Teóricos…

perito-ed.JPGQuando a ideia é aprender alguma coisa com eles, eis o método mais eficaz para avaliar o que cientistas da educação, pedagogos  e especialistas em desenvolvimento do currículo, inovação educativa, flexibilidade curricular, educação do século XXI terão para nos ensinar. Basta perguntar-lhes se dão mesmo aulas nalguma escola básica ou secundária.

Se a resposta for sim: óptimo, por favor compartilhe a sua experiência.

Se a resposta for não: obrigado, volte quando já o tiver feito.

Adaptado daqui.

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Novas pedagogias – O método global

abc.pngNos últimos anos tem-se criticado muito o ensino tradicional e a escola dita do século XIX, procurando abrir espaço para a adopção de “novas pedagogias” – a maior parte delas não tão novas assim – que supostamente permitiriam uma aprendizagem mais activa, dinâmica e significativa por parte dos alunos.

Mas será que as teorias pedagógicas que nos apresentam como inovadoras realmente funcionam? Demonstraram já a sua eficácia, na prática, em relação às metodologias tradicionais?

Um interessante trabalho publicado num site espanhol de divulgação científica vem justamente tentar esclarecer, baseando-se em evidências, esta problemática: quais as pedagogias que provaram que funcionam?

Dentro de uma temática que revisitaremos, vejamos por agora o que sucede com o método global para aprender a ler.

Com este método, em vez de se ensinar as letras e a sua correspondência com sons, parte-se de textos e palavras que se apresentam ao aluno partindo do princípio de que ele aprenderá por si mesmo o alfabeto. Os defensores do método global dizem que a aprendizagem se faz de uma forma mais natural e interessante para o aluno. Mas, nos casos em que corre mal, pode atrasar a aprendizagem da leitura.

O que a investigação demonstrou é que o método mais eficaz para ensinar a ler todas as crianças – incluindo os que são capazes de aprender sozinhos e por isso qualquer método lhes serve – é o alfabético. Quando se aplica o método global muitas aprendem a ler igualmente bem, mas uma parte não. Estas podem chegar ao 3º e 4º anos de escolaridade e continuam sem descodificar bem e não conseguem compreender o que lêem. Isto vai-se reflectir nas restantes aprendizagens e “arrastar-se ao longo de toda a escolaridade, com consequências catastróficas”.

Adaptado daqui.

Bons professores, bons programas, disciplina

inger.JPGA Suécia tem sido associada a uma certa vanguarda educativa que por cá, com flexibilidades, transversalidades e autonomias, se pretende obrigar escolas, professores e alunos, a acompanhar.

Mas não é nada disto que defende a professora Inger Enkvist, adepta de valores e práticas pedagógicas que o ensino centrado no aluno e o “aprender a aprender” colocaram fora de moda.

Uma política educativa de direita, portanto? Lendo a entrevista ao Público, parece-me que as ideias da professora sueca pendem mais para esse lado do espectro político. Embora registe, e até certo ponto subscreva, a preocupação em superar o confronto esquerda/direita no debate sobre Educação.

Há duas ideologias por detrás da ideia de que todos devem ter uma atenção pessoal, uma de direita e outra de esquerda. A de esquerda diz que todos somos iguais e quem não é precisa de ajuda para se tornar igual. A de direita diz que todos têm direito a atenção, direito à escolha, a ser um agente livre para fazer o que quer.

Ambas estão erradas! Não funcionam e não são do interesse do estudante, do país ou da aprendizagem. Mas são muito comuns e apresentadas como algo moderno. A coisa correcta é ter bons professores, que ensinem bons programas e dar-lhes autoridade.

Há uma ideia importante que apoio inteiramente e que nunca é de mais sublinhar nestes tempos que que se mitifica o ensino à medida de cada aluno, a aprendizagem instantânea no google ou no youtube e o ensino doméstico: a escola é uma das grandes invenções da humanidade, pois permite ensinar eficazmente muitos estudantes ao mesmo tempo, juntando grupos de alunos com capacidades e interesses semelhantes com professores que possuem os conhecimentos e as competências necessários para os fazer aprender.

