Projecto-piloto ou montra tecnológica?

A NOS e a Ericsson revelaram hoje que a Escola Secundária João Gonçalves Zarco, em Matosinhos, está equipada com rede 5G no desenvolvimento de pilotos na área da Educação. Neste primeiro teste em ambiente escolar, foi realizada uma experiência de realidade virtual, ligando a Escola de Matosinhos ao Pavilhão do Conhecimento em Lisboa.

A escola João Gonçalves Zarco é reconhecida e premiada internacionalmente pelas suas iniciativas de inovação, salienta a NOS, beneficiando agora de uma rede 5G para as comunicações móveis, “para que toda a comunidade escolar possa, desde já, começar a tirar partido da tecnologia que promete revolucionar todos os sectores críticos da sociedade”, é referido no comunicado.

O teste consistiu numa espécie de visita de estudo virtual ao Pavilhão do Conhecimento – Ciência Viva realizado pelos alunos da turma de Ciências e Tecnologias do 12º ano, utilizando uma solução de realidade virtual através do 5G. Com mais de 300 quilómetros a separar a escola à exposição, os alunos puderam interagir, de forma mais imersiva e real, com os conteúdos disponíveis na Sala Explora do Pavilhão do Conhecimento. Para tal foi utilizado um robot equipado com uma câmara de 360º, controlado pelos alunos.

É sempre arriscado, perante as inovações que a revolução digital em curso nos vai anunciando quase todos os dias, afirmar que desta tecnologia não beberei. Mas a verdade é que os períodos de confinamento e de ensino à distância a que tivemos de nos sujeitar nos últimos dois anos tiveram um duplo efeito: por um lado, puseram-nos muito mais à vontade no uso das tecnologias de informação em contexto educativo; em contrapartida, também nos mostraram, com grande clareza, as limitações de um ensino excessivamente dependente da tecnologia.

Neste projecto-piloto, um fabricante de equipamentos digitais e um fornecedor de internet de última geração aliam-se para proporcionar a uma comunidade educativa a possibilidade de testar as potencialidades pedagógicas das mais recentes e inovadoras tecnologias digitais: realidade virtual e aumentada, vídeo de alta resolução em tempo real, experiências digitais mais imersivas e personalizadas.

Confesso o meu cepticismo: tudo isto me parece mais uma montra tecnológica para testar e vender equipamentos e internet 5G, do que a revolução pedagógica impulsionada pelas novas tecnologias que já tantas vezes nos foi anunciada. E com isto não estou a desprezar as potencialidades da inovação recorrendo a recursos digitais, que uso com regularidade nas minhas próprias aulas há mais de uma década. Penso apenas que os objectivos de professores e alunos em contexto escolar não são os mesmos que perseguem as empresas tecnológicas, pelo que só pontualmente os interesses de ambos se conjugarão.

Certamente que as tecnologias que agora dão os primeiros passos acabarão por encontrar o seu lugar e a sua utilidade nas escolas, quando o seu uso se generalizar e o seu custo assumir valores realistas. Mas é ainda muito prematuro antecipar as formas concretas como serão preferencialmente utilizadas.

Resta o problema de disseminar as maravilhas da tecnologia antes que esta fique irremediavelmente obsoleta. Porque uma coisa é equipar uma ou outra “sala de aula do futuro” com maquinaria de última geração e internet ultra-rápida. Outra coisa é levar este modelo de sala de aula a todas as escolas, incluindo as situadas em zonas mais isoladas e desfavorecidas, que são precisamente as que mais beneficiariam com a capacidade das novas tecnologias no encurtamento das distâncias.

180 milhões para comprar computadores

O Governo vai comprar mais 600 mil computadores para as escolas, através de um concurso que foi lançado no âmbito do programa Escola Digital, com financiamento do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR).

“Foi lançado o concurso público internacional, repartido em vários lotes para poder ser mais fácil a sua entrega, para a aquisição de mais de cerca de 600 mil computadores, que poderá permitir a tão ambicionada universalização desta medida“, disse Tiago Brandão Rodrigues numa audição na Comissão de Educação, Ciência, Juventude e Desporto, na Assembleia da República.

O ministro da Educação sublinha que “num ano, vamos comprar mais de um milhão de computadores portáteis. É um gigantesco salto de escala e é um enorme desafio logístico”, afirmou na mesma ocasião.

