Testes para professores

Os cerca de 35 mil testes realizados na semana em que as crianças voltaram às creches permitiram detectar 58 casos de profissionais infectados com o novo coronavírus. Estes números estão em linha com que o que foi verificado nas escolas do 1.º ciclo e no ensino pré-escolar na mesma altura.

Os 58 “positivos” em 35 mil testes realizados correspondem a uma taxa de positividade de 0,16%. Na mesma semana, foram feitos 82 mil testes nos estabelecimentos públicos e privados do pré-escolar e 1.º ciclo, que detectaram 80 casos de covid-19. Ou seja, a taxa de positividade nas escolas foi inferior a 0,1%, como tinha avançado na altura o Ministério da Educação.

As percentagens de casos positivos registadas tanto nas creches como nas escolas está em linha com os resultados da primeira fase de testagem, que tinha arrancado a 20 de Janeiro, antes da interrupção das aulas, e que continuou nas escolas de acolhimento durante o tempo de ensino à distância. Nesse período foram feitos mais de 65 mil testes, com uma taxa de casos positivos de 0,15%.

Professores e funcionários das escolas andam desde Janeiro a ser submetidos a sucessivos rastreios à covid-19, dos quais resultam taxas de positividade irrisórias. É certo que foram muito criticados por não testar, mas a partir do momento em que o decidem fazer, convinha que os testes fossem eficazes no fim a que se deveriam destinar: identificar e quebrar eventuais cadeias de transmissão. De outra forma, estaremos uma vez mais a criar, apenas, uma falsa sensação de segurança.

Não se sabe quanto tempo mais vão andar nisto, sendo por demais evidente que não basta fazer muitos testes, é necessários direccioná-los para o público-alvo correcto. Embora os profissionais docentes e não docentes também possam transmitir o vírus, é óbvio que os contágios nas escolas se fazem sobretudo através dos alunos, que nem sempre mantêm o devido distanciamento entre eles, retiram as máscaras em diversas ocasiões ou se aglomeram nos acessos, já para não falar na proximidade física no interior dos transportes escolares.

Da maneira que está a ser feita, a testagem nas escolas é uma mistificação, O que o próprio primeiro-ministro acaba indirectamente por admitir, ao associar a abertura plena das escolas, daqui a pouco mais de uma semana, à eclosão de um provável quarto surto da pandemia. E é neste contexto que o boneco do Facetoons se mostra espantosamente certeiro e oportuno. A verdade é que a matéria essencial continua fora das “aprendizagens essenciais”…

Dia das Mentiras

Já um ano ou outro não resisti à tentação, e assinalei o tradicional dia das mentiras postando por aqui uma notícia falsa. Mas nos tempos que correm não me apetece fazê-lo, e nem seria muito difícil inventar uma qualquer peta para brincar um pouco, tentando enganar os mais incautos dos meus leitores.

Na realidade, a mentira clara e assumida, agora elevada à condição de verdade alternativa, instalou-se solidamente na manipulação mediática e, mais ainda, nas redes sociais. Negar mesmo as verdades mais evidentes tornou-se modo de vida de políticos ignorantes e populistas, de jornalistas sem escrúpulos em busca de audiências, de perfis falsos que enxameiam as redes sociais. Para quem, como eu, marca diariamente presença na blogosfera, combater a desinformação e a manipulação tornou-se parte do quotidiano. Perco demasiado tempo a tentar desmontar maroscas e aldrabices para ter vontade de inventar mentiras no dia das ditas cujas.

No admirável mundo do século XXI, o negacionismo tornou-se o supra-sumo da arte de mentir.

Imagem daqui.

Menos de 0,1% de casos positivos nas escolas

Os testes rápidos de antigénio realizados durante a semana passada nas escolas do 1.º ciclo e nos estabelecimentos de educação pré-escolar detectaram 80 casos de covid-19 entre professores e trabalhadores não docentes. Após a retoma do ensino presencial, foram testadas 82 mil pessoas ao longo de quatro dias. Ou seja, a taxa de positividade foi inferior a 0,1%, avança o Ministério da Educação.

Um resultado tão expectável quanto inconclusivo, tendo em conta as condições que foi feita a testagem. Optou-se por testes rápidos, que geralmente não detectam doentes assintomáticos. E tanto se adiou a aplicação dos testes que, quando ela finalmente se fez, já as escolas tinham passado ao regime não presencial. Ou seja, o valor agora divulgado não reflecte a realidade de escolas a funcionar em pleno. Muito menos serve para confirmar ou refutar o mito de que as escolas são lugares seguros.

