Tantos especialistas!

Contei 21 devidamente arrumadinhos, senhoras em cima, cavalheiros em baixo. Em número, quase daria para formarem duas equipas de futebol e jogarem entre eles, em vez de chamarem terceiros a jogar o seu jogo viciado. Se viessem dar aulas, afinal de contas o destino que deveria ser lógico e natural para todos os especialistas em formação e edu-coisas, poderiam preencher integralmente o corpo docente de uma EBI ou EB23 com uma dúzia de turmas, contribuindo assim para combater a anunciada falta de professores.

Mas não: preferem estar nas suas prateleiras douradas a cumprir ordens superiores, a tratar dos seus negócios, a construir currículo próprio, o que contudo não os impede de discorrer com toda a prosápia sobre como os professores devem pensar, trabalhar e, acima de tudo, estar permanentemente disponíveis para acorrer a todos os reptos e “desafios” que, em nome da necessidade de formação, lhes sejam feitos. Sob pena de não apanharem lugar na “escola do século XXI”…

A avaliar por alguns rostos sorridentes, adivinham o que aí vem. Haverá jorros de dinheiro, como provavelmente não se via desde os anos 90, para capacitar os professores portugueses em tudo o que se conseguirem lembrar. O negócio da formação irá de vento em popa, só superado, em valores absolutos, pela aquisição de computadores e material informático. Com sorte, talvez sobrem uns trocos, uns últimos e enfraquecidos disparos da bazuca europeia, para gastar onde faz realmente falta e no que deveria ser a primeira das prioridades: nas escolas, nos professores que dão aulas e no apoio directo aos alunos que mais precisam.

Imagem roubada ao Quintal de Paulo Guinote, daqui.

O negócio da formação de professores

A anunciada falta de professores, problema negligenciado durante anos, mas em relação ao qual não têm faltado avisos por parte das escolas ou das organizações de professores, parece ter tomado conta da agenda educativa para os próximos tempos.

O problema é sério, tem causas profundas e coloca-se de forma distinta no curto e no médio/longo prazo. No entanto, as análises que vão ganhando espaço na comunicação social tendem a ser simplistas e a focar apenas alguns aspectos da questão. À medida que se vão ligando elementos dispersos, começa a perceber-se que, mais do que preocupados com os alunos sem professores, algumas das personalidades e organizações que se vão posicionando neste terreno têm ideias ou interesses claros relativamente à formação de professores.

Nada melhor do que a percepção generalizada de que a formação de professores que temos actualmente não responde, em qualidade e quantidade, às necessidades actuais e futuras de docentes, para abrir caminho à entrada de novos parceiros, nacionais e internacionais, num negócio prometedor. A Teach For Portugal já anda há uns anos a tentar entrar nas escolas públicas portuguesas pela porta do cavalo, mas outros candidatos se perfilam.

Nem de propósito, numa rotineira operação de limpeza às contas de email, deparei-me com uma nota de imprensa, que chegou ao correio do blogue há cerca de mês e meio, e a que na altura não dei grande importância. Mas que agora ganha outro significado quando vemos ressurgir David Justino, professor da Universidade Nova, como promotor e divulgador de um estudo fortemente crítico do actual sistema de formação de professores. Fica um excerto da missiva, entretanto publicada nalguns sites especializados, e digam lá se isto não anda tudo ligado…

A Universidade Nova de Lisboa estabelece uma parceria com duas empresas de formação de professores, que haviam sido constituídas pela Veritas Education, sociedade detentora da St. Dominic’s International School (SDIS).

A parceria surge na sequência da assinatura do protocolo, celebrado em Junho do ano passado, para que sejam desenvolvidos, em conjunto, diversos projectos inovadores em educação e formação de professores.

«A NOVA passa agora a associar-se ao Veritas – International Training Center (VITC), focado na promoção de novas competências curriculares e extracurriculares para professores, como inteligência emocional e outras competências fundamentais na área da educação, tanto nos formatos presenciais quanto no ensino à distância», destaca-se em comunicado.

Uma vergonha nacional

Dez entidades, entre elas seis empresas de trabalho temporário ou outsourcing e duas da área do retalho, receberam em 2021 mais de 100 mil euros com o apoio ao aumento do salário mínimo, segundo uma análise do “Jornal de Negócios” à lista de subvenções que foi publicada pela Inspeção-Geral de Finanças (IGF).

