Professor inovador…

…e aberto às novas tecnologias, é o que escreve a marcador no ecrã de uma TV de 60 polegadas?…

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Internet lenta: culpa das escolas, ou do ME?

internet-lenta.JPGHá escolas que estão a dar aos alunos privilégios de acesso à internet que só deveriam ser de professores e administrativos. A alerta parte da própria Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC), que o usa para justificar os bloqueios na rede da educação das últimas semanas, e que numa mensagem recente enviada aos diretores escolares lembra que a situação se “afigura como um risco de segurança gravíssimo”, por poder expor aos estudantes informação dos servidores das escolas e dos sistemas do Ministério da Educação.

Com base na notícia do DN parcialmente transcrita, no comunicado da DGEEC publicado no blogue DeArLindo e na minha própria experiência enquanto utilizador, eis os factos que se podem apurar:

  • Na semana passada, os acessos à internet fornecida às escolas pelo ME, que não são propriamente rápidos, tornaram-se ainda mais lentos do que o habitual;
  • A DGEEC, que gere esta rede de acessos e foi alertada para os problemas que estavam a surgir, não conseguiu descobrir, como ela própria admite, a origem do problema;
  • A rede existente há muito que não tem capacidade para responder a todas as solicitações dos muitos utilizadores, espalhados por todo o país.

Contudo, em vez de, identificados os problemas, se assumirem compromissos para a sua resolução, prefere-se inventar “riscos de segurança gravíssimos” criados pelas escolas, que estariam a autenticar a entrada de alunos com “privilégios” que lhes permitiriam acessos indevidos dentro do sistema informático. Passando assim a culpa para as escolas, e para o comportamento irresponsável ou negligente dos responsáveis locais pelos acessos à rede do ministério.

Na realidade nada disto faz sentido, pois estamos a falar de acesso à internet, não aos servidores das escolas ou do ministério ou a plataformas neles instaladas, as quais têm os seus próprios acessos e regras de segurança. O alarmismo que se tenta criar destina-se apenas, como é óbvio, a desviar as atenções do problema de fundo, que é um sistema informático cada vez mais obsoleto e que tarda em ser melhorado ou substituído.

A verdade é que a propaganda ministerial enche a boca com as novas tecnologias, as literacias digitais e a sociedade da informação, mas pouco ou nada se faz para dotar as escolas de uma rede informática capaz de dar resposta às solicitações criadas pelos novos “paradigmas” de ensino e aprendizagem.

O quarto macaco

Aos três macaquinhos já conhecidos, junta-se o macaco do século XXI, que assimila os outros três: não ouve, não fala e não vê ninguém…

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Sucata tecnológica

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O material informático das escolas não é reforçado, nem atualizado, desde o Plano Tecnológico de José Sócrates, há quase dez anos.

O novo “Perfil do aluno” que deve orientar o sistema de ensino pressupõe a aprendizagem de múltiplas literacias e competências tecnológicas, mas a esmagadora maioria dos agrupamentos têm computadores “obsoletos” e uma fraca rede de Internet que está sempre a cair.

Há pelo menos um legado positivo que ficou, nas escolas, do primeiro governo de Sócrates e da sua detestada ministra Lurdes Rodrigues: os computadores, projectores, quadros interactivos e redes sem fios com que todas foram equipadas. Este investimento torna-se ainda mais assinalável quando damos conta de que, de então para cá, praticamente nada se gastou na modernização, em muitos casos na simples manutenção, do material que então foi instalado e que, passados quase dez anos, acusa o implacável peso da idade e do uso intensivo.

É verdade que, se muitos equipamentos permanecem funcionais, o bom senso recomenda a sua substituição gradual, até para evitar investimentos mais pesados no futuro. Sobretudo, não faz sentido proclamar as virtudes da tecnologia educativa e das “competências tecnológicas” e ao mesmo tempo colocar a zero a rubrica que, nos orçamentos escolares, permite a aquisição de material informático. Nem continuar a adiar a remodelação indispensável das redes wireless das escolas que, com a generalização do uso de smartphones pelos alunos, há muito deixou de dar resposta adequada ao volume de solicitações.

A situação, que o JN trouxe hoje à primeira página da sua edição impressa, é bem conhecida de quem trabalha diariamente nas escolas e vai lidando com a degradação lenta do material. E se nalguns lados ainda se vai conseguindo, por portas travessas e com muito esforço, ir mantendo a maioria dos equipamentos a funcionar, a nível global, a realidade é o oposto do que nos querem vender como escola para o século XXI: haverá hoje menos computadores em funcionamento do que existiam há meia dúzia de anos atrás. Em contrapartida, as arrecadações de material estão cada vez mais atulhadas de sucata informática.

O problema não dá para remeter, como tantos outros, para a “autonomia das escolas”: é uma questão nacional, põe em causa o direito à educação e exige o assumir de responsabilidades, ao mais alto nível, do Ministério da Educação.

