O PISA não mede a Educação

pisaAo longo da última década os testes padronizados aos sistemas educativos realizados pela OCDE, dos quais o mais conhecido é o PISA, têm vindo a tornar-se referência, tanto na avaliação dos sistemas nacionais como na comparação entre países.

Pelo manancial de informações que nos transmitem, não podem ser ignorados por quem se interessa pelas questões da Educação. No entanto, há que olhar para os seus resultados com as devidas cautelas, pois estes testes não nos contam a verdade toda.

Para começar, tendem a comparar aquilo que é comparável. Por exemplo, a Matemática é uma linguagem universal. Mas em disciplinas como a História ou a Geografia, por exemplo, o currículo varia muito de país para país.

Por outro lado, e sendo a OCDE, na sua essência, uma organização que promove o desenvolvimento económico no quadro do neoliberalismo globalizado, é natural que olhe com especial atenção para o carácter utilitário das aprendizagens. Estará o sistema educativo de cada país a formar trabalhadores competentes, esforçados, resilientes? Saberão adaptar-se à precariedade laboral e ao fim dos “empregos para a vida”, regras que se tenta impor como o “novo normal” do século XXI? Serão empreendedores, mostrando-se aptos a criar o seu próprio emprego ou a formarem-se a si mesmos numa das novas profissões do futuro, as tais que – dizem-nos – ainda não foram sequer inventadas?…

Raquel Varela, a conhecida historiadora e investigadora social que tem dedicado especial atenção ao mundo da Educação e do Trabalho, explica porque devemos olhar com todas as cautelas para os testes padronizados da OCDE…

O estado da educação é muito pior em Portugal do que o que está reflectido no PISA, desde logo porque o PISA mede uma ínfima parte da educação, e com uma metodologia quanto a nós errada. O PISA é um instrumento da OCDE que muitas estruturas educacionais, em França por exemplo, se recusam a utilizar. Mede a “literacia financeira” mas não mede o conhecimento da história, ou da geografia; mede executar operações mas não mede pensar e programara as operações em e na matemática, a abstração. O PISA oculta por exemplo o retrocesso em termos de raciocínio abstracto, concentração, memória, e mostra o avanço em termos de tarefas simples (competências) – o que é avanço no PISA, competências, é para nós um retrocesso no processo de aprendizagem. No nosso grupo de estudos das condições de trabalho na área da educação, académico e internacional, ninguém aceita ou trabalha com a metodologia do PISA. Apesar disso os seus resultados nos media são apresentados como se de uma verdade inabalável se tratasse. O que o PISA faz é incentivar a padronização da sala de aula e adaptá-la ao mercado de trabalho, conduzindo à pobreza pedagógica, e por consequência, ao burnout docente, porque não há gosto num trabalho padronizado. É um instrumento de pressão externa que retira autonomia aos docentes e adapta os países aos mercados de trabalho, em vez defender o conhecimento e a sua democratização. Temos mais de metade dos alunos a chumbar a português e matemática e isso é demonstrativo do mau estado da educação, com ou sem PISA. Não se inverterá sem mudar radicalmente as condições de trabalho dos professores.

Dois olhares críticos sobre os testes PISA

pisa.jpgQuando a publicação de mais um conjunto de relatórios da OCDE referentes aos testes PISA marca, durante semanas, a actualidade educativa e, cada vez mais, os governos condicionam as políticas educativas aos resultados obtidos e às recomendações da organização, é altura de questionar se não andaremos a atribuir importância excessiva a esta avaliação internacional.

É o que fazem, em artigos recentes no Público, Santana Castilho e Luís Miguel Carvalho. Este último, nomeadamente, alerta para o facto de a análise da OCDE aos sistemas educativos ser forçosamente enviesada pelos objectivos e valores promovidos pela organização. Que acentuam o carácter instrumental da Educação – desenvolver competências que aumentem a empregabilidade ou promovam o empreendedorismo, por exemplo – em vez de valorizarem o desenvolvimento intelectual, cultural e social dos alunos. E que se foca em padrões estandardizados e universais de aprendizagem em lugar de atender à diversidade dos diferentes povos e culturas.

Parte da confiança atribuída ao PISA não se encontra na sua qualidade técnica (que detém, apesar de epistemológica e metodologicamente criticável), nem na criação pela OCDE de uma ecologia favorável ao seu uso (que é relevante), mas em forças institucionais. Entre estas destaco a objetividade culturalmente conferida aos números e a perceção da OCDE como entidade que diz a verdade.

