O lado sombrio da gamificação do ensino

big-brother.JPGA gamificação, ou seja, a aprendizagem através de jogos educativos mais ou menos sofisticados, tirando partido do enorme e recente desenvolvimento das TIC, tem sido apontada por alguns como uma das grandes tendências da Educação no século XXI. E já mereceu por aqui as honras de um post.

Sabemos que os desafios lançados através de jogos que atribuem uma recompensa imediata a quem cumpre os objectivos propostos podem ser extremamente motivadores. E como a motivação dos alunos é frequentemente um calcanhar de Aquiles no ensino massificado dos nossos dias, compreende-se a atracção dos pedagogos mais inquietos e inovadores pela integração do potencial dos jogos educativos na sala de aula.

Contudo, converter a aprendizagem num jogo, no qual se ganha pontos à medida que se cumpre o que vai sendo pedido, envolve também riscos, sendo um deles bem conhecido: habituar o aluno a agir apenas em função da recompensa e do cumprimento de um conjunto de tarefas pré-definidas e padronizadas não contribui muito para o desenvolvimento nem do espírito de iniciativa nem da autonomia. E torna mais complicado assumir tarefas e compromissos que, podendo ser altamente compensadores a longo prazo, estão longe de proporcionar uma recompensa ou satisfação imediatas.

Recentemente, Laura R. Pinkerton, da Universidade de Oxford, investigou outro lado sombrio da gamificação: não serão que os jogos electrónicos uma forma de preparar os nossos alunos para a vida num estado policial?

O aumento da vigilância massiva está também a acontecer na sala de aula – através do uso de jogos online que guardam os resultados e informam o professor em tempo real acerca do comportamento e capacidades dos alunos.

A gamificação nas escolas ensina às crianças que devem esperar que cada movimento seu seja vigiado, avaliado e eventualmente partilhado publicamente. Faz a perda de privacidade parecer normal e prepara a juventude para aceitar a vigilância massiva na sua vida adulta.

A investigadora cita ferramentas digitais altamente sofisticadas que permitem captar e registar detalhadamente uma gama cada vez maior de comportamentos infantis, incluindo a forma como as crianças pensam e sentem. Sistemas aparentemente inofensivos como o ClassDojo guardam informação sobre os alunos na nuvem digital, que depois pode ser partilhada com a turma ou com os pais. Este big brother digital imposto na vida das crianças sob a forma de um “olho que tudo vê” pode ser por muitos considerado uma forma branda de controle. Mas, se enveredarmos por este caminho, duvido que estejamos a prestar um bom serviço aos nossos alunos e aos nossos filhos…

A popularidade da gamificação é compreensível. Aprender deveria ser divertido pelo menos durante parte do tempo e os professores precisam de saber o que os estudantes estão a fazer na sala de aula. Mas com o aumento crescente dos meios de vigilância massiva no mundo dos adultos, deveríamos estar a ensinar as crianças a pensar criticamente sobre privacidade e medo – em vez de as treinarmos para renunciarem à primeira e viverem subjugadas pelo segundo.

 

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Desmaterializar os manuais escolares?

ebook.gifO Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, promulgou na terça-feira um diploma da autoria do Partido Ecologista Os Verdes (PEV), que visa fomentar a desmaterialização dos manuais escolares, abandonando progressivamente os materiais em papel.

“Esta medida é muito bem-vinda” e “será “muito bem acolhida pelas escolas”, a questão “é como se vai implementar este processo”, disse à agência Lusa a presidente da Associação Nacional de Professores, Paula Carqueja.

Paula Carqueja observou que “há muito equipamento tecnológico nas escolas, mas que está obsoleto”.

Esta posição é partilhada pelo presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas, Filinto Lima, que também considera a “medida positiva”, mas defende que “é preciso haver um investimento nas novas tecnologias”.

Deve ser a escola a emprestar o meio eletrónico, que “a criança só utilizará na sala de aula”, defendeu a presidente da Associação Nacional de Professores, advertindo que este encargo não pode ser pedido aos pais.

Para Filinto Lima, a aposta na tecnologia tem de ser feita pelo Estado e deve ser considerada uma prioridade, para que a escola possa acompanhar a evolução da sociedade.

A Educação é um sector demasiado importante para andar dependente de modas e voluntarismos de quem quer ser moderno, ecológico e tecnológico e acha que um manual escolar em pdf, ainda que com animações, bonecadas e links para uma série de outras coisas, é o mesmo que um manual em papel.

Levar-nos-ia longe uma discussão acerca do que se perde e do que se ganha com a desmaterialização dos manuais, mas parece-me evidente que não é preciso pensar muito para perceber que, pelo menos nos primeiros anos de escolaridade, nenhum zingarelho electrónico substitui, vantajosamente, o contacto com o manual físico. O que não significa que, com conta, peso e medida, e sempre com objectivos pedagógicos claros e concretos, os computadores, os tablets ou até os smartphones, que alguns miúdos começam a usar cada vez mais cedo, não devam ter o seu lugar na aprendizagem.

