Colaborações: ComRegras

topo-e-fundo_ComRegrasNo Topo: Final de período

Julgo que nunca como agora o primeiro período foi sentido como uma verdadeira maratona de resistência por um número cada vez maior de professores. Cansados e desgastados, muitos docentes sentem-se desmotivados e desmoralizados justamente por quem teria a obrigação de os motivar e de criar condições para poderem fazer bem o seu trabalho: as direcções escolares e,acima de tudo, o Ministério da Educação…

No Fundo: O 54, o 55 e os outros

Se chegar incólume ao final do período lectivo não foi fácil, há uma provação final que falta ainda superar: as reuniões de avaliação. Não pelo acto de avaliar os alunos, algo que é intrínseco e natural na profissão de professor, mas pela quantidade de burocracia que se vai acumulando em torno de processo avaliativo. Este ano, com a entrada em vigor de nova legislação, tudo se está a complicar ainda mais…

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“Os professores são vítimas de uma organização que os adoece”

raq-varelaNa sequência da divulgação do estudo sobre as condições de vida e trabalho dos professores, de que já aqui se falou, o Público entrevistou a coordenadora do estudo, Raquel Varela.

Ficam algumas das respostas da investigadora, retratando uma realidade na qual, suponho, a generalidade dos professores se revê sem dificuldade. Mas que nem sempre é fácil de transmitir para a opinião pública. Os títulos e os sublinhados são da minha responsabilidade.

Em vez de pedir aos professores que façam cada vez mais, é preciso melhorar a organização e as condições de trabalho.

Os professores são vítimas de uma organização de trabalho que os adoece. Só quando entendermos isso, podemos criar políticas que modifiquem a situação. Não vale a pena ir ter com os professores e dizer-lhe para eles fazerem mais nestas condições, porque só os vamos adoecer mais e ter uma escola pior. Enquanto eles não estiveram bem, não vamos ter boa escola.

Responsabilizar os professores pela indisciplina, em vez de a reconhecer como um problema dos alunos e da escola, fragiliza os docentes. E não resolve o verdadeiro problema.

Os professores que estão mais preocupados com a indisciplina são também os que estão mais exaustos emocionalmente. Nós não sabemos como evoluiu a indisciplina no país nos últimos 40 anos, o que sabemos é que a forma de lidar com a indisciplina mudou dentro das escolas. Os casos de indisciplina eram vistos como um problema da escola e da sociedade não como um problema do professor, que individualmente não soube lidar com aquele aluno individualmente dentro da sala de aula. Isso é um factor de exaustão emocional porque responsabiliza individualmente um professor por situações que na esmagadora maioria das vezes não estão na sua competência nem têm origem em si.

O desejo generalizado de ir para a reforma demonstra que os professores estão exaustos e, ao contrário do que era comum, não se conseguem hoje realizar profissionalmente.

Há uma relação entre a exaustão emocional e o desejo de reforma, mas os níveis de desejo de reforma antecipada são generalizados. Estamos a falar de quase 90% dos professores, o que é algo muito preocupante. Generalizou-se na sociedade portuguesa a ideia de que o sonho das pessoas quando estão a trabalhar é deixarem de trabalhar. Mas isto não era assim há 20 anos. As pessoas entravam em depressão quando deixavam de trabalhar. Gostavam do trabalho porque era um lugar onde podiam desenvolver-se, onde se realizavam.

Hoje em dia, com os níveis de sofrimento no trabalho, temos o contrário. O desejo das pessoas é deixar de trabalhar. E isto tem também que ver com a alteração da organização da escola. O fim da gestão democrática (as pessoas sentem só que executam ordens), a falta de reconhecimento público da profissão. E para o que é que se educa? A educação passou a ser para o mercado e não para formar seres humanos completos.

Os professores trabalham demais

profsHá uma sobrecarga de trabalho que está a afetar a atividade docente. O tempo não letivo legalmente previsto é considerado insuficiente por 97% dos professores. E é um tempo importante que se destina a preparar aulas e exercícios, elaborar e corrigir testes. Um estudo sobre o tempo despendido e os recursos utilizados pelos professores na preparação das atividades de ensino, realizado pelo Observatório dos Recursos Educativos (ORE), coordenado pelo professor catedrático Adalberto Dias de Carvalho da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, revela que 63% dos professores precisam de mais de cinco horas semanais para os trabalhos que saltam fora da componente letiva e não são considerados preparação de atividades escolares.