De acordo com o jornal, o apoio máximo de 84,5 euros por trabalhador levou a que duas empresas superassem um total de 300 mil euros: a Randstad recebeu 374,4 mil euros para o ramo da empresa que se dedica ao trabalho temporário (Randstad Recursos Humanos e Trabalho Temporário) e o Modelo Continente teve uma subvenção de 355,7 mil euros.

Empresas com lucros de milhões precisam de ajuda estatal para suportar um aumento de 40 euros no salário mínimo. E esta é a apenas a ponta visível do enorme iceberg formado pelas empresas privadas a serem subsidiadas para… pagarem salários!

O dinheiro dos contribuintes, que o Governo permite que falte para tantas coisas essenciais, nunca falha no amparo a empresas que, para acomodar os aumentos, precisariam apenas de moderar os ganhos dos accionistas, partilhando de forma mais justa, com os seus trabalhadores, o muito dinheiro que estes lhes dão a ganhar.

Uma medida completamente errada, e não apenas pelo desbaratar de dinheiro público. Também porque toma a forma de uma recompensa às empresas que insistem numa política de salários baixos. A ter de ajudar empresas, faria mais sentido que se beneficiassem aquelas que pagam acima da tabela aos seus trabalhadores. Assim, estamos a dar o sinal errado ao empresariado do regime: paguem o salário mínimo para terem direito a receber, do Estado, a ajuda máxima.

Fica, retirado da notícia do Jornal de Negócios, o top 50 de uma lista que – se vergonha tivessem! – deveria envergonhar todos os empresários a integram.

Leituras: Salas de aula do futuro, ou do negócio?

Foi este fim-de-semana inaugurada em Valência, com grande cobertura mediática, a Sala de Aula do Futuro. Apresentada como uma grande inovação, teve a presença do Ministro, da Ministra, do Conselheiro da Educação, do Vice-Secretário Regional e do Director de Negócios Empresariais da Samsung, entre outros.

O projecto é apresentado como uma aposta no “desenvolvimento do conceito de organização do espaço, centrando-se no desenvolvimento das competências dos estudantes, mais do que na aquisição de conteúdos”. Metodologias activas, espaços e tecnologia.

Quem está por detrás das salas de aula do futuro? Bem, uma série de empresas que, em princípio, nada têm a ver com educação, embora tenham vindo a desenvolver departamentos “educativos” a fim de expandir o seu modelo de negócio. Como dizia muito subtilmente Jacques Delors, “a educação encerra um tesouro”. E assim é. A estimativa do Merrill Lynch-Bank of America para 2014 do mercado da educação era de 4,3 triliões de dólares.[…] No acordo assinado com uma das empresas, o Ministério da Educação compromete-se a reconhecer o apoio da empresa através de material promocional, a reconhecer o seu papel como promotor do projecto e, mais importante ainda: “a empresa terá a oportunidade de propor ao ministério eventos de formação destinados aos professores e membros da comunidade educativa em Espanha”, ou seja, abre-se a porta à privatização da formação de professores. Formação, software (com o consequente abandono do software livre) e outros complementos que serão implementados à medida que o negócio vai ficando pequeno.

Dito isto, é legítimo que as empresas queiram fazer negócio, o que não é tão normal é que um governo de esquerda lhes permita entrar no negócio pela porta das traseiras. A privatização da educação não implica a transferência da propriedade das escolas públicas para mãos privadas, mas sim uma maior participação de actores privados na prestação e financiamento de serviços educativos.

Que se pretende com estas salas de aula? Para além do negócio lucrativo acima descrito, as salas de aula são laboratórios para promover mudanças metodológicas e organizacionais. De facto, os primeiros cursos neste espaço centrar-se-ão no trabalho por domínios, uma organização curricular amplamente contestada pelos professores da Comunidade Valenciana. Mas o facto é que a educação no nosso país tornou-se o grande laboratório europeu, com a aprovação dos nossos políticos, que viram caudais de dinheiro a entrar e a possibilidade de posarem para a fotografia num interminável ciclo propagandístico. E não é apenas o nosso país. De acordo com o Instituto Europeu do Mediterrâneo (IEMed), toda a região mediterrânica tem as condições ideais para este tipo de experiência: uma população muito jovem (no Norte de África e nos países do Mediterrâneo Oriental), elevado desemprego juvenil, novos modelos de educação e refugiados recém-chegados.

