Videoaulas no terceiro período?

TV.pngTiago Brandão Rodrigues consegue a triste proeza de resistir a onze minutos de entrevista televisiva sem conseguir dizer mais do que banalidades. Questionado sobre o que vai ser o terceiro período, mostrou-se incapaz de apresentar uma só ideia ou linha de rumo em relação ao futuro próximo. Nem sequer de transmitir alguma segurança e tranquilidade a alunos, famílias e profissionais da educação.

Ora a política, tal como a natureza, tem horror ao vazio. E se já o primeiro-ministro tinha admitido, na semana passada, que as aulas não irão recomeçar na data prevista, anteontem foi Pedro Siza Vieira a levantar a ponta do véu acerca do que o governo anda a planear. Mas que os responsáveis do ME não querem dizer…

Do que foi adiantado pelo ministro da Economia, percebe-se que a ideia é apostar em soluções baratas e low-tech e não em aproveitar a oportunidade para a ambiciosa “transição digital” que, neste governo, até tem direito a ministério. Ou seja, quem tem computador, que o utilize e aproveite; quem não tem, também não o irá ter: uns vídeos educativos a transmitir em emissões de TV ou canais de vídeo na internet e está feito.

Bem-vindos à educação do século XXI, brevemente disponível em qualquer lar português…

…questionado sobre como vai o Governo garantir que todos os alunos vão ter acesso aos conteúdos educativos durante o terceiro período, nomeadamente os que não têm acesso à Internet, o ministro de Estado, da Economia e Transição Digital, Pedro Siza Vieira, adiantou que estão a ser estudadas várias soluções, que podem passar por canais “do estilo youtube“, que permitem a transmissão de vários conteúdos em simultâneo ou também por fazer chegar os conteúdos pela televisão por cabo.

“Oitenta e três por cento dos lares em Portugal têm TV cabo. Podemos fazer chegar conteúdos às crianças também por essa via”, referiu o ministro, acentuando que não será um regresso à “Telescola” (até porque a quantidade de anos letivos em causa não permute replicar um modelo que em tempos foi aplicado apenas aos 5.º e 6.º anos), mas um modelo mais próximo de canais do estilo do Youtube.

Na entrevista conduzida por Paulo Baldaia, o ministro foi confrontado com as críticas que se fizeram ouvir nestes últimos dias pelo facto de os alunos sem acesso à Internet não terem possibilidade de manter o contacto com os professores e continuarem a ter aulas.

Na resposta, o ministro referiu que várias hipóteses estão a ser estudadas, que esta é também uma realidade “que nos mostra como temos de ser rápidos” e garantiu que o Ministério da Educação “está muito focado nesta situação”.

Um roteiro para o ensino a distância – e três contrapropostas

roteiro-ead.PNGProcurando mostrar que está atento e que tem iniciativa, o ME reage à suspensão forçada das aulas e à percepção geral de que tão depressa não serão retomadas. E apresenta o seu roteiro para a implementação de modalidades alternativas de ensino. Que terão de ser, forçosamente, não presenciais.

Os oito princípios enunciados seguem na linha do que tem sido a política educativa deste e do anterior ministério: muita parra e pouca uva. Enunciam-se ideias ambiciosas entremeadas com muita verborreia eduquesa. Contudo, quando chega a altura de concretizar, os profissionais das escolas descobrem-se, como é habitual, entregues a si mesmos. E com uma carga de tarefas e responsabilidades que vai muito além do que está ao seu alcance decidir e resolver.

Na verdade, este roteiro assemelha-se a um caderno de encargos dirigido às escolas públicas portuguesas. Só que, ao contrário do que sucede quando o Estado encomenda a construção de uma estrada ou um edifício, nada consta acerca dos deveres e obrigações do adjudicante.

Implementar a partir do zero um sistema de ensino a distância é uma missão impossível de concretizar num par de semanas, sobretudo se tivermos em conta que professores e alunos continuam confinados às suas casas e que o investimento público nesta área foi nulo ao longo da última década. Pelo que o ambicioso roteiro serve sobretudo para o ME apresentar serviço e, face ao evidente fracasso de um projecto que se quer construir a partir do telhado, apontar a dedo os culpados do costume: as escolas e os professores.

