Contra os manuais digitais

manual-digital.gifVamos ser claros: a utilização de conteúdos digitais enriquece o ensino, diversifica as metodologias, potencia a autonomia dos alunos e a aprendizagem activa, proporciona novos recursos e acesso a novas fontes de conhecimento.

Mas os manuais digitais – não confundir com as plataformas de ensino à distância – são, regra geral, uma má ideia.

Desde logo porque, da forma como são concebidos pelas editoras, e apesar de o seu uso implicar custos para os utilizadores – ou para o Estado, quando assume a compra das licenças digitais – os manuais virtuais ficam longe de constituir uma verdadeira mais-valia. Pois os conteúdos são os mesmos que se encontram disponíveis no manual em papel.

Depois, porque enquanto o manual tradicional pode ser fisicamente manuseado e está sempre disponível, o uso da versão digital depende, não só da disponibilidade de um computador ou de um tablet, como também de uma ligação decente à internet. O manual nunca chega a ser do aluno, nem é descarregado para o seu dispositivo – apenas se encontra disponível no site da respectiva editora.

Há um outro problema óbvio, que preocupa os pais mais atentos e responsáveis e deveria ser ponderado também pelos responsáveis educativos: o número excessivo de horas que crianças e jovens tendem a passar frente a ecrãs. O cansaço visual e mesmo os problemas de visão de que muitos alunos se começaram a queixar – e que foram notórios durante o período de confinamento – deveriam constituir um sinal de alarme para a necessidade de moderar o uso dos equipamentos electrónicos.

Finalmente: há que não confundir um manual digital – que na prática é apenas uma reprodução, através de uma aplicação electrónica, do manual em papel – com os conteúdos interactivos e multimédia que encontramos em plataformas como a Aula Digital ou a Escola Virtual. É que estas continuam a ser sites de acesso pago, que não ficam disponíveis pelo facto de se ter obtido uma licença digital. O grande investimento das editoras nas novas tecnologias educativas. Os manuais digitais são apenas uma forma de dar a ganhar dinheiro fácil às editoras, pagando-lhes milhões por um produto que nunca conseguiram impor no mercado da Educação.

Indo atrás das modas e propagandas do momento, gerou-se a ideia de que tudo o que é digital é bom e que o mundo analógico é irremediavelmente retrógrado, improdutivo, aborrecido, ultrapassado. Seria mais sensato procurar perceber a utilidade que podem ter, no ensino como em tudo o que preenche as nossas vidas, tanto as velhas como as novas tecnologias. Ou mesmo, em certos momentos, a completa ausência de tecnologia…

A velha escola de negócios

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“O cargo de diretor é exercido em regime de dedicação exclusiva, sem prejuízo dos cargos que exerça por inerência.” A norma consta do artigo 43º do Estatuto da Universidade Nova de Lisboa, mas o diretor da respetiva faculdade de Economia, denominada Nova SBE (School of Business and Economics), o economista Daniel Traça, é desde dezembro de 2018 administrador não executivo do banco Santander, um dos patrocinadores, ou “stakeholders” da escola. Aufere nessa qualidade um salário anual de 143 mil euros.

Isso mesmo está patente no relatório de contas de 2019 deste banco, na página 107, assim como o montante do crédito à habitação que tem contratado com a instituição, de 250 mil euros. Já na página 64 é possível consultar os cargos que detém nesta instituição bancária: aí o nome Daniel Abel Monteiro Palhares Traça consta, com a qualificação de “independente”, como vogal não só do referido conselho de administração como da Comissão de Auditoria e do Comité de Riscos e do Comité de Remunerações, sendo ainda presidente do Comité de Nomeações. Mais difícil de encontrar é a remuneração que o mesmo economista aufere como diretor desta faculdade pública. O DN solicitou a Daniel Traça essa informação, mas até à publicação deste texto este não a forneceu. Um professor catedrático – que Traça é – em exclusividade ganha no máximo 5417,74 euros/mês, ou seja 75 848,36 euros anuais. Se o valor do seu salário como diretor da Nova SBE for dessa ordem de grandeza, corresponde a pouco mais de metade do que recebe no banco.

Agora inventem, para justificar o injustificável, os conselhos de ética, os pareceres vinculativos ou não, as comissões remuneratórias, os regimes de excepção que entenderem.

