Os livros estão fora de moda?

Lúcia Vaz Pedro reflecte, a propósito do lançamento do seu novo livro, sobre a perda de hábitos de leitura entre as novas gerações. Nunca se andou tanto tempo na escola, nunca tivemos pais tão escolarizados como temos hoje, nem tão poucos filhos por família, o que em teoria deveria permitir uma disponibilidade sem precedentes para os filhos. Será que a omnipresença dos gadgets digitais explica tudo, ou estaremos, enquanto pais, educadores e sociedade em geral, a falhar clamorosamente no exemplo que damos e nas vivências que proporcionamos às gerações mais novas?…

Apesar de a oferta literária em Portugal ser vasta e de grande qualidade, os miúdos leem cada vez menos. Mas porquê? “Cada vez temos mais livros, com muita qualidade, muitos escritores, mas as crianças e os jovens têm outros veículos de informação e entretenimento mais apetecíveis”, salienta Lúcia Vaz Pedro.

Para a professora, os computadores, os telemóveis, os jogos de consola e tablets, entre outros, “são veículos de distração”, e longe de serem os melhores: “É que não estamos a falar de brincadeiras de rua ou de brincar às casinhas, que são atividades que os ajudam a socializar, a falar uns com os outros. Estas distrações atuais fazem com que os miúdos fiquem cada vez mais isolados no mundo deles, e nem sequer aprendam a comunicar”.

Mas as plataformas digitais e os ecrãs não são os únicos culpados para este distanciamento dos mais jovens com a leitura. “Os filhos imitam os pais. Quando eu era criança e adolescente, estava ansiosa por chegar a casa e ler, e muito porque esse hábito me foi incutido pelos meus pais. Ambos liam muito, e o meu pai chegava a dizer-me que livros eu devia ler primeiro, por grau de dificuldade, e fazia-me sempre perguntas detalhadas depois de eu terminar, para ter a certeza que eu tinha mesmo lido”, recorda a professora.

E os benefícios da leitura vão muito além do entretenimento. “São muitas as vantagens”, salienta a educadora. “Conseguimos ter mais reconhecimento do mundo, de outras culturas. É possível desenvolver a expressão oral, escrita, a compreensão, para além de enriquecermos o nosso vocabulário. Mesmo a nível profissional, os livros são uma forma de desenvolver conhecimentos em áreas especificas, desenvolver competências linguísticas.”

Lúcia Vaz Pedro acredita que o facto de os adultos também lerem cada vez menos faz com que, por consequência, as crianças também não o façam: “É verdade que os tempos são outros, que hoje em dia há muita corrida, que os pais não têm tempo e que chegam a casa sempre aflitos para dar banhos, fazer o jantar, etc.. Mas mesmo quando têm esse tempo, preferem outras coisas que não os livros e claro que os miúdos vão fazer o mesmo”.

Para além de tentarem incutir este hábito nos filhos, a professora também acha que os pais têm de ter mais tempo para as crianças. “As famílias têm de falar, conversar, fazer refeições sem uma televisão ou telemóveis. Perdeu-se o hábito de conversar”, lamenta.

A entrevista integral pode ser lida aqui.

Livro, modo de usar

E nunca fica sem bateria…

Boas leituras!

A professora que não gosta de ler

prof-isaA professora de português que deu a primeira aula da telescola deu uma entrevista ao Expresso este fim de semana onde diz que nunca gostou de ler, cito, e está a fazer um esforço para ler um livro no Verão. Como professora e mãe também senti vergonha alheia. Na realidade há muito que acho que a maioria das crianças quando entra na escola sofre um processo acelerado de perda da curiosidade, vitalidade, interesse e educação que levavam da infância. O burnout docente contagiou as crianças, o desinteresse pega-se, contagia. O mesmo retrocesso se dá com os professores, entram na escola muitos a pensar que vão ser educadores, entram rapidamente em burnout quando percebem que vão ser operadores de uma linha de montagem – crianças – para um mercado de trabalho desqualificado.