Sobre a primeira, recordarei, à luz de outros, que os números do PISA não falam por si, mas só quando inseridos nos discursos sobre educação. Assim, os cristalinos e robustos números servem para legitimar o mantra da aprendizagem do séc. XXI (resolve problemas, conduz-se como um empreendedor, capacita-se para uma vida de formação para a empregabilidade) e do conhecimento utilitário que a Escola deve preferir (o que funciona e resolve problemas do dia-a-dia).

Quanto à segunda, e quando a qualquer um parece impossível perguntar qual o custo-benefício da participação no PISA, um outro preço subsiste, pois a naturalização do PISA como espelho implica a obediência a uma regra no governo da educação: o teste estandardizado realizado por estudantes de 15 anos em 3 horas é o meio pertinente para capturar a complexidade educacional e a qualidade dos sistemas de ensino. Esta dependência situa os decisores num espaço cooperativo-competitivo mundial no qual a comparação dos resultados autoriza o exercício de um poder moralizante, por via da atribuição de culpas e virtudes aos sistemas, seus reguladores e agentes.

Santana Castilho acrescenta uma pergunta pertinente: que legitimidade democrática têm os dirigentes não eleitos da organização para imporem a sua visão sobre os sistemas educativos? Sobrevalorizando, por exemplo, as matemáticas, as ciências e as competências linguísticas em detrimento das artes e das humanidades, uma linha que aliás tem sido comum a todas as mudanças curriculares que, à esquerda e à direita, se têm feito no nosso país nas últimas décadas.

A imposição da uniformidade nos modelos de desenvolvimento do sistema educativo tem outra consequência, que por aqui também tem sido constatada: as metas de qualificação de jovens com formação superior estão a produzir licenciados e mestres a um ritmo muito superior ao do desenvolvimento da economia, que continua assente num modelo de baixos salários e predomínio de profissões pouco especializadas. Acabamos, claro, a promover a emigração qualificada e, por cá, a perpetuar o trabalho precário e mal pago que se generalizou em quase todos os sectores da economia.

Sem mandato democrático legítimo para o efeito, a OCDE, através do PISA, tem contribuído para a construção de um conceito limitado e tendencioso sobre o que deve ser a Educação e a escola pública. Exacerbando o foco sobre as variáveis mensuráveis e com relevância para a economia dos países, remete para o apagamento o papel das humanidades e das expressões no desenvolvimento pessoal dos nossos jovens. Onde fica a ética e a moral nas dominâncias dos relatórios do PISA? Que lugar dispensa ao espírito, ante a preponderância da forma, imediatamente utilitária e funcionalista? Por outro lado, seria interessante apurar os acordos firmados entre a OCDE e empresas multinacionais no quadro do financiamento da vasta rede técnica e tecnocrática necessária à produção do programa, bem assim como conhecer a sua estratégia de expansão.

Por tudo isto, dificilmente aceito que uma organização económica seja uma espécie de juiz supremo e global dos sistemas de ensino de todo o mundo. Vejo com perplexidade o envolvimento dos governos numa competição internacional pela disputa dos lugares cimeiros do PISA, sem terem discutido internamente a validade dos respectivos objectivos ou a adequabilidade à diversidade das culturas em jogo. Com efeito, não me parecem adequadas iniciativas que apontam metas uniformes para países com realidades culturais e económicas tão diferentes. Um bom exemplo pode ser colhido no desiderato de ter 40% da população portuguesa, com idade entre os 30 e os 34 anos, com formação superior. O cruzamento deste objectivo com o modelo de desenvolvimento da nossa economia, incapaz de criar empregos que respondam às expectativas legítimas de quem sai das universidades e politécnicos, acaba por confrontar os portugueses com a realidade: ou emigram ou aceitam a precariedade e os baixos salários.

Menos bullying nas escolas…

bullying[1]…ou apenas menos casos reportados?

O bullying nas escolas portuguesas do ensino básico desceu para metade em cinco anos. Apenas 7,3% das escolas reportaram a ocorrência de pelo menos um episódio por semana de bullying ou intimidação entre os estudantes, contra uma média de 14% nos 48 países e economias abrangidos pelo inquérito TALIS Teaching and Learning International Survey), divulgado esta quarta-feira pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico(OCDE).

