Pagam-lhes para escrever estas coisas…

exam-question[1]…ou escrevem-nas sem pensar?

Será antes o “jornalismo de causas”, que o Público sempre gostou de apadrinhar, que leva alguns jornalistas a esquecer regras básicas da sua profissão e a produzir parangonas tão enviesadas?…

Basta entrar no secundário um ano mais tarde para o insucesso duplicar

Vamos lá a ver, devagarinho para todos perceberem: não é por entrarem mais tarde que os alunos mais velhos têm mais insucesso no secundário.

Pelo contrário: o insucesso destes alunos no básico é que determinou que chegassem mais tarde ao secundário.

Tendo estes alunos à partida maiores dificuldades, é natural que elas se acentuem justamente quando passam a um nível de ensino naturalmente mais exigente. O contrário é que seria estranho. Que os bons alunos do básico chumbassem no secundário e os menos bons o concluíssem com pleno aproveitamento.

Se quisermos fazer observações espertas sobre esta realidade, podemos antes questionar: estes alunos com dificuldades em concluir os cursos científico-humanísticos não estariam melhor no ensino profissional? Assim parece, tendo em conta as maiores taxas de sucesso neste subsector e a sua maior adequação a quem prefere um ensino mais prático e profissionalizante.

Se quisermos ir ainda mais longe na reflexão, sem receio de enveredar por caminhos politicamente incorrectos, podemos ainda perguntar: e aqueles alunos, que até poderão ser poucos, mas continuam a existir, para quem todo e qualquer esforço que lhes seja exigido na escola será sempre considerado excessivo? O que se faz com eles? Baixa-se a fasquia até obtermos o sucesso obrigatório, ou assumimos que há um mínimo que não pode deixar de se exigir?

Diga-se, em abono da verdade, que o estudo da DGEEC até é bastante conciso e objectivo, apresentando os resultados do tratamento dos dados estatísticos disponíveis sem grandes voos interpretativos nem generalizações abusivas. E quando assim é, será sempre de lamentar que a imprensa dita de referência nestas matérias não consiga manter o tom sóbrio e isento dos documentos em que baseiam as notícias.

Anúncios

Uma greve em crescendo

dias-da-silva.jpg“Começamos com uma greve, no primeiro dia, que atingiu os 75%, subiu ligeiramente no dia a seguir na zona Sul, e ontem [quarta-feira], no Centro, a greve já ultrapassou 80%. Hoje, os sinais que nos chegam em comparação com os dias anteriores são de uma adesão ainda mais forte”, disse o dirigente da FNE.

João Dias da Silva, que falava aos jornalistas, na Praça dos Leões, no Porto, no decorrer de uma ação de divulgação das razões do protesto dos professores, disse existirem vários agrupamentos de escolas encerrados por toda a região, apontando como exemplo o caso de Alfena, onde “todas as escolas encerraram”.

Agora que a greve chegou ao fim talvez já se possa dizer, sem escandalizar ninguém, nem fazer o jogo de quem aposta na desmobilização dos professores, que os números da adesão têm sido claramente inflacionados.

Truques como o de apresentar dados sobretudo de pequenas escolas do 1º ciclo, onde é mais fácil conseguir adesões de 100% e escolas encerradas são, até certo ponto, compreensíveis perante a necessidade de dar mediatismo a uma luta para na qual muitos professores, diga-se em abono da verdade, já não acreditam.

Amanhã é o dia da grande manifestação nacional, e aí será mais difícil disfarçar as ausências.

Espera-se por isso que muitos marquem presença.

Greve de professores ruma a Sul

9A4M2D_230Ontem iniciada, a greve regional dos professores incide hoje nos distritos do Sul. Das notícias, fica a ideia de uma greve morna, sem os níveis de adesão de outros tempos mas ainda assim com apoio significativo da classe docente. Os 75% apresentados pelos sindicatos, sem contraditório, significam que os números reais serão provavelmente um pouco inferiores. Veremos o que nos reserva o segundo dia…

A greve dos professores, que se cumpre esta segunda-feira em Lisboa, Setúbal e Santarém, está a registar uma adesão de 75%, segundo Mário Nogueira, da Fenprof.
O primeiro balanço do protesto foi feito ao final da manhã no Largo Camões, em Lisboa. Mário Nogueira, da Federação Nacional dos Professores (Fenprof), diz que os 75% de adesão são níveis semelhantes aos registados na greve regional de março.