A confissão da professora Isa, uma das mais conhecidas e mediáticas docentes que o #EstudoEmCasa trouxe aos lares portugueses, incomoda muitos dos que se interessam pelo mundo da Educação. Afinal de contas, espera-se que a escola, além de ensinar a ler e a escrever, seja capaz de despertar também o gosto pela leitura e a boa literatura. Mas como se pode transmitir algo que não se tem?…

Claro que existem aqui várias condicionantes. O apelo da leitura concorre com uma miríade de outras actividades capazes de se tornar, no imediato, mais sedutoras e prazerosas. Os professores do primeiro ciclo são generalistas, é natural que alguns não gostem muito de ler, assim como outros se sentirão menos entusiasmados, por exemplo, com as matemáticas, não deixando uns e outros de exercer bem a profissão. E sendo o ofício de ensinar, por diversas razões, cada vez menos atractivo, é natural que os candidatos aos cursos de formação de professores surjam menos motivados e revelem um perfil cada vez mais distante da imagem idealizada do professor.

De facto, há um aspecto do problema que Raquel Varela explica muito bem e que passa pela proletarização da classe docente e pela desqualificação do seu labor profissional. O professor deveria ser visto como um profissional autónomo e criativo, um trabalhador intelectual especializado que constrói e aplica criticamente o seu próprio saber. Mas quantos docentes portugueses se conseguem ver hoje, a si mesmos, dessa forma?

A professora de português que não gosta de ler não é um caso, mas um problema disseminado na educação – a proletarização dos docentes, transformados em mediadores de entrega de conteúdos pré feitos, desprovidos e expropriados do seu ser-pensar-intelectual. No nosso estudo sobre o trabalho docente era visível a desintelectualização da profissão e a falta de consciência desse processo. Quando nós dissemos aos docentes que eles eram intelectuais expropriados uma larga parte ficava impressionado, “então eu devia ser um intelectual”? pensavam com estranheza. Insistimos que para não haver burnout eles tinham que se assumir como sapateiros e não como vendedores de sapatos. Como produtores de conteúdos e não entregadores de conteúdos. E tinham que lutar por isso, não havia e não há outra forma de driblar a depressão, perda de qualidade e sentido do trabalho que não seja lutar contra estas condições de trabalho, por mais ioga e auto ajuda que façam. 

Reflectindo sobre o mesmo tema, Bárbara Wong nota que o problema se evidencia logo nas ESEs e universidades onde se formam professores: o desinteresse, a falta de entusiasmo, o derrotismo estarão, segundo a jornalista do Público, generalizados entre os futuros professores, o que afectará a forma como irão desenvolver o seu trabalho. Este é um problema tanto dos estudantes como das instituições que os formam, fechadas nas suas torres de marfim e alheias à realidade actual das escolas e dos seus próprios alunos. Pela sua transversalidade e amplitude, não é difícil concordar que é, em boa verdade, um problema de toda a sociedade.

Não é fácil encontrar culpados. Temos faculdades vetustas e que se julgam imunes aos preconceitos que existem em relação às ciências sociais e humanas, não os combatendo, convencidas que estão num Olimpo inatingível — há que lembrá-las que os deuses morreram. Temos escolas básicas e secundárias que trucidam professores, afogando-os em trabalho burocrático, em vez de lhes darem espaço para criarem, para fazerem alguma coisa em benefício dos seus alunos. Temos pais que acham graça à função decorativa do livro, que vivem em casas onde o ecrã da televisão é panorâmico, tal como o do smartphone. Temos filhos que “não gostam de ler”, porque ninguém lhes pôs um livro na mão nem no coração. Temos um Plano Nacional de Leitura activo, muito activo, com imensos projectos, mas cujos resultados pouco se vêem porque, afinal, os livros são bons para ter, mas não para ler. Temos uma sociedade que reflecte isso mesmo: bom é ter, não é ser.

Dez minutos de leitura obrigatória

rapaz-a-lerLeitura “por prazer” mas com dias, horas e tempo de duração previamente definidos.

Da prateleira dourada do PLN só saem boas ideias. Em teoria. Porque, na prática, a conversa é a do costume: as escolas, mais a sua “autonomia”, que se desenrasquem.

A verdade é que, se em escolas pequenas isto até pode ser fácil de fazer e proveitoso para os alunos, em escolas maiores, com dezenas de turmas dispersas por vários blocos de aulas, poderá ser um pesadelo logístico.