“Considerar, implícita ou explicitamente, que o trabalho dos professores se circunscreve ao tempo na sala de aula constitui um erro grave de avaliação. Na verdade, conforme se constata, há várias outras tarefas fundamentais, antes e depois das aulas, que consomem tempo, inclusive para lá dos muros da escola”, lê-se no estudo que demonstra que a correção de testes e a preparação das aulas são as tarefas que requerem mais tempo extra letivo aos professores, depois da elaboração de testes, coordenação e participação em projetos da escola e formação contínua.

“Se não se souber o número de horas e a qualidade do tempo de que um docente precisa para preparar as lições, podemos criar uma carga horária esmagadora e deprimente. E nunca obter uma docência de excelência. Para preparar as aulas os professores têm de ter uma vida própria – e já não têm”, escreveu um dia o ensaísta e professor universitário José Gil. Estas suas frases são lembradas nesta pesquisa.

Este estudo, baseado num inquérito respondido por 4590 docentes do 1.º ao 12.º ano de escolaridade, do Ensino Básico e Secundário, evidencia, por outro lado, a importância e o impacto positivo do manual escolar no apoio à docência. A abordagem que os livros escolares proporcionam ao programa curricular é valorizada pelos professores, já que permite “otimizar o pouco tempo de que dispõem para o planeamento e preparação dos momentos letivos”. Noventa e sete por cento dos professores utilizam-no com muita frequência nas aulas, mais de 54% fazem-no “sempre”, cerca de 30% “quase sempre” e quase 13 “regularmente”. Mais 92% recorrem sistematicamente aos manuais na elaboração das suas planificações.

Não é difícil perceber do que se queixam 97% dos professores interrogados para este estudo: se somarmos as horas da componente lectiva e não lectiva de estabelecimento, se considerarmos ainda o trabalho não lectivo geralmente não previsto nos horários, como o despendido em reuniões ou acções de formação, então sobra muito pouco tempo para uma parte crucial do trabalho docente: a preparação de aulas, testes e materiais pedagógicos e a correcção dos trabalhos dos alunos sujeitos a avaliação.

Na prática, a maior parte dos professores vive num eterno dilema: ou retira  à sua vida pessoal e familiar o tempo de que necessita para a preparação das actividades lectivas, acabando a dedicar à profissão muito mais do que as 35 horas semanais legalmente previstas, ou adequa o seu trabalho profissional ao pouco tempo disponível. Claro que esta última opção nem sequer é considerada por muitos professores, por ser obviamente prejudicial aos alunos; acabam assim a prejudicar-se a eles próprios, com reflexos evidentes na degradação da qualidade de vida e da saúde física e mental de muitos deles.

Neste contexto, há uma estratégia relativamente eficaz de auto-defesa e um recurso que se torna omnipresente: o manual. Sem tempo para conceber os seus próprios materiais, os professores usam e por vezes abusam do manual escolar e dos materiais pedagógicos que lhe vêm associados, incluindo fichas e testes de avaliação.

Bem podem os teóricos da Educação continuar a mudar e a reinterpretar os programas e os currículos: enquanto não libertarem os professores da burocracia escolar, limitarem o número de turmas e níveis a atribuir a cada docente e reduzirem o tamanho das turmas, a maior parte das aulas continuarão, provavelmente, a ser planeadas e leccionadas pelo manual. Uma opção que tem as vantagens já assinaladas, mas também um lado menos positivo: produz um ensino excessivamente padronizado em torno de estratégias e actividades que nem sempre serão as mais adequadas e eficazes para o trabalho conjunto daquele professor e daqueles alunos em concreto.

Este apego aos manuais e aos recursos fornecidos pelas editoras poderá também vir a ter um efeito inesperado na concretização do projecto de autonomia e flexibilidade curricular que o ME tenta impor em todas as escolas. Agora que entrámos no reinado, espero que breve, das flexibilidades e dos DACs, também vemos os professores, saturados do experimentalismo pedagógico permanente, numa atenta expectativa: quando é que as editoras nos mandam a planificação da nossa disciplina já devidamente flexibilizada? E que tal um DAC prontinho a usar por escolas de todo o país?…

Encostados às boxes?

profs.jpgQuem acompanha, há longos anos, o que se diz e se escreve a respeito dos professores, não pode deixar de reparar numa nuance significativa na forma como é encarado o absentismo docente. Já houve tempos em que foi moda criticar os professores porque, alegadamente, faltavam muito. E tinham muitas férias. Hoje em dia, no entanto, vai-se percebendo que não é por irresponsabilidade ou capricho que tantos professores se ausentam, às vezes por períodos prolongados, das suas actividades lectivas. Mesmo os mais distraídos dão conta de que o excesso de tarefas atribuídas, as condições por vezes penosas e stressantes em que se trabalha e o peso da idade e das doenças são causas directas do elevado absentismo que afecta hoje a profissão.