Mas a massificação da tecnologia educativa tem um problema estrutural de que até hoje não se conseguiu libertar: o elevado custo dos equipamentos e infraestruturas e a rapidez com que ficam obsoletos.

Quando vejo gente responsável a exigir que as escolas disponham “meios electrónicos” para serem usados por todos os alunos, não posso deixar de pensar quanto custariam uns tablets baratuchos – uns cem euros cada um – a distribuir por todos os alunos. Talvez 150 milhões de euros, fazendo as contas a um milhão e meio de alunos a cumprir a escolaridade obrigatória, a que haveria de juntar talvez outro tanto para substituir computadores e outros equipamentos obsoletos ou avariados. Uma despesa obviamente fora do alcance do depauperado orçamento da Educação, em material que rapidamente estaria ultrapassado, como sucedeu ao fim de poucos anos com os portáteis do e-escolas e do e-escolinhas. Mas não custa nada pedir: mais difícil é definir prioridades e pensar como e onde esse dinheiro poderia ser mais bem utilizado.

Os computadores “prejudicam a aprendizagem”

EllipticalBitesizedCarp[1]Jordi Martí é professor de TIC, mas isso não o impede de defender, num bom texto, e com ideias claras e bem fundamentadas, que o uso sistemático dos computadores na sala de aula – ou dos telemóveis, o que vai dar ao mesmo – traz mais prejuízos do que benefícios aos alunos.

Aliás, não é só este professor espanhol que o defende, há cada vez mais estudos que demonstram que ter na sala de aula um computador, ou dispositivo similar, para uso individual e não supervisionado, para cada aluno, aumenta a distracção. E se isto prejudica todos os alunos, é ainda pior para os que têm mais dificuldades, que tendem a ser justamente os que têm menor capacidade de concentração.

[…] a imensa maioria dos alunos são incapazes de se concentrar quando têm a possibilidade de, com um simples botão, mudar de tarefa, aceder à rede ou, simplesmente, fazer um scroll infinito pelas suas contas de Instagram. Vá, deixemo-nos de palhaçadas e digamos de uma vez que a introdução de elementos informáticos num modelo um para um ou planear o BYOD (que cada aluno traga o seu equipamento) foi um erro.

Por muito sedutor que seja pensar assim, na verdade os jovens não são multitarefa. O que vamos vendo, à medida que a tecnologia irrompe e cria dependências, é um número crescente de adolescentes dispersos e, perante tantas solicitações, incapazes de se concentrar no que, sendo importante, não é portador de um estímulo ou recompensa imediata.

Jordi Martí defende o uso limitado da tecnologia na aula para fazer coisas concretas, devidamente planeadas. Acha recomendável que em cada sala de exista um pequeno número de computadores para serem usados nessas circunstâncias. Mas só recomenda o uso de um computador por aluno nas aulas de TIC. Rebate as ideias feitas de que “está tudo no google”, ou de que a caligrafia e a ortografia, “no século XXI”, não interessam para nada. E adverte dos riscos da tecnologia na educação: os trabalhos escritos baseados na Wikipedia, o centrar da aprendizagem na ferramenta e não no processo educativo, os efeitos especiais a embrulhar apresentações vistosas mas carentes de substância.

O nosso colega enumera um conjunto de situações em que as tecnologias claramente não devem ser usadas. E isso é sempre que o seu uso:

  • Se faz em detrimento de competências básicas que os alunos devem desenvolver (leitura, escrita, expressão escrita, cálculo mental);
  • Serve para manter práticas idênticas ao que se faria sem esses dispositivos digitais (usar as TIC para fazer o mesmo de sempre é um erro);
  • Está excessivamente condicionado pela infraestrutura técnica da escola;
  • Supõe uma perda de tempo relativamente ao uso de outras alternativas viáveis.

Jordi Martí deixa claro que os professores não devem usar as TIC apenas porque outros o fazem. Nenhum professor deve ser obrigado a usar as tecnologias se não se sente suficientemente preparado para elas, se sente que o está a fazer por obrigação ou se não tem bem claro, para si próprio, qual o objectivo real do seu uso.

Só tenho de concordar.

O Código da Estrada do século XXI

Pois não é só a escola que não pode ficar parada no tempo…

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Vais para a aula? Não, vou para o Espaço de Aprendizagem Personalizado

Em Ponte de Lima, há uma sala onde se dão hoje as aulas do futuro. Acho que é mais ou menos este o mote destes projectos que ultimamente vão surgindo como cogumelos um pouco por todo o país. O vídeo da notícia segue abaixo, a peça de propaganda está aqui. Ambas no Youtube, sem direito a comentários, que a ideia a passar é: isto é uma maravilha, é o futuro, um dia as aulas vão ser todas assim. Um pensamento único para o qual não se pretende contraditório. Mas irão tê-lo.

