Sucesso ou propaganda?

performance.jpgNuma altura em que se debate a promoção do sucesso através de abordagens fora da caixa, as histórias de uma escola em Setúbal estão a ajudar um bairro inteiro a vencer estigmas. E de uma escola em Azeitão onde os alunos também definem o que aprendem e como aprendem.

No artigo do DN sobre as escolas que tentam organizar-se segundo os princípios da autonomia e flexibilidade curricular, torna-se difícil separar aquilo que são ideias sensatas, realistas e pertinentes do que é mera demagogia e propaganda de uma política educativa longe de consensualizada nas escolas portuguesas. Ou seja, não é fácil distinguir entre o que representa efectiva melhoria das aprendizagens daquilo que é apenas, à boleia da redução do número de testes e exames, uma simulação do sucesso.

Acima de tudo, acho que falta honestidade e pragmatismo na discussão sobre as melhores pedagogias: a verdade é que os debates com os alunos sobre o que e como aprender, os trabalhos de grupo, os projectos, as flexibilidades e as transdisciplinaridades podem ser eficazes, sim. Mas são-no, quase sempre, como abordagens alternativas. Ou seja, quando se constata que as pedagogias mais formais e directivas pura e simplesmente não resultam com determinados públicos escolares.

Dito de outra forma, para um aluno que se recusa a aprender numa aula que para ele é uma seca, o envolvimento num trabalho de projecto pode permitir que se interesse pelo que lhe é proposto e acabe por ficar a saber alguma coisa. Mas esta não é necessariamente a forma mais eficaz de aprender. Atente-se neste exemplo:

“Diariamente, temos turmas a terem aulas de Matemática, por exemplo, num auditório de pedra que temos fora da escola, com aprendizagens num contexto diferente, em que os conteúdos são aplicados a coisas que eles conhecem.”

A Matemática é, queira-se ou não, uma linguagem abstracta. Demonstrar o seu uso em situações concretas é a forma adequada de iniciar os alunos nos primeiros anos de escolaridade. Mas persistir, com alunos adolescentes, em ensiná-la com “coisas que eles conhecem” significa que não há uma real progressão na aprendizagem. Pois nesta faixa etária já se deveria ter superado a fase das operações concretas, exercitando o pensamento abstracto que a Matemática justamente estimula.

Não sei que magias fazem no “auditório de pedra”, mas não me parece que seja um espaço muito funcional para a concentração e o trabalho individual exigidos pelo desenvolvimento de competências matemáticas. A não ser que estejamos perante aquele exercício de faz de conta com que os Portugueses demasiadas vezes gostam de se enganar a si próprios: nós fingimos que ensinamos com umas aulas “não tão secantes” e vocês fingem que aprendem alguma coisa. No final dizemos em coro que foi um sucesso…

Outras vezes os projectos não parecem tão disparatados. Mas mesmo aí há a questão do custo de oportunidade que deve ser colocada. Com a dispersão disciplinar e o reduzido tempo semanal de algumas disciplinas, optar por realizar certas actividades implica geralmente cortar noutras coisas previstas nos programas. Pelo que se deve sempre questionar se o que se aprende com determinado projecto compensa os cortes que se irão fazer noutras aprendizagens.

Curiosamente, o secundário é o nível de ensino onde me parece que a flexibilidade curricular poderia ter maiores virtualidades, quer pela maturidade e o maior nível de autonomia dos alunos, quer pela menor dispersão curricular. E, no entanto, parece ser aquele em que menos se está a inovar. A culpa, há quem diga, é dos exames obrigatórios neste nível de ensino. O que não bate muito certo com o discurso oficial da reorganização curricular, que nos assegura que as novas regras e metodologias vêm enriquecer as aprendizagens. Se os alunos supostamente aprendem mais, então os resultados dos exames deverão melhorar com a flexibilidade do currículo. Por que razão se receia tanto que tal não aconteça?…

Talvez por isso as experiências nos cursos profissionais se tenham vindo a mostrar geralmente mais ousadas e enriquecedoras…

Enquanto assistimos a um exercício de movimento poético livre de uma turma do 11.º ano da coordenadora do curso profissional de Artes do Palco, Ana Estevães, num dos átrios interiores da escola, reparamos numa adolescente, aparentando uns 15 anos, que também observa a apresentação. À sua frente tem um carrinho, com o seu bebé. É uma súbita chamada à realidade do bairro.

