Rescaldo eleitoral

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Dois bonecos inspirados do Henrique Monteiro

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A “Geringonça” vista do lado de Espanha

Uma geringonça alemã?

O anúncio de Martin Schulz como candidato a chefe do governo alemão continua a dinamizar o SPD nas sondagens. O partido social democrata reúne agora 28% das intenções de voto, mais 8 pontos que na sondagem anterior e a apenas 6 pontos da CDU/CSU de Angela Merkel.

Angela Merkel será certamente uma adversária difícil de bater, mesmo pelo prestigiado Martin Schulz, ex-presidente do Parlamento Europeu, o “alemão bom” que lidera agora o partido social-democrata alemão.

Mas o facto de o SPD estar a subir nas sondagens, retirando intenções de voto tanto à CDU de Merkel como ao partido neo-nazi AfD, alimenta as esperanças de que possa, em conjunto com outros partidos de esquerda – o Linke e os Verdes -, alcançar a maioria absoluta no parlamento federal, o Bundestag.

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Irá o mais rico e populoso país da União Europeia construir também a sua geringonça?

A Vaca Voadora

logo5.pngJá existia a Geringonça, mas agora temos também a Vaca Voadora: um blogue colectivo assumidamente criado em defesa das políticas do actual governo e da coligação de esquerda que o suporta.

Depois de anos de claro domínio da direita na blogosfera portuguesa, agrada-me ver, à esquerda, idêntica conjugação de esforços em apoio de uma solução política que, estando longe da perfeição, é ainda assim a melhor possível na actual conjuntura nacional e internacional.

Para visitar a Vaca Voadora é só clicar na vaquinha…

A vaca voadora é a metáfora que melhor exprime e sintetiza a solução política encontrada para a constituição do XXI governo constitucional. Só na presença e combinação de um conjunto de condições sociais e políticas particularmente favoráveis seria possível a um herbívoro com as características deste bovino ganhar asas, levantar voo e voar.

[…]

Embora claramente apoiante da maioria parlamentar de esquerda que sustenta o XXI governo constitucional, a vaca voadora é um espaço de análise e crítica política autónoma e independente. Esta é pois uma contribuição e um lugar onde se procederá ao exame e promoverá o debate sobre a política e as políticas deste governo e dos seus parceiros parlamentares. Este exercício será orientado pelo princípio da livre expressão, da autorregulação e do contraditório. É intenção da vaca voadora voar, pairar sempre que as circunstâncias o exigirem, descer à terra quando disso for caso mas considerar o voo o seu modo natural de se deslocar.

Direita para a rua!

Terreiro-do-Paco.jpgPacheco Pereira, explica, com admirável, concisão, o desnorte da direita que queria as esquerdas na rua a contestar a governação à esquerda. E deixa o delicioso repto: se tudo está tão mal, porque não saem eles à rua em protesto, uma vez que ela está livre, em vez de tentar picar os outros?

Querer saber onde está Mário Nogueira para o picar para sair para a rua com a Fenprof. Querer humilhar o PCP e o BE “por estarem tão mansinhos” e picá-los para quebrarem com fragor a “paz social”. Queixar-se de que não há manifestações e chorar de saudades pela desocupação do espaço em frente das escadarias da Assembleia. Apelar à CGTP para que faça greves e motins como fazia “antes”. Dizer com mágoa, como Marques Mendes, “quem os viu e quem os vê”, com saudades de “quem os viu”. A lista do ridículo seria interminável. Ó homens! Eles têm uma coisa muito mais importante do que a rua — ganharam poder político. Ó homens! E, muito mais do que isso, têm poder político para ajudar melhor a “rua” do que se viessem para a rua. Aliás, é isso mesmo que, dia sim, dia não, vocês dizem. Então, em que ficamos? “Quem governa é o BE”, ou o “PS meteu-os no bolso”? Não foram “eles” que perderam poder, foram vocês. E sempre podem ocupar o vazio da rua e das manifestações, está lá à disposição. E não há causas mobilizadoras? Ou não há gente?