Não sei se o doutor Traça vale, enquanto administrador “não executivo”, os cerca de 10 mil euros mensais que o banco lhe paga. Mas não é difícil perceber que o seu valor no mercado remuneratório lhe advém, não das qualidades enquanto administrador ou gestor, mas do cargo dirigente que ocupa numa instituição que, por muitas siglas em estrangeiro que invente para si própria, continua a ser um estabelecimento de ensino público. Ilegitimamente colocado ao serviço de patrocinadores privados e dos que aceitam servir-lhes de lacaios.

A transformação das faculdades públicas de Economia em medíocres “escolas de negócios” ao serviço do empresariado do regime e das multinacionais da finança integra-se perfeitamente na estratégia de promoção do capitalismo rentista e parasitário que tem empobrecido a economia nacional, afundada no endividamento, na fuga de capitais e numa sórdida teia de corrupção e tráfico de influências com evidentes cumplicidades nas cúpulas do PS e do PSD. Afinal de contas, uma velha escola de negócios, que atravessou o Estado Novo e se recompôs, com a restauração dos antigos grupos económicos e das velhas manhas empresariais, no actual regime.

O que ganha o país com tanta schoolofbusiness é que é um mistério difícil de entender…

2020, Bilionários no Espaço

elon-muskEnquanto quase toda a comunicação social embandeira em arco com os pretensos sucessos de Elon Musk na exploração espacial, socorro-me da lucidez de Pedro Prola que, em meia dúzia de tweets, desvenda o que está por detrás do empreendedorismo espacial da SpaceX.

Que se resume, no essencial, a muito pouco: proporcionar viagens ao espaço a uma clientela de bilionários e capturar recursos públicos destinados à investigação espacial para o financiamento de investimentos privados.

Explicada com uma clareza e poder de síntese exemplares, aqui fica exposta uma verdade que é tão inconveniente quanto difícil de rebater.

Muitos foguetões tripulados e até vaivéns espaciais foram lançados ao longo das últimas décadas no espaço, fruto de investigação científica e de tecnologia de ponta. Foi preciso investimento público massivo na exploração espacial, as empresas privadas foram suprindo as necessidades das agências públicas, visando o avanço progressivo.

Agora a situação foi invertida: as agências públicas passaram a servir os fins das empresas privadas. a ciência decaiu para fabricar um mercado espacial. O retrocesso científico de reorientar os investimentos espaciais para financiar projetos comerciais e gerar “bilionários do espaço” com dinheiro público retirou a prioridade de alcançar avanços científicos e conquistas inéditas de tecnologia. Houve um retrocesso de décadas.

O objetivo é político: submeter toda a vida ao mercado e à hierarquia social. Isso inclui retirar dos estados o mérito por aquilo que alcançaram na exploração do espaço. Os “empreendedores espaciais” ganham crédito por fazerem agora o que as agências espaciais já tinham feito.

Na reescrita da História, boa parte da imprensa e TV apresentam como conquista de Elon Musk uma cópia do que as agências públicas já haviam feito, duplicando custos no processo e obtendo financiamento público, e ainda com prejuízo. É uma mentira histórica contada nos jornais.

Nesta mentira histórica com fins políticos, a imagem do senhor Musk, que vampiriza as conquistas espaciais, substitui os físicos, engenheiros e astronautas que tornaram possíveis as viagens espaciais. O retrocesso científico é acompanhado da perda de reconhecimento.

Adaptado daqui.

 

 

Grupo GPS compra mais uma escola

gpsO grupo GPS chegou a ser – e ainda é, provavelmente – o maior grupo económico a operar no subsector do ensino privado subsidiado com dinheiros públicos.

Com um modelo de negócio assente no subfinanciamento das actividades educativas e na exploração laboral dos seus funcionários, é sobejamente conhecido pelas irregularidades de gestão, desfalque de dinheiros públicos, corrupção e outras vigarices pelas quais os seus donos têm sido investigado e acusado. Ainda assim, há autarcas socialistas que entendem que a escola profissional local, até aqui propriedade da câmara e outras entidades locais, fica mais bem entregue sendo vendida ao GPS.

Para estes, será um bom negócio, uma vez que, apesar dos dissabores, o dinheiro não parece faltar por aqueles lados. Com os contratos de associação em queda nos últimos anos, os cursos profissionais, maioritariamente financiados por fundos europeus, são uma alternativa apetecível para quem quer continuar a facturar no sector da educação privada paga com dinheiros públicos.