Todos os anos há “dois ou três casos” destes no agrupamento. E a forma que a escola encontrou de confrontar a situação foi conceber um conjunto de sketches, para os alunos de Teatro apresentarem aos colegas, onde eram feitas afirmações assumidamente ridículas como: “Da primeira vez nunca se engravida.” Depois, a plateia foi desafiada a comentar aquilo a que se tinha assistido. E, como seria de prever, acabou a confrontar-se com a falta de conhecimento, e a desejar saber mais.

Ana Estevães orgulha-se de poder dizer que praticamente todos os que terminaram o curso de Artes do Espetáculo “estão a trabalhar em companhias de teatro”. Mas orgulha-se mais do percurso que fizeram. Antes, conta, eram “alunos com muito baixa autoestima, falta de assiduidade, comportamentos muito irregulares, desajustados. Vê-los a terminar este caminho de três anos, a duração do curso, é deslumbrante para quem os viu crescer desta maneira. O teatro é também crescimento interior”.

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Confidencial, mas pouco…

conselho-escolas.pngAparentemente, o ME anda desconfiado em relação a “consultas públicas” sobre nova legislação, pois já percebeu o risco de a discussão poder não se encaminhar para o “consenso” previamente determinado. Mas é um bocadinho ridículo pedir ao Conselho de Escolas um parecer, que é público, sobre um documento que se decidiu manter, para já, confidencial.

Ou seja, para tentarmos perceber em que consiste a quarta alteração que o governo pretende introduzir ao Decreto-Lei n.º 139/2012, que define os princípios básicos da organização curricular e da avaliação nos ensinos básico e secundário e que o governo se recusa a divulgar, teremos de recorrer ao Parecer n.º 03/2017 emitido pelo Conselho de Escolas. É por aqui que ficamos a saber que são essencialmente quatro as alterações pretendidas:

  1. Introduzem-se o certificado e o diploma em “formato eletrónico”.
  2. Extingue-se a oferta formativa de cursos vocacionais.
  3. Cessa a obrigatoriedade da avaliação externa para os alunos dos cursos profissionais e para os alunos dos cursos de ensino artístico especializado que pretendam prosseguir estudos no ensino superior, conferente de grau académico.
  4. Revogam-se os efeitos excecionais da avaliação da disciplina de Educação Física no Ensino Secundário (a classificação nesta disciplinas passará a ser considerada para todos os efeitos, tal como as restantes disciplinas de caráter obrigatório).

Os dois primeiros pontos são pacíficos. Desmaterializar a burocracia escolar será sempre positivo se, como salienta o CE, estando garantida a confidencialidade dos dados pessoais, se conferir dessa forma maior rapidez e eficiência ao trabalho administrativo das escolas. Quanto aos cursos vocacionais, eles já se encontram extintos, na prática, pelo que se tratará apenas de formalizar o óbito.

Já o terceiro ponto é polémico, pois mexe no tema sempre sensível do acesso ao ensino superior. Como compatibilizar a existência de dois subsistemas de ensino no secundário, com regras de funcionamento e modelos de avaliação muito distintos, com a necessidade de garantir o máximo de equidade e justiça no acesso ao ensino superior?

O sistema actual é criticável, pois obriga os alunos dos cursos profissionais que queiram candidatar-se ao ensino superior a fazer dois exames nacionais sem correspondência com as disciplinas e os programas que tiveram durante o curso. E estará a dificultar o acesso a estes alunos, pelo que o governo se dispõe a alterar o modelo, permitindo que passem a fazer, apenas, a prova específica do curso a que se candidatam.

O CE rejeita a proposta mas perde-se, a meu ver, num emaranhado de considerações em torno de conceitos de equidade e justiça que nunca existirão num sistema que confia demasiado nos exames para resolver as suas incoerências e contradições.

O ensino profissional foi concebido como um sistema de ensino sem exames e assim deveria, em minha opinião, continuar. Já nos cursos científico-humanísticos parece-me que eles farão sentido, embora talvez não com o peso, o aparato e a importância que lhes andamos a atribuir.

Fundamental seria separar a avaliação e certificação de ambas as modalidades do secundário do acesso ao ensino superior, deixando a selecção de candidatos à responsabilidade exclusiva das universidades e escolas superiores. Querendo manter-se para já o sistema centralista de acesso a que as nossas academias tão bem se habituaram, então deveria pelo menos estudar-se a criação de um sistema diferenciado de acesso dos alunos dos cursos profissionais ao ensino politécnico.

