Encostados às boxes?

profs.jpgQuem acompanha, há longos anos, o que se diz e se escreve a respeito dos professores, não pode deixar de reparar numa nuance significativa na forma como é encarado o absentismo docente. Já houve tempos em que foi moda criticar os professores porque, alegadamente, faltavam muito. E tinham muitas férias. Hoje em dia, no entanto, vai-se percebendo que não é por irresponsabilidade ou capricho que tantos professores se ausentam, às vezes por períodos prolongados, das suas actividades lectivas. Mesmo os mais distraídos dão conta de que o excesso de tarefas atribuídas, as condições por vezes penosas e stressantes em que se trabalha e o peso da idade e das doenças são causas directas do elevado absentismo que afecta hoje a profissão.

Ao longo dos últimos anos as escolas queixam-se de sobrecarga burocrática e de um aumento generalizado da indisciplina que torna mais violenta e exigente a missão de ensinar. Há um paradoxo difícil de explicar à volta da figura do professor. Todos temos memórias de aulas marcantes, daquelas capazes de perdurarem no tempo e de nos ajudarem a decidir caminhos a trilhar. E no entanto são muitas as ideias feitas que rodeiam a profissão de uma carga negativa. Quem nunca ouviu, por exemplo, dizer que os professores têm mais férias do que a generalidade dos profissionais?

Um bom professor, no entanto, trabalha muito para lá do horário. As tarefas não se esgotam no tempo letivo, porque em casa há aulas a preparar, leituras a fazer, testes para corrigir. Um professor motivado faz toda a diferença no percurso dos alunos, tanta que pode influenciar decisivamente o seu futuro. Este é um dos exemplos crassos de atividades em que o fator humano se sobrepõe a qualquer outro.

Os professores “encostados às boxes” de que nos fala a edição de hoje do JN precisam de apoio, compreensão e respeito. Algo que sentem que lhes tem faltado, sobretudo da parte da tutela, que deveria dar o exemplo na dignificação e valorização dos profissionais da educação. E isso passa por melhorar as condições em que se trabalha nas escolas, combatendo a indisciplina e o excesso de burocracia, reduzindo o tamanho das turmas, simplificando, em vez de complicar, os programas e a organização curricular.

Para além das doenças que afectam um corpo docente que vai envelhecendo, há entre a classe um insidioso mal-estar que tarda em ser debelado e que vai acentuando o desgaste físico e mental dos professores.

Esperemos que o reconhecimento público do problema possa ser o primeiro passo para o começar a resolver.

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Mais de seis mil professores de baixa

doenca-mental.JPGMais de seis mil professores estavam em casa durante o mês de março com baixas superiores a dois meses a aguardar por uma chamada às juntas médicas. As associações de diretores de escolas e Federação Nacional de Professores (Fenprof) notam que o problema tem vindo a aumentar nos últimos anos devido ao envelhecimento da classe docente e ao desgaste da profissão.

Segundo avança o “Jornal de Notícias”, a ADSE, que passou a tutelar as juntas médicas, recebeu a 19 de março, “um stock em atraso superior a seis mil” juntas da Direção-Geral de Estabelecimentos Escolares. Estima-se a avaliação destes casos esteja concluída até maio. No entanto, a seção do Porto só deverá ter o processo terminado no final de junho, uma vez que tem um número “significativamente maior” de juntas para realizar.

O número peca pela falta de rigor, o que é provavelmente sinal de que interessou a alguém plantar esta notícia, não se dando sequer ao trabalho de informar quantos são exactamente os docentes em situação de baixa prolongada, aguardando a ida à junta médica. De qualquer forma, o número apontado representa um valor elevado: cerca de 5% dos docentes em funções no ensino público enfrentam problemas graves de saúde que os impedem de exercer a profissão.

O envelhecimento da classe, numa altura em que perto de metade dos professores atingiu ou ultrapassou já os cinquenta anos de idade e em que é residual o número de docentes com menos de trinta anos ao serviço, costuma ser a principal causa apontada para o elevado absentismo.

Mas o estado de esgotamento físico e mental em que muitos docentes se encontram será certamente a causa directa de um elevado número destas baixas. Consequência das condições difíceis e desgastantes em que a profissão é exercida em muitas escolas, da instabilidade ao nível das colocações que ainda afecta muitos docentes, da falta de reconhecimento do seu trabalho e da ausência de medidas concretas para combater a burocracia escolar, a indisciplina e outros problemas que alimentam o chamado mal-estar docente.