Entretanto, a campanha contra os professores, sempre conveniente nestas ocasiões, soma e segue. O JN investiga os malefícios do excesso de sindicalistas entre os professores, o que é sempre um bom pretexto para criar a imagem de uma classe cordata e submissa, os sindicatos é que… Já para a SIC e a TVI, a guerra é outra: descobriram que os professores fizeram imensas greves desde o início do ano. Não conseguem é pôr-se de acordo no que toca a números…

Com a greve desta semana, são já 29 os dias em que os professores estiveram parados, desde o início do ano. Os protestos prendem-se com a contagem do tempo de serviço congelado. Sindicatos e professores ainda não se entenderam quanto ao número que deve ser contado.

O braço-de-ferro com o Governo vai em longos meses e os professores já pararam 50 dias só nestes primeiros dez meses do ano, se contabilizarmos a greve de quatro dias que começou esta semana.
As reivindicações são sempre as mesmas

…os professores, revelou o Ministério da Educação (ME), têm 23 sindicatos, sendo que 359 têm dispensa de serviço para se dedicarem à atividade sindical, 167 a tempo integral (0,1% da classe).

Sobre o Prós e Prós dedicado à Educação

pros.JPGSeguindo a mesma linha de sempre – a construção de falsos consensos destinados a legitimar as políticas e os interesses que se impõem nas diversas áreas da economia e da sociedade – o programa de ontem lá tentou reinventar a santa aliança entre governo, empresários e famílias rumo à Educação do século XXI.

Do conjunto de participantes, destaco a intervenção irrepreensível de Paulo Guinote, que era, bem vistas as coisas, o único que verdadeiramente sabia do que estava a falar.

Pois é muito fácil, olhando a escola a partir de fora, elaborar teorias acerca dos seus malefícios actuais e do que deveria ser. É fácil dar largas à imaginação, sabendo que não se irá ser confrontado, no terreno, com a concretização dos miríficos projectos.

Contudo, se invertermos a lógica da coisa, à maneira das flipped classrooms agora na moda, e exercitarmos nós, professores, a observação clínica destes pedagogos instantâneos, também conseguiremos perceber, com relativa facilidade, ao que é que eles andam.

A educação é uma potencial área de negócio e as oportunidades no sector surgem essencialmente de duas formas. Uma, relativamente benigna, convencendo os decisores a comprar determinados zingarelhos indispensáveis à educação do futuro. A outra, verdadeiramente maligna, degradando a qualidade da escola pública até que esta chegue a um nível tão baixo que crie por si só o mercado para os projectos educativos diferenciados que actualmente não se conseguem impor.

Pelo meio disto tudo, há uma ideia perigosa que vai fazendo o seu caminho: a ilusão de que as aprendizagens devem ser fáceis e divertidas, que as crianças não precisam de se esforçar para serem boas naquilo que fazem, não devem ser contrariadas e só precisam de estudar aquilo de que gostam. O embate com a realidade vai ser terrível – já está a ser – para muitos jovens criados nesta redoma de facilitismos e proteccionismos.

Uma palavra ainda para os senhores directores que marcaram ontem presença e que comprovaram uma vez mais que é mais fácil estar do lado dos decisores, a impor toda e qualquer reorganização curricular, do que do lado dos professores que a terão de executar. O entusiasmo com que defendem os projectos não os leva a largar os gabinetes da direcção para serem seus executores no terreno.

Finalmente, o secretário de Estado: confirmou a ideia que tinha dele, um demagogo hábil e insinuante. O que, tendo em conta as ideias que defende e a gente de que se rodeia, não augura nada de bom para os próximos tempos. A João Costa têm sido apontadas nos últimos tempos as estreitas ligações à OCDE. Pois bem, talvez a ambicionada carreira internacional nessa organização nos libertasse dos excessos de flexibilidade que ameaçam pôr de rastos a martirizada Educação portuguesa.

O Governo e os professores segundo RAP

Para terminar com boa disposição o último domingo antes do início das aulas a sério.

As picardias verbais entre António Costa e Mário Nogueira, o resumo manipulatório do relatório da OCDE e os professores portugueses que, supostamente, vivem como nababos. O comentário de Ricardo Araújo Pereira e os apartes dos seus parceiros do Governo Sombra. Tudo condensado em três minutos bem humorados.

Boa semana!

