Inclusão vai entrar na avaliação das escolas

inspectorO novo ciclo da avaliação externa das escolas, que se iniciará em Maio, vai ter na inclusão “o indicador-chave” para a análise das práticas dos estabelecimentos de ensino, anunciou nesta quarta-feira o secretário de Estado da Educação, João Costa.

Será o terceiro ciclo da avaliação conduzida pela Inspecção-Geral da Educação e Ciência (IGEC), um procedimento que se iniciou em 2006 e que, segundo João Costa, para além dos resultados nos exames, vai passar a integrar o trabalho desenvolvido pelas escolas no âmbito das novas políticas educativas iniciadas pela actual tutela, bem como os novos indicadores que têm sido desenvolvidos pela Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC).

Talvez por nunca ter levado muito a sério as teorias acerca da propalada isenção e independência, relativamente ao Governo, da acção inspectiva da IGEC, interpretei esta notícia, que ouvi em primeira mão ontem, na rádio, como a mera adaptação de grelhas, formulários e rotinas inspectivas às teorias da inclusão que, a par da flexibilidade, se tornaram entre nós a última moda educativa.

Contudo, reflectindo um pouco, não posso deixar de dar razão ao Paulo Guinote: esta será a forma, nada subtil, de instrumentalizar a Inspecção ao serviço de uma política que se tenta implementar às três pancadas, para que conste, no balanço final da legislatura, como um grande êxito da política educativa deste governo. Enquanto o voluntarista secretário de Estado ruma, discretamente, a outras paragens.

…Basta ver como João Costa se prepara para instrumentalizar a IGE ao serviço das suas crenças pessoais e políticas, de um modo que não me lembro, tornando-a o “braço armado” da implementação das suas “reformas”. Ou lhe obedecem ou terão uma avaliação fraquinha. Voltámos ao tempo dos “comissários políticos” enviados para intimidar as escolas? Autonomia? A sério?…

Como é evidente, mandaria o mais elementar bom senso que primeiro fosse avaliada a implementação do novo regime de inclusão, corrigidos os erros e aperfeiçoados os procedimentos. Só depois de estar consolidada a sua aplicação nas escolas fará sentido integrar a inclusão no processo de avaliação externa das escolas. Porém, a sensatez parece, na recta final da legislatura, ser um valor em queda neste ministério e neste governo…

Os professores e a “sondagem” do Expresso

expresso-sondagemO Expresso tenta, através das suas sondagens, tomar o pulso ao estado da geringonça e à evolução da conjuntura política até às próximas legislativas. Embora não costume perder tempo com as análises de um semanário que, se ainda consegue ter alguma influência, há muito deixou de ser de referência, houve algo em que não pude deixar de reparar: segundo a edição de ontem do jornal, só 16,9% dos portugueses concordam com a pretensão dos professores de recuperar integralmente o tempo de serviço que lhes foi retirado. Os restantes inquiridos com opinião formada apoiam a devolução parcial proposta pelo Governo ou acham até que não devia ser recuperado tempo algum.

Claro que estas “sondagens”, feitas com base em entrevistas telefónicas a detentores de telefone fixo, há muito deixaram de assentar numa amostra representativa da população portuguesa. Como se costuma dizer, valem o que valem, e neste caso valem muito pouco. Estou convicto, aliás, que servem mais o intuito de influenciar a opinião pública, uma missão de que o Expresso continua a sentir-se investido, do que o de reflectir o que os cidadãos realmente pensam e sentem.

Mas há algo que os jornalistas/opinadores/comentadores do Expresso parecem esquecer enquanto se congratulam com o apoio popular esmagador à política do Governo contra as reivindicações “corporativas” dos professores: 16,9% dos habituais votantes nas eleições representam perto de um milhão de votos. São, em termos práticos, um factor limitador do crescimento eleitoral do PS até ao limiar da maioria absoluta.

Parece persistir, no PS profundo, a convicção de que o enfrentamento dos professores rende dividendos políticos. E nem a perda da maioria absoluta em 2009, resultado dessa e doutras obstinações do socratismo, levou os dirigentes socialistas a rever ideias e posições. Para os professores, a reiterada desconfiança do PS em relação aos profissionais da Educação e a forma acintosa como faz questão de os tratar, apenas podem ter um resultado: no que deles depender, jamais o PS voltará a ter uma maioria absoluta…

A OCDE ao serviço dos governos

santos-pereira.JPGNa Educação, só quem anda muito distraído não o percebeu há muito tempo: a orientação dos “estudos” da OCDE e, sobretudo, as suas conclusões, são informalmente consensualizadas entre os responsáveis da organização e os governantes que tutelam o sector.