Na Mealhada, além dos partidos de esquerda e dos independentes que se opuseram, em vão, ao negócio, houve ainda um dirigente socialista local que se demarcou da negociata promovida pelos seus camaradas. E, numa atitude que só o dignifica, fez questão de vincar bem o seu protesto…

Um autarca do PS/Mealhada renunciou à qualidade de membro da Comissão Concelhia do partido em discordância com a venda da Escola Profissional do Município ao Grupo GPS, envolvido num processo judicial sobre suspeitas de corrupção soube, a SÁBADO.

Nuno Veiga, que foi aluno da Escola de Vasconcellos Lebre, votou contra a homologação do negócio, por 491 mil euros, aprovada, no dia 23 de maio, pela Assembleia Municipal (AM), e a presidente do órgão de fiscalização da Câmara bairradina, Daniela Salgado, absteve-se.

O PS/Mealhada, cuja Comissão Concelhia é presidida pelo líder do Município, Rui Marqueiro, possui maioria tangencial no universo de autarcas eleitos (21) para a AM e desfruta de mais seis assentos, correspondentes aos dos presidentes das juntas das freguesias do concelho.

O líder da Junta de Casal Comba, Nuno Veiga, que declarou à SÁBADO fazer questão de pensar pela sua cabeça, entende que a Escola de Vasconcellos Lebre devia continuar a pertencer ao Município.

Os oito representantes da coligação “Juntos pelo Concelho da Mealhada” na AM, um autarca da CDU e uma do Bloco de Esquerda também votaram desfavoravelmente.

Oportunidade de ouro, ou lógica da batata?

batatas.jpgA crise da covid-19 criou a oportunidade de ouro para darmos o salto, finalmente, para uma Educação do século XXI. Há recursos humanos disponíveis e talento suficiente no país para iniciarmos este caminho já. Mãos à obra!

Todos os que temos filhos em idade escolar demos conta, estas semanas, das iniciativas de ensino à distância que foram lançadas, em escolas públicas e privadas de todo o país. Numa semana, os professores de todo o país tiveram a capacidade de alavancar os seus recursos e competências, para dar início a uma vaga de ensino remoto sem precedentes em Portugal.

Esta revolução digital na Educação deveria ser potenciada pelo Estado numa primeira fase, mas criaria todo um novo ecossistema de parceiros públicos e privados – que já existe em outros países europeus e no resto do mundo –, que seria fonte de criação de valor económico para o país, mas também de novas eficiências em termos de gestão dos recursos alocados à Educação.

A prosa do director da EPIS dá-nos uma pequena amostra do que seria o nosso sistema educativo nas mãos destes empresários com olho para o negócio da educação e as rentáveis “parcerias” com a escola pública, que encaram os professores como meros “colaboradores” das escolas, tão descartáveis como uma qualquer ferramenta que entretanto se tornou obsoleta.

Se bem percebi a lógica da batata, a suspensão forçada das aulas será, para este escriba, a oportunidade de ouro para impor um novo paradigma educativo, em linha com as “melhores práticas” internacionais.

Paradoxalmente, ou talvez não, espera-se fazer a revolução escolar fora da escola, criando plataformas e ferramentas digitais que dispensem a presença física e o contacto directo entre professores e alunos e destes entre si. Eis um projecto educativo tecnocrático e profundamente reaccionário, que pretende substituir a escola por máquinas de ensinar. Fazendo tábua rasa do carácter humanista do processo de ensino e aprendizagem e ignorando a importância fulcral da escola pública, laica e universal, na construção e fortalecimento da sociedade democrática e na concretização da igualdade de direitos e oportunidades.

Ao contrário do que defende o empresário da educação, parece-me que estes dias sombrios que vivemos estão a evidenciar, isso sim, que há aspectos essenciais da relação pedagógica que as interacções virtuais nunca conseguirão substituir. Mesmo recorrendo à melhor tecnologia educativa do século XXI, a verdade é que a dinâmica da sala de aula e o apoio directo dos professores revelam-se insubstituíveis – e ainda mais quanto maiores são as dificuldades ou as necessidades específicas dos alunos.