Promiscuidades

jcosta.JPGO semanário Sol dá destaque de primeira página a um facto que, não sendo novidade, nunca tinha despertado a atenção dos média: o SE João Costa exerce um alto cargo directivo na OCDE, a mesma organização que tem avaliado favoravelmente as políticas educativas pelas quais é responsável enquanto governante em Portugal.

Caladinho enquanto circulava informação errónea e acintosa sobre os professores portugueses, reagiu rapidamente assim que viu o seu nome saltar para as parangonas dos jornais. E foi através do Facebook que João Costa, esgrimindo meias-verdades e usando de alguma dissimulação, tentou explicar que, não sendo “director de nada”, preside afinal a um órgão político da OCDE. Pela minha parte, não terei muito mais a acrescentar às dúvidas éticas que por aqui formulei há um ano atrás, quando a situação foi conhecida.

Para os mais distraídos, este caso é paradigmático da forma como funcionam e se articulam os governos nacionais e as organizações internacionais. A OCDE, tal como a OMC, o FMI ou o Banco Mundial, são fabricantes de consensos em torno de determinadas políticas que interessam às principais potências políticas e económicas, incluindo aqui não apenas os estados, mas também as grandes multinacionais. E governos democráticos usam os “estudos”, os conselhos, os relatórios destas organizações para impor aos seus governados políticas de escasso ou nulo apoio popular.

É neste contexto que governantes e funcionários políticos povoam os conselhos e os directórios das organizações, assim como quadros da OCDE, a convite do Governo, não se inibem de vir a Portugal dar palpites sobre as reformas educativas em curso ou a desenvolver futuramente. Há como que um acordo tácito entre os directores e altos quadros destas organizações e os governos: aqueles ditam, revestidas numa roupagem de competência técnica e autoridade científica, as “melhores políticas” a executar pelos governantes nacionais. E estes, em contrapartida, fornecem os dados estatísticos e encomendam os estudos e as conclusões que favoreçam a implantação das “boas políticas”.

Claro que tudo isto é muito pouco ético – organizações a avaliar medidas que elas próprias recomendaram, governantes que são simultaneamente conselheiros de organizações supostamente independentes – e ainda menos democrático: a política faz-se de escolhas, não de caminhos únicos nem falsos consensos que se tenta impor à escala global. E essas escolhas devem ser feitas pelos cidadãos, mediante eleições, pesando os prós e os contras de projectos políticos diferentes, cada um com as suas vantagens e as suas limitações.

O mundo globalizado pode ser um mundo bem menos democrático do que os estados nacionais, sobretudo se dermos rédea solta aos poderes que se impõem à escala global mas que ninguém elegeu. O agente da OCDE que se mantém em funções como secretário de Estado da Educação é apenas um sinal da promiscuidade política e do défice democrático que assolam a nova ordem mundial.

Regressa a campanha contra os professores

Este fim de semana, é o semanário do regime a dar o mote: os professores já ganham bem; a recuperação integral do tempo de serviço teria custos incomportáveis; a opinião pública não aceitaria que o governo cedesse às suas reivindicações.

mw-960.jpgCom sondagem e tudo…

Os professores continuam a exigir que o Governo aceite contar, para efeitos de progressão e aumentos salariais, todos os anos de serviço que ficaram para trás, durante os anos de congelamento das carreiras. Mas, de acordo com o estudo de opinião conduzido pela Eurosondagem para o Expresso e a SIC, não contam com o apoio da maior parte dos portugueses.

O estudo, elaborado entre os dias 5 e 12 de setembro, mostra uma tendência clara: para 69% dos inquiridos, o Governo não deve aceitar a exigência dos docentes, que querem os nove anos, quatro meses e dezoito dias contados de forma integral. Apenas 19,4% dos inquiridos dá razão aos professores.

Os resultados do estudo são conhecidos no final de uma semana agitada para os docentes. A divulgação por vários jornais do relatório da OCDE Education at Glance não foi uma boa notícia: o retrato da classe feito no documento é pouco abonatório para a causa, descrevendo os professores como um grupo envelhecido e bem pago. Na mesma altura, o ministério das Finanças revelou que o descongelamento da carreira docente (sem contar com a contagem do tempo que ficou para trás) já representa um quarto dos custos com esse processo na Função Pública. Os sindicatos vieram imediatamente desmentir os números, acusando o Governo de tentar manipular a opinião pública contra os professores e de lhes tirar força para as negociações.