É assim há muitos anos, mas como esses documentos tendem sempre a salvaguardar a acção dos sucessivos governos e a encontrar culpas e falhas sobretudo nos agentes do sistema, é raro ver-se alguém, entre a opinião que se publica, apontar a falta de isenção da OCDE.

No entanto, quando o tema deixa de ser a enésima reforma educativa e se toca no problema bem mais sensível da corrupção; quando, ainda para mais, essa abordagem é feita por um membro do anterior governo, nesse momento tocam os alarmes, à força toda, nos gabinetes governamentais:

Governo pressiona OCDE a tirar ou mudar capítulo sobre corrupção

Antigo ministro de Passos quer dar destaque à corrupção num relatório sobre a economia portuguesa. Governo diz que opção é forçada e estereotipada.

E que tal falar verdade sobre o assunto? É claro que a corrupção existe, embora se desconheça a sua dimensão real, precisamente porque o fenómeno continua a ser escondido e desvalorizado, em vez de denunciado e investigado. Como é evidente, reduzir-se-á quando houver leis suficientemente punitivas e tribunais capazes de julgar e condenar a penas de prisão efectiva os corruptores activos e passivos.

Quanto aos relatórios da OCDE… também se percebe, pela forma como reagiu o executivo, que mandar apagar referências demasiado desfavoráveis tem sido uma prática generalizada de sucessivos governos. Como confirma Seixas da Costa, um ex-embaixador português que é presença assídua no Twitter e sabe, há muitos anos, como estas coisas se fazem…

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Aumento salarial de 19% para os professores – a sério?…

hauling_arrow_up_graph_anim_md_wm-Green-Done[1]Não há acordo na educação mas professores têm aumento de 19%

O Governo e os professores não chegaram a acordo em relação à progressão das carreiras dos docentes, após as reuniões com as estruturas sindicais que se realizaram esta terça-feira, 18 de dezembro. Em comunicado, o Ministério das Finanças informou que o processo negocial, mas assegurou uma valorização remuneratória de 19% para estes funcionários públicos.

“Com esta proposta, assegura-se que entre 2019 e 2023 a carreira docente será uma das que terá maior valorização remuneratória em toda a administração pública, com um aumento médio acumulado de 19% e um custo total, nesse período, de cerca de 750 milhões de euros”, refere o gabinete de Mário Centeno, na mesma nota.

O título enganador recorda-nos como um certo jornalismo económico persiste em transmitir informação sensacionalista e pouco rigorosa, o que se percebe logo que se passa à leitura do corpo da notícia. Não sei se é apenas caça ao clique ou se os fretes ao Governo e a outros poderes continuam a fazer parte do modus vivendi da imprensa especializada nos assuntos económicos.

O fabuloso “aumento de 19%” é afinal um valor médio, diferido ao longo de cinco anos. Corresponderá a uma ou duas progressões na carreira de que a generalidade dos professores supostamente irão beneficiar neste período.

E dizer-se que a carreira dos professores será das que terão maior valorização é apenas meia verdade. Dever-se-ia acrescentar que, ao contrário do que sucedeu noutras carreiras, onde houve promoções durante o congelamento, nenhum professor progrediu durante esse período.

No essencial, as progressões de carreira que agora se acenam aos professores só se irão concretizar na próxima legislatura. Ou seja, o actual Governo promete aquilo que outros irão pagar. Se pagarem.

Pagam-lhes para escrever estas coisas…

exam-question[1]…ou escrevem-nas sem pensar?

Será antes o “jornalismo de causas”, que o Público sempre gostou de apadrinhar, que leva alguns jornalistas a esquecer regras básicas da sua profissão e a produzir parangonas tão enviesadas?…

Basta entrar no secundário um ano mais tarde para o insucesso duplicar

Vamos lá a ver, devagarinho para todos perceberem: não é por entrarem mais tarde que os alunos mais velhos têm mais insucesso no secundário.

Pelo contrário: o insucesso destes alunos no básico é que determinou que chegassem mais tarde ao secundário.

Tendo estes alunos à partida maiores dificuldades, é natural que elas se acentuem justamente quando passam a um nível de ensino naturalmente mais exigente. O contrário é que seria estranho. Que os bons alunos do básico chumbassem no secundário e os menos bons o concluíssem com pleno aproveitamento.