Quando a política de “testar, testar, testar” estava na ordem do dia, nunca o reforço da capacidade de testagem foi encarado como uma verdadeira prioridade. A dada altura, alimentou-se mesmo a ilusão de que quanto menos se testasse, menos casos positivos se registariam e melhor seria o desempenho do país no combate à covid-19. Uma ideia absurda e perigosa, que contribuiu para os números catastróficos da pandemia no passado mês de Janeiro.

Agora, creio bem que já passou o tempo dos testes em massa. Independentemente da sua utilidade na detecção, rastreio e vigilância de novos casos, vencer a pandemia passa pela vacinação generalizada da população. E é nisso que os responsáveis políticos e autoridades de saúde nacionais e europeus se devem focar. Só com a construção de uma sólida imunidade de grupo será possível o regresso gradual à normalidade nas nossas vidas. E isso só se conseguirá quando formos capazes de imunizar mais depressa do que o vírus consegue contagiar.

A cartilha do Holocausto

O Ministério da Educação enviou para as escolas “Recomendações para o Ensino e Aprendizagem sobre o Holocausto” que permite conservar a memória, mas também “prevenir a intolerância para com o outro”. A Direção-Geral da Educação traduziu para português o manual que agora pode ser utilizado por professores e educadores no ensino do tema do Holocausto. O documento já foi enviado para as escolas, anunciou hoje a tutela num comunicado enviado para as redações.

Este manual é mais um instrumento que serve para “fomentar a memória do Holocausto, promover a prevenção e o combate a todas as formas de discriminação, antissemitismo, xenofobia, racismo, homofobia e outras de desrespeito pela dignidade humana”, sublinha o ME.

Como professor de História, dispenso bem o desvelo paternalista com que o ME pretende instruir os professores portugueses na arte de bem ensinar o Holocausto. Uma matéria que consta, há décadas, dos programas da disciplina, integrada no tema mais vasto da afirmação dos fascismos europeus e da II Guerra Mundial.

Mais: não me agrada esta cedência ao lobby do sionismo internacional e da indústria do Holocausto, na forma de directrizes para fazer a abordagem politicamente correcta do tema, pondo em causa, como quem não quer a coisa, tanto a sua integração curricular como a autonomia pedagógica dos professores no seu tratamento.

Aqui é altura de abrir um parêntesis para recordar que este e outros temas já não se incluem apenas na disciplina de História. Fazem também parte da Educação para a Cidadania, e aqui podem ser tratados por professores de qualquer disciplina. Ora uma das utilidades destas transversalidades curriculares, leccionadas por docentes que não dominam cientificamente todos os temas a tratar, é precisamente tornar os professores menos autónomos e mais inseguros – e como tal, mais receptivos à aplicação do que consta nos referenciais e nos guiões governamentais.

E por aqui chegamos ao cerne da questão: o ministério que quer incentivar o estudo do Holocausto e de outros temas que promovam a paz, a tolerância e o respeito pelos direitos humanos é o mesmo que diminui o tempos lectivos da disciplina de História. Ausente do currículo da esmagadora maioria dos alunos do Secundário, reduzida a uma presença de 90 ou 100 minutos semanais na maioria dos anos do 3.º ciclo, a História que hoje se consegue ensinar e aprender fica muito aquém dos ambiciosos programas e objectivos que se estabelecem para a disciplina. Haverá tempo para debitar uns temas avulsos, ao sabor das modas, dos lobbies e das cartilhas ministeriais, mas não para desenvolver o pensamento estruturado e o raciocínio crítico que dão verdadeiro valor e utilidade à História. Se calhar, é mesmo isso o que se pretende…

Botellón à moda do Porto

A zona histórica do Porto registou, durante este fim de semana, um ajuntamento que reuniu centenas de pessoas para beber e dançar na rua sem que fossem observadas as regras de distanciamento social e respeitados os horários de consumo de álcool.

O Jornal de Notícias escreve que as zonas com maior procura são as galerias de Paris e toda a zona envolvente dos jardins da Cordoaria e que as esplanadas estavam cheias, com música ao vivo e várias pessoas a dançar.

À TSF, o presidente da Associação de Bares da Zona Histórica do Porto, António Fonseca, garante que os ajuntamentos com muitos jovens a beber na rua acontecem “quase todos os dias” e há até um “dois em um”, que explica.

“No que verificamos que é proibido, as autoridades não estão a funcionar”, critica António Fonseca, que adianta até que há quem leve o carro e sirva bebidas a partir dos mesmos: “Abrem as malas, mesmo com o impulso do botellón, e até tiram de lá umas caixinhas com garrafas de bebidas alcoólicas.”

botellon

Segundo os dados mais recentes, a região Norte já superou Lisboa e Vale do Tejo no número de novos casos de infecção pela covid-19. Com a sucessão de botellones que, com a complacência das autoridades, têm animado a noite portuense, a capital do norte está bem lançada na disseminação da pandemia que os mais ingénuos julgavam já controlada. 