Por aqui não se têm soluções mágicas ou respostas milagrosas aos problemas da Educação. Mas tenta conhecer-se a realidade das escolas, do trabalho dos professores e do contexto social e familiar dos alunos. E é por isso que devolvo à procedência o lindo roteiro, acrescentando ao relambório eduquesmente correcto, três medidas concretas que serão indispensáveis para viabilizar, no terceiro período, qualquer arremedo de ensino a distância que se tente implementar:

  1. Ferramentas básicas para o EaD acessíveis e gratuitas para alunos e professores. Em vez de apresentarem vinte ou trinta aplicativos e plataformas que poderão ser usados por cada escola ou professor, disponibilizem o acesso gratuito a alguns serviços essenciais, de forma a poderem ser usados, sem constrangimentos, por todos os professores. Nalguns casos esses sistemas até já existem, como é o caso do Colibri, que permite aos docentes e investigadores do ensino superior aceder gratuitamente e sem limitações ao serviço de videoconferência Zoom. Do que é que estão à espera para alargar esta plataforma de acesso ao básico e secundário?
  2. Computadores para todos os alunos. Implementem de imediato – deveriam ter começado a tratar disso logo que decidiram encerrar as escolas – um programa de fornecimento de computadores a alunos que os não têm, acompanhado pelo reforço das redes móveis e fixas de internet. Esta é a única forma eficaz de combater a exclusão em tempo de isolamento social, garantindo que a Educação continua a ser um direito universal. E realce-se que quando falamos de direitos fundamentais não podemos fazê-los depender de caridades ou boas vontades locais. Independentemente das parcerias que se venham a estabelecer localmente, tem mesmo de ser o Estado a tomar a iniciativa e a criar as condições para que as soluções, expeditas e eficazes, se concretizem.
  3. Responsabilizar as famílias. É uma realidade de que se tem falado ainda pouco, mas que estas duas semanas deram para perceber. Muitos alunos desligaram por completo da escola durante este final de período antecipado. Os professores perderam-lhes o rasto, e nem sempre foi por não terem computador ou internet. É que nem todas as famílias estão a levar a sério a ideia da aprendizagem em casa. Depois de anos de campanha contra os TPC, está chegada a altura de o governo definir claramente um dever que os pais, em tempos de ensino online, têm de assumir sem hesitações nem desculpas: o de garantir que os filhos, desde que disponham dos meios para tal, correspondem às solicitações da sua escola e dos seus professores.

Até este já percebeu…

cotrim.JPGO Iniciativa Liberal defende a cedência temporária de material informático das escolas e instituições de ensino superior que não esteja a ser utilizado para garantir que os alunos continuem a ter aulas em casa. O partido liderado por João Cotrim Figueiredo está consciente da existência de desigualdades sociais e territoriais entre alunos e entende que é preciso colmatar a falta de computadores ou acesso regular à Internet em Portugal.

Caso para dizer, és socialista e não sabias!…

O regresso da Telescola?

telescolaNa quinta-feira passada, ninguém se apercebeu que a escola, tal como a conhecemos, estava prestes a mudar, a evoluir para novos campos impensáveis até então. Na sexta-feira, os professores começaram a aperceber-se que, pelo menos, durante duas semanas a escola ia ser diferente. No sábado e no domingo, deram-se conta que tinham de apoiar os seus alunos o melhor que podiam. Tinha começado a corrida contra o tempo.

Uns de uma forma outros de outra corresponderam ao que lhes estava a ser pedido, não abandonar os seus alunos, mesmo que eles os quisessem abandonar.

Rui Gualdino Ferreira reflecte, nas páginas do Público, sobre a volta de 180 graus que a escola, forçada pela pandemia do novo coronavírus, deu nos últimos dias.

De espaço de socialização e aprendizagem colectiva, a escola tenta reinventar-se, em tempo de isolamento social, através dos ténues laços que as plataformas e redes informáticas permitem estabelecer entre professores e alunos. Isolados nas suas casas, alguns alunos procuram corresponder às solicitações dos professores, enquanto outros encaram a paragem forçada como férias antecipadas.

E eis que surge um obstáculo, para muitos incontornável: a ferramenta de trabalho por excelência, tanto em contexto de teletrabalho como de ensino a distância, é o computador. Sucede que num número significativo de lares portugueses não existe hoje um único computador funcional. E mesmo quando está presente, é frequente não poder ser usado para fins escolares: o pai ou a mãe, a trabalhar a partir de casa, dele necessita imperativamente.