Para já, registo a minha perplexidade : num país em crise, com os orçamentos escolares a funcionar abaixo dos mínimos, já alguém tentou fazer as contas ao custo do equipamentos e da tecnologia de uma sala de aula assim equipada? São, a brincar, dezenas de milhares de euros. De onde vem o dinheiro? Quem são os discretos financiadores desta farturinha? E que contrapartidas esperam ter?

Ainda dentro da questão financeira, que não deve ser o centro das atenções quando se fala de pedagogia, mas por vezes funciona como um detector seguro de como não bate a bota com a perdigota, pergunte-se: quanto custaria equipar desta forma todas as salas de aula de uma escola que pretenda ser “do futuro”, ou simplesmente, “do século XXI”? Alguém acredita que isto vai ser, alguma vez, generalizável e acessível a todos os alunos? Ou estamos apenas a fazer o número clássico, mas muito apreciado nalgumas escolas portuguesas, de manter uma ou duas salas especiais de corrida, equipadas com a última tecnologia educativa, com frequência seleccionada de alguns professores “inovadores” e turmas escolhidas a dedo?

Pedagogicamente, claro que a tecnologia permite novas abordagens aos conteúdos, tanto ao nível do que se consegue transmitir aos alunos como da forma como estes apreendem o conhecimento. E se este ponto para mim é pacífico, já acho mais preocupante a ideia, subjacente a muitas abordagens “inovadoras”, do aprender sem esforço, ou de um conhecimento já “mastigado” e pronto a consumir que se vai buscar “ao Google”. Ou ainda que é servido, na forma aliciante de um jogo, por uma aplicação específica. Sem rejeitar a tecnologia educativa, que uso quotidianamente, fico apreensivo com o folclore educativo que tantas vezes esconde a mediocridade dos projectos e a pobreza de recursos de certas “escolas virtuais”.

Da baleia azul à dependência tecnológica

ivone-patrao.JPGEsclarecedora e oportuna a conversa da jornalista Bárbara Wong com a psicóloga Ivone Patrão, a propósito da actual geração de crianças e adolescentes que vivem, desde a mais tenra infância imersos em tecnologia. Sempre ligados à rede, acreditam que não precisam de saber as coisas, porque sabem onde estão quando precisam delas. E o facto de nunca desligarem, rouba-lhes espaço para pensar, reflectir, estar consigo próprios. E tira-lhes tempo para conviverem com a família e até para socializarem com os amigos próximos, sem ser por intermédio da tecnologia.

Alguns excertos de uma entrevista que vale a pena ler na totalidade:

Com as tecnologias eles não fazem time-out, não fazem refresh uns dos outros e não param para reflectir, para pensar, para ajustar a forma de pensar sobre algo que se passou durante o dia. Estão sempre ligados e isso ajuda a que os jovens que estão mais vulneráveis facilmente entrem no jogo. Sobretudo se têm ideias de morte, é como juntar o útil ao agradável. O jogo é uma coisa prazerosa onde se ganha. Aqui é completamente ao contrário.

Há tentativas de suicídio online, os jovens entram em directo, mostram aos outros o que vão fazer e que acabam por ser salvos porque alguém que está a ver telefona para a polícia, jovens que nem sequer estão em Portugal (que estão em França, em Espanha, nos EUA) e que alertam as autoridades. Tenho relatos de pais que tiveram a polícia e os bombeiros em casa, de repente, sem saber porquê, quando tinham o filho ou a filha, noutra divisão da casa, a fazer essa tentativa em directo.

[Esta “geração-cordão”] é uma geração que está sempre ligada às tecnologias e que não tem competências de autonomia e de desenvolvimento do seu projecto de vida, que não corta o cordão umbilical, não se autonomiza, não faz as tarefas da adolescência e está em contacto com o mundo mas só virtualmente. Defendo que é importante cortar o cordão umbilical à nascença e criar laços, deixar as crianças crescer de forma saudável.

Os pais ficam descansados porque eles são muito espertos e esquecem-se que os filhos criam uma pegada digital, criam contas de Facebook ou de email aos oito/dez anos, podem entrar em sites que não são seguros, que podem falar com pessoas mais velhas… Damos uma chucha e há uma altura para a tirar, mas a da tecnologia é para o resto da vida.

São sobretudo rapazes com número de horas exagerado [à frente de um ecrã], em absentismo escolar, sem projectos de vida, com perturbações psiquiátricas ou deprimidos e que encontraram no jogo online uma forma de ter prazer e de viver. São desinvestidos do ponto de vista físico, não comem ou comem em excesso porque estão sempre em frente ao computador.

As raparigas têm dependência das redes sociais o que implica socialização virtual e presencial, como há partilha de conteúdos, fotos e vídeos, encontram-se. Portanto recorrem menos à consulta.

Fazem-se planos de intervenção para a saúde, alimentação, prevenção rodoviária, parece-me que cada município devia desenvolver um plano de intervenção saudável de tecnologia – o próprio município disponibiliza wi-fi, por que não disponibilizar formação para pais, professores e jovens? Duvido que haja algum programa autárquico sobre este assunto, que é urgente.

Pensamento do dia

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