Claro que a educação é para os estudantes, mas nada nos diz que é melhor ter um plano personalizado para cada um. Pelo contrário, o ensino funciona nos países onde os professores trabalham com grupos com as mesmas necessidades. É mais fácil que estes aprendam ao mesmo tempo. Essa ideia do aluno no centro leva a que seja precisa muita ajuda na escola e os recursos são mal usados. Se pensarmos em dinheiro, é mais económico aprender num grupo semelhante.

Ao longo da História, as alternativas à escola foram apenas três: o analfabetismo quase generalizado, o sistema corporativo dos mestres e aprendizes que qualificava os artesãos dos principais ofícios e o ensino doméstico, com preceptores ou professores particulares, acessível apenas aos filhos dos fidalgos e da alta burguesia. A escola como hoje a temos, universal, gratuita e obrigatória, é uma conquista civilizacional demasiado importante para a deixarmos destruir em nome de modas irracionais ou, pior do que isso, da agenda oculta das organizações internacionais e das fundações empresariais que promovem a “inovação educacional”.

Inger Enkvist defende o reforço da autoridade dos professores – as crianças, e a própria escola, precisam de regras para poderem funcionar e para que efectivamente se ensine e aprenda. É certo que a educação de base deve ser dada em casa, pelos pais. Mas quando estes não desempenharam bem o seu papel, é a escola que deve reforçar, logo nos primeiros anos de escolaridade, o seu papel educativo.

Alguns não têm ajuda em casa? São esses que precisam mais do que os outros de aprender correctamente a comportarem-se. No 1.º ano, a professora é quem abre o mundo do conhecimento às crianças, ao mesmo tempo que mostra como funciona a escola. Precisa de dizer-lhes: “É assim que se aprende e aprender é entusiasmante e transformador, vai mudar-te, vai tornar-te um adulto, mas há regras às quais tens de obedecer.”

Um ensino laxista, a falta de regras, o desrespeito pela autoridade e pela figura do professor, trazem outro problema: quando assim é, ninguém quer ser professor, tornando-se difícil atrair bons profissionais para a profissão docente…

Isso é importante porque os bons alunos querem ser professores – também é verdade para os educadores de infância e para os professores de 1.º ciclo. Se as crianças aos 4, 5, 6 anos tiverem bons educadores, inteligentes e preparados, arrancam bem, conseguem aprender bem a língua e ganham bons hábitos sobre como comportar-se na sala de aula. É mais divertido para um aluno estar com um professor inteligente que torna a aprendizagem divertida – este é um dos segredos do sucesso da Finlândia.

É um problema também noutros países que, em comum, têm o facto de terem introduzido a “nova pedagogia” que diz que o estudante tem direitos e não é obrigado a obedecer ao professor. Quando o aluno pode entrar ou sair da sala de aula, pode chegar e não trazer os trabalhos feitos, pode dirigir-se ao professor de forma desrespeitosa, então, ninguém quererá ser professor.

Os pontos mais polémicos deste programa educativo: a aceitação de que se aprende melhor em grupos homogéneos e a defesa, consequentemente, da formação de grupos de nível e, paralelamente, a introdução de vias alternativas de ensino a partir dos doze anos.

Fala-se muito de discriminação, mas se você tivesse sido professora veria nos olhos dos alunos a ansiedade ou o aborrecimento porque não conseguem gerir o conhecimento que o professor está a transmitir. O que acontece a esses alunos é que se limitam a sobreviver na escola, na esperança de que um dia aquilo termine e sejam livres. Outros ficam tão aborrecidos que começam a fazer disparates porque não acham que o conhecimento seja importante. Na adolescência, diria que submeter os alunos a isso é um mau trato psicológico.

…aos 12 anos é preciso dar escolha aos alunos porque é impossível estarem todos interessados nas mesmas coisas e, ao desinteressarem-se, tornam o trabalho dos professores impossível.