A verdade é que as novas gerações de telemóveis, com cada vez maiores e mais espantosas funcionalidades levaram a que, em muitas famílias de médios ou baixos rendimentos, o computador passasse a ser visto como um bem supérfluo; afinal de contas, para a grande maioria dos usos quotidianos da internet, o smartphone vai dando conta, cada vez melhor e mais rapidamente, da encomenda. Paradoxalmente, é hoje mais difícil colocar uma criança a trabalhar em casa no computador do que era há dez anos atrás, no tempo dos tão ridicularizados magalhães

Para grandes males grandes remédios, e a proposta de Rui Gualdino, que para alguns pode soar passadista ou fora de moda, faz sentido: porque não recuperar o conceito da velhinha Telescola, tirando partido da presença de uma televisão em praticamente todas as casas portuguesas, e passar a emitir as lições, para todos os alunos, pela TV?

Voltemos à Telescola. Durante 30 minutos, na televisão, um professor dissertava sobre um assunto, dando exemplos nas disciplinas em que era necessário ou demonstrando como se realizava este ou aquele exercício, nos 30 minutos restantes de aula os alunos exercitavam o que tinham acabado de ouvir através de trabalho pré-preparado e com o acompanhamento do professor presente na sala de aula. Com a tecnologia que temos hoje podemos fazer bem melhor do que nessa altura, mas nada substituirá uma sala de aula com todos os seus intervenientes. O contacto de um olhar, por vezes ensina mais que qualquer palavra.

Caso a ideia vingue, fica desde já, da minha parte, uma sugestão: entre os pedagogos do regime, os especialistas em educação, os candidatos a professor do ano, as “lideranças fortes” que impulsionam os projectos educativos que vão sendo premiados por esse país fora, haverá certamente excelentes profissionais dispostos a abraçar este desafio. Dêem-lhes então a oportunidade de mostrar a todo o país, ao vivo e a cores, as suas competências pedagógicas.

O mito dos nativos digitais

criancas-telemoveis

…Cai por terra ao fim de dois ou três dias de “aprendizagem online”…

Perdi a pass do mail professor, como faço para entrar?

Stor, fiz o trabalho no computador do meu colega, posso enviar através do moodle dele?

Professor, estou-lhe a enviar o trabalho da J… porque ela diz que não consegue abrir o mail.

Envio o trabalho do P… porque ele não conseguiu entrar no moodle.

Stora, eu posso-me encarregar de enviar os materiais aos colegas que não têm email…

Não conheço ainda estudos rigorosos e conclusivos que o demonstrem, mas o que empiricamente constatamos no quotidiano escolar é que as competências digitais do aluno médio não são superiores às dos seus colegas de há dez anos atrás. Pelo contrário.

A substituição do computador pelo smartphone no acesso ao mundo digital criou um novo perfil de utilizador, de um modo geral mais passivo e menos criativo. Os aparelhos portáteis tornam fácil colocar likes ou partilhar textos ou imagens que outros colocaram online, colocar as fotos tiradas através dos próprios telemóveis nos perfis das redes sociais, participar em jogos em rede ou em aplicações no domínio da chamada realidade aumentada.

Em contrapartida, torna-se difícil, às vezes penoso, ler textos longos, escrever ou criar apresentações nos telemóveis. A não ser que se usem aplicações que já trazem a papinha toda feita… Já nem falo em trabalhar com folhas de cálculo, edição de imagem ou de vídeo, programação, coisas em que os miúdos interessados se iniciavam com relativa facilidade quando tinham um computador funcional em casa – algo que, em muitas delas, já desapareceu.

Tudo isto nos mostra que nada deve ser dado por adquirido, muito menos uma suposta literacia digital obtida, logo nos primeiros meses de vida, por bebés imersos em tecnologia. Na verdade, tudo joga em torno de custos de oportunidade, e o que se ganha no facilitismo vistoso e sedutor da tecnologia pronta a consumir perde-se no desenvolvimento de competências e conhecimentos verdadeiramente estruturantes.