Muito dinheiro para gastar, mas pouca organização, planeamento e definição de prioridades: é a sensação que fica perante os sucessivos anúncios das promessas e iniciativas do plano de transição digital.

Durante os confinamentos, lamentou-se a falta de meios informáticos de muitos alunos para acompanhar devidamente as aulas online. Mas as carências detectadas em 2020 não foram resolvidas por um ministério apanhado a dormir na formatura quando se decretou o segundo confinamento. Não só não fizeram o que lhes competia, como ainda se dedicaram a desvalorizar o esforço de alunos e professores, aproveitando todas as oportunidades para sublinhar a ineficácia do ensino à distância a garantir que só presencialmente é que se aprende. Um discurso contraditório com a converseta do conhecimento na palma da mão e do fim anunciado das aulas tradicionais.

Agora que, apesar da pandemia ainda não estar debelada, novos confinamentos gerais se mostram improváveis, assistimos a uma assinalável azáfama para dotar alunos e professores de computadores para uso pessoal, quando é na escola que estes irão fazer falta. Ou pensam que a generalidade dos alunos irá passar o dia de portátil às costas, quando para o uso passivo e recreativo que a maioria faz das novas tecnologias, o telemóvel lhes serve perfeitamente?

Há outra tendência que me parece preocupante, que é o descurar a necessidade de reequipar as salas de aula. Entre a sala despida de recursos, ou com PCs e projectores do tempo da Maria Cachucha, e os “laboratórios de educação digital” há um meio termo muito importante que passa por dotar todas as salas de equipamento fixo e renovar as infraestruturas de rede e acesso à internet. O sucesso do primeiro “choque tecnológico” passou essencialmente por aqui, e não pelos “Magalhães” que ao fim de pouco tempo estavam já arrumados e ultrapassados.

Infelizmente, nada disto é discutido com as escolas e os professores. Concede-se carta branca a uns quantos decisores e avaliam-se as necessidades actuais e futuras com base em percepções pessoais. E, claro, havendo dinheiro para gastar e clientelas à espera de receber, que ninguém se meta à frente a estragar os negócios. O resultado, sabemo-lo bem, costuma traduzir-se em dinheiro mal gasto e oportunidades perdidas.

Iliteracia digital

Ou como na era analógica algumas coisas eram bem mais simples…

Nativos digitais: a queda de um mito

As crianças do novo milénio nascem e crescem, diz-se, imersas em tecnologia. Habituadas desde bebés a mexer em telemóveis, tablets e outros gadgets, para elas a internet e as realidades virtuais serão coisas tão naturais e intuitivas como o ar que se respira.

O mito já tem alguns anos, e sempre despertou o cepticismo dos mais lúcidos ou, simplesmente, mais observadores da realidade à sua volta. A verdade é que nem todos os miúdos lidam com o mesmo à-vontade com as TIC. E há uma enorme diferença entre o uso recreativo das mesmas e o recorrer a elas para estudar ou trabalhar de forma eficiente e produtiva.

As generalizações apressadas são uma forma preguiçosa e quase sempre enganadora de olhar a realidade. E agora é a insuspeita OCDE a reconhecer que, afinal, ninguém vem preparado de fábrica para trabalhar com as novas tecnologias. Crianças e jovens precisam, vejam só, de adquirir competências básicas que lhes permitam distinguir factos de opiniões, seleccionar informação relevante, confirmar a sua veracidade e, pelo caminho, não cair nas armadilhas do phishing e das fraudes via internet. E quem lhes irá ensinar todas estas coisas essenciais? Os mesmos de sempre, claro, aqueles que ainda não há muito tempo começavam a ser considerados dispensáveis e irremediavelmente ultrapassados, na era das auto-estradas da informação e da sociedade do conhecimento: as escolas e os professores…

A familiaridade dos adolescentes atuais com a tecnologia, que faz deles nativos digitais, não os torna automaticamente habilitados para compreender, distinguir e usar de modo eficiente o conhecimento disponível na internet.

Pelo contrário, os dados sugerem que eles são, em grande parte, incapazes de compreender nuances ou ambiguidades em textos online, localizar materiais confiáveis em buscas de internet ou em conteúdo de e-mails e redes sociais, avaliar a credibilidade de fontes de informação ou mesmo distinguir fatos de opiniões.

As conclusões foram apresentadas pela OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) em seminário virtual na última quarta-feira (26/05), com base no relatório Leitores do Século 21 – Desenvolvendo Habilidades de Alfabetização em um Mundo Digital.