Quanto ao problema da precocidade das escolhas, Inger tem uma posição clara: não podem ser os pais, muitas vezes com percepções irrealistas acerca do desempenho escolar dos filhos, nem os próprios alunos, a tomar este tipo de decisões: deve confiar-se nos professores que os acompanham e percebem melhor do que ninguém o que poderá ser mais adequado.

Finalmente, os telemóveis. O que pensa a professora sueca sobre a omnipresença destes aparelhos e a ideia de que podem substituir, não só o ensino dos professores, como a própria actividade intelectual dos alunos?

Isso é errado, errado, errado. Porque a nossa biologia não mudou e aprender é sobre mudar o nosso cérebro e se não o fizermos, então não aprendemos. A tecnologia é limitada, eles podem dizer muita coisa com o smartphone na mão, mas se lho tirarmos não sabem nada. É como se fosse uma prótese.

Quanto aos pais que não resistem a manter os filhos equipados com o gadget da última moda…

…os pais dão tudo e não têm a coragem de dizer “não”. Muitos não estão preparados e não compreendem como é importante dizer “não” a alguém de quem gostam.

Porque queremos ser amados pelos nossos filhos e também porque, no caso dos ecrãs, pensamos que não é muito tempo e, por isso, não faz mal. Mas isso é errado porque através dos ecrãs as crianças não recebem todos os estímulos necessários para aprender e com o nosso dinheiro estamos a empobrecê-los.

A melhor pedagogia

aulaOs conselhos são de Javier, um professor que, à semelhança de outros colegas espanhóis, escreve sobre Educação com a clarividência e acutilância que por cá, demasiado submissos aos mestres académicos e às autoridades ministeriais, tantas vezes nos continuam a faltar.

Se os teus alunos não dominam os conteúdos, dá prioridade aos métodos de ensino directivos ou tradicionais.

Se os teus alunos dominam os conteúdos, então podes experimentar os métodos não-directivos.

Se és tu que não dominas os conteúdos que ensinas, vai dar ao mesmo, se bem que com os não-directivos disfarçarás melhor.

E agora pergunto eu: na perspectiva de quem quer pagar pouco aos professores, extinguir a carreira docente tal como, até 2005, a conhecemos, deseinvestir na formação de professores, apostar na indiferenciação e na polivalência dos docentes e em visões holísticas, integradoras ou transdisciplinares do saber – nas quais, em última análise, qualquer um pode ser professor de qualquer coisa -, nessa perspectiva, dizia eu, que métodos de ensino serão mais “eficazes”?…

Leituras: Escola audaciosa, ou divertida?…

aula

Eu gostaria de uma escola que tivesse a audácia, que corresse o risco de assumir a sua especificidade, de jogar a cartada de sua especificidade. Uma das causas do mal-estar actual parece-me ser que a escola quer comer de todos os pratos: ensinar o sistemático, mas também deleitar-se com o disperso, com o acaso dos encontros; recorrer ao obrigatório, mas tentando dissimulá-lo sob a aparência de livre escolha. Em particular a escola, frequentemente ciosa dos sucessos em actividades de animação, decanta-se em fórmulas mais suaves, mais agradáveis – mas vê-se obrigada a constatar que elas são inadequadas para ensinar álgebra ou para chegar até Mozart.

Direi até que não me parece um elogio à escola que os alunos cheguem a confundir a aula com o recreio, o jogo com o trabalho, que eles queiram prolongar a aula como um recreio, retornar à escola como a uma actividade de lazer – pois é realmente à escola que eles retornam? Temo que nessa altura a escola tenha abandonado o seu próprio papel – embora reconheça que em certos momentos, para certos alunos, pode ser indicado introduzir elementos de brincadeira, momentos de distracção, com a condição de que não se esqueça que estes são estimulantes intermédios, destinados a ser temporários.

Georges Snyders, A Alegria na Escola (1986).

Aprender a aprender, ou aprender a sério?…

cirurgiao.jpgSe algum dos defensores da aprendizagem pela descoberta tivesse de ser operado, que cirurgião quereria?

