Leituras: Escola audaciosa, ou divertida?…

aula

Eu gostaria de uma escola que tivesse a audácia, que corresse o risco de assumir a sua especificidade, de jogar a cartada de sua especificidade. Uma das causas do mal-estar actual parece-me ser que a escola quer comer de todos os pratos: ensinar o sistemático, mas também deleitar-se com o disperso, com o acaso dos encontros; recorrer ao obrigatório, mas tentando dissimulá-lo sob a aparência de livre escolha. Em particular a escola, frequentemente ciosa dos sucessos em actividades de animação, decanta-se em fórmulas mais suaves, mais agradáveis – mas vê-se obrigada a constatar que elas são inadequadas para ensinar álgebra ou para chegar até Mozart.

Direi até que não me parece um elogio à escola que os alunos cheguem a confundir a aula com o recreio, o jogo com o trabalho, que eles queiram prolongar a aula como um recreio, retornar à escola como a uma actividade de lazer – pois é realmente à escola que eles retornam? Temo que nessa altura a escola tenha abandonado o seu próprio papel – embora reconheça que em certos momentos, para certos alunos, pode ser indicado introduzir elementos de brincadeira, momentos de distracção, com a condição de que não se esqueça que estes são estimulantes intermédios, destinados a ser temporários.

Georges Snyders, A Alegria na Escola (1986).

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Aprender a aprender, ou aprender a sério?…

cirurgiao.jpgSe algum dos defensores da aprendizagem pela descoberta tivesse de ser operado, que cirurgião quereria?

Um que abrisse o corpo do doente e fosse experimentando e descobrindo à custa dos desgraçados que lhe caíssem nas mãos?

Ou aquele que estudou toda a teoria necessária, que ouviu as lições dos mestres, que assistiu ao trabalho de colegas mais experientes e praticou sob a sua supervisão antes de começar, ele próprio, a operar?

E aceitaria que um ortopedista o operasse aos olhos, ou um clínico geral ao coração?

Se quando é do nosso interesse reconhecemos a importância do conhecimento científico estruturado, da aprendizagem formal, da avaliação rigorosa e da especialização, porque é que para os outros defendemos que qualquer coisa serve, desde que não haja “chumbos” e todos pareçam felizes?

Aprender a aprender ou aprender coisa nenhuma?

nunocrato[1]Embora não concorde com tudo o que diz e discorde de quase tudo o que fez enquanto ministro da Educação, respeito em Nuno Crato o intelectual com um pensamento próprio, estruturado e nalguns pontos polémico sobre Educação. Já escrevia e debatia sobre temas educativos muito antes de ser ministro, e deixando de o ser, continua a fazê-lo. O que é de registar e saudar.

E – um ponto a seu favor – não tem medo da polémica nem dos consensos politicamente correctos. António Guterres, na cerimónia recente de atribuição do doutoramento honoris causa pela Universidade de Lisboa, enfatizou a importância de um ensino menos formal e da aprendizagem ao longo da vida, valorizando o “aprender a aprender” em detrimento dos conhecimentos que se aprendem nas escolas e nas universidades e que rapidamente se mostram inúteis e ultrapassados. Crato, obviamente, discorda. E pergunta:

Gostaria algum de nós de ser tratado por um médico que, na universidade, tivesse aprendido Literatura Germânica, não tivesse prestado grande atenção à Anatomia nem à Histologia, mas que tivesse sido fantástico a “aprender a aprender”? Gostaria algum de nós de andar num avião mantido por uma equipa de mecânicos que, na sua escola de formação técnica, tivessem estudado Anatomia Patológica, nada sobre motores nem sobre aeronáutica, mas que fossem extraordinários a “aprender a aprender”?

Em boa verdade, o conhecimento conta. E dou razão a Nuno Crato: embora o discurso de Guterres tenha sido de circunstância, redondo e generalista, como aliás é seu timbre, não me parece que tenha sido feliz na formulação que encontrou. Antes de “aprender a aprender” é preciso primeiro aprender alguma coisa que sirva de base a essa “permanente procura do conhecimento” em tempos invocada por outro ilustre autodidacta, Miguel Relvas de seu nome. O raciocínio lógico e abstracto, o pensamento crítico e criativo e outras “capacidades” e “competências” hoje em dia muito gabadas não se desenvolvem a partir do nada: são precisos conhecimentos de base, vocabulário e outras ferramentas cognitivas para as conseguir utilizar e desenvolver.