Finalmente, na velha questão de a nota de Educação Física contar para a média do Secundário, o CE não consegue ter uma opinião clara, percebendo-se que não quer o mal dos “muitos alunos” com elevadas classificações ao resto mas alguns “constrangimentos” na prática da disciplina. Mas também quer estar do lado dos “muitos alunos” que têm boa nota na disciplina e não vêem actualmente o seu esforço ser devidamente compensado.

Uma vez mais, acho que o problema não está na Educação Física, mas no facto de se andar a usar as notas, que deveriam servir apenas para atestar os conhecimentos e capacidades dos alunos, nesta e nas restantes disciplinas, para fins indevidos.

Se é ou não importante ter sido bom aluno a EF para entrar num curso de Medicina, acho que é uma questão a que apenas as Faculdades de Medicina deveriam responder. Não são as escolas secundárias que têm de estar, por ordem ministerial, a desvalorizar uma ou outra disciplina obrigatória do currículo, apenas para produzir uma média final que esteja de acordo com o que se acha adequado como critério de selecção no acesso ao ensino superior.

Encontrar soluções justas e duradouras para estes problemas passa em primeiro lugar pela capacidade de pensar fora da caixa. O resto dependerá de coragem e determinação para responsabilizar as universidades e politécnicos por problemas que lhes dizem respeito e dos quais têm andado alheados e, sobretudo, para enfrentar as máquinas de meter alunos na universidade que se alimentam das contradições e iniquidades do sistema. Um lobby não menos poderoso, nem menos organizado, do que o dos contratos de associação…

Uma economia sem trabalho

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Já me tinha parecido que o admirável mundo da nova economia que nos andam a preparar haveria de ser este, mas ainda não o tinha visto escrito com esta clareza, preto no branco, pelos defensores do sistema:

Haverá sempre necessidade de um pequeno núcleo duro de trabalhadores essenciais, talentos com grande procura e lugares de administração sénior, que as empresas pretenderão preencher com empregados a tempo inteiro, por motivos de qualidade, consistência e continuidade. Porém, fora desse núcleo duro, as empresas deparam-se com poderosos incentivos económicos e de mercado para manter baixo o número dos seus empregados a tempo inteiro. A melhor estratégia que os meus estudantes podem seguir é prepararem-se para serem trabalhadores independentes, não empregados a tempo inteiro.

Como ainda não inventaram humanos que só comam de vez em quando, rendas e prestações de casas que se paguem só nos meses em que tem trabalho ou filhos que se possam manter ou descartar à medida das disponibilidades financeiras, tenho as maiores dúvidas acerca da viabilidade de um mercado de trabalho baseado na precariedade, no desemprego e no subemprego de uma parte cada vez maior da população activa. Sobretudo quando, com excepção de um punhado de profissões de elite, a regra para os restantes tende a ser o alinhamento pelo salário mínimo.

É mau para as pessoas, que não conseguem auferir rendimentos suficientes para uma vida independente, mas também para a própria economia capitalista, baseada na produção e no consumo em massa: se não há dinheiro para comprar o que se precisa, as empresas não vendem os seus produtos. As sucessivas crises de superprodução, cada vez mais intensas e prolongadas, aí estão para demonstrar que o capitalismo não se regula sozinho, apenas produz uma crescente desigualdade social, o esmagamento das classes médias e a concentração da riqueza, à escala global, num número cada vez mais restrito de famílias e indivíduos.

Ao contrário de anteriores revoluções económicas e tecnológicas, que destruíam empregos tradicionais mas também os criavam em novas profissões, a Quarta Revolução Industrial configura-se cada vez mais como inimiga do trabalho humano: os robôs, os drones, os veículos automáticos tomam o lugar dos trabalhadores produtivos, enquanto a internet, os computadores e os sistemas informáticos permitem dispensar muitos profissionais no sector dos serviços.

E num mundo onde deixa de haver trabalho para todos – já hoje não existe! – não faz qualquer sentido querer escravizar os poucos que o conseguem obter, amarrando-os a jornadas laborais longas e intensivas. Ou descartando-os para a economia do biscate onde proliferam as uberes, as empresas de trabalho precário e a economia informal. E que aliena também os que ficam eternamente desempregados, os não-competitivos que não conseguem emprego e ficam dependentes da ajuda familiar, dos subsídios estatais ou da caridade privada – um fenómeno típico das sociedades pré-industriais ou dos primórdios da industrialização, que agora vemos renascer na multiplicação de instituições privadas de solidariedade social.