Tudo se tenta fazer para contrariar a omnipresença dos ecrãs e do mundo digital, em nome das boas leituras e dos jovens leitores…

O Plano Nacional de Leitura quer que os alunos do 2.º e 3.º ciclos passem “dez minutos a ler”, uma iniciativa para incentivar a leitura por prazer com um investimento de 70 mil euros na actualização de bibliotecas escolares. “Queremos introduzir a leitura por prazer e que os alunos percebam o valor cultural da leitura”, disse à Lusa a comissária do Plano Nacional de Leitura (PNL), Teresa Calçada, sobre a iniciativa que envolve 70 escolas e que é hoje apresentada.

O “10 minutos a ler” pretende fomentar o gosto pela leitura e ajudar a combater os problemas de literacia. Para isso, o PNL disponibilizou 70 mil euros para as escolas interessadas em aderir ao projecto poderem renovar os títulos disponíveis nas suas bibliotecas, porque “nem sempre têm dinheiro para o fazer”, e oferecer uma escolha aos alunos que vá ao encontro daquilo que eles estão interessados em ler.

Ao desafio candidataram-se mais de 200 escolas e o PNL seleccionou as 70 primeiras que responderam e cumpriam alguns requisitos exigidos para receber o apoio, como disponibilizar a lista de livros que queriam comprar.

Caberá às escolas decidir de que forma aplicam o projecto. Teresa Calçada referiu, por exemplo, que podem ser dados aos alunos 10 minutos da primeira aula da manhã ou da tarde para ler, o que podem fazer individualmente ou em conjunto, e que este pode ser um ponto de partida para trabalhos em sala de aula.

Mas também podem ser dez minutos num intervalo entre aulas, dez minutos na hora de almoço no refeitório, dez minutos no ginásio, ou onde e quando as escolas entenderem, até porque um dos objectivos é dissociar a leitura das aulas de Português e retirar-lhes a carga de obrigação e trabalho escolar, associando-o a uma actividade de lazer. “O que se quer é que os alunos leiam e que compreendam o que lêem”, sublinhou Teresa Calçada, que espera que a iniciativa que agora arranca tenha continuidade.

As novas gerações não lêem livros?

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Será esta aparente inversão do estereótipo hoje dominante, que nos diz que os jovens não lêem livros, uma mera coincidência?

Ou poderemos ver aqui um sinal premonitório de que a maré começa, lentamente, a mudar?…

Compreensão escrita

Exercício de interpretação de um texto escrito, no 3º ciclo do ensino básico.

aluno-e-professor.jpg– O que achaste da leitura que fizeste?
Bem.

– Com que personagem te identificas?
– Com todas.

– Porquê?
– Porque sim.

– Que terias feito no lugar dela?
– O mesmo.

– Que pensas do final?
– Parece-me bem.

– De que parte da história gostaste mais?
– De todas.

Adaptado daqui.

Boa semana!…

O ministro e os cobradores do fraque

cobrador-fraqueO ministro da Educação foi nesta sexta-feira a Nelas, distrito de Viseu, assinalar a Semana da Leitura, e deixou o desejo de se “ler melhor e mais profundamente”, num evento onde foi “autuado” por “leitores do fraque”.

À chegada ao edifício multiusos de Nelas, o ministro da Educação foi recebido por dois homens, que vestiam de forma irrepreensível um fraque com chapéu alto. “São da oposição?”, perguntou o governante. Não eram. “Somos os leitores do fraque – cobramos leituras para quem está em dívida com os livros e a leitura”, explicaram Roger Bento e André Ferreira.

Perante a informação, Tiago Brandão Rodrigues esclareceu que tem a leitura “quase sempre em dia”, mas assegurou que tem “um crédito da infância que vocês nem imaginam”.

No entanto, antes da resposta já recebia a “factura” – dois poemas de Fernando Guimarães e de Sophia de Mello Breyner que teria de ler durante “oito dias, três vezes por dia”.

“Fui autuado duas vezes por eles, independentemente do que tenho vindo a ler nos últimos tempos. São verdadeiros cobradores do fraque, porque actuam primeiro e só depois é que perguntam”, frisou o governante.

Será que só os livros e a leitura terão dívidas a cobrar ao ministro da Educação?