Ao longo dos últimos anos as escolas queixam-se de sobrecarga burocrática e de um aumento generalizado da indisciplina que torna mais violenta e exigente a missão de ensinar. Há um paradoxo difícil de explicar à volta da figura do professor. Todos temos memórias de aulas marcantes, daquelas capazes de perdurarem no tempo e de nos ajudarem a decidir caminhos a trilhar. E no entanto são muitas as ideias feitas que rodeiam a profissão de uma carga negativa. Quem nunca ouviu, por exemplo, dizer que os professores têm mais férias do que a generalidade dos profissionais?

Um bom professor, no entanto, trabalha muito para lá do horário. As tarefas não se esgotam no tempo letivo, porque em casa há aulas a preparar, leituras a fazer, testes para corrigir. Um professor motivado faz toda a diferença no percurso dos alunos, tanta que pode influenciar decisivamente o seu futuro. Este é um dos exemplos crassos de atividades em que o fator humano se sobrepõe a qualquer outro.

Os professores “encostados às boxes” de que nos fala a edição de hoje do JN precisam de apoio, compreensão e respeito. Algo que sentem que lhes tem faltado, sobretudo da parte da tutela, que deveria dar o exemplo na dignificação e valorização dos profissionais da educação. E isso passa por melhorar as condições em que se trabalha nas escolas, combatendo a indisciplina e o excesso de burocracia, reduzindo o tamanho das turmas, simplificando, em vez de complicar, os programas e a organização curricular.

Para além das doenças que afectam um corpo docente que vai envelhecendo, há entre a classe um insidioso mal-estar que tarda em ser debelado e que vai acentuando o desgaste físico e mental dos professores.

Esperemos que o reconhecimento público do problema possa ser o primeiro passo para o começar a resolver.

Mais de seis mil professores de baixa

doenca-mental.JPGMais de seis mil professores estavam em casa durante o mês de março com baixas superiores a dois meses a aguardar por uma chamada às juntas médicas. As associações de diretores de escolas e Federação Nacional de Professores (Fenprof) notam que o problema tem vindo a aumentar nos últimos anos devido ao envelhecimento da classe docente e ao desgaste da profissão.

Segundo avança o “Jornal de Notícias”, a ADSE, que passou a tutelar as juntas médicas, recebeu a 19 de março, “um stock em atraso superior a seis mil” juntas da Direção-Geral de Estabelecimentos Escolares. Estima-se a avaliação destes casos esteja concluída até maio. No entanto, a seção do Porto só deverá ter o processo terminado no final de junho, uma vez que tem um número “significativamente maior” de juntas para realizar.

O número peca pela falta de rigor, o que é provavelmente sinal de que interessou a alguém plantar esta notícia, não se dando sequer ao trabalho de informar quantos são exactamente os docentes em situação de baixa prolongada, aguardando a ida à junta médica. De qualquer forma, o número apontado representa um valor elevado: cerca de 5% dos docentes em funções no ensino público enfrentam problemas graves de saúde que os impedem de exercer a profissão.

O envelhecimento da classe, numa altura em que perto de metade dos professores atingiu ou ultrapassou já os cinquenta anos de idade e em que é residual o número de docentes com menos de trinta anos ao serviço, costuma ser a principal causa apontada para o elevado absentismo.

Mas o estado de esgotamento físico e mental em que muitos docentes se encontram será certamente a causa directa de um elevado número destas baixas. Consequência das condições difíceis e desgastantes em que a profissão é exercida em muitas escolas, da instabilidade ao nível das colocações que ainda afecta muitos docentes, da falta de reconhecimento do seu trabalho e da ausência de medidas concretas para combater a burocracia escolar, a indisciplina e outros problemas que alimentam o chamado mal-estar docente.

Teria por isso todo o interesse que a ADSE, agora que assumiu a responsabilidade pelas juntas médicas aos professores, não se limitasse a atirar números genéricos para o ar mas, indo mais longe, e em resultado do seu trabalho, nos pudesse oportunamente elucidar sobre as causas mais comuns do absentismo por doença entre os professores. Pois seria importante perceber-se quantos, destes mais de seis mil professores de baixa, estão a ser afectados por doenças que se declararam ou agravaram em consequência directa do exercício da profissão.