A alfabetização do século XXI

mafalda-moutinho.pngAo longo dos séculos o ser humano foi adaptando aquilo que foi necessário aprender e posteriormente ensinar. Nos séculos XIX e XX decidimos colocar cada disciplina numa caixa individual, desenvolvendo indivíduos super especializados numa determinada área e não no seu todo, como era apanágio desde a Roma Antiga, passando pelo Renascimento. Fizemos da prática de decorar conhecimentos uma autêntica arte, arte essa que é, na maioria das vezes, um factor de decisão para se ser bem-sucedido num cenário de avaliação de conhecimentos. A alfabetização tradicional percorreu o mundo, mas agora deve adaptar-se à nova linguagem do século XXI.

Vivemos na era da tecnologia, do software, dos smartphones, da Internet. O mundo mudou e nós mudamos com ele e não podemos esperar que os nossos nativos digitais, as nossas crianças, sejam apenas meros usuários da tecnologia como acabamos por ser todos nós adultos, uma espécie de emigrantes digitais.

É difícil condensar numa peça jornalística tamanho chorrilho de banalidades e lugares-comuns em torno dos “nativos digitais”, da “linguagem do século XXI” e dos perigos da internet!…

Cara Mafalda, dividir o estudo por diferentes disciplinas não significa atomizar ou compartimentar o saber, mas tão somente adquirir conhecimentos da forma que sabemos ser a mais eficaz, que é aprender uma coisa de cada vez. Quem é que lhe disse que não era assim na Antiguidade ou no Renascimento? O saber enciclopédico do classicismo – que a autora parece valorizar, para logo a seguir rejeitar, reduzindo-o a uma “arte de decorar”, não implica que todos saibam tudo. Pelo contrário, a especialização sempre existiu, e continuará a existir no mundo da educação e da cultura: o mestre com quem se aprendia a gramática ou a filosofia não era necessariamente o melhor matemático ou cientista. E sempre haverá quem queira aprender com quem sabe da matéria em vez de confiar em tudólogos superficiais e generalistas.

Quanto à conversa dos “nativos digitais”, deixe-me dizer-lhe que o conceito não passa de um chavão, uma patranha cuja base científica nunca foi demonstrada. Com mais ou menos telemóveis e computadores, a natureza humana continua a ser o que sempre foi. O maior ou menor à-vontade com as tecnologias depende não tanto da regularidade ou da precocidade no seu uso, mas sobretudo daquilo que fazemos com elas. E a verdade é que a grande maioria dos utilizadores fazem uma utilização essencialmente recreativa da internet e das ferramentas informáticas.

Apercebendo-se desta realidade contraditória – o banho digital que as crianças vão recebendo desde bebés não as prepara para os desafios do mundo em que irão viver – os arautos da alfabetização digital apontam agora a programação como nova literacia do século XXI. Num desiderato ambicioso, querem ensinar toda a gente a programar, de forma a dominarem, por dentro, as novas tecnologias.

Ora se não há dúvidas de que a programação é uma competência que desenvolve o raciocínio e o pensamento estruturado e como tal merece ter uma presença curricular, já é muito discutível pretender que a generalidade das pessoas careça de competências aprofundadas numa área do conhecimento muito técnica e em constante transformação. Ou que tenha sequer apetência para os adquirir. Defender que precisamos de saber programar para usar um computador ou telemóvel de acordo com as nossas necessidades é o mesmo que dizer que precisaríamos de conhecer toda a mecânica do nosso automóvel para sermos capazes de o conduzir de forma competente.

Para o final, a crónica entra na sua parte mais delirante, com a autora, num exercício tão pretensioso quanto superficial, a pretender estabelecer as bases do currículo escolar para o século XXI. Assim, à já referida programação, que considera a alfabetização do século XXI, a jovem escriba do Público acrescenta o “educar para os perigos da internet”. Junta-lhes a moda do momento, as ferramentas que desenvolvam a inteligência emocional e mais umas sessões sobre… “reanimação cardiopulmonar”…

Quanto às referências para a elaboração de um tão sui generis programa curricular, Mafalda Moutinho cita apenas uma: Steve Jobs, o malogrado fundador da Apple, um entusiasta do ensino da programação. Sem mais ideias, e porque a converseta já vai longa, deixa uma sugestão aos fazedores de currículos: perguntar aos pais o que querem que os filhos aprendam.