 

PSD afunda-se nas sondagens

Claro que as sondagens, como costumam dizer os políticos quando os resultados lhes são desfavoráveis, “valem o que valem”. Sobretudo quando não há eleições no horizonte próximo.

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Mas é difícil ignorar a última sondagem publicada, o barómetro de Julho da Aximage, no que significa de derrota em toda a linha para a estratégia política do PSD de Passos Coelho:

  • PS 8,5 pontos percentuais à frente do PSD, consolidando a posição de primeiro partido;
  • Os partidos da Geringonça têm uma maioria de cerca de 55% de apoiantes contra os 35% do PSD/CDS;
  • O CDS é relegado à condição de quinto partido;
  • António Costa, seguido por Catarina Martins, são os líderes partidários mais populares, enquanto Passos Coelho surge como o mais impopular;
  • O campeão da popularidade é Marcelo Rebelo de Sousa, com 91% dos inquiridos a considerar bom o desempenho do Presidente.

A continuarem assim, não tardará que comecem as movimentações para a substituição do líder, no interior do PSD. Que é como quem diz, estará na altura de escolherem outros rostos e de inventar mentiras novas.

Duas derrotas podem fazer uma vitória?

IMG_20160626_233811-e1466979244201.jpgNem o PP coligado com Ciudadanos, nem este último junto com o PSOE, somam uma maioria suficiente de deputados que permita chegar aos 176 da maioria absoluta no congresso. Por sua vez, Sanchez não pode, sem perder a face perante a opinião pública, apoiar o PP de Rajoy. No entanto, também ninguém quer fazer umas terceiras eleições.

Os comentadores apontam a hipótese de um governo minoritário do Partido Popular, que seja viabilizado pela abstenção do PSOE e Ciudadanos. No entanto, a oposição do Unidos Podemos e dos partidos nacionalistas, junto com eventuais votos do PSOE, (somando 181 deputados) tornaria muito difícil um governo de continuidade das políticas do PP, mesmo que apoiadas pelo Ciudadanos (169 deputados).

Daí que só exista uma potencial opção estável: uma maioria progressista apoiada nos 156 deputados do PSOE junto com o Unidos Podemos (desde que Sanchez consiga renovar o PSOE).

As eleições espanholas de ontem não resolveram o impasse político de 2015 que, impedindo a formação de novo governo, obrigou à antecipação de eleições. E sublinharam a situação atípica e aparentemente sem saída que se vive, politicamente, em Espanha:

  • O PP foi o partido mais votado, mas não merecendo confiança aos partidos de esquerda nem conseguindo, com o seu aliado natural, o Ciudadanos, de centro-direita, chegar à maioria absoluta, não parece reunir condições para formar governo;
  • O PSOE perdeu votos e deputados, no que foi claramente uma derrota política que só não se tornou mais expressiva porque conseguiu, contra todas as expectativas, manter-se como a segunda força política;
  • O Unidos Podemos foi outro dos derrotados, ao não conseguir ultrapassar o PSOE e liderar uma nova esquerda com ambições para chegar à maioria absoluta e impor assim a necessária mudança de que a Espanha necessita, esgotado que está o modelo assente na alternância entre o PP e o PSOE.

Mas a verdade é que há, ainda assim, uma clara maioria das forças progressistas no novo parlamento espanhol: com o apoio dos pequenos partidos nacionalistas do País Basco e da Catalunha, o PSOE e o UP conseguem, se forem capazes de se entender, uma maioria de esquerda capaz de gerar uma solução governativa. E, paradoxalmente, o facto de ambos os partidos terem sido castigados eleitoralmente pode até converter-se numa vantagem: serão agora menos arrogantes e mais pragmáticos nas negociações e nas cedências que, de parte a parte, terão de fazer, para que um acordo político seja possível.

Uma geringonça de perdedores pode gerar, restando apenas saber até quando, uma coligação vitoriosa e uma solução governativa viável e eficaz: o que já sabíamos da experiência portuguesa recente poderá vir a replicar-se em Espanha.