“Ter nascido na era digital e ser um nativo digital não significa que você vai ter habilidades digitais para usar a tecnologia de modo eficaz”, afirmou no seminário Andreas Schleicher, diretor de educação da OCDE.

Os resultados também mostram que, apesar de sua crescente familiaridade com a tecnologia, os jovens não necessariamente aprendem instintivamente as habilidades necessárias para usar essa tecnologia para obter informações confiáveis.

De modo geral, o maior acesso a tecnologia entre os jovens nos últimos anos não se traduziu em mais educação midiática, disse Schleicher no seminário: os índices de alfabetização digital dos jovens evoluíram pouco nas avaliações do Pisa feitas entre 2000 e 2018, apesar das enormes mudanças sociais e digitais vividas pela comunidade global nesse intervalo de tempo.

Mais do que contato constante com a tecnologia, Schleicher defendeu que são a “aprendizagem tradicional” e o engajamento de professores que farão a diferença em dar aos alunos a capacidade de entender diferentes perspectivas em um texto e serem capazes de identificar nuances e opiniões.

Selfie desfocada

O SELFIE «Self-reflection on Effective Learning by Fostering Innovation through Educational technologies» é um instrumento de autorreflexão e autoconhecimento concebida para apoiar as escolas no processo de aprendizagem na era digital, a incorporar tecnologias digitais no ensino, na aprendizagem e na avaliação das aprendizagens dos alunos. A ferramenta pode realçar o que está a funcionar bem, as áreas que requerem melhorias e quais devem ser as prioridades. O SELFIE apoia a compreender de que forma o Digital está integrado na escola e é utilizado pela comunidade educativa.

Utiliza questionários para recolher as opiniões dos dirigentes escolares, professores e alunos, de forma completamente anónima e voluntária, e compila os resultados num relatório interativo que permite identificar os pontos fortes e os pontos fracos sobre a forma como as tecnologias são utilizadas na escola. O SELFIE não mede nem compara os conhecimentos ou as competências dos utilizadores.

Ao contrário das verdadeiras selfies, em que basta escolher o enquadramento, clicar no botão do telemóvel e está feito, esta SELFIE que anda a ser impingida às escolas é uma monumental estopada, que deixa qualquer respondente mal disposto, com tantas perguntas, acerca de coisas tão rebuscadas, subjectivas e muitas vezes impossíveis de exprimir na escala quantitativa apresentada. E nem quero pensar na trabalheira que será transformar a estatística das respostas num suposto auto-retrato das competências digitais latentes em cada escola ou agrupamento.

Há dois erros básicos de concepção nos questionários que andam a ser feitos aos vários grupos que compõem a comunidade escolar. O mais óbvio é, naturalmente, a extensão do documento: demasiadas perguntas, muitas delas repetitivas e com uma formulação que nem sempre é clara. Inquéritos deste tipo acabam por dar resultados pouco fiáveis, por vezes até contraditórios. Pois chega-se a um ponto em que até o respondente mais zeloso acaba por se sentir saturado de um trabalho repetitivo e começa a responder de forma automática e pouco ponderada. Diria mesmo, embora este tipo de considerações raramente passe pela cabeça dos nossos decisores educativos, que é de um profundo desrespeito pelos professores, pelos alunos e por outros inquiridos, presumir que têm o direito de tomar tanto tempo às pessoas, apenas para simular um processo de suposta “auto-reflexão” que irá justificar decisões previamente tomadas.

Outro erro, menos evidente, mas muito vulgarizado nos inquéritos que se fazem na área das chamadas ciências da Educação e que tanto as descredibilizam, é o de se substituir a investigação rigorosa sobre a realidade existente por percepções acerca dessa realidade. Queremos saber se a escola tem um parque informático funcional? Contem os computadores existentes, liguem-nos e meçam o tempo que demoram a arrancar, verifiquem se dão som, se têm câmara ou outros acessórios úteis à escola digital. Analisem a velocidade da rede informática e dos acessos à internet, a cobertura wireless dentro e fora das salas de aula, os sistemas de segurança implantados. Contem quantos alunos e professores estão inscritos em plataformas de ensino online adoptadas pela escola, sejam elas o Moodle, GSuite ou Teams. Quantifiquem quantos as usam frequentemente, quantos o fazem ocasionalmente, quantos apenas se inscreveram. Está tudo nessas plataformas, e é este tipo de dados que nos pode dar informação exacta e objectiva acerca da realidade, não uma qualquer introspecção psicológica para induzir cada elemento da comunidade escolar à descoberta da complexa relação com as novas tecnologias na Educação.