Enquanto no trabalho burocrático das escolas se confirma, como já se sabia, que muito do que se tem feito em reuniões chatas pode ser tratado por mail ou, se necessário, discutido em videoconferência, na relação com uma turma há sempre alunos que se “perdem” no contacto não presencial. Ao fim de pouco mais de uma semana de ensino a distância já se percebeu que, a prazo, este sistema corrói alguns dos valores mais importantes da escola pública e inclusiva, como a equidade, a justiça e igualdade de oportunidades. Distantes de nós, há sempre alunos que ficam para trás – sem que tenhamos forma de lhes chegar…

Em relação às ferramentas digitais, também se percebe que, além de a sua qualidade ser muito variável e o funcionamento difícil de controlar, elas funcionam melhor para rever ou consolidar conhecimentos adquiridos, do que a desenvolver novas aprendizagens. Quando se trata de aprender, mesmo que a aposta seja em pedagogias construtivistas, a presença física do professor continua a revelar-se um elemento fundamental. Uma ideia fácil de perceber por todos os que estudam e trabalham nas escolas, mas que parece passar ao lado dos empresários inclusivos da Educação…

Ninguém sabia de nada?

isabel-dos-santos.jpgCom a queda em desgraça de Isabel dos Santos, vemos a espantosa desfaçatez com que a elite política, empresarial e financeira se vai demarcando de conexões comprometedoras com a cleptocracia angolana. Banqueiros, consultores, advogados, investidores e dirigentes políticos, todos nos irão garantir que nada sabiam dos negócios sujos do petróleo e da lavandaria de petrodólares que a oligarquia angolana instalou em Portugal. Com a conivência, a troco de generosos pagamentos, daqueles que agora se tentam distanciar.

Claro que a lógica dos comparsas de Isabel dos Santos é muito simples: há muito dinheiro a ganhar; se não aproveitarmos, outros o farão. Embora não o digam, pensarão hoje exactamente o mesmo que quando começaram a emparceirar com o regime de Luanda. A única coisa que mudou entretanto é que, com Eduardo dos Santos no poder, a roubalheira estava caucionada pelo poder político. Com o actual presidente, deixou de estar.

Se com João Lourenço os lucros do petróleo deixarão finalmente ser drenados pelos oleodutos da corrupção, passando a financiar o desenvolvimento de Angola e a melhoria das condições de vida dos angolanos, ainda é cedo para saber. O certo é que tudo isto é conhecido há muitos anos, e foi pormenorizadamente explicado no livro Donos Angolanos de Portugal, publicado em 2014. Ali está, descrito com impressionante clareza e actualidade, tudo o que já então se sabia sobre o fluxo de dinheiro angolano na economia de Portugal…

Foi ontem apresentado em Lisboa o livro Os Donos Angolanos de Portugal, uma obra que denuncia a crescente influência dos investimentos angolanos em Portugal, encabeçados por Isabel dos Santos (filha primogénita de JES), Manuel Vicente (vice-presidente da República e ex-director da Sonangol) e pelo general Vieira Dias “Kopelipa” (ministro de Estado e chefe da Casa Militar do presidente da República).

O livro, da autoria de três dirigentes da formação política Bloco de Esquerda, retrata a teia de interesses e parcerias entre as elites político-empresariais angolanas e portuguesas, numa altura em que a tensão entre os dois países se intensifica. O capital angolano investido em Portugal aumentou 35 vezes na última década e, no seu conjunto, os angolanos são os investidores estrangeiros com maior peso na Bolsa de Valores de Lisboa. Interesses angolanos detêm agora posições significativas no sector bancário, nas telecomunicações, na energia e na comunicação social em Portugal.

A acumulação de capital em Angola, resultado de uma década de elevados preços do petróleo e da institucionalização da corrupção, liderada pelo presidente da República, coincidiu com a crise económica em Portugal.

A fragilidade da economia portuguesa, assim como a predisposição da sua classe política e económica para fechar os olhos à proveniência dos capitais angolanos, completaram um quadro em que os interesses das principais figuras angolanas encontraram em Portugal portas abertas para o branqueamento de capitais e para a internacionalização de investimentos obtidos de forma ilícita.

O paradigma do sucesso

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A foto, divulgada há umas semanas atrás pelo Paulo Guinote, despertou-me a atenção por vários motivos. Desde logo por ter sido tirada na minha cidade, em frente a uma escola onde já leccionei. Mas também pelo ineditismo da coisa: vamos criar um projecto ambicioso – integrado e inovador! – de combate ao insucesso escolar. Com financiamento assegurado pelo Fundo Social Europeu, o que fazemos? Contratamos professores, técnicos e pessoal de apoio para as escolas? Investimos em equipamento para as escolas e recursos pedagógicos adequados ao século XXI? Bom, talvez no fim sobrem os trocos para essas coisas. Para já, vamos comprar uns automóveis…

Investigando um pouco, confirma-se que o PIICIE da Região de Coimbra aposta na promoção do sucesso através da monitorização das boas práticas – e é essa necessidade que justifica, presume-se, a necessidade de começar as operações pela aquisição da frota que vemos na imagem.