Quanto à obsolescência do conhecimento escolar: ela ocorre mais facilmente com as aprendizagens “flexíveis” que agora se pretende estimular do que com o conhecimento disciplinar sólido e estruturado do ensino tradicional. Nuno Crato dá o exemplo feliz das coisas que se aprendiam quando se começou a dizer, dos computadores, que seriam o futuro: quem conhece hoje os comandos do MS-DOS, as teclas de atalho do WordPerfect ou a programação BASIC, tudo coisas que faziam furor no final dos anos 80?…

Em contrapartida, dominar uma língua estrangeira ou ter boas bases de Matemática, conhecer e compreender o essencial da História e da Geografia de Portugal, entender no fundamental a teoria da evolução de Darwin ou a relatividade de Einstein, não são conhecimentos inúteis nem ficarão certamente ultrapassados nas próximas décadas. São conteúdos sólidos e concretos que não só enriquecem os jovens que os têm como lhes permitem, esses sim, partir para novas aprendizagens.

Não é a pedagogia. É a economia, estúpido!

javier.jpgO que limita a capacidade de aprendizagem de muitas crianças e dificulta a tarefa do docente não é a nossa falta de motivação ou o desconhecimento de alguns métodos de ensino, mas sim a desigualdade e a pobreza. E esta reforma não resolve o problema, mas desmantelará a educação pública.

O tweet foi escrito por um professor espanhol e refere-se à realidade educativa de Espanha.

Javier não estaria a pensar nas flexibilidades curriculares e noutras reformas educativas à portuguesa.

Mas ajuda-nos a perceber o quanto é fácil acusar os professores em vez de questionar a voragem do capitalismo neoliberal.

E mostra-nos que a agenda da OCDE e das multinacionais com interesses económicos na educação não conhece fronteiras…

O mito das aulas expositivas

professora-alunosO Alexandre Henriques expôs impecavelmente o essencial que deve ser dito a respeito da crítica, que nos últimos tempos tem sido recorrente, às “aulas expositivas” dos professores portugueses. E que eu, com falta de tempo e de inspiração, só posso subscrever e, claro, recomendar que seja lido integralmente.

Primeiro, qualquer conteúdo prático precisa de uma introdução teórica, mesmo que ao de leve, é a mesma coisa que eu colocar os meus alunos a jogar Andebol e não lhes explicar as principais regras.

Segundo, os professores e as escolas estão claramente sensibilizados para a falta de motivação dos alunos e fazem de tudo, acreditem que é mesmo de tudo, para evitar que a aula seja uma seca.

Terceiro, uma aula expositiva não tem de ser obrigatoriamente má, um professor com uma boa capacidade retórica é capaz de cativar a plateia apenas e só com o seu discurso. Há aulas que podem ser práticas e que podem ser bem piores que uma aula expositiva.

Quarto, nem tanto ao mar, nem tanto à terra, os professores, ou pelo menos a maioria deles, tem a capacidade de se adaptar às suas turmas, não são tábuas de ferro, inflexíveis, ajustam-se, adaptam-se, até por uma questão de “sobrevivência”. Quantas vezes a estratégia utilizada para a aula das 8h30, é esquecida para a aula das 10h30. Quem anda no terreno sabe o que tem de fazer e o que precisa de fazer, não somos uma cambada de acéfalos.

Quinto, esta ideia que os alunos têm de ser constantemente motivados também não é bem assim… Os meninos e meninas, os pais e as mães, também têm de fazer o seu papel e criar condições para a assimilação de conteúdos. A geração mais preguiçosa de sempre, a geração com tudo à sua disposição, também tem de fazer pela vida e ir para a aula sem ficar a pensar nos chats digitais e afins. A escola é uma seca, sim, principalmente se a postura for que tudo o que implica esforço é para abolir.

É inteiramente verdade que o aluno que não consegue ouvir com atenção o professor durante mais do que 30 segundos seguidos também se desconcentra facilmente em qualquer outro tipo de actividade. Que os que menos gostam de prestar atenção ao professor ainda se mostram menos tolerantes se tiverem de ouvir os colegas que participam na aula.

De resto, concordo inteiramente que as metodologias pedagógicas e as didácticas devem evoluir, que não há receitas eternas e universais e que o acto de ensinar e aprender é uma constante procura e descoberta daquilo que funciona melhor com cada grupo de alunos, professor e matéria a leccionar.