Segundo o relatório, cujas conclusões se baseiam nos relatos de professores e directores das escolas dos diferentes países, os episódios de bullying e intimidação desceram nos últimos cinco anos em vários países. E Portugal destaca-se por apresentar uma das descidas mais expressivas: baixou de 15,3% em 2013 para os 7,3% do ano passado.

A verdade é que, apesar de uma maior consciencialização acerca do bullying e dos comportamentos que lhe estão associados – humilhação, assédio, intimidação, agressão – e de um reforço dos meios ainda insuficientes dos serviços de psicologia, a verdade é que não sabemos até que ponto o menor número de casos reportados traduz o que se passa na realidade.

Há pelo menos três fortes razões para que as direcções escolares não comuniquem superiormente muitos destes casos. Porque os conseguem resolver internamente, pelos seus próprios meios. Porque sabem que o ME nada faz com a informação que lhe é confiada. E porque estão cientes que a divulgação de todos os incidentes de natureza disciplinar coloca em causa tanto a reputação dos directores – vistos como incompetentes que não resolvem os problemas – como das escolas onde se registam as ocorrências – que ganham fama de serem antros de desordem, violência e indisciplina, onde qualquer pai ou mãe deve evitar colocar os filhos.

Fundamental, no combate ao bullying, para além da actuação pronta e eficaz sempre que necessária, continua a ser a prevenção. Mantendo um olhar atento sobre as crianças e jovens que diariamente convivem na mesma escola. Promovendo entre eles a sã camaradagem e o respeito mútuo mas também alertando-os e capacitando-os para identificar situações de bullying e, confrontados com elas, agir e, se necessário, denunciar.

Se as zangas, os desentendimentos, as inimizades e as ofensas que vão surgindo entre os miúdos fazem parte, até certo ponto, do processo de socialização, também é verdade que os abusos sistemáticos contra um ou outro colega só ganham terreno graças à cumplicidade ou à indiferença da maioria perante os agressores. É esta realidade que é preciso combater em todas as frentes, sem esquecer a mais recente dimensão do ciberbullying, que ganha terreno à medida que as novas tecnologias de comunicação se tornam omnipresentes na vida dos mais novos.

Relatório TALIS 2018 – o estado da Educação segundo os professores

talis-2018.PNG…Tarefas administrativas, como a distribuição de formulários ou a verificação de presenças, e o controlo do comportamento dos alunos ocupam, em média, um quarto da duração total das aulas no ensino básico. Esta proporção coloca Portugal entre os países e economias da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) onde se despende menos tempo em actividades de ensino e aprendizagem (73,5%)…

…Ao analisar os dados do TALIS, a OCDE conclui que “quando os professores têm turmas maiores, tendem a gastar menos tempo de aula nas actividades de ensino e aprendizagem”. Os professores portugueses reportam uma média de 22,2 alunos por turma, um valor próximo da média da OCDE…

…A OCDE volta a frisar que os professores portugueses estão entre os mais envelhecidos. Têm, em média, 49 anos — mais cinco do que a idade média dos docentes dos outros países e economias que participam no TALIS.

A organização sublinha ainda que, em 2018, 47% destes profissionais tinham 50 anos ou mais. Algo que se agravou desde 2013 e 2018, quando esta proporção se ficava pelos 28%. “Significa que Portugal vai ter de renovar cerca um em cada dois membros da sua classe docente durante a próxima década”, diz a OCDE…

A burocracia e a indisciplina desgastam os professores, retiram eficácia ao processo de ensino/aprendizagem e têm vindo a aumentar nas escolas portuguesas. Os professores têm falta de formação para lidar com alunos com necessidades especiais – uma meia verdade, pois mais grave ainda é a falta de outros recursos, materiais e humanos, para construir uma escola verdadeiramente inclusiva. Portugal tem uma das classes docentes mais envelhecidas do mundo e é urgente o seu rejuvenescimento.

Tudo isto são realidades há muito conhecidas dos professores e de todos os que se interessam a sério pelos problemas do sistema educativo. Mas parece que certas evidências só são aceites quando nos chegam com a chancela da OCDE. Desta vez, através do inquérito TALIS, um estudo baseado nas respostas de professores e directores escolares dos países participantes. Esta metodologia tem uma vantagem clara: a informação recolhida baseia-se na percepção e na opinião das pessoas que efectivamente trabalham nas escolas, sem interferência do governo ou da administração educativa. Mas  há também uma limitação importante: ao basear-se em percepções individuais e não em dados objectivos, tende a fazer uma representação algo subjectiva da realidade.