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Tudo isto é de uma despudorada desfaçatez. Constituíram-se agrupamentos e mega-agrupamentos com escolas distantes, nalguns casos, mais de uma dezena de quilómetros, em zonas do país onde praticamente não existem transportes públicos. Fizeram-se horários para professores itinerantes, que diariamente trabalham em duas ou mais escolas do mesmo agrupamento. Mas nunca se equacionou a necessidade de providenciar meios para a deslocação em serviço destes profissionais. E os professores, reconheça-se, também raramente os reclamaram: quase toda a gente se dispõe a usar o transporte próprio para deslocações que competiria à entidade patronal assegurar.

Claro que, quando se entregam às câmaras e às CIM competências no sector da Educação, a conversa é outra: logo tratam de assegurar, em primeiro lugar, que o seu pessoal não fique apeado. E isto também deve ser, para os professores, uma lição…

Outra ilação que também não é difícil de retirar é que estes projectos, ditos integrados e inovadores, se irão inscrever numa dinâmica de actuação que vem de longe e que consiste basicamente em retirar recursos do sector da Educação para alimentar negócios e criar empregos noutras áreas. Tal como sucedeu com a “festa da arquitectura”, o “choque tecnológico” ou as negociatas dos contratos de associação, o que está aqui em causa é alimentar uma economia anémica com dinheiro que deveria ser gasto directamente nas escolas. Em recursos educativos que pudessem contribuir para a melhoria das aprendizagens e em pessoal docente e técnicos especializados destinados a trabalhar directamente com os alunos.

Em vez disso, não é difícil adivinhar que estes projectos, generosamente financiados pela UE, vão pagar muitas viagens e almoçaradas em serviço, contratos para rapaziada amiga dos senhores autarcas, avenças para estudos e pareceres dos habituais “especialistas” com os contactos certos nas autarquias e, claro, muita “formação de professores” – quase sempre ministrada por quem nunca soube, ou há muito se esqueceu, do que é a realidade do trabalho docente nas escolas básicas e secundárias.

350 mil euros…

…Para desenvolver um sistema de gestão escolar que, diz quem já o experimentou, é complexo, nada intuitivo e não apresenta vantagens em relação aos programas que as escolas habitualmente utilizam?

E atenção que esta é apenas uma talhada de um bolo que, só para o Escola 360 e em contratos com a Novabase já vai, somando tudo, em cerca de um milhão de euros. Isto, da parte de um governo que não investe nas escolas, onde nem a porcaria do amianto consegue mandar retirar.

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À partida, sou favorável à ideia de o ME equipar todas as escolas com o software adequado para todas as tarefas de gestão escolar. O sistema actual é uma confusão, com uma multiplicidade de programas e plataformas, onde a informação se dispersa e acaba por se tornar redundante. Juntar todos os dados, tornando-os facilmente acessíveis quando necessários e evitando a perda de tempo de os ter de introduzir diversas vezes em sítios diferentes, seria uma forma eficaz de simplificar e desburocratizar a administração escolar.

O problema é que em vez de algo simples e intuitivo do ponto de vista do utilizador, os inventores do E360 parecem ter criado um monstro digital que vai infernizando a vida de quem tem de trabalhar com ele. Nunca ouvi falar da necessidade de fazer formação específica para trabalhar com o SIGE, o GIAE, o Inovar+, o JPM ou qualquer outro dos programas de gestão escolar habitualmente usados nas escolas. Mas vejo colegas a fazer formação no E360 e a chegar ao fim frustrados pelo tempo que inutilmente perderam à volta de um programa que é apenas isso: uma enorme perda de tempo.

E um fardo para os contribuintes – pois são os nossos impostos que pagam esta brincadeira…

És liberal e não sabias…

ribadouro[1]Duas dezenas de escolas suspeitas de subir notas

Inspeção-Geral da Educação abriu mais dois processos disciplinares no Externato Ribadouro e tem cerca de duas dezenas de averiguações em curso. Inflação de notas subverte acesso ao ensino superior

Se há quem queira e possa pagar pelas notas que, por mérito, não conseguiria obter, qual é o problema? – perguntarão alguns.

Se sou eu que pago, porque é que não posso ter a nota que quero?

Se, para o neoliberalismo dominante, os mercados satisfazem todas as necessidades dos indivíduos, porque é que as notas escolares não podem ser um bem transaccionável?