De acordo com a propaganda oficial, os benefícios da Sala de Aula do Futuro para estudantes e professores têm sido extensivamente avaliados. Na prática, esta avaliação é apenas qualitativa e não reflecte o impacto nos resultados de aprendizagem dos estudantes. Segundo o relatório de avaliação do próprio projecto iTec (Innovative Technologies for an Engaging Classroom), promotor dos cenários da Sala de Aula do Futuro: “Dada a natureza diversa dos estudos-piloto, o projecto não pretendeu fornecer dados quantitativos sobre o seu impacto nos resultados dos alunos”.

É disto que os professores precisam? Claramente, não. Há muito que os professores reclamam que as infiltrações de água sejam reparadas, que os tirem dos barracões, diminuição do tamanho das turmas, redução da burocracia e, sobretudo, que os deixem trabalhar em paz, sem ingerências, sem que ninguém lhes diga que metodologias devem usar na sua prática docente.

Traduzido e adaptado de Irene Murcia Burgalés, El aula del negocio

Negócios sefarditas

De 2015, quando entraram em vigor as alterações à Lei da Nacionalidade, até ao final do ano passado, a CIP e a Comunidade Israelita de Lisboa certificaram 86.500 pedidos de nacionalidade, tendo mais de 32 mil sido já concedidos pelo Ministério da Justiça. Do total de pedidos, perto de 90% foram instruídos pela comunidade judaica do Porto (76,5 mil), incluindo o do multimilionário Roman Abramovich, amigo pessoal do Presidente russo, Vladimir Putin, que se tornou cidadão português em Abril de 2021, escreve esta sexta-feira o jornal (acesso exclusivo).

A publicação cita o The Jerusalem Post para ilustrar o que caracteriza como uma transformação radical. Se há uma década “não tinha sequer dinheiro suficiente para contratar um rabino ou mesmo consertar o telhado da sua sinagoga”, em 2019 tinha “400 pessoas [seriam apenas 20 em 2012] e [dinheiro] suficiente para ambos, além de um hotel kosher, um banho ritual, um cantor [solista da Sinagoga], seguranças e um novo museu”.

De acordo com o Público, por cada certificado, a CIP cobra um emolumento de 250 euros (para além dos 250 euros da taxa da conservatória), “o que resulta em muitos milhões de euros para os cofres deste organismo”.

“A par desta preciosa fonte de rendimento, alguns elementos da direção desenvolvem também negócios privados paralelos igualmente lucrativos relacionados com a nacionalidade dos descendentes dos sefarditas”, acrescenta o diário.

O presidente da CIP vive em Israel, por isso a organização é representada pelo advogado Francisco de Almeida Garrett, sobrinho da ex-deputada do PS, Maria de Belém Roseira, proponente das alterações à Lei da Nacionalidade, aprovadas em 2013.

A atribuição da nacionalidade portuguesa a comprovados descendentes dos judeus que, a partir do século XVI, foram forçados a abandonar o país devido às perseguições religiosas é um bom exemplo de uma ideia, aparentemente boa e generosa, rapidamente desvirtuada e corrompida pelo poder do dinheiro.

Com 32 mil pedidos já aprovados dos mais 80 mil certificados, é surpreendente a quantidade de candidatos que, por esta via, e sem terem, a grande maioria, qualquer ligação ao país ou à sua cultura, requereram a nacionalidade portuguesa. O russo Abramovich é apenas o beneficiário mais conhecido de um generoso processo de atribuição da cidadania portuguesa – e, por arrastamento, europeia -, que inevitavelmente contrasta com as dificuldades que terá um nativo das antigas colónias portuguesas em conseguir idêntico objectivo.

Para a Comunidade Israelita do Porto e os seus responsáveis e representantes é que o negócio corre de feição. 76.500 processos certificados, a 250 euros cada um gerou um rendimento de mais de 19 milhões de euros à instituição. Quem duvidar, é fazer as contas…

Lucros privados, prejuízos públicos

Fizeram da Saúde um negócio.

