O fim dos almoços grátis

A Google tem vindo a fazer algumas alterações na sua Suite…infelizmente com algo que não considero boas notícias.

Há pouco tempo, as escolas que usavam Google na versão gratuita, utilizavam a plataforma G Suite for Education, havendo também quem optasse pela versão G Suite Enterprise for Education, uma versão paga.

Até aqui não havia grandes problemas porque as diferenças entre uma e outra não eram assim tão evidentes, pelo menos aos olhos da grande parte dos utilizadores.

No entanto, a Google decidiu mudar a sua estratégia e converteu o seu G Suite em Google Workspace for Education Fundamentals e a sua versão paga, passou a chamar-se Google Workspace for Education Plus, mas…criou dois novos pacotes pagos no meio destas duas versões.

Ou seja, neste momento, para a educação a google disponibiliza quatro versões, uma gratuita e três pagas. 

Onde é que eu vejo as más notícias…é que as novas funcionalidades que vão saindo nas aplicações que a Suite tem, as melhores são pagas, algo a que não estávamos habituados.

A ilusão do “software grátis” liga mal com um sector, o das novas tecnologias da informação, pautado por grandes investimentos, pessoal qualificado bem remunerado e, acima de tudo, uma estratégia concentracionária e monopolista seguida pelas grandes multinacionais que aqui operam.

Actualmente, o que estas empresas nos oferecem “grátis” é geralmente uma de duas coisas. Uma versão de funcionalidades limitadas, destinada a convencer-nos a comprar o pacote completo. Ou então uma forma mais ou menos subtil de nos extraírem dados e informações que serão posteriormente rentabilizados, aplicando-se a velha máxima de que se não paga pelo produto, você é o produto!…

Quando o súbito confinamento de há uma ano atrás obrigou à implementação, quase de um dia para o outro, do apropriadamente chamado ensino remoto de emergência, nenhuma das grandes empresas com olho no sector quis excluir-se do processo de intensa busca de soluções tecnológicas para prosseguir as aprendizagens escolares num contexto não presencial. Foi assim que suites inicialmente concebidas para a produtividade empresarial, como o Microsoft Teams ou o G-Suite, foram oferecidas às escolas, para que construíssem, com base nelas, as suas plataformas de ensino à distância. Para lá do aparente altruísmo das multinacionais, estão decisões estratégicas bem ponderadas: trata-se de barrar caminho à concorrência, ganhar quota num mercado em crescimento explosivo, promover a utilização e subscrição de outros produtos e serviços da empresa e, numa fase de consolidação do sector, começar a cobrar pelos serviços prestados.

Assim, enquanto alguns se espantam com a aparente “mudança de estratégia” da Google, eu interrogo-me se poderia ser de outra maneira. Os sistemas em que se baseiam as plataformas até aqui “oferecidas” assentam em infraestruturas dispendiosas – potentes servidores, computação em cloud, vultuosos e constantes investimentos na manutenção e desenvolvimento de novas funcionalidades. Nada disto é barato, e não foi a praticar a caridade que as empresas tecnológicas produziram alguns dos maiores multimilionários do mundo. Para quem quiser tirar todo o partido da tecnologia disponível, a solução é pagar para a ter, como se faz no mundo empresarial. Mas na educação pública, onde qualquer investimento tende a ser visto como despesa incomportável, dificilmente haverá recursos para esse efeito.

Com a previsível reabertura das aulas presenciais nos próximos tempos, a questão das plataformas de E@D poderá ficar em banho-maria. A procura de soluções de qualidade nesta área deixará de ser uma prioridade, face à necessidade de trabalhar presencialmente na recuperação do muito que não pôde ser adequadamente ensinado à distância. Mas o princípio da disponibilização da tecnologia de suporte ao que nos dizem ser a educação do século XXI apenas a quem a pode pagar já foi assumido. Será mais um factor a contribuir para o agravamento das desigualdades educativas, ou acabaremos por constatar, mais tarde ou mais cedo, que o futuro da educação não passa por aqui?..