Que dizer dos professores portugueses, extenuados, congelados e quotidianamente desconsiderados no seu trabalho de transmitir conhecimentos e desenvolver competências?

Com ou sem fraque, quando encontraremos formas eficazes de cobrar o muito que nos estão a dever?…

PIRLS 2016 – as reacções

pirls.JPGA descida dos resultados dos testes internacionais de literacia aplicados aos alunos do 4º ano em 2016, comparativamente com a avaliação anterior, de 2011, é indesmentível. Mas os números podem ser lidos de diversas maneiras e suscitar diferentes interpretações. Vejamos o que se tem escrito, entre ontem e hoje, sobre a matéria.

O governo, pela voz de João Costa, não perdeu tempo em culpar o seu antecessor e em particular as mudanças introduzidas por Nuno Crato no 1º ciclo:

O secretário de Estado da Educação, João Costa, considerou nesta terça-feira que a descida dos resultados dos alunos do 4.º ano de escolaridade na literacia em leitura se deve “às medidas tomadas entre 2012 e 2015” pelo então ministro Nuno Crato.

“Desde o início temos uma prática regular de trabalho com as escolas e foram muitos os directores e professores que nos reportaram preocupação com o 1.º ciclo, com os alunos a serem treinados para um momento de avaliação específica [exames] e uma baixa preocupação com os processos” de aprendizagem.

Ao que Nuno Crato respondeu prontamente:

“Uma coisa é certa para já: provas realizadas num ambiente de facilitismo, em que as avaliações não servem para nada, em que se propaga que as metas devem ser menos ambiciosas e que o ensino não deve ir tão longe não têm dado bons resultados”, afirmou Nuno Crato.

É difícil negar as evidências: uma prova aplicada a alunos que em 2016 estavam a concluir um 1º ciclo feito nos moldes definidos pela equipa de Nuno Crato, avalia antes de mais essa política, assente em metas e descritores curriculares prescritivos, com um maior foco na leitura do que na compreensão do que se lê e com exames finais a condicionar a evolução das aprendizagens. Não me parece que um novo governo, entrado em funções há apenas dois meses, tivesse influído significativamente num trabalho que vinha a ser desenvolvido, pelo governo anterior, desde 2012.

Mas noto um certo esconder da mão que atira a pedra: neste eduquês de meias-tintas de que tardamos em livrar-nos, João Costa também não se sente muito à-vontade para criticar as metas curriculares que considera terem sido prejudiciais, pois a verdade é que elas continuam, ainda hoje, em vigor. E se quase todos concordam que objectivos mecanicistas como “ler 95 palavras por minuto” contribuem pouco, quer para a compreensão do que se lê, quer para fomentar o prazer da leitura, falta a coragem política para revogar o que não serve. Será que querem conservar a “pesada herança” para continuarem a ter um bode expiatório sempre que algo corra mal?

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Alunos portugueses lêem pior

Saíram os resultados do PIRLS 2016, o teste internacional que avalia as competências de leitura dos alunos do 4º ano de escolaridade.

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Em linhas gerais:

  • Portugal regista uma descida acentuada no ranking de países, passando de 19º a 30º num grupo de 50;
  • Ainda assim, a pontuação obtida – 528 – é estatisticamente superior ao valor médio de referência da escala PIRLS – 500 – e é igual ou superior ao obtido por países como Espanha, França ou Bélgica;
  • Desapareceu a tendência, notada na generalidade dos países e também entre nós, em 2011, de o desempenho das raparigas ser significativamente superior ao dos rapazes.

Seguir-se-ão as análises, as opiniões e as reflexões sobre um assunto que ocupará a actualidade educativa nos próximos dias e ao qual, certamente, voltarei.

Para já, apenas uma nota importante para balizar o jogo de acusações e de culpas que costuma acompanhar este tipo de debates: os alunos participantes nestes testes realizados em 2016 foram as cobaias do modelo educativo implementado por Nuno Crato, com as metas de aprendizagem e os seus múltiplos descritores a formatar a prática lectiva e avaliativa e tendo os exames finais do 4º ano como corolário.

A avaliação PIRLS 2016 é, em larga medida, a avaliação da política educativa do governo PSD/CDS no que diz respeito à leitura, à compreensão e ao domínio da língua.