É por estas e outras razões que a SELFIE que agora querem tirar às escolas será forçosamente uma foto desfocada. Quando substituímos o olhar directo sobre o que queremos conhecer por reflexos, percepções ou estados de alma estamos a regredir na procura do conhecimento. É como se regressássemos à caverna de Platão, aos prisioneiros das trevas que confundem as imagens sombrias e distorcidas, projectadas na parede, com a verdadeira realidade.

A década do digital

“É agora claro para todos nós que a década dos anos 20 deste século é a década do digital no notável espaço político e geográfico que partilhamos”, começou por dizer Tiago Brandão Rodrigues na abertura da sessão da tarde da Conferência de Alto Nível relativa à Educação Digital “O Digital na Educação”, que decorreu hoje por videoconferência.

A educação digital, acrescentou o governante português, já era uma prioridade comum dos estados-membros da União Europeia, mas a pandemia de covid-19 agiu como seu acelerador, e também na passagem da resposta para a recuperação da pandemia deve projetar-se essa “discussão em direção ao futuro”.

“Se os nossos programas a plasmam, se já temos um mapa, cabe-nos partir da centralidade que, felizmente, a educação digital hoje assume nas nossas agendas para traçarmos um caminho comum enquanto União e, simultaneamente, as suas ramificações, enquanto nações”, sublinhou.

Tiago Brandão Rodrigues acrescentou ainda que ficou igualmente claro no último ano que a educação digital é uma “arquitetura de organizações que precisam de ser digitalmente capacitadas, de profissionais educativos que precisam de maior confiança e competências digitais e de produção de conteúdos que sejam realmente digitais e não apenas uma versão digital do que seriam em papel”.

Perceberam alguma coisa? Pois eu também não, mas a minha iliteracia perante a língua de trapos deste ministro já não é de agora e, desconfio, nem ele nem eu ultrapassaremos já os nossos inconseguimentos.

Incapaz de conversar com os professores e outros agentes educativos acerca do presente e do futuro da Educação, Brandão Rodrigues e a sua equipa de secretários de Estado vão tentando apanhar as deixas da União Europeia, da OCDE e outras organizações internacionais. No caso da UE a coisa fia sempre mais fino, pois num país em que nunca há dinheiro para investimentos no sector, ir atrás dos fundos europeus tornou-se a sina de todos os governantes que têm tutelado a Educação. E se agora é a agenda digital que está a dar, vamos a ela. Mesmo que ninguém tenha percebido ainda bem o que se pretende, o discurso redondo do ministro cumpre razoavelmente a função de marcar presença entre os candidatos aos fundos.

Claro que se analisarmos com mais atenção deparamos com as habituais incoerências de um ministério que se diz empenhado na transição digital mas nada tem feito de concreto para a promover. Quando o ensino apoiado nas tecnologias era, durante o último confinamento, a única alternativa, em vez de apoiar e incentivar o trabalho de alunos e professores, o que o ME soube fazer foi lamentar a situação, insistir que nada substitui o ensino presencial e desmerecer o esforço que foi feito por todos os intervenientes. Pois houve efectivamente uma experiência adquirida, nas escolas, com o confinamento do ano anterior. Ao contrário do que sucede no ministério, onde os responsáveis parecem nada ter aprendido no tempo que já levam de (des)governo. Limitando-se, de há anos a esta parte, a repetir as mesmas asneiras.

O fim dos almoços grátis

A Google tem vindo a fazer algumas alterações na sua Suite…infelizmente com algo que não considero boas notícias.

Há pouco tempo, as escolas que usavam Google na versão gratuita, utilizavam a plataforma G Suite for Education, havendo também quem optasse pela versão G Suite Enterprise for Education, uma versão paga.

Até aqui não havia grandes problemas porque as diferenças entre uma e outra não eram assim tão evidentes, pelo menos aos olhos da grande parte dos utilizadores.

No entanto, a Google decidiu mudar a sua estratégia e converteu o seu G Suite em Google Workspace for Education Fundamentals e a sua versão paga, passou a chamar-se Google Workspace for Education Plus, mas…criou dois novos pacotes pagos no meio destas duas versões.