Ensino remoto de emergência, v2.0

“Uma boa aula à distância não pode ser igual à presencial, porque os níveis de concentração não são comparáveis. O professor tem de recorrer a recursos diferenciados e mais atrativos. Devemos variar as estratégias de forma a fomentar a autonomia do aluno”, sublinha. A professora de Espanhol não esquece, também, o papel fulcral do docente no bem-estar emocional dos alunos. “É importante que os alunos sintam que o professor está lá e que se preocupa com o estado emocional deles”, conclui.

Marco Bento, investigador da Universidade do Minho, e especialistas em e@d também refere ao DN que os professores estão agora mais preparados para o desafio, contudo, teme que alguns erros cometidos em março do ano passado não sejam corrigidos. “A minha perspetiva é que não existirá ensino à distância, uma vez mais, mas a versão 2.0 do ensino remoto de emergência. Nesse caso, os professores dominam melhor a tecnologia, o que os pode tornar mais ágeis, mas a questão de fundo permanece inalterável, ou seja, o conhecimento de práticas pedagógicas, que mais do que ativas possam ser interativas com os alunos. Não posso deixar de referir, que temo que a versão 2.0 não seja mais do que um upgrade substancial, porque grande parte dos planos de ensino remoto de emergência dos agrupamentos continuam a ser pautados por cronogramas e horários muito similares ao presencial, antevejo a continuidade da replicação, ou digitalização, de um ensino presencial”, explica.

José António Moreira, docente da Universidade Aberta, deu formação a milhares de docentes nos últimos meses e partilha da opinião de Marco Bento. Para o especialista, “não basta ligar o PC e não podemos passar essa má imagem”. Há uma série de equívocos quando se fala em e@d. O que está a acontecer não é ensino a distância, mas sim remoto ou digitalizado. Há uma transferência da realidade das práticas da escola física para a ligação de uma câmara. Nada contra isto, mas isto não é o que preconizamos nos modelos de educação à distância. Uma boa aula tem uma série de condições obrigatórias na geografia virtual. Usa-se o termo e@d sem o estar a implementar. Não houve ajustamento do e@d, mas uma transferência online”, defende.

O DN toca no ponto fulcral da problemática do ensino à distância: além das suas limitações óbvias, os bons resultados que ainda assim pode ter dependem de se adaptarem metodologias e estratégias a esta modalidade de ensino.

Mas de tanto se repisar inutilmente a ideia de que nada substitui a escola presencial, caiu-se num erro de palmatória que a experiência do primeiro confinamento nos deveria levar a evitar: se o ensino presencial é que é bom, então vamos tornar as sessões online o mais próximas possível das aulas presenciais, a começar pela organização escolar. Quando amanhã de manhã for dado o pontapé de saída de mais uma temporada de ensino remoto, muitos alunos terão um horário escolar muito semelhante ao da escola presencial. Nalguns casos, com o tempo destinado às sessões síncronas a chegar aos 100% da mancha horária.

A peça do DN faz uma análise aprofundada mas esclarecedora das dificuldades de implementar um verdadeiro ensino à distância quando nos limitamos a tentar replicar as práticas da sala de aula, como se fosse possível, por videoconferência, manter os mesmos níveis de comunicação e concentração que se conseguem nas aulas tradicionais. E salienta um dado pertinente: o uso de plataformas e ferramentas de comunicação à distância vai estar cada vez mais presente nas nossas vidas futuras. Há uma hibridação entre ambientes físicos e virtuais que vai fazendo o seu caminho, e há evidentes potencialidades na E@D para promover a muito falada transição digital que não é seguro que saibamos aproveitar.

Tecnologia e educação

Remando contra a corrente politicamente correcta que advoga as virtudes da tecnologia na Educação, escrevi há dois meses atrás sobre Como dar mau uso a um telemóvel na sala de aula. Recupero agora, promovendo-à categoria de post, um pertinente e bem fundamentado comentário recente da leitora Carolina Antunes Vieira.

A introdução das novas tecnologias na Educação traz consigo importantes vantagens e enormes desafios. Devemos estar atentos a essa realidade, mas não cair na armadilha de encarar as ferramentas tecnológicas como boas em si mesmas. É necessário analisar criticamente o impacto das tecnologias, tanto nas enormes vantagens como nos riscos que podem trazer consigo.