Foi desta forma que a situação em Espanha se descontrolou, lançando o país, em vésperas do arranque das aulas, numa segunda vaga de contágios. Mas nem os ajuntamentos ilegais na via pública, as jantaradas dos betinhos da Católica, os leitores que se acotovelam nos expositores da Feira do Livro ou os adeptos-comensais nos os comícios do Chega parecem incomodar o país. O grande problema está, a acreditar na mega-operação de manipulação mediática a que assistimos nas duas últimas semanas – e na qual o grupo Impresa e a SIC desempenharam um papel especialmente vergonhoso – na festa do Avante.

Terminada a festa comunista, cabe agora à comunicação social avençada dos grandes interesses económicos e dos apoios governamentais encontrar outros pretextos para ir desinformando do acessório, para que não se discuta o essencial.

Essencial que será, nos tempos mais próximos, a reabertura das escolas sem que estejam asseguradas as devidas condições de distanciamento e segurança sanitária. Com a colaboração prestimosa de representantes dos directores e dos pais, os principais noticiários continuam a garantir-nos que as escolas são seguras, que tudo está a ser preparado e que haverá distanciamento mínimo garantido de um metro entre os alunos. E o pessoal confia…

Até quando?…

Suicídio colectivo

Suicídio colectivo não é a realização da Festa do Avante segundo o New York Times, que nunca deu a notícia nestes termos, muito menos fez dela manchete de primeira página. Mas poderá muito bem ser esta grosseira demonstração de incompetência e falta de deontologia de uma equipa de jornalistas profissionais que atira para o ar, na abertura do principal noticiário, uma notícia falsa montada nas redes sociais.

nytimes

A credibilidade da informação da SIC, que já não era famosa, acabou de levar, dada pelos próprios, mais uma valente machadada. É o que sucede quando as agendas político-partidárias e os preconceitos ideológicos se sobrepõem ao dever principal do jornalista, que é o de informar com isenção, objectividade e rigor. E verificar as fontes, confirmar os factos, dar espaço ao contraditório. Precisarão que lhes ensinem o b-a-bá da profissão?

E é esta gente que quer dar lições aos professores sobre fake news e literacia para os media?…

Professores boicotam início das aulas

el-mundo

Passou-se em Espanha, mas esta primeira página do El Mundo demonstra que o jornalismo sensacionalista, tendencioso e manipulatório não conhece fronteiras.

Naturalmente que a greve dos professores de Madrid, anunciada para o começo do ano lectivo, não é um boicote. Nem tem, ao contrário de quem escreveu a manchete, motivações políticas. Destina-se a exigir que a reabertura das aulas se faça apenas se e quando estiverem asseguradas as condições de segurança exigíveis num contexto de pandemia.

Se as autoridades optam por subfinanciar a educação pública, enquanto desviam verbas avultadas para outros fins, então devem assumir publicamente as suas responsabilidades. Em vez de as atirarem para os professores que apenas pretendem, como é natural, defender a saúde deles próprios e dos seus alunos.

28 500 docentes colocados? Nem metade foram!…

pinoquioSaúda-se a publicação das listas de colocações em mobilidade interna e contratação inicial antes de concluída a primeira quinzena de Agosto. Quando, num ano tão excepcional como 2020 está a ser, se fez o que ainda não há muito tempo se dizia ser impossível, fica claramente demonstrado que só a inércia e a incompetência dos serviços justificava os atrasos ocorridos noutros anos.

Mas da mesma forma que se enaltecem os pontos positivos, também a propaganda mentirosa do comunicado governamental deve ser denunciada:

28500 professores colocados na primeira quinzena de agosto

Na realidade, apenas foram colocados cerca de 2 000 docentes dos quadros na mobilidade interna, a que se somam 11.042 contratados, nem todos em horários completos. Todos juntos são cerca de 13 mil docentes. Para chegar ao número enganador propagandeado pelo Governo, teremos de somar os cerca de 15500 docentes dos quadros que também concorreram e… não foram colocados, continuando em funções na escola do ano anterior.

Para os interessados em aprofundar a análise dos resultados das colocações, o Blogue do Arlindo continua a ser a principal referência em tudo o que diz respeito aos concursos de professores.

