Mas o que é isto?…

Como é possível, depois de tudo o que já sabemos sobre a propagação do coronavírus e do recrudescimento actual da pandemia, assistir a iniciativas destes no interior de uma escola?

Ainda não se percebeu que a chave para impedir ou dificultar as transmissões não está nos espaços físicos que alguém resolve decretar serem mais ou menos seguros, mas nos comportamentos das pessoas?

Faz sentido restringir a entrada dos pais na escola dos filhos e ao mesmo tempo escancarar a porta a estranhos e às suas iniciativas?

Arejamento dos espaços, uso de máscara, distanciamento físico: nenhuma destas regras está a ser cumprida. Não há ali nenhum adulto responsável, nenhuma pessoa com juízo? Não se percebe que é assim que começam os surtos e que, com a capacidade de acompanhar e tratar os doentes praticamente esgotada, é fundamental prevenir os contágios?

De que servem estados de emergência e recolheres obrigatórios se, em horário de expediente, vale tudo?

A minha perplexidade e indignação levar-me-iam a colocar mais questões, mas deixam-me, ao mesmo tempo, sem mais palavras para qualificar o inqualificável.

Acrescento apenas isto: pela amostra apresentada, o valor educativo deste evento é zero. Claro que há sempre uns artistas interessados em promover uns produtos nas escolas, funcionários de serviços educativos camarários que precisam de justificar os seus lugares e até professores candidatos ao xalente que fazem questão de contribuir para a vida da escola. Mas nada disto faz sentido para aqueles miúdos colocados para ali ao monte, a ouvir os adultos a dizer coisas tão irrelevantes que só a estes conseguem interessar.

Havia mesmo necessidade?…

Irresponsabilidades

Evolução de novos casos de covid-19, 30Set-5Nov. Fonte: site da DGS

Como explicar o recrudescer da pandemia em Portugal no último mês? É certo que a tendência de aumento do número de casos positivos se vinha a manifestar desde o Verão. No entanto, o crescimento era moderado, e o facto de os contágios se fazerem sobretudo entre camadas mais jovens da população, quase todos casos assintomáticos ou com sintomas ligeiros, permitiu que não se sentisse grande pressão nos serviços de saúde.

Em Outubro, a realidade mudou. De um número de novos casos diários inferior a 1000, passou-se, um mês depois, para uma média diária que já deverá andar acima dos 4000 – e ainda deverá continuar a aumentar nas próximas semanas. A transmissão comunitária está fora de controlo, como se constata ao ver a facilidade com que o vírus se voltou a propagar pelos lares da terceira idade.

As responsabilidades maiores, escrevi-o muitas vezes, pertencem aos responsáveis políticos, que demasiadas vezes cederam à tentação de combater o vírus a poder de retórica e demagogia, em vez de reforçar os recursos humanos e os meios de prevenção e intervenção necessários à contenção da pandemia.

Mas também há muitos cidadãos que não fizeram e continuam a não fazer a sua parte, cumprindo e fazendo cumprir as regras de segurança sanitária que impedem ou minimizam os riscos de contágio. Quando esses cidadãos têm responsabilidades públicas – autarcas e outras figuras influentes a nível local – ainda pior: além dos riscos que correm e fazem os outros correr, há um péssimo exemplo que passam para a comunidade. Com resultados que podem ser desastrosos, como se vê por este caso que surgiu na imprensa local…

Há vários casos positivos de Covid-19 resultantes de um casamento que decorreu no dia 24 de outubro, com cerimónia religiosa em Sepins, Cantanhede, e a boda em Quintãs, Aveiro.

Segundo a Administração Regional de Saúde do Centro, o referido surto teve origem num casamento com mais de 200 pessoas. Até ao momento estão confirmados seis casos positivos de Covid-19, aguardando-se os resultados de cerca de 30 testes realizados. “Os contactos dos casos positivos mantêm-se em isolamento profilático”, adiantou ainda a ARS.

De acordo com o Diário de Coimbra, na referida festa de casamento estiveram pessoas oriundas de vários pontos do país e funcionários de uma IPSS do concelho de Cantanhede.

Quem esteve no evento foi o presidente da União das Freguesias de Sepins e Bolho, Luís Arromba, que testou positivo à Covid-19

O fim da macacada

Nunca lutes com um porco; primeiro porque ficas todo sujo; segundo, porque ele gosta. O sábio conselho de Bernard Shaw poderia dirigir-se a Joe Biden e ao exasperante debate contra o ainda presidente dos EUA.

Um duelo mediático que o Henricartoon interpretou muito apropriadamente…

macacos

Irracionalidades

Por cá, entre a irresponsabilidade de uns e o estado de negação em que outros se obstinam, poderemos estar a caminho de algo semelhante.