Afinal de contas, entre escolas privadas que vendem notas e alunos e famílias que as compram, há muita gente que é liberal e não sabia…

Teach For Portugal: escolas públicas, negócios privados

teachfpJá aqui tinha feito referência ao projecto Teach For Portugal que se tem vindo a instalar sorrateiramente nalgumas escolas do norte do país. Trata-se da ramificação portuguesa de uma organização internacional que pretende, a exemplo de outras, explorar o filão lucrativo das parcerias privadas no sector educativo.

De facto, uma característica comum a este tipo de projectos é serem direccionados para as escolas públicas, preferencialmente as frequentadas pelos “pobrezinhos”. Estão ali para “ajudar”. E, havendo aqui maiores problemas e, quase sempre, falta de recursos para os enfrentar, é difícil não acolher a ajuda voluntária de braços abertos. Já as escolas privadas, essas não abdicam de escolher os profissionais que lá trabalham e os projectos que lhes interessam.

O projecto conta, por outro lado, com a colaboração do ministério e das autarquias, o que é fundamental para garantir financiamentos. De facto, embora sendo uma iniciativa privada, o dinheiro para este projecto é público e vem, fundamentalmente, de fundos europeus.

A Fenprof solicitou uma reunião ao ME para obter mais informações sobre uma organização que coloca nas escolas voluntários que não são professores e a quem, com um curso de Verão de algumas semanas, é dada uma formação básica para trabalhar em sala de aula. Tanto os esclarecimentos agora obtidos, como tudo o que fica ainda por saber, são preocupantes. Tendo em conta o histórico da organização em causa e as nuvens negras que ensombram o recrutamento e a carreira dos professores portugueses, há razões para não ficarmos descansados. É assunto, portanto, para continuar a seguir atentamente.

A seu pedido, a FENPROF reuniu com a Direção-Geral de Educação para saber: 1) O que fazem nas salas de aula os jovens “colocados” pela Teach for Portugal (TFP); 2) Que outros projetos, e a que se destinam, estão a entrar nas escolas; 3) O que ganham as escolas para o futuro, designadamente, no que respeita a novos e melhores recursos; 4) Por que não são as escolas a candidatar-se, com projetos próprios, e, dessa forma, aproveitarem o financiamento comunitário para melhorar, de forma estrutural, a sua capacidade de dar respostas. No final da reunião, as preocupações da FENPROF não só não se dissiparam, como aumentaram.

A reunião realizada confirmou que parte significativa das verbas que resultam do financiamento comunitário destinado a estes projetos se encontra nas CCDR (Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional )e quem se pode candidatar são as Comunidades Intermunicipais (CIM), que, no âmbito do Plano Integrado e Inovador de Combate ao Insucesso Escolar (PIICIE), promovem as mais diversas iniciativas e colocam técnicos (psicólogos, terapeutas, educadores sociais e outros), que, para além de não passarem a pertencer às escolas, deixarão de  nelas trabalhar quando acabar o programa financiado. Acresce que em regiões como Lisboa ou Algarve, por não serem elegíveis para candidatura a estes fundos, apesar de também existirem escolas com muitos problemas e situadas em zonas desfavorecidas, os projetos não existem porque, nesses casos, não há financiamento comunitário. Confirma-se, assim, que cada vez mais o Ministério da Educação deixa de governar e investir na Educação, limitando-se a ver o que se passa, pois, como se confirmou na reunião, a DGE não conhece o que está a acontecer nas escolas e seria esta a entidade que, antes de qualquer outra, deveria conhecer.

Contudo, o Ministério da Educação é parceiro ou, pelo menos, acompanhante, de projetos financiados por fundos comunitários, através de 3 entidades: DGE, DGEstE e ANQEP. Esses projetos são promovidos por empresas privadas, algumas bem conhecidas, que, como é evidente, não se envolvem por filantropia. Se assim fosse, seria natural que os seus projetos fossem desenvolvidos onde não há financiamento comunitário, logo, onde seria necessário outras fontes de investimento, mas não o que acontece.

Também as escolas TEIP (Territórios Educativos de Intervenção Prioritária) podem apresentar candidaturas, mas as dificuldades são mais do que muitas. A saber:

A FENPROF sublinha que o problema, em sua opinião, não é as escolas terem projetos financiados por fundos comunitários, mas o facto de esses projetos não serem das escolas, de o Ministério da Educação não criar condições para que estas possam desenvolver os seus próprios projetos e garantir, a partir deles, mais e melhores recursos, e, ainda, de se dificultar essa possibilidade, dada a falta de pessoal administrativo nas escolas e à retenção de verbas pelo IGeFE, I.P. 

Para saber mais…