pausas, períodos de concentração mais curtos e outro tipo de abordagens da parte dos professores?

A resposta vai, a meu ver, em contracorrente com muito do que se diz sobre a “educação do século XXI”, os “nativos digitais” e o “conhecimento na palma da mão”. Em boa verdade, o que estes jovens parecem estar a pedir não é net mais rápida nem aprendizagens automáticas com conteúdos debitados directamente do youtube. O que eles querem são professores com tempo para os ouvir, que falem com eles de assuntos que lhes interessam, que lhes dêem a atenção, a cumplicidade e o afecto que nem sempre a escola – e muitas vezes nem a própria família – lhes conseguem dar.

O que o repto destes jovens nos recorda é que a relação pedagógica não se confunde com as que estabelecemos através da internet e das redes sociais. E que, ao contrário do que por vezes querem que acreditemos, há no relacionamento interpessoal uma dimensão social e psicológica que nenhuma interacção mecânica ou cibernética poderá substituir.

Nesta perspectiva, mais facilmente os robôs e os supercomputadores substituirão no futuro o trabalho de um médico do que, por exemplo, o do enfermeiro. E nunca tomarão o lugar dos professores que não se limitam a debitar matéria…

Como melhorar a escola?

ilidia-cabral.jpgNo início de mais um ano escolar, e num tempo de almejada renovação da educação em Portugal, importa refletir sobre os desafios que se colocam às escolas. Entre muitos passíveis de serem enunciados, destaco sete, que sucintamente explicito:

1. Num sistema tendencialmente cego, é imperativo atender à singularidade, diversidade e heterogeneidade dos alunos.

2. Isto implica elevar a eficácia do diagnóstico pessoal de cada aluno, equacionar formas mais flexíveis e eficazes de os agrupar, de lhes alocar docentes, de gerir os tempos e os espaços escolares para, assim, podermos também recorrer a estratégias de ensino e de avaliação que não deixem ninguém para trás;

3. Romper com as rotinas paralisantes. Há uma imagem de escola e de professor na qual fomos sendo socializados e que tem vindo a contribuir para a cristalização das práticas escolares…

Foi neste ponto que me comecei a distrair da leitura, saturado como ando de textos recheados de frases feitas e lugares-comuns do pedagogês. É comovente o discurso em torno da escola para todos, mas a funcionar à medida de cada um, da inovação e da criatividade sempre a jorrarem por todos os lados, do pensamento estratégico, do questionar constante, da avaliação sistemática e permanente. De uma educação sempre a evoluir e a crescer, rumo ao nirvana educativo.

A questão de fundo é sempre a mesma: tudo isto, sendo em teoria muito bonito, é incomparavelmente mais fácil de dizer do que de fazer. Pois se assim não fosse, Ilídia Cabral e todos os teóricos que prescrevem estas coisas estariam nas escolas a pô-las em prática. Não a perorar, do alto das suas cátedras e dos seus centros de investigação, sobre o que os professores que trabalham nas escolas deveriam fazer.

Ainda assim há, nestas reflexões, quase sempre algo que se aproveita. Quando já estava prestes a abandonar a leitura, retive-me no último ponto. Guardado para o fim mas, como reconhece a autora, o mais importante de todos:

8. E, por fim, mas talvez o mais importante dos desafios, será o de assumir uma profissionalidade docente consciente, que liberte os professores de uma ordem vassálica e lhes permita ser autores e criadores de oportunidades de aprendizagem mais bem-sucedidas para todos. Isto significa, entre outras coisas, assumir a liberdade de criação e de libertação de uma ordem centralista que, sob a capa da autonomia e flexibilidade, coarta as possibilidades de desenvolvimento.

Em boa verdade, não há escola de qualidade sem valorização dos professores e confiança no seu trabalho. Ao contrário do que crêem os que querem derrubar as paredes das salas de aula para instrumentalizar os professores ao serviço da ditadura dos projectos, a verdadeira autonomia constrói-se na sala de aula, a partir da relação pedagógica que cada professor estabelece com os seus alunos.

E alguém disse o contrário?

costa-couvaneiro.PNGHá uma disputa antiga na educação, em que uns defendem os conhecimentos, e outros, as competências. Este livro mostra que a dicotomia não faz sentido. São ambos indispensáveis e indissociáveis na formação dos alunos. É necessário que tenham conhecimentos para serem competentes e que desenvolvam competências para aprofundarem conhecimentos.

Quando o PS se encontra no poder, há pelo menos duas estratégias de combate político, na Educação, a que já nos habituámos.

Uma é denegrir o trabalho que se faz nas escolas e desmoralizar os professores e outros profissionais da Educação, de forma a gerar, na opinião pública e entre os próprios agentes educativos, a necessidade de mudança, abrindo espaço para as reformas que se pretende introduzir.

A outra é, perante as inevitáveis críticas a políticas pensadas em cima do joelho ou gizadas em obediência a interesses que não são os dos alunos nem do país, atribuir aos críticos afirmações que nunca foram feitas.

Claro que desvalorizar e caricaturar o adversário, distorcendo as suas ideias para se tornarem mais fáceis de rebater não eleva de forma alguma o debate público. Infelizmente, tornou-se o modus operandi habitual do grupo neo-eduquês que gravita em torno de João Costa.