Oxalá que não…

A portaria dos cursos-fantasma

ineds.jpgO Governo acaba de aprovar dois cursos com planos próprios, no INEDS – Instituto Educativo de Souselas: Telecomunicações e Redes; Cabeleireiro e Assessoria de Imagem. O problema é que a proposta foi feita há quatro anos e meio. E, agora, nem há alunos nem sequer há escola…

A portaria 274/2019 foi publicada em Diário da República no passado dia 27 de agosto. O texto do diploma – que se estende por 31 páginas (!) – regulamenta os dois cursos e define as regras e os respetivos procedimentos da conceção e operacionalização do currículo, bem como da avaliação e certificação das aprendizagens dos alunos.

O Instituto Educativo de Souselas foi uma das várias escolas privadas construídas nos arredores de Coimbra na década de 90 do século passado, quando o Estado, depois de ter identificado as carências de estabelecimentos de ensino no concelho – algumas reais, outras fictícias – se demitiu da tarefa de construir as escolas em falta. Em vez disso, incentivou empresários privados a fazê-lo, acenando-lhes com a celebração futura de contratos de associação.

Contudo, com a revisão do dossier dos contratos de associação e a consequente supressão da maior parte deles, o Instituto de Souselas deixou de ter viabilidade financeira. Fechou discretamente as suas portas no final do último ano lectivo. O diploma de aprovação de dois novos cursos, recentemente publicada em Diário da República, ressoa assim como eco de um passado que não voltará.

Fica, no entanto, a dúvida: que voltas labirínticas terá dado o projecto dos novos cursos do INEDS, que precisou de quatro anos e meio para obter aprovação ministerial?…

Formação de professores em… exorcismo!

exorcismo.gifVade retro Satanás, é caso para dizer!…

Em Portugal, a caça aos créditos necessários à progressão na carreira docente ainda não levou a isto, mas já estivemos mais longe. Apesar do governo de esquerda, laico e republicano, as formações contínuas para professores, focadas em temas pseudo-científicos e esoterismos variados vão irrompendo por aí…

Nada que chegue, contudo, ao que presentemente sucede em Itália. O Ministério da Educação local decidiu propor a professores e sacerdotes a frequência de um curso de formação em exorcismo. Pela módica quantia de 400 euros, a desembolsar pelos interessados…

O seu objectivo é “descrever, analisar e compreender os aspectos particulares do ministério do exorcismo e a oração de libertação, aprofundando tanto os temas directamente relacionados com o exorcismo e a sua prática correcta, como em assuntos relacionados de antropologia, medicina, criminologia”, entre outros.

Reagindo a esta decisão, sectores da oposição não poupam críticas ao governo italiano, já considerado “o mais obscurantista de todos os tempos”. Mas quando o próprio ministro do Interior italiano, Matteo Salvini, se mostra publicamente preocupado pelo problema das “seitas satânicas”, percebe-se esta deriva da extrema direita contra os espíritos malignos está solidamente ancorada a nível governamental. A guerra contra os diabos e os diabretes que assombram a sociedade e a política italianas é uma luta para a qual todos são mobilizados. E, como já se percebeu, nem os professores escapam à chamada do ultra-direitista Salvini…

“Não desvalorizemos o problema das seitas satânicas, é necessário confiar nos especialistas para que nos ajudem a combatê-lo. É um fenómeno preocupante, aparentemente afastado da vida diária, mas muito mais próximo e frequente do que se pensa”.

Protecção de dados

privacidade.jpg

Música de Natal… politicamente incorrecta?

É uma cantiga de Natal heterodoxa, difícil de cantar, mas belíssima – uma das mais originais e comoventes músicas natalícias de sempre.

Fairytale of New York, uma criação da banda irlandesa The Pogues, assinalou por aqui o Dia de Natal de 2017.

Pois há dias descobri, perplexo, que a brigada do politicamente correcto resolveu implicar com a canção. Pelo meio de acusações de que a letra é ofensiva para a comunidade gay, há já quem queira censurar a cantiga. O DN conta a história…

Passaram 31 anos desde que os Pogues lançaram Fairytale of New York, uma cantiga que conta a história de dois vagabundos que interrompem a lástima dos seus dias para viver um amor de Natal.

Na Irlanda, terra de origem da banda, estalou nesta semana uma polémica, quando um locutor da rádio nacional pôs em causa o uso da expressão “faggot” na canção, alegando que era linguagem imprópria e ofensiva para a comunidade LGBT.

“Perguntei a dois colegas gays o que achavam disto”, escreveu Eoghan McDermott num tweet que entretanto já apagou. “Um achava que se devia censurar, outro disse que se devia simplesmente banir a canção. Nenhum deles gosta da música. A expressão não tem nenhuma utilidade social e deve sair.”

Nas horas seguintes, as redes sociais explodiram, com gente a apoiar a ideia de que a frase era homofóbica, e com outra a chamar ao locutor de rádio e seus seguidores a “brigada do politicamente correto”.

Tanto que o próprio vocalista Shane McGowan veio a público responder à polémica: “A palavra foi usada pela personagem, porque cabia no seu tipo de discurso”, disse num comunicado da sua editora, a Virgin Media.