Os alunos que mais usam as tecnologias são os que apresentam piores resultados de aprendizagem.
É o que concluem estudos credíveis como os da OCDE, testes PISA, e muitos outros, de especialistas vários. A que se soma o relatório Comportamentos Aditivos aos 18 anos – Inquérito aos jovens participantes no Dia da Defesa Nacional – 2018, do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD) do Ministério da Saúde.

Nele é referido que cerca de um quarto de jovens relata problemas com a internet, número que aumentou face a 2017. O tipo de problema mais comum é o “rendimento na escola/trabalho, seguindo-se as situações de mal-estar emocional e os problemas com comportamentos em casa.” Os problemas de rendimento na escola/trabalho são atribuídos por 15,9% de jovens à internet, por 4,4% às bebidas alcoólicas e 2,9% a substâncias ilícitas.

Como professora, observo isto mesmo, todos os dias. Os alunos “agarrados” às tecnologias têm sempre a memória de trabalho cheia, nunca retêm o que ouvem nem o que leem. Não são capazes de pensar lenta e profundamente, São ansiosos. Não têm paz interior. Também já vi alguns perderem-se na vida com jogos on-line. Evoluindo para outras adições, passados poucos anos.

Prontificam-se extasiados para encontrar uma resposta no Google, mas na hora de escrever o que querem, já não se lembram. Perdem-se nos distratores das máquinas. O tempo passa e a resposta não vem. Também porque não compreendem o que leem. Nem sabem escrever. Nem organizar o pensamento. Muito menos questionar, criticar e criar, como pretende o Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória, de 2017.

Entretanto outro aluno, vai ao manual e encontra rapidamente a resposta. Explica-a, fundamenta-a com factos bem selecionados (relevantes), bem organizados e bem comunicados.

Se assim é, se as tecnologias estão a hipotecar o futuro dos jovens e da sociedade, por que razão está, o Governo Português, a avançar com o Projeto de desmaterialização dos manuais? Quem ganha com isso? Valia a pena investigar.

Negócios ruinosos, para o presente e futuro já há que chegue. Estes que se refletem nos alunos que estudam nas escolas públicas, à mercê de políticas sem fundamento à vista, é particularmente nefasto e imoral.

Questionário das competências digitais

O “esquema conceptual”, que a pedagogia do século XXI não vai lá sem estes bonecos (des)inspiradores…

Nada disto é novo, especialmente interessante ou motivador. Há paletes de dinheiro europeu para gastar em torno da chamada “transição digital” e embora a parte de leão vá para as infraestruturas e os equipamentos, não faltará também para a habitual “formação”.

A este propósito, respondi hoje ao inquérito online que os centros de formação, cumprindo ordens superiores, enviaram aos professores. E irritei-me. Não tanto com as perguntas formuladas, mas sobretudo com a concepção do documento, que tem a pretensão de classificar o nível de competências digitais dos respondentes. Acrescentando, para cada resposta, um feedback que pretende instruir sobre a resposta certa e a atitude recomendável relativamente a cada item.

Respeitosamente, usei o email indicado para dar conta, ao “embaixador” do Plano no meu centro de formação, do meu protesto e das minhas discordâncias. O texto que se segue é uma adaptação dos emails enviados e fica também aqui no blogue, em jeito de registo para memória futura.

Acabei de submeter o inquérito sobre as competências digitais e quero deixar expresso o meu desagrado pelo tipo de abordagem, arrogando-se a pretensão de classificar professores a partir de um inquérito anónimo e com grandes falhas conceptuais. Cúmulo da arrogância intelectual, os conselhos que pretendem dar a professores que não conhecem, que trabalham em contextos muito variados, com experiências e formações profissionais muito diversificadas, como se tivessem a receita do nirvana educativo.

Não têm dúvidas, inquietações? Há dinheiro europeu a ganhar em “transições digitais” e a partir daqui vale tudo para doutrinar os infiéis? Que tal, em vez do sermão encomendado, um pouquinho de humildade, ouvir os professores e compreender as suas necessidades, em vez de os querer obrigar, uma vez mais, a vestir um fato que não lhes serve, nem aos seus alunos, nem ao contexto educativo em que trabalham diariamente?