Ou seja, neste momento, para a educação a google disponibiliza quatro versões, uma gratuita e três pagas. 

Onde é que eu vejo as más notícias…é que as novas funcionalidades que vão saindo nas aplicações que a Suite tem, as melhores são pagas, algo a que não estávamos habituados.

A ilusão do “software grátis” liga mal com um sector, o das novas tecnologias da informação, pautado por grandes investimentos, pessoal qualificado bem remunerado e, acima de tudo, uma estratégia concentracionária e monopolista seguida pelas grandes multinacionais que aqui operam.

Actualmente, o que estas empresas nos oferecem “grátis” é geralmente uma de duas coisas. Uma versão de funcionalidades limitadas, destinada a convencer-nos a comprar o pacote completo. Ou então uma forma mais ou menos subtil de nos extraírem dados e informações que serão posteriormente rentabilizados, aplicando-se a velha máxima de que se não paga pelo produto, você é o produto!…

Quando o súbito confinamento de há uma ano atrás obrigou à implementação, quase de um dia para o outro, do apropriadamente chamado ensino remoto de emergência, nenhuma das grandes empresas com olho no sector quis excluir-se do processo de intensa busca de soluções tecnológicas para prosseguir as aprendizagens escolares num contexto não presencial. Foi assim que suites inicialmente concebidas para a produtividade empresarial, como o Microsoft Teams ou o G-Suite, foram oferecidas às escolas, para que construíssem, com base nelas, as suas plataformas de ensino à distância. Para lá do aparente altruísmo das multinacionais, estão decisões estratégicas bem ponderadas: trata-se de barrar caminho à concorrência, ganhar quota num mercado em crescimento explosivo, promover a utilização e subscrição de outros produtos e serviços da empresa e, numa fase de consolidação do sector, começar a cobrar pelos serviços prestados.

Assim, enquanto alguns se espantam com a aparente “mudança de estratégia” da Google, eu interrogo-me se poderia ser de outra maneira. Os sistemas em que se baseiam as plataformas até aqui “oferecidas” assentam em infraestruturas dispendiosas – potentes servidores, computação em cloud, vultuosos e constantes investimentos na manutenção e desenvolvimento de novas funcionalidades. Nada disto é barato, e não foi a praticar a caridade que as empresas tecnológicas produziram alguns dos maiores multimilionários do mundo. Para quem quiser tirar todo o partido da tecnologia disponível, a solução é pagar para a ter, como se faz no mundo empresarial. Mas na educação pública, onde qualquer investimento tende a ser visto como despesa incomportável, dificilmente haverá recursos para esse efeito.

Com a previsível reabertura das aulas presenciais nos próximos tempos, a questão das plataformas de E@D poderá ficar em banho-maria. A procura de soluções de qualidade nesta área deixará de ser uma prioridade, face à necessidade de trabalhar presencialmente na recuperação do muito que não pôde ser adequadamente ensinado à distância. Mas o princípio da disponibilização da tecnologia de suporte ao que nos dizem ser a educação do século XXI apenas a quem a pode pagar já foi assumido. Será mais um factor a contribuir para o agravamento das desigualdades educativas, ou acabaremos por constatar, mais tarde ou mais cedo, que o futuro da educação não passa por aqui?..

Ensino remoto de emergência, v2.0

“Uma boa aula à distância não pode ser igual à presencial, porque os níveis de concentração não são comparáveis. O professor tem de recorrer a recursos diferenciados e mais atrativos. Devemos variar as estratégias de forma a fomentar a autonomia do aluno”, sublinha. A professora de Espanhol não esquece, também, o papel fulcral do docente no bem-estar emocional dos alunos. “É importante que os alunos sintam que o professor está lá e que se preocupa com o estado emocional deles”, conclui.

Marco Bento, investigador da Universidade do Minho, e especialistas em e@d também refere ao DN que os professores estão agora mais preparados para o desafio, contudo, teme que alguns erros cometidos em março do ano passado não sejam corrigidos. “A minha perspetiva é que não existirá ensino à distância, uma vez mais, mas a versão 2.0 do ensino remoto de emergência. Nesse caso, os professores dominam melhor a tecnologia, o que os pode tornar mais ágeis, mas a questão de fundo permanece inalterável, ou seja, o conhecimento de práticas pedagógicas, que mais do que ativas possam ser interativas com os alunos. Não posso deixar de referir, que temo que a versão 2.0 não seja mais do que um upgrade substancial, porque grande parte dos planos de ensino remoto de emergência dos agrupamentos continuam a ser pautados por cronogramas e horários muito similares ao presencial, antevejo a continuidade da replicação, ou digitalização, de um ensino presencial”, explica.