Teria por isso todo o interesse que a ADSE, agora que assumiu a responsabilidade pelas juntas médicas aos professores, não se limitasse a atirar números genéricos para o ar mas, indo mais longe, e em resultado do seu trabalho, nos pudesse oportunamente elucidar sobre as causas mais comuns do absentismo por doença entre os professores. Pois seria importante perceber-se quantos, destes mais de seis mil professores de baixa, estão a ser afectados por doenças que se declararam ou agravaram em consequência directa do exercício da profissão.

Seria transparência a mais ou é apenas, e tão só, a verdade a que temos direito?…

A flexibilidade curricular está a dar asneira…

flex-failFinalmente, entre o punhado de jornalistas que acompanha com regularidade os temas educativos, alguém decidiu ir saber o que se passa com a experiência da flexibilidade curricular, fora do ambiente controlado dos encontros e das visitas às escolas promovidas pelo ME. A notícia de Ana Petronilho no Sol até já tem uma semana, mas os afazeres de final de período têm destas coisas: o tempo não estica, o trabalho não espera e há sempre qualquer coisa que vai ficando por ler…

A verdade é que, quando retiramos da frente do microfone os comissários políticos, os burocratas ministeriais ou os directores escolares e damos a palavra, quer aos professores que tentam aplicar no terreno o novo projecto, quer aos pais que olham com apreensão a mão cheia de nada em que esta pseudo-reforma está a converter a educação dos seus filhos, percebemos uma realidade completamente distinta da que nos tem andado a ser vendida.

Alguns excertos, em discurso directo, dão para ver a dimensão da desorientação e do disparate…

“Quando falamos uns com os outros, ninguém está muito satisfeito”, contou ao i um pai que não se quis identificar. “A exigência em termos de avaliação e em termos de ensino das matérias está a diminuir drasticamente. Simultaneamente, as notas estão a ser inflacionadas”, alerta o mesmo pai.

“A flexibilidade está a retirar tempo aos professores para darem a matéria nas aulas em benefício de atividades que não têm interesse nenhum, mas os programas continuam a ser os mesmos”, sublinha um professor que prefere não ser identificado. “A pressão é exercida sobre os professores para simultaneamente inflacionarem as notas e diminuírem a exigência, mas têm de cumprir o programa na mesma”, acrescenta.

[Paulo] Guinote contou ao i o caso de um aluno que frequentava o Agrupamento de Escolas da Boa Água, no concelho de Sesimbra, onde são aplicadas medidas da flexibilidade, e pediu transferência para uma outra escola que não está no projeto-piloto. Quando o aluno chegou à nova escola, “foi impossível perceber a matéria que tinha dado a duas ou três disciplinas porque, basicamente, não tinha dado nada”, resume Guinote.

“Os novos projetos implicam mais trabalho burocrático para os professores. O Ministério da Educação quer avaliar tudo e quer ter dados de tudo, e os professores já têm uma enorme carga de trabalho burocrático nas escolas”, alerta ao i o diretor de uma escola.

O desconchavo entre a maravilha que é, no plano teórico, a flexibilidade dos currículos e a desastrosa aplicação no terreno de uma receita que, era óbvio desde o início, tem tudo para correr mal, não é, ainda assim, o mais surpreendente.

O que causa maior perplexidade e preocupação são, do meu ponto de vista, duas coisas. Uma, é o tempo que se levou a perceber que a implantação de um projecto destes nunca seria viável em tão pouco tempo e sem um reforço substancial de recursos disponíveis, sob pena de se degradar irremediavelmente a qualidade do ensino. O outro é o clima de medo instalado nestas escolas que, sob a tutela ministerial e férrea liderança local, aderiram à experiência pedagógica.

Bem pode o secretário de Estado reafirmar que os professores e as escolas têm toda a liberdade, que só faz quem quer, que não há nenhum modelo imposto e cada um pode experimentar à sua maneira: a verdade é que quando nem professores nem pais de alunos envolvidos aceitam falar do projecto sem ser na condição de anonimato, percebe-se bem a forma como ele está a ser imposto aos alunos e professores.

Pressionar os professores, amedrontá-los, tentar desmoralizá-los perante a opinião pública: há um padrão consistente na forma como o PS insiste em tratar os professores e que se continua a evidenciar. O governo maioritário e os equilíbrios da “geringonça” apenas suavizam, mas não alteram, o desprezo, quiçá o ódio, que alguns sectores do “PS profundo” ainda alimentam contra os professores.

O que esperam ganhar, para eles e para o país, com este sentimento quase irracional, é que não se consegue compreender.

Especialistas em educação

O meme tem dado a volta ao mundo, e a meu ver já merecia uma adaptação à triste realidade da Educação portuguesa.