Espera-se agora que a divulgação destes dados não sirva apenas para produzir as habituais declarações de circunstância de políticos e “especialistas” do sector. Que os alertas do último relatório da OCDE sirvam para consciencializar os decisores da urgência de enfrentar dois problemas que minam o trabalho escolar: o excesso de burocracia e a indisciplina que continua a ser escondida debaixo do tapete. E, não menos importante, da absoluta necessidade de abrir a profissão docente a novos professores, facilitando o mais possível a saída dos mais idosos e desgastados.

Claro que a entrada, ao longo da próxima década, de cerca de 50 mil novos professores qualificados, requer a criação de condições que tornem a profissão mais atractiva do que é actualmente. O que implica uma actuação a três níveis: na melhoria do sistema de formação de professores, na criação de condições mais favoráveis ao ingresso na docência e, finalmente, numa carreira docente que dignifique a classe e permita atrair e manter no ensino os bons profissionais.

O desafio do futuro é claro. A única dúvida é se teremos decisores à altura, vontade e capacidade para concretizar o que tem de ser feito.

Colaborações: ComRegras

topo-e-fundo_ComRegrasNo Topo: ILC, ensino superior, OCDE

Depois de diversas peripécias e contratempos, a maioria das quais pouco abonatórias do modo de funcionamento do Parlamento e da qualidade da nossa democracia, a ILC a favor da recuperação do tempo de serviço foi finalmente agendada para debate parlamentar…

No Fundo: Continua a campanha contra os professores

O tema não difere muito do que já por aqui se escreveu e a questão de fundo, já sabemos bem qual é: à carreira dos professores foram descontados, por conta do congelamento das progressões, quase dez anos de tempo de serviço. E a insistente reivindicação da classe pela sua contagem integral está a embaraçar o Governo, que conta com a estagnação salarial dos professores para continuar a reduzir a despesa pública no sector da Educação.

A OCDE ao serviço dos governos

santos-pereira.JPGNa Educação, só quem anda muito distraído não o percebeu há muito tempo: a orientação dos “estudos” da OCDE e, sobretudo, as suas conclusões, são informalmente consensualizadas entre os responsáveis da organização e os governantes que tutelam o sector.

É assim há muitos anos, mas como esses documentos tendem sempre a salvaguardar a acção dos sucessivos governos e a encontrar culpas e falhas sobretudo nos agentes do sistema, é raro ver-se alguém, entre a opinião que se publica, apontar a falta de isenção da OCDE.

No entanto, quando o tema deixa de ser a enésima reforma educativa e se toca no problema bem mais sensível da corrupção; quando, ainda para mais, essa abordagem é feita por um membro do anterior governo, nesse momento tocam os alarmes, à força toda, nos gabinetes governamentais:

Governo pressiona OCDE a tirar ou mudar capítulo sobre corrupção

Antigo ministro de Passos quer dar destaque à corrupção num relatório sobre a economia portuguesa. Governo diz que opção é forçada e estereotipada.

E que tal falar verdade sobre o assunto? É claro que a corrupção existe, embora se desconheça a sua dimensão real, precisamente porque o fenómeno continua a ser escondido e desvalorizado, em vez de denunciado e investigado. Como é evidente, reduzir-se-á quando houver leis suficientemente punitivas e tribunais capazes de julgar e condenar a penas de prisão efectiva os corruptores activos e passivos.

Quanto aos relatórios da OCDE… também se percebe, pela forma como reagiu o executivo, que mandar apagar referências demasiado desfavoráveis tem sido uma prática generalizada de sucessivos governos. Como confirma Seixas da Costa, um ex-embaixador português que é presença assídua no Twitter e sabe, há muitos anos, como estas coisas se fazem…

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Colaborações: ComRegras

topo-e-fundo_ComRegrasNo Topo: OCDE defende aposentação antecipada dos professores

…por entre os estudos, relatórios e avaliações que vão sendo encomendados e que tentam ser geralmente simpáticos ao Governo, há algumas realidades que nem a boa vontade dos avaliadores consegue disfarçar. Por exemplo, o acentuado envelhecimento da classe docente…

No Fundo: O ME chantagista

Sem novos argumentos para contrariar as pretensões dos professores à recuperação integral do tempo de serviço congelado, o ME parece ter entrado num lamentável jogo de enganos, dissimulações e chantagens com o qual espera, eventualmente, iludir e desmobilizar os professores…