“Não é suposto que ela seja uma mulher simpática ou sequer salutar. É uma mulher de uma certa geração, num certo momento da sua história em que a sorte se esgotou e ela está desesperada.”

Sem mais comentários sobre uma estupidez e falta de juízo que me deixa sem palavras, resta-me finalizar com uma interpretação da canção de que aqui se fala. Não querendo repetir o post do ano passado, escolhi uma das dezenas de covers que esta música já tem. Fugindo de algumas interpretações nitidamente sem pedalada para a tarefa exigente que é recriar o original – sobretudo a voz da malograda Kristy MacKoll – escolhi a versão de um grupo de jovens músicos irlandeses que consegue duas coisas interessantes: fugir da lamechice, preservando a força e a mensagem da cantiga original.

 

Choque com a realidade

train-in-vain.gifPor vezes nem as mais belas teorias aguentam o confronto com o mundo real.

Quando ideologias, religiões, convicções ou meras teimosias estão em nítida rota de colisão com a dura realidade…

O melhor é desviarmo-nos a tempo.

O Inverno demográfico

bebe.gifDados do Ministério da Justiça registam que há menos 2702 crianças em 2017 do que em 2016, uma diferença de, em média, menos 7,3 bebés por dia.

A quebra da natalidade que se vem registando ao longo de décadas é um fenómeno comum a todos os países desenvolvidos. Mas em Portugal os seus efeitos agravam-se, não só por termos uma das taxas de natalidade mais baixas do mundo mas também devido ao saldo migratório negativo. Ou seja, temos mais emigrantes de que imigrantes. Saem do país adultos jovens em idade reprodutiva e esse movimento não é suficientemente compensado pela vinda de estrangeiros.

Os anos de chumbo do passismo e da troika, do empobrecimento  e da austeridade, levaram a natalidade ao seu valor mínimo desde que há registos: 82.367 bebés nascidos em 2014. Em 2015 e 2016 registaram-se aumentos, mas não se tratou de um crescimento sustentável da maternidade: foi apenas a concretização de projectos que a crise obrigou a adiar.

Algumas pessoas viram essas subidas como uma inversão da tendência da quebra da natalidade, mas é uma interpretação abusiva. O que pode estar em causa não é uma inversão da tendência mas os nascimentos que não aconteceram durante a crise. Em 2015 e 2016 foi a compensação das crianças que deveriam ter nascido nesses anos, até porque as mulheres têm uma idade para ter filhos.

Na verdade, 2017 deverá registar nova descida da natalidade: os dados provisórios apontam para um valor em torno dos 85 mil nascimentos. E não há indícios de que esta tendência se possa reverter nos próximos tempos: as mulheres em idade fértil são cada vez menos, porque o seu número reflecte hoje o declínio da natalidade que já era evidente há 30 ou 40 anos atrás. E o índice de fecundidade, em torno de 1,3, diz-nos uma coisa muito simples: se decidir ter o primeiro filho é uma decisão complicada para muitos casais, abalançar-se a um segundo bebé é ainda mais difícil. E a maioria dos pais acabam por ficar apenas com um único filho.

O problema demográfico representa talvez o nosso maior fracasso, nos tempos da democracia, em planear o nosso futuro colectivo. Quando todos os países em situação semelhante à nossa procuram formas de incentivar a natalidade e desenvolver políticas de apoio às famílias, por cá o declínio da natalidade continua a ser visto, pelos nossos decisores de vistas curtas, como uma oportunidade para cortar despesa. À boleia da diminuição do número de nascimentos fecharam-se escolas e maternidades e adiou-se o desenvolvimento de uma rede de educação pré-escolar pública e de qualidade. Nos tempos do passismo, nomeavam-se comissões de sábios para estudar o problema. Com a geringonça, é o CNE que promove estudos para saber se a diminuição do número de alunos nos próximos anos permitirá continuar a poupar na contratação de novos professores.

Não procuramos perceber do que precisam as famílias para terem mais filhos. Em vez disso, congratulamo-nos com a competitividade dos nossos jovens, que não tendo crianças a cargo podem estar mais disponíveis para trabalhar fora de horas, aceitar baixos salários e empregos longe de casa. Toleramos ritmos de trabalho incompatíveis com a vida familiar e já só falta darmos medalhas, pelo 10 de Junho, àqueles empresários que recusam admitir nos quadros trabalhadoras que possam vir a engravidar.

Um país envelhecido, empobrecido e endividado, eis o que nos preparamos para deixar às novas gerações. Sempre mais atentos aos fait divers da pequena política e à gestão das sucessivas crises, poucos de nós parecem compreender, infelizmente, a dimensão e a gravidade do problema que temos pela frente.

Também no tempo de Sócrates se fechavam os olhos ao despesismo irresponsável e às megalomanias do governante embriagado pelo poder. Pois bem, os desmandos do socratismo são uma brincadeira quando comparados com a tempestade perfeita que, se nada fizermos, o Inverno demográfico acabará por nos trazer.