Crianças que não sabem pegar num lápis

desenhar.jpg…o uso excessivo de ecrãs tácteis está a impedir que os músculos dos dedos das crianças se desenvolvam de forma correcta, revela o The Guardian, depois de ouvir vários especialistas britânicos.

Segundo os médicos e terapeutas ouvidos, as crianças têm cada vez mais dificuldade em pegar num lápis ou numa caneta e isso deve-se ao uso das novas tecnologias, desde cedo. “As crianças não entram na escola com a força e destreza com que entravam há cerca de dez anos”, revela Sally Payne, terapeuta pediátrica da Fundação Heart of England, ao The Guardian.

Sally Payne conta que as crianças que chegam à escola recebem um lápis, mas são cada vez menos as que são capazes de segurá-lo porque não têm destreza e as aptidões fundamentais do movimento. “Para poder agarrar num lápis e movê-lo é necessário um forte controlo sobre os músculos dos dedos. As crianças precisam de oportunidades para desenvolver essas competências”, acrescenta a terapeuta. Oportunidades essas que podem ser desenvolvidas em casa ou no pré-escolar.

Sabe-se há muito que um dos processos evolutivos que mais contribuiu para o aparecimento da humanidade foi o desenvolvimento da motricidade fina associada às nossas mãos. Na verdade, a oponibilidade do polegar em relação aos outros dedos – que nos dá a possibilidade de agarrar e manipular objectos com força e precisão – existe em todos os primatas, mas está especialmente desenvolvida no género humano.

Contudo, como sucede em geral com as capacidades inatas, a habilidade manual precisa de ser precocemente treinada para poder ser desenvolvida em toda a plenitude. Quando damos, às crianças pequenas, aparelhos onde elas apenas têm de tocar ou fazer deslizar os dedos para interagir com a bonecada que vai aparecendo no ecrã, estamos a impedir que desenvolvam a coordenação motora dos músculos da mão, algo que se consegue facilmente oferecendo à criança um lápis ou uma caneta para desenhar.

Correndo atrás do canto de sereia das novas tecnologias, acreditando nas fábulas que nos contam sobre os “nativos digitais” e o “conhecimento na palma da mão” estamos na realidade a descurar importantes etapas do desenvolvimento infantil, sem haver sequer a noção dos prejuízos que a falta de estímulos físicos e interacções sociais, substituídos pela omnipresença dos ecrãs, pode estar a causar às crianças do século XXI.

Como sempre, perante a falta de discernimento dos pais e da própria sociedade, é à escola, considerada por muitos retrógrada e fora de moda, que compete zelar pelos interesses das crianças que lhe são confiadas. O que implica, sempre que necessário, pôr de parte a falsa modernidade das tecnologias digitais, confiando sem receios no conhecimento, no bom-senso e na experiência dos profissionais da educação. E nas antiquíssimas, mas sempre eficazes, tecnologias analógicas.

Aprender a programar aos três anos?

doc.JPGEmbora esteja sempre disponível para reconhecer o potencial educativo das novas tecnologias, querer ensinar, ainda que pela vertente lúdica, princípios de programação a crianças em idade pré-escolar parece-me um exagero. Mas compreendo que, se inventaram os zingarelhos, agora há que lhes dar uso. Há muito dinheiro a ganhar, e as empresas que têm os robôs em catálogo precisam de despachar a mercadoria…

Em Portugal, o Doc — um robô humanóide, com olhos azuis luminosos, menos de meio metro, e uma voz de desenho animado — é a mais recente aquisição de vários jardins-de-infância que participam na iniciativa Kids Media Lab. Desde 2016, que o laboratório móvel criado por uma investigadora da Universidade do Minho tenta descobrir como é que as crianças podem aprender programação computacional.

Claro que com os robôs e os tablets se podem fazer coisas criativas, e as aplicações para crianças são pensadas para serem intuitivas, estimulantes e permitirem aprender sem esforço. É certo que as crianças pequenas absorvem como esponjas tudo o que suscite a sua atenção e as entusiasme. E os robôs nunca se cansam, não criticam nem perdem a paciência: em caso de erro, basta tentar novamente.

A questão não é, portanto, de que aprender a programar demasiado cedo cause por si só outro tipo de problemas. É sim o tempo que se perde a iniciar as crianças numa área onde as aprendizagens que façam serão sempre muito limitadas, em vez de se apostar naquilo de que elas realmente necessitam:

“A minha principal preocupação com tecnologia a mais, incluindo robótica e programação, é o custo de oportunidade. É tempo que não é passado a ler, brincar, fazer exercício e interagir com outras pessoas.”

Divulgação: Telemóveis na sala de aula, sim ou não?

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Programa e inscrições aqui.