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Colaborações: ComRegras

No Topo: O inquérito nacional aos professores

É sabido que a classe docente está desgastada, descrente e envelhecida, sofrendo as consequências de uma política de desinvestimento público no sector da Educação que os anos da austeridade acentuaram. Uma parte significativa dos professores portugueses não estão bem de saúde – suspeita-se de números alarmantes ao nível de baixas médicas – e a falta de melhores perspectivas para a profissão só tenderá a agravar os problemas actuais…

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No Fundo: O agravamento das desigualdades na educação

Há uma realidade indesmentível que diversos estudos e estatísticas que vão sendo publicados continuam a sublinhar: a organização do nosso sistema educativo está a contribuir para o aumento das desigualdades…

O maior inquérito de sempre… aos professores

É o resultado de uma parceria entre a Fenprof e uma equipa de investigadores universitários liderada por Raquel Varela. Deverá abranger cerca de 40 mil dos 140 mil docentes actualmente no activo em Portugal e pretende avaliar o desgaste profissional que sentem hoje os professores portugueses.

Ambiciona ser o maior e mais completo estudo desta matéria feito até hoje no nosso país, e embora não se preveja que traga grandes revelações em relação ao que estamos cansados de saber, é sempre importante caracterizar, com dados objectivos, os problemas que todos sabemos existir numa classe envelhecida, exausta devido ao excesso de trabalho e às condições muitas vezes penosas em que é realizado e desmoralizada com a falta de reconhecimento e de valorização pessoal e profissional.

Entre as várias ideias que surgiram na apresentação da iniciativa, há um número que me ficou na cabeça e que dá que pensar: 12 mil professores actualmente de baixa por razões de saúde. São quase a décima parte dos professores portugueses. Mas quantos mais haverá que, não estando bem física ou psicologicamente, continuam a leccionar? Até que ponto o adiamento da indispensável renovação da classe docente não estará já a comprometer a formação das novas gerações de professores e alunos e a criar graves problemas para o futuro? Perguntas a que o inquérito agora anunciado, e cujos resultados deverão ser apresentados no final do ano lectivo, deverá ajudar a responder…

O inquérito, da responsabilidade de uma equipa de cinco investigadores, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (FCSH/UNL), do Instituto Superior Técnico, e de duas universidades brasileiras, foi ontem apresentado publicamente.

Raquel Varela, da FCSH/UNL, que coordena a equipa, disse à Lusa que o estudo deverá ser o mais abrangente alguma vez feito em Portugal neste setor e é constituído por 100 perguntas.

O estudo, realizado em parceria com a Federação Nacional dos Professores (Fenprof), versa questões como as relações dos professores com os alunos, com os colegas ou com as chefias, passando pelas ligações entre a vida privada e profissional, disse a responsável.

“Pretende-se perceber o estado de desgaste dos profissionais”, disse Raquel Varela, acrescentando que a classe dos professores está envelhecida e com uma taxa de adoecimento elevada, traduzida em 12 mil professores de baixa.

Novas oportunidades

É professor mas está farto de dar aulas?

Acredita na inovação pedagógica e gostaria de inovar na sua prática docente, mas sente-se cansado, e quer que sejam outros a fazê-lo?

Prefere criticar os colegas a ter de submeter o seu próprio trabalho à avaliação e à crítica de terceiros?

Quer fazer novos contactos e conhecimentos nas esferas do poder, e construir para si próprio uma carreira em que, com um pouco de sorte, não voltará a ter de dar aulas?

É director em fim de mandato, não pode ou não quer continuar na função, mas não pretende voltar para a sala de aula nem para a condição subalterna de professor?

Se respondeu afirmativamente a uma ou várias destas perguntas, a Direcção-Geral da Educação talvez tenha a solução para si.

Pretendem recrutar docentes para evangelizarem as escolas portuguesas na doutrina do sucesso educativo a todo o custo e a qualquer preço, e o caro colega pode fazer parte da vasta e dinâmica equipa que irá ser constituída.

dge.JPGOu, dito no eduquês ministerial, “a DGE pretende solicitar a mobilidade de docentes de carreira com nomeação definitiva, para o exercício de funções técnico-pedagógicas de apoio a escolas na implementação de medidas e programas de flexibilização curricular, inovação pedagógica, promoção da inclusão e do sucesso escolar”.

Se acha que esta pode ser a sua oportunidade, clique na imagem para ampliar, conferir o perfil e aceder a mais informações.

Envie a sua candidatura até ao dia 14 de maio, para dge@dge.mec.pt.

 Boa sorte!