José António Moreira, docente da Universidade Aberta, deu formação a milhares de docentes nos últimos meses e partilha da opinião de Marco Bento. Para o especialista, “não basta ligar o PC e não podemos passar essa má imagem”. Há uma série de equívocos quando se fala em e@d. O que está a acontecer não é ensino a distância, mas sim remoto ou digitalizado. Há uma transferência da realidade das práticas da escola física para a ligação de uma câmara. Nada contra isto, mas isto não é o que preconizamos nos modelos de educação à distância. Uma boa aula tem uma série de condições obrigatórias na geografia virtual. Usa-se o termo e@d sem o estar a implementar. Não houve ajustamento do e@d, mas uma transferência online”, defende.

O DN toca no ponto fulcral da problemática do ensino à distância: além das suas limitações óbvias, os bons resultados que ainda assim pode ter dependem de se adaptarem metodologias e estratégias a esta modalidade de ensino.

Mas de tanto se repisar inutilmente a ideia de que nada substitui a escola presencial, caiu-se num erro de palmatória que a experiência do primeiro confinamento nos deveria levar a evitar: se o ensino presencial é que é bom, então vamos tornar as sessões online o mais próximas possível das aulas presenciais, a começar pela organização escolar. Quando amanhã de manhã for dado o pontapé de saída de mais uma temporada de ensino remoto, muitos alunos terão um horário escolar muito semelhante ao da escola presencial. Nalguns casos, com o tempo destinado às sessões síncronas a chegar aos 100% da mancha horária.

A peça do DN faz uma análise aprofundada mas esclarecedora das dificuldades de implementar um verdadeiro ensino à distância quando nos limitamos a tentar replicar as práticas da sala de aula, como se fosse possível, por videoconferência, manter os mesmos níveis de comunicação e concentração que se conseguem nas aulas tradicionais. E salienta um dado pertinente: o uso de plataformas e ferramentas de comunicação à distância vai estar cada vez mais presente nas nossas vidas futuras. Há uma hibridação entre ambientes físicos e virtuais que vai fazendo o seu caminho, e há evidentes potencialidades na E@D para promover a muito falada transição digital que não é seguro que saibamos aproveitar.

Tecnologia e educação

Remando contra a corrente politicamente correcta que advoga as virtudes da tecnologia na Educação, escrevi há dois meses atrás sobre Como dar mau uso a um telemóvel na sala de aula. Recupero agora, promovendo-à categoria de post, um pertinente e bem fundamentado comentário recente da leitora Carolina Antunes Vieira.

A introdução das novas tecnologias na Educação traz consigo importantes vantagens e enormes desafios. Devemos estar atentos a essa realidade, mas não cair na armadilha de encarar as ferramentas tecnológicas como boas em si mesmas. É necessário analisar criticamente o impacto das tecnologias, tanto nas enormes vantagens como nos riscos que podem trazer consigo.

Os alunos que mais usam as tecnologias são os que apresentam piores resultados de aprendizagem.
É o que concluem estudos credíveis como os da OCDE, testes PISA, e muitos outros, de especialistas vários. A que se soma o relatório Comportamentos Aditivos aos 18 anos – Inquérito aos jovens participantes no Dia da Defesa Nacional – 2018, do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD) do Ministério da Saúde.

Nele é referido que cerca de um quarto de jovens relata problemas com a internet, número que aumentou face a 2017. O tipo de problema mais comum é o “rendimento na escola/trabalho, seguindo-se as situações de mal-estar emocional e os problemas com comportamentos em casa.” Os problemas de rendimento na escola/trabalho são atribuídos por 15,9% de jovens à internet, por 4,4% às bebidas alcoólicas e 2,9% a substâncias ilícitas.

Como professora, observo isto mesmo, todos os dias. Os alunos “agarrados” às tecnologias têm sempre a memória de trabalho cheia, nunca retêm o que ouvem nem o que leem. Não são capazes de pensar lenta e profundamente, São ansiosos. Não têm paz interior. Também já vi alguns perderem-se na vida com jogos on-line. Evoluindo para outras adições, passados poucos anos.