Quando corre bem, arrecadam os lucros.

Agora dizem que correu mal, e querem o Estado – ou seja, os contribuintes – a pagar-lhes os prejuízos.

E não são meigos nas exigências…

Três grupos privados que participam ou participaram em Parcerias Público-Privadas (PPP) na área na Saúde estão a exigir ao Estado o que definem como reposição do reequilíbrio financeiro, para compensar perdas que consideram ter registado devido à pandemia em 2020, 2021 e primeiros dias de 2022. Segundo o “Jornal de Notícias”, o Grupo Luz Saúde, o Grupo Lusíadas e o grupo CUF já avançaram com pedidos nesse sentido junto da Administração Regional de Lisboa e Vale do Tejo (ARS LVT).

A Luz Saúde, que geriu o Hospital de Loures até 18 de janeiro, diz já ter feito um pedido formal à ARS LVT e anunciou que, na falta de resposta, vai recorrer à Justiça para exigir ao Estado o pagamento de cerca de 45 milhões de euros.

Os restantes dois grupos – o Grupo Lusíadas, que gere a PPP do Hospital de Cascais até ao fim deste ano, e o grupo CUF, que geriu a PPP do Hospital de Vila Franca de Xira até maio de 2021 – também já avançaram com um pedido idêntico junto da ARS LVT.

A alavanca digital

Digitalização das escolas pode alavancar PIB dos países até 20%

Os países com um nível reduzido de conectividade de banda larga têm um potencial de crescimento que pode chegar aos 20% do produto interno bruto (PIB), caso desenvolvam uma ligação das suas escolas à internet, concluiu o relatório “Connecting Learners: Narrowing the Educational Divide”, divulgado este mês pelo Economist Intelligence Unit (EIU).

O estudo, que é patrocionado pelo grupo de telecomunicações sueco Ericsson, indica que a força laboral de um país está mais qualificada e tem um maior potencial de criação e desenvolvimento de ideias inovadores quanto maior for o nível de conectividade das escolas à internet. A análise do EIU concluiu que por cada 10% de aumento da conectividade escolar num país, o PIB per capita poderá crescer cerca de 1,1%.

Os países desenvolvidos têm boas redes de internet porque puderam fazer os avultados investimentos necessários à sua instalação, ou eram pobres e desenvolveram-se graças à internet? Ao contrário do que agora nos querem fazer crer, julgo que não haverá muitas dúvidas de que as novas tecnologias não só se desenvolvem prioritariamente onde existem as condições propícias para tal, como tendem a aumentar o fosso entre países ricos e pobres. A não ser naqueles casos, raros, em que o investimento externo, a mobilização de recursos próprios e uma acção continuada permitem vencer a brecha digital.

Outra vertente da questão, que tende a ser ignorada nestes estudos patrocinados por empresas, lobbies ou negócios, tem a ver com a vulgarização das tecnologias. Quando apenas um grupo restrito de países possuem recursos tecnológicos, essa vantagem permite atrair empresas, abrir novas áreas de negócios, diversificar a economia e investir em produtos e serviços de elevado valor acrescentado. Mas quando essa tecnologia se torna acessível a todos, a vantagem comparativa inicial desaparece. Não se pode dizer, por isso, que se no passado o PIB de um país aumentou graças à melhoria da conectividade da internet, nos dias de hoje idêntico investimento, noutro país qualquer, iria dar o mesmo resultado. Claro que às empresas que vendem estas soluções aos países em desenvolvimento interessa passar essa ilusão. Mas não é assim que funciona.