Se quisermos fazer observações espertas sobre esta realidade, podemos antes questionar: estes alunos com dificuldades em concluir os cursos científico-humanísticos não estariam melhor no ensino profissional? Assim parece, tendo em conta as maiores taxas de sucesso neste subsector e a sua maior adequação a quem prefere um ensino mais prático e profissionalizante.

Se quisermos ir ainda mais longe na reflexão, sem receio de enveredar por caminhos politicamente incorrectos, podemos ainda perguntar: e aqueles alunos, que até poderão ser poucos, mas continuam a existir, para quem todo e qualquer esforço que lhes seja exigido na escola será sempre considerado excessivo? O que se faz com eles? Baixa-se a fasquia até obtermos o sucesso obrigatório, ou assumimos que há um mínimo que não pode deixar de se exigir?

Diga-se, em abono da verdade, que o estudo da DGEEC até é bastante conciso e objectivo, apresentando os resultados do tratamento dos dados estatísticos disponíveis sem grandes voos interpretativos nem generalizações abusivas. E quando assim é, será sempre de lamentar que a imprensa dita de referência nestas matérias não consiga manter o tom sóbrio e isento dos documentos em que baseiam as notícias.

Uma greve em crescendo

dias-da-silva.jpg“Começamos com uma greve, no primeiro dia, que atingiu os 75%, subiu ligeiramente no dia a seguir na zona Sul, e ontem [quarta-feira], no Centro, a greve já ultrapassou 80%. Hoje, os sinais que nos chegam em comparação com os dias anteriores são de uma adesão ainda mais forte”, disse o dirigente da FNE.

João Dias da Silva, que falava aos jornalistas, na Praça dos Leões, no Porto, no decorrer de uma ação de divulgação das razões do protesto dos professores, disse existirem vários agrupamentos de escolas encerrados por toda a região, apontando como exemplo o caso de Alfena, onde “todas as escolas encerraram”.

Agora que a greve chegou ao fim talvez já se possa dizer, sem escandalizar ninguém, nem fazer o jogo de quem aposta na desmobilização dos professores, que os números da adesão têm sido claramente inflacionados.

Truques como o de apresentar dados sobretudo de pequenas escolas do 1º ciclo, onde é mais fácil conseguir adesões de 100% e escolas encerradas são, até certo ponto, compreensíveis perante a necessidade de dar mediatismo a uma luta para na qual muitos professores, diga-se em abono da verdade, já não acreditam.

Amanhã é o dia da grande manifestação nacional, e aí será mais difícil disfarçar as ausências.

Espera-se por isso que muitos marquem presença.

Greve de professores ruma a Sul

9A4M2D_230Ontem iniciada, a greve regional dos professores incide hoje nos distritos do Sul. Das notícias, fica a ideia de uma greve morna, sem os níveis de adesão de outros tempos mas ainda assim com apoio significativo da classe docente. Os 75% apresentados pelos sindicatos, sem contraditório, significam que os números reais serão provavelmente um pouco inferiores. Veremos o que nos reserva o segundo dia…

A greve dos professores, que se cumpre esta segunda-feira em Lisboa, Setúbal e Santarém, está a registar uma adesão de 75%, segundo Mário Nogueira, da Fenprof.
O primeiro balanço do protesto foi feito ao final da manhã no Largo Camões, em Lisboa. Mário Nogueira, da Federação Nacional dos Professores (Fenprof), diz que os 75% de adesão são níveis semelhantes aos registados na greve regional de março.

Entretanto, a campanha contra os professores, sempre conveniente nestas ocasiões, soma e segue. O JN investiga os malefícios do excesso de sindicalistas entre os professores, o que é sempre um bom pretexto para criar a imagem de uma classe cordata e submissa, os sindicatos é que… Já para a SIC e a TVI, a guerra é outra: descobriram que os professores fizeram imensas greves desde o início do ano. Não conseguem é pôr-se de acordo no que toca a números…

Com a greve desta semana, são já 29 os dias em que os professores estiveram parados, desde o início do ano. Os protestos prendem-se com a contagem do tempo de serviço congelado. Sindicatos e professores ainda não se entenderam quanto ao número que deve ser contado.

O braço-de-ferro com o Governo vai em longos meses e os professores já pararam 50 dias só nestes primeiros dez meses do ano, se contabilizarmos a greve de quatro dias que começou esta semana.
As reivindicações são sempre as mesmas

…os professores, revelou o Ministério da Educação (ME), têm 23 sindicatos, sendo que 359 têm dispensa de serviço para se dedicarem à atividade sindical, 167 a tempo integral (0,1% da classe).