Há aqui demasiadas certezas, a começar pela concepção do digital e da inovação como bons em si mesmos. Discordo, acho que o digital é uma ferramenta, que pode ser bem ou mal usada. E inovar com base em pedagogias datadas e que já mostraram os seus erros e limitações pode ser, não um avanço, mas um claro retrocesso.

Convidam a reflectir, e eu acrescento um tópico importante para reflexão, sistematicamente ausente no discurso pró-digital: o custo de oportunidade. O tempo que se perde a dominar “ferramentas” que rapidamente se tornam obsoletas. E tudo o que deixa de se fazer e de aprender enquanto andamos entretidos com os gadgets tecnológicos.

Quem isto escreve trabalha profissionalmente com computadores há trinta anos, sempre teve curiosidade e interesse pelo mundo das TIC e compreende as suas potencialidades. Nada tenho contra a formação nesta área, de que também tenho beneficiado. Mas desagrada-me profundamente o tom triunfalista e propagandístico do discurso da “escola do século XXI”, nada próprio de professores e educadores. Há cinismo no convite a reflectir, quando no guião já constam as conclusões a que todos devemos chegar. Faltam a humildade e o pensamento crítico de que agora tanto se fala e que, na equipa de iluminados e acólitos que rodeia o SE Costa, tão pouco se pratica.

Começa mal…

A ilusão do digital

O Agrupamento de Escolas D. Afonso III está entre os que vão receber computadores através de uma iniciativa do BPI e Fundação la Caixa de alargamento da escola digital. São 50 os computadores destinados ao agrupamento transmontano, já que é um dos nove em todo o país que está envolvido num projecto-piloto relacionado com a desmaterialização dos manuais escolares, contribuindo esta doação para o funcionamento da iniciativa que já está a ser aplicada desde o início deste ano lectivo em 2 turmas do 5.º ano,com 40 alunos no total. “Os nossos alunos não têm livros físicos, os livros são on-line e em computador. É um projecto-piloto para ser implementado em todo o país se tiver sucesso. Para já está a ter, segundo nos dizem os oito colegas das outras escolas e nós também confirmamos em Vinhais”, afirmou Rui Correia, o director do agrupamento. O programa é da responsabilidade do ministério da Educação que distribuiu por 9 escolas 450 computadores dos 1000 doados pelo BPI e Fundação La Caixa. “Este programa é bastante interessante porque os alunos fazem uma auto-regulação das aprendizagens no momento, porque os resultados dos testes são conhecidos automaticamente, não é preciso que o professor leve para casa, corrija e depois faça nova correcção n aaula. Os programas dão automaticamente o resultado ao aluno e ele sabe onde teve a falha, tal como o professor e o encarregado de educação, que também têm acesso a este programa”, frisa ainda Rui Correia.

É fácil o deslumbramento com as novas tecnologias, sobretudo quando se está entre os eleitos que recebem computadores a rodos para “desmaterializar” manuais e promover processos de aprendizagem automática e avaliação instantânea.

Falta explicar que nem tudo se consegue ensinar e avaliar desta forma. Ultrapassada a velha dicotomia entre a escola centrada no professor ou no aluno, vai-se aos poucos consensualizando a ideia de que é na relação pedagógica que deve estar o cerne do ensino/aprendizagem. Mas as ilusões trazidas pelo novo mundo digital podem pôr isto em causa. Quando se cede à tentação de centrar nas tecnologias educativas o processo educativo, tornando-as um fim em si mesmo, em vez de meras ferramentas ao serviço da pedagogia, o resultado inevitável é a desqualificação do trabalho dos professores e o empobrecimento das aprendizagens dos alunos.

Como dar mau uso a um telemóvel

O telemóvel na sala de aula veio para ficar? Na Escola da Boa Água faz as vezes do manual

Telemóveis, tablets e portáteis fazem a vez dos livros na Escola da Boa Água, na Quinta do Conde, uma das participantes do projecto-piloto do Ministério da Educação para avaliar o sucesso de deixar de lado os manuais escolares em papel.