Por cá, o entusiasmo em torno da “transição digital” na Educação estará também a colocar ao rubro as expectativas das empresas dos sectores tecnológicos. Dos gigantes do software, hardware e telecomunicações às suas subsidiárias que instalarão e fornecerão os diversos equipamentos, são enormes as oportunidades de negócio: já se sabe que, dos cerca de 900 milhões de euros que serão disparados pela bazuca da educação, cerca de três quartos serão destinados à “escola digital”. E é ver como, perante a perspectiva do dinheiro fresco que aí vem, as empresas do sector rapidamente aprenderam a reproduzir o mesmo neo-eduquês tecnológico que vamos ouvindo aos “embaixadores” e outros evangelistas da escola digital…

A empresa acredita que com novas plataformas, as escolas vão poder “aprofundar a diferenciação pedagógica e proporcionar aos alunos um percurso de aprendizagem ao seu ritmo e com maior autonomia”. É que os recursos educativos digitais vão “facilitar o acesso à informação e ao conhecimento de uma forma universal, podendo assegurar a inclusão de cada aluno, e respondendo, de forma mais eficaz, ao contexto ou necessidades especiais de cada um”.

Contra os manuais digitais

manual-digital.gifVamos ser claros: a utilização de conteúdos digitais enriquece o ensino, diversifica as metodologias, potencia a autonomia dos alunos e a aprendizagem activa, proporciona novos recursos e acesso a novas fontes de conhecimento.

Mas os manuais digitais – não confundir com as plataformas de ensino à distância – são, regra geral, uma má ideia.

Desde logo porque, da forma como são concebidos pelas editoras, e apesar de o seu uso implicar custos para os utilizadores – ou para o Estado, quando assume a compra das licenças digitais – os manuais virtuais ficam longe de constituir uma verdadeira mais-valia. Pois os conteúdos são os mesmos que se encontram disponíveis no manual em papel.

Depois, porque enquanto o manual tradicional pode ser fisicamente manuseado e está sempre disponível, o uso da versão digital depende, não só da disponibilidade de um computador ou de um tablet, como também de uma ligação decente à internet. O manual nunca chega a ser do aluno, nem é descarregado para o seu dispositivo – apenas se encontra disponível no site da respectiva editora.

Há um outro problema óbvio, que preocupa os pais mais atentos e responsáveis e deveria ser ponderado também pelos responsáveis educativos: o número excessivo de horas que crianças e jovens tendem a passar frente a ecrãs. O cansaço visual e mesmo os problemas de visão de que muitos alunos se começaram a queixar – e que foram notórios durante o período de confinamento – deveriam constituir um sinal de alarme para a necessidade de moderar o uso dos equipamentos electrónicos.

Finalmente: há que não confundir um manual digital – que na prática é apenas uma reprodução, através de uma aplicação electrónica, do manual em papel – com os conteúdos interactivos e multimédia que encontramos em plataformas como a Aula Digital ou a Escola Virtual. É que estas continuam a ser sites de acesso pago, que não ficam disponíveis pelo facto de se ter obtido uma licença digital. O grande investimento das editoras nas novas tecnologias educativas. Os manuais digitais são apenas uma forma de dar a ganhar dinheiro fácil às editoras, pagando-lhes milhões por um produto que nunca conseguiram impor no mercado da Educação.

Indo atrás das modas e propagandas do momento, gerou-se a ideia de que tudo o que é digital é bom e que o mundo analógico é irremediavelmente retrógrado, improdutivo, aborrecido, ultrapassado. Seria mais sensato procurar perceber a utilidade que podem ter, no ensino como em tudo o que preenche as nossas vidas, tanto as velhas como as novas tecnologias. Ou mesmo, em certos momentos, a completa ausência de tecnologia…

A velha escola de negócios

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“O cargo de diretor é exercido em regime de dedicação exclusiva, sem prejuízo dos cargos que exerça por inerência.” A norma consta do artigo 43º do Estatuto da Universidade Nova de Lisboa, mas o diretor da respetiva faculdade de Economia, denominada Nova SBE (School of Business and Economics), o economista Daniel Traça, é desde dezembro de 2018 administrador não executivo do banco Santander, um dos patrocinadores, ou “stakeholders” da escola. Aufere nessa qualidade um salário anual de 143 mil euros.