Pela minha parte, atrever-me-ia a propor à Mafalda que fizesse ela mesma esse exercício. Perguntar aos pais que têm filhos em idade escolar o que gostariam que eles aprendessem. Iria provavelmente reparar que nem todos os pais querem o mesmo. Notaria que muitos não lhe saberiam responder. E ficaria certamente surpreendida com o teor de muitas respostas…

O encantamento das novas tecnologias

bebe-telemovelInteressantes reflexões de Santana Castilho sobre a escola dos tablets e da internet massificada, dos nativos digitais e do conhecimento instantâneo. As pseudo-evidências que nos servem diariamente, nos media e na propaganda das redes sociais, até mesmo nas forma(ta)ções para professores, e que é urgente desconstruir…

Com alguma ligeireza discursiva tornou-se comum falar de um novo tipo de crianças, as chamadas nadas digitais. Como se estivéssemos em presença de uma espécie de alteração genética e não devêssemos antes referir, quando muito, uma alteração epigenética dos pais, da sociedade e da relação que uma e outros vão estabelecendo com as crianças. O mundo digital não mudou as crianças. O que as mudou foi um conjunto de comportamentos alienantes que os adultos projectam nelas, de modo pernicioso, designadamente a crescente falta de envolvimento parental no processo de desenvolvimento das crianças e a galopante substituição das relações pessoais pelo uso exagerado das novas tecnologias.

Os nados digitais têm uma enorme vantagem para os adultos digitais: ficam sossegados e silenciosos, sem incomodar, enquanto tiverem um telemóvel ou uma consola de jogos nas mãos. O que perturba os adultos digitais são as crianças normais, as crianças activas, que fazem perguntas e exploram o mundo que as rodeia, brincando livremente. A marca de fabrico de uma criança não é digital. É humana.

A visão, naturalmente certa, segundo a qual a chamada revolução digital promove conhecimento e progresso não oblitera outra vertente do fenómeno: refiro-me às cadeias de negócios que lhe estão associadas: do lado de cá, a Apple, a Google, a Facebook e a Amazon; do lado de lá a Baidu, a Alibaba e a Tencent. O que as caracteriza? O uso dos mais modernos meios digitais e das mais sofisticadas redes informáticas para estabelecer acervos gigantescos de informações sobre a vida dos cidadãos, que vão transformando em consumidores domados quando não em votantes guiados. Este é o lado da revolução digital que pode, cada vez mais, condicionar a autonomia e a independência dos indivíduos. Nenhum professor pode, deve, deixar de estar atento a este tipo de consequências. Quem esteja minimamente atento nota que há uma alteração das faculdades sensoriais e dos comportamentos das pessoas. E neste quadro, resulta óbvio que a cativação dos jovens não é inocente. Paulatinamente, vamos perdendo lógicas comunicacionais e processos de mobilização de conhecimento, apesar de serem cada vez mais numerosos os estudos que identificam mutações negativas nos esquemas cognitivos dos jovens. A busca voraz de estímulos e de informação esgota sem consolidar conhecimento sólido.

As chamadas novas pedagogias não passam, na maior parte dos casos, de erros e falsas esperanças, particularmente quando transmitem a ideia de que as tecnologias são a panaceia. Sou dos que está convicto de que o seu uso em exagero apenas torna mais difícil controlar crianças já de si hiperestimuladas. Sei que incorro no politicamente incorrecto, mas pertenço ao grupo dos que coloca muitas reservas ao uso massivo de computadores, telemóveis e outros gadgets tecnológicos em contexto escolar. Há pedagogos que afirmam que a escola tradicional é chata e só serve para gerar crianças submissas. Há quem diga que não é preciso decorar nada porque tudo está no Google. O Google é uma ferramenta poderosa para quem sabe o que procura. Mas, para quem não sabe, o Google não serve para nada, a não ser para prejudicar a maturação intelectual do aluno.

Há pedagogos que proclamam que é preciso aprender a aprender, menosprezando, assim, o valor intrínseco do conhecimento. Penso que aprender na escola exige objectos concretos de aprendizagem, que não diletâncias abstractas, como se pudéssemos aprender a pensar sem pensar em algo. Confesso que comungo antes da prevalência da ideia tradicional de uma escola baseada no esforço do aluno, sob a orientação competente do professor.

Excerto de uma conferência recente de Santana Castilho na Escola Secundária Sebastião e Silva, em Oeiras. O resto do texto encontra-se aqui.