Agora, para que mudem as formas de trabalhar nas escolas, é preciso que existam condições para que a mudança seja possível. Fundamentalmente, tempo e recursos materiais e organizacionais, que são coisas que continuam a escassear.

Os professores continuam assoberbados de trabalho burocrático. A maioria tem demasiadas turmas, níveis e tempos lectivos semanais. Não há créditos horários que possibilitem o trabalho em equipa, seja para reunir com os colegas, seja para estarem juntos com os alunos, a não ser alongando ainda mais o horário laboral dos docentes.

E quanto a recursos físicos e equipamentos, basta lembrar a falta de condições mínimas de espaço, funcionalidade e conforto que ainda afecta muitas escolas, ou que o único investimento significativo em novas tecnologias nas escolas foi feito há dez anos.

As aulas puramente expositivas estão longe de ser a metodologia dominante nas escolas portuguesas, embora – o que não é a mesma coisa! – a figura do professor continue a ser central no processo de aprendizagem. Algo que não é necessariamente mau, tudo dependendo da forma como se envolvem os alunos nas actividades da aula. A verdade é não nos temos saído mal: nas duas últimas décadas o ensino português melhorou consistentemente os seus resultados nas avaliações internacionais, e parte desse esforço deveu-se ao profissionalismo dos professores, ao seu sentido crítico e à sua capacidade de resistência a orientações absurdas e irrealistas da tutela.

Irão continuar a resistir a ideias reformistas ainda longe de demonstrar valimento, que se quer implantar de forma precária e improvisada, sem qualquer noção clara do que realmente se pretende conseguir. Fá-lo-ão com a clara convicção de que a escola fácil e divertida com que irresponsavelmente se tenta aliciar os alunos e as famílias levará à massificação da superficialidade, da ignorância e da preguiça.

Ora os professores preocupam-se com os seus alunos mais do que qualquer político de turno ou qualquer cientista da educação em comissão de serviço no ME. E sabem bem que, quando a coisa der para o torto, quem promoveu o disparate sacudirá a água do capote e culpará uma vez mais, e como sempre, os professores.

A Pedagogia no século XXI

fernando-trijullo.jpgOs pedagogos no nosso país habitam, fundamentalmente, a universidade e hoje esta é, mais do que nunca, uma torre de marfim, concentrada em obter um grande impacto das suas publicações em revistas especializadas para poder assim melhorar sua posição nos rankings e conseguir projectos de pesquisa com bons financiamentos. A consequência directa é que muitos pedagogos vivem hoje afastados das escolas e de outras experiências educativas. Disto ressente-se não só o seu conhecimento, determinado em grande parte pela publicabilidade em certas revistas, mas também a sua influência real na escola, onde são vistos como estranhos que às vezes chegam carregados de questionários, mas raramente trazem soluções ou, pelo menos, possibilidades.

O texto é de Fernando Trujillo, um professor espanhol da Universidade de Granada, mas este desfasamento entre a pedagogia dos académicos e aquela que os professores do básico e secundário aplicam diariamente com os seus alunos é algo que também se constata entre nós.

Contudo, esta pedagogia que se teoriza para os papers e as conferências universitárias e que ignora, quando não hostiliza, os saberes, a experiência e as dificuldades dos professores no terreno, não é boa para ninguém. E abre espaço, no sector da educação, para a influência dos interesses económicos e para a afirmação de novos mitos educativos ligados à informática, às neurociências e a uma amálgama de novas modas educativas associadas ao que se vai chamando Educação do século XXI.

Perante isto, Trujillo defende a importância da Pedagogia e de explica porque não podemos prescindir dela: em tempos de mercadores, necessitamos de pedagogos.

A Educação não pode esquecer os contributos da Pedagogia. Por um lado, a sua abordagem histórica e, por outro lado, o seu posicionamento crítico são absolutamente necessários para não perder o Norte da Educação em tempos de neoliberalismo. A Educação é um direito de todos, mas para fazer valer este princípio necessitamos de conhecimento para resolver a grande questão deste início do século XXI: há uma clara tentativa de usar a Educação para manter e reforçar a desigualdade no mundo, e a marginalização da Pedagogia e dos pedagogos, incluindo o seu próprio isolamento e estigmatização, fazem parte desse intento desequilibrador.