Soluções para isto? Tem de haver, e basicamente passam, ou por reduzir drasticamente os horários de trabalho, de forma a criar emprego para todos, ou por instituir um rendimento básico universal que permita desligar o trabalho daquela que tem sido, desde o aparecimento da economia produtora, a sua principal razão de ser: garantir a subsistência dos trabalhadores.

Qualquer das opções tem custos e dificuldades na sua implementação, sobrando sempre um problema básico a resolver: a necessidade de encontrar um modelo de financiamento do Estado que substitua a tributação excessiva que hoje se faz dos rendimentos do trabalho e a tributação quase nula dos rendimentos do capital imposta pelas regras do capitalismo globalizado.

Mas a coisa até seria simples: se os trabalhadores são substituídos por máquinas, estas devem a pagar a reforma dos trabalhadores que deixaram de ter trabalho. Na verdade, é a única coisa sensata a fazer, e o que se demora a perceber isto apenas demonstra o quão intoxicado está, o pensamento ocidental, pelos dogmas neoliberais.

Arjun Appadurai

appadurai.JPGInteressantíssima a entrevista do Público a Arjun Appadurai, um antropólogo cultural de origem indiana há longos anos radicado nos EUA, onde é professor na Universidade de Nova Iorque. Aqui se fala das presidenciais americanas e da América profunda, de globalização e internet, de política e de economia, dos avanços e recuos da globalização.

Apenas alguns excertos, e o convite para ler o texto integral

Durante a Presidência de Obama, houve um grupo de pessoas que odiava o facto de ter um negro à frente deste país. Era o maior símbolo de que tinham perdido alguma coisa — a Presidência e a Casa Branca, onde agora estava um negro a dizer-nos o que fazer. A muitos níveis é, claro, uma história de ressentimento racial, mas, repito, acho que o que Trump conseguiu fazer foi ligar a mensagem sobre a América e o mundo com a mensagem sobre os brancos na América. E as duas tornaram-se uma: vamos tomar conta disto outra vez, e a América vai tomar conta do mundo outra vez.

Há nos EUA uma longa história de medo de alguém que soe como um socialista. Não é como na Europa, em que o socialismo não é uma dirty word, podem não gostar mas está lá, faz parte do espectro. Nos EUA, está demasiado próxima do comunismo. Sanders fez um trabalho magnífico ao tornar a mensagem socialista séria e respeitada. Mostrou que se pode criar um movimento sem se ser um demagogo, falando apenas a verdade. Mas foi uma oportunidade perdida.

Aquilo que nos falta, como modelos históricos, são pessoas como Martin Luther King, Gandhi, Mandela. Eram todos pela justiça, falavam a verdade e eram incrivelmente carismáticos. Há um défice desse tipo de políticos. E mesmo quando surgem figuras mais liberais, como [a chanceler alemã, Angela] Merkel, que neste momento se destaca na Europa, ela é menos colorida, é uma funcionária política que está a fazer um bom trabalho em circunstâncias difíceis, mas está longe de um Gandhi ou de um Mandela.

No caso de Trump, ele foi muito esperto porque juntou as duas mensagens, a xenofobia e o desejo de controlar a economia. No fundo, a mensagem económica dele é muito simples: deixem os ricos ser ricos e alguma coisa sobrará para vocês. Ele não é um capitalista de alto nível, é um homem de negócios e o que diz é “faço negócios, esses negócios dão dinheiro e algum desse dinheiro chegará aos que estão mais abaixo”. […] de alguma forma, conseguiu convencer os americanos com uma mensagem de pura xenofobia cultural: “Deixem-me fazer isto e todos vocês terão empregos.”

No caso dos EUA, houve sempre um fascínio pelos homens ricos e de sucesso. Porquê? Porque podemos todos tornar-nos como eles. Reduzam a regulação e podemos todos ser Donald Trump. Esta é, claro, uma fantasia ridícula que tem sido fatal para a tentativa de organizar a esquerda. Não há para onde ir porque toda a gente pode ser Trump. Todos os miúdos negros acham que podem ser Michael Jordan. É a terra das oportunidades de uma forma extrema e totalmente individualista. Isto significa que uma pessoa como Trump se torna mensageiro não da exploração capitalista, mas da ideia de puro sucesso.