Neste caso, inventaram uma absurda “disputa antiga” entre duas dimensões complementares do saber que nenhuma teoria pedagógica séria coloca em oposição. É evidente, e há muito sabido, que o fim da educação é tanto a aquisição de conhecimentos como o desenvolvimento de competências. Uma não existe sem a outra, e a única coisa que se critica aos apóstolos da flexibilidade é terem, no afã de mostrar serviço e apresentar resultados, alimentado a ilusão de que é possível alterar a ordem lógica e natural das coisas: que se podem queimar etapas e desenvolver competências sem ter adquirido primeiro os indispensáveis conhecimentos de base.

Contudo, à “tese” dos dois compinchas da flexibilidade curricular falta sustentação científica: nem perderam tempo a fundamentar, com referências bibliográficas, as “verdades evidentes em si mesmas” de que se fazem arautos. Certamente que o público-alvo de convertidos não será exigente nesta matéria. O intuito destes livrecos de final de mandato, sabemos bem, é político, não académico.

Em contrapartida, procuraram nomes de peso para caucionarem a sua obra. Destaquem-se dois nomes, para memória futura:

  • o prefaciador António Sampaio da Nóvoa, ex-candidato presidencial e reputado historiador da Educação, cuja colagem ao actual situacionismo educativo é evidente;
  • o apresentador Laborinho Lúcio, um jurista da área do PSD “humanista” e das políticas sociais e um “construtor de pontes” na área do centrão.

E, claro, nestas alturas há também, seja por ingenuidade, convicção ou interesse, muitos professores a dar os parabéns. E a comprar os livrecos. Pois o sucesso das políticas e a carreira dos políticos também se fazem de muitas transigências, colaboracionismos e encobrimentos.

Qual é a melhor ferramenta?

cx-ferramentas.jpgOs nossos colegas espanhóis continuam imparáveis, no Twitter, a desmontar falsos mitos educativos. Com a clarividência que quase sempre tem faltado aos lusos e conceituados cientistas da educação

Perguntar qual é o melhor método de ensino ou aprendizagem é como perguntar qual é a melhor ferramenta da caixa de ferramentas.

Em pedagogia, a receita universal não existe. Como nota Héctor Ruiz Martin, nenhum método consegue ser eficaz para todos os alunos, em todos os contextos e em todas as situações de aprendizagem.

Da mesma forma que o técnico escolhe, na caixa de ferramentas, a mais adequada ao trabalho que pretende realizar, também o professor, o único e verdadeiro especialista em Educação, deve seleccionar o método de ensino mais eficaz em cada circunstância, tendo em conta as características do grupo de alunos e os conteúdos que pretende desenvolver.

Por outro lado, seja ela mecânica ou educativa, não basta escolher a ferramenta apropriada. É preciso usá-la adequadamente. Assim como existem formas correctas e incorrectas de fazer uso de um martelo, um serrote ou uma chave de parafusos, também em pedagogia não basta invocar os pedagogos ou as correntes pedagógicas em voga para garantir que estamos a fazer um excelente trabalho.

Quer isto dizer que não basta seleccionar o melhor método pedagógico: o importante, na prática, são os detalhes da sua aplicação. E aqui o colega que venho a citar dá-nos uma pista importante: qualquer método será bom, à partida, se cumprir com os requisitos básicos relacionados com aquilo que é, verdadeiramente, aprender.

Ou seja, se a aprendizagem implica procurar significado naquilo que se aprende, então um bom método pedagógico é todo aquele que coloca os alunos a pensar no que estão a aprender.

Nalguma coisa teria de concordar…

…com o professor José Pacheco.cinco.gif

Não consigo estar de acordo com o fundamentalismo de muitas das suas ideias pedagógicas, nem me convenço que o experimentalismo permanente seja a forma de melhor garantir o direito universal à educação.

Contudo, se lamento que o guru da Escola da Ponte tenha precisado de 50 anos para chegar a esta brilhante conclusão, não posso deixar de saudar a capacidade de admitir que mudou de ideias – só os burros não o fazem, acrescentou – e de reconhecer como andou enganado – e a enganar-nos – este tempo todo.

José Pacheco já seguiu para outra, já rejeita que o centro seja o aluno, diz antes que centro é a relação entre professor e estudante, aquilo a que chama paradigma da comunicação.

De facto, nem ensino magistral, centrado no professor, nem ensino centrado no aluno, presumindo que este tem capacidade para aprender sozinho e definir por si só o que lhe interessa aprender. Fundamental é a relação pedagógica que se estabelece entre alunos e professores. É através dela que, de variadas formas, se podem desenvolver os métodos e processos mais adequados e eficazes de ensinar e aprender.

E claro que, quanto melhores forem os meios e condições proporcionados, melhores poderão ser tanto o trabalho dos professores como as aprendizagens dos alunos. Pela minha parte, dispenso os novos paradigmas do professor Pacheco. Bastar-me-iam escolas com os recursos materiais e humanos necessários e, em vez da ditadura dos projectos, uma efectiva autonomia pedagógica nas salas de aula e uma renovada confiança no trabalho dos professores.