Porque se insiste no erro, é importante reafirmar, alto e bom som, as vezes que forem precisas: transferir a leitura de um manual escolar para o ecrã de um telemóvel é uma má ideia. Está mais do que demonstrado que lemos, compreendemos e retemos mais e melhor informação quando o fazemos a partir do suporte em papel.

Os telemóveis poderão ter vindo para ficar, e certamente poderão ter o seu lugar na sala de aula. Mas é pouco inteligente usá-los em substituição dos manuais, em vez de tirar partido das suas reais potencialidades educativas.

Movido pela curiosidade, fui espreitar o site da Escola da Boa Água, para descobrir que é uma daquelas escolas que se atiraram de cabeça nos pseudo-modernismos educativos dos planos de inovação, abolindo as disciplinas curriculares e trabalhando com base em projectos, tutorias e trabalhos de grupo.

Os resultados é que ainda não convencem…

Fonte: Infoescolas

Cretinos digitais

Num livro provocador – A Fábrica de Cretinos Digitais – o neurocientista Michel Desmurget denuncia: a introdução precoce de todo o tipo de ecrãs e maquinetas digitais na vida das crianças está a tornar as novas gerações menos inteligentes do que as anteriores.

Por muito sedutoras que sejam as falsas teorias em torno dos “nativos digitais”, a verdade é que a investigação tem vindo a documentar resultados consistentemente mais baixos nos testes de QI nas crianças expostas, desde tenra idade, a todo o tipo de ecrãs.

Ao contrário dos mitos sobre o novo mundo digital, as teses de Desmurget apoiam-se em argumentação sólida e evidência científica. Enquanto o livro, já best seller em França, não tem edição por cá, sugiro a leitura integral da extensa e esclarecedora entrevista do autor à BBC, da qual extraí e adaptei as passagens que a seguir se transcrevem.

[O uso de dispositivos digitais causa a] diminuição da qualidade e quantidade das interacções intra-familiares, essenciais para o desenvolvimento da linguagem e do emocional; diminuição do tempo dedicado a outras actividades mais enriquecedoras (trabalho de casa, música, arte, leitura, etc.); perturbação do sono, que é quantitativamente reduzido e qualitativamente degradado; super-estimulação da atenção, levando a distúrbios de concentração, aprendizagem e impulsividade; sub-estimulação intelectual, que impede o cérebro de desenvolver todo o seu potencial; e o sedentarismo excessivo que, além do desenvolvimento corporal, influencia a maturação cerebral.

Observou-se que o tempo gasto em frente a um ecrã para fins recreativos atrasa a maturação anatómica e funcional do cérebro em várias redes cognitivas relacionadas à linguagem e à atenção. Deve-se ressaltar que nem todas as actividades alimentam a construção do cérebro com a mesma eficiência. Actividades relacionadas com a escola, trabalho intelectual, leitura, música, arte, desportos… todas têm um poder de estruturação e nutrição muito maior para o cérebro do que os ecrãs.

Os alunos devem aprender habilidades e ferramentas básicas de informática? Claro. Da mesma forma, pode a tecnologia digital ser uma ferramenta relevante no arsenal pedagógico dos professores? Claro, se faz parte de um projecto educacional estruturado e se o uso de um determinado software promove efectivamente a transmissão do conhecimento. Porém, quando um ecrã é colocado nas mãos de uma criança ou adolescente, quase sempre prevalecem os usos recreativos mais empobrecedores. Isso inclui, em ordem de importância: televisão, que continua sendo a tela número um de todas as idades (filmes, séries, clipes, etc.); depois os videojogos (principalmente de acção e violentos) e, finalmente, na adolescência, um frenesim de auto-exposição inútil nas redes sociais.

Em média, [as crianças e os jovens costumam passar em frente aos ecrãs] quase três horas por dia para crianças de 2 anos, cerca de cinco horas para crianças de 8 anos e mais de sete horas para adolescentes. Isso significa que antes de completar 18 anos, nossos filhos terão passado o equivalente a 30 anos lectivos em frente às telas ou, se preferir, 16 anos trabalhando em tempo integral! É simplesmente insano e irresponsável.Read More »

Alunos preferem manuais em papel

Quando o Governo se prepara, à boleia da transição digital, para torrar mais uns milhões de euros no duvidoso projecto de desmaterialização dos manuais escolares, é importante que se diga bem alto, e as vezes que forem precisas, que esta não é uma necessidade real.