A economia já não se baseia na manufactura e na indústria, nos bens e serviços, mas na troca de instrumentos financeiros. É todo um novo mundo que não está assente na lógica de oferta e procura, que era a base da economia. Se o que estamos a vender são produtos que têm como base a dívida dos consumidores, não há limite. Não há escassez. Pode-se sempre continuar a ter mais. […] A dívida é o nosso principal trabalho hoje. Fazemos dívida para que outros possam monetarizar sobre ela. Enquanto isso não for entendido, torna-se mais fácil as pessoas pensarem que estão excluídas e esmagadas economicamente e transformar esse sentimento em hipernacionalismo, racismo, etc.

Selectividade fiscal

pagar.jpgAinda pegando na ideia de Rui Rio:

O ex-presidente da Câmara do Porto Rui Rio sugeriu nesta segunda-feira uma redução do IVA, do IRS e do IRC para, em contrapartida, ser criado um imposto consignado ao pagamento dos juros da dívida pública.

Porque não criar também um ou vários impostos consignados ao pagamento do buraco do BPN, da resolução do BES e das recapitalizações de sucessivos bancos falidos que estão a ser feitas à custa do contribuinte e do endividamento das próximas gerações?

E que tal, para ser ainda mais democrático e transparente, um sistema que permitisse ao contribuinte escolher o que quer pagar?

Sair do Euro

stiglitz.JPGProvocaram alguma agitação as declarações recentes de Joseph Stiglitz, ao sugerir a saída de Portugal do Euro, tendo em conta os custos e as exigências que a integração na zona Euro impõe à economia portuguesa.

É que por cá, a pertença ao Euro e ao pelotão da frente da integração europeia tem sido vista como um dogma inquestionável, pouco se parando para reflectir e fazer o balanço dos custos e benefícios de uma opção que alguns já reconhecem ter sido precipitada. Mas as afirmações heréticas do Prémio Nobel da Economia até terão razão de ser, como explica Mariana Mortágua, com a habitual clareza e concisão, na sua crónica do JN:

Pois bem, a heresia de Stiglitz está correta. Seria sempre difícil criar um processo de convergência entre economias tão diferentes. Mas fazê-lo sem qualquer controlo sobre os fluxos financeiros, sem um Banco Central capaz de atuar quando necessário, sem autonomia orçamental ou económica, é impossível. A integração monetária retirou quase todos os instrumentos de política económica, e os que restavam foram destruídos pela austeridade pós-crise. Isto sem falar, é claro, dos permanentes ataques às democracias nacionais, disfarçados de regras europeias, que a maioria prefere naturalizar para não ter de reconhecer a maior evidência: a União Europeia não é um espaço democrático.

Os partidos de direita, ao comando das instituições europeias e da maioria dos governos nacionais, impõem a sua linha política e não deixam espaço a políticas alternativas que poderiam reverter o desastre económico e social em que o neoliberalismo está a afundar a Europa.

O rumo da recessão, da austeridade e do endividamento, em vez de se adoptarem outros instrumentos de política económica, de se promover o investimento público e se renegociar as dívidas, está a destruir a união económica e monetária e à levar à desagregação do projecto europeu, da qual começamos a ter sinais mais do que evidentes.

Estaremos ainda a tempo de arrepiar caminho?

Sucesso escolar

tap-portugal-1.jpgQue agora está na moda medir, de todas as maneiras e feitios, e promover, também de diversas formas, desde que todas elas saiam baratas ao contribuinte.

Pois o que eu pergunto é se o sucesso escolar se mede apenas pelo sucesso das aprendizagens escolares, ou deve ser aferido também, e só assim ganha sentido, quando contribui para a integração de cada indivíduo na sociedade, aproveitando-se ao serviço de todos as competências e conhecimentos adquiridos por cada um.

Por exemplo, e em números redondos, se Portugal forma anualmente 3000 enfermeiros e 2000 emigram todos os anos, alguma coisa merece ser questionada quanto ao investimento que fazemos, às expectativas que criamos e ao sucesso que estamos de facto a ter, não apenas na qualificação de pessoas, mas também no desenvolvimento da sociedade no seu todo.