Um que abrisse o corpo do doente e fosse experimentando e descobrindo à custa dos desgraçados que lhe caíssem nas mãos?

Ou aquele que estudou toda a teoria necessária, que ouviu as lições dos mestres, que assistiu ao trabalho de colegas mais experientes e praticou sob a sua supervisão antes de começar, ele próprio, a operar?

E aceitaria que um ortopedista o operasse aos olhos, ou um clínico geral ao coração?

Se quando é do nosso interesse reconhecemos a importância do conhecimento científico estruturado, da aprendizagem formal, da avaliação rigorosa e da especialização, porque é que para os outros defendemos que qualquer coisa serve, desde que não haja “chumbos” e todos pareçam felizes?

Aprender a aprender ou aprender coisa nenhuma?

nunocrato[1]Embora não concorde com tudo o que diz e discorde de quase tudo o que fez enquanto ministro da Educação, respeito em Nuno Crato o intelectual com um pensamento próprio, estruturado e nalguns pontos polémico sobre Educação. Já escrevia e debatia sobre temas educativos muito antes de ser ministro, e deixando de o ser, continua a fazê-lo. O que é de registar e saudar.

E – um ponto a seu favor – não tem medo da polémica nem dos consensos politicamente correctos. António Guterres, na cerimónia recente de atribuição do doutoramento honoris causa pela Universidade de Lisboa, enfatizou a importância de um ensino menos formal e da aprendizagem ao longo da vida, valorizando o “aprender a aprender” em detrimento dos conhecimentos que se aprendem nas escolas e nas universidades e que rapidamente se mostram inúteis e ultrapassados. Crato, obviamente, discorda. E pergunta:

Gostaria algum de nós de ser tratado por um médico que, na universidade, tivesse aprendido Literatura Germânica, não tivesse prestado grande atenção à Anatomia nem à Histologia, mas que tivesse sido fantástico a “aprender a aprender”? Gostaria algum de nós de andar num avião mantido por uma equipa de mecânicos que, na sua escola de formação técnica, tivessem estudado Anatomia Patológica, nada sobre motores nem sobre aeronáutica, mas que fossem extraordinários a “aprender a aprender”?

Em boa verdade, o conhecimento conta. E dou razão a Nuno Crato: embora o discurso de Guterres tenha sido de circunstância, redondo e generalista, como aliás é seu timbre, não me parece que tenha sido feliz na formulação que encontrou. Antes de “aprender a aprender” é preciso primeiro aprender alguma coisa que sirva de base a essa “permanente procura do conhecimento” em tempos invocada por outro ilustre autodidacta, Miguel Relvas de seu nome. O raciocínio lógico e abstracto, o pensamento crítico e criativo e outras “capacidades” e “competências” hoje em dia muito gabadas não se desenvolvem a partir do nada: são precisos conhecimentos de base, vocabulário e outras ferramentas cognitivas para as conseguir utilizar e desenvolver.

Quanto à obsolescência do conhecimento escolar: ela ocorre mais facilmente com as aprendizagens “flexíveis” que agora se pretende estimular do que com o conhecimento disciplinar sólido e estruturado do ensino tradicional. Nuno Crato dá o exemplo feliz das coisas que se aprendiam quando se começou a dizer, dos computadores, que seriam o futuro: quem conhece hoje os comandos do MS-DOS, as teclas de atalho do WordPerfect ou a programação BASIC, tudo coisas que faziam furor no final dos anos 80?…

Em contrapartida, dominar uma língua estrangeira ou ter boas bases de Matemática, conhecer e compreender o essencial da História e da Geografia de Portugal, entender no fundamental a teoria da evolução de Darwin ou a relatividade de Einstein, não são conhecimentos inúteis nem ficarão certamente ultrapassados nas próximas décadas. São conteúdos sólidos e concretos que não só enriquecem os jovens que os têm como lhes permitem, esses sim, partir para novas aprendizagens.