Isso mesmo está patente no relatório de contas de 2019 deste banco, na página 107, assim como o montante do crédito à habitação que tem contratado com a instituição, de 250 mil euros. Já na página 64 é possível consultar os cargos que detém nesta instituição bancária: aí o nome Daniel Abel Monteiro Palhares Traça consta, com a qualificação de “independente”, como vogal não só do referido conselho de administração como da Comissão de Auditoria e do Comité de Riscos e do Comité de Remunerações, sendo ainda presidente do Comité de Nomeações. Mais difícil de encontrar é a remuneração que o mesmo economista aufere como diretor desta faculdade pública. O DN solicitou a Daniel Traça essa informação, mas até à publicação deste texto este não a forneceu. Um professor catedrático – que Traça é – em exclusividade ganha no máximo 5417,74 euros/mês, ou seja 75 848,36 euros anuais. Se o valor do seu salário como diretor da Nova SBE for dessa ordem de grandeza, corresponde a pouco mais de metade do que recebe no banco.

Agora inventem, para justificar o injustificável, os conselhos de ética, os pareceres vinculativos ou não, as comissões remuneratórias, os regimes de excepção que entenderem.

Não sei se o doutor Traça vale, enquanto administrador “não executivo”, os cerca de 10 mil euros mensais que o banco lhe paga. Mas não é difícil perceber que o seu valor no mercado remuneratório lhe advém, não das qualidades enquanto administrador ou gestor, mas do cargo dirigente que ocupa numa instituição que, por muitas siglas em estrangeiro que invente para si própria, continua a ser um estabelecimento de ensino público. Ilegitimamente colocado ao serviço de patrocinadores privados e dos que aceitam servir-lhes de lacaios.

A transformação das faculdades públicas de Economia em medíocres “escolas de negócios” ao serviço do empresariado do regime e das multinacionais da finança integra-se perfeitamente na estratégia de promoção do capitalismo rentista e parasitário que tem empobrecido a economia nacional, afundada no endividamento, na fuga de capitais e numa sórdida teia de corrupção e tráfico de influências com evidentes cumplicidades nas cúpulas do PS e do PSD. Afinal de contas, uma velha escola de negócios, que atravessou o Estado Novo e se recompôs, com a restauração dos antigos grupos económicos e das velhas manhas empresariais, no actual regime.

O que ganha o país com tanta schoolofbusiness é que é um mistério difícil de entender…

2020, Bilionários no Espaço

elon-muskEnquanto quase toda a comunicação social embandeira em arco com os pretensos sucessos de Elon Musk na exploração espacial, socorro-me da lucidez de Pedro Prola que, em meia dúzia de tweets, desvenda o que está por detrás do empreendedorismo espacial da SpaceX.

Que se resume, no essencial, a muito pouco: proporcionar viagens ao espaço a uma clientela de bilionários e capturar recursos públicos destinados à investigação espacial para o financiamento de investimentos privados.

Explicada com uma clareza e poder de síntese exemplares, aqui fica exposta uma verdade que é tão inconveniente quanto difícil de rebater.

Muitos foguetões tripulados e até vaivéns espaciais foram lançados ao longo das últimas décadas no espaço, fruto de investigação científica e de tecnologia de ponta. Foi preciso investimento público massivo na exploração espacial, as empresas privadas foram suprindo as necessidades das agências públicas, visando o avanço progressivo.

Agora a situação foi invertida: as agências públicas passaram a servir os fins das empresas privadas. a ciência decaiu para fabricar um mercado espacial. O retrocesso científico de reorientar os investimentos espaciais para financiar projetos comerciais e gerar “bilionários do espaço” com dinheiro público retirou a prioridade de alcançar avanços científicos e conquistas inéditas de tecnologia. Houve um retrocesso de décadas.

O objetivo é político: submeter toda a vida ao mercado e à hierarquia social. Isso inclui retirar dos estados o mérito por aquilo que alcançaram na exploração do espaço. Os “empreendedores espaciais” ganham crédito por fazerem agora o que as agências espaciais já tinham feito.

Na reescrita da História, boa parte da imprensa e TV apresentam como conquista de Elon Musk uma cópia do que as agências públicas já haviam feito, duplicando custos no processo e obtendo financiamento público, e ainda com prejuízo. É uma mentira histórica contada nos jornais.

Nesta mentira histórica com fins políticos, a imagem do senhor Musk, que vampiriza as conquistas espaciais, substitui os físicos, engenheiros e astronautas que tornaram possíveis as viagens espaciais. O retrocesso científico é acompanhado da perda de reconhecimento.

Adaptado daqui.