Prontificam-se extasiados para encontrar uma resposta no Google, mas na hora de escrever o que querem, já não se lembram. Perdem-se nos distratores das máquinas. O tempo passa e a resposta não vem. Também porque não compreendem o que leem. Nem sabem escrever. Nem organizar o pensamento. Muito menos questionar, criticar e criar, como pretende o Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória, de 2017.

Entretanto outro aluno, vai ao manual e encontra rapidamente a resposta. Explica-a, fundamenta-a com factos bem selecionados (relevantes), bem organizados e bem comunicados.

Se assim é, se as tecnologias estão a hipotecar o futuro dos jovens e da sociedade, por que razão está, o Governo Português, a avançar com o Projeto de desmaterialização dos manuais? Quem ganha com isso? Valia a pena investigar.

Negócios ruinosos, para o presente e futuro já há que chegue. Estes que se refletem nos alunos que estudam nas escolas públicas, à mercê de políticas sem fundamento à vista, é particularmente nefasto e imoral.

Questionário das competências digitais

O “esquema conceptual”, que a pedagogia do século XXI não vai lá sem estes bonecos (des)inspiradores…

Nada disto é novo, especialmente interessante ou motivador. Há paletes de dinheiro europeu para gastar em torno da chamada “transição digital” e embora a parte de leão vá para as infraestruturas e os equipamentos, não faltará também para a habitual “formação”.

A este propósito, respondi hoje ao inquérito online que os centros de formação, cumprindo ordens superiores, enviaram aos professores. E irritei-me. Não tanto com as perguntas formuladas, mas sobretudo com a concepção do documento, que tem a pretensão de classificar o nível de competências digitais dos respondentes. Acrescentando, para cada resposta, um feedback que pretende instruir sobre a resposta certa e a atitude recomendável relativamente a cada item.

Respeitosamente, usei o email indicado para dar conta, ao “embaixador” do Plano no meu centro de formação, do meu protesto e das minhas discordâncias. O texto que se segue é uma adaptação dos emails enviados e fica também aqui no blogue, em jeito de registo para memória futura.

Acabei de submeter o inquérito sobre as competências digitais e quero deixar expresso o meu desagrado pelo tipo de abordagem, arrogando-se a pretensão de classificar professores a partir de um inquérito anónimo e com grandes falhas conceptuais. Cúmulo da arrogância intelectual, os conselhos que pretendem dar a professores que não conhecem, que trabalham em contextos muito variados, com experiências e formações profissionais muito diversificadas, como se tivessem a receita do nirvana educativo.

Não têm dúvidas, inquietações? Há dinheiro europeu a ganhar em “transições digitais” e a partir daqui vale tudo para doutrinar os infiéis? Que tal, em vez do sermão encomendado, um pouquinho de humildade, ouvir os professores e compreender as suas necessidades, em vez de os querer obrigar, uma vez mais, a vestir um fato que não lhes serve, nem aos seus alunos, nem ao contexto educativo em que trabalham diariamente?

Há aqui demasiadas certezas, a começar pela concepção do digital e da inovação como bons em si mesmos. Discordo, acho que o digital é uma ferramenta, que pode ser bem ou mal usada. E inovar com base em pedagogias datadas e que já mostraram os seus erros e limitações pode ser, não um avanço, mas um claro retrocesso.

Convidam a reflectir, e eu acrescento um tópico importante para reflexão, sistematicamente ausente no discurso pró-digital: o custo de oportunidade. O tempo que se perde a dominar “ferramentas” que rapidamente se tornam obsoletas. E tudo o que deixa de se fazer e de aprender enquanto andamos entretidos com os gadgets tecnológicos.

Quem isto escreve trabalha profissionalmente com computadores há trinta anos, sempre teve curiosidade e interesse pelo mundo das TIC e compreende as suas potencialidades. Nada tenho contra a formação nesta área, de que também tenho beneficiado. Mas desagrada-me profundamente o tom triunfalista e propagandístico do discurso da “escola do século XXI”, nada próprio de professores e educadores. Há cinismo no convite a reflectir, quando no guião já constam as conclusões a que todos devemos chegar. Faltam a humildade e o pensamento crítico de que agora tanto se fala e que, na equipa de iluminados e acólitos que rodeia o SE Costa, tão pouco se pratica.

Começa mal…