Seria transparência a mais ou é apenas, e tão só, a verdade a que temos direito?…

A flexibilidade curricular está a dar asneira…

flex-failFinalmente, entre o punhado de jornalistas que acompanha com regularidade os temas educativos, alguém decidiu ir saber o que se passa com a experiência da flexibilidade curricular, fora do ambiente controlado dos encontros e das visitas às escolas promovidas pelo ME. A notícia de Ana Petronilho no Sol até já tem uma semana, mas os afazeres de final de período têm destas coisas: o tempo não estica, o trabalho não espera e há sempre qualquer coisa que vai ficando por ler…

A verdade é que, quando retiramos da frente do microfone os comissários políticos, os burocratas ministeriais ou os directores escolares e damos a palavra, quer aos professores que tentam aplicar no terreno o novo projecto, quer aos pais que olham com apreensão a mão cheia de nada em que esta pseudo-reforma está a converter a educação dos seus filhos, percebemos uma realidade completamente distinta da que nos tem andado a ser vendida.

Alguns excertos, em discurso directo, dão para ver a dimensão da desorientação e do disparate…

“Quando falamos uns com os outros, ninguém está muito satisfeito”, contou ao i um pai que não se quis identificar. “A exigência em termos de avaliação e em termos de ensino das matérias está a diminuir drasticamente. Simultaneamente, as notas estão a ser inflacionadas”, alerta o mesmo pai.

“A flexibilidade está a retirar tempo aos professores para darem a matéria nas aulas em benefício de atividades que não têm interesse nenhum, mas os programas continuam a ser os mesmos”, sublinha um professor que prefere não ser identificado. “A pressão é exercida sobre os professores para simultaneamente inflacionarem as notas e diminuírem a exigência, mas têm de cumprir o programa na mesma”, acrescenta.

[Paulo] Guinote contou ao i o caso de um aluno que frequentava o Agrupamento de Escolas da Boa Água, no concelho de Sesimbra, onde são aplicadas medidas da flexibilidade, e pediu transferência para uma outra escola que não está no projeto-piloto. Quando o aluno chegou à nova escola, “foi impossível perceber a matéria que tinha dado a duas ou três disciplinas porque, basicamente, não tinha dado nada”, resume Guinote.

“Os novos projetos implicam mais trabalho burocrático para os professores. O Ministério da Educação quer avaliar tudo e quer ter dados de tudo, e os professores já têm uma enorme carga de trabalho burocrático nas escolas”, alerta ao i o diretor de uma escola.

O desconchavo entre a maravilha que é, no plano teórico, a flexibilidade dos currículos e a desastrosa aplicação no terreno de uma receita que, era óbvio desde o início, tem tudo para correr mal, não é, ainda assim, o mais surpreendente.

O que causa maior perplexidade e preocupação são, do meu ponto de vista, duas coisas. Uma, é o tempo que se levou a perceber que a implantação de um projecto destes nunca seria viável em tão pouco tempo e sem um reforço substancial de recursos disponíveis, sob pena de se degradar irremediavelmente a qualidade do ensino. O outro é o clima de medo instalado nestas escolas que, sob a tutela ministerial e férrea liderança local, aderiram à experiência pedagógica.

Bem pode o secretário de Estado reafirmar que os professores e as escolas têm toda a liberdade, que só faz quem quer, que não há nenhum modelo imposto e cada um pode experimentar à sua maneira: a verdade é que quando nem professores nem pais de alunos envolvidos aceitam falar do projecto sem ser na condição de anonimato, percebe-se bem a forma como ele está a ser imposto aos alunos e professores.

Pressionar os professores, amedrontá-los, tentar desmoralizá-los perante a opinião pública: há um padrão consistente na forma como o PS insiste em tratar os professores e que se continua a evidenciar. O governo maioritário e os equilíbrios da “geringonça” apenas suavizam, mas não alteram, o desprezo, quiçá o ódio, que alguns sectores do “PS profundo” ainda alimentam contra os professores.

O que esperam ganhar, para eles e para o país, com este sentimento quase irracional, é que não se consegue compreender.

Especialistas em educação

O meme tem dado a volta ao mundo, e a meu ver já merecia uma adaptação à triste realidade da Educação portuguesa.

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