Saliento também o comunicado da Fenprof, que desmonta o quadro cor-de-rosa traçado pelo Governo, confrontando-o com a realidade de uma política de recrutamento que continua assente na precariedade e na insuficiência de recursos humanos:

– Apenas vincularam 872 docentes e, agora, houve 9300 colocações em horários completos, das quais 7650 por contratação a termo

– 60% do prometido reforço de 2500 professores não foi cumprido

– 24.000 docentes vão, por enquanto, manter-se desempregados

 

Troca de favores

O esquema é antigo, e deveria envergonhar algum jornalismo que se considera de referência.

O Governo fornece informação privilegiada a um órgão de comunicação, permitindo-lhe elaborar uma notícia “exclusiva”. Em contrapartida, este produz uma manchete simpática para as intenções mistificadoras do Governo.

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Neste caso, interessava escamotear a realidade de que, de ano para ano, cada vez mais docentes ficam barrados na progressão ao 5º e 7º escalões. E assinala-se a progressão de 6 mil professores quando na verdade cerca de 4 mil progrediriam de qualquer forma, pois o resultado da avaliação de desempenho dispensa-os da necessidade de vaga.

Quanto ao ME, as menos de 2 mil vagas que irá abrir não permitirão a progressão da grande maioria dos docentes que tiveram Bom na última avaliação. Tendo em conta que nas listas do ano passado ficaram mais de 2 mil por colocar, e que de ano para ano vai aumentando o número de docentes que engrossam a lista dos afunilados, só resta concluir que, caso nada mude nesta matéria, o número de professores impedidos administrativamente de progredir na carreira continuará a aumentar.

Segundo dados do Ministério da Educação, citados pelo Público, mais de 6.000 docentes vão progredir para o 5.º e 7.º escalões (4.000 e 2.000, respetivamente). Trata-se de um aumento de 43% face ao mesmo período de 2019. Quando entram no 5.º escalão, os docentes têm um aumento salarial de cerca de 80 euros mensais — ficam a ganhar um salário médio líquidos de 1.415 euros. No caso do 7.º escalão, a subida remuneratória é de 180 euros mensais, para 1.575 euros.

O acesso aos 5.º e 7.º escalões depende, porém, do número de vagas que sejam abertas pelo Governo, só que, no caso dos docentes que na avaliação de desempenho tenham Muito Bom ou Excelente a progressão é automática. Segundo o Público, a maioria dos professores que progride (cerca de 4.000) para estes escalões, este ano, obteve as notas duas notas máximas na avaliação.

Serão, ainda, abertas 1.852 vagas (852 para o 5.º escalão e 1.043 para o 7.º). É o maior número de vagas desde o descongelamento das carreiras, em 2018.

Não usem a Wikipedia!

wikipedia.gifNa opinião de um dos fundadores, e conforme noticia o jornal El País, a Wikipédia teve desde sempre um problema que era o de lutar contra aquelas que pessoas que poderiam ser prejudiciais à veracidade e ao rigor das informações que ali eram colocadas.

Larry Sanger diz mesmo que um dos desafios até agora foi a luta contra as pessoas que tentaram sempre manipular a informação constante nesta plataforma. “Tem sido uma luta contra as pessoas que procuram prejudicar e manipular a informação, dando-lhe um cunho ideológico”, referiu.

O filósofo confessou na Áustria que este “foi sempre um dos obstáculos que encontrámos desde o início. Tentámos sempre que os maus atores não arruinassem o projeto que se dedicava ao público em geral”, mas “infelizmente não fomos capazes de controlar nem de arranjar uma solução para o problema.” Portanto, e como resultado, Larry Sanger lamenta: “O sistema da Wikipédia não funciona.”

A Wikipédia foi criada para funcionar como uma enciclopédia que dependeria do conhecimento e da inteligência das massas. Mas o que se tem vindo a revelar desde o início são situações de grande polémica, sobretudo no que diz respeito a temas relacionados com a política. “Este problema deve ser resolvido pela política de neutralidade da Wikipédia, mas a Wikipédia decidiu aceitar editores que escrevem artigos apenas com um ponte de vista, que descartam visões impopulares e que não fazem justiça à verdade.”

Cansado da manipulação e de informações erradas na Wikipédia, Larry Sanger aconselha a que não a usem.

Deixem-me ser um bocadinho menos radical do que Sanger e propor: usem a Wikipedia, sim, mas façam-no com conta, peso e medida.

Assumindo a mesma precaução básica que devemos ter em relação a tudo o que encontramos na internet: está lá porque alguém, com determinada intenção, aí o colocou.

Distinguindo entre o que é informação factual rigorosa – basicamente o que procuramos numa enciclopédia e que mesmo assim só é segura se puder ser confirmada por outras fontes – do que não passa de opinião, preconceito ou propaganda.

Acima de tudo, nunca fazendo da Wikipedia, ou de qualquer outro site, a única fonte de informação.