Os alunos continuam a dar-se bem com os manuais em papel e o seu uso não é incompatível com as novas tecnologias. Bem pelo contrário, e quem o diz é uma fonte insuspeita: a Porto Editora, que apesar de ter disponibilizado os manuais e os recursos multimédia da Escola Virtual a alunos e professores, constatou que, mesmo no ambiente do ensino online, os livros em papel continuaram a ser usados pela grande maioria dos alunos.

Indo de encontro a esta nova realidade, a Porto Editora realizou um inquérito de satisfação da sua plataforma a 11 mil professores e encarregados de educação sobre um estudo de satisfação sobre as plataformas educativas e de comunicação, fornecendo elementos úteis para possíveis cenários futuros, incluindo a transição digital. O inquérito foi feito nas duas primeiras semanas de julho.

Os resultados mostram que 76% dos encarregados de educação salientam a importância do manual escolar em papel, e 50% dos professores têm opinião semelhante. Nesse sentido, o estudo revela que 96% dos alunos utilizaram manuais em papel, e que 52% nunca acedeu à respetiva versão digital. Este dado justifica-se pelo facto de dezenas de milhares de alunos não terem acesso a computador ou internet em casa.

O estudo indica que o digital e o papel podem-se complementar. E que 89% dos professores reconheceram que passaram a usar mais as funcionalidades proporcionadas pelas plataformas educativas (vídeos, interatividades, recursos associados aos manuais digitais, fichas editáveis de avaliação, etc.).

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Uma nota final para distinguir duas realidades que às vezes se confundem. Uma coisa são os vídeos, áudios, animações interactivas, fichas formativas e sumativas para resolver online: estes materiais complementam o ensino tradicional, recorrendo às novas tecnologias para fornecer, a alunos e professores, ferramentas pedagógicas de elevado potencial. São úteis, serão cada vez mais usados e não podem, obviamente, ser fornecidos em papel.

Completamente diferente é o manual disponibilizado em versão electrónica no site da editora, que se limita a reproduzir os textos e as imagens disponíveis no manual em papel. Aqui a vantagem vai claramente para o livro físico, num formato bem mais prático, amigável e manipulável do que a versão digital. Sempre disponível, sem necessidade de computadores ou tablets, baterias carregadas ou acesso à internet…

Escola digital

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Cada computador usado para fins pedagógicos nas escolas tem que ser partilhado por cinco alunos. Este rácio tem vindo a crescer nos últimos oito anos e é maior nas escolas públicas do que nas privadas, revelam dados oficiais agora publicados. Os equipamentos existentes também estão a ficar velhos. Só 16% foram comprados há menos de três anos.

Proclama-se aos quatro ventos que a escola do futuro terá uma presença forte das tecnologias e das literacias digitais.

Prometem-se computadores para todos, começando pelos alunos carenciados e terminando nos restantes. Anunciam-se 400 milhões para a “transição digital” mas, a mês e meio do arranque do novo ano lectivo, os directores escolares confessam não ver, nem rasto do dinheiro, nem sombra dos equipamentos para apetrechar as escolas e fornecer aos alunos.

E não esquecer os professores, cuja proverbial boa vontade e espírito de sacrifício têm propiciado, da parte do ME e das direcções escolares, inúmeros abusos. Como profissionais que são, têm o direito, como qualquer outro trabalhador dependente, a serem fornecidos do material necessário para trabalhar.

Sucedem-se anúncios e promessas dos responsáveis políticos mas, pelas escolas, a realidade não muda há muito tempo. O material que ainda trabalha não vai para novo e as carências agravam-se de ano para ano. Para projectar um vídeo ou apresentação, aceder à internet ou escrever um simples sumário numa sala de aula, usam-se equipamentos com mais de dez anos. Que se tentam, cada vez com maior custo, manter a funcionar.

Tecnologia vintage

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Cartoon de origem indeterminada, em circulação nas redes sociais.