O exemplo de Israel

O país é um mau exemplo a vários níveis, mas há pelo menos uma coisa que podemos aprender com os israelitas: definir objectivos e agir em função deles, prevenindo e antecipando em vez de negar os problemas, reagindo demasiado tarde e precipitadamente – como por cá tem sido habitual no desastroso combate à pandemia.

Em Israel querem, tal como por cá, as escolas abertas. Mas para isso têm de diminuir os casos e os contágios, recorrendo tanto ao confinamento da população escolar como à vacinação em massa da população.

Valorizam, tal como em Portugal, os exames para conclusão do secundário e candidatura ao ensino superior. Para não comprometer a sua realização, não se limitam a confiar na sorte e a esperar que corra tudo bem: vão incluir também os jovens no plano de vacinação anticovid.

Israel alargou neste domingo a sua campanha de vacinação contra a covid-19 à faixa etária 16-18 anos, para permitir que os exames decorram com normalidade. É o país mais avançado na vacinação – mas excluiu os territórios palestinianos do plano.

Israel já administrou pelo menos uma dose a mais de 25% de sua população de nove milhões desde 19 de Dezembro, segundo os dados do Ministério da Saúde. As vacinas foram inicialmente limitadas a idosos e pessoas de alto risco, estando agora a ser inoculadas todos as que têm mais de 40 anos e os que têm entre os 16 e os 18 anos com autorização dos pais.

A inclusão destes adolescentes tem como objectivo “permitir seu regresso à escola e a realização ordenada de exames”, disse a porta-voz do Ministério da Educação. Estes exames são obrigatórios para quem quer ter o certificado do 12.º ano e para quem quer ingressar nas faculdades.

Discriminação aérea

judeus-ultraortodoxosA 10 de Outubro, Melanie Wolfson pagou uma taxa extra para escolher o seu lugar, que queria ao lado do corredor, num voo da easyjet de Telavive para Londres. Quando chegou à sua fila de assentos, um homem, judeu ultra-ortodoxo, e o seu filho já estavam sentados. O rapaz saltou de imediato do banco para a fila de trás, presumivelmente, esclarece o jornal israelita Haaretz, que conta o caso, para evitar contacto físico com a passageira. Voltou depois e foi-lhe feita a proposta que trocasse de lugar com um passageiro masculino.

À segunda vez que Melanie foi convidada a mudar de lugar para que a sua presença não incomodasse os judeus ultra-ortodoxos sentados ao seu lado, achou que era demais. E não só recusou mudar de lugar – os incomodados é que tiveram de sair – como posteriormente processou a companhia aérea pela atitude discriminatória de que foi vítima.

Uma tempestade num copo de água, dirão alguns. Afinal de contas, mudanças de lugares são comuns nos aviões, motivadas por variadas razões. O pessoal de bordo apenas quis encontrar uma solução expedita, evitando o conflito e um eventual atraso do voo. Além de que há que respeitar as diversas sensibilidades culturais e religiosas, próprias de sociedades abertas e multiculturais…

Podendo ser a mais cómoda, não é esta, a meu ver, a leitura mais correcta do que, por diversas vezes, se passou nos voos da Easyjet que servem o estado de Israel. De facto, quando a uma passageira é pedido que mude de lugar, não por uma razão logística ou para facilitar o agrupamento de uma família ou grupo de amigos, mas pelo simples facto de ser mulher, o que temos é um acto de discriminação em função do sexo.

Se um judeu fundamentalista não se consegue comportar civilizadamente em público, respeitando os direitos dos outros cidadãos e as regras vigentes na aviação comercial., então deverá pensar duas vezes antes de sair do seu buraco para entrar num avião. Seja como for, e independentemente das crenças e valores que comunguem e pratiquem, há actos discriminatórios e ilegais que não lhes devem ser permitidos. Sob pena de toda a sociedade se tornar cúmplice da selvajaria.

Ainda assim, nestes casos imperam muitas vezes, mais do que os tribunais ou as leis, os costumes e mentalidades dominantes. Ao contrário do que sucedeu há anos na El-Al israelita, os funcionários da Easyjet nunca foram encorajados pela empresa a abordarem de outra forma os problemas com os passageiros misóginos. É frequente, e acham normal, desalojar mulheres dos seus lugares para que aqueles possam viajar sem serem incomodados pela presença feminina. Talvez os 16 mil euros de indemnização que a companhia poderá ter de pagar, se for condenada, contribuam para